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segunda-feira, 6 de junho de 2011

Elisa Neves Travessa: Jaime Cortesão. Política, História e Cidadania: Parte V. «Este herói de Cortesão correspondia à teorização de uma história pragmática, consubstanciada na apresentação de modelos de heroísmo moral e servindo-se do teatro como veículo privilegiado de apelar à consciência histórica do público que assistia à representação dos dramas, recorrendo à criatividade artística e à efabulação»

Cortesia de asa 

«O Infante de Sagres aproxima-se, no dizer do próprio autor, do modelo heróico e dramático criado por Oliveira Martins. Do complexo perfil do Infante traçado pelo autor «dos filhos de D. João I» é possível entrever algumas semelhanças com o Infante dramático de Cortesão.
Homem de acção e de missão, e não apenas um herói épico, que marca indelevelmente o percurso histórico da nação, e desta forma que Oliveira Martins o caracteriza. Eleva-lhe a vontade que o impelia para a acção energética. O seu Infante «era um homem-tipo, encarnara a arma nacional no momento histórico em que vivia».
No retrato romântico do Infante desenhado por Cortesão retomam-se muitas das teses oitocentistas e projecta-se a imagem de um herói possuidor de uma vontade exacerbada, quase transcendente, numa espécie de miscigenação entre o herói e a nação. Revela-se ainda o herói santo, pelas virtudes de homem religioso, imbuído de fé e de crença no futuro, num misto de messianismo e profetismo:

«Obedeci ao céu! Vim por mando divino.
Dar ao Homem e à Terra outro e maior Destino.
Por mando seu rasguei de sobre o Mundo a Treva (...)».

A prioridade dos descobrimentos portugueses e a ideia pré-determinada de chegar ao oriente projecta-se na figura do Infante.

Cortesia de eb1ancarcts  

Um herói com qualidades superiores, quase providencial, que não perde os atributos humanos, o Infante ama, sofre, angustia-se e revolta-se quando se vê obrigado a aceitar o sacrifício da vida do irmão para dar continuidade à sua missão patriótica e universalista.
Na descrição do ambiente cénico é ainda possível encontrar a imagem do Infante cientista, aliada à lendária existência de uma escola de cosmografia e náutica em Sagres: «A sala de estudo na casa do Infante em Sagres. (...) sobre a mesa livros, portulanos, a esfera armilar, poisando unicamente sobre um alto pé, duas pomas, a balestilha e o quadrante. Duma das paredes pende à astrolábio plano. (...) Mestres Jaime e Rodrigo, sentados junto da mesa, debruçados e atentos, lêem passagens de livros e vão confrontando num mapa».

Eis em largos traços a imagem do Infante de Sagres, «herói, génio e místico da acção», descobridor de novos mundos e, acima de tudo, «dum Homem Novo». Este herói de Cortesão correspondia à teorização de uma história pragmática, consubstanciada na apresentação de modelos de heroísmo moral e servindo-se do teatro como veículo privilegiado de apelar à consciência histórica do público que assistia à representação dos dramas, recorrendo à criatividade artística e à efabulação. Era a forma de fazer chegar factos e personagens da história nacional a um universo mais alargado de receptores, considerando o reduzido número daqueles que tinham acesso à leitura dos seus dramas ou obras de erudição histórica.

Cortesia de portocroftcultarte 

É com o mesmo fim reflexivo, educativo e patriótico que Cortesão, ao escrever o seu segundo drama, recorre ao lendário como veículo de divulgação histórica. Ideal pedagógico?
Sem dúvida. A efabulação da narrativa histórica, a idealização legendária, aliada à intenção de divulgação, pela representação dramática, viabilizavam o objectivo de despertar no público a vontade heróica, pela empatia e diálogo íntimo com a memória do glorioso passado nacional.

No prefácio ao drama «Egas Moniz», o autor justifica o recurso a algumas lendas mais características da época em que decorre a acção pela intenção de enriquecer o enredo dramático e «dar à obra mais sabor nacional». Não lhe interessa escrever uma obra erudita, embora reconheça, no período em que escreve, fundamentos e origens da nossa independência mais vastos que os atribuídos por Herculano, prefere utilizar as lendas enquanto «história idealizada pelo sonho colectivo», na «atmosfera ideal que o génio popular lhes criou». In Elisa Neves Travessa, Jaime Cortesão, ASA Editores, 1ª edição, Setembro de 2004, ISBN 972-41-4002-4, obra adquirida e autografada em Fevereiro de 2006.

