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quarta-feira, 1 de março de 2023

A História do Bichinho-de-Conta. Tiago Rebelo. «Esta enxurrada de acontecimentos funestos e traumatizantes decorrera nos últimos anos, já depois do arrasador terramoto que destruíra Lisboa, Cascais, o Algarve…»

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«(…) Normalmente, Maria Antónia cobria-se de rigoroso luto e de muitas cautelas. Ficava no seu canto, tratava da sua vida, não dava nas vistas. Era sensato uma pessoa ser discreta naquela época de grandes perseguições. Ainda estava no espírito de todos os acontecimentos que cobriram de sangue a recente história do reino. E, por mais anos que passassem, não seriam esquecidos. Por ordem do rei José I, que era o mesmo que dizer por ordem do seu ministro Sebastião José Carvalho Melo, Leonor Tomásia Távora fora decapitada no patíbulo; o marido, os filhos e o genro tinham sido despedaçados a golpes de maço; o duque de Aveiro tivera a mesma sorte e o resto da família e outras dezenas de fidalgos estavam há anos enterrados vivos nas enxovias das prisões do Estado. Os padres da Companhia de Jesus, tinham sido presos e expulsos, do reino com aviso para não voltarem. Todos eles, nobres e padres, foram considerados traidores e acusados de uma conspiração para matar o rei.

José I voltava clandestino de um encontro nocturno com a amante, Teresa de Távora, quando foi surpreendido por uma emboscada. Desse atentado, a única prova concreta era um ferimento horrível no braço de Sua Majestade e os estragos das balas na carruagem do seu criado, o sargento--mor Pedro Teixeira. Quanto aos supostos conspiradores, que foram presos, julgados e executados, nunca se provou verdadeiramente a sua culpa. O que se provou sim foi que a autoridade de Sebastião José Carvalho Melo era mais poderosa do que qualquer ler e capaz de manipular o processo que os condenou.

Esta enxurrada de acontecimentos funestos e traumatizantes decorrera nos últimos anos, já depois do arrasador terramoto que destruíra Lisboa, Cascais, o Algarve e muitas outras regiões do reino. Tinham passado doze anos e quatro meses desde a catástrofe, mas as ruas da capital continuavam cheias de buracos, de lama e de montes de entulho no lugar das casas de antigamente. O lixo amontoava-se ao ar livre e cães esfomeados e raivosos deambulavam em matilha pelos escombros da cidade». In Tiago Rebelo, A História do Bichinho-de-Conta, Edições ASA II, 2022, ISBN 978-989-235-394-4.

Cortesia de ASA/JDACT

JDACT, Tiago Rebelo, Literatura, História, Século XVIII,

A História do Bichinho-de-Conta. Tiago Rebelo. «A avó respirou fundo e acabou de lhe compor o vestido com gestos práticos e enérgicos. Maria Antónia parecia ter uma camada de gelo…»

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«(…) A porta abriu-se de rompante e Maria Antónia São Boaventura Monteiro Paim entrou no quarto como um furacão. A avó surpreendeu Isabel Juliana sentada no estrado, afundada no vestido de noiva, toda dobrada, com os cotovelos apoiados nos joelhos e a testa deitada na palma das mãos. Ela levantou a cabeça, lívida, e a avó teve a sensação de ver um fantasma. O que se passa consigo, menina? A neta fitou-a com os olhos marejados de profunda tristeza. Eu não quero casar, avô, implorou. Disparate, menina! Levante-se, que vai ficar toda amarrotada, ordenou-lhe no seu tom seco e frio.

E ela levantou-se logo, ainda que desconcertada com a reacção da avô ao seu derradeiro e lancinante pedido de ajuda. Maria Antónia, simplesmente, ignorou-o. E tinha boas razões para isso. Andavam naquele braço-de-ferro há meses e não havia mais nada a debater sobre o assunto. Isabel Juliana teria de casar nesse mesmo dia com José Francisco Carvalho Melo Daun, filho segundo do conde de Oeiras, de 14 anos completados há dez dias.

A avó respirou fundo e acabou de lhe compor o vestido com gestos práticos e enérgicos. Maria Antónia parecia ter uma camada de gelo, não se lhe via uma emoção, mas essa aparente insensibilidade era uma defesa. Debaixo daquela carapaça de inflexível devota havia medo. O marido faltara-lhe há vinte anos e a responsabilidade da sobrevivência da família caíra-lhe inteiramente nos braços. Tivera os seus momentos de pânico, era certo, mas o tempo apaziguara a insegurança, dera-lhe experiência, tornara-a mais confiante. Ao final da tarde, rezava sempre o terço no oratório da casa e, à noite, no silêncio trevoso do quarto, conferenciava com o falecido marido, aconselhava-se com o seu Rodrigo. Estes dois hábitos ajudavam-na muito a manter o controlo e a serenidade para tomar as decisões mais difíceis». In Tiago Rebelo, A História do Bichinho-de-Conta, Edições ASA II, 2022, ISBN 978-989-235-394-4.

 Cortesia de ASA/JDACT

JDACT, Tiago Rebelo, Literatura, História, Século XVIII,

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

A História do Bichinho-de-Conta.Tiago Rebelo. «Isabel Juliana revelava-se determinada e senhora de uma coragem notável, de tal modo que às vezes fazia esquecer que não passava de uma menina de 14 anos. Era o dia 11 de Abril…»

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«No dia do seu casamento, Isabel Juliana teve um ataque de pânico à beira da cerimónia. Estava há largos minutos pronta, no seu soberbo vestido de noiva em tule, com as rendas, os bordados, a saia volumosa e uma extensa cauda. Levava o exuberante cabelo castanho muito bem penteado e apanhado com ganchinhos escondidos. E usava um véu a cobrir-lhe a cabeça. Passara a última hora a chorar no quarto de vestir, rodeada pelas duas criadas, Engrácia Joaquina e Maria Joaquina, enquanto a costureira dava os derradeiros retoques no seu lindo vestido branco, com a ajuda de uma jovem tímida e assustadiça que tremia a cada ordem seca da mulher. Já para a noiva, a costureira era só delicadezas e, como atribuiu as lágrimas aos nervos, foi apaziguando-a, dizendo que ia correr tudo pelo melhor. Pois bem, não ía!

Isabel Juliana revelava-se determinada e senhora de uma coragem notável, de tal modo que às vezes fazia esquecer que não passava de uma menina de 14 anos. Era o dia 11 de Abril, a Primavera ainda agora chegara e ela só faria quinze em Dezembro. Estava-se em 1768. Sebastião José de Carvalho Melo, conde de Oeiras e omnipotente ministro do senhor dom José, punha e dispunha do reino e dos vassalos de Sua Majestade com uma amplitude muito lata. Extremamente lata, na verdade. E era a este homem, todo-poderoso e que ninguém ousava contrariar, que Isabel Juliana Sousa Coutinho Paim, uma criança magrinha de olhos escuros, fazia frente. Ela mantinha-se de pé, sem se mexer, em cima de um pequeno estrado, um quadrado de madeira da altura de um degrau, que facilitava o trabalho à costureira enquanto esta andava à roda dela com linhas, agulhas e alfinetes.

Justamente, pensou Isabel Juliana, muito direita, olhando a parede com a vista turva de tanto chorar, o que lhe interessava se o vestido ficava perfeito? De resto, parecia-lhe que ficara pronto há bastante tempo e que a mulher jâ nada tinha a fazer, senão fingir melhoramentos para agradar a menina. Saiam todas, ordenou, de súbito, Isabel Juliana. A costureira interrompeu o que fazia, ergueu os olhos por cima dos óculos, e protestou: Não posso sair agora, dona Isabel Juliana. Temos de acabar isto o quanto antes. Está terminado. Saiam todas, já. Preciso de ficar sozinha. A costureira consternada, a sua ajudante, as duas criadas, saíram. Isabel Juliana ficou, como se hipnotizada, a olhar a porta que se fechou. Mas logo um medo terrível tomou conta dela. O coração acelerou e toda ela tremia e transpirava. Teve até dificuldade em respirar. Por instantes, acreditou que morria. Antes morresse..., pensou». In Tiago Rebelo, A História do Bichinho-de-Conta, Edições ASA II, 2022, ISBN 978-989-235-394-4.

 Cortesia de ASA/JDACT

 JDACT, Tiago Rebelo, Literatura, História, Século XVIII,

quinta-feira, 16 de julho de 2020

O Galante. Século XVIII. 1900. Cavaleiro de Oliveira. «O amor é o complemento e compêndio de todas as leis. Consoante o verbo divino e por sua vera essência pode-se-lhe chamar também caridade»

Cortesia de wikipedia e jdact

Arte de amar; galãs e galantins. Libertinagem não é amor
«Chegado à idade dos cinquenta, ainda não renunciei ao amor. Sei muito bem onde estou e é por isso mesmo que me decido a falar antes do ano que vem, que me carregará mais um pouco, quanto basta para ter menos direito de o fazer. As pessoas de idade não estão aptas a versar semelhante matéria; devem ocupar-se com as coisas do outro mundo de preferência a coisas terrenas, sustentara moços impertinentes. É bem verdade,
Todavia:

L'amour qui nous attache aux beautés éterneiles
N'étouffe pas en nous l'amour des temporelles.

O homem, emquanto homem, é incapaz de desembaraçar-se desta paixão; vive, tem de amar; vive porque ama. Certo que o amor, nos velhos, é susceptível de derivantes para as riquezas, as honrarias, as dignidades. Simplesmente tudo isto, perfeitamente cómodo e cobiçável, pouco é na vida. Francisco Solano, secretário de embaixada em Portugal, ao tempo de Pedro II, e que foi das minhas relações em Viena, onde vivia ainda em 1744, tinha setenta e cinco anos e comportava-se como um rapaz de vinte. Seu bel-prazer era falar de amor e de namoros e cultivar a galantaria. Ninguém lhe dissesse que o amor se cifrava numa fonte de dissabores. A moral, que lhe era própria, ditava-lhe precisamente o contrário; daí o seu conselho aos rapazes:

Soyez toujours amoureux;
C’est le moyen d'être heureux.

O conde Copola, que seguia o partido de Carlos III, emquanto Solano estava ao serviço do imperador Carlos VI, declamou um dia diante dele:

La vieillesse affaiblil le soldal et l’amant,
La jeunesse en tous deux triomphe également,
Tons deux sont sans honneur quand ils sont sans courage.

Tanto bastou para Solano, sentindo-se melindrado em seus brios, romper as relações com o conde. Luiz da Cunha, que representou Portugal no Congresso de Utrecht e foi ministro plenipotenciário em Londres, na Haia e em Paris, onde faleceu no ano de 1750, amou até à última. As suas aventuras foram muito faladas em toda a Europa, mormente em Paris onde estadeou como amante madame Salvador, dama de origem israelita, com farta parentela em Inglaterra e Holanda, ia êle nos oitenta anos. Esta paixão prejudicou muito o seu nome, porque a França é o país do bom senso.
Tive ocasião de conhecer Luiz da Cunha na Haia, à volta de 1734, e mesmo de cear na companhia dele e da amante. O seu carácter e o seu temperamento amoroso foram-me assim desvendados. A arte de ser feliz está em amar, dizia-me êle. A melhor página da vida escreve-a a paixão, com os seus tormentos, dúvidas e desesperos. Prazeres onde não entre o amor são uma sensaboria. Madame Salvador, ainda mais espirituosa que bela, cantava às vezes, bem embora a sua voz não lhe valesse as honras de cantarina, uma canção que êle muito apreciava:

Que peut-on mieux faire
Qu'aimer et que plaire?
C’est un soin charmant
Que 1'emploi ã'un amant.
Quelle chaíne,
Qu'un amant preune,
La liberte n'a rien qit soit si doux.
                                                     

Luiz da Cunha, homem de alta envergadura como era, tinha o fraco pelas mulheres, e a amante, com duas piruetas e uma ária de ópera, levava-o aonde muito bem lhe aprouvesse. Luiz Álvares Aguiar, prebendado de S. Jorge, em Lisboa, foi incorrigível erotómano até o fim da vida. Desgotoso com cortar relações de amor, que tinham raízes profundas, acicatado pelo temperamento de fogo, vingou-se em arranjar uma espécie de serralho com tenras e jovens beldades de que se inculeava o director espiritual, mas de que era em realidade o incondicional sultão. Todavia, nem por palavras nem por obras se denunciava nele o luxurioso. A sua reserva quebrava-se apenas com dizer:

O amor é o complemento e compêndio de todas as leis. Consoante o verbo divino e por sua vera essência pode-se-lhe chamar também caridade.

E, em verdade, posto amasse de morte as raparigas bonitas e de boa condição, a sua boca andava cheia do amor de Deus. Eu próprio o cria inundado desse amor a avaliar pelas grandes obras de caridade que tão desinteressadamente praticava. Denunciaram-no ao santo tribunal da Inquisição (maldita) como pervertedor de donzelas, em despeito dos seus sessenta e cinco anos de idade». In Cavaleiro de Oliveira, Amor e Amores, 1751, O Galante. Século XVIII, 1900, RB Rosenthal, Lisboa, Tradução de Aquilino Ribeiro, Imprensa Portugal-Brasil, Livraria Bertrand, 1900.

Cortesia de Imprensa Portugal-Brasil/Livraria Bertrand/JDACT

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

A Religiosa. Denis Diderot. «Deteve-se e, dirigindo-me um olhar terrível, disse-me: saia! Se ele fosse meu pai, não lhe teria obedecido, mas não era»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Nunca abusei das facilidades que me dá meu esposo, mas todos os dias guardo o que, de vez em quando, obtenho da sua largueza. Vendi as minhas jóias e ele deixou-me dispor, à minha vontade, do dinheiro que obtive com a venda. Gostava de jogar, mas já não jogo; gostava de espectáculos, e privei-me deles; gostava de companhia, e vivo retirada; gostava de luxo, e renunciei a ele. Se entrar para freira, como é minha vontade e do senhor Simonin, o seu dote será o fruto dos meus esforços quotidianos. Mas, mãe, disse-lhe eu, entra nesta casa muita gente de bem; talvez haja algum que, satisfeito comigo, não exija nem sequer as poupanças que fez para o meu dote. Não pense nisso. O escândalo perdeu-a. Não tem remédio o dano? Não, não tem. Mas, mesmo que não encontre marido, é necessário fecharem-me num convento?
A menos que queira perpetuar a minha dor e o meu remorso até que a morte me feche os olhos. Imagine: as suas irmãs, nesse momento, estarão à volta do meu leito; se a vejo entre elas, veja qual será o efeito da sua presença nesses últimos momentos! Minha filha, por muito que me pese, tenho de chamá-la assim porque o é, as suas irmãs têm, por lei, um nome que a si foi dado por um crime; não aflija uma mãe que está a morrer; deixe-a descer à sepultura em paz. Assim, pode dizer a si mesma, quando chegar a sua hora de comparecer perante o grande juiz, que reparou a falta quando lhe foi possível; que pode afirmar que depois da morte da sua mãe não levou a discórdia ao seu lar e que não reivindicou direitos que não tinha. Mãe, disse eu, não seja isso a preocupá-la. Chame um advogado e diga-lhe que lavre uma acta de renúncia. Eu assino tudo o que quiser. Isso não é possível: um filho não se deserda a si mesmo; castigam-no, assim, o pai ou a mãe quando justamente irritados. Se Deus quiser chamar-me amanhã, amanhã terei de chegar ao extremo de confessar tudo a meu marido, para que, de comum acordo, possamos tomar medidas. Não me exponha a uma indiscrição que me fará odiosa aos seus olhos, e cujas consequências a desonrariam a si. Se me sobrevivesse, ficaria sem nome, sem fortuna e sem estado. Diga-me, desgraçada, que vai ser de si? Que ideia quer que leve quando morrer? Teria de dizer ao seu pai... O quê? Que não é sua filha!... Minha filha, se atirando-me aos seus pés obtivesse de si... Mas não ouve nada. Tem a alma inflexível do seu pai...
Neste momento, entrou o senhor Simonin. Viu o transtorno em que estava a mulher. Amava-a e era violento. Deteve-se e, dirigindo-me um olhar terrível, disse-me: saia! Se ele fosse meu pai, não lhe teria obedecido, mas não era. E acrescentou, dirigindo-se à criada que me alumiava o caminho: diz-lhe que não volte a aparecer. Fechei-me, outra vez, na minha pequena prisão. Pensei no que a minha mãe me tinha dito. Ajoelhei-me e pedi a Deus que me inspirasse. Rezei durante muito tempo e permaneci com o rosto por terra. Quase nunca se invoca a voz do céu, só quando não se sabe o que decidir e é raro que, então, o céu não nos aconselhe a obedecer. Foi esse o partido que tomei. Querem que seja religiosa. Quem sabe se é essa, também, a vontade de Deus. Pois bem, sê-lo-ei. Já que tenho de ser desgraçada, não me importa onde vou sê-lo! Recomendei à minha criada para me avisar quando o meu pai saísse. No dia seguinte, pedi para ver minha mãe. Ela fez-me saber que tinha prometido o contrário ao senhor Simonin, mas podia escrever-lhe com o lápis que me tinham dado. Escrevi, pois, sobre um bocado de papel (esse papel fatal foi descoberto e utilizado contra mim): mãe, afligem-me muito todas as penas que lhe causei, e peço-lhe perdão por elas. Não desejo fazê-la sofrer mais. Ordene-me tudo quanto desejar. Se é sua vontade que entre num convento, desejo que seja, também, a vontade de Deus.
A criada pegou no papel e levou-o a minha mãe. Voltou a subir pouco depois e disse-me com certo arrebatamento: menina, se só era necessária uma palavra para fazer a felicidade do seu pai, da sua mãe e a sua, porque tardou tanto em dizê-la? O senhor e a senhora têm um ar que nunca lhes tinha visto desde que aqui estou. Discutiam constantemente por sua causa. Graças a Deus não voltará a acontecer... Enquanto me falava, pensei que tinha acabado de assinar a minha sentença de morte, e este pressentimento, se o senhor me abandonar, tornar-se-á realidade. Passaram alguns dias sem que tenha ouvido falar de nada». In Denis Diderot, A Religiosa, 1796, Editora Publicações Europa-América, 1973, ISBN: 978-972-101-915-7.

Cortesia de EPEuropa-América/JDACT

domingo, 8 de dezembro de 2019

A Religiosa. Denis Diderot. «Era tarde. Durante grande parte da noite sonhei com o que acabavam de me revelar e o mesmo aconteceu no dia seguinte. Não tinha pai; os escrúpulos tinham-me arrancado a minha mãe»

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«(…) Para mais, não lhe escondo que o abandono aparente da sua mãe, a sua obstinação em fechá-la e outras coisas que agora não recordo, mas das quais soube há algum tempo, produziram no seu pai o mesmo efeito que tiveram em si: suspeita sobre o seu nascimento e tem suspeitas acerca da sua mãe; não é segredo que já não tem dúvidas de que só é sua filha segundo a lei que atribui os descendentes a quem tem o título de esposo. Vamos, menina, é boa e sensata. Pense no que acaba de saber. Levantei-me e comecei a chorar. Vi que também ele se havia enternecido; levantou, suavemente, os olhos aos céu e acompanhou-me. Fui ter com a criada, subimos as duas para a carruagem e voltámos para casa.
Era tarde. Durante grande parte da noite sonhei com o que acabavam de me revelar e o mesmo aconteceu no dia seguinte. Não tinha pai; os escrúpulos tinham-me arrancado a minha mãe; as precauções que tinham sido tomadas para que não pudesse aspirar a um nascimento legítimo; nenhuma esperança, nenhum recurso. Talvez, se mo tivessem explicado antes, depois de terem casado as minhas duas irmãs, se me tivessem deixado em casa, que era muito frequentada, talvez tivesse encontrado alguém que achasse dote suficiente o meu carácter, o meu engenho e os meus talentos. Isso não era completamente impossível, mas o escândalo que eu tinha dado no convento tornava tudo mais difícil. Só uma firmeza fora do comum permitia que uma jovem de dezassete ou dezoito anos tivesse chegado àquele extremo. E os homens apreciam muito esta qualidade, mas preferem não a encontrar nas mulheres com quem casam. No entanto, era um recurso que se podia experimentar antes de tomar outras medidas. Decidi confiar-me à minha mãe e pedi-lhe uma entrevista, que me foi concedida.
Era Inverno. Estava sentada à lareira, num cadeirão; o ar severo, os olhos fixos e a expressão imóvel. Aproximei-me, atirei-me a seus pés e pedi-lhe perdão por todas as minhas culpas. Vai merecê-lo ou não, respondeu-me, depende do que me diga. Levante-se. O seu pai está ausente; tem tempo para se explicar. Viu o padre Serafim, já sabe quem é e o que pode esperar de mim, se é que não quer castigar-me toda a minha vida por uma falta que cometi e que já paguei com juros. Pois bem, filha, o que espera de mim? O que é que resolveu?
Mãe, respondi-lhe, sei que nada tenho e que a nada devo aspirar. Estou longe de querer aumentar as suas penas, sejam elas quais forem; talvez me tivesse encontrado mais submissa à sua vontade se me tivesse contado algumas circunstâncias das quais era difícil eu suspeitar. Mas, finalmente, sei quem sou e só me resta fazer aquilo que deve fazer alguém no meu estado. Já não me surpreendem as diferenças que fizeram entre mim e as minhas irmãs. Reconheço que são justas e concordo com elas; mas continuo a ser sua filha: trouxe-me no seio e espero que não se esqueça disso.
Ai de mim!, exclamou ela, vivamente. Fiz por si tudo o que me foi possível! Está bem, mãe, disse-lhe eu, devolva-me a sua bondade; devolva-me a sua presença; devolva-me a ternura daquele que acredita ser meu pai. Pouco falta, exclamou ela, para que também ele esteja tão seguro do seu nascimento como nós as duas. Sempre que está consigo oiço as suas reprovações; é a mim que as dirige, pela dureza que emprega consigo. Nunca espere dele sentimentos próprios de um pai terno. Além de mais, tenho de lhe confessar que me recorda uma traição, uma ingratidão tão odiosa de outro homem que não posso suportar a ideia; esse homem interpõe-se, sem cessar, entre nós as duas, afastando-me, e o ódio que lhe tenho a ele estende-se a si. Como!, disse-lhe. Só posso esperar de si e do senhor Simonin que me tratem como uma estranha, uma desconhecida que recolheram por caridade?
Nem eu nem ele podemos fazer mais nada. Minha filha, não envenene a minha vida por mais tempo. Se não tivesse irmãs, eu sei o que podia fazer; mas tem duas, e ambas têm uma família numerosa. Há muito que a paixão se acabou; estou consciente outra vez. Mas, e aquele a quem devo a vida? Já não existe. Morreu sem se lembrar de si, e essa é a menor das suas faltas... Neste ponto, o seu rosto alterou-se; os olhos faiscavam-lhe e a indignação apoderou-se dela; queria falar, mas não pôde articular uma palavra, porque o tremor dos lábios a impedia. Estava sentada; baixou a cabeça até às mãos para me esconder o violento arrebatamento que a tomou. Permaneceu assim algum tempo e, depois, levantou-se. Deu algumas voltas pelo quarto sem dizer palavra; continha as lágrimas, que caíam com dificuldade, e dizia: o monstro! Se dependesse dele, tinha-a afogado no meu seio por todas as penas que me causou; mas Deus conservou-nos uma à outra para que a mãe expiasse a falta por meio da filha... Minha filha, não tem nada e não vai ter nunca nada. O pouco que lhe posso dar tirei-o às suas irmãs; são estas as consequências de uma fraqueza. No entanto, na hora da minha morte espero não ter nada de que arrepender-me, pois ganhei o seu dote com as minhas economias». In Denis Diderot, A Religiosa, 1796, Editora Publicações Europa-América, 1973, ISBN: 978-972-101-915-7.

Cortesia de EPEuropa-América/JDACT

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Moll Flanders. Daniel Defoe. «Após prolongadas reflexões, pois na verdade eu começava a pensar com muita seriedade na situação, como até então não fizera, resolvi abordar a questão com ele primeiro, e não tardou para que surgisse uma oportunidade»

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«(…) Eu me achava agora numa situação realmente terrível e me arrependi de todo o coração por ter cedido ao irmão mais velho com tanta facilidade, não por um exame de consciência, mas em vista da felicidade de que poderia desfrutar e que agora se tornara impossível; como disse, não tinha grandes escrúpulos de consciência, no entanto não podia pensar em ser amante de um dos irmãos e esposa do outro, e então me ocorreu que o primeiro irmão prometera fazer-me sua esposa quando entrasse na posse da sua herança; daí a pouco voltei a pensar naquilo que por várias vezes já havia pensado, ou seja: ele não me dissera mais uma palavra sobre casar-se comigo depois de me haver conquistado como amante; e na verdade, até aquele momento, e embora tivesse pensado no assunto várias vezes, como já disse, aquilo não havia me causado nenhuma inquietação, já que ele não dava nenhum sinal de diminuir o seu afecto por mim, como também não havia reduzido a sua generosidade; teve o cuidado de me aconselhar a não gastar em roupas nem mesmo uma moedinha do que me dava, nem fazer o menor gasto extraordinário, uma vez que causaria estranheza à família, uma vez que todos sabiam que eu não poderia dar-me a esses luxos com os meus ganhos correntes, mas somente por meio de uma amizade particular, o que logo suscitaria desconfianças.
Não obstante, agora eu me via em sérios apuros e não sabia como proceder, e a principal dificuldade estava em que o irmão mais novo não só me assediava de perto como o fazia de forma que todos notavam: entrava no quarto da mãe ou no das irmãs, sentava-se e dizia mil coisas sobre mim, ou dizia-as a mim directamente, diante deles, se estávamos juntos; a situação tornou-se tão pública que toda a casa falava daquilo, e a mãe censurou-o, e a postura da família para comigo logo se alterou de forma radical, a mãe deixando escapar certas frases, como se pretendesse fazer com que eu largasse a família, ou, em termos claros, pôr-me no olho da rua, ora, eu tinha certeza de que a situação era do conhecimento do irmão mais velho, sendo possível apenas que ele não soubesse, como realmente ninguém mais sabia, que o irmão mais novo me propusera casamento; todavia, como era fácil compreender que a história chegaria mais longe, vi também que era absolutamente necessário que eu falasse sobre aquilo com o irmão mais velho, ou que ele falasse comigo, não sabia o que seria melhor, se eu deveria tomar a iniciativa ou deixar tudo como estava até que ele viesse ter comigo.
Após prolongadas reflexões, pois na verdade eu começava a pensar com muita seriedade na situação, como até então não fizera, resolvi abordar a questão com ele primeiro, e não tardou para que surgisse uma oportunidade, pois logo no dia seguinte o irmão mais novo foi a Londres, por conta de algum negócio, e a família saiu para fazer visitas, e ele, como já sucedera antes e, na verdade, como era seu hábito, veio passar uma ou duas horas com a sra. Betty. Logo que entrou e sentou-se, percebeu com clareza que meu semblante estava alterado e que eu não me portava com a desenvoltura e a simpatia costumeiras; não tardou para que se desse conta de que eu havia chorado, e me perguntou com palavras muito meigas o que acontecera e o que me incomodava; se pudesse, eu teria postergado a explicação, mas não conseguia dissimular, de modo que, depois de resistir por algum tempo a suas insistências para desabafar aquilo que eu tanto ansiava revelar, confessei que de facto me atormentava um facto cuja natureza não podia lhe ocultar, mas ao mesmo tempo não sabia como dizer, que se tratava de algo que, além de me surpreender, deixara-me sobremaneira perplexa, de forma que ignorava qual caminho seguir, a menos que ele me aconselhasse; ele então me disse, com muita ternura, que, fosse o que fosse, eu não devia permitir que aquilo me afligisse, pois ele me protegeria do mundo inteiro». In Daniel Defoe, Moll Flanders, 1722, A Vida Amorosa de Moll Flanders, Publicações Europa América, 1998, ISBN 978-972-104-443-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

Moll Flanders. Daniel Defoe. «Deu-se então um facto novo, que eu deveras não esperava e que me pôs em sérias dificuldades: esse jovem cavalheiro, que era franco e honesto…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Perdi e recobrei a cor do rosto à vista da bolsa e também do ardor da sua proposta, de modo que não conseguia articular palavra, o que ele percebeu facilmente; guardando a bolsa no seio, além de não opor-lhe resistência alguma, deixei-o fazer o que quisesse, quantas vezes quisesse; decretei, de uma vez por todas, a minha ruína, pois desde aquele dia, havendo perdido a virtude e a modéstia, nada de valor me restava que pudesse recomendar-me, fosse à bênção de Deus, fosse à solidariedade humana. Todavia, as coisas não terminaram aqui; fui à cidade, cumpri os encargos que ele me confiara diante das irmãs e voltei para casa antes que alguém pudesse julgar que eu demorava muito; meu cavalheiro só retornou muito tarde da noite, como dissera que faria, e não houve a menor suspeita por parte da família com relação a ele ou a mim.
Depois daquele dia tivemos frequentes oportunidades de repetir o nosso pecado, graças sobretudo às suas maquinações, mormente em casa, quando sua mãe e as jovens saíam para fazer visitas, ausências que ele vigiava com tal atenção que essas ocasiões nunca lhe escapavam; sempre sabia quando iam sair e por isso nunca perdia ensejo de me pilhar sozinha e com toda a segurança; e assim nos fartamos de nossos prazeres iníquos durante quase meio ano; não obstante, para minha enorme satisfação, não engravidei. Entretanto, antes que esse meio ano terminasse, seu irmão mais novo, a quem aludi no começo da narrativa, também passou a se insinuar, e numa tarde em que me encontrou sozinha no jardim, chegou com uma história do mesmo género, fazendo sinceras declarações de amor por mim e, em suma, pediu-me em casamento, de forma clara e respeitosa, antes de me fazer qualquer proposta de outra índole.
Senti-me desorientada e posta diante de um dilema extremo e nunca visto, ao menos por mim; resisti obstinadamente às suas propostas e comecei a armar-me de argumentos; expus-lhe a disparidade daquela união, a forma como seria tratada pela família, a ingratidão que a minha conduta representaria para os seus bondosos pais, que me haviam acolhido na sua casa em termos tão generosos quando eu me achava em condições tão humildes, em suma, disse tudo o que pude imaginar para dissuadi-lo do seu desígnio, salvo a verdade, o que decerto teria posto fim a tudo aquilo, mas que eu não ousava sequer pensar em mencionar. Deu-se então um facto novo, que eu deveras não esperava e que me pôs em sérias dificuldades: esse jovem cavalheiro, que era franco e honesto, tanto que não me propunha nada que também não o fosse, e procedendo como lhe ditava a própria integridade, não foi tão cuidadoso quanto o irmão para fazer com que o seu afecto pela sra. Betty fosse um segredo na casa, e embora não declarasse à família que já falara comigo a respeito, disse o suficiente para que as irmãs entendessem que ele me amava; a mãe também o percebeu, e, conquanto elas não me dissessem nada, falaram a ele, e eu me dei conta imediatamente que o comportamento delas em relação a mim tinha mudado, ainda mais que antes.
Vi a nuvem mas não previ a tempestade; foi fácil, como digo, perceber que o comportamento das mulheres comigo se modificara e que piorava dia a dia, até que, por intermédio da criadagem, fiquei ciente de que em pouco tempo seria convidada a deixar a casa. Não me alarmei, tinha plena segurança de que, partindo, havia quem provesse minhas necessidades e, principalmente, tinha motivos a cada dia para crer que engravidaria, e então seria obrigada a sair dali sem pretexto algum. Algum tempo depois, o cavalheiro mais jovem teve oportunidade de me dizer que o afecto que tinha por mim chegara ao conhecimento da família; não me culpava, disse, porque sabia perfeitamente como sucedera, e a causa fora a sua maneira clara de falar, uma vez que não guardara segredo de seu amor por mim, como poderia ter feito, e a razão da sua franqueza era o facto de estar decidido; declarou que se eu concordasse em aceitá-lo ele diria abertamente a todos que me amava e que tencionava se casar comigo; com efeito, o pai e a mãe poderiam se ressentir e nos tratar mal, porém ele já estava em condições de viver sozinho, tendo-se formado em direito, e sabia poder manter-me com a dignidade que eu tinha o direito de esperar; para finalizar, disse que, como acreditava que eu não me envergonhava dele, estava resolvido a tampouco envergonhar-se de mim, e que portanto não temia comprometer-se comigo agora, já que decidira tomar-me como esposa, de modo que tudo o que eu tinha a fazer era conceder-lhe minha mão e ele responderia por todo o resto». In Daniel Defoe, Moll Flanders, 1722, A Vida Amorosa de Moll Flanders, Publicações Europa América, 1998, ISBN 978-972-104-443-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

As Noivas do Sultão. Raquel Ochoa. «A nau, apenas preparada para a viagem de um dia, no máximo dois se algum percalço ocorresse, teve de enfrentar o oceano»

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13 de Julho de 1793
«(…) Desta vez não adormecera desleixadamente. Quando decidiu dormir, fechou o diário e embrulhou-o numa bata que usava para os trabalhos no jardim. Colocou-o debaixo de outras roupas no gavetão da cómoda. A letra era muito difícil de perceber, papel escrito e rasurado com frequência, má caligrafia, feita à pressa, escrita ilegível propositadamente para ninguém o ler? Quem poderia saber? Apenas conseguiu traduzir três páginas e depreendeu tratar-se do diário de alguma das concubinas iniciado na ilha da Madeira, provavelmente já depois de muitos dias à deriva no oceano, pois já se sabia que entre Rabat e o arquipélago demoraram pelo menos oito dias. O que lera intrigara-o imenso, mas colocarem o diário na sua bolsa, por si só, revelava-se desconcertante. Uma coisa era certa, referia-se a um registo íntimo sobre a agruta que aquelas mulheres haviam passado, em inacreditáveis condições.
A nau, apenas preparada para a viagem de um dia, no máximo dois se algum percalço ocorresse, teve de enfrentar o oceano. Ninguém sabia com que comida haviam sobrevivido. Esteve quatro horas debruçado à luz da vela e, na impaciência do alongar da noite, folheou todo o diário em busca de um nome, algo que lhe desse a entender a pessoa por trás daquele gesto, mas nada. Porém, quando se preparava para abandonar a tradução, encontrou um estranho parágrafo:

Na verdade, neste constante ir e vir das marés, num conjunto aparentemente homogéneo de mulheres obedientes ao seu sultão, nem todas albergam o mesmo sentimento. Há quem disfarce o prazer que teria a morte. As que disfarçam a alegria por estarem perdidas, com sorte engolidas por este mar.

Benzeu-se e disse em voz baixa: pelo sinal da santa cruz, livre-nos Deus Nosso Senhor dos nossos inimigos. Afastou-se do objecto tentando escondê-lo o melhor possível. E teve a certeza: se queria entender o que se passava naqueles barcos, bem como as razões de quem o escrevera e se desfizera dele, teria de o ler palavra a palavra, vírgula a vírgula, tal qual um pacto, ou a atenção que os traiçoeiros contratos com desconhecidos costumam levantar. Dormiu demais e, atordoado, percebeu que a hora do encontro seria dali a pouco menos de quarenta minutos. Um coche vinha buscá-lo, mas nem um trapo passara no corpo a disfarçar os odores deixados pela noite de Verão. E perturbava-o imenso ter de devolver aquele caderno sem perceber porque viera afinal até si. Mas também não posso mantê-lo comigo.
Duas possibilidades se afiguravam válidas. Entregar o diário ao ministro e delegar a tarefa, ou seja, deixar que as autoridades decidissem se devia ser lido ou não, contando toda a verdade, apenas omitindo que dera conta do misterioso objecto ainda antes de se terem reunido. Ou, num momento que conseguisse escapar das vistas de todos, pousar o diário a bordo, e deixar o destino encaminhá-lo para longe de si, indiferente às consequências dessa acção. Frei João coçou a cabeça, sentado sobre a colcha amarfanhada e pensando sobre o que fazer. Ouviu os passos da pessoa que o chamava a bons pulmões, desassossegando-o de imediato.
Uma brisa com planos de ser vento norte, mais tarde, caracterizava o rio naquele novo dia. A nau deslizava vagarosamente de um lado para o outro, como pêndulo preguiçoso. Faça favor de subir, exclamou o arrais, com um sorriso que dava mais uma ordem do que pura afabilidade. Frei João queria tudo menos voltar àquele barco sem a companhia, leia-se protecção, do ministro, mas não havia alternativa. O arrais, que misturava com perícia o tabaco e o kif, perante a atrapalhação do frade, indicou a um criado que o auxiliasse na subida. Empurrado pelas circunstâncias, viu-se de novo dentro da mesma salinha onde um cortinado se remexera com alma de gente e onde aquele arrais, agora tão solícito e presente, o tinha tratado de modo distante». In Raquel Ochoa, As noivas do Sultão, 2015, Edições Parsifal, 2015, ISBN 978-989-876-008-1.

Cortesia de EParsifal/JDACT

As Noivas do Sultão. Raquel Ochoa. «Está decidido! O ministro levantou a voz, aparentemente procurando a atenção do monge, e começou a ditar para os escribas…»

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13 de Julho de 1793
«(…) Meteu a mão no bornal, no qual sempre carregava peso que lhe parecia inusitado, ao mesmo tempo não sabia sair de casa sem o pequeno cantil, o livro que andava a reler, o Verdadeiro Método de Estudar, de Luís António Verney, e o caderno de apontamentos com o 1ápis associado, a maçã vermelha para algum ataque de fome e um crucifixo de ouro, peça raríssima que devia estar num cofre, mas ele acreditava ser o melhor talismã do mundo, pois cria ter andado nas mãos de Cosme e Damião, santos sírios que o acompanhavam para onde quer que fosse, convencido estava de o terem salvado nas tremendas horas de aflição em alto-mar. A mão apalpou o livro e de seguida o outro de apontamentos que se encaixava num terceiro volume, com uma capa veludosa. Mas que é isto?
Puxou aquele objecto perfumado de eucalipto e não o reconheceu nem ao toque, nem à vista. Afastou-o do rosto e olhou em volta, como se tivesse medo de ser identificado como ladrão de algo que desconhecia. Encontrava-se à beira da sombra de uma casa e desviou-se para a sua copa, ganhando privacidade psicológica na sua protecção. Folheou-o. O rosto estarreceu-se como se trepidado por um raio e não por uma página manuscrita. Como é que um diário ou coisa parecida de alguém daquele barco lhe viera parar à bolsa?, perguntava-se, atemorizado. De coração aos trambolhões, ruborizado e amaldiçoando quem o acordara nessa manhã, chegou frei João à presença do senhor ministro da Marinha e Domínios Ultramarinos.
Desta feita ninguém o fez esperar e de imediato relatou todas as palavras que ouvira do arrais, tentando ser o mais fiel possível à tradução. Junto do ministro, conseguiu manter-se aparentemente calmo, mas talvez alguma ansiedade o tenha revelado, pois a dado momento aquele perguntou-lhe. Agarra esse bornal como se daí adviesse o ar que respira. Porque não se põe à vontade, o meu criado não lhe disse onde pousar os seus pertences? Disse, disse, mas sou muito distraído, meu senhor, perdoe-me se lhe pareço desconfortável, mas não é de facto esse o meu estado, apenas evito ter de aqui voltar para o recolher. Não lhe ocorreu melhor desculpa.
Felizmente, o ministro, com o tanto que tinha para se ocupar, não fez questão nem insistiu. Ditava algumas ordens aos secretários e os seus textos pareciam eternos. Quando se enganava, amachucando a folha e atirando-a para um molho de desperdícios, o escrivão recomeçava. Frei João sentia um enorme apelo para sair dali, a correr, se pudesse, mas apenas cerrava os dentes em sinal oculto de tensão. Foi olhando para os reposteiros, os cortinados, as carpetes, o papel de parede com flores-de-lis, retocados por cor dourada, a estátua de marfim de um anjo, uma mulher de seios descobertos, os castiçais prateados, o quadro de dona Maria em pose irrepreensível, intuindo a vigia ao gabinete, e a grande tapeçaria pendurada na parede, na qual figurava uma caçada em ponto pequeno perante a grandiosidade de árvores centenárias. A partir de um dado momento, já não tinha mais nada para onde olhar.
Observou então o ministro, apercebendo-se de que dele recebia uma desarmante simpatia. Teve tanto tempo para pensar que até lhe ocorreu mostrar o caderno e ser sincero nos factos ocorridos havia pouco menos de duas horas. A imagem mental do seu crucifixo de ouro em contacto com aquele caderno aveludado quase o condenou a uma curiosidade fatal. Concentrou-se na sombra balouçante das árvores frondosas que via na enorme janela e manteve-se de aspecto sereno.

Não faz sentido dar um manuscrito em árabe a alguém que não sabe traduzi-lo. Faça eu o que fizer, este objecto voltará para mim.

Está decidido! O ministro levantou a voz, aparentemente procurando a atenção do monge, e começou a ditar para os escribas: determino que amanhã se proceda a uma visita ao arrais para ser recebido em diálogo. O monge pensou que seria incumbido de o ir avisar e foi com alívio que ouviu o ministro: que se lhe entregue uma carta escrita por frei João em mãos por um aviso a informá-lo da hora do encontro. Amanhã conto com os seus serviços, meu caríssimo frei João Sousa. Agora também está dispensado. Por hoje! Vá descansar, apenas lhe peço a bênção. Deus esteja consigo.
O criado abriu a porta convidando-o a abandonar os aposentos. Frei João estava finalmente a caminho do seu mosteiro. Naquele dia não voltaria ao livro que o cativava com muito interesse havia alguns dias. Sabia bem que leitura o conduziria ao fim da noite». In Raquel Ochoa, As noivas do Sultão, 2015, Edições Parsifal, 2015, ISBN 978-989-876-008-1.

Cortesia de EParsifal/JDACT

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

A Religiosa. Denis Diderot. «Se acredita em mim, reconcilie-se com os seus pais; faça o que a sua mãe espera de si; entrará para freira e ser-lhe-á dada uma pequena pensão com a qual os seus dias, se não forem felizes, serão, ao menos, suportáveis»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ia começar a fazer a comparação entre mim e as minhas irmãs, quando ele me deteve e disse: vamos, vamos. A falta de humanidade não é o pecado dos seus pais. Trate de viver com paciência a sua sorte e converta-a num mérito aos olhos de Deus. Verei a sua mãe e pode estar certa de que empregarei em seu favor todo o ascendente que possa ter sobre a alma dela. Aquele muita com que me respondeu foi um rasgo de luz para mim; já não tinha dúvidas de que era verdade aquilo que tinha pensado sobre o meu nascimento. No sábado seguinte, por volta das cinco e meia, ao cair da tarde, a criada que me tinham destinado subiu ao meu quarto e disse-me: senhora, a vossa mãe ordena-lhe que se vista. E uma hora depois: a senhora deseja que desça comigo. Encontrei à porta uma carruagem em que entrámos, a criada e eu; e soube que íamos aos Feuillants, a casa do padre Serafim. Estava à nossa espera, só. A criada afastou-se e eu entrei no locutório. Sentei-me, inquieta e curiosa sobre o que teria a dizer-me. Foi assim que me falou: Menina, vou explicar-lhe o enigma da severa conduta dos seus pais; a senhora sua mãe autorizou-me a fazê-lo. Seja sensata; tenha ânimo e coragem; está numa idade em que se lhe pode confiar um segredo, ainda que não lhe diga respeito. Há já muito tempo que venho aconselhando a sua mãe a contar-lhe o que vai saber agora; ela nunca foi capaz de se decidir: para uma mãe, é muito difícil confessar à própria filha uma falta grave. Conhece o seu carácter: não suporta a humilhação de ter de reconhecer certas coisas. Acreditou que a podia levar a fazer-lhe a vontade sem ter de se humilhar, mas enganou-se. Está muito desgostosa com tudo isto. Hoje, veio pedir-me conselho e encarregou-me de lhe dizer que não é filha do senhor Simonin. Respondi-lhe imediatamente: já suspeitava. E agora, menina, considere, e julgue se a sua mãe pode, sem o consentimento do seu pai, ou mesmo com ele, igualá-la a outros filhos que não são seus irmãos e se pode confessar ao seu pai um feito sobre o qual ele próprio tem enormes suspeitas. Mas, senhor, quem é o meu pai? Menina, esse segredo não me foi confiado. Do que não há dúvida, menina, é que favoreceram enormemente as suas irmãs e tomaram todas as precauções que se possam imaginar, nos contratos matrimoniais, na desnaturalização dos bens, nas estipulações, nos fideicomissos e outros meios, para reduzir a nada a sua legítima, no caso de um dia a poder reclamar judicialmente. No dia em que perder os seus pais encontrará muito pouca coisa. Recusa o convento, mas talvez venha a lamentar não estar lá.
É impossível, senhor. Eu não peço nada! Não sabe o que é o esforço, o trabalho, a indigência. Conheço, ao menos, o preço da liberdade e o peso de uma vida para a qual não fui chamada. Disse-lhe o que tinha a dizer. Agora, cabe-lhe a si reflectir, menina. De seguida, levantou-se. Só mais uma pergunta, senhor. As que quiser. As minhas irmãs sabem o que acaba de me contar? Não, menina. Então, como puderam deixar uma irmã assim, sem nada? Porque, foi isso que me fizeram. Ah, menina! O interesse! O interesse! De outra maneira, nunca teriam encontrado os bons partidos com que casaram. Neste mundo, cada um pensa em si mesmo, e eu não a aconselho a contar com nenhuma delas quando perder os seus pais. Pode estar segura de que vão disputar até ao último cêntimo a pequena quantia que haverá para repartir entre as três. Têm muitos filhos, e esse honrado pretexto bastará para a reduzir, a si, à mendicidade. Além de mais, elas não podem fazer nada; são os maridos que vão tratar de tudo. Se tiverem algum sentimento de comiseração, a ajuda que lhe derem, nas costas dos maridos, irá tornar-se numa fonte de desunião doméstica. Estou sempre a ver coisas como esta, ou filhos abandonados ou filhos, mesmo legítimos, socorridos à custa da paz doméstica. E por outro lado, menina, é muito duro o pão que se recebe. Se acredita em mim, reconcilie-se com os seus pais; faça o que a sua mãe espera de si; entrará para freira e ser-lhe-á dada uma pequena pensão com a qual os seus dias, se não forem felizes, serão, ao menos, suportáveis». In Denis Diderot, A Religiosa, 1796, tradução de J. Guinsburg, Editora Perspectiva, 2009, ISBN: 978-852-730-878-6.

Cortesia de E Perspectiva/JDACT

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Moll Flanders no 31. Daniel Defoe. «Quando nos vimos a sós, ele pôs-se a falar com muita sisudez e disse que não me levara ali para me seduzir, já que a sua paixão por mim não lhe permitiria abusar de mim, pois estava decidido a casar-se comigo»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Entrementes, eu tinha bastante astúcia para não dar o menor ensejo para que algum membro da família suspeitasse de mim ou imaginasse que eu tinha a menor ligação com o jovem cavalheiro; quase nunca o olhava em público e, na presença de alguém, só lhe falava em resposta a algo que ele me dissesse; apesar disso, de vez em quando tínhamos uma pequena entrevista, em que não havia tempo senão para a troca de uma ou duas palavras ou, de quando em quando, um beijo, mas nunca surgia boa ocasião para o mal pretendido, sobretudo porquanto ele fazia mais circunlóquios do que seria necessário se lesse os meus pensamentos, e como a empresa lhe parecia difícil, na realidade assim a tornava.
Entretanto, como o diabo é um tentador infatigável, ele nunca deixa de achar oportunidade para o mal com que nos acena, e essa oportunidade surgiu numa tarde em que eu estava no jardim com as duas irmãs mais novas e ele, todos em inocente colóquio, quando ele encontrou um meio de deslizar para a minha mão um bilhete em que dizia que no dia seguinte me pediria, em público, que levasse uma mensagem à cidade para ele e que eu o encontraria em algum ponto do caminho. Assim, no outro dia, depois do almoço, disse-me diante das irmãs, muito sério, senhora Betty, preciso pedir-lhe um favor; o que é?, perguntou a irmã menor; bem, irmã, continuou ele, se não puderem prescindir da senhora Betty hoje, poderá ser em qualquer outro dia; claro que sim, disseram elas, podiam muito bem prescindir de mim, e a irmã desculpou-se por haver perguntado do que se tratava, o que disse ter feito por simples rotina, sem dar àquilo importância alguma; bem, irmão, disse a irmã mais velha, tem de dizer à senhora Betty do que se trata; se for algum assunto particular de que não devemos tomar conhecimento, pode falar-lhe em particular, esteja à vontade; ora, irmã, disse o cavalheiro, com toda a seriedade, o que quer dizer com isso? Só quero pedir que ela vá à uma loja na High Street, e em seguida tirou do bolso um colarinho postiço e contou então uma longa história sobre duas belas gravatas pelas quais tinha feito uma oferta e queria que eu fosse até lá e lhe fizesse o favor de comprar uma gravata para o colarinho que ele mostrava, e se não aceitassem o valor que ele propusera, oferecesse um xelim a mais e regateasse com eles; a seguir, deu-me outras incumbências e pequenas coisas para fazer, de modo que eu passasse muito tempo fora.
Depois de expor todos esses encargos, contou-lhes outra longa história de uma visita que faria, naquela tarde, a uma família que todos conheciam e em cuja residência estariam tais e tais cavalheiros, que ficariam muito satisfeitos com o encontro, e pediu formalmente às irmãs que fossem com ele; com a mesma formalidade, elas declinaram do convite, por causa de visitas que receberiam naquela tarde; diga-se de passagem que ele tramara o ardil justamente por saber disso. Mal acabara de lhes falar e de me explicar as incumbências, seu criado chegou para informar que a sege de sir W… H… chegara à porta, e ele saiu e logo retornou, que pena!, exclamou, lá se vai minha tarde por água abaixo, sir W… mandou a sua sege para me buscar e quer falar comigo sobre um assunto sério; creio que esse sir W… era um cavalheiro que morava a cerca de cinco quilómetros fora da cidade e a quem na véspera ele pedira emprestada a sege para um assunto particular, dizendo-lhe que a enviasse por volta das três horas, como ele fez.
Pediu sua melhor peruca, o chapéu e a espada, ordenando ao criado que fosse à outra casa para apresentar as suas desculpas por não poder ali comparecer, o que era simplesmente um pretexto para afastá-lo, e preparou-se para subir à sege; no momento em que saía, deteve-se um instante e falou-me, em tom circunspecto, do que me pedira, achando oportunidade de dizer à meia-voz, saia depressa, querida, o mais cedo que puder; nada respondi, limitando-me a fazer uma reverência, como se em resposta ao que me dissera em voz alta; daí a cerca de um quarto de hora, saí também; não mudei a roupa que vestia, de modo que não pudesse surgir na casa a menor suspeita, mas levava no bolso um capuz, um véu, um leque e um par de luvas; ele esperava-me na sege numa ruazinha atrás da sua residência, pela qual sabia que eu haveria de passar, e instruíra o cocheiro para onde deveria ir, um lugar chamado Mile-End, onde morava um amigo seu; entramos na casa, e notei que havia ali todas as comodidades do mundo para que pecássemos tanto quanto quiséssemos.
Quando nos vimos a sós, ele pôs-se a falar com muita sisudez e disse que não me levara ali para me seduzir, já que a sua paixão por mim não lhe permitiria abusar de mim, pois estava decidido a casar-se comigo logo que entrasse na posse da herança e que, até lá, se eu aceitasse a sua proposta, ele me manteria com toda a honradez; mil vezes professou a sua sinceridade e seu afecto por mim, assegurando que jamais me abandonaria, e, se me é lícito dizer, fez mil vezes mais preâmbulos do que precisava.
Todavia, como insistia para que eu lhe respondesse, eu disse que não tinha motivo algum para duvidar da sinceridade do seu amor por mim, depois de tantas declarações, mas…, e calei-me, como se quisesse que ele adivinhasse o resto; o que é, minha querida?, disse ele, já imagino o que você quer dizer: o que acontecerá se engravidar, não é isso? Ora, cuidarei de si e de todas as suas necessidades, bem como as da criança, e para ver que não estou brincando, fique com isto de presente, e entregou-me uma bolsa de seda com cem guinéus, e lhe darei outra igual, disse, a cada ano, até nos casarmos». In Daniel Defoe, Moll Flanders, 1722, A vida Amorosa de Moll Flanders, Publicações Europa América, 1998, ISBN 978-972-104-443-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

