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sábado, 12 de março de 2016

Camões. Poema. Camoneana 423. Almeida Garrett. «Certo amigo na angústia, que aos tormentos myrradores, que a vida me entravavão, aligeiraste o peso, e com amiga dextra cravaste á roda do infortúnio cravo, que ao giro bárbaro lhe impece de alfim dar cabo aos procellosos dias…»

Cortesia da BNP e jdact

CAMÕES
Canto Primeiro

[…]
«Vem; não receies a acintosa mofa
desta volúvel, desprezível gente,
povo de variáveis sycophautas:
não te conhecem elles. Eia! Vamos:
deixa o caminho da infeliz Pyrene;
taes mágoas, com ahi vão, poupa a meus olhos;
Assás tenho das minhas. Largo! aos mares:
livres corramos sobre as ondas livres
do oceano indomado por tyrannos,
livre como sahiu das mãos do Eterno,
sua feitura única no globo,
que impias mãos d'homens não poderão inda
avassallar, destruir. Ahi d'entre as vagas
surge a princeza altiva das armadas,
pátria da lei, senhora da justiça,
couto da foragida liberdade.
Salve, Britania, salve, flor dos mares,
eu te saúdo, ó terra hospitaleira!
Se ora, pousando em tuas ricas praias,
podesse ir abraçar fieis amigos,
que pelas ribas desse nobre Thamesis
vivem á sombra d'arvore sagrada
de abençoada independência a vida!
Não posso; mas sobeja-me a lembrança
indelével, e a voz não morredoura
da sincera, gratissima amizade.

Certo amigo na angústia, que aos tormentos
myrradores, que a vida me entravavão,
aligeiraste o peso, e com amiga
dextra cravaste á roda do infortúnio
cravo, que ao giro bárbaro lhe impece
de alfim dar cabo aos procellosos dias
do malfadado, perseguido vale;
a ti minhas endeixas mal cantadas
nas solidões do exílio, onde as repettem
os ermos echos de estrangeiras grutas,
a ti meus versos consagrei na lyra:
quebrada sobre o escolho da desgraça
inda languidos sons desfere a medo,
que a teu fiel ouvido vão memorias
Lembrar da patria, e recordar do amigo.

Ouves? Rija celeuma aos ares sobe,
e fere os ventos, que nas ondas folgão.
Terra, terra! Bradou gageiro álerta.
Terra! echoa confusa vozeria
da maritima turba: Oh! Voz querida,
doce aurora de gôso, e de esperança
ao coração do nauta enfraquecido,
do alquebrado sequioso passageiro,
que a esposa, os filhos, ou talvez a amante
nessa voz doce, e grata lhe alvejarão.

Terra, e terra da pátria! Debuxada
se ve pullando a magica alegria
Nnos semblantes de todos. Ja contentes,
um se affigura surprehender o amigo,
outro á esposa fiel cahir nos braços;
este da velha mãe, que ha tanto o chora,
ir enchugar as lagrimas afflictas;
aquelle entre alvoroços, e receios,
não ousa de pensar se ao pae enfermo
na descarnada mão rugosa, e sècca
osculo filial lhe é dado ainda.

Respeitoso imprimir, ou se a ternura,
se o amor de filho sobre lage avara
se irá quebrar de gélido sepulcro,
que em sua ausência, tamlonga, lho roubasse.
Qual da amada, que sempre foi constante,
ou sempre, ao menos, lha pintou de longe
a namorada ideia, perto agora
começa de temer que tal distancia,
separação tammanha, e tam comprida,
novo amante mais perto... Mas quem sabe?
Talvez... E esse talvez é de esperança
querida sempre, sempre lisonjeira».
[…]


In Almeida Garrett, Camões, Poema, Camoneana 423, Paris, R. 32594, Livraria Nacional e Estrangeira, Rue Mignon, 2, faub. St. Germain, Biblioteca Nacional de Portugal (Biblioteca Nacional de Lisboa) 1825.

Cortesia da BNP/JDACT

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Garrett. De Fingimentos e Conclusões. Leituras. «Nasce o ideal da nossa consciência da imperfeição da vida. Tantos, portanto, serão os ideais possíveis, quantos forem os modos por que é possível ter a vida por imperfeita»

jdact

«(…) Gomes Amorim, o seu dedicado biógrafo e confessado discípulo, sai à liça dos comentários que lhe tildam o mestre de vaidoso mas não nos tira as dúvidas quanto à verdadeira autoria do inesquecível elogio: De quantos elogios acusam o autor de ter tecido a si próprio, e posto às costas dos seus editores, se o prólogo da segunda edição das viagens foi escrito por ele, nenhum revela maior vaidade, segundo o juízo dos contemporâneos; em meu humilde conceito, porém, está a mais cabal pintura que de tamanho engenho se podia obter em tão pequena tela. Tudo que diz de si é de uma verdade tão indiscutível, que só há a lastimar o não ter sido de outra pena aquele elogio merecidíssimo, se com efeito o produziu a sua. Gomes Amorim não nos tira aqui as dúvidas sobre a autoria do prólogo. Mas parece inclinado a admitir que assim seja na lástima que manifesta e talvez ainda mais no juízo que emite sobre a verdade do que ali se diz. Pessoalmente, confesso que nem sequer chego ao ponto de lastimar que o elogio tenha saído da pena do próprio Garrett. Dou graças aos deuses pelo facto de não me sentir obrigada a defender-lhe a honra pelante os detractores, e à distância de século e meio lembro que o escritor não fazia mais, nem menos, do que o seu mestre e modelo Camões tinha já feito quase três séculos antes: ter a consciência do seu imenso valor de escritores e a coragem de afirmá-lo, alto e bom som, preto no branco, na praça pública das invejas ou das indiferenças (Outros, depois, como Fernando Pessoa e Jorge de Sena hão-de seguir-lhes o gesto e não com menos verdade e pertinência).
Fica-nos, pois, não a lástima mas, pelo contrário, o agradecimento de um texto que, como diz Gomes Amorim, e com ele assentimos plenamente, nos dá, para sempre, uma cabal pintura do engenho garrettiano. Mais adiante, voltarei à forma como esta cabal pintura sintetiza, de forma exemplar, o percurso do escritor e a sua prática literária dando-nos, ao mesmo tempo, pistas valiosíssimas para a leitura da obra. Quero, todavia, antes recordar como, afinal, apenas dois anos antes deste prólogo, tinham os seus contemporâneos visto aparecer nas páginas do Universo Pittoresco, na secção Biographia, um outro texto onde, em cerca de doze longas páginas, distribuídas em três entregas, se apresentava ao leitor O conselheiro de Almeida Garret. Nele, também em terceira pessoa, se traçava um retrato da vida e da obra do escritor, não menos elogioso que o Prólogo das Viagens. E aqui parece não se pôr sequer dúvidas quanto à autoria garrettiana do mesmo. O próprio Gomes Amorim, logo no início da sua biografia de Garret, indica que está a utilizar o manuscrito original daquele texto e identifica o seu autor com as seguintes palavras que são, ao mesmo tempo, e tal como o juízo que há-de pronunciar sobre o prólogo das Viagens, de pena por esta fragilidade: Infelizmente, porém, até nos maiores engenhos se revela a fragilidade humana; e não foi este Garrett isento dela. Na sua biografia, publicada no Universo Pittoresco, da qual possuo o manuscrito original, escreveu ele, falando de si. Aquelas maneiras polidas, que só dá o nascimento e alta educação...» In Maria Fernanda Abreu, Leituras de Almeida Garrett, Revista da Biblioteca Nacional, 1999, Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

