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sexta-feira, 29 de maio de 2020

Estudo Morfológico da Cidade de São Tomé. Teresa Madeira. «Relativamente aos modelos que estiveram na génese das cidades insulares atlânticas de origem portuguesa, vários são os autores que referem a influência da cidade medieval e renascentista portuguesa do continente»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Início da Expansão
«(…) De uma forma geral é aceite que a expansão portuguesa se divide em cinco grandes grupos geograficamente distintos: o norte de África, as ilhas atlânticas, a costa africana, o Oriente e o Brasil. No norte de África o domínio português, que se iniciou no princípio do século XV, é marcado em termos urbanos sobretudo pela construção de fortalezas. A actuação nesta altura é marcada, não por uma acção planificada no sentido de uma política urbanizadora, mas sim por um sentido defensivo cujo interesse passava por razões estratégicas. Contemporânea à ocupação do Norte de África é a ocupação das ilhas atlânticas. Com o objectivo de futuros empreendimentos ligados ao interesse de chegar à Índia, a criação de uma rede urbana ligada pela navegação originou o interesse e a colonização das ilhas. Estas, em oposição aos estabelecimentos do Norte de África, reflectem uma forma de urbanização, claramente com um sentido colonizador, idêntica ao que se praticava no continente. A ocupação dos arquipélagos atlânticos iniciou-se na Madeira em 1422, seguindo-se as Canárias 1424, os Açores em 1439, depois Cabo Verde em 1462 e finalmente São Tomé em 1485. Com base na agricultura destinada à exportação, introduziu-se o açúcar, o vinho, as plantas tintureiras e o trigo, sendo estas culturas introduzidas durante a primeira fase de ocupação. As cidades que mais se desenvolveram nestes arquipélagos durante os séculos XV e XVI foram, na Madeira, a cidade do Funchal; no arquipélago dos Açores, as cidades de Angra do Heroísmo e Ponta Delgada; no arquipélago de Cabo Verde, a cidade da Ribeira Grande (embora, só até ao século XVII, tendo-se verificado o seu declínio a partir dessa altura); e no arquipélago de São Tomé e Príncipe, a cidade de São Tomé e Santo António.

As cidades das Ilhas Atlânticas de Origem Portuguesa. Funchal, Angra do Heroísmo e Ribeira Grande.
Como já foi referido é comummente aceite que a prática que se processava no continente foi de certa forma exportada para as cidades da expansão. Certamente que a tradição e prática que se processava no continente na época (século XV), e em épocas anteriores (séculos XIII e XIV) e posteriores (século XVI), foi o modelo que lhes serviu de base. Relativamente aos modelos que estiveram na génese das cidades insulares atlânticas de origem portuguesa, vários são os autores que referem a influência da cidade medieval e renascentista portuguesa do continente. Através da análise da evolução do traçado urbano e de alguns elementos da morfologia do tecido urbano (estrutura de quarteirões, ruas e largos, implantação de edifícios de grande significado e pontos defensivos), apreendeu-se um conjunto de traços comuns às três cidades.

