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segunda-feira, 6 de abril de 2020

As Bibliotecas de Castelo de Vide. A Educação Popular (1863-1899). Filomena Bruno. «As bibliotecas públicas de leitura gratuita e domiciliária, eram enquanto bibliotecas populares, destinadas a um público que, embora mal tivesse aprendido a ler e a escrever…»

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As bibliotecas populares e a leitura pública. A criação da leitura pública
«(…) A preocupação com a leitura para benefício do povo é um conceito que surge integrado nos ideais iluministas do século XVIII, difundidos através da Revolução Francesa de 1789. Surgem as primeiras bibliotecas populares e o papel do bibliotecário começa a ser valorizado, porque os livros deviam estar acessíveis a toda a população. No entanto, é na América do século XIX que este conceito tem o maior desenvolvimento. Todos, independentemente da sua condição de nascimento, deviam ser educados para se tornarem bons cidadãos.
Biblioteca pública e escola são conceitos que surgem intimamente ligados. A biblioteca pública é a escola informal para toda a vida do cidadão, numa ideia de aprendizagem contínua Em Portugal, as ideias liberais levaram à criação da primeira biblioteca pública em 1836 no Porto, a partir da incorporação dos bens das ordens religiosas, facto que se estende às capitais de distrito a partir de uma Ordem de Agosto daquele ano de 1836. Devido ao carácter dos seus acervos, estas bibliotecas portuguesas revelaram uma faceta de conhecimento erudito, pouco acessível a todas as camadas da população com problemas graves de analfabetismo, e constituíram-se mais como depósitos do património documental português, do que com o objectivo (então afirmado) de instruir o povo, permitindo-lhe um livre acesso.
O movimento de criação de bibliotecas populares para combater os problemas da info-exclusão de grandes franjas da população portuguesa começou em 1870, pelo Decreto de 2 de Agosto. Os objectivos destas bibliotecas prendiam-se com a disponibilização do acesso a conhecimentos gerais às camadas populares da população, com o apoio à sua formação profissional, ou seja, como complemento do ensino formal, e por fim, facilitar a leitura a mulheres e crianças. Tratava-se, concretamente, de um público masculino e feminino, constituído indiscriminadamente por adultos, jovens e crianças, diz-nos Magalhães (2003). As bibliotecas criadas neste âmbito foram as de Setúbal (1873), de Santarém (1880), Coimbra (1892), Guimarães (1883). Seguidamente, aproveitando a situação criada com a extinção das ordens religiosas, outros municípios de menor dimensão procuraram implementar pequenas bibliotecas municipais.
De início, as bibliotecas eram uma possibilidade das camadas populares terem acesso à cultura das classes privilegiadas. Segundo Magalhães (2003):

As bibliotecas públicas de leitura gratuita e domiciliária, eram enquanto bibliotecas populares, destinadas a um público que, embora mal tivesse aprendido a ler e a escrever, corria o risco de, por falta de meios, ler ainda menos do que aquilo que aprendera.

As bibliotecas populares tornam-se assim num factor de coesão social e de progresso económico e de iniciativa oficial.

Extinção dos conventos e criação do DLEC (Depósito das Livrarias dos Extintos Conventos)
Com a extinção das Ordens Religiosas em Portugal, em 1833, que formaram e mantiveram durante séculos as verdadeiras bibliotecas deste país, o património artístico-cultural português sofrera um grande abalo. Por isso, uma portaria de 9 de Setembro de 1834 determinou a criação de bibliotecas públicas com os livros dos conventos e ordens religiosas. Barata (2003) refere:

Ainda antes do Decreto de 28 de Maio de 1834, que extinguiu todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e quaisquer casas de religiosos de todas as ordens regulares (...) adoptaram-se várias medidas legislativas tendentes a salvaguardar diversas bibliotecas conventuais, tendo elas como destinatário natural a Biblioteca Pública.