A amizade de ENT.
Cortesia de Edições ASA/JDACT

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Jaime Cortesão. Política, História e Cidadania: Parte IV. «A sua peça, O Infante D. Henrique, respondia assim às inquietações do momento, transportando o entusiasmo heróico e epopeico para o público leitor e sobretudo para a plateia que assistiu aos seus dramas»

Cortesia de wikipedia

«Nos seus primeiros dramas, recuperando o gosto romântico pelo drama/ficção histórica, são escolhidos para protagonistas da acção figuras que encarnam virtudes heróicas em momentos decisivos da história nacional. Homens que pelas suas qualidades e virtudes, pelo seu heroísmo, são modelos a apresentar aos cidadãos, como guias da «transformação social». Uma vinculação à teoria de heroísmo romântico de Carlyle, que mais tarde confirmará. Procura Cortesão «génios da acção, aureolados por uma lenda de heroísmo ou santidade», que exprimissem de modo singularmente dramático a nostalgia de um destino heróico. Projectados no palco estes heróis eleitos adquirem vida e movimento dramático, ainda que por vezes efabulado, de forma a causar emoção e empatia num público vasto.
Cortesão esperava que este público fosse além do pequeno número de pessoas que então versava os estudos históricos. Um propósito claro de educação popular, apelando ao heroísmo, à imaginação e à memória colectiva, procurando também corresponder aos anseios e horizontes de expectativa do público. A par deste objectivo e complementando-o surge o recurso ao drama como forma de difusão e divulgação da História de Portugal, tendo como suporte o «individualismo romântico e a sua concepção heróica da história». Uma intenção pedagógica de divulgação cultural que recebe influências de autores oitocentistas. como Oliveira Martins.

jdact
Na generalidade, os dramas históricos não possuem a preocupação com a verdade histórica, à maneira positivista, não é no entanto de excluir a existência de uma intencionalidade «de verosimilhança e credibilidade histórica», aliada à expressão, imaginação literária e criatividade artística. A superioridade da intenção pragmática do drama em relação à «verdade histórica», documental e crítica, é confirmada pelo  autor:
  • «o que nos interessa, (...) não é a exacção histórica dos factos, aliás impossível de realizar, mas a pura representação dos sentimentos que os influíram».
O recurso à ficção não é incompatível e não elimina alguma preocupação com a veracidade histórica na caracterização das personagens e dos ambientes em que estas se movimentavam.
Definindo as bases para perceber as várias tendências que se expressam na literatura histórica ou de fundo histórico, Luís Reis Torgal identifica em Jaime Cortesão, e também em Raul Brandão, a procura de um
sentido de reconstrução nacional e também uma «concepção originária e idealista de República», que se revela na forma como a literafura se entranha na história, reflectindo muitas vezes as amarguras e anseios do presenter. O primeiro dos aspectos é referido por Cortesão quando esclarece que as suas intenções ao escrever um drama épico seriam as de divulgar «a participação heróica do povo português no maior esforço cìvìlizador do seu tempo».

Cortesia de purl
Por outro lado, estas reflexões e a escrita do primeiro drama enquadram-se no período em que Portugal discutia a sua intervenção no grande conflito mundial e daí acresce também a necessidade de buscar no passado exemplos que revigorassem os ânimos e as vontades para o dever ético e moral da participação da Pátria nesse drama da Humanidade. A sua peça, O Infante D. Henrique,  respondia assim às inquietações do momento, transportando o entusiasmo heróico e epopeico para o público leitor e sobretudo para a plateia que assistiu aos seus dramas. Jaime Cortesão participou activamente na propaganda intervencionista, quer no Parlamento, quer na direcção do diário portuense O Norte.No prólogo escrito no Porto, quando Portugal já tinha efectivado a sua participação na I Guerra, o apelo reveste-se de palavras de esperança e entusiasmo para os que partiram e para os que, sofrendo, ficaram:
«E já que hoje, como dantes
No tempo dos Navegantes,
Os heróis da tua terra
Vão às paragens distantes
Ganhar a honra na guerra
 (...)
Eis que brilha num clarão
A velha espada da Raça
De novo na sua mão».

Cortesia de becrevidago
Indagamos agora a simbologia que julgamos existir na escolha dos períodos da história de Portugal em que decorrem as acções dos dois dramas históricos. Ambos os heróis, o Infante e Egas Moniz, movem-se em contextos sociais e culturais, em épocas históricas, que se coadunam com a sua elevação e heroísmo épico:
  • a expansão marítima e a fundação da nacionalidade.
Dois períodos privilegiados por Cortesão, fundamentalmente o primeiro, na sua obra histórica. A eleição destes momentos da história nacional continha, no caso do drama, uma função explícita:
  • inspirados no passado e nos ideais de heroísmo nele existentes, procurava-se a unidade e a regeneração da Pátria.
A emoção, o messianismo, a vibração heróica aliados à construção simbólica e ao culto da Pátria presentes nos versos que se seguem revelam o sentido da obra:

«Ó guerreiros, navegantes,
E vós, ó altos infantes,
Acordai, voltai à vida;
Sede a Pátria ressurgida».

In Elisa Neves Travessa, Jaime Cortesão, ASA Editores, 1ª edição, Setembro de 2004, ISBN 972-41-4002-4, obra adquirida e autografada em Fevereiro de 2006.

A amizade de ENT.
Cortesia de Edições ASA/JDACT

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Jaime Cortesão: Parte III. Política, História e Cidadania (1884-1940). «Uma personalidade singular que ocupou lugar proeminente na cultura política e na cultura histórica do seu tempo, sobretudo pela afirmação de um combate político e no sentido de reavivar a consciência histórica e cívica»

Cortesia de lisboanoguiness

Com a devida vénia a Elisa Neves Travessa, publico algumas palavras do Prémio de História Contemporânea da Universidade do Minho, edição 2002.

O Teatro e a educação popular. Infante de Sagres, Egas Moniz, Adão e Eva em palco.
«Encontrámos no espólio de Jaime Cortesão e edição do texto da sua comunicação ao Congresso Nacional de Educação Popular na Universidade Livre, intitulada O Teatro e a educação popular (1922).
Curiosamente o texto impresso encontra-se corrigido e assinalado pelo autor. Não se sabe a que propósito, mas talvez com vista à apresentação da mesma comunicação noutro evento, o autor risca o título inicial e substitui-o por O Teatro do Povo.

Cortesia de editoraasa
Nesta pequena comunicação, Cortesão, baseando-se no pensamento de Guyau, considera que se deve atribuir à arte «um carácter e um fim social». Desta forma,confere um sentido pragmático à arte dramática no sentido em que esta, mais que nenhuma outra, procurava dar ao homem a «consciência directa da vida social», auxiliando o desenvolvimento e perfeição da consciência humana.
Reportando-se ao exemplo Grego, Cortesão entende que o teatro de cada povo nasceu sempre quando a sua consciência nacional atingiu a «plenitude do esforço e da finalidade». Seguindo esta lógica, em Portugal o teatro nacional nascera com Gil Vicente, num período áureo da história nacional, em pleno ciclo dos descobrimentos. Expressão de amor pátrio e exaltação heróica, é esta a dimensão que norteia a escrita do seu primeiro drama épico - O Infante de Sagres.

A humanidade, segundo Cortesão, atravessava uma crise singular na sua história, da qual resultaria a progressiva formação de uma «nova consciência colectiva», em que o povo influiria no sentido da civilização,e daí a superior função reveladora e educativa que o teatro poderia assumir junto desse destinatário carente de formação e cultura.

Cortesia de flickr
Passados cerca de 10 anos Cortesão continua fiel aos princípios por que pugnou nos primeiros anos da República, revelando marcas claras de patriotismo e nacionalismo literário e artístico.
No final da comunicação, numa concretização das propostas idealmente formuladas que lhe é particular, Cortesão sugere a criação de um «teatro ao ar livre, para o povo», que funcionasse como centro de «irradiação moral» - «Pela Arte e para a Humanidade», como havia dito Pottecher.
Nos prólogos, em verso, do drama épico O Infante de Sagres, perpassa a visão gloriosa da história pátria, o tom épico, epopeico e o estilo elevado e sublime que Cortesão imprime a esta peça. A arte, neste caso o drama, é posta ao serviço do ressurgimento nacional e torna-se verdadeira impulsionadora de novas construções idealisticamente concebidas. As palavras-chave dos prólogos, intencional e simbolicamente escritas em maiúsculas, confirmam-no: Mar, Pátria, Mundo; Navegantes, Nação, Raça, Beleza, Amor, Origem Materna (refere-se ao Porto), Portugueses, Aventura.

Cortesia de portugalsecreto  
Um espiritualismo, um idealismo heróico e um humanismo historicista coerentes com a herança romântica que também esboçou na poesia, que se expressa na conjunção das tradições heróicas e épicas da história nacional com o enaltecimento do perfil e da consciência dos génios iluminados que melhor encarnavam o ideal patriótico, capazes de inspirarem e de se transformarem em regra de vida no presente». In Elisa Neves Travessa, Jaime Cortesão, ASA Editores, 1ª edição, Setembro de 2004, ISBN 972-41-4002-4, obra adquirida e autografada em Fevereiro de 2006.

Continua.
Com a amizade de ENT.

Elisa Neves Travessa/Edições ASA/JDACT

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Jaime Cortesão: Parte II. Política, História e Cidadania (1884-1940). «Uma personalidade singular que ocupou lugar proeminente na cultura política e na cultura histórica do seu tempo, sobretudo pela afirmação de um combate político e no sentido de reavivar a consciência histórica e cívica»

Cortesia de Elisa Travessa

Com a devida vénia a Elisa Neves Travessa, publico algumas palavras do Prémio de História Contemporânea da Universidade do Minho, edição 2002.

«Durante os anos que frequentou a Escola Médico-Ciúrgica do Porto, Cortesão assumiu um papel preponderante na luta académica distinguindo-se como um dos principais Intransigentes contra a ditadura de João Franco. A repetição dos exames de todas as cadeiras do 2º ano do curso de Medicina (1906-07) denunciam o envolvimento na Greve Académica de 1907 e o ambiente de contestação vivido no meio académico, principalmente na Universidade de Coimbra, onde o movimento tivera origem.
Após completar o 4º ano na Escola Médico-Ciúrgica do Porto, Cortesão transfere a sua matrícula para Lisboa, onde frequenta o 5º ano. Termina o curso com a apresentação, em 1910 (depois da implantação da República), da tese - A Arte e a Medicina. Antero de Quental e Sousa Martins, em que contesta, no essencial, a teoria de Sousa Martins sobre Antero.
A dissertação de licenciatura, objecto privilegiado nesta fase do nosso estudo, comprova que os motivos da indecisão de Cortesão face à escolha do curso se mantêm e talvez - arriscamos - se tenham acentuado. Esta tese revela, por outro lado, a multiplicidade de formas de expressão e acção, a par do enunciado de muitos dos postulados essenciais do seu pensamento e das futuras produções.

Cortesia de sebodomessias

O título da dissertação poderia ser simplesmente O caso clínico de Antero de Quental. Crítica à Nosografia de Antero por Sousa Martins, mas, esclarece Cortesão, este estudo possui uma maior abrangência e não se confina a um trabalho de Medicina, é também um estudo de psicologia, de arte e de filosofia, para além de envolver uma questão moral: reabilitar a memória de Antero «como uma sagrada missão a cumprir».

Romero de Magalhães considera que, na referida dissertação, a Arte e a Medicina «emparelham, embora a arte preceda a medicina. A arte interveniente e não meramente contemplativo». O percurso de Jaime Cortesão, quer no âmbito da intervenção cívica, quer no que respeita à produção escrita, denunciam que a Arte, enquanto expressão suprema dos sentimentos e ideias, «expansão criadora» e criação original, ocupou sempre um lugar privilegiado nas actividades, projectos e produções em que o autor se envolveu.
Cortesão refere o texto de António Sérgio - Notas sobre os «Sonetos» e as «Tendências Gerais da Filosofia de Antero de Quental» (1909), reconhecendo nele «o primeiro trabalho sério no sentido duma crítica honesta à obra de Antero», um sentido que se estaria a esboçar na «moderna geração literária portuguesa». Nesta publicação do jovem Sérgio é possível perceber uma reacção ao cientismo naturalista, partilhada por Cortesão.

Cortesia de proencacortesaosergiosearanova

O motivo para a escrita das Notas «é a leitura de Antero por Sousa Martins e a crítica anteriana ao naturalismo». Quer Sérgio quer o jovem Cortesão discutiram e contestaram as ideias naturalistas de Sousa Martins, embora Cortesão o fizesse de forma mais desenvolvida e na dupla qualidade de médico e artista. Ambos recusaram o cientismo como explicação unívoca de uma obra literária. Na revista Serões, numa notícia bibliográfica, certamente da autoria de Sérgio, é feito o elogio da tese de Cortesão, sobretudo pelo que ela representa no combate à «teoria geral patológica do génio» defendida por Sousa Martins. Na opinião de António Reis e «a partir da comum admiração por Antero e da comum rejeição dos dogmas do naturalismo cientista que se estabelece a primeira ponte intelectual entre Cortesão e Sérgio, a partir da qual se abriria facilmente a via de uma amizade e de projectos comuns de intervenção cívica, que envolveriam os demais vultos desta nova geração, não sem que outras clivagens entre eles surgissem posteriormente». Clivagens que emergem logo no início do movimento da Renascença Portuguesa e que atingem maior expressão na polémica entre Cortesão e Sérgio, publicada nas páginas da revista A Vida Portuguesa, quinzenário da Renascença dirigido por Cortesão.
A tese de licenciatura mereceu ainda as críticas favoráveis de outros companheiros da Renascença. Leonardo Coimbra considera-a «um simpático protesto do poeta contra as agressões, que o sábio permitindo-se generalizações falsas, costuma fazer ao que está fora e além do seu seguro, quando bem limitado, campo de acção».

Cortesia de leiloes

Quer este, quer Raul Proença, ambos recenseadores da tese de Cortesão, acompanham o autor nas críticas ao cientismo e à visão determinista dos fenómenos sociais. Jaime Cortesão procura denunciar e criticar as desvantagens e os perigos de uma visão simplificadora de que Sousa Martins é simultaneamente «utente e vítima». Raul Proença corrobora o sentido da crítica de Cortesão e considera que Sousa Martins, numa análise puramente científica, ataca «o génio no que tem de mais livre e de mais criador». Um homem de génio não poderia ser considerado um degenerado apenas porque nele existiam desvios à dita normalidade ou vulgaridade, correndo o risco de considerar a sua espontaneidade e liberdade criadora como comportamentos e desvios patológicos. Proença acaba por fazer da sua recensão crítica «um pretexto para um verdadeiro ajuste de contas com todo o seu passado positivista e naturalista» e desvenda um Cortesão que vai além do simples autor de uma tese de Medicina. Elogia o artista, o poeta, o homem superior com virtudes que o aproximam da genialidade. Considera-o «uma energia cósmica, um fogo anímico, uma alma em chamas, uma torrente que se precipita».

Cortesia de leituragulbenkian

Mas Cortesão, para além destas incursões poéticas, empreende uma sistemática contestação à teoria de Sousa Martins, procurando demonstrar que este designou Antero de degenerado, consubstanciando-se apenas no princípio de que ele fugia à «média humana» e que esse desvio seria sempre negativo e doentio. A clara defesa de Antero e a procura da sua reabilitação moral resultam também da admiração que Cortesão sente pelo Poeta, pelo «divino Antero», como o considera, porque nele as leis da história identificavam-se com as da consciência e encarava a santidade cívica como «a última realização da liberdade». In Elisa Neves Travessa, Jaime Cortesão, ASA Editores, 1ª edição, Setembro de 2004, ISBN 972-41-4002-4, obra adquirida e autografada em Fevereiro de 2006.

Continua.

Com a amizade de ENT.
Elisa Neves Travessa/Edições ASA/JDACT

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Jaime Cortesão: Política, História e Cidadania (1884-1940). Parte I. «Uma personalidade singular que ocupou lugar proeminente na cultura política e na cultura histórica do seu tempo, sobretudo pela afirmação de um combate político e no sentido de reavivar a consciência histórica e cívica»

JDACT

Com a devida vénia a Elisa Neves Travessa, publico algumas palavras do Prémio de História Contemporânea da Universidade do Minho, edição 2002.

I - Os primeiros voos da Águia. A produção literária.
«Na tentativa de avaliar a influência que Cortesão exerceu na cultura portuguesa do século XX não podemos fixar-nos apenas na produção histórica do autor, embora mais conhecida e divulgada que a obra literária. Esta tem sido votada a algum esquecimento e, não obstante alguns estudos de reconhecido valor, não foi alvo de uma divulgação efectiva. No entanto, conhecer o Cortesão poeta, contista, memorialista e dramaturgo é tarefa essencial para compreender a complexa personalidade do homem e do cidadão.
Acresce ainda que o estudo da produção literária de Cortesão, cuja fase inicial e mais produtiva se pode situar nos primeiros anos da República, se revela fundamental, tanto para a compreensão da sua obra histórica, como para o conhecimento das temáticas e preocupações essenciais e o esclarecimento do papel interveniente que assumiu em projectos e iniciativas de natureza cívica, educativa e literária. Conhecer a trajectória destes primeiros voos de Cortesão no domínio da literatura é tarefa imprescindível para compreender os voos paralelos e futuros por outros céus.

O grupo fundador da revista «Seara Nova», reunido em Abril de 1921 em casa do Sr. José Leal.
Da esquerda para a direita, de pé:
pároco do Coimbrão, Teixeira de Vasconcelos, Raul Proença e Câmara Reis;
sentados: Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro e Raul Brandão
Cortesia de instituto-camoes

 
Entre a Medicina e a Arte
Cortesão, filho de António Augusto da Silva Cortesão e Norberta Cândida Zuzarte, teve uma infância marcada pela sensibilidade poética da mãe, que certamente influenciou as suas escolhas futuras, e pela formação e actividades do pai, médico, filólogo e professor da Escola Normal de Coimbra.
Jaime Cortesão nasceu em 29 de Abril de 1884 em Ançã, concelho de Cantanhede. A partir de 1890 passou a viver com a família em S. João do Campo, concelho de Coimbra. Nesta cidade frequentou o liceu, onde completou os estudos secundários. Inicia então um longo percurso pelo ensino superior que se prolonga entre os anos de 1898 e 1910, com algumas interrupções. Encontramos registos de matrículas nas Faculdades de Teologia, Direito, Matemática e Filosofia da Universidade de Coimbra. O primeiro registo diz respeito à matrícula em Grego, cadeira anexa à Faculdade de Teologia, ministrada por Manuel de Azevedo Araújo e Gama. A este interesse pelos estudos clássicos não é alheia a influência paterna que o próprio mais tarde confirmará.
No ano lectivo de 1899-1900, embora hesitando entre as Belas-Artes e o Direito, Jaime Cortesão opta por este último curso e matricula-se na respectiva Faculdade. A ambivalência entre o Direito e os Estudos Clássicos, determinada pela herança paterna, estará presente na pluralidade de vocações manifestadas ao longo da sua formação universitária. O interesse pelo Direito deriva provavelmente da necessidade de obter uma formação jurídica capaz de consubstanciar um papel interveniente na sociedade do seu tempo, na defesa da justiça social e por ela da liberdade. Também as questões da retórica, da eloquência e da oratória teriam despertado no jovem estudante de filologia o interesse pela formação em Direito. Contudo, não seria esta a sua última opção.

Cortesia de almaviva 
A desistência da frequência do curso, passados dois anos, poderá relacionar-se com algum desalento face ao ambiente pedagógico vivido na Universidade de Coimbra neste período. O perfil corporativo, clerical, dogmático e tradicional manteve-se nesta instituição, mesmo após a implantação do regime liberal. Só durante a I República os Governos Provisórios promulgaram legislação que visava abolir certas práticas e cerimónias, como sejam, os juramentos católicos obrigatórios de estudantes e professores. Alguns dos docentes e muitos estudantes adoptaram posturas contestatárias e inovadoras, perfilhadas pelo jovem Cortesão, nos anos que antecederam o regime republicano. Reivindicações marcadas, na maior parte dos casos, pela defesa de princípios e valores republicanos e democráticos, contaminadas pelo ambiente anarquista e libertário de grande parte do escol estudantil.
Não obstante estas posições reformadoras a Universidade de Coimbra continuava a ser, no essencial, uma instituição e uma comunidade conservadora no plano dos conteúdos programáticos, nos métodos e estratégias de ensino, no relacionamento com os sectores político e religioso e no perfil dos docentes e de uma parte considerável da população escolar. Este ambiente proporcionou um crescendo das contestações estudantis nos anos que antecedem a instauração da I República.