Evolução da Estrutura Urbana
Nas três cidades estudadas a malha urbana nasce a partir de uma rua principal que une dois núcleos urbanos, constituindo esta o elemento gerador e estruturador da referida malha urbana. Para a cidade do Funchal sabemos que a cidade teve origem em dois núcleos urbanos: no núcleo primitivo de Santa Maria do Calhau (onde se ergue a igreja de Santa Maria) e em Santa Catarina onde o capitão mandou erguer a sua casa. O núcleo de Santa Maria do Calhau definiu-se a partir de uma igreja e de um largo que lhe estava associado e de uma rua paralela ao mar, a Rua de Santa Maria. Esta rua, paralela ao mar, existia entre o largo da igreja (junto à Ribeira de Santa Luzia) e a zona onde existe o forte de S. Tiago. Para o lado poente da Ribeira de Santa Luzia e no seguimento da Rua de Santa Maria desenha-se, nesta fase de desenvolvimento, a Rua de Santa Catarina (posteriormente designada Rua dos Mercadores e depois Rua da Alfândega) ligando os dois pólos primitivos, de Santa Maria do Calhau e de Santa Catarina. A este tipo de desenvolvimento corresponde uma estrutura alongada no sentido da costa, percorrendo toda a zona junto ao mar.
Também para a cidade de Angra se reconhece um crescimento deste tipo. Assim temos que o primeiro núcleo urbano se desenvolveu no alto de uma colina no lugar onde se ergueu a primeira fortaleza. Paralelamente a este núcleo desenvolve-se um outro (S. Pedro) do lado oposto da baía de Angra para o lado poente. A ligar estes dois núcleos desenvolve-se uma rua, a actual rua da Sé que liga o núcleo do castelo a S. Pedro. Com o desenvolvimento do porto na zona baixa da cidade houve necessidade de ligar o castelo e o cais. É então que se assiste a um novo crescimento linear através da Rua de Santo Espírito, mas este ao contrário do que acabamos de ver para o Funchal é um crescimento linear, neste caso, perpendicular à costa». In Teresa Madeira, Urbanismo, Comunicação apresentada no Colóquio Internacional Universo Urbanístico Português, 1415-1822, Coimbra, 1999.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

domingo, 6 de setembro de 2015

Estudo Morfológico da Cidade de São Tomé. Teresa Madeira. «… cada um dos lotes urbanos passa a ter uma única frente virada para a rua (...) os lotes que os compõem ou se organizam costas com costas ou dão para as quatro ruas que definem o perímetro do quarteirão»