Barata explica que é a partir da Biblioteca Pública que surge a ideia de criar um depósito geral: é então que do seio da Biblioteca Pública parte a ideia do estabelecimento de um Depósito Geral… Esta Biblioteca Pública vai administrar as livrarias provenientes dos conventos extintos, mesmo durante a vigência do Depósito das Livrarias dos Extintos Conventos (DLEC)». In Filomena M. F. Sousa Bruno, Mestrado em Formação de Adultos e Desenvolvimento Local, ESE Portalegre, 2010, As Bibliotecas de Castelo de Vide e a Educação Popular (1863-1899), CM de Castelo de Vide, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-139-8.

Cortesia Colibri/JDACT

quinta-feira, 2 de abril de 2020

As Bibliotecas de Castelo de Vide. A Educação Popular (1863-1899). Filomena Bruno. «Se indagarmos quantas são as escolas, ficaremos sabendo que, em números redondos, há 3700 do sexo masculino e apenas 840 do sexo feminino»

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O papel da Escola na instrução do povo
«(…) A alfabetização e a educação cívica tornam-se num projecto tanto destinado às crianças como aos adultos: a instrução e a moral devem ser duas companheiras inseparáveis do homem. (Goodolphim). A instrução, segundo Vieira Silva, tipógrafo do jornal Ecos dos Operários (1850/51) é o melhor meio de moralizar, por outras palavras, previne o operário dos malefícios das plebes urbanas, torna-lhe agradável e fácil o trabalho e confere os princípios e a prática que lhe garantem o bem-estar físico. Confere-lhes não só a liberdade mas também a igualdade.

Instrução da Mulher em Portugal. Importância das Bibliotecas Populares na instrução feminina
António Costa defende já nos finais do século XVIII a instrução da mulher: as mães occupadas com o lidar da casa, ou fora d'ella occupadas também em trabalhar para compensarem a insufficiencia do ganho dos maridos, não têem tempo que lhes chegue. Ahi está a educação das classes populares no lar domestico. (...) Como ha de ensinar e educar os filhos a mãe que não foi educada nem ensinada? Como ha de formar homens e cidadãos aquella que foi deixada na mais completa ignorância? (Costa).
No livro de Joaquim Ferreira Gomes, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, intitulado Estudos para a História da Educação no século XIX, pode ler-se o seguinte:

A instrução da mulher, na organização do ensino público entre nós, está num imenso atraso. Os factos provam esta verdade. Se indagarmos quantas são as escolas, ficaremos sabendo que, em números redondos, há 3700 do sexo masculino e apenas 840 do sexo feminino. De 4 000 freguesias, 3650 não possuem escolas para mulheres (Gomes).

