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quinta-feira, 5 de maio de 2016

O Livreiro. Mark Pryor. «… lombada diziam Da Guerra, e depois via-se a palavra Clausewitz. A primeira tradução inglesa? Merde!. Max apressou-se a tirar o livro das mãos de Hugo. Este não está à venda»

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«(…) Tenho porta-chaves, postais ilustrados e petit torres Eiffel. É para a Christine. Ah! Max arqueou uma sobrancelha e acenou com a mão para a banca. Então nada que eu tenha aqui. Tem as coisas boas escondidas, é? Hugo olhou por cima do ombro do amigo e viu o homem corpulento a descer o cais, de mãos nos bolsos. A sua vítima, a bouquiniste, parecia pouco firme nas pernas e Hugo viu-a desabar numa cadeira de lona ao lado da banca, o rosto afundado nas mãos. Enquanto Hugo reparava, ela levou a mão a um saco de plástico e retirou uma garrafa pequena. Quando olhou de volta, Max observava-o. Aquilo, na mão dela, é o seu maior problema, afirmou o velho homem. Mas por aqui é melhor cada um meter-se na sua vida. Apontou para os seus livros. Então, vai comprar ou está só a perder tempo? E com isso, quero dizer o meu. Hugo centrou a sua atenção de novo em Max. Uma prenda, lembra-se?
Bien, deixe-me ver. Max pegou num livro de capa dura, uma edição com fotografias a preto e branco de estrelas de Hollywood dos anos 20 aos 70. Mostrou a capa a Hugo, a fotografia de um Cary Grant sorridente, todo ele dentes e cabelo liso. É parecido consigo, mon ami. Hugo já escutara aquele comentário da sua esposa, embora tivesse presumido que ela estava a gozá-lo. A legenda explicava que Grant tinha quarenta e um anos na altura em que a fotografia fora tirada, um ano mais jovem do que Hugo. Com um metro e oitenta e cinco, Grant era também dois centímetros mais baixo do que ele. Todavia, os dois exibiam o mesmo cabelo farto, se bem que o de Hugo fosse de um castanho-claro, claro o suficiente para camuflar alguns recentes fios de cabelo grisalho. O seu cabelo denso nunca vira gel, ou o que quer que aqueles tipos usavam naquela altura. Na fotografia, os olhos de Cary Grant tremeluziam como jóias, um olhar duro que Hugo conseguia imitar quando era necessário; porém, habitualmente, os seus olhos eram de um castanho mais escuro e caloroso, mais pensativo do que magnético. Os olhos de um observador, não de um executante.
Dê cá. Max pegou no livro, dobrou-se e levantou uma pilha de jornais que repousavam em cima de uma pasta de cabedal gasto. Tenho alguns livros ali. Veja à vontade. Hugo ajoelhou-se, abriu o fecho da pasta e espreitou para o seu interior. Um Agatha Christie? Oui, anuiu Max. Uma primeira edição, por isso tràs cher. Creio que um humilde diplomata como o senhor não terá dinheiro para tal. Deve ter razão, mas conheço alguém que iria adorar. Max desenhou um sorriso rasgado. Alguém que pode adorá-lo por lho dar, quer dizer. Talvez. Hugo virou o livro. Não era grande especialista em livros raros, porém, sabia tanto quanto muitos dos bouquinistes que vendiam os seus artigos ao longo do rio. Aquele era uma beleza, uma primeira edição de 1935 de Morte nas Nuvens, um dos mistérios de Hercule Poirot. Encadernado em marroquim castanho-avermelhado, saliência na lombada, impresso com letras douradas e guardas jaspeadas, e parecia que ainda possuía o tecido original na espinha. Reparou num pequeno rasgão na goteira da última página, mas no geral ficou bastante impressionado. Era sem dúvida um excelente exemplar. Hugo estendeu o livro. Quanto? Para si, quatrocentos euros. E para os outros? Trezentos, claro. Na América vigarizamos os estranhos, comentou Hugo, não os amigos. Não está na América. Os olhos de Max cintilaram. É um homem forte, Hugo, forte o suficiente para me atirar ao rio. Não me atreveria a enganá-lo. O americano resmoneou e tirou outro livro da pasta. Encadernado a tecido azul-escuro, exsudava antiguidade, e uma vista de olhos rápida no interior confirmou-o: 1873. As letras douradas na lombada diziam Da Guerra, e depois via-se a palavra Clausewitz. A primeira tradução inglesa? Merde!. Max apressou-se a tirar o livro das mãos de Hugo. Este não está à venda». In Mark Pryor, O Livreiro, 2012, tradução de Dina Antunes, Clube do Autor, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-724-062-1.

Cortesia ClubedoAutor/JDACT

O Livreiro. Mark Pryor. «O que se passa, Max?, repetiu. O francês fitou-o durante algum tempo, depois soltou o braço de Hugo e desviou o olhar. O homem mais velho virou-se para a sua banca, pegou num livro e pôs os óculos»


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«O maior dos sinos da Catedral de Notre Dame dobrou o meio-dia no momento em que Hugo alcançava o final da ponte, o ar frio parecendo colar-se ao último ressoar por mais tempo do que o habitual. Estacou e olhou para o outro lado da movimentada rua de Paris onde se situava o Café Panis. As luzes amarelas por cima das janelas atraíam-no ao mesmo tempo que figuras indistintas se movimentavam no seu interior, clientes escolhendo mesas e empregados passarinhando de um lado para o outro como dançarinos. Um café quente era tentador, porém, aquele era o primeiro dia de umas férias que Hugo não pedira. Sem nada para fazer ou lugar para onde ir, não lhe apetecia sentar-se sozinho numa mesa a pensar nesse assunto. Endireitou os ombros para enfrentar o vento e virou à direita, deixando o café para trás, e dirigindo-se para norte junto ao rio. Olhou por cima do parapeito enquanto caminhava, o rugido de uma lancha que subia o rio e o das hélices do motor que agitavam as águas gélidas do Sena chamaram-lhe a atenção. Em dias frios como aquele questionava-se durante quanto tempo poderia um homem sobreviver nas águas oleaginosas do rio, debatendo-se contra a corrente enganadoramente forte antes de sucumbir ao seu gélido abraço. Era um pensamento deprimente que se apressou a esquecer. Afinal, estava em Paris; havia demasiado tráfego ribeirinho, demasiadas pessoas como ele que admiravam o rio pela sua multiplicidade de pontes, para um homem bracejante passar despercebido durante muito tempo. Cinco minutos mais tarde avistou uma banca de livros à beira-rio; quatro caixas de metal verdes aferrolhadas ao muro baixo e atafulhadas de livros, as suas coloridas lombadas abertas em leque nas prateleiras como as penas de uma ave para atrair os transeuntes. O proprietário da banca encontrava-se inclinado sobre uma caixa, a bainha do seu puído casaco cinzento a roçar o pavimento. Um dos atacadores havia-se desapertado, mas o homem ignorava-o, apesar de os seus dedos esgaravatarem os postais ilustrados, a apenas alguns centímetros de distância.
Uma onda de gritos obrigou o vendedor a endireitar-se e ambos os homens olharam na direcção das vozes, que soavam de uma banca a cerca de cinquenta metros, do outro lado da entrada para a Pont Neuf. Um homem, atarracado e corpulento, espetou um dedo e gritou para a dona da banca, uma mulher de faces rubras, agasalhada contra o frio e decidida a responder na mesma moeda. O idoso abanou a cabeça e voltou a sua atenção para a caixa. Hugo pigarreou suavemente. Oui, monsieur? A voz do vendedor era áspera, porém, quando olhou para cima e viu Hugo, deixou fugir um sorriso. Ah, é o senhor. Por onde tem andado, mon ami? Salut, Max. Hugo descalçou uma luva e apertou a mão estendida de Max, quente apesar do frio que se fazia sentir. Falaram em francês, ainda que o homem mais velho soubesse falar inglês bem o suficiente quando lhe interessava, como quando as bonitas jovens americanas paravam diante da sua banca de livros. Qual a razão do espalhafato?, indagou Hugo. Max não respondeu e voltaram-se para assistir à cena. A mulher agitava um braço como que a dizer ao homem entroncado que a deixasse em paz. A resposta do homem chocou Hugo: pôs-lhe a mão no pulso e torceu-o até a fazer rodopiar e, no mesmo movimento, deu-lhe um pontapé nas pernas e desequilibrou-a. A mulher caiu de joelhos e soltou um gemido ao mesmo tempo que atirava a cabeça para trás em sofrimento. Hugo deu um passo em frente, mas sentiu uma mão forte a puxá-lo para trás.
Non, disse Max. Não se meta. Une affaire domestique. Hugo afastou-o. Ela precisa de ajuda. Fique aqui. Non, insistiu Max, agarrando o braço de Hugo com uma força que o americano sentiu mesmo sob o casaco de inverno. Deixe-a, Hugo. Ela não precisa da sua ajuda, acredite no que lhe digo. Porque não? Quem diabo é ele? Hugo sentiu a tensão crescer no seu corpo e lutou contra o desejo de a libertar do fanfarrão do outro lado da rua. Qualquer coisa no apelo de Max levara-o a pensar duas vezes. Envolver-se podia piorar as coisas. O que se passa, Max?, repetiu. O francês fitou-o durante algum tempo, depois soltou o braço de Hugo e desviou o olhar. O homem mais velho virou-se para a sua banca, pegou num livro e pôs os óculos para conseguir ler a capa. Hugo virou-se para o encarar e reparou que lhe faltava a lente esquerda. Bolas, Max. Diga-me que aquele tipo não lhe fez uma visita. A mim? Não. Max limpou o nariz abatatado e bexigoso com a manga do casaco, mas não olhou Hugo nos olhos. Porque haveria de o fazer?
Diga-me o Max. O cais era um íman para gente doida, Hugo sabia-o, atraída como mosquitos pela água e pelos turistas que circulavam pelo coração da cidade. Por nenhuma razão. Se está preocupado com os meus óculos, fique a saber que os deixei cair, apenas isso. Max olhou, por fim, para Hugo e o sorriso regressou. Sim, estou a ficar velho e desastrado, mas ainda consigo tomar conta de mim. De qualquer maneira, o seu trabalho é garantir a segurança do seu embaixador, proteger a embaixada, e não preocupar-se com velhos como eu. Estou de folga, posso preocupar-me com quem quiser. Max voltou a agarrar o braço de Hugo, desta vez de forma tranquilizadora. Estou bem. Está tudo bem. D'accord. Se o diz. Hugo olhou para o outro lado da rua e viu a mulher já de pé, os braços do homem a agitarem-se em volta dela, mas sem lhe tocar. Relutantemente, Hugo decidiu ignorar o assunto. Virou-se para os livros em exposição. É assim que toma conta de si, explorando turistas, oui? Tem algo que valha a pena comprar? Preciso de um presente». In Mark Pryor, O Livreiro, 2012, tradução de Dina Antunes, Clube do Autor, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-724-062-1.

Cortesia ClubedoAutor/JDACT