São Tomé 
Cortesia de wikipedia

A Cidade Renascentista Portuguesa
«(…) Durante os séculos XV e XVI os grandes contributos para a história do urbanismo em Portugal são bastante mais significativos ao nível da reforma, alteração ou expansão de cidades existentes, do que da fundação ou criação de novas cidades no continente. Apesar de não se constituírem novas cidades no continente as preocupações urbanísticas verificam-se. Nesta altura, estas iriam fundamentalmente no sentido da criação de regras que regulamentem a vida urbana das cidades existentes. Percebe-se igualmente uma intenção deliberada de planeamento relativamente aos núcleos urbanos já consolidados que se reflecte, na valorização estética da cidade e na inovação dos traçados. Durante o período de Manuel as preocupações de carácter sanitário, estético e funcional tornam-se relevantes, transformando por vezes a imagem da cidade. Em 1521 surgiu um conjunto de normas, as Ordenações Manuelinas, bastante ampliadas em relação às anteriores, 1447, Ordenações Afonsinas, e também uma série de posturas, cartas, etc., que por vezes reflectiam esse novo tipo de preocupações e tornavam possível a renovação a nível urbano. Ao nível da arquitectura um novo tipo de prática que excluía do seu vocabulário, balcões, varandas, avançados, consolas, etc. deu origem a um tipo de alçado praticamente sem saliências e cuja consequência em termos urbanos foi no desimpedimento das ruas. Este conjunto de preocupações está bem patente no Livro das Posturas Antigas da cidade de Lisboa.
Tem grande significado para a evolução urbana das cidades portuguesas o facto de nesta altura começar a haver contactos de Portugal com o renascimento italiano. A influência do desenho renascentista, presente nos tratados de Alberti (1452), Filarete (1460/65), Viturvio (reeditado em 1511) e Palladio (1556), imprime às cidades um sentido de modernidade patente em reformas e ampliações de algumas cidades portuguesas. A nível do traçado urbano, neste período podemos detectar a consolidação das características apontadas para a cidade medieval e a existência de novas formas relativas à morfologia urbana e aos modos de pensar as cidades e que corresponde ao período que podemos designar como renascentista. Nesta época, vulgariza-se a utilização de modelos urbanos regulares, tanto no caso de reformas de povoações pré-existentes, como no caso de fundações de novas cidades tanto em África, como no Brasil e na Índia. Com alguma influência do desenho renascentista, a regularidade das malhas persiste, no entanto esta demonstra um novo sentido de modernidade, expressão de uma nova atitude para com a cidade. Segundo Manuel Teixeira, a nível da estrutura dos quarteirões e da estrutura do loteamento, cada um dos lotes urbanos passa a ter uma única frente virada para a rua (...) os lotes que os compõem ou se organizam costas com costas ou dão para as quatro ruas que definem o perímetro do quarteirão. Segundo a mesma fonte, a nível de intervenções na cidade o urbanismo renascentista adoptou três tipologias urbanas fundamentais que foram utilizadas extensivamente nas suas intervenções:
  • a rua com um traçado rectilíneo e ordenado;
  • as praças fechadas e regulares;
  • e as malhas urbanas ortogonais.
A nível do desenho e da composição urbanas, a mesma fonte refere que as estratégias utilizadas incluíam a simetria, referida a um ou mais eixos; a utilização da perspectiva e o fechamento de vistas através da colocação de edifícios, monumentos ou elementos urbanos significativos no enfiamento de ruas ou de grandes eixos; a utilização do mesmo tipo de elementos como pontos focais de praças, ou de espaços urbanos que se viriam a estruturar como praças em torno desses elementos; [e] a integração de edifícios individuais em conjuntos arquitectónicos harmónicos, muitas vezes através do ordenamento e da repetição das fachadas. Para além das novas tipologias adoptadas nas malhas das novas extensões urbanas e de uma nova atitude perante a composição e o desenho urbanos, em termos práticos o processo de modernização das cidades reflectiu-se na reforma dos espaços públicos das cidades, (como, por exemplo, no reordenamento de terreiros e largos mal definidos) e na construção de um número significativo de edifícios institucionais como por exemplo, casas da câmara, misericórdias, hospitais e novas igrejas matrizes. Neste sentido Rossa refere, os rossios, terreiros ou largos junto às portas das cidades, por regra sempre exteriores, mas com excepções como Setúbal, foram gradualmente reformados em praças onde frequentemente se construiu de novo a casa da Câmara. Nas novas praças, ou por perto, implantou-se o quipamento/instituição urbano de invenção mais recente e exclusiva, a Misericórdia. Esta deve ser entendida como um conjunto de igreja, zona administrativa e todas as dependências assistenciais que eram a essência do seu funcionamento, hospitais e albergarias». In Teresa Madeira, Urbanismo, Comunicação apresentada no Colóquio Internacional Universo Urbanístico Português, 1415-1822, Coimbra, 1999.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

sábado, 5 de setembro de 2015

Estudo Morfológico da Cidade de São Tomé. Teresa Madeira. «Normalmente os conventos eram instalados fora de portas, próximos do núcleo urbano existente, em locais de fácil acessibilidade, tendo por trás zonas não edificadas. Com estes, também eram implantados hospitais/albergarias»

São Tomé, 1916
Cortesia de wikipedia

«(…) Para M. Teixeira, nas fundações urbanas de finais do século XIII e XIV a ausência de praças urbanas estruturadas era uma das suas características: … em muitas destas novas cidades medievais eram estes terreiros, localizados no interior da cidade mas marginalmente, com relação ao tecido construído, junto às muralhas, que cumpriam originalmente as funções de praça (...). Esses espaços só se viriam a estruturar plenamente como praças nos séculos XV e XVI, associadas à edificação de novos equipamentos religiosos e civis na cidade e ao desenvolvimento de novos conceitos de espaço urbano, ligados à redescoberta da tradição urbana da antiguidade, veiculada pelo Renascimento. Em Portugal, a partir do século XV é frequente encontrar mais do que uma praça em cada cidade. A existência de mais do que uma praça está associada a uma determinada função: há a praça de carácter civil, associada ao edifício da câmara ou a um edifício administrativo ou por vezes ao pelourinho, há a praça religiosa normalmente associada à igreja matriz, a um convento ou à Misericórdia e há a praça ligada ao mercado.

Edifícios Significativos. Edifícios Religiosos e Administrativos
Em relação à cidade portuguesa do período medieval importa referir as construções de maior significado, ou seja, os edifícios cuja função e dimensão lhe conferem importância e significação no tecido urbano. Estes edifícios pelas suas características imprimem à vila ou cidade onde se implantam uma dinâmica própria que permite que esta se desenvolva muitas vezes em função deste tipo de edifícios. Neste período histórico este tipo de edifícios é sobretudo de carácter religioso (igrejas e conventos), havendo muito poucas excepções uma vez que as funções administrativas normalmente se instalavam em torres de muralhas. No caso das igrejas, a sua importância deve-se fundamentalmente ao facto de normalmente darem origem a largos ou terreiros, como anteriormente foi referido, funcionando como polos de atracção no tecido urbano. A sua localização teve um papel preponderante no desenvolvimento das povoações: se por um lado elas constituíam polos de dinamização no tecido existente é também de supor que muitas vezes eram implantadas em locais que viriam a constituir polos de atracção para a futura expansão da malha urbana. Os conventos pertenciam às ordens religiosas e às ordens militares cuja acção social era altamente marcante.
Em termos urbanos, os conventos tinham ainda uma grande importância como reservas e ordenadores do tecido urbano, pois por regra eram dotados de uma cerca para onde cresciam e que parcimoniosamente iam loteando e alugando. Normalmente os conventos eram instalados fora de portas, próximos do núcleo urbano existente, em locais de fácil acessibilidade, tendo por trás zonas não edificadas. Com estes, também eram implantados hospitais/albergarias, com uma importância formal menos acentuada mas com implantação idêntica. Para além das igrejas e dos conventos, as Misericórdias, também de carácter religioso, desempenhavam igualmente um papel estruturador no tecido urbano dos aglomerados urbanos portugueses. No entanto foi só com Manuel I que este tipo de equipamento urbano surgiu associado às novas praças que nessa altura foram estruturadas.

Pontos Defensivos. Fortalezas. Muralhas e Portas
Poucas são as cidades no período medieval que não têm fortalezas, muitas vezes sob a forma de muralhas. A razão primordial da sua edificação é, nesta altura como em épocas anteriores, obviamente de ordem defensiva. Apesar da existência de meios defensivos em períodos anteriores, no período correspondente à reconquista tornou-se indispensável a construção de novas fortalezas. A muralha cercava a vila e normalmente acompanhava o acidentado do terreno sem grandes preocupações de regularidade. Por vezes as muralhas eram acompanhadas de um fosso. A vila comunicava com o exterior através de portas. Segundo Rossa, as muralhas ao serem construídas criavam descontinuidades no tecido urbano quer a nível físico, criando espaços afectos e não afectos à vida urbana, quer a nível de funcionamento sendo necessário pessoas e bens pagarem portagem à entrada das cidades. As portas, por seu turno, eram o elo de ligação entre o espaço urbano e o rural. Por razões defensivas estas impediam as construções no exterior próximo dando, por vezes, origem aos terreiros, largos ou rossios. No interior e também junto à porta é igualmente frequente encontrar-se um largo, espécie de átrio de distribuição». In Teresa Madeira, Urbanismo, Comunicação apresentada no Colóquio Internacional Universo Urbanístico Português, 1415-1822, Coimbra, 1999.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Estudo Morfológico da Cidade de São Tomé. Teresa Madeira. «… do rossio quase sempre saía uma rua comercial que ligava os elementos urbanos mais importantes da cidade, a matriz, o paço ou o castelo, etc., terminando no terreiro de um destes ou ligando a outra porta da muralha»

São Tomé, 1902
Cortesia de wikipedia

«(…) Estes aglomerados planeados são caracterizados pela existência de uma rua central rectilínea que liga dois pontos importantes do aglomerado onde sensivelmente a meio desta se abre um largo, sendo essa rua principal cortada por travessas e onde frequentemente existem outras duas ruas paralelas a esta, menos importantes e menos largas. O traçado destas cidades é ortogonal e os quarteirões são de planimetria rectangular alongada. Estes são definidos por ruas paralelas, ruas de frente e de traseiras, e perpendiculares. Estes aglomerados demonstram certos princípios de regularidade e neles se reconhece a existência de uma intenção planeadora, tendo sempre em conta a necessidade de defesa e a procura da implantação de uma administração civil e religiosa.

Loteamento e Estrutura de Quarteirões
As aglomerações fundadas durante a Idade Média em Portugal, no período correspondente aos reinados de Afonso III e Dinis I, adoptaram padrões geométricos regulares, obedecendo a um plano preconcebido, e onde as ruas principais são cortadas por travessas segundo ângulos mais ou menos de 90º, formando blocos rectangulares constituídos por edifícios e espaços verdes no seu interior (logradouros ou quintais). Podemos dizer, portanto, que uma das características da morfologia urbana das cidades criadas no período medieval é a existência de lotes rectangulares e uma estrutura de quarteirões onde predominam blocos também rectangulares. Segundo M. Teixeira, as dimensões tanto das ruas como dos quarteirões e dos lotes variam de cidade para cidade, sendo no entanto, constantes dentro de cada uma. As dimensões das ruas principais e de traseiras são constantes, da mesma forma que são constantes as dimensões e o número de lotes de cada quarteirão e a dimensão dos lotes individuais (...), (in Teixeira, M. O urbanismo português. Séculos XIII - XVIII. Portugal – Brasil). Marcadamente medieval é, como foi referido, a presença de espaços verdes no interior dos quarteirões. Segundo Amélia Andrade, é característica da cidade medieval portuguesa a existência de quarteirões constituídos por lotes estreitos onde normalmente se verifica a presença de espaços verdes no seu interior, através de uma horta, um jardim, ou mais raramente pela presença de árvores de fruto. Esta característica é semelhante ao que se verifica com as bastides francesas. Nestes casos, segundo Jorge Gaspar, os espaços verdes da cidade eram constituídos pelos quintais que todas as casas possuíam nas traseiras.

As Ruas e os Largos
Na maior parte das cidades, para além de outras, existia uma rua principal, normalmente a mais importante, que era muitas das vezes designada por Rua Direita. A importância da sua caracterização, deve-se ao facto de, ao longo do tempo, constituir o eixo estruturador e gerador da malha urbana. Segundo W. Rossa, a Rua Direita medieval caracteriza-se da seguinte forma: … do rossio quase sempre saía uma rua comercial que ligava os elementos urbanos mais importantes da cidade, a matriz, o paço ou o castelo, etc., terminando no terreiro de um destes ou ligando a outra porta da muralha. Podemos ver que muitas das cidades portuguesas tiveram a sua génese numa via, esta inicialmente ligava dois núcleos primitivos do aglomerado, por exemplo, a igreja ao castelo ou a igreja ao porto (no caso das cidades costeiras). Nas cidades marítimas ou fluviais, a Rua Direita surge na maioria dos casos em duas situações: ligando o principal acesso terrestre ao cais, normalmente nesta situação a via é perpendicular ao cais, ou ligando dois núcleos primitivos, sendo esta via paralela à margem.
Estes casos são bem patentes no caso de algumas cidades das ilhas atlânticas. Para além da Rua Direita como elemento estruturado da morfologia das urbes medievais temos, segundo Rossa, o largo, como sendo o espaço onde conduziam as principais ruas da cidade, naturalmente provenientes dos seus principais acessos, e que de facto poderia ter no seu perímetro uma igreja importante, a casa do concelho, do senhor, do almoxarife ou do alcaide. Este espaço era normalmente pequeno na sua origem. Muitas vezes começava por ser um alargamento de uma ou mais ruas confluentes ou um terreiro em frente a um edifício institucional importante, normalmente uma igreja. Ao longo do tempo este espaço foi sofrendo alterações ganhando importância para a definição e desenvolvimento da estrutura urbana dos aglomerados». In Teresa Madeira, Urbanismo, Comunicação apresentada no Colóquio Internacional Universo Urbanístico Português, 1415-1822, Coimbra 1999.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

sábado, 2 de março de 2013

Estudo Morfológico da Cidade de São Tomé no Contexto Urbanístico das Cidades Insulares Atlânticas de Origem Portuguesa. Teresa Madeira. «… aos traçados das cidades medievais portuguesas nas aglomerações planeadas, como tendo frequentemente um padrão geométrico, comparando-as às “bastides”, fundadas, a sua maioria, nos reinados de Afonso III e Dinis I»

Bastide
Cortesia de wikipedia

«O objectivo desta comunicação prende-se com o estudo morfológico da cidade de São Tomé desde a sua génese, século XV, até meados do século XVII. Para a elaboração do estudo procedeu-se a uma abordagem comparativa das morfologias urbanas de quatro cidades insulares atlânticas de origem portuguesa:
  • Funchal;
  • Angra do Heroísmo;
  • Ribeira Grande;
  • São Tomé.
Verificou-se um conjunto de características comuns às quatro cidades. O destaque dado à cidade de São Tomé tem como objectivo posicioná-la no quadro das morfologias urbanas das cidades insulares atlânticas de origem portuguesa uma vez que esta cidade nunca foi estudada deste ponto de vista. Uma vez que se considera que as cidades das ilhas atlânticas de origem portuguesa tiveram uma influência mais ou menos directa do povoamento português e que os modelos que lhe serviram de referência foram, de certa forma, importados do Continente, procedeu-se numa primeira fase à enunciação das especificidades das fundações urbanas portuguesas entre os séculos XIII e XVI, cidade medieval e cidade renascentista portuguesa, período correspondente à génese das cidades das ilhas atlânticas, século XV, períodos imediatamente anteriores, séculos XIII e XIV e posteriores, século XVI.

A Cidade Medieval Portuguesa no Continente.
Os Traçados Urbanos.
Ao referirmo-nos aos traçados urbanos da cidade medieval na Península ou concretamente à cidade portuguesa, não podemos restringirmo-nos a uma descrição, uma vez que tanto em Portugal como no resto da Europa, a variedade e a originalidade destas cidades é muito grande, proveniente de diferentes realidades e de variadas experiências concretas. Vários autores já abordaram o tema da caracterização dos traçados urbanos das cidades medievais portuguesas. Para Sérgio Carvalho, seguindo a linha de pensamento de Oliveira Marques, (...) a rua medieval das cidades mediterrâneas em geral e das portuguesas em particular, é uma rua de contornos irregulares, geralmente estreita, elemento que se acentua com a tradição muçulmana, rua que conduz habitualmente a espaços abertos, espaço de maior pendor cristão, onde se desenvolvia a actividade religiosa (na igreja) e a económica (no mercado).
Dentro da mesma linha de pensamento, mas acentuando a existência de alguma intencionalidade nos traçados medievais portugueses, Teresa B. Salgueiro, refere que nas cidades portuguesas podemos perceber uma intencionalidade de traçado regular, subvertida por vezes devido ao acidentado do terreno, ao crescimento urbano descontínuo ou à influência dos traçados de origem muçulmana. Doutro modo, refere-se Jorge Gaspar aos traçados das cidades medievais portuguesas nas aglomerações planeadas, como tendo frequentemente um padrão geométrico, comparando-as às bastides do Sul de França e de Itália, leste da Alemanha e da região fronteiriça Aragão-Navarra. Neste sentido e relativamente às características morfológicas das bastides do Sul de França, estas, segundo Jorge Gaspar, situam-se, quase sempre em sítios facilmente defensáveis, estão por vezes envolvidas por uma muralha, onde se abrem portas em número variável dependendo da sua importância. As ruas, rectilíneas, cruzam-se segundo ângulos rectos, demarcando blocos rectangulares de casas. Numa posição central, de fácil acesso tanto aos moradores como aos forasteiros, uma praça também de forma rectangular, com arcadas ou alpendres nos exemplos mais acabados, e que desempenhava as funções de centro comercial, de convívio e de local de manifestações públicas. A igreja não ficava geralmente instalada neste espaço, mas abria-se num pequeno terreiro próximo (...). As ruas apresentam construções dum lado e doutro, de forma contínua, (...) Os espaços verdes da cidade eram constituídos por quintais, que todas as casas possuíam nas traseiras (in Gaspar, J. - A morfologia urbana de padrão geométrico na Idade Média).

Para Bernardo Ferrão, também é clara a tradição urbana regular em Portugal nas cidades de fundação medieval: esta é atestada na fundação de inúmeras cidades geometricamente ordenadas, sobretudo destinadas à defesa fronteiriça e ao povoamento, como os casos de Viana e Monsaraz; (...). Igualmente para Manuel Teixeira, é característica comum às fundações medievais da Europa terem sido planeadas e construídas de acordo com um plano regular. Para este autor a regularidade de traçado é a característica essencial destas cidades medievais do século XIII e XIV, evidenciando uma atitude deliberada de planeamento. A nível do traçado das ruas e segundo a mesma fonte, este é ortogonal, nas cidades de maior dimensão, ou tendendo para a ortogonalidade, nas cidades de menor dimensão. Os quarteirões são de forma rectangular, alongados, não existindo traçados em quadrícula. (...). Verifica-se (...) no plano da cidade uma alternância de ruas de frente e de traseiras. As ruas dispõem-se fundamentalmente num sentido, alternando as ruas principais e as ruas de traseiras ou de serviço, com funções e dimensões distintas. Estas ruas são cruzadas por outras vias, que as cortam perpendicularmente.
Assim, em termos de traçado urbano conclui-se que as cidades medievais se caracterizam por uma certa variedade, havendo no entanto a predominância de dois tipos:
  • uma mais irregular, onde as ruas, por vezes, tomam uma forma aparentemente labiríntica, resultante da influência da cultura muçulmana e/ou da adaptação dos traçados mais regulares aos sítios onde se implantam;
  • outra mais regular, influenciada pelas bastides sobretudo francesas, fundadas, a sua maioria, nos reinados de Afonso III e Dinis I.
Planta de S. Tomé

Estes aglomerados planeados são caracterizados pela existência de uma rua central rectilínea que liga dois pontos importantes do aglomerado onde sensivelmente a meio desta se abre um largo, sendo essa rua principal cortada por travessas e onde frequentemente existem outras duas ruas paralelas a esta, menos importantes e menos largas. O traçado destas cidades é ortogonal e os quarteirões são de planimetria rectangular alongada. Estes são definidos por ruas paralelas, ruas de frente e de traseiras, e perpendiculares. Estes aglomerados demonstram certos princípios de regularidade e neles se reconhece a existência de uma intenção planeadora, tendo sempre em conta a necessidade de defesa e a procura da implantação de uma administração civil e religiosa». In Teresa Madeira, Urbanismo, Comunicação apresentada no Colóquio Internacional Universo Urbanístico Português, 1415-1822, Coimbra 1999.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

TEMÁTICA, a Cidade Medieval: O Urbanismo e as Bastides. «..aos traçados das cidades medievais portuguesas nas aglomerações planeadas, como tendo «frequentemente um padrão geométrico» (Gaspar, J. - A morfologia urbana de padrão geométrico na Idade Média, pp. 198-199), comparando-as às bastides do Sul de França e de Itália...»

Bastide
Cortesia de frenchduck 

A Cidade Medieval Portuguesa no Continente
«Ao referirmo-nos aos traçados urbanos da cidade medieval na Península ou concretamente à cidade portuguesa, não podemos restringirmo-nos a uma descrição, uma vez que tanto em Portugal como no resto da Europa, a variedade e a originalidade destas cidades é muito grande, proveniente de diferentes realidades e de variadas experiências concretas.
Vários autores já abordaram o tema da caracterização dos traçados urbanos das cidades medievais portuguesas. Para Sérgio Carvalho, seguindo a linha de pensamento de Oliveira Marques, «(...) a rua medieval das cidades mediterrâneas em geral e das portuguesas em particular, é uma rua de contornos irregulares, geralmente estreita (elemento que se acentua com a tradição muçulmana), rua que conduz habitualmente a espaços abertos (espaço de maior pendor cristão), onde se desenvolvia a actividade religiosa (na igreja) e a económica (no mercado)».