Cortesia da BNP/JDACT

Chão de Sombras. Maria do Rosário Pimentel. Estudos sobre Escravatura. «Previa-se que a duração de uma viagem de Angola a Pernambuco, com condições favoráveis, fosse de trinta e cinco dias, à Baía quarenta e ao Rio de Janeiro cinquenta. Mas se o navio ficava preso nas calmarias equatoriais…»

jdact

Aspectos do Quotidiano no Transporte de Escravos no Século XVIII
Do Sertão Africano à Costa Americana
«(…) Aí tudo lhes faltava. A alimentação continuava a ser má e insuficiente, fermentada pelo calor e pelo azebre das caldeiras de cobre em que era cozinhada. A água, escassa, era salobra, alterada pela má qualidade do vasilhame. A pouca ou nenhuma higiene, juntamente com o intenso calor e a humidade salitrosa, ateavam as epidemias de que nem os marinheiros escapavam. O próprio ar, pouco ou nada ventilado, tornava o ambiente dos porões denso e pestilento; tal como a luz, entrava apenas pelas grades da escotilha, ou por uma ou outra fenda. Os capitães dos navios tinham consciência de quanto era prejudicial esta situação. Querendo de algum modo minimizar as perdas, mais por interesse do que por humanidade, entre outras medidas, mandavam limpar e esfregar a coberta duas vezes por semana com vinagre e permitiam que os escravos, divididos em grupos, viessem a ferros até ao convés para receber ar fresco. Nessas ocasiões, davam-lhes uma porção de aguardente e, para os obrigarem a fazer algum exercício mandavam-nos cantar e dançar. Recomendavam à tripulação, igualmente, que nos dias quentes e calmos, se prendesse no cesto da gávea uma manga de pano que, passando pela grade da escotilha, renovasse o ambiente. Todas essas providências eram, no entanto, esforços que na prática se revelavam inúteis para afastar o ar doentio e travar o avanço das epidemias que os alimentos estragados, a ardência do clima e a imundície favoreciam.
Previa-se que a duração de uma viagem de Angola a Pernambuco, com condições favoráveis, fosse de trinta e cinco dias, à Baía quarenta e ao Rio de Janeiro cinquenta. Mas se o navio ficava preso nas calmarias equatoriais, o percurso até ao Recife podia durar cinquenta dias. Quanto mais longas fossem as viagens, piores se tornavam. As embarcações que iam da Guiné e da região de Daomé para a Baía beneficiavam de viagens mais rápidas. Nas das outras regiões, que de preferência se dirigiam para o sul do Brasil, os escravos padeciam a mais longa, cruel e mortífera travessia do oceano, a que provocava mais vítimas e maiores tragédias. Elias Corrêa descreve a experiência que viveu na sua viagem para o Rio de Janeiro em que os mantimentos e a aguada embarcados foram de tal modo preteridos ao embarque de um maior número de escravos que, ao vigésimo dia de mar, já só era distribuída meia ração de água, chegando a situação ao ponto de se recusarem os remédios aos doentes pela sua falta. Quando aos sessenta dias de viagem se avistou terra, foram obrigados a aportar à capitania do Espírito Santo por falta total de mantimentos. Todavia a farinha de pau comprada neste porto para suprir a que o navio deixou de embarcar, estava tão podre e cheia de bicho que causou uma epidemia terrível e muitas mortes.
Faleciam não só vitimados pelas doenças, mas também devido ao desespero em que se encontravam e que os levava na primeira oportunidade ao suicídio. Neste acto, acontecia arrastarem consigo para o mar os seus companheiros de ferros e, por vezes, até os tripulantes do navio, dando assim resposta ao desespero que os minava. O seu desejo de morrer era tão forte que, faltando-lhes outros meios, se recusavam a comer. Nestes casos, se mesmo depois de castigados mantinham a sua recusa, abriam-lhes a boca à força e obrigavam-nos a engolir os alimentos. Este procedimento dos escravos era acompanhado, com frequência, por manifestações doentias de carácter psicológico designadas banzo e apresentavam como principal sintoma uma nostalgia angustiante que, no dizer de Oliveira Mendes, constituía uma paixão da alma a que se entregavam e que so dão por extinta com a morte». In Maria do Rosário Pimentel, Chão de Sombras, Estudos sobre a Escravatura, Edições Colibri, 2010, ISBN 978-972-772-957-9.

Cortesia de Colibri/JDACT

domingo, 26 de outubro de 2014

Chão de Sombras. Maria do Rosário Pimentel. Estudos sobre Escravatura. «… sórdida imundice dos únicos panos com que mal se cobrem, e enxugam no corpo depois que a chuva, o sereno e o suor os molha; exalam um hálito insuportável cujas partículas envolvidas se juntam ao odor da transpiração…»

jdact

Aspectos do Quotidiano no Transporte de Escravos no Século XVIII
Do Sertão Africano à Costa Americana
«(…) E era aqui, continua o autor, neste asquerosíssimo charco acrescentado continuamente com os excrementos da mesma infeliz gente, que se conservavam os escravos até serem comprados pelos capitães negreiros. No litoral, a alimentação do escravo, apesar de lhe adicionarem o sal necessário, que aí existia em abundância, continuava a ser escassa e de má qualidade. Só a fome os obrigava a comer uma refeição feita à base de farinha ou mandioca podre ou cheia de mofo, de milho e feijão corruptos, aos quais era adicionado, por vezes, algum peixe salgado já velho e fedorento. Os negociantes, esperando a todo o momento a venda dos escravos, recusavam-se a gastar dinheiro com eles.
Mal alimentados, mal vestidos, torturados, sem cuidados médicos ou de higiene, pois apenas lhe era permitido irem em lotes lavarem-se ao mar, assim permaneciam por tempo indeterminado, acabando grande parte por morrer. Oliveira Mendes salienta, a este propósito, que a Luanda chegavam todos os anos cerca de dez a doze mil escravos, dos quais só eram transportados para o Brasil cerca de seis ou sete mil. Todos os outros acabavam por perecer, vitimados pelo cálculo económico dos negociantes, que preferiam vê-los morrer a despender algum dinheiro e a ter certos cuidados com a conservação da sua saúde.
Quando os negreiros se apresentavam para o negócio, a situação alterava-se ligeiramente. Nessa ocasião, os escravos eram sujeitos a um minucioso exame por parte dos compradores, que não se deixavam facilmente influenciar pelas qualidades apregoadas por quem os vendia. Procuravam assegurar-se da origem dos escravos, idade, condição física, temperamento e carácter, factores importantes que podiam determinar decisivamente os preços. Faziam-nos correr, saltar, gritar; examinavam-lhes os dentes, os olhos, os músculos e órgãos genitais; observavam-lhes as atitudes e provocavam-nos com violência para descobrir se o ânimo correspondia às aparências. Tudo exigia uma observação atenta, porque os vendedores usavam de toda a astúcia para alterar estes dados a seu favor.
Neste sentido, com o objectivo de lhes melhorar a aparência e impressionar o comprador, nos dias que antecediam a venda, os mercadores aumentavam-lhes a ração; esfregavam-nos com óleo de palma, que os tornava mais negros e luzidios; aos que já tinham barba, escanhoavam-nos bem e, como último ardil para os encarecer, friccionavam-lhes o rosto com pedra-ume, de modo a deixá-lo macio como se fossem imberbes. Sem o menor vestígio de barba à vista e ao tacto, restava aos peritos negreiros recorrer ao processo de passar a língua pelo rosto dos negros, procurando assim detectar o que, de outra maneira, lhes escaparia. Por processo semelhante, através do sabor do suor, tentavam descobrir se o escravo tinha ou não contraído determinadas doenças.
A escolha estava feita. O escravo dava entrada no barracão do traficante onde iria esperar o momento de embarque. Na altura do pagamento dos direitos a que esta transacção estava sujeita, sofriam nova marcação a fogo, no lado direito do peito, representando as armas do rei e do país a que passavam a pertencer. No peito, do lado esquerdo, no braço ou na perna, podiam ainda sofrer outra marca com o sinal do senhor que os negociava e transportava para o Brasil. Era um processo dolorosíssimo, feito com instrumento de prata incandescente, que se pressionava sobre papel engordurado na zona do corpo pretendida. A carne inchava com dor intensa e o estigma surgia em relevo para toda a vida.
Seguia-se o embarque com destino aos seus novos presídios de além-mar. Porém, antes de embarcarem recebiam o baptismo em conjunto, com um hissope, muitas vezes já na praia, sem a mínima compreensão do que se estava a passar, pois a pressa de partir não permitia uma catequização conveniente. Falavam-lhes apenas de uma nova terra pertencente aos portugueses onde iriam aprender as coisas da Fé. E posto este cuidado, suficiente para sossegar a consciência cristã dos capitães negreiros quando mais tarde começassem a atirar cadáveres ao mar, procedia-se à passagem dos cativos para o navio. Era um momento difícil, em que os negros, atormentados pela imaginação e pelo afastamento da costa, tentavam, num último esforço, libertar-se, procurando à custa de contorções desequilibrar as almadias ou, no momento em que subiam para o barco, aproveitar qualquer movimento em falso.
Embarcados em número muito superior àquele que o navio deveria transportar eram amontoados na coberta ou sob a escotilha, mal se podendo mexer. O franciscano italiano Carli, que viajou a bordo de um desses navios carregado com 680 escravos, registou que iam cruelmente acumulados num espaço exíguo e imundo, onde homens e dejectos se misturavam de tal modo que o calor e os odores tornavam o ambiente intolerável. E Elias Corrêa refere-se à sórdida imundice dos únicos panos com que mal se cobrem, e enxugam no corpo depois que a chuva, o sereno e o suor os molha; exalam um hálito insuportável cujas partículas envolvidas se juntam ao odor da transpiração de corpos enfermos, criando uma atmosfera onde se respira a morte que os acomete e derruba com vontade. A caridade desaparece e a sepultura é a obra de misericórdia mais ampla que se lhes administra». In Maria do Rosário Pimentel, Chão de Sombras, Estudos sobre a Escravatura, Edições Colibri, 2010, ISBN 978-972-772-957-9.

Cortesia de Colibri/JDACT

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

BNP. Mostra. Duarte Lobo. «… o mais famoso compositor português do seu tempo e, juntamente com Filipe Magalhães, Manuel Cardoso, e Pedro Cristo, é considerado um dos expoentes da “época dourada” da polifonia portuguesa»

Cortesia da BNP

Com a devida vénia à BNP

«Duarte Lobo foi o mais famoso compositor português do seu tempo e, juntamente com Filipe de Magalhães, Manuel Cardoso, e Pedro de Cristo, é considerado um dos expoentes da época dourada da polifonia portuguesa. Terá nascido entre 1564 e 1569 e morreu em Lisboa a 24 de Setembro de 1646. Na Sé de Évora, enquanto moço do coro da catedral, teve como mestre Manuel Mendes, tendo também aí sido mestre de capela. Em 1591 ocupou o mesmo cargo na Sé de Lisboa e aí ensinou música no Colégio do Claustro, onde se manteve pelo menos até 1639. Foi durante este período que teve por alunos alguns dos mais destacados compositores portugueses do século XVII como João Alvares Frouvo, Fernando Almeida e Manuel Machado, e o teórico António Fernandes. Mais tarde dirigiu na capital a capela do Seminário de São Bartolomeu. Assinava as suas obras como Eduardus Lupus.
A sua música foi amplamente divulgada e compreende quatro volumes de polifonia, todos impressos na célebre Oficina Plantiniana em Antuérpia: Opuscula (1602), Cantica Beatae Maria Virginis (1605), e dois Liber Missarum (1621 e 1639) com várias missas paródia baseadas em motetes de Palestrina e Francisco Guerrero. Publicou também dois livros de cantochão, destinados às comunidades religiosas de Lisboa: Ordo Amplissimus Precationum Caeremoniarumque (1603) e Liber Processionum et Stationum Ecclesiae Olysiponensis (1607) impressos por Pedro Craesbeeck. Sobrevive ainda um manuscrito do hino Gloria, laus, et honor, numa cópia tardia conservada na Biblioteca Pública de Évora, e encontram-se referências a missas, salmos, sequências, lições, magnificat e vilancicos de sua autoria no catálogo da Biblioteca Musical de D. João IV, obras hoje dadas como perdidas.
Nesta mostra, que evoca os 450 anos do nascimento do compositor, podem ser vistos exemplares das suas obras editadas em Antuérpia e Lisboa, e também algumas das edições modernas das suas composições
». In Biblioteca Nacional de Portugal, BNP

Cortesia da BNP/JDACT

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Chão de Sombras. Maria do Rosário Pimentel. Estudos sobre Escravatura. «As horas de sono eram passadas numa modorra constante sob os gritos dos guardas que os acordavam com receio de algum levantamento, sugestionados de que os escravos conheciam uma erva capaz de amaciar e estalar o ferro das prisões»

jdact

Aspectos do Quotidiano no Transporte de Escravos no Século XVIII
Do Sertão Africano à Costa Americana
«(…) Alguns dos escravos que se encontravam presos no interior já estavam a ferros há muito tempo, por vezes anos a fio, à espera de quem os comprasse. Era grande a sua angústia e, quando as caravanas dos mercadores chegavam, manifestavam-se apreensivos quanto à sorte que os esperava. Testemunha Mungo Park, explorador inglês integrado num desses comboios, que eles olhavam os traficantes com horror e insisentemente perguntavam qual o destino dado aos escravos que passavam a água salgada. A firme persuasão em que estavam, de que os brancos compravam os negros para os comerem ou para os venderem a outros que os comiam, fazia com que olhassem com incrível pavor a viagem. A sua perturbação era grande e os mercadores, receosos de alguma fuga, revolta ou suicídio, mantinham-nos constantemente presos.
A medida que os iam comprando, agrilhoavam-nos dois a dois a uma corrente que, embora muito devagar, lhes permitia caminhar. Para maior segurança, dividiam-nos, depois, em grupos de quatro, que acorrentavam pelo pescoço. E à noite prendiam-lhes ainda as mãos com argolas de ferro. Aos menos submissos, destinavam um grosso cepo onde ficavam presos pelas pernas ou, então, um tronco de madeira, aparelho que abria pelo meio, fechava com forte argola de ferro e tinha orifícios escavados por onde podiam passar o pescoço, os braços ou as pernas dos escravos, mantendo-os imobilizados.
Ao acto da compra, seguia-se a primeira marcação, com ferro em brasa, que lhes imprimia o sinal do mercador para poderem ser reconhecidos em caso de fuga. E quando o número de escravos era já suficiente, iniciava-se a penosa marcha em direcção ao litoral, que poderia durar largos meses. Os escravos caminhavam acorrentados, com o braço direito preso nos anéis dos libambos e o pescoço entalado nas gargalheiras de ferro ou na forquilha das prisões de pau e correias entrelaçadas. A cada passo, os mais resistentes arrastavam consigo aqueles a quem já iam faltando as forças. E se, sob a vigilância atenta dos guardas, o andamento abrandava, ou se alguém se recusava a prosseguir, a autoridade do chicote anunciava que era necessário continuar e que só a morte dali os podia libertar.
Às costas levavam o carapetal, saco que continha a ração que o mercador lhes destinava até chegarem a outro presídio, onde de novo se abasteciam. O sal, por ser pesado, faltava na alimentação, tornando-a insípida e desagradável. Como também faltavam a pimenta e o azeite, condimentos tão a seu gosto; comiam somente para não morrer. A escassez aliava-se o mau estado dos alimentos, comprados já deteriorados, o que os tornava mais baratos, e a sua má confecção, uma vez que tudo era cozinhado à pressa, apenas aferventados em função do tempo do mercador e da distância a percorrer. A água, só a bebiam quando se aproximavam dos charcos e lagoas. Por cama tinham o chão e as próprias folhas das árvores nem a todos protegiam da cacimba que continuamente caía durante a noite, ensopando o único vestuário que possuíam ou o que dele restava. Uma fogueira era o seu único conforto, porém, insuficiente para atenuar os efeitos nefastos do orvalho e da falta de vestuário, que estavam na origem de muitas das enfermidades de que padeciam. As grandes febres chamadas carneiradas, atribuídas aos efeitos da cacimba, eram significativas pela maneira como se propagavam e dizimavam os escravos em poucos dias.
As horas de sono eram passadas numa modorra constante sob os gritos dos guardas que frequentemente os acordavam com receio de algum levantamento, sugestionados pela crença de que os escravos conheciam uma erva capaz de amaciar e estalar o ferro das prisões. Chegavam aos portos marítimos já muito debilitados. Eram, então, permutados pela segunda vez. No entanto, os comerciantes continuavam a mantê-los presos com as mesmas correntes com que tinham viajado, ou fechavam-nos em pátios de altas paredes e devidamente apetrechados com correntes de ferro, argolas encastoadas, cepos de madeira e grilhões. À noite, tinham agora o privilégio de um telheiro ou armazém térreo, mas tão imundo que o cheiro que exalava, segundo o médico setecentista Francisco Damião Cosme, até fazia delíquios e vómitos a quem passasse defronte». In Maria do Rosário Pimentel, Chão de Sombras, Estudos sobre a Escravatura, Edições Colibri, 2010, ISBN 978-972-772-957-9.

Cortesia de Colibri/JDACT

domingo, 10 de agosto de 2014

Chão de Sombras. Maria do Rosário Pimentel. Estudos sobre Escravatura. «Os escravos eram, em grande parte, prisioneiros de guerra capturados em lutas movidas pelo espírito de conquista territorial ou simplesmente suscitadas com o intuito de adquirirem prisioneiros para venda»

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Aspectos do Quotidiano no Transporte de Escravos no Século XVIII
Do Sertão Africano à Costa Americana
«(…) Na maior parte dos casos, só os conseguiam através de uma insistente negociação, se bem que esta prática estivesse interdita àqueles funcionários da coroa. Assim, munidos de guardas e carregadores, que aos ombros conduziam os fardos de fazendas, os instrumentos de prisão e os ferros de marcação dos escravos, a alimentação, somente a indispensável, partiam os comboieiros para o interior, onde o mais pequeno sinal da sua presença transformava a região num campo de luta e caça ao homem. Nessas alturas, intensificavam-se as guerrilhas e os assaltos, surgiam novos delitos e acusações, multiplicavam-se os ódios e as desconfianças. A coberto da noite incendiavam-se as choupanas para na fuga desvairada, se apanharem os sobreviventes. Nos caminhos, construíam-se armadilhas, armavam-se ciladas em que caíam os mais desprevenidos. Aos crimes de morte, roubo ou adultério, que tradicionalmente já eram castigados com a venda do infractor como escravo, juntavam-se agora outras faltas ligeiras. Os processos de prova eram verdadeiros ardis, feitos à base de venenos, ferros em brasa e águas a ferver, dos quais resultava sempre a condenação do acusado e da sua famílias.
Contudo, os escravos eram, em grande parte, prisioneiros de guerra capturados em lutas movidas pelo espírito de conquista territorial ou simplesmente suscitadas com o intuito de adquirirem prisioneiros para venda. Inclusivamente, os mercadores, para obterem o maior número de escravos, não se privavam de tecer intrigas junto dos régulos, adivinhos ou elementos a eles afectos, aliciando-os com ofertas, a maior parte das vezes bebidas, com as quais os embebedavam. Os vinhos e aguardentes eram, aliás, um elemento importantíssimo neste processo de negociações; tão importante que o mercador levava já separada toda a bebida que devia ser distribuída como presente, talvez para a distinguir do vinagre, que ali corria no mesmo paralelo, ou daqueles vinhos e aguardentes já alterados com água pura ou salgada temperada com pimentões para fortalecer a fraqueza da sua ardência.
Esta inclinação dos homens da terra era aproveitada ao máximo pelos negociantes. Elias Corrêa comenta a este propósito que sem entrevir a giribita repugnam os negros concluir os seus negócios; e termina dizendo ser uma felicidade para os comerciantes do Brasil e da África terem a inclinação dos habitantes a seu favor. Alucinados pela bebida, incitados à guerra, auxiliados pelas armas europeias, facilmente os negros se entregavam a operações de razia, de onde resultavam muitos prisioneiros. O efeito depredatório destas guerras contínuas reflectia-se de tal modo na situação económica das populações, que passaram a ter na escravização uma solução possível para a sua subsistência, o que os levava amiúde a vender os próprios familiares. Mas, igualmente, os vendiam ou penhoravam, na ânsia de adquirirem mercadorias ou no delírio da embriaguez.
No quadro das sociedades africanas, não só os criminosos, mas também os devedores insolventes eram punidos com a escravidão. Um condenado podia nomear alguém para sofrer por ele a sua pena. porém, este direito estendia-se somente àqueles indivíduos que lhe estavam subordinados e tinha que englobar mais do que uma pessoa, variando o seu número consoante a gravidade do delito ou o montante da dívida. Não é de admirar, por isso, que se concedessem facilmente mercadorias a crédito, uma vez que o credor, mesmo que o devedor desaparecesse com a mercadoria, tinha sempre um modo de reaver o seu dinheiro. Os capitães negreiros tinham por norma conceder géneros fiados aos agentes negros, aceitando unicamente como penhora os filhos ou parentes mais próximos. Este facto pressionava-os a cumprirem os prazos do contrato e a trazerem o número de escravos ajustado. Desta maneira, se convertiam os factores mais ternos do coração em instrumentos de crueldade e de injustiça, não poupando meios para pagar a sua fazenda». In Maria do Rosário Pimentel, Chão de Sombras, Estudos sobre a Escravatura, Edições Colibri, 2010, ISBN 978-972-772-957-9.

Cortesia de Colibri/JDACT

Chão de Sombras. Maria do Rosário Pimentel. Estudos sobre Escravatura. «… mercadores sertanejos, os ‘comboieiros’, designados em certas regiões por ‘funidores’, noutras por ‘tumberos’ ou, ainda, ‘pombeiros’ na região de Angola e ‘tango-maos’ e ‘lançados’ na Guiné»

jdact

Aspectos do Quotidiano no Transporte de Escravos no Século XVIII
Do Sertão Africano à Costa Americana
«Vindos directamente dos portos coloniais americanos ou dos empórios comerciais europeus, os navios negreiros chegavam à costa africana alvoroçando a vida das populações locais. Chegavam carregados, até não poderem mais, de mercadorias de troca, sem falsas intenções, contando à partida com a adesão das sociedades africanas, onde a escravidão era uma instituição naturalmente aceite. Traziam consigo novidades, riquezas de outras terras, exotismos de outros lugares; produtos que o africano valorizou e a que se habituou, em alguns casos, até à dependência. Dos seus porões saíam objectos de ferro, contaria de variadas cores, barretes, manilhas, búzios e conchas ali aceites como moeda. Saíam armas e munições, mais eficazes que as dos naturais, cuja força era uma garantia de poder num mundo convulsionado por guerras contínuas. Saíam tecidos, rolos de tabaco, vinhos e aguardentes, nomeadamente a giribita brasileira, tão especiais neste trato. Saíam fardos de roupa usada, de onde sobressaíam os chapéus e os uniformes de vistosos galões, que exerciam tanta influência nos africanos de maior prestígio social, na medida em que lhes permitiam uma certa identificação com a grandeza e o heroísmo ditado pelo modelo europeu.
Tudo os negreiros se apressavam a expor em mercado assim que chegavam. Para o efeito, o próprio capitão do navio mandava construir, no descampado mais próximo do embarcadouro, um barracão de madeira, o quibanga, como lhe chamavam os congoleses, que depois também viria a servir para recolher os escravos. O toque do sino era o sinal de que tudo estava a postos para se iniciarem as transacções. Ali acorriam os povos das vizinhanças, os mercadores por conta própria, os que tinham casa de negócio para o efeito e, sobretudo, um grande número de intermediários. A estes últimos, com a expansão do tráfico para o interior, cabia a tarefa da concentração dos escravos nos portos marítimos de modo a permitir, tanto quanto possível, uma carga pronta a embarcar sem demoras nem prejuízos. Eram os mercadores sertanejos, os comboieiros, designados em certas regiões por funidores, noutras por tumberos ou, ainda, pombeiros na região de Angola e tango-maos e lançados na Guiné. Eram eles que viajavam pelos longínquos presídios e efectuavam a primeira compra dos escravos aí existentes.
Por norma, o europeu não se embrenhava no sertão com esse fim. Na generalidade, estes intermediários eram indivíduos negros ou mulatos livres, alguns treinados para exercerem essa função. Exceptuavam-se os lançados, expressão que no século XVI se reportava apenas aos brancos fugidos da metrópole ou fixados no ultramar sem autorização, que adoptavam os usos e costumes indígenas e monopolizavam a concentração e distribuição de mercadorias nos portos africanos; comercializavam-nas sobretudo com mercadores estrangeiros, o que levou a coroa a insurgir-se contra a sua actividade. Com o tempo, o termo passou a englobar também negros e mulatos que participavam nestas actividades comerciais.
À chegada dos navios negreiros, os intermediários afluíam à costa para se abastecerem das mercadorias secas e molhadas destinadas ao comércio e aprontarem os comboios de carregadores que as iriam transportar. Os carregadores, cerca de cem por cada comboio, eram requisitados ao capitão-mor que tinha por obrigação fornecê-los em benefício do comércio e que, por sua vez, os exigia aos próprios chefes indígenas, os sobas, que os seleccionavam de entre os naturais do país. Nem sempre era fácil aos sertanejos obter das autoridades estes homens, que eram vitais para a execução do que se propunham». In Maria do Rosário Pimentel, Chão de Sombras, Estudos sobre a Escravatura, Edições Colibri, 2010, ISBN 978-972-772-957-9.

Cortesia de Colibri/JDACT

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Unicórnio, Etc.. A década de 50 e as “Córnio”. José Augusto França. Miguel Real. «Tive, nisso, inevitáveis culpas, é claro. Mas muitas não as tive eu, e outras, embora as tivesse tido, não serão minhas. As primeiras conheço-as mal. Má direcção? Naturalmente, sim. Demasiada ambição? Isso com certeza»

Desenho de almadanegreiros
jdact e wikipedia

A década de 50 e as Córnio
«(…) Neste sentido, as Córnio ressuscitam o e tudo que o futurismo de Almada anunciara, ou, em bloco e no campo do ensaio, anseiam ser o quarto número que não houve de Orpheu. Tem José-Augusto França consciência de que a sua iniciativa é tocada pelo furor do novo, anunciando um Portugal que não existe? Em Nota servindo de prefácio, publicada em Unicórnio, Maio de 1951, o autor escreve que os textos e gravuras escolhidos exprimem uma maneira actual de encarar a realidade, considerando que os autores que participam nas Córnio possuem uma maneira aparentada de perspectivar a realidade e reitera que actualidade (ser actual) é o que nas suas páginas se pretende registar. Com efeito, o pensamento être absolument moderne, de Rimbaud, preenche na totalidade a consciência de França e as Córnio constituem, na década de 50, a sua maneira de o ser. Estaria Portugal culturalmente preparado para uma revista absolutamente moderna? Não, não estava. Salazar recusara a abertura política pós-II Guerra Mundial, o perigo vermelho de Estaline, dividindo a Europa em duas, suavizara o juízo das democracias europeias sobre o regime do Estado Novo, Alfredo Pimenta lançara o grito integralista o comunismo. Inimigo N.º 1, de novo Portugal se radicalizava, extremava, desenhando um mundo a preto e branco, António Sérgio e Vieira de Almeida lançavam para a arena um general de pensamento inconsistente que ousava declarar que Portugal também era Europa, Portugal merecia ser absolutamente moderno, Salazar não perdoou, endureceu-se, encarniçou-se e mandou reprimir, repetindo o gesto amordaçante de princípios da década de 30, fechando-se e fechando Portugal a novo intento de modernidade. O modernismo falhara culturalmente com Pessoa, Almada e Mário de Sá Carneiro, dez anos depois falhara com José Régio, João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca. O terceiro modernismo, o de José-Augusto França, de Jorge de Sena, Eduardo Loureço, teria pior destino, anunciara-se para logo se falhar, esboçado em revistas sem continuidade, ao longo da década de 50. Os seus autores experimentaram o livor da aurora, sem comungarem da claridade da madrugada. Eram netos de avós que maioritariamente o Portugal institucional não reconhecia. Entre a aurora e a madrugada, as labaredas da fogueira da liberdade tinham sido espevitadas, mas o cinzento-escuro dos fatos oficiais do regime político tinha-lhes quebrado o vigor. O fogo da modernidade falhara de novo.
No dia 31 de Dezembro de 1956, França fechou o ciclo das Córnio, no ano seguinte escreveu um espantoso Primeiro Diálogo sobre Arte Moderna, resgatou o seu amigo Amadeo narrando-lhe a obra, publicou um conjunto de contos, que intitulou, bem a propósito, Despedida Breve, e partiu, certamente tão falhado quanto Portugal estava. Um dolente sentimento de amargura devia cobrir-lhe as faces, França presumia ter falhado a sua juventude. Afinal, cumprira apenas o permanente ritual de iniciação do intelectual português, de Sá de Miranda a António Damásio, de Camões a Agostinho da Silva. França, agora, não era só França, tornara-se a personificação da imagem permanente da cultura portuguesa, de Francisco Sanches e padre António Vieira a Alexandre Herculano e Almeida Garrett, de Damião de Góis a Eça de Queirós, de João de Castro neto a Sampaio Bruno, Eduardo Lourenço e António José Saraiva, buscando Portugal fora de Portugal, como Ulisses penitente buscando a sua Ítaca, foi encontrá-la em Paris.
As Córnio fechavam, o jovem França morria, nascia o especialista em arte. O fato cinzento que vestia Portugal entrava em guerra, enlutando o país e bloqueando a modernidade… até à inteira madrugada em que de novo o espírito das Córnio saiu à rua, em 25 de Abril de 1974». In Miguel Real, Fontanelas, 23 de Agosto de 2006

