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terça-feira, 16 de junho de 2015

O Ano da Morte de Ricardo Reis. José Saramago. «Não diz mais este jornal, outro diz doutra maneira o mesmo, Fernando Pessoa, o poeta extraordinário da Mensagem, poema de exaltação nacionalista, dos mais belos que se têm escrito, foi ontem a enterrar…»

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«Trabalhar com nobreza, esperar com sinceridade, enternecer-se com o homem, esta é a verdadeira filosofia». In Fernando Pessoa

«(…) Depois duma noite de arrebatada invernia, de temporal desfeito, palavras estas que já nasceram emparelhadas, as primeiras não tanto, e umas e outras tão pertinentes à circunstância que forram o trabalho de pensar em novas criações, bem poderia a manhã ter despontado resplandecente de sol, com muito azul no céu e joviais revoadas de pombos. Não estiveram para aí virados os meteoros, as gaivotas continuam a sobrevoar a cidade, o rio não é de fiar, os pombos mal se atrevem. Chove, suportavelmente para quem desceu à rua de gabardina e guarda-chuva, e o vento, em comparação com os excessos da madrugada, é uma carícia na face. Ricardo Reis saiu cedo do hotel, foi ao Banco Comercial cambiar algum do seu dinheiro inglês pelos escudos da pátria, pagaram-lhe por cada libra cento e dez mil réis, pena não serem elas de ouro que se trocariam quase em dobro, ainda assim não tem grandes razões de queixa este torna-viagem que sai do banco com cinco contos no bolso, é uma fortuna em Portugal. Da Rua do Comércio, onde está, ao Terreiro do Paço distam poucos metros, apeteceria escrever, É um passo, se não fosse a ambiguidade da homofonia, mas Ricardo Reis não se aventurará à travessia da praça, fica a olhar de longe, sob o resguardo das arcadas, o rio pardo e encrespado, a maré está cheia, quando as ondas se levantam ao largo parece que vêm alagar o terreiro, submergi-lo, mas é ilusão de óptica, desfazem-se contra a muralha, quebra-se-lhes a força nos degraus inclinados do cais. Lembra-se de ali se ter sentado em outros tempos, tão distantes que pode duvidar se os viveu ele mesmo, Ou alguém por mim, talvez com igual rosto e nome, mas outro. Sente frios os pés, húmidos, sente também uma sombra de infelicidade passar-lhe sobre o corpo, não sobre a alma, repito, não sobre a alma, esta impressão é exterior, seria capaz de tocar-lhe com as mãos se não estivessem ambas agarrando o cabo do guarda-chuva, escusadamente aberto. Assim se alheia do mundo um homem, assim se oferece ao desfrute de quem passa e diz, Ó senhor, olhe que aí debaixo não lhe chove, mas este riso é franco, sem maldade, e Ricardo Reis sorri de se ter distraído, sem saber porquê murmura os dois versos de João de Deus, célebres na infância das escolas, Debaixo daquela arcada passava-se a noite bem. Veio por estar tão perto e para verificar, de caminho, se a antiga memória da praça, nítida como uma gravura a buril, ou reconstruída pela imaginação para assim o parecer hoje, tinha correspondência próxima na realidade material de um quadrilátero rodeado de edifícios por três lados, com uma estátua equestre e real ao meio, o arco do triunfo, que donde está não alcança a ver, e afinal tudo é difuso, brumosa a arquitectura, as linhas apagadas, será do tempo que faz, será do tempo que é, será dos seus olhos já gastos, só os olhos da lembrança podem ser agudos como os do gavião. Aproximam-se as onze horas, há grande movimento sob as arcadas, mas dizer movimento não quer dizer rapidez, esta dignidade tem pouca pressa, os homens, todos de chapéu mole, pingando guarda-chuvas, raríssimas as mulheres, e vão entrando nas repartições, é a hora em que começam a trabalhar os funcionários públicos. Afasta-se Ricardo Reis em direcção à Rua do Crucifixo, atura a insistência de um cauteleiro que lhe quer vender um décimo para a próxima extracção da lotaria, É o mil trezentos e quarenta e nove, amanhã é que anda à roda, não foi este o número nem a roda anda amanhã, mas assim soa o canto do áugure, profeta matriculado com chapa no boné, Compre, senhor, olhe que se não compra pode-se arrepender, olhe que é palpite, e há uma fatal ameaça na imposição. Entra na Rua Garrett, sobe ao Chiado, estão quatro moços de fretes encostados ao plinto da estátua, nem ligam à pouca chuva, é a ilha dos galegos, e adiante deixou de chover mesmo, chovia, já não chove, há uma claridade branca por trás de Luís de Camões, um nimbo, e veja-se o que as palavras são, esta tanto quer dizer chuva, como nuvem, como círculo luminoso, e não sendo o vate Deus ou santo, tendo a chuva parado, foram só as nuvens que se adelgaçaram ao passar, não imaginemos milagres de Ourique ou de Fátima, nem sequer esse tão simples de mostrar-se azul o céu.
Ricardo Reis vai aos jornais, ontem tomou nota das direcções, antes de se deitar, afinal não foi dito que dormiu mal, estranhou a cama ou estranhou a terra, quando se espera o sono no silêncio de um quarto ainda alheio, ouvindo chover na rua, tomam as coisas a sua verdadeira dimensão, são todas grandes, graves, pesadas, enganadora é sim a luz do dia, faz da vida uma sombra apenas recortada, só a noite é lúcida, porém o sono a vence, talvez para nosso sossego e descanso, paz à alma dos vivos. Vai Ricardo Reis aos jornais, vai aonde sempre terá de ir quem das coisas do mundo passado quiser saber, aqui no Bairro Alto onde o mundo passou, aqui onde deixou rasto do seu pé, pegadas, ramos partidos, folhas pisadas, letras, notícias, é o que do mundo resta, o outro resto é a parte de invenção necessária para que do dito mundo possa também ficar um rosto, um olhar, um sorriso, uma agonia, Causou dolorosa impressão nos círculos intelectuais a morte inesperada de Fernando Pessoa, o poeta do Orfeu, espírito admirável que cultivava não só a poesia em moldes originais mas também a crítica inteligente, morreu anteontem em silêncio, como sempre viveu, mas como as letras em Portugal não sustentam ninguém, Fernando Pessoa empregou-se num escritório comercial, e, linhas adiante, junto do jazigo deixaram os seus amigos flores de saudade. Não diz mais este jornal, outro diz doutra maneira o mesmo, Fernando Pessoa, o poeta extraordinário da Mensagem, poema de exaltação nacionalista, dos mais belos que se têm escrito, foi ontem a enterrar, surpreendeu-o a morte num leito cristão do Hospital de S. Luís, no sábado à noite, na poesia não era só ele, Fernando Pessoa, ele era também Álvaro de Campos, e Alberto Caeiro, e Ricardo Reis, pronto, já, cá, faltava o erro, a desatenção, o escrever por ouvir dizer, quando muito bem sabemos, nós, que Ricardo Reis é sim este homem que está lendo o jornal com os seus próprios olhos abertos e vivos, médico, de quarenta e oito anos de idade, mais um que a idade de Fernando Pessoa quando lhe fecharam os olhos, esses sim, mortos, não deviam ser necessárias outras provas ou certificados de que não se trata da mesma pessoa, e se ainda aí houver quem duvide, esse vá ao Hotel Bragança e fale com o senhor Salvador, que é o gerente, pergunte se não está lá hospedado um senhor chamado Ricardo Reis, médico, que veio do Brasil, e ele dirá que sim». In José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, Lisboa, 1995, ISBN 972-21-0286-9

Cortesia de Caminho/JDACT

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O Ano da Morte de Ricardo Reis. José Saramago. «No Coliseu está ‘A Última Maravilha’ com a azougada e escultural Vanise Meireles, estrela brasileira, tem graça, no Brasil nunca dei por ela, culpa minha, aqui a três escudos a geral, Em Port-Said desembarcaram numerosos contingentes ingleses, tem cada tempo as suas cruzadas»

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«Trabalhar com nobreza, esperar com sinceridade, enternecer-se com o homem, esta é a verdadeira filosofia». In Fernando Pessoa

«(…) Quinto concurso de beleza infantil, meia página de retratos de criancinhas, nuazinhas de todo, ao léu os refegos, alimentadas a farinha lacto-búlgara, alguns destes bebés se tornarão criminosos, vadios e prostitutas por assim terem sido expostos, na tenra idade, ao olhar grosseiro do vulgo, que não respeita inocências, Prosseguem as operações na Etiópia, e do Brasil que notícias temos, sem novidade, tudo acabado, Avanço geral das tropas italianas, não há força humana capaz de travar o soldado italiano na sua heróica arrancada, que faria, que fará contra ele a lazarina abexim, a pobre lança, a mísera catana, O advogado da famosa atleta anunciou que a sua constituinte se submeteu a uma importante operação para mudar de sexo, dentro de poucos dias será um homem autêntico, como de nascimento, já agora não se esqueçam de mudar-lhe também o nome, que nome, Bocage perante o Tribunal do Santo Ofício (maldito), quadro do pintor Fernando Santos, belas artes por cá se fazem, No Coliseu está A Última Maravilha com a azougada e escultural Vanise Meireles, estrela brasileira, tem graça, no Brasil nunca dei por ela, culpa minha, aqui a três escudos a geral, fauteuil a partir de cinco, em duas sessões, matinée aos domingos, O Politeama leva As Cruzadas, assombroso filme histórico, Em Port-Said desembarcaram numerosos contingentes ingleses, tem cada tempo as suas cruzadas, estas são as de hoje, constando que seguiram para a fronteira da Líbia italiana, Lista de portugueses falecidos no Brasil na primeira quinzena de Dezembro, pelos nomes não conheço ninguém, não tenho que sentir desgosto, não preciso pôr luto, mas realmente morrem muitos portugueses por lá, Bodos aos pobres por todo o país de cá, ceia melhorada nos asilos, que bem tratados são em Portugal os macróbios, bem tratada a infância desvalida, florinhas da rua, e esta notícia, O presidente da câmara do Porto telegrafou ao ministro do Interior, em sessão de hoje a câmara municipal da minha presidência apreciando o decreto de auxílio aos pobres no inverno resolveu saudar vossa excelência por esta iniciativa de tão singular beleza, e outras, Fontes de chafurdo cheias de dejectos de gado, lavra a varíola em Lebução e Fatela, há gripe em Portalegre e febre tifóide em Valbom, morreu de bexigas uma rapariga de dezasseis anos, pastoril florinha, campestre, lírio tão cedo cortado cruelmente, Tenho uma cadela fox, não pura, que já teve duas criações, e em qualquer delas foi sempre apanhada a comer os filhos, não escapou nenhum, diga-me senhor redactor o que devo fazer, O canibalismo das cadelas, prezado leitor e consulente, é no geral devido ao mau arraçoamento durante a gestação, com insuficiência de carne, deve-se-lhe dar comida em abundância, em que a carne entre como base, mas a que não faltem o leite, o pão e os legumes, enfim, uma alimentação completa, se mesmo assim não lhe passar a balda, não tem cura, mate-a ou não a deixe cobrir, que se avenha com o cio, ou mande capá-la. Agora imaginemos nós que as mulheres mal arraçoadas durante a gravidez, e é o mais do comum, sem carne, sem leite, algum pão e couves, se punham também a comer os filhos, e, tendo imaginado e verificado que tal não acontece, torna-se afinal fácil distinguir as pessoas dos animais, este comentário não o acrescentou o redactor, nem Ricardo Reis, que está a pensar noutra coisa, que nome adequado se deveria dar a esta cadela, não lhe chamará Diana ou Lembrada, e que adiantará um nome ao crime ou aos motivos dele, se vai o nefando bicho morrer de bolo envenenado ou tiro de caçadeira por mão do seu dono, teima Ricardo Reis e enfim encontra o certo apelativo, um que vem de Ugolino della Gherardesca, canibalíssimo conde macho que manjou filhos e netos, e tem atestados disso, e abonações, na História dos Guelfos e Gibelinos, capítulo respectivo, e também na Divina Comédia, canto trigésimo terceiro do Inferno, chame-se pois Ugolina à mãe que come os seus próprios filhos, tão desnaturada que não se lhe movem as entranhas à piedade quando com as suas mesmas queixadas rasga a morna e macia pele dos indefesos, os trucida, fazendo-lhes estalar os ossos tenros, e os pobres cãezinhos, gementes, estão morrendo sem verem quem os devora, a mãe que os pariu, Ugolina não me mates que sou teu filho. A folha que tais horrores explica tranquilamente cai sobre os joelhos de Ricardo Reis, adormecido. Uma rajada súbita fez estremecer as vidraças, a chuva desaba como um dilúvio. Pelas ruas ermas de Lisboa anda a cadela Ugolina a babar-se de sangue, rosnando às portas, uivando em praças e jardins, mordendo furiosa o próprio ventre onde já está a gerar-se a próxima ninhada». In José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, Lisboa, 1995, ISBN 972-21-0286-9