Cortesia destatic.publico
Nas opções divergentes, face ao ensino oficial instituído, veiculadas no discurso contestatário estudantil a que Cortesão se vincula, estão presentes as sementes da futura acção pedagógica que empreenderá. Em ebulição no seu espírito estaria, embora sem formalização específica, a crença nas potencialidades regeneradoras da educação, como premissa essencial para a modernização, democratização e laicização do ensino e, por inerência, da sociedade portuguesa. Princípios vinculados ao discurso pedagógico republicano e nas palavras de alguns docentes que contestavam o ensino ministrado na Universidade de Coimbra e pugnavam pela sua reforma institucional e pedagógica.
Cortesão continua a frequentar a Universidade até ao ano lectivo de 1903-1904. Regista nova matrícula no 1o ano do curso de Direito em 1900, nas três cadeiras obrigatórias. Entre os seus professores encontram-se os nomes de Avelino César Augusto Maria Calisto, Álvaro da Costa Machado Vilela, lente substituto de Exposição Histórica do Direito Romano, e Guilherme Alves Moreira, grande impulsionador do estudo científico do Direito Civil em Portugal. Depois de interromper os estudos por um ano, Cortesão opta pela matrícula na Faculdade de Matemática, como aluno ordinário, frequentando as duas cadeiras obrigatórias do 1º ano do Curso Geral de Matemática e a Cadeira Subsidiária de Desenho, leccionada pelo então Bacharel José Luís d'Andrade Mendes Pinheiro. Não conhecemos as motivações de Cortesão para a escolha deste curso. Podemos apenas interpretá-la como um afastamento face ao estudo do Direito e à área de letras (Grego) para se aproximar da área científica (Medicina). Por outro lado, não restam também dúvidas relativamente ao desalento que manifestou face aos métodos de ensino praticados na Universidade de Coimbra. Este facto teria contribuído para que orientasse a sua formação académica por caminhos tão diversos.

Cortesia de arquivohistoricomadeira
No ano lectivo de 1902-1903, em simultâneo com a frequência do curso de Matemática, matricula-se em todas as cadeiras do curso de Filosofia, como aluno voluntário. Estes cursos tinham cadeiras comuns, é o caso de Álgebra Superior, 2ª cadeira do curso de Filosofia, que os alunos frequentavam na Faculdade de Matemática. Pela análise do seu sinuoso percurso académico julgamos poder considerar que a frequência de dois anos (1902-1904) na Faculdade de Filosofia se refere não à matrícula no Curso Geral mas, sim, nos dois primeiros anos do Curso Preparatório de Medicina. A confirmar esta hipótese acrescenta-se o facto de Cortesão frequentar o Curso de Filosofia na classe de aluno voluntário, e dos dois primeiros anos do Curso Preparatório para Medicina coincidirem com os do Curso Geral da Faculdade de Filosofia.
Para além disso, Cortesão matricula-se como aluno voluntário na cadeira de Álgebra da Faculdade de Matemática no ano lectivo de 1903-1904, cadeira obrigatória, como referimos, do lº ano do curso de Filosofia, e como tal também do Curso Preparatório de Medicina.

Cortesia de livrariapasargadamultiply
A inflexão nos estudos universitários - do Direito para a Medicina -, denuncia a necessidade de enveredar pelos caminhos de uma formação académica que lhe permitisse contribuir efectivamente para o progresso da humanidade no sentido do bem-estar e da harmonia física e espiritual, «em nome da Verdade e da Justiça». Um certo espírito de missão e a influência paterna também não seriam alheios a esta opção e à determinação pela matrícula no curso de Medicina na Escola Médico-Ciúrgica do Porto, que frequentou até 190920. Consideramos terminado o seu percurso académico com a finalização deste curso, mas não podemos encerrar o âmbito da sua vocação. Cortesão exerceu durante muito pouco tempo medicin e as classificações obtidas, durante a frequência do curso, denunciam que esta formação foi mais circunstancial que vocacional. Para além disso prenunciam o percurso multiforme de Cortesão e a preferência por outras áreas do conhecimento, como provam a sua produção literária e a dedicação à investigação histórica». In Elisa Neves Travessa, Jaime Cortesão, ASA Editores, 1ª edição, Setembro de 2004, ISBN 972-41-4002-4, obra adquirida e autografada em Fevereiro de 2006.

Continua.

Com amizade.
Elisa Neves Travessa/Edições ASA/JDACT