Conversa com José Régio. Post-facio a toda a obra ou de par ma chandelle verte
Este é o último número duma revista que falhou. Eu explico.
O Unicórnio foi publicado em 1951, e pensava eu então em fazer sair de três em três meses um número; ou só três por ano, ou apenas dois, como depois fui levado a projectar. Ao fim de quase seis anos, saíram cinco números. Nem anual foi. Ao mesmo tempo, outras revistas foram aparecendo e desaparecendo em números mais baixos, a maior parte delas. Escusado será dizer que nenhuma consolação tiro desse facto, mas dele tenho que tirar ajuda para a lição que veremos. Dizia eu que esta revista falhou. Tive, nisso, inevitáveis culpas, é claro. Mas muitas não as tive eu, e outras, embora as tivesse tido, não serão minhas. As primeiras conheço-as mal. Má direcção? Naturalmente, sim. Demasiada ambição? Isso com certeza.
A demasiada ambição que foi um defeito confessado, vai porém de mim para os outros, e finalmente assenta nos colaboradores da revista. Escolhi os que escolhi e dentro das amplas, livres e actuais opiniões europeias que se pretendia propor e discutir, poucos escolhíveis ficaram de fora destas trezentas e tantas páginas publicadas. Não me queixo, evidentemente nem de uns nem de outros, mas dos terceiros, daqueles que não podiam caber na revista. Porque se eles pudessem ali caber seriam mais e suficientes os primeiros, e a revista não acabaria». In José Augusto França, Inicórnio, Etc., Mostra Documental, 2006-2007, Apresentação de Biblioteca Nacional, 2006, A década de 50 e as Córnio, Miguel Real, ISBN 978-972-565-413-2.

Cortesia da BNP/JDACT

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

BNP. Seminário. O De Avibus de Alcobaça. Uma cópia de Clairvaux? «Esta obra foi produzida nos “scriptoria” de três dos mais importantes mosteiros do românico português. Esta sessão pretende dar a conhecer uma das obras singulares do românico…»

Cortesia da bnp

O De Avibus de Alcobaça. Uma cópia de Clairvaux? Seminário. Amanhã, dia 8 de Janeiro.18h00.

«Décimo encontro do ciclo de seminários Um mês, um códice iluminado, iniciativa do Instituto de Estudos Medievais (IEM) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL) em parceria com a Biblioteca Nacional de Portugal.
Durante a Idade Média, a procura de novos métodos de ensino e pregação no meio clerical vai propiciar o aparecimento de obras de carácter simbólico-alegórico, comumente conhecidos por bestiários, que irão utilizar as características dos animais como modelos de comportamento. Apesar destes gozarem de uma enorme popularidade em Inglaterra e França, não temos conhecimento de qualquer exemplar produzido em Portugal. Por outro lado, no contexto monástico português do final do séc. XII, encontraremos três cópias do De Avibus, escrito por Hugo de Folieto em meados do século, cuja temática, semelhante à dos bestiários, se centra exclusivamente em aves. Esta obra foi produzida nos scriptoria de três dos mais importantes mosteiros do românico português.
Esta sessão pretende dar a conhecer uma das obras singulares do românico, cujo programa iconográfico, associado a diversos modelos de circulação, revela informações acerca da sua origem e ligação a outras cópias europeias. Particular destaque será dado ao manuscrito iluminado Livro das Aves (Alc. 238), proveniente do Mosteiro cisterciense de Santa Maria de Alcobaça, que apresenta grande semelhança com a cópia francesa do Mosteiro de Clairvaux (ms. 177), actualmente conservada na biblioteca Municipal de Troyes. A partir do estudo em curso sobre o significado da cor na iluminura românica bem como da iconografia e do texto, acentuaram-se os enigmas acerca da origem e produção desta obra.
A apresentação estará a cargo de Rita Castro». In BNP

Cortesia da BNP/JDACT

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

BNP. Dous gigantes pintados cõ hũs bastões nas mãos. Gravuras chinesas de porta. «Estas gravuras, muito populares na China, e impressas através de xilogravura, representavam geralmente guardiões armados e em pose ameaçadora. Sendo usualmente afixadas nos portões ou portas exteriores dos pátios»

Cortesia da bnp

Mostra. Até ao pf dia 26 de Outubro de 2013. Galeria do Auditório.

«No âmbito da comemoração dos 500 anos de relações entre Portugal e China, a BNP apresenta uma exposição com 43 gravuras de porta chinesas dos séculos XVIII e XIX da colecção de Maia Amaral. Estas gravuras, muito populares na China, e impressas através de xilogravura, representavam geralmente guardiões armados e em pose ameaçadora. Sendo usualmente afixadas nos portões ou portas exteriores dos pátios, tinham por função afastar da casa espíritos e demónios.
A exposição apresenta quatro núcleos:
  • Gravuras de portões exteriores, 
  • Gravuras de portas de estábulos, 
  • Gravuras de portas interiores, 
  • Gravuras para ocasiões especiais.
Por sua vez, as gravuras de portas interiores destinavam-se a atrair coisas propícias, tais como a riqueza, a sorte ou a felicidade. São ainda produzidas gravuras específicas para os períodos de luto, para o casamento e para as portas dos quartos dos recém-casados. No cabeçalho, pormenor de A harmonia produz riqueza (Yi tuan he qi), um sempre-em-pé, cuja mensagem é a de que a harmonia produz bem-estar ou a boa-vontade atrai a Felicidade». In BNP

A amizade de Inês Cordeiro
Cortesia de BNP/JDACT

BNP. Os Manuscritos Jurídicos Iluminados. Quatro exemplos significativos. «… encontramos na Idade Média muitos estrangeiros em Portugal e muitos portugueses no estrangeiro: as universidades europeias atraem também muito portugueses…»