Cortesia de Caminho/JDACT

O Ano da Morte de Ricardo Reis. José Saramago. «… jornais cor de cinza, baços, uma rajada fez bater a porta que dá para a rua, lá no fundo da escada, o besouro zumbiu, não é ninguém, apenas o temporal que recrudesce, desta noite não virá mais nada que se aproveite, chuva, vendaval em terra e no mar, solidão»

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«Ninguém entende ninguém. Tudo é interstício e acaso, mas está tudo certo». In Fernando Pessoa

«(…) O criado veio servi-los, sóbrio mas familiar de modos, depois afastou-se, agora a sala está silenciosa, nem as crianças levantam as vozes, estranho caso, Ricardo Reis não se lembra de as ter ouvido falar, ou são mudas, ou têm os beiços colados, presos por agrafes invisíveis, absurda lembrança, se estão comendo. A rapariga magra acabou a sopa, pousa a colher, a sua mão direita vai afagar, como um animalzinho doméstico, a mão esquerda que descansa no colo. Então Ricardo Reis, surpreendido pela sua própria descoberta, repara que desde o princípio aquela mão estivera imóvel, recorda-se de que só a mão direita desdobrara o guardanapo, e agora agarra a esquerda e vai pousá-la sobre a mesa, com muito cuidado, cristal fragilíssimo, e ali a deixa ficar, ao lado do prato, assistindo à refeição, os longos dedos estendidos, pálidos, ausentes. Ricardo Reis sente um arrepio, é ele quem o sente, ninguém por si o está sentindo, por fora e por dentro da pele se arrepia, e olha fascinado a mão paralisada e cega que não sabe aonde há-de ir se a não levarem, aqui a apanhar sol, aqui a ouvir a conversa, aqui para que te veja aquele senhor doutor que veio do Brasil, mãozinha duas vezes esquerda, por estar desse lado e ser canhota, inábil, inerte, mão morta mão morta que não irás bater àquela porta. Ricardo Reis observa que os pratos da rapariga vêm já arranjados da copa, limpo de espinhas o peixe, cortada a carne, descascada e aberta a fruta, é patente que filha e pai são hóspedes conhecidos, costumados na casa, talvez vivam mesmo no hotel. Chegou ao fim da refeição, ainda se demora um pouco, a dar tempo, que tempo e para quê, enfim levantou-se, afasta a cadeira, e o rumor do arrastamento, acaso excessivo, fez voltar-se o rosto da rapariga, de frente tem mais que os vinte anos que antes parecera, mas logo o perfil a restitui à adolescência, o pescoço alto e frágil, o queixo fino, toda a linha instável do corpo, insegura, inacabada. Ricardo Reis sai da sala de jantar, aproxima-se da porta dos monogramas, aí tem de trocar vénias com o homem gordo que também ia saindo, Vossa excelência primeiro. Ora essa, por quem é, saiu o gordo, Muito obrigado a vossa excelência, notável maneira esta de dizer, Por quem é, se tomássemos todas as palavras à letra, passaria primeiro Ricardo Reis, porque é inúmeros, segundo o seu próprio modo de entender-se.
O gerente Salvador estende já a chave do duzentos e um, faz menção de a entregar solícito, porém retrai subtilmente o gesto, talvez o hóspede queira partir à descoberta da Lisboa nocturna e dos seus prazeres secretos, depois de tantos anos no Brasil e tantos dias de travessia oceânica, ainda que a noite invernosa mais faça apetecer o sossego da sala de estar, aqui ao lado, com as suas profundas e altas poltronas de couro, o seu lustre central, precioso de pingentes, o grande espelho em que cabe toda a sala, que nele se duplica, em uma outra dimensão que não é o simples reflexo das comuns e sabidas dimensões que com ele se confrontam, largura, comprimento, altura, porque não estão lá uma por uma, identificáveis, mas sim fundidas numa dimensão única, como fantasma inapreensível de um plano simultaneamente remoto e próximo, se em tal explicação não há uma contradição que a consciência só por preguiça desdenha, aqui se está contemplando Ricardo Reis no fundo do espelho, um dos inúmeros que é, mas todos fatigados, Vou para cima, estou cansado da viagem, foram duas semanas de mau tempo, se houvesse por aí uns jornais de hoje, questão de me pôr em dia com a pátria enquanto não adormeço, Aqui os tem, senhor doutor, e neste momento apareceram a rapariga da mão paralisada e o pai, passaram para a sala de estar, ele à frente, ela atrás, distantes um passo, a chave já estava na mão de Ricardo Reis, e os jornais cor de cinza, baços, uma rajada fez bater a porta que dá para a rua, lá no fundo da escada, o besouro zumbiu, não é ninguém, apenas o temporal que recrudesce, desta noite não virá mais nada que se aproveite, chuva, vendaval em terra e no mar, solidão.
O sofá do quarto é confortável, as molas, de tantos corpos que nelas se sentaram, humanizaram-se, fazem um recôncavo suave, e a luz do candeeiro que está sobre a secretária ilumina de bom ângulo o jornal, nem parece isto um hotel, é como estar em casa, no seio da família, do lar que não tenho, se o terei, são estas as notícias da minha terra natal, e dizem, O chefe do Estado inaugurou a exposição de homenagem a Mousinho de Albuquerque na Agência Geral das Colónias, não se podem dispensar as imperiais comemorações nem esquecer as figuras imperiais, Há grandes receios na Golegã, não me lembro onde fica, ah Ribatejo, se as cheias destruírem o dique dos Vinte, nome muito curioso, donde lhe virá, veremos repetida a catástrofe de mil oitocentos e noventa e cinco, noventa e cinco, tinha eu oito anos, é natural não me lembrar, A mais alta mulher do mundo chama-se Elsa Droyon e tem dois metros e cinquenta centímetros de altura, a esta não a cobriria a cheia, e a rapariga, como se chamará, aquela mão paralisada, mole, foi doença, foi acidente». In José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, Lisboa, 1995, ISBN 972-21-0286-9

Cortesia de Caminho/JDACT

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Vaya con Dios. Ramos Rosa. Mistura. «Vitória propaganda pela sombra cabeleira compacta, firmes membros, uma respiração feliz ombro a ombro um caminhar sem solidão na noite»

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Busca la liberdad de tu rosto de hoy. In Aguirre


«Impreparado ainda
te procuro na sombra.
Venho adiante,
proa que deslizas,
maré que me renova.
Destroçado, um torso
lavado e límpido,
da própria água obscura,
eis o que à praia jogo,
na líquida impulsão,
atirado na areia,
de sede mais ardente.

E na água me envolvo,
me afundo, corpo novo,
e movimento, abraço,
e me confundo e abarco,
os nomes me atravessam,
outros nomes procuro,
iguais ao dia que desejo,
à mulher que ondula
e da salsugem surge,
mais branca, mais real».


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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O Ano da Morte de Ricardo Reis. José Saramago. «… quem estará pensando agora o que eu penso, ou penso que estou pensando no lugar que sou de pensar, quem estará sentindo o que sinto, ou sinto que estou sentindo no lugar que sou de sentir, quem se serve de mim para sentir e pensar»

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«(…) Não é assim, de enfiada, que estão escritos, cada linha leva seu verso obediente, mas desta maneira, contínuos, eles e nós, sem outra pausa que a da respiração e do canto, é que os lemos, a ã folha mais recente de todas tem a data de treze de Novembro de mil novecentos e trinta e cinco, passou mês e meio sobre tê-la escrito, ainda folha de pouco tempo, e diz. Vivem em nós inúmeros, se penso ou sinto, ignoro quem é que pensa ou sente, sou somente o lugar onde se pensa e sente, e, não acabando aqui, é como se acabasse, uma vez que para além de pensar e sentir não há mais nada. Se somente isto sou, pensa Ricardo Reis depois de ler, quem estará pensando agora o que eu penso, ou penso que estou pensando no lugar que sou de pensar, quem estará sentindo o que sinto, ou sinto que estou sentindo no lugar que sou de sentir, quem se serve de mim para sentir e pensar, e, de quantos inúmeros que em mim vivem, eu sou qual, quem, Quain, que pensamentos e sensações serão os que não partilho por só me pertencerem, quem sou eu que outros não sejam ou tenham sido ou venham a ser. Juntou os papéis, vinte anos dia sobre dia, folha após folha, guardou-os numa gaveta da pequena secretária, fechou as janelas, e pôs a correr a água quente para se lavar. Passava um pouco das sete horas.
Pontual, quando ainda ecoava a última pancada das oito no relógio de caixa alta que ornamentava o patamar da recepção, Ricardo Reis desceu à sala de jantar. O gerente Salvador sorriu, levantando o bigode sobre os dentes pouco limpos, e correu a abrir-lhe a porta dupla de painéis de vidro, monogramados com um H e um B entrelaçados de curvas e contracurvas, de apêndices e alongamentos vegetalistas, de reminiscências de acantos, palmetas, folhagens enroladas, assim dignificando as artes aplicadas o trivial ofício hoteleiro. O maître saiu-lhe ao caminho, não estavam outros hóspedes na sala, só dois criados que acabavam de pôr as mesas, ouviam-se rumores de copa atrás doutra porta monogramada, por ali entrariam daí a pouco as terrinas, os pratos cobertos, às travessas. O mobiliário é o que costuma ser, quem viu uma destas salas de jantar viu todas, excepto quando o hotel for de luxo, e não é este o caso, umas frouxas luzes no tecto e nas paredes, uns cabides, toalhas brancas nas mesas, alvíssimas, é o brio da gerência, curadas de lixívia na lavandaria, senão na lavadeira de Caneças, que não usa mais que sabão e sol, com tanta chuva, há tantos dias, há-de ter o rol atrasado. Sentou-se Ricardo Reis, o maître diz-lhe o que há para comer, a sopa, o peixe, a carne, salvo se o senhor doutor preferir a dieta, isto é, outra carne, outro peixe, outra sopa, eu aconselharia, para começar a habituar-se a esta nova alimentação, recém-chegado do trópico depois duma ausência de dezasseis anos, até isto já se sabe na sala de jantar e na cozinha. A porta que dá para a recepção foi entretanto empurrada, entrou um casal com dois filhos crianças, menino, menina, cor de cera eles, sanguíneos os pais, mas todos legítimos pelas parecenças, o chefe da família à frente, guia da tribo, a mãe tocando as crias que vão no meio. Depois apareceu um homem gordo, pesado, com uma corrente de ouro atravessada sobre o estômago, de bolsinho a bolsinho do colete, e logo a seguir outro homem, magríssimo, de gravata preta e fumo no braço, ninguém mais entrou durante este quarto de hora, ouvem-se os talheres tocando os pratos, o pai dos meninos, imperioso, bate com a faca no copo para chamar o criado, o homem magro, ofendido no luto e na educação, fita-o severamente, o gordo mastiga, plácido. Ricardo Reis contempla as olhas da canja de galinha, acabou por escolher a dieta, obedeceu. à sugestão, por indiferença, não por lhe ter encontrado particular vantagem. Um rufar nas vidraças advertiu-o de que recomeçara a chover. Estas janelas não dão para a Rua do Alecrim, que rua será, não se recorda, se alguma vez o soube, mas o criado que vem mudar o prato explica. Aqui é a Rua Nova do Carvalho, senhor doutor, e perguntou. Então, gostou da canja, pela pronúncia se vê que o criado é galego. Gostei, pela pronúncia já se tinha visto que o hóspede viveu no Brasil, boa gorjeta apanhou-a o Pimenta.
A porta abriu-se outra vez, agora entrou um homem de meia-idade, alto, formal, de rosto comprido e vincado, e uma rapariga de uns vinte anos, se os tem, magra, ainda que mais exacto seria dizer delgada, dirigem-se para a mesa fronteira à de Ricardo Reis, de súbito tornara-se evidente que a mesa estava à espera deles, como um objecto espera a mão que frequentemente o procura e serve, serão hóspedes habituais, talvez os donos do hotel, é interessante como nos esquecemos de que os hotéis têm dono, estes, sejam-no ou não, atravessaram a sala num passo tranquilo como se estivessem em sua própria casa, são coisas que se notam quando se olha com atenção. A rapariga fica de perfil, o homem está de costas, conversam em voz baixa, mas o tom dela subiu quando disse: Não, meu pai, sinto-me bem, são portanto pai e filha, conjunção pouco costumada em hotéis, nestas idades». In José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, Lisboa, 1995, ISBN 972-21-0286-9

Cortesia de Caminho/JDACT

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O Ano da Morte de Ricardo Reis. José Saramago. «Deixou a janela aberta, foi abrir a outra, e, em mangas de camisa, refrescado, com um vigor súbito, começou a abrir as malas, em menos de meia hora as despejou, passou o conteúdo delas para os móveis…»

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Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida. In Bernardo Soares

«(…) O moço estava à espera, do lado de dentro do quarto, com a porta aberta. Ricardo Reis viu-o da entrada do corredor, sabia que, em lá chegando, o homem iria avançar a mão serviçal, mas também imperativa, na proporção do peso da carga, e enquanto caminhava notou, não se apercebera antes, que só havia portas de um lado, o outro era a parede que formava a caixa da escada, pensava nisto como se se tratasse de uma importante questão que não deveria esquecer, realmente estava muito cansado. O homem recebeu a gorjeta, sentiu-a, mais do que a olhou, é o que faz o hábito, e ficou satisfeito, tanto assim que disse, senhor doutor, muito obrigado, não poderemos explicar como o sabia ele, se não vira o livro dos hóspedes, é o caso que as classes subalternas não ficam a dever nada em agudeza e perspicácia às pessoas que fizeram estudos e ficaram cultas. A Pimenta só lhe doía a asa duma omoplata por mau assentamento, nela, duma das travessas de reforço da mala, nem parece homem com tanta experiência de carregar. Ricardo Reis senta-se numa cadeira, passa os olhos em redor, é aqui que irá viver não sabe por quantos dias, talvez venha a alugar casa e instalar consultório, talvez regresse ao Brasil, por agora o hotel bastará, lugar neutro, sem compromisso, de trânsito e vida suspensa. Para além das cortinas lisas, as janelas tornaram-se de repente luminosas, são os candeeiros da rua. Tão tarde já. Este dia acabou, o que dele resta paira longe sobre o mar e vai fugindo, ainda há, tão poucas horas navegava Ricardo Reis por aquelas águas, agora o horizonte está aonde o seu braço alcança, paredes, móveis que reflectem a luz como um espelho negro, e em vez do pulsar profundo das máquinas do vapor, ouve o sussurro, o murmúrio da cidade, seiscentas mil pessoas suspirando, gritando longe, agora uns passos cautelosos no corredor, uma voz de mulher que diz, Já lá vou, deve ser criada, estas palavras, esta voz. Abriu uma das janelas, olhou para fora. A chuva parara. O ar fresco, húmido do vento que passou sobre o rio, entra pelo quarto dentro, corrige-lhe a atmosfera fechada, como de roupa por lavar em gaveta esquecida, um hotel não é uma casa, convém lembrar outra vez, vão-lhe ficando cheiros deste e daquela, uma suada insónia, uma noite de amor, um sobretudo molhado, o pó dos sapatos escovados na hora da partida, e depois vêm as criadas fazer as camas de lavado, varrer, fica também o seu próprio halo de mulheres, nada disto se pode evitar, são os sinais da nossa humanidade.
Deixou a janela aberta, foi abrir a outra, e, em mangas de camisa, refrescado, com um vigor súbito, começou a abrir as malas, em menos de meia hora as despejou, passou o conteúdo delas para os móveis, para os gavetões da cómoda, os sapatos na gaveta-sapateira, os fatos nos cabides do guarda-roupa, a mala preta de médico num fundo escuro de armário, e os livros numa prateleira, estes poucos que trouxera consigo, alguma latinação clássica de que já não fazia leitura regular, uns manuseados poetas ingleses, três ou quatro autores brasileiros, de portugueses não chegava a uma dezena, e no meio deles encontrava agora um que pertencia à biblioteca do Highland Brigade, esquecera-se de o entregar antes do desembarque. A esta horas, se o bibliotecário irlandês deu pela falta, grossas e gravosas acusações hão-de ter sido feitas à lusitana pátria, terra de escravos e ladrões, como disse Byron e dirá O'Brien, destas mínimas causas, locais, é que costumam gerar-se grandes e mundiais efeitos, mas eu estou inocente, juro-o, foi deslembrança, só, e nada mais. Pôs o livro na mesa-de-cabeceira para um destes dias o acabar de ler, apetecendo, é seu título The god of the labyrinth, seu autor Herbert Quain, irlandês também, por não singular coincidência, mas o nome, esse sim, é singularíssimo, pois sem máximo erro de pronúncia se poderia ler. Quem, repare-se, Quain. Quem, escritor que só não é desconhecido porque alguém o achou no Highland Brigade, agora, se lá estava em único exemplar, nem isso, razão maior para perguntarmos nós, Quem. O tédio da viagem e a sugestão do título o tinham atraído, um labirinto com um deus, que deus seria, que labirinto era, que deus labiríntico, e afinal saíra-lhe um simples romance policial, uma vulgar história de assassínio e investigação, o criminoso, a vítima, se pelo contrário não preexiste a vítima ao criminoso, e finalmente o detective, todos três cúmplices da morte, em verdade vos direi que o leitor de romances policiais é o único e real sobrevivente da história que estiver lendo, se não é como sobrevivente único e real que todo o leitor lê toda a história. E há papéis para guardar, estas folhas escritas com versos, datada a mais antiga de doze de Junho de mil novecentos e catorze, vinha aí a guerra, a Grande, como depois passaram a chamar-lhe enquanto não faziam outra maior. Mestre, são plácidas todas as horas que nós perdemos, se no perdê-las, qual numa jarra, nós pomos flores, e seguindo concluía. Da vida iremos tranquilos, tendo nem o remorso de ter vivido». In José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, Lisboa, 1995, ISBN 972-21-0286-9

Cortesia de Caminho/JDACT

sábado, 23 de novembro de 2013

Os dias de Hoje. O Fim da Inocência. Diário Secreto de Uma Adolescente Portuguesa. Francisco Salgueiro. «Às vezes dava-me gozo perder uns minutos a pensar numa boa história para justificar a minha falta. Dizer que estava doente tinha sido utilizada apenas nos primeiros tempos, mas ultimamente gostava de coisas em grande»

Cortesia de wikipédia

«(…) Tudo isto são coisas que me contaram. Obviamente que com cinco anos não sabia nada disto. Se soubesse, seria um génio, e neste momento não me encontraria sentada aos pés da cama com um homem de quarenta e cinco anos. Provavelmente estaria na NASA a projectar uma nave espacial que nos levasse a Marte. Apesar de a Cesária ter batido na porta várias vezes, não me levantei. De vez em quando ia olhando para o relógio e via os minutos a passar. Pensava nos meus amigos no colégio, a apanhar gigantescas secas dos professores, mesmo sendo o último dia de aulas. Eu andava num dos colégios mais caros da zona da Linha. Um colégio internacional, onde se fala inglês, e onde estudam todos os filhos de embaixadores e de presidentes de multinacionais. É um colégio onde aparentemente todas as pessoas que o frequentam devem ser um exemplo em comportamento. Não sei bem quem terá inventado que ter dinheiro é sinal de possuir filhos sem esqueletos no armário. Mas já lá vou.
Deitada na cama, a olhar para o relógio, não deixava de pensar nas aulas que estava a perder, mas sobretudo na aula que decorria naquele momento. A aula onde o professor era o Mr. X, que eu já tinha apanhado várias vezes a olhar para as minhas ma… As minhas ma… mas são perfeitas. Pelo menos é o que as pessoas com quem vou para a cama costumam dizer. Para mim são grandes demais. São um empecilho, pesam muito. Mas os homens ficam hipnotizados. E o Mr. X não era excepção, tendo-o eu apanhado a olhar para elas várias vezes. Quando contei isso às minhas amigas, decidimos envergonhá-lo. Passámos a ir para as aulas dele com dois botões da camisa da farda do colégio desabotoados. Ele olhava para as minhas ma… como se estivesse a olhar para o Sol. Os olhos estavam continuamente a focar-se nelas, mas ao fim de um segundo lembrava-se que era professor e desviava de imediato o olhar. O problema é que quase todas nós estávamos assim e, por isso, para metade da sala onde olhasse, via camisas desapertadas, com maminhas bastante visíveis.
Ele sabia que não podia dizer nada à direcção do colégio, porque ninguém iria dar-lhe razão, em como nós é que o provocávamos. Afinal de contas, no corredor, as camisas estavam sempre compostas. Sabíamos disso e picávamo-lo o mais possível. Sempre que a aula acabava íamos lá para fora fazer apostas. Por exemplo, apostávamos em qual de nós estaria ele a pensar enquanto se masturbava nessa noite. A maior parte das vezes seria eu a visada, porque era para mim que ele mais olhava. Frequentemente, à noite, antes de adormecer, imaginava-o a pensar em mim e a bater uma. Sentia-me enojada. Lembrei-me que assim que me levantasse teria de ligar para o colégio e dizer que nesse dia não iria às aulas, fingindo ser a minha mãe. O que não era difícil porque a nossa voz é muito parecida. Já tinha feito isso antes. Primeiro, tinha começado a usar essa técnica como arma de sobrevivência, devido às constantes ausências dela. Desde que casara com o Fernando, a quem aos poucos comecei a chamar pai, um dos seus principais hobbies era viajar. Apesar de, por vezes, mostrar algumas casas a clientes muito importantes, ela precisava de ter novas histórias para contar às amigas. Precisava de mostrar as fotografias dos hotéis de cinco estrelas onde tinha estado e falar sobre a comida dos melhores restaurantes aonde tinha ido. Por tudo isso, as viagens tornaram-se frequentes.
Porém, ao contrário do que acontecia quando éramos pequenas, já não havia muitos familiares dispostos a ficar connosco. A minha avó morreu quando eu tinha sete anos, as tias e os tios já tinham problemas suficientes com os meus primos, e as tias por afinidade, comecei eu na altura a perceber, eram como a migração das aves: iam e vinham conforme as épocas do ano. Como tal, ficávamos em casa com as empregadas que existiam na altura. Apesar de a nossa mãe não ser uma figura muito presente, sentimos que, se isso passasse a acontecer, perderíamos a liberdade a que nos estávamos a habituar. Assim, eu e a minha irmã começámos a arranjar mecanismos para que ninguém percebesse que ficávamos sós. Imitar a voz dela ao telefone para justificar as faltas foi um deles.
Às vezes dava-me gozo perder uns minutos a pensar numa boa história para justificar a minha falta. Dizer que estava doente tinha sido utilizada apenas nos primeiros tempos, mas ultimamente gostava de coisas em grande. Do género: o meu padrasto ia ser condecorado pelo Presidente da República e nós íamos com a família ao Palácio de Belém. Foi quando estava a pensar em tudo isto que bateram de novo à porta do meu quarto. Sabia que não era a Cesária. Ela apenas nos avisava uma vez das nossas obrigações, para ficar de consciência tranquila. Pelo tipo de toque, percebi que devia ser a Rita, a minha melhor amiga. A única rapariga que me tinha dado um orgas… o superior ao proporcionado por qualquer homem». In Francisco Salgueiro, O Fim da Inocência, Diário Secreto de Uma Adolescente Portuguesa, Oficina do Livro, Lisboa, 2010, ISBN: 978 989 555 19 6.

Cortesia de Oficina do Livro/JDACT

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Os dias de Hoje. O Fim da Inocência. Diário Secreto de Uma Adolescente Portuguesa. Francisco Salgueiro. «Coloquei-o no ‘snooze’ várias vezes. À quarta vez, tomei oficialmente a decisão de me baldar. Uns segundos depois senti vários toques na porta. Era a empregada. A Cesária. Uma cabo-verdiana que os meus pais trouxeram daquele país há uns dois anos e tal»



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«(…) Tudo começou esta manhã, quando o alarme tocou às dez. Senti-me com falta de pachorra para ir às aulas. Queria ficar a dormir, pelo menos, dois dias de seguida. A noite fora passada com o homem de quem eu gosto. Os meus pais estão no estrangeiro há vários dias, e em minha casa apenas se encontrava a nossa empregada. A minha irmã, Mafalda, mais velha um ano, tinha aproveitado a ausência deles para ir dormir a casa do namorado. Quando o alarme tocou, não me apeteceu levantar. Coloquei-o no snooze várias vezes. À quarta vez, tomei oficialmente a decisão de me baldar.
Uns segundos depois senti vários toques na porta. Era a empregada. A Cesária. Uma cabo-verdiana que os meus pais trouxeram daquele país há uns dois anos e tal. Os meus pais trabalham na área do imobiliário. Quero dizer, os meus pais, não. A minha mãe e o meu padrasto. Ele tem uma agência de imobiliário. Sempre morou em Cascais, sempre teve dinheiro de família e ficou com as várias lojas que herdou do pai. Ele trata da maior parte das vendas mais caras na zona de Cascais, Quinta da Marinha, Gandarinha e Quinta Patiño. Quanto à minha mãe, sempre se habituou a não fazer nada. O meu pai tinha uma empresa de construção civil. Segundo diziam, era um dos homens mais requisitados em Cascais nos anos oitenta.
Isso é a história que contam. Eu não sei, porque nunca o conheci realmente. Quando eu tinha três anos, ele morreu num acidente de carro na marginal. Naquele tempo, a marginal era a estrada mais perigosa da capital. Uma noite, depois de um jantar em Lisboa, os dois iam buscar-nos a casa da minha avó. Após uma intensa chuvada, a estrada estava toda molhada e um carro que vinha na direcção contrária perdeu o controlo e chocou de frente com eles. Na viatura iam uns miúdos bêbedos. Estavam a fazer uma corrida com um carro que seguia mesmo atrás deles. O meu pai teve morte imediata. A minha mãe ficou uns dias em coma, mas resistiu.
A minha mãe sempre se habituara a viver bem. O meu pai ganhava muito dinheiro. Com a morte dele, porém, a empresa desagregou-se e em pouco tempo faliu. A minha mãe ficou sem dinheiro vivo todos os meses. Como tinham bastantes reservas no banco, numas contas na Suíça e em offshores, a minha mãe não deixou de levar o estilo de vida a que estava acostumada. O dinheiro foi desaparecendo, e só quando o contabilista lhe disse que, se continuasse a gastar daquela maneira, iria ficar rapidamente sem nada é que ela percebeu que tinha de fazer alguma coisa. Na vida de uma pessoa normal o primeiro passo seria começar a trabalhar. Só que ela tinha apenas o décimo segundo ano. Sempre achara que iria ter a vida de sonho com o meu pai e não precisava de um curso superior. O que veio a acontecer. No entanto, esqueceu-se que no conto perfeito pode haver azares.
Nessa altura decidiu começar à procura de outro marido. A minha mãe sempre fora uma das mulheres mais bonitas de Cascais. Nos anos oitenta também era das mais concorridas, e apesar de na época não haver a quantidade de revistas que hoje se vêm, nas poucas crónicas sociais que existiam, ela aparecia quase sempre. Ela e o meu pai eram considerados um casal perfeito. Eu e a minha irmã tivemos a sorte de, fisicamente falando, ficar com o melhor dos dois.
Voltando à minha mãe. Ela recomeçou a sair socialmente para encontrar o marido seguinte. Dois anos depois da morte do meu pai, quando eu já tinha cinco anos, casou-se com o Fernando. Ele era rico, tinha bom ar (apesar de não ser tão bonito como o seu pai, segundo me dizem as amigas da minha mãe) e podia dar-lhe o estilo de vida a que sempre se tinha habituado. Entretanto, eu e a minha irmã estávamos entregues a várias pessoas da família. Alternávamos entre a casa da minha avó materna, e as de tias e tios de sangue e por afinidade». In Francisco Salgueiro, O Fim da Inocência, Diário Secreto de Uma Adolescente Portuguesa, Oficina do Livro, Lisboa, 2010, ISBN: 978 989 555 19 6.