Dentro da mesma linha de pensamento, mas acentuando a existência de alguma intencionalidade nos traçados medievais portugueses, Teresa Salgueiro, refere que nas cidades portuguesas podemos perceber uma intencionalidade de traçado regular, subvertida por vezes devido ao acidentado do terreno, ao crescimento urbano descontínuo ou à influência dos traçados de origem muçulmana.

Cortesia de etudebastidesifrance
De outro modo, refere-se Jorge Gaspar aos traçados das cidades medievais portuguesas nas aglomerações planeadas, como tendo «frequentemente um padrão geométrico» (Gaspar, J. - A morfologia urbana de padrão geométrico na Idade Média, pp. 198-199), comparando-as às bastides do Sul de França e de Itália, leste da Alemanha e da região fronteiriça Aragão-Navarra.

Neste sentido e relativamente às características morfológicas das bastides do Sul de França, estas, segundo Jorge Gaspar, situam-se, quase sempre em sítios facilmente defensáveis, estão por vezes envolvidas por uma muralha, onde se abrem portas em número variável dependendo da sua importância. «As ruas, rectilíneas, cruzam-se segundo ângulos rectos, demarcando blocos rectangulares de casas. Numa posição central, de fácil acesso tanto aos moradores como aos forasteiros, uma praça também de forma rectangular, com arcadas ou alpendres nos exemplos mais acabados, e que desempenhava as funções de centro comercial, de convívio e de local de manifestações públicas. A igreja não ficava geralmente instalada neste espaço, mas abria-se num pequeno terreiro próximo (...). As ruas apresentam construções dum lado e doutro, de forma contínua, (...). Os espaços verdes da cidade eram constituídos por quintais, que todas as casas possuíam nas traseiras» (Gaspar, J. - A morfologia urbana de padrão geométrico na Idade Média, pp. 202-203).

Cortesia de aurelleverlac
Para Bernardo José Ferrão, também é clara a tradição urbana regular em Portugal nas cidades de fundação medieval: esta é «atestada na fundação de inúmeras cidades geometricamente ordenadas, sobretudo destinadas à defesa fronteiriça e ao povoamento, como os casos de Viana e Monsaraz». Assim, em termos de traçado urbano conclui-se que as cidades medievais se caracterizam por uma certa variedade, havendo no entanto a predominância de dois tipos:
  • uma mais irregular, onde as ruas, por vezes, tomam uma forma aparentemente labiríntica, resultante da influência da cultura muçulmana e/ou da adaptação dos traçados mais regulares aos sítios onde se implantam;
  • outra mais regular, influenciada pelas bastides sobretudo francesas, fundadas, a sua maioria, nos reinados de D. Afonso III e D. Dinis.
Estes aglomerados planeados são caracterizados pela existência de uma rua central rectilínea que liga dois pontos importantes do aglomerado onde sensivelmente a meio desta se abre um largo, sendo essa rua principal cortada por travessas e onde frequentemente existem outras duas ruas paralelas a esta, menos importantes e menos largas.
O traçado destas cidades é ortogonal e os quarteirões são de planimetria rectangular alongada. Estes são definidos por ruas paralelas (ruas de frente e de traseiras) e perpendiculares.
Estes aglomerados demonstram certos princípios de regularidade e neles se reconhece a existência de uma intenção planeadora, tendo sempre em conta a necessidade de defesa e a procura da implantação de uma administração civil e religiosa». In Teresa Madeira, Comunicação apresentada no Colóquio Internacional Universo Urbanístico Português, 1415-1822, Coimbra 1999.

Cortesia de Colóquio Internacional Universo Urbanístico Português/JDACT