Mais adiante, Ferreira Gomes transcreve, do Relatório do Decreto de 16 de Agosto de 1870, o seguinte: com uma população de 4 200 000 habitantes no Continente e com 4 800 freguesias, tem Portugal apenas (segundo os últimos dados) 2 300 escolas oficiais e, destas, só 350 são do sexo feminino. Curiosamente, no jornal O Alto Alentejo, de 23 de Agosto de 1908, ainda se lê: não gosto que a minha filha aprenda a ler porque é a perdição das mulheres conta-nos a propósito dos pais não mandarem os filhos à escola, o cronista do jornal O Distrito, que assina João Ninguém. Segundo António Costa em Portugal educam-se incomparavelmente menos mulheres do que homens. As Bibliotecas Populares proporcionariam às mulheres a possibilidade de aumentar a sua instrução. Segundo o Ministro da Instrução, António Costa: o empréstimo pelas casas promove a leitura das mães, das esposas, das filhas, que não concorreriam à bibliotheca, já pela sua lida caseira, já pela discordância com os costumes nacionaes.
E acrescenta ainda que a leitura pelas casas não aproveita só ao leitor porque a discussão familiar que se levantasse em commum crearia no lar um espírito de instrucção que junto ao succedido em outras famílias produziria resultados geraes de vantagem incontestável. Mas como poderia a leitura, a que poucas mulheres tinham acesso nestas bibliotecas, contribuir para a sua instrução? Afinal que obras liam? Como lidavam com a leitura no seu quotidiano? Marlyn Lyons, num artigo intitulado Os novos leitores no século XIX: mulheres, crianças, operários, através dos depoimentos deixados por leitoras da época, do número registado de tiragens de revistas, jornais produzidos por mulheres ou directamente dirigidos para o público leitor feminino, delineia a figura da mulher leitora, no decorrer de todo o século XIX, na Europa. Segundo Lyons, a leitora constitui parte substancial e crescente de um novo público que não só devora romances, mas também lê revistas para mulheres, vida de santos, manuais de cozinha, conselhos sobre etiqueta, revistas semanais ilustradas. Uma leitora que passa a ser objecto de cuidado por parte de romancistas e editores, profissionais que exploram ao máximo as novas capacidades de investimento capitalista.
Neste estudo, seria importante saber se as mulheres tinham acesso a esta(s) biblioteca(s), se poderiam mesmo ser sócias e acima de tudo se essa possibilidade lhes fosse dada, quem eram elas afinal? Que tipo de obras requisitavam e com que frequência? Seria interessante fazer um paralelismo entre o universo feminino que tinha acesso a este acervo e o tipo de população feminina existente nesta época em Castelo de Vide». In Filomena M. F. Sousa Bruno, Mestrado em Formação de Adultos e Desenvolvimento Local, ESE Portalegre, 2010, As Bibliotecas de Castelo de Vide e a Educação Popular (1863-1899), CM de Castelo de Vide, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-139-8.

Cortesia Colibri/JDACT

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

As Bibliotecas de Castelo de Vide. A Educação Popular (1863-1899). Filomena Bruno. «Nas palavras de Frederico Laranjo, no discurso que profere em 1870, o povo não mudara nada e continuava ignorante, tal como sempre fora ao longo dos séculos»

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O papel da Escola na instrução do povo
«(…) Neste caso concreto, o que significava povo para a as associações estudadas? José António Serrano, um dos principais fundadores destas associações, refere-se ao povo como público-alvo da associação do Gremio de Ilustração Popular, na conferência que dá em 1871, em Castelo de Vide:

O meu programa é este, a associação de que vos falo tem por fim concorrer simultaneamente para a illustração dos que a formam e para a illustração do povo. (1871: 8)

E acrescenta:

Vós os que me ouvirdes, vós, os que acudirdes ao meu brado, estudareis e ensinareis; estudareis e para isso formar-se-há uma bibliotheca; haverá certames literários; e para isso organizar-se-hão saraus litterários, e podendo ser abrir-se-hão escolas, editar-se-hão livros. Estudareis e para isso formar-se-há uma bibliotheca (Serrano, l871).

Nas palavras de Frederico Laranjo, no discurso que profere em 1870, o povo não mudara nada e continuava ignorante, tal como sempre fora ao longo dos séculos:

o povo, sabeis o que é o povo? O português? Sciencia, literatura, governos, tudo tem mudado e tem mudado progredindo. (...) Mas o povo não mudou, o povo está; e sabeis onde e como? Encastellado na sua ignorância e agarrado aos seus prejuízos, amando o passado e evocando-o, maldizendo o presente e repellindo-o, sem fé na sciencia, sem fé nos homens (...) O século dezanove, infinda cousa coincide com a idade media (Laranjo, 1870).

A Educação Popular deve ser uma educação participativa, orientada para a realização dos direitos do povo. Não é uma educação imposta pois baseia-se no saber da comunidade e parte geralmente do diálogo entre a população. Não é Educação Informal porque visa a formação de sujeitos com conhecimento e consciência cidadã. É uma estratégia de construção da participação popular para encontrar novos caminhos na vida social. A principal característica da Educação Popular é utilizar o saber da comunidade como matéria-prima para o ensino. Visa aprender a partir do conhecimento que o sujeito possuiu. Visa ensinar a partir de temas geradores, motivações e interesses do quotidiano do formando. A educação é vista como acto de conhecimento e transformação social.
A educação popular pode ser desenvolvida em qualquer contexto, mas tem geralmente lugar em locais rurais, em instituições socioeducativas e no ensino de jovens e adultos. Nas décadas finais do século XIX, o tema da educação popular entra na ordem do dia, associado à descoberta dos elevados índices de analfabetismo da população portuguesa. A instrução do povo era vista como fonte de progresso, novamente segundo António Costa:

A instrucção popular cria um grande capital financeiro no desenvolvimento dos espíritos. Quanto mais apurados forem os conhecimentos dos operários e dos trabalhadores, mais perfeitos, e por isso mais rendosos serão os produtos industriaes e agrícolas. O salário dos operários, o lucro dos capitalistas e a prosperidade do paiz crescem na proporção em que se augmenta a cultura das intelligencias e a melhoria do trabalho individual (1870).

No jornal O Castellovidense de 19 de Janeiro de 1910, pode ler-se:

A instrucção é como o sol que ilumina e os paes analfabetos criam filhos analfabetos que não sabendo ler nem escrever não podem acompanhar o progresso das artes, das industrias, não podem desenvolver a nossa agricultura e o nosso comercio.

A instrução popular era também vista como regeneração social:

A educação do povo estreita o bom commercio da vizinhança, derrama nos centros da população o pensamento do bem, semeia os principios da ordem e da virtude, e se não consegue extinguir o mal, pugna com elle e enfraquece-o. É facto averiguado que a instrucção diminue os crimes e restringe a miséria (Costa,1870).

O ideal da formação do cidadão consciente e participativo fazia com que o analfabeto não pudesse assumir o papel de cidadão, eleitor, que a República tanto viria a apregoar». In Filomena M. F. Sousa Bruno, As Bibliotecas de Castelo de Vide e a Educação Popular (1863-1899), CM de Castelo de Vide, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-139-8.

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As Bibliotecas de Castelo de Vide. A Educação Popular (1863-1899). Filomena Bruno. «… todos os portugueses a qualquer classe a que pertençam e todo esse povo está falho de educação. Nas palavras de Pintassilgo, o Povo não surge idealizado sob o olhar de um intelectual, como é Jaime Cortesão, apesar de sinceramente empenhado na educação popular (2006)»

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O papel da Escola na instrução do povo
«(…) Em Portugal, na época, era o Estado o elemento principal da instrução primária. O regime liberal trouxera importantes princípios: o direito à instrução gratuita, o ensino obrigatório, as escolas normais, o segundo grau, os cursos nocturnos. Em trinta anos, segundo António Costa (1870), as escolas primárias haviam passado de 991 para 2313, tendo aumentado também as escolas do sexo feminino de 25 para 348, e o orçamento despendido duplicara. A reforma de 20 de Setembro de l844, concedeu às câmaras e corporações locais a livre autorização para com os seus orçamentos, fundarem escolas primárias. No entanto, esta organização local do ensino, apostando no municipalismo como auxiliar do Estado, não satisfazia as necessidades de instrução. A instrução primária recebe também auxílio da acção particular, mas se das 125 escolas sustentadas por associações e iniciativa individual, deduzirmos as 79 que possuem Lisboa, o Porto e Bragança, restam-nos apenas 46 no reino e ilhas. Em suma, as associações preocupavam-se mais com as questões da piedade do que com as questões do ensino e a instrução primária continuava dependente da acção centralizadora do Governo, não recebendo da localidade nem da iniciativa dos cidadãos o auxílio necessário. Era assim urgente nacionalizar a escola local e popularizá-la. A escola deveria contar com a ajuda do Estado, do município e da iniciativa particular. Nas palavras de António Costa:

Pretende uma associação, um indivíduo fundar uma escola, uma bibliotheca popular, uma publicação útil para as classes populares? Saiba desde logo o individuo ou a associação, que a sua idea se não há de esterilisar, que o estado o há de auxiliar no benéfico propósito.

António da Costa dizia-nos ainda:

Vimos a organisação da nossa instrucção primária, por excepção única no mundo, basear-se na centralisação do estado, figurando a localidade, e a iniciativa particular como tentativas proveitosas, mas não como elementos nacionaes da educação publica (1871).

Conceito de Povo e de Educação Popular no século XIX
Poucas palavras têm um emprego tão frequente quanto a palavra povo. Esse uso imoderado, embora natural no mundo em que vivemos, deu ao vocábulo uma significação tão genérica, que a despojou de qualquer compromisso com a realidade. Todos se consideram povo. No entanto, nem sempre assim foi. Facto é que o conceito de povo se encontrava ligado à situação económica de classes sociais. Algumas correntes identificam o povo com os trabalhadores. É verdade que em todas as fases históricas, o povo se identificou com as classes trabalhadoras. No entanto, isto não passa de uma inequívoca limitação. É importante assinalar que o conceito de povo não pode ser definido senão considerando as condições reais de tempo e de lugar. Nos finais do século XVIII, o conceito de povo compreendia a burguesia.
Para Jaime Cortesão, historiador português do século XX, (citado por Pintassilgo, 2006), o povo abarca todos os portugueses a qualquer classe a que pertençam e todo esse povo está falho de educação. Nas palavras de Pintassilgo, o Povo não surge idealizado sob o olhar de um intelectual, como é Jaime Cortesão, apesar de sinceramente empenhado na educação popular (2006). No entanto, como nos refere o mesmo autor, nas reflexões de Cortesão, encontramos um olhar sobre o Povo marcado por alguma ambivalência: não obstante a ignorância que o caracteriza, mantém algumas das virtudes da raça». In Filomena M. F. Sousa Bruno, As Bibliotecas de Castelo de Vide e a Educação Popular (1863-1899), CM de Castelo de Vide, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-139-8.

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As Bibliotecas de Castelo de Vide. A Educação Popular (1863-1899). Filomena Bruno. «Ora n’um paiz de quatro milhões de habitantes que ha treze anos não tinha senão 53 escolas para o sexo feminino, e que ainda hoje não possue senão 348…»

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O papel da Escola na instrução do povo
«(…) Ler, mas ler mal, era a missão da escola, Do dizer de António Costa (1870:22). A Instrução do Povo foi o objectivo das nações e do nacionalismo, sobretudo a partir de finais de setecentos, embora as suas raízes remontem à invenção da imprensa, que tornou possível o proselitismo protestante e católico do século XVI e seguintes. Em Portugal, uma questão que parecia pertinente era a de saber se o povo devia ler. O debate iria prolongar-se até à segunda metade do século XIX. Para uns não havia qualquer dúvida sobre a necessidade e urgência de todo o povo receber uma instrução elementar e, portanto, aprender a ler e escrever; já para outros, o filho do camponês e do pastor deviam continuar o ofício do pai. Uns defendiam a instrução popular, em todos os estratos e sem discriminação de sexo, enquanto outros insistiam numa via elitista, defendendo um ensino para a nobreza e burguesia, considerando que nas aldeias não devia haver escolas e não se referindo praticamente a um ensino no feminino.
António Costa defendia uma instrução nacional para todas as classes sociais. Num artigo escrito para o periódico A Folha, Frederico Laranjo confirma-nos essa ideologia:

A instrucção nacional de que D. António Costa nos falla é a instrução primaria, a instrucção que se pode e se deve derramar por todas as classes, a luz que é precisa para todos os espíritos, como a do sol para todos os corpos (Laranjo, 1870: 93).

