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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Nómada. Ayaan Hirsi Ali. «O manto negro de Sahra ultrapassava as pontas dos seus dedos e chegava até ao chão; a cada palavra e gesto seu, ela buscava expressar sua submissão à vontade de Alá…»



Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Toda uma cultura e sua religião pesam sobre cada muçulmano, mas o maior dos pesos recai desproporcionalmente sobre os ombros da mulher. Somos obrigadas a obedecer e somos obrigadas a viver na castidade e na vergonha por Alá, pelo Profeta e pelos pais e maridos que são nossos guardiões. As mulheres na Whitechapel Road carregam o fardo de todas as obrigações e regras religiosas que, no Islão, se concentram de forma obsessiva nas mulheres, com a mesma inexorabilidade que observam suas irmãs na África Oriental. Eu ainda sentia a dor provocada pela ideia de ter manchado o bom nome do meu pai. Por ser uma apóstata, uma descrente, por viver agora como uma mulher ocidental, eu o tinha magoado, prejudicado e até profanado com minha rebelião. Mas eu sabia também que aquilo era necessário, vital. Sahra tinha adoptado o caminho inverso. Ela não se rebolou. Magool me dissera que Sahra era muito religiosa e que usava o jilbab, um longo roupão preto que cobre o cabelo e todo o corpo além dos tornozelos e pulsos, mas não o rosto. O manto negro de Sahra ultrapassava as pontas dos seus dedos e chegava até ao chão; a cada palavra e gesto seu, ela buscava expressar sua submissão à vontade de Alá e à autoridade dos homens. O véu muçulmano, os diferentes tipos de máscaras e burcas, são gradações da escravidão mental. É preciso pedir permissão para sair de casa, e, quando saímos, somos invariavelmente obrigadas a nos esconder sob tecidos espessos. Envergonhadas do próprio corpo, suprimindo nossos desejos, sobra algum espaço na vida, por menor que seja, para ser chamado de nosso?

O véu marca deliberadamente as mulheres como propriedade particular e restrita, como não pessoas. O véu separa as mulheres dos homens e do mundo; ele as restringe, confina, educa para a docilidade. A mente pode receber um espaço tão limitado quanto o corpo, e o véu muçulmano restringe tanto a visão da mulher quanto o seu destino. Trata-se da marca de uma espécie de apartheid, reflectindo não a dominação de uma raça, mas de um género. Enquanto o carro avançava pela Whitechapel Road, senti raiva ao ver que essa submissão, ainda que não fosse promovida, era silenciosamente tolerada não apenas pelos britânicos, mas por tantas sociedades ocidentais nas quais a igualdade entre os sexos é protegida pela lei.

Do aeroporto, telefonei para Sahra e contei que tinha ido visitar o nosso pai e estava partindo de volta para os Estados Unidos. Você foi realmente abençoada com a boa sorte!, disse em somali, rindo com a brincadeira que fizera com o meu nome, Ayaan, afortunada. Desde que falou com ele pelo telefone semanas atrás, ele não parou de falar a seu respeito. Conversamos um pouco sobre a família. Tomei o cuidado de não dizer nada que ela pudesse considerar ofensivo. Perguntei à minha irmã porque o hospital tinha internado o pai sob um nome falso, e ela respondeu: Ah, este é o nome que ele usou quando pediu asilo no Reino Unido. Conversamos sobre o hospital, e Sahra me contou uma história engraçada. Quando meu pai foi levado para lá, a mãe dela disse aos enfermeiros que era esposa dele; então sua primeira mulher, Maryan Farah, foi visitá-lo, pois também morava na Inglaterra, e disse aos enfermeiros que ela era a mulher do meu pai. A equipe do hospital parecia se divertir com o número impossível de pessoas que afirmavam ser irmãos e primos dele. Eu ri. Eles devem pensar que somos todos loucos, disse Sahra. Eu disse a ela que provavelmente aquela não era a primeira vez que o hospital via uma situação do tipo.

À semelhança da mãe, cada frase dita por Sahra parecia terminar em Inshallah, é a vontade de Alá. De início, isso me pareceu um sinal de bom comportamento e de um alto grau de civilização, mas, depois de tantos suspiros de aceitação, tantas invocações da vontade de Alá e tantos pedidos pela bênção de Alá, envergonho-me de admitir que aquilo começou a me irritar. Passei a desconfiar dela; Sahra não era mais a criança feliz e saltitante que conheci em 1992». In Ayaan Hirsi Ali, Nomad, From Islam to America, Nómade, tradução de Augusto Calil, Companhia das Letras, 2010, ISBN 978-858-086-374-1 e / ou In Ayaan Hirsi Ali, Nómada, Galaxia Gutenberg, 2011, ISBN 978-848-109-928-7.

Cortesia da CdasLetras/GGutenberg/JDACT

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sábado, 10 de julho de 2021

Nómada. Ayaan Hirsi Ali. «Todos falavam, numa balbúrdia amigável de fofocas e críticas aos habash, palavra usada pelos somalis para se referir aos etíopes»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Não soube ao certo se o estado da roupa era um indício de pobreza ou se apenas seguia o modo etíope de tratar as crianças. Quando morávamos em Adis Abeba, todos vestiam farrapos e pareciam ser negligenciados pelos pais. Quando pequena, eu considerava essa negligência a epítome da liberdade. Queria ser deixada em paz, brincar por quanto tempo desejasse, fosse dia ou noite, em vez de ser obrigada a trabalhar. A mãe de Sahra parecia ser tão indulgente quanto a minha fora austera e proibidora. Mas o vestido da minha meia-irmã não era a única coisa em frangalhos. O apartamento se encontrava no mesmo estado. Estávamos num cómodo apertado, separado dos demais espaços por um fino lençol de algodão que já fora branco, mas estava manