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segunda-feira, 5 de março de 2018

Histórias Secretas de reis portugueses. Alexandre Borges e Hugo Rosa. «Numa certamente hábil manobra, Afonso ainda conseguiu escapar-se ao cerco, mas, quando saía a cavalo da cidade, embateu com uma perna…»

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O castigo maternal
«(…) Quando terá o cardeal chegado ninguém sabe ao certo, mas poucos terão conseguido reconhecer os traços do seu rosto. A sua estada terá sido muito breve, entrando em Coimbra num dia e saindo nessa mesma noite. Posto o encontro com o rei e a renovada recusa em libertar dona Teresa, quando todos dormiam, percorreu o cardeal as ruas, excomungando toda a terra e seus habitantes, pondo-se, de seguida, em fuga, a galope no mesmo cavalo em que chegara, protegido por quatro cavaleiros e levando ouros, pratas e animais. Cedo na alvorada, o rei foi informado do temível mistério lançado sobre o País e, dispensando qualquer auxílio da corte ou das suas tropas, lançou-se ele próprio na perseguição a esse infame cardeal. Poucas horas depois, conta-se, tê-lo-á alcançado e obrigado a parar, cerca do lugar da Vimieira, perto de Poiares. Com uma mão agarrou-lhe o colarinho e com a outra desembainhou a espada, ameaçando cortar a cabeça do clérigo. Os cavaleiros preveniram-no, então, de que, se o matasse, ninguém em Roma já duvidaria de que era mesmo herege. Mas Afonso Henriques só aceitou poupar-lhe a vida na condição de que aquele descomungasse tudo quanto havia antes excomungado e que deixasse ali todo o ouro, prata e animais que levava. O cardeal tudo aceitou de pronto, por entre os tremores do frio e do medo. E, por fim, o rei pousou a sua pesada espada e despiu-se por completo, mostrando todas as feridas e cicatrizes que lhe marcavam o corpo grande. E disse: cardeal, como eu sou herege, bem se mostra pelos sinais das minhas feridas: estas em tal peleja, e estas em tal cidade ou vila que tomei, e todas por serviço de Deus, contra os inimigos da nossa fé. E para esta tarefa levar avante vos tomo este ouro e prata, porque estou com muita falta deles, e me são necessários para mim e para os meus.
E o cardeal seguiu o seu caminho para Roma, logo depois de el-rei lhe ter voltado as costas e partido de regresso a Coimbra. Muitos anos mais tarde, senhor de um reino muito mais extenso e poderoso, já casado e pai de vários filhos, chegaria um dia trágico para Afonso Henriques. Não contava o rei com o poder e a estratégia de Fernando II, rei de Leão, nem que existisse um pacto com o governador da cidade, cercando-o em Badajoz, entre o castelo e a sua orla, os mouros e os leoneses. Numa certamente hábil manobra, Afonso ainda conseguiu escapar-se ao cerco, mas, quando saía a cavalo da cidade, embateu com uma perna no pesado cabo do ferrolho de uma das portas, mal colhido ao abrir, e caiu violentamente ao chão, ficando ferido com gravidade. A sua perna, partida no momento do choque, foi desfeita depois, quando o cavalo, de igual modo ferido, não mais resistiu e tombou por terra, pelo lado em que ambos sangravam. El-rei não conseguia sequer erguer-se e nem com ajuda dos seus foi possível transportá-lo. O herói de São Mamede e Ourique e Santiago e Lisboa, seria feito prisioneiro de Fernando, o seu genro. Dois meses passados e postos alguns acordos, o rei seria libertado, mas o povo nunca esqueceria a maldição rogada por dona Teresa. Afonso, filho, prendeste-me e deserdaste-me: a Deus peço que preso sejais vós, e porque pusestes minhas pernas em ferros (...), com ferros sejam as vossas quebradas.