As leituras das gentes do povo são ainda reveladoras de um sentido: saber ler é útil para a vida. Os livros dirigidos ao povo deviam ser escritos em português e num estilo simples e acessível. Mas livros deste género não abundavam, seja porque a conjuntura política estava conturbada, seja porque as instituições vocacionadas para a difusão das luzes pareciam alhear-se do problema que era o nosso atraso cultural, neste domínio da instrução popular. Podemos dizer que o conjunto de textos para instrução económica obedecia a um objectivo bem preciso. Para o povo, as elites intelectuais e políticas pensavam e ofereciam produtos de baixa qualidade e custo: manuais em estilo catequético e o ensino mútuo. Porque as elites continuavam o velho preconceito voltairiano: o povo era estúpido, portanto, não era dado a abstracções, nem a grandes leituras. Preconceito que, partindo da afirmação da superioridade intelectual dos homens bem instruídos, levava a procurar doutrinar o povo, mais do que a aprender com o povo, ou a olhar para os grupos populares como dotados de um saber e cultura genuínas.
A escola necessitava de constituir-se como algo novo, que desse resposta à necessidade de uma formação integral do Homem nas suas componentes física, intelectual e moral, uma vez que o Homem deve ser visto como um ente physico, intellectual e moral. Para o homem das classes populares, a Escola assume um papel muito importante. Segundo António Costa, a Educação permite a um Povo salvaguardar a sua independência: a educação nacional, como  elemento poderoso da boa administração e da preponderância do nosso direito, é uma salvaguarda da nossa independência, ainda superior ao poder das armas. Segundo este Ministro da Instrução, caberia à família a educação; no entanto defende que isto apenas seria possível em relação às classes elevadas e mesmo estas delegavam nos colégios a educação dos seus filhos. Isto porque, segundo António Costa, nas classes populares, as crianças eram um capital aos olhos do pai pescador, do pai agricultor. Então se a família não conseguia educar (porque também ela não fora educada!), caberia à escola essa importante missão. Como nos dizia Costa:

Ora n’um paiz de quatro milhões de habitantes que ha treze anos não tinha senão 53 escolas para o sexo feminino, e que ainda hoje não possue senão 348, dizer que a educação nacional pertence á família equivale a affirmar que a educação seria mentira.

Ainda segundo o autor, a escola portuguesa não tinha organizado a educação física e moral e era também por demais evidente um atraso na educação das classes populares». In Filomena M. F. Sousa Bruno, As Bibliotecas de Castelo de Vide e a Educação Popular (1863-1899), CM de Castelo de Vide, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-139-8.

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As Bibliotecas de Castelo de Vide. A Educação Popular (1863-1899). Filomena Bruno. «Verifica-se que segundo esta estimativa datada de 1878, apenas 2l% da população total com idade superior a 7 anos (partia-se do princípio que esta devia ser a idade de ingresso na escola)»

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«(…) No entanto, foram tomadas logo nos primeiros anos do regime liberal, algumas medidas:

O ensino primário passou a ser livre e um direito de cada cidadão; eram três anos de frequência obrigatória e mais um ano para os que assim o desejassem. Construíram-se muitas escolas e aumentou o ordenado dos professores; um forte apoio ao ensino técnico foi dado por Fontes Pereira Melo, com a abertura de escolas industriais, comerciais e agrícolas; em 1861, foi criado, em Lisboa, o curso Superior de Letras. Houve uma profunda reforma no ensino liceal inspirada no sistema francês. Passou a incluir o estudo das ciências e das línguas vivas. No entanto, os liceus só existiam nas principais capitais de distrito. As meninas só tinham acesso ao ensino secundário através de colégios ou de professores particulares.