Cortesia de Oficina do Livro/JDACT

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Os dias de Hoje. O Fim da Inocência. Diário Secreto de Uma Adolescente Portuguesa. Francisco Salgueiro. «Talvez nessa altura ainda estivessem bem presentes na minha memória todas as histórias que ouvia na minha família sobre o que era suposto fazer-se aos doze anos. Segundo a minha mãe, e tal como seria natural em todas as gerações…»

Cortesia de wikipédia

«(…) Sento-me aos pés da cama. No ar há um intenso cheiro a sexo. Atrás de mim, um homem de quarenta e cinco anos que acabei de fo… Olho para o espelho e pergunto-me que idade terei realmente. Sinto-me com quarenta, mas no meu cartão de cidadão está marcado dezassete. Imagino o que os meus pais dirão se souberem o que realmente se tem passado na minha vida. Para eles, eu ainda sou a menina perfeita, pura e virgem. Quando pensam no meu futuro, vêem-me a caminho do altar e de um casamento com trezentos convidados. Perdi a virgindade aos catorze. Era velha quando isso aconteceu. Pelo menos, comparando com a maior parte das minhas amigas. Desde os doze que elas gozavam comigo por ainda não ter ido para a cama com um rapaz, tal como já haviam feito.
Talvez nessa altura ainda estivessem bem presentes na minha memória todas as histórias que ouvia na minha família sobre o que era suposto fazer-se aos doze anos. Segundo a minha mãe, e tal como seria natural em todas as gerações, nessa idade ela brincava com bonecas. Mas aos doze eu comecei a ver as minhas amigas brincar com pi… Essa era a conversa que mais vezes tínhamos nos intervalos das aulas. Aos catorze perdi a virgindade, e aí senti que fazia parte do clube, que naquela altura já nem era assim tão restrito. Tinha conquistado um novo prazer. Um prazer demasiado viciante para ser desperdiçado e apenas usufruído quando fosse mais velha. Um dos nossos passatempos favoritos era olharmos para as professoras e darmos-lhes notas. A escala era de um a dez. A nota um para quem não ia para a cama há muito tempo. A dez para quem tinha mandado uma que… na noite anterior. A meio das aulas trocávamos papéis com as notas; muitas vezes éramos apanhadas, mas apenas tinham números. As professoras ficavam com uma cara muito surpreendida. Obviamente que não sabiam o que aquilo significava. Nós desatávamo-nos a rir.
Normalmente a melhor nota que lhes dávamos era um três. Nunca demos um dez a ninguém. As nossas professoras pareciam sempre tão stressadas que nenhum homem quereria estar com elas. Ao contrário de nós, para quem estava sempre tudo bem. Por isso, começámos a ter rapazes e, sobretudo, homens atrás de nós. Homens com trinta e até quarenta anos. Se calhar muitos até eram os maridos ou namorados das professoras, que não os satisfaziam. Eles, se sabiam a nossa idade, não se importavam. Mas o mais certo era não se aperceberem. Quando íamos a discotecas, produzíamo-nos tanto que parecíamos ter dezanove anos. Ao fim de segundos estávamos rodeadas por homens, muitos com idade para serem nossos pais.
Vejo a minha cara no espelho. Estou tão passada com a coca que acabei de snifar que não consigo perceber se tenho nojo ou pena de mim. Batem à porta. Não tenho tempo para responder, porque é aberta de imediato. É a Rita, a minha melhor amiga. Também tem dezassete anos. - Vem - diz-me, enquanto dá uma passa no charro que tem entre os dedos. - Estamos todos à tua espera para jogar. Com a nossa idade isso pode significar querer que vá jogar com eles às cartas ou com a PlayStation. Mas não. No andar de baixo, está prestes a começar uma rainbow party, uma festa em que vários homens vão ficar com as pi… pintadas de várias cores. Porque estou aqui nua com um estranho? Porque me sentirei tão só?» In Francisco Salgueiro, O Fim da Inocência, Diário Secreto de Uma Adolescente Portuguesa, Oficina do Livro, Lisboa, 2010, ISBN: 978 989 555 19 6.

Cortesia de Oficina do Livro/JDACT