De modo algum cessaria a actividade de Afonso Henriques com este acidente, mas a verdade é que a sua mobilidade física ficaria, para sempre, muitíssimo afectada e, aos 60 anos, abandonava o campo de batalha, não mais se voltando a envolver em confrontos militares, e ponderava, talvez pela primeira vez, no problema de encontrar quem lhe sucedesse e coroasse, no baptismo do Mediterrâneo, Portugal. Afonso I pereceu aos 76 anos, a 6 de Dezembro de 1185, em Coimbra, depois de um penoso calvário de invalidez, tranquilo e, como em todos os outros dias do mundo, sem qualquer receio do futuro. Jaz o seu corpo de gigante no mesmo túmulo que o de sua esposa, a rainha dona Mafalda. Entre o dia de sua nascença e o de sua morte, estendeu-se o reino do Mondego até às primeiras milhas dos Algarves. Liderou Portugal ao longo de 57 anos, 45 dos quais com o título de rei, naquele que foi o mais longo reinado da nossa História». In Alexandre Borges e Hugo Rosa, Histórias Secretas de reis portugueses, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-663-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

Histórias Secretas de reis portugueses. Alexandre Borges e Hugo Rosa. «Afonso, meu filho, prendeste-me e deserdaste-me da terra e honra que me deixou meu pai, e afastaste-me de meu marido»

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O castigo maternal
«(…) Na transição de 1127 para 1128, penetra, pela primeira vez, no território comandado por dona Teresa e Fernão Peres Trava, conquistando os importantes castelos de Neiva e Feira. As tropas maternais pedem tréguas, mas as tentativas de negociação saem goradas dos encontros de Vila Nova de Paiva.É, portanto, pouco depois que se dá a batalha de São Mamede, ganhando esse nome ao lugar em que ocorreu. Contam os relatos que aos nossos dias chegaram que não se terá a mesma arrastado pelo tempo nem feito correr demasiado sangue ou levantado, sequer, muitas dúvidas acerca daquele que seria o seu vencedor. Senhor, já, de um maior e melhor apetrechado número de tropas, derrotou com relativa facilidade Afonso Henriques o exército de dona Teresa e Fernão Trava. É posto o embate que nasce o mito. Como terá castigado o pouco piedoso príncipe os vencidos daquela batalha, ainda que se tratassem de sua mãe e respectivo esposo? Tê-los-á castigado sequer? Os historiadores não encontram provas que atestem a veracidade da tese segundo a qual Afonso bateu em dona Teresa e, depois, a deixou a ferros num cárcere em Coimbra, desconhecendo-se o destino traçado a Fernão Trava. Contudo, não sobreviveram, de igual modo, provas que sustentem o contrário; aliás, investigando não encontraremos na História qualquer relato que indicie uma resposta de Trava ou de dona Teresa, o que seria tanto mais estranho quanto ambos sabiam, perfeitamente, dos desejos expansionistas do futuro Afonso I. Teriam ficado aquietados na sua liberdade, aguardando e assistindo como meros espectadores ao progresso do aventureiro jovem, nada tornando a encetar para o demover de tais acções? Parece estranho, como estranhos parecem a coincidência que teria hora mar cada para os últimos anos de vida do rei, tal como veremos adiante, e o episódio do Bispo Negro.
Resta, assim, espaço lógico para o sentido lendário. Sabemos que dona Teresa entrou para um convento na Galiza naquele mesmo ano, onde viria a falecer passados mais dois, isto é, em 1130. Mas, antes disso, teria o filho colocado a mãe a ferros. Colérica, tê-lo-á amaldiçoado com as seguintes palavras: Afonso, meu filho, prendeste-me e deserdaste-me da terra e honra que me deixou meu pai, e afastaste-me de meu marido. A Deus peço que preso sejais vós, assim como eu me vejo agora. E porque puseste ferros em minhas pernas, que vos ajudaram a trazer e a criar com muitas dores do meu ventre a fora dele, com ferros sejam as vossas pernas quebradas, e praza a Deus que assim seja.
Afonso prosseguiu a sua missão, independentemente de estas ou outras profecias terem sido alguma vez proferidas, sem qualquer sinal de remorso ou arrependimento. Estava mais confiante do que nunca nas suas capacidades, bem como na dedicação daqueles que o seguiam, e principiava a estender os seus braços bem para lá das muralhas do castelo que ficaria poeticamente conhecido como o berço de Portugal. Não se sabe se, em alguma manhã, o rei terá despertado durante o assalto dos fantasmas daquela maldição, mas o povo temia que, um dia, anjos nefastos de Deus se abeirassem dos seus lugares, a fim de lhes soprar a profetizada excomunhão do seu senhor. É do meio desta nuvem fria e difícil de investigar que surgiria o Bispo Negro, para sobressalto dos mais supersticiosos e teste à firmeza do jovem rei. Haviam chegado a Roma as notícias do sucedido em São Mamede e em Coimbra, bem como os lamentos e maldições de dona Teresa. E, agora, a Igreja enviava um homem a quem chamavam de bispo e cuja tez negra foi estranhada no condado. Chegava debaixo de moderado segredo, com o objectivo claro de concretizar não só a excomunhão de Afonso Henriques, mas a de todo o território portucalense, caso não se aceitasse libertar dona Teresa do cárcere.
Tendo chegado a solo português, rapidamente se espalhou entre os populares a notícia da chegada do bispo e os intentos por detrás daquela deslocação. O bispo visitou o rei e apresentou-lhe as cartas do Santo Padre, mas de pronto lhe respondeu Afonso que ordem de ninguém o faria alterar o juízo sobre o que seria mais favorável ao seu reino. E assim sendo, ao cair da noite, o bispo excomungava toda a terra e preparava-se para fugir. Mal chegando tal agouro aos seus ouvidos, deslocou-se o rei à Sé, onde estavam reunidos todos os cónegos e vários outros homens de Igreja e, perguntando se ali havia algum bispo, todos se afastaram, quedando-se um, o estrangeiro de pele negra. Uma vez sozinhos naquele lugar, bradou-lhe o rei que, se ele era bispo, lhe celebrasse uma missa. Respondeu o bispo que não havia sido ordenado bispo e que não o poderia fazer, ao que Afonso reagiria de modo ainda mais autoritário, dizendo-lhe que ele próprio o ordenava bispo naquele instante, repetindo-lhe que lhe celebrasse uma missa. Tomado pelo medo, vestiu Martim Suleima os paramentos de bispo e tratou de satisfazer os desígnios de el-rei. De novo, as notícias correriam até Roma e o Papa, convicto da heresia de Afonso, enviava, agora, um cardeal com a missão de lhe ensinar a Fé». In Alexandre Borges e Hugo Rosa, Histórias Secretas de reis portugueses, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-663-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

domingo, 4 de março de 2018

Histórias Secretas de reis portugueses. Alexandre Borges e Hugo Rosa. «Explicou que tal não passava de uma perigosa mentira, que Afonso nada mais nutria por Leão e Castela de que uma imensa admiração e respeito»

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O castigo maternal
«Está protegida pelos séculos a verdadeira história do primeiro rei português. Aquele que tenha sido e aquilo que tenha feito Afonso Henriques jamais poderá ser trazido à luz do dia no esplendor da real decorrência dos factos. Dele se diz que era um gigante de quase dois metros de altura, que fez nascer um reino à força quase exclusiva da sua imensa bravura, que incendiou batalhas à frente das suas tropas, empunhando uma espada imensa que Sebastião I pediria emprestada e faria consigo desaparecer, mais de 400 anos depois, na infame jornada de Alcácer Quibir. De tudo isto, que será verdade? Que pormenores foram gerados apenas pelo imaginário colectivo de um país necessitado de heróis? Ter-se-á o jovem nobre tornado Afonso I pela dinâmica de um processo que o levou a bater em dona Teresa, a própria mãe? Será este somente um rodapé ficcional acrescido ao texto verídico pela voz popular? É talvez, hoje, impossível discernir. Resta-nos juntar os pedaços da lenda aos da História e perscrutar, senão a verdade, pelo menos um sentido que atravesse os mistérios de um tempo iniciático, envolto nas trevas comummente atribuídas às memórias medievais.
Afonso perdeu o pai bem antes de se poder aperceber do que esse acontecimento implicava para o seu próprio destino. O conde Henrique falecia contava o filho três inofensivos anos, ficando o Condado Portucalense entregue ao arbítrio da esposa, dona Teresa. O passar dos anos e o crescimento da criança a fazer-se homem revelaria uma dona Teresa não tanto em sintonia com o desejo do marido defunto de fazer o condado descer pelas terras dos sarracenos, mas antes em aproximá-lo da Galiza. Ao jovem de 11 anos deparava-se, sobretudo, um outro dado que não podia compreender: a mãe parecia ter esquecido, rapidamente, a memória do pai e, depois de outros envolvimentos, perdia-se de amores por Fernão Peres Trava, um nobre galego com o qual, se não casou, terá, pelo menos, passado a viver maritalmente em Coimbra, numa relação classificada de incestuosa pelas tábuas de valores da época, tendo em conta o anterior relacionamento de Teresa com Bermudo, outro membro do clã Trava, irmão do seu novo esposo.
Estávamos em 1121. A ira avolumava-se dentro do infante, que sentia, não se sabe se nos genes, se no resto difuso de uma recordação efectiva, o ímpeto de prolongar os anseios paternos. É neste percurso que se dirige sozinho, no dia de Pentecostes, à Catedral de Zamora, território leonês, e se arma cavaleiro, ainda adolescente, acabado de completar 16 anos, a maioridade política de então, num gesto elucidativo do seu carácter destemido e solitário, inspirado no que haviam feito outros futuros monarcas da História, à espera da ordem de ninguém para avançar quando quer que o decidissem fazer. Subiu ao altar de São Salvador e colocou sobre o seu corpo as armas militares que de lá retirou. Não o fizeram o seu pai morto, a sua mãe apartada, o arcebispo de Braga, possivelmente o inspirador de tal acto. Uma espada, um escudo, um elmo, um cinto, uma loriga.
A distância entre mãe e filho agravava-se, até que, pouco tempo mais tarde, no Verão de 1127, decidiam-se descongestionar os seus poderes e concordava-se que Afonso governasse até ao Douro, a partir de Guimarães, e dona Teresa daí ao Mondego, com sede na mesma cidade em que vivia com Ferrão Peres Trava. Mas era claro para qualquer um deles que tal não bastaria para assegurar a paz eterna entre as partes e já as classes sociais tomavam partido por uma ou outra das facções. A tensão acumulava-se e Afonso nada fazia por evitá-la. Estávamos quase em 1128 e chega aos ouvidos de Afonso VII, rei de Leão e Castela, o rumor de que o príncipe granjeava já mais poder do que aquele que alguma vez se esperaria em tão pouco tempo, escapando ao domínio da mãe e desejando fazer frente à sombra castelhana. Apercebendo-se da gravidade que constituía o conhecimento de tal afronta e do cerco que já se montava em torno do castelo de Guimarães, apressou-se o aio Egas Moniz em viajar até àquele território para falar ao rei Afonso VII, tentado dissuadi-lo de qualquer intuito de anular o constrito círculo em que ordenava Afonso Henriques. Explicou que tal não passava de uma perigosa mentira, que Afonso nada mais nutria por Leão e Castela de que uma imensa admiração e respeito e que, como prova disso mesmo, ali se deslocaria para beijar a mão ao senhor de tão grandioso poderio militar.
Contudo, de regresso ao Castelo de Guimarães e confessando a sua acção, teve Egas Moniz de se curvar, pela primeira vez, diante da fúria do infante. O orgulho do jovem Afonso jamais se poderia compadecer de semelhante cobardia e, ainda que tenha perdoado ao seu amado aio, negar-lhe-ia, liminarmente, qualquer hipótese de, alguma vez, vir a corresponder a tal promessa. Pelo contrário, tornar-se-ia ainda mais feroz e célere nos seus objectivos de expansão e preparava-se, desde logo, para o seu primeiro combate, um confronto difícil e inqualificável que, mais do que uma questão bélica e política, colocava frente a frente um filho e uma mãe». In Alexandre Borges e Hugo Rosa, Histórias Secretas de reis portugueses, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-663-2
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Cortesia de OdoLivro/JDACT

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A Brincadeira. Milan Kundera. «… vou precisar de um ambiente agradável. Obviamente, não para estar sozinho. Sim, fez Kostka baixando ligeiramente a cabeça, calculo»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Expliquei-lhe que tinha chegado havia uma hora para tratar de um assunto sem importância que me reteria ali perto de dois dias, e ele logo me manifestou a surpresa feliz por a minha primeira visita lhe ter sido dedicada. Foi-me subitamente desagradável não o ter vindo procurar com um espírito desinteressado, por ele só, e a pergunta que lhe fiz (perguntei-lhe jovialmente se voltara a casar) pareceu reflectir uma atenção sincera, quando, no fundo, provinha de um calculismo baixo. Disse-me (para minha satisfação) que continuava só. Declarei que tínhamos muito que contar um ao outro. Ele concordou e lamentou não dispor, infelizmente, de pouco mais de uma hora, visto ter ainda que voltar ao hospital e, no fim da tarde, ter de apanhar um autocarro para fora da cidade. Não mora aqui?, digo, assustado. Assegurou-me que sim, um estúdio num edifício novo, mas que é penoso viver solitário. Soube que Kostka tinha, numa outra cidade a vinte quilómetros, uma noiva professora, possuindo, também ela, um pequeno apartamento de duas assoalhadas. Vai viver com ela futuramente?, perguntei-lhe. Disse-me que dificilmente encontraria trabalho noutro sítio tão interessante como aquele que lhe arranjara e que, pelo contrário, a sua noiva teria dificuldade em arranjar um lugar aqui. Pus-me a vituperar (de bom coração) as demoras da burocracia, incapaz de facilitar as coisas de maneira a que um homem e uma mulher possam viver juntos. Sossegue, Ludvik, disse-me com uma doce indulgência, que não é assim tão insuportável. A viagem custa-me, é certo, dinheiro e tempo, mas a minha solidão permanece intacta e sou livre. Porque tem você um tal desejo de liberdade?, perguntei-lhe. E você?, disse ele. Eu ando atrás das raparigas, respondi-lhe. Não é pelas mulheres, é por mim que me faz falta a minha liberdade, disse, e acrescentou: oiça, venha um momento a minha casa antes de eu me ir embora. Eu não pedia mais que isso. Saídos do recinto do hospital, logo fomos dar a um grupo de edifícios novos que, uns a seguir aos outros, se elevavam desarmoniosamente de um solo poeirento desnivelado (sem relva, sem passeios, sem asfalto) e formavam um triste cenário nos confins dos campos, vastos e planos, estendidos a perder de vista. Atravessámos uma porta, subimos uma escada demasiado estreita (o elevador estava avariado) e detivemo-nos no terceiro andar, onde reconheci o nome de Kostka no cartão-de-visita. Quando, tendo atravessado a entrada, nos encontrámos na sala, senti-me mais que satisfeito: um grande e confortável divã ocupava um canto; além do divã, havia uma pequena mesa, uma poltrona, uma grande biblioteca, um gira-discos e um aparelho de rádio.
Elogiei a Kostka o seu quarto e perguntei-lhe como era a casa de banho. Nada de luxuoso, disse, contente do interesse que eu mostrava, e fez-me passar à entrada de onde se abria a porta para a casa de banho, pequena mas muito agradável, com banheira, duche, lavatório. Ao ver este apartamento magnífico, vem-me uma ideia, disse. Que vai fazer amanhã à tarde e à noite? Ali, desculpou-se confuso, amanhã terei um longo dia de serviço, não voltarei com certeza a casa antes das sete horas. À noite, não vai estar livre? Pode ser que tenha a noite livre, respondi, mas, mais cedo, não me pode emprestar o estúdio durante a tarde? A minha pergunta surpreendeu-o, mas, imediatamente (como se tivesse medo que eu duvidasse do seu desvelo), disse-me: com todo o gosto, é seu. E prosseguiu, como que num esforço de recusa em procurar as razões do meu pedido: se tem problemas de alojamento, pode dormir aqui a partir de hoje, pois irei directamente para o hospital. Não é preciso. Estou no hotel. O problema é que o meu quarto é bastante desconfortável e, amanhã à tarde, vou precisar de um ambiente agradável. Obviamente, não para estar sozinho. Sim, fez Kostka baixando ligeiramente a cabeça, calculo». In Milan Kundera, A Brincadeira, 1967, Publicações dom Quixote, Lisboa, 1994, ISBN 978-972-200-014-4(7), 2016, ISBN 978-972-205-917-6.

Cortesia de PdonQuixote/JDACT

A Brincadeira. Milan Kundera. «O quarto não era muito convidativo: uma cama contra a parede, no meio uma mesinha com uma única cadeira, ao lado da cama um pretensioso toucador de mogno…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Assim, depois de tantos anos, voltava de novo a casa. De pé, na praça principal (que, criança, depois rapaz, depois jovem, atravessara mil vezes), não sentia qualquer emoção; pelo contrário, pensava que aquele espaço onde a torre do sino (parecida com um antigo cavaleiro sob o seu elmo) se vê acima dos telhados, lembrava a vasta parada de um quartel, e que o passado militar daquela cidade da Morávia, outrora muralha contra as incursões dos Magiares e dos Turcos, imprimira nela a marca de uma irrevogável fealdade. Durante anos, nada me atraíra à minha cidade natal. Dizia-me que ela se me tinha tornado indiferente, e isso parecia-me natural: ao fim de quinze anos vividos fora, só me restam alguns conhecidos, ou mesmo os amigos (que prefiro, de resto, evitar); a minha mãe está enterrada num túmulo estrangeiro, que não visito. No entanto iludia-me: aquilo que eu chamava indiferença era na realidade rancor; escapavam-me as razões, pois tinham-me acontecido coisas boas ou coisas más nesta cidade como em todas as outras, em todo o caso esse rancor existia; percebera-o durante a minha viagem: a missão que aqui me trazia poderia, bem vistas as coisas, cumpri-la igualmente bem em Praga, mas tinha sido, num repente, irresistivelmente atraído pela ocasião oferecida de executá-la na minha cidade natal, precisamente por se tratar de uma missão cínica e terra-a-terra que, por ironia, me absolvia da suspeita de aqui voltar sob o efeito de um enternecimento piegas pelo tempo perdido.
Uma vez mais, percorri cinicamente com os olhos a praça desengraçada antes de lhe voltar costas e tomar a rua do hotel onde tinha um quarto alugado para essa noite. O porteiro estendeu-me uma chave pendurada numa pêra de madeira dizendo segundo andar. O quarto não era muito convidativo: uma cama contra a parede, no meio uma mesinha com uma única cadeira, ao lado da cama um pretensioso toucador de mogno com espelho, junto da porta um lavatório lascado absolutamente minúsculo. Pousei a toalha na mesa e abri a janela: a vista dava sobre um pátio e sobre casas com as traseiras nuas e sujas viradas para o hotel. Fechei a janela, corri os cortinados e aproximei-me do lavatório, que tinha duas torneiras, uma com sinal encarnado, outra azul; experimentei-as, a água correu igualmente fria em ambas. Examinei a mesa, que, em rigor, chegava, visto que nela cabiam perfeitamente uma garrafa e dois copos; infelizmente, à falta de uma segunda cadeira no quarto, só uma pessoa se poderia lá instalar. Tendo puxado a mesa para perto da cama, tentei sentar-me nesta, mas era demasiado baixa e a mesa alta de mais; mais ainda, encovava de tal maneira que logo foi evidente que não só constituía um mau assento, como desempenharia de maneira duvidosa a sua função de cama. Apoiei-me nos punhos; depois estendi-me levantando cuidadosamente os pés calçados para evitar sujar a coberta e o lençol. Com o colchão cavado sob o meu peso, encontrava-me estendido como numa rede ou numa campa estreita: não me era possível imaginar partilhar aquela cama com alguém.
Sentei-me na cadeira, o olhar perdido nas cortinas iluminadas em transparencia, e reflecti. Nesse momento, fizeram-se ouvir passos e vozes no corredor; duas pessoas, um homem e uma mulher, e cada palavra era inteligível: falavam de um certo Petr, que tinha fugido de casa, e de uma tal Mara, que era idiota e estragava o pequeno; depois ouviu-se uma chave a rodar na fechadura, uma porta que se abria e as vozes que continuavam no quarto ao lado; ouvi os suspiros da mulher (sim, até os suspiros me chegavam!) e a decisão do homem de dizer de vez duas palavras à Mara. Levantei-me, a minha resolução estava tomada; lavei ainda as mãos no lavatório, limpei-as com a toalha, e deixei o hotel sem saber ao certo para onde ia. Sabia simplesmente que, se não quisesse comprometer o bom sucesso de toda a minha viagem (viagem consideralvelmente longa e fatigante) por causa da única imperfeição do meu quarto de hotel, devia, por muito que não me apetecesse, fazer um discreto apelo a qualquer amigo local. Passei rapidamente em revista todas as caras do tempo da minha juventude, para logo as afastar, pois o carácter confidencial do favor solicitado me iria obrigar a construir uma ponte laboriosa sobre os muitos anos em que nos perdêramos de vista, e isto desagradava-me. Depois lembrei-me de que aqui vivia sem dúvida um homem a quem outrora tinha, aqui mesmo, arranjado um emprego e que ficaria, pelo que conheço dele, muito contente por me fazer por sua vez um favor.
Era um ser estranho, simultaneamente de uma moralidade rígida e curiosamente inquieto e instável, de quem, pelo que eu sabia, a mulher se tinha divorciado ao fim de vários anos pelo simples facto de ele viver indiscriminadamente em qualquer lado, desde que fosse longe da mulher e dos filhos. Assustava-me a ideia de que ele se pudesse ter voltado a casar, circunstância propícia a complicar a satisfação do meu pedido, e apressei o passo em direcção ao hospital. O hospital é um conjunto de edifícios e pavilhões semeados aqui e ali sobre um vasto espaço de jardins; entrei na pequena guarita junto ao portão e pedi ao porteiro sentado atrás de uma mesa para me pôr em contacto com a secção de virologia; ele empurrou o telefone para o canto da mesa do meu lado e disse: zero dois!  Marquei o zero dois e fiquei a saber que o doutor Kostka saíra há alguns segundos e que estaria prestes a chegar à saída. Sentei-me num banco perto da porta principal para me assegurar de que o não perderia, e olhava distraidamente os homens passeando-se em roupão de hospital, de riscas azuis e brancas, quando o vi: vinha pensativo, alto, magro, simpático na sua falta de presença, sim, era mesmo ele. Levantei-me do meu banco e fui direito a ele como se fosse empurrá-lo; deitou-me um olhar de desagrado, mas depressa me reconheceu e me abriu os braços. Senti que a sua surpresa foi de quase felicidade, e a espontaneidade do seu acolhimento deu-me prazer». In Milan Kundera, A Brincadeira, 1967, Publicações dom Quixote, Lisboa, 1994, ISBN 978-972-200-014-4(7), 2016, ISBN 978-972-205-917-6.

Cortesia de PdonQuixote/JDACT