Cortesia da bnp

Seminário. Dia 5 de Setembro 2013. 18h00. Auditório da BNP

«Sexto encontro do ciclo de seminários Um mês, um códice iluminado, iniciativa do Instituto de Estudos Medievais (IEM) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL) em parceria com a Biblioteca Nacional de Portugal. Como já foi amplamente demonstrado por investigações históricas, as ligações de Portugal medieval com a Europa são muitas e expressam a sua identidade europeia. A circulação das obras jurídicas na Idade Média que se confirma pela presença de exemplares de manuscritos jurídicos estrangeiros em Portugal pressupõe a existência de viagens de clérigos, professores, estudantes das universidades.
De facto, encontramos na Idade Média muitos estrangeiros em Portugal e muitos portugueses no estrangeiro: as universidades europeias atraem também muito portugueses. Paris, Bolonha e Salamanca foram, durante o período medieval as mais frequentadas pelos mesmos. Houve-os também em Montpellier, Pádua, Pisa, Oxford, Toulouse e em tantos outros centros universitários. Na circulação de livros jurídicos verificamos um aspecto da influência das correntes culturais europeias em Portugal. Esta sessão tem como objectivo analisar estes fenómenos de influências, de mobilidade e de circulação de manuscritos e pessoas através da análise de quatro importantes manuscritos jurídicos iluminados medievais preservados na Biblioteca Nacional de Portugal. A apresentação estará a cargo de Maria Alessandra Bilotta». In BNP

A amizade de Inês Cordeiro

Cortesia de BNP/JDACT

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Camões. Poema. Camoneana 423. Almeida Garrett. «Saudade! Gosto amargo de infelizes, delicioso pungir de acerbo espinho, que me estás repassando o íntimo peito com dor, que os seios d'alma dilacera. - Mas dor que tem prazeres; - Saudade!»

jdact

Advertência
A índole do assumpto deste poema é absolutamente nova; e assim não tive eu exemplar, a que me arrimasse, nem norte, que seguisse

Por máres nunca d'antes navegados.

Conheço que elle está fóra das regras; e que, se pelos princípios clássicos o quiserem julgar, não encontrarão ahi senão irregularidades, e defeitos. Porém declaro desde já que não olhei a regras, nem a
princípios, que não consultei Horácio, nem Aristóteles; mas fui insensivelmente de pós o coração, e os sentimentos da natureza, que não pelos cálculos da arte, e operações combinadas do espirito. Também o não fiz por imitar o stylo de Byron, que tam ridiculamente aqui macaqueião hoje os Francezes a torto, e a direito, sem se lembrarem que para tomar as liberdades de Byron, e commetter impunemente seus  atrevimentos, é mister haver um tal ingenho, e talento, que com um só lampeijo de sua luz offusca todos os descuidos, e impede a vista deslumbrada de notar qualquer imperfeição. Não sou clássico, nem romântico: de mim digo que não tenho seita, nem partido em poesia (assim como em cousa nenhuma); e por isso me deixo ir por onde me levão minhas ideias boas ou más, e nem procuro converter as dos outros, nem inverter as minhas nas delles: isso é para litteratos de outra polpa, amigos de disputas, e questões, que eu aborreço.
A acção do poema é a composição, e publicação dos Lusiadas; os outros successos, que occorrem, são de facto episodicos, mas fiz per os ligar com a principal acção. Tam sabida é afabula, ou enredo dos Lusiadas, e a vida de seu auctor, que nem tenho mais explicações que fazer a este respeito; nem será diffícil ao leitor o distinguir, no meu opusculo, o histórico do imaginado: mas não separará de certo muita cousa, porque das mesmas ficções, que introduzi, tem sua base verdadeira as mais dellas.
Sóbre orthographia, (que é força cada um fazer a sua entre nós, por que a não temos) direi só que segui sempre a ethymologia em razão composta com a pronuncia; que accentos, só os puz onde, sem elles, a palavra se confundiria com outra; e que de boamente seguirei qualquer methodo mais accertado, apenas haja algum geral, e racionável em portuguez: o que tam fácil, e simples seria, se a nossa academia, e governo em tam importante cousa se empenhassem.
Hoje me veio ás mãos uma obra em francez de M. Denis, Scènes de la nature sous les tropiques, onde encontro um episodio sobre Camões, em que há parecenças com a minha obrinha. Como isto foi, melhor o dirá elle que eu, pois este poema se acha composto desde Julho passado, começou-se a imprimir em Janeiro corrente, e sai acabado da imprensa, hoje 22 de Fevereiro de 1825; a obra de M. Denis publicou-se em Dezembro p.p. É notável a coincidência, e muito me lisongeia.

CAMÕES
Canto Primeiro

Esta he a ditosa pátria minha amada,
A' qual se o ceo me dá que eu sem perigo
Torne com esta empresa já acabada,
Acabe-se ésta luz alli comigo.
In LUS., cant. III, est. 21

Saudade! Gosto amargo de infelizes,
Delicioso pungir de acerbo espinho,
Que me estás repassando o íntimo peito
Com dor, que os seios d'alma dilacera,
 - Mas dor que tem prazeres; - Saudade!
Mysterioso numen, que aviventas
Corações, que estalárão, e gottejão,
Não já sangue de vida, mas delgado
Soro de estanques lagrimas; - Saudade

Mavioso nome, que Iam meigo soas
Nos lusitanos lábios, não sabido
Das orgulhosas bocas dos Sycambros,
Destas alheias terras; - Oh Saudade!
Magico numen, que transportas a alma
Do amigo ausente ao solitário amigo,
Do vago amante á amada inconsolável,
E até do triste do infeliz proscripto,
 - Dos entes o misérrimo na terra -
Ao regaço da pátria em sonhos levas,
 - Sonhos, que são mais doces do que amargo,
Cruel é o despertar; - Celeste numen,
Se já teus dons cantei e os teus rigores
Em sentidas endeixas; se piedoso
Em teus altares húmidos de pranto
Depuz o coração, que inda arquejava
Quando o arranquei do peito malsoffrido
A' foz do Tejo, - Ao Tejo, o' deusa, ao Tejo
Me leva o pensamento, que esvoaça
Timido, e acovardado entre os olmedos.
Que as pobres aguas deste Sena regâo,
 - Do outrora ovante Sena. Vem no carro,
Que pardas rôllas gemedoras lirão,
A alma buscar-me, que por li suspira.
[…]

In Almeida Garrett, Camões, Poema, Camoneana 423, Paris, R. 32594, Livraria Nacional e Estrangeira, Rue Mignon, 2, faub. St. Germain, Biblioteca Nacional de Portugal (Biblioteca Nacional de Lisboa) 1825.

Cortesia da BNP/JDACT