No 31. Moll Flanders. Daniel Defoe. «Não há de parecer estranho que eu agora começasse a pensar, mas minhas reflexões eram, ai de mim!, pouquíssimo sólidas, eu tinha uma reserva quase ilimitada de vaidade e orgulho»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Como nos cansássemos desses folguedos, sentamo-nos e ele falou-me durante muito tempo; disse que estava fascinado por mim, que não sossegaria, dia e noite, até que houvesse dito o quanto me amava, que se eu fosse capaz de amá-lo e de fazê-lo feliz eu lhe salvaria a vida, e muitas outras coisas bonitas; da minha parte, disse-lhe pouco, mas a minha postura prontamente revelou que eu não passava de uma tola e não percebia de modo algum o que ele pretendia. Depois ele começou a caminhar pelo quarto e, pegando na minha mão, fez-me passear com ele; pouco a pouco, foi ganhando segurança e em certo momento atirou-me na cama e ali me beijou com muito ardor, mas, a bem da justiça, devo dizer que não usou de rudeza, apenas beijou-me muito, depois, como teve a impressão de que alguém subia a escada, levantou-se da cama, ergueu-me também, professando imenso amor por mim; disse que se tratava de um afecto honesto e que não queria causar-me mal algum, e pondo cinco guinéus na minha mão foi-se escada abaixo.
Eu estava mais confusa com o dinheiro do que estivera antes com o amor, e comecei a sentir tamanha exaltação que mal tomava conhecimento do chão em que pisava; considero muito importante esta parte de minha história porque, se ela vier a ser lida por uma jovem inocente, talvez a instrua a se proteger do mal que lhe pode acarretar a consciência prematura da própria beleza; se uma jovem se julga formosa, nunca duvidará da sinceridade de todos os homem que se disserem apaixonados por ela, pois se ela crê ser encantadora o bastante para cativar o homem, é natural que aceite de bom grado os efeitos dos seus encantos. O jovem cavalheiro inflamara o seu desejo tanto quanto aguilhoara a minha vaidade, e como se percebesse que tivera oportunidade e lamentasse não a ter aproveitado, daí a meia hora, mais ou menos, subiu a escada de novo e retomou seus arroubos comigo, tal como antes, só que com menos prelúdios.
Para começar, ao entrar no quarto, virou-se e, fechando a porta, disse, senhora Betty, antes pareceu-me que alguém subia a escada, mas não era verdade; se eu for visto neste quarto com você, não me surpreenderão a beijá-la, e respondi que não fazia ideia de quem poderia subir pela escada, pois acreditava que não havia mais ninguém na casa além da cozinheira e da outra criada, que nunca estavam por ali; minha querida, disse, em todo caso é melhor nos garantirmos, e com isso ele sentou-se e começamos a conversar, e agora, ainda que eu continuasse inflamada devido à sua primeira visita e pouco falasse, ele, por assim dizer, pôs palavras em minha boca, falando da paixão com que me amava e que, embora não pudesse mencionar tal desejo antes de entrar na posse do seu património, estava decidido a fazer-me feliz e também a sê-lo; disse que queria casar-se comigo e muitas outras palavras românticas, cuja verdadeira finalidade eu, pobre néscia, não compreendia, tendo-me portado como se não houvesse outra espécie de amor senão o que conduz ao matrimónio, e ao ouvi-lo falar de núpcias, não encontrava oportunidade nem me sentia com forças para dizer que não, se bem que ainda não houvéssemos chegado a esse ponto.
Não fazia muito tempo que conversávamos quando ele se pôs de pé e, deixando-me quase sem ar com os seus beijos, jogou-me na cama de novo; como ambos estivéssemos então bastante estimulados, ele foi mais longe do que a decência me permite referir, mas se ele houvesse tomado mais familiaridades do que quis, não estaria em meu poder negar-lhe alguma coisa naquele momento. Todavia, conquanto tenha tomado essas liberdades comigo, não chegou ao que chamam de último favor, o que, para lhe fazer justiça, ele nem tentou; essa renúncia voluntária serviu-lhe de pretexto para todas as liberdades em outras ocasiões depois dessa; findo o nosso encontro, ele pôs em minha mão quase um punhado de moedas de ouro e me deixou, fazendo mil protestos de paixão e afirmando amar-me mais do que a todas as mulheres do mundo.
Não há de parecer estranho que eu agora começasse a pensar, mas minhas reflexões eram, ai de mim!, pouquíssimo sólidas, eu tinha uma reserva quase ilimitada de vaidade e orgulho, e pouca reserva de virtude; é verdade que, uma vez por outra, perguntava-me o que meu senhor pretendia, porém não pensava em nada além das belas palavras e do ouro; se queria casar-se comigo ou não, parecia-me assunto de pouca importância, nem os meus pensamentos chegaram a sugerir a necessidade de tentar algum acordo em meu benefício, até que ele veio a fazer-me uma espécie de proposta formal. Assim, pois, abandonei-me sem o menor cuidado à possibilidade de me arruinar, e sou bom exemplo para todas as jovenzinhas cuja vaidade prevalece sobre a virtude; jamais se viu maior parvoíce por parte de duas pessoas, se eu tivesse procedido como devia e resistido, como impõem a virtude e a honra, o cavalheiro haveria desistido dos seus avanços ao ver que não tinha possibilidade alguma de alcançar os seus desígnios, ou teria feito propostas de casamento sérias e formais, e nesse caso quem o reprovasse não teria como reprovar a mim; em suma, se ele me conhecesse e tivesse percebido como era fácil conseguir a ninharia a que aspirava, não teria precisado quebrar tanto a cabeça, bastaria dar-me quatro ou cinco guinéus e teria se deitado comigo da próxima vez que viesse; se eu me tivesse dado conta dos seus desígnios e de como ele supunha ser difícil ganhar-me, poderia ter imposto as minhas próprias condições; e se eu não houvesse transigido em favor de um casamento imediato, poderia tê-lo feito em troca de uma manutenção até às núpcias e teria o que quisesse: ele já era mais do que rico, além do que viria ainda a herdar; eu parecia ter posto inteiramente de lado todos os pensamentos dessa espécie e só me deixava levar pelo orgulho de minha beleza e de saber-me amada por tal cavalheiro; quanto ao ouro, passava horas e horas a contemplá-lo, contava os guinéus inúmeras vezes, mais de mil por dia; nunca pobre criatura assim vaidosa esteve tão mergulhada em falsidade, sem atentar ao que me aguardava e que a ruína já quase batia à porta; na verdade, acredito que desejasse aquela ruína, uma vez que nada fazia para evitá-la». In Daniel Defoe, Moll Flanders, 1722, A vida Amorosa de Moll Flanders, Publicações Europa América, 1998, ISBN 978-972-104-443-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

quinta-feira, 12 de julho de 2018

As Noivas do Sultão. Raquel Ochoa. «Frei João evitou julgamentos precipitados, pobre homem, pensou, num país desconhecido, a passar fome, a resolver um assunto de Estado…»

jdact

13 de Julho de 1793
«(…) Sentiu fome enquanto tentava lobrigar na escuridão a zona da saída e pensou no que podia sonhar para o almoço no mosteiro. Quando cismou que estava a olhar para os olhos de alguém, estarrecidos nos seus, crentes e ansiosos, já essa pessoa os retirara e fugia. Sentiu-se percorrer por um arrepio, porque observado. Ainda descortinou um véu a roçar numa cortina, mas logo surgiu o eunuco marroquino, que o acompanhou à saída. Ao ver a luz do dia e o calor do Sol cravando a ardência nas suas mãos descobertas e no rosto, sacudiu ao de leve os ombros, como para se libertar daquele leve mofo de baú da nau visitada.
Frei João evitou julgamentos precipitados, pobre homem, pensou, num país desconhecido, a passar fome, a resolver um assunto de Estado, com a tamanha responsabilidade que trazia às costas, seguramente não o podia interpretar mal. Pareceu-lhe estranho, no entanto, estar tanta gente naquele barco e só se ter cruzado com um criado, o arrais e alguém de raspão. Mas isso não era da sua conta. Enquanto subia ao coche e se deslocava ao encontro de Sua Excelência, de imediato, como lhe fora incumbido, lembrou-se de quando nem contava dezasseis anos e partira para a Europa, munido de cartas de recomendação para algumas casas de comércio francesas. Os vendavais acompanharam aquele barco como fanáticos cães de guarda. Porque as suas primeiras viagens foram um martírio, em caso algum lhe foram propícias, adquiriu o enjoo de viajar para o resto da vida. Malgrado ser também a fonte do seu sustento. Os perigos foram tantos que não se lhe podiam chamar navegação, apenas se lançavam de porto em porto) sempre atingindo terra firme de modo quase trágico, in extremis, já depois de rezadas todas as orações e sendo o fervor com que o faziam a última esperança. A sua viagem significava uma epopeia pessoal, mas há que estender o longo mapa do Mediterrâneo, menos pacífico do que pode parecer à partida, para a ver na plenitude. Andou de arribação em arribação: da velha Damasco, partiu rumo à Alexandria, onde chegou sem problemas. Dali, alcançou Creta, mas na viagem para Tripoli esteve a pique de naufragar. Também antes de atingir Carania, na ilha da Sicília. A viagem até à Córsega foi turbulenta, mas França finalmente estava à vista, onde atracou em Marselha. Infelizmente não conseguiu abrigo em nenhuma das casas para as quais fora recomendado e prosseguiu para Cartagena, em Espanha, onde teve o mesmo destino. Em Granada e Cádis, também a boa sorte não lhe sorriu, e foi já nas temperaturas e amplitudes do Atlântico que encontrou Lisboa.
Acolheu-o em 1750, e ali resolveu permanecer, mal podendo suspeitar que daí a algum tempo a terra se assemelharia à pior das tempestades em mar alto. Mal sabendo o que ainda teria de lutar durante esses próximos anos, pois chegara a um local movimentado, é certo, mas apenas confiando na intervenção de Deus, porque não conhecia ninguém que o pudesse auxiliar e sem qualquer recurso económico além de um punhado de moedas, de uma mala com livros e umas poucas vestimentas. De qualquer modo, tudo lhe parecera melhor naquela imensa manhã em que conheceu o Tejo, um rio que se abria ao mundo, ao mar e abria a cidade, que lhe parecia pequena e bela. Estava cansado de quase naufragar. Quase naufragar não é naufragar, mas é imaginar com todas as forças os ossos molhados e as carnes condoídas a serem engolidas pelas águas. Não naufragar, naufragando, era como ele se referia a essa experiência». In Raquel Ochoa, As noivas do Sultão, 2015, Edições Parsifal, 2015, ISBN 978-989-876-008-1.

Cortesia de EParsifal/JDACT

As Noivas do Sultão. Raquel Ochoa. «Pois bem, e que assunto deve ser anunciado? É conveniente falar-lhe a fim de lhe comunicar certos negócios da parte da princesa minha senhora, e pedir-lhe juntamente licença para ir a Queluz…»

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13 de Julho de 1793
«(…) Lavou-se, vestiu-se e olhou por fim para o relógio. Não se apercebera de que era tão tarde, eventualmente teria dormido até ao meio-dia. Depois de sentir culpa, amenizou, ser velho tem destas vantagens… Quando chegou à biblioteca não encontrou uma pessoa com a explicação, mas um simples envelope e um bilhete no qual se lia que estivesse a bordo do navio atracado junto à Torre de Belém às dezasseis horas para conferenciar com o arrais e tratar com ele sobre certas recomendações que o ministro de Estado lhe mandara.
Acolheu a notícia com fastio, acabava de ver alterados os planos para essa tarde: uma tradução que tanto o entusiasmava. Perdia-se naqueles manuscritos como em lianas no meio da floresta encantada do conhecimento. As horas passavam e ele cada vez mais rico, mais preenchido pelo gozo da investigação. Já não tinha tempo a perder, deveria sair imediatamente. Do Largo de Jesus, subiu até à Basílica da Estrela e daí tomou a direcção do rio. Andar fazia-lhe bem, mas arrependeu-se de não ter pedido transporte. Por sorte, o coche enviado para o levar, e por distracção não tomara à porta do convento, cruzava em velocidade as ruas de Lisboa, num vaivém a ver se o encontrava. Deus seja louvado!, agradeceu, subindo. Então o senhor padre vai em missão de Estado e acha que o deixavam a pé?, perguntou-lhe o cocheiro. Os cavalos largaram o trote e pouco depois já avistavam o cais. Duas naus destoavam no cenário. Naquela zona normalmente ninguém fundeava. Com aquela primeira imagem futurou um molho de problemas. Homens negros, corpulentos, havia algumas horas que transportavam possantes caixas de madeira. Água e mantimentos de sobra em socorro das suas sedes para uns poucos dias, assim se julgava.
Tomou uma barcaça que ali se encontrava disponível. Alçou-se para o barco e assim que o pisou foi criticado por rangidos, como se fosse malvindo. Inspirou, recolhendo as forças, e lembrou-se que a humildade é uma arma. Foi encaminhado por um guarda em tudo semelhante a um eunuco para uma salinha forrada de veludo verde-garrafa, mas onde as cadeiras tinham umas pernas mais curtas do que outras e, desalinhadas, mancavam. Enquanto aguardava, não se sentiu seguro sentado, não se sentiu confortável de pé. Como se o observassem. Esperou mais tempo do que, segundo as regras da boa educação, seria de prever, até que o arrais chegou à sala, entrando imediatamente no assunto que o movia e o porquê de haver pedido um intérprete. Tenciono chegar à fala de novo com o vosso ministro.
Pois bem, e que assunto deve ser anunciado? É conveniente falar-lhe a fim de lhe comunicar certos negócios da parte da princesa minha senhora, e pedir-lhe juntamente licença para ir a Queluz entregar uma carta que a mesma princesa escreveu à rainha vossa senhora, e entregar também certos documentos nas mãos do príncipe vosso senhor. Será com prazer que o noticiarei. Sim, compreendia, mas na verdade o ministro estava demasiado ocupado para dar atenção àquele caso. O arrais era um homem alto, delgado, sem um delinear que o fizesse parecer clemente, ossos espetados a aguentar aqueles trajes que trazia e se faziam sobressair, ambos largos, os trajes e os ossos. O seu nariz pronunciado dividia-lhe a cara em duas metades de maçã desiguais. Destapava a voz como se fosse uma panela, pressionada.
Terei todo o prazer em transmitir as suas intenções. Dependendo da disponibilidade do ministro, agendaremos o vosso encontro o mais cedo possível. Quero ir ao seu encontro, seguramente será mais rápido assim. Com uma vénia discreta, sem aguardar reacção, retirou-se da saleta, e ficou frei João espantado com aquela arrogância típica dos que na aflição, com vergonha de gritar socorro, se não deixam afogar agarrando nos cabelos de quem encontram pela frente, afogando-os se preciso for. Abandonou o barco aliviado por já poder voltar à sua vida. Não se baixou na porta da saleta, pois não teria mais de metro e meio, mas teve de a atravessar de 1ado, a estreiteza desta não permitia à sua estendida barriga passar livremente. Aqueles dois homens eram, a nível físico, o contrário um do outro». In Raquel Ochoa, As noivas do Sultão, 2015, Edições Parsifal, 2015, ISBN 978-989-876-008-1.

Cortesia de EParsifal/JDACT