A Educação nos finais do séc. XIX
Ultimamente, o campo da História da Educação, sob o paradigma da História Cultural, tem-se preocupado com novos temas e consequentemente com novos problemas. Assim, sujeitos e práticas têm-se tornado em objectos de pesquisa. Este estudo centrou a sua atenção na sociedade oitocentista, mais concretamente nas últimas quatro décadas do século XIX. O Liberalismo, corrente que marcou esta época, não permitiu uma ruptura com as estruturas educativas anteriores, principalmente porque teve dificuldade em implantar as novas ideologias. Pedagogicamente, assistimos a um período onde impera a instrução sensorialista, racionalista, naturalista e ainda defensora da educação nacional e individual. Os princípios educativos anteriormente veiculados nos planos reformistas do século XVIII passavam pelo desenvolvimento da educação estatal, tentando a todo o custo lançar as bases da educação nacional. Constantemente, são apregoados os princípios da educação universal, gratuita e obrigatória. É evidente uma preocupação em organizar a instrução pública. Acentua-se o espírito cosmopolita e universalista. No século XVIII, com a intervenção directa do Estado no Ensino, nasce a Educação Estatal e inicia-se a Nacional. A Educação passa a ser um problema da Nação, relegando para um plano secundário a Igreja e as Ordens Religiosas. Como consequência, os docentes profissionalizam-se e tornam-se funcionários públicos.
O Estado passa a ver o ensino como meio e instrumento de poder. Talvez por isso, nos censos realizados de 1878 até, 1930, são considerados alfabetizados os indivíduos que sabiam pelo menos ler, com excepção do censo de 1890. Pensa-se que o relativo aumento de escolarização ocorrida neste ano de 1890 se relacionou com a lei que determinava uma idade legal durante a qual a escolarização era obrigatória e que previa advertências e multas aos adultos que não fizessem as crianças, dependentes deles, cumpri-la. Por outras palavras, este aumento deveu-se ao facto dos pais terem medo de declarar neste censo que os seus filhos não frequentavam a escola. Mas saber ler seria ou não suficiente para se tornar cidadão no verdadeiro sentido da palavra? Seria interessante atentarmos em alguns dados retirados do 1º censo realizado no dia 1 de Janeiro de 1878, no que concerne aos níveis de alfabetização da população portuguesa nesta época.
Verifica-se que segundo esta estimativa datada de 1878, apenas 2l% da população total com idade superior a 7 anos (partia-se do princípio que esta devia ser a idade de ingresso na escola) é considerada alfabetizada. Outro dado interessante tem a ver com a diferença acentuada entre a percentagem da população masculina alfabetizada com mais de 7 anos (31%), que se revela muito superior à população feminina alfabeta com mais de 7 anos (13%), apesar da população total masculina com idade superior a 7 anos ser praticamente em número idêntico à feminina do mesmo escalão etário». In Filomena M. F. Sousa Bruno, As Bibliotecas de Castelo de Vide e a Educação Popular (1863-1899), CM de Castelo de Vide, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-139-8.

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segunda-feira, 12 de maio de 2014

As Bibliotecas de Castelo de Vide. A Educação Popular (1863-1899). Filomena Bruno. «Como paes nunca poderão formar solidamente o espírito de seus filhos, sigam sempre a árdua, mas honrosa vereda da verdade e como cidadãos nunca conhecerão os seus deveres e responsabilidades. São os governos e o povo que abrem as portas ao analfabetismo…»

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Sociedade, alfabetização e educação no século XIX. Economia e cultura
«No decorrer do século XIX, Portugal passa por sucessivas e importantes transformações que afectam as suas estruturas económicas e políticas, mas também as áreas sociais, em particular a educação. A liberdade de imprensa, o desenvolvimento tecnológico e as novas formas de sociabilidade permitiram um grande aumento do número de publicações, sobretudo publicações periódicas. Todos estes jornais e revistas eram um estímulo à produção literária. Grandes escritores estrearam-se com artigos, novelas e romances nos folhetins dos jornais diários.
Também se tornou moda a realização de conferências e a fundação de clubes culturais. Havia o culto pela arte de bem escrever e bem falar. Instaurava-se em Portugal o Movimento Romântico, onde se destacaram: Almeida Garett no teatro; Camilo Castelo Branco e Júlio Dinis no romance; Alexandre Herculano no romance histórico. Destacou-se ainda António Feliciano de Castilho, o inventor do Método Castilho de Leitura. A partir de 1860 dá-se uma reviravolta intelectual implantando-se o Realismo, corrente segundo a qual os artistas procuravam reproduzir o mundo tal como o viam, de uma maneira mais natural, sem o aspecto sentimental e poético do Romantismo. Destacaram-se: Eça de Queirós, Ramalho Ortigão e Antero de Quental na literatura; Columbano Bordalo Pinheiro, José Malhoa, Silva Porto na pintura; o mestre Soares dos Reis na escultura.
O século XIX poderia denominar-se o século de ouro da burguesia. A nobreza, até, então detentora de privilégios e hábitos de erudição, viu-se substituída pelos ricos burgueses que tentavam alcançar prestígio, comprando títulos. Outros afirmavam-se na nova sociedade, apenas pelas funções que desempenhavam: membros do Governo, diplomatas, advogados, solicitadores, farmacêuticos, médicos, funcionários públicos. No final do século XIX, a burguesia dominava a vida política e económica. Todos os aristocratas e burgueses exigiam que os seus filhos aprendessem línguas estrangeiras e mandavam-nos, muitas vezes, estudar para fora do país. A função da mulher continuava a ser de esposa e mãe. Cada vez mais, tinha a tarefa de ser a educadora na primeira infância dos filhos.
A partir de Inglaterra, um pouco por toda a Europa e mais tarde também em Portugal, começavam a surgir fábricas. Os artesãos das antigas oficinas davam lugar aos operários. Esta classe operária conhecia um período de ascensão demográfica e de concentração nas cidades. A cidade cresceu e modernizou-se. Lisboa e Porto foram as cidades que mais cresceram. Lisboa tinha novos meios de comunicação, muito mais perto do resto da Europa. Ao longo do século XIX, começou a falar-se da classe operária e das suas difíceis condições de vida. A partir de 1852, assistiu-se ao desenvolvimento das associações de socorros mútuos, que se preocupavam com as dificuldades económicas dos operários e prestavam ajuda aos familiares, em situações de doença, desemprego, invalidez ou morte. Este associativismo, além de defender os interesses dos trabalhadores, incluía uma componente cultural. O movimento operário procurava aumentar a sua influência, fazendo propaganda, através de conferências, jornais, revistas, panfletos e livros; no entanto, a classe burguesa, em, Portugal, nunca se sentiu realmente ameaçada.
O desenvolvimento industrial coincidiu também com o aparecimento das primeiras iniciativas na Educação de Adultos. Para os defensores das novas ideias, a instrução devia ser para todos os cidadãos. Isto era muito difícil de atingir num país de analfabetos (muito perto de 90% da população não sabia ler nem escrever). A mão-de-obra infantil era muito utilizada na indústria, o que prejudicava a escolarização. A taxa de analfabetismo em 1864 estimava-se em 88% e em 1910 era ainda de 75%. No jornal O Castellovidense pode ler-se: Como paes nunca poderão formar solidamente o espírito de seus filhos, sigam sempre a árdua, mas honrosa vereda da verdade e como cidadãos nunca conhecerão os seus deveres e responsabilidades. São os governos e o povo que abrem as portas ao analphabetismo em Portugal. Parece impossível que na pátria de Camões, Garrett, Herculano, Castillo e de tantos literattos, de nome insigne, haja 80 p. c. de analfabetos. (19 de Abril de 1909)» In Filomena M. F. Sousa Bruno, As Bibliotecas de Castelo de Vide e a Educação Popular (1863-1899), CM de Castelo de Vide, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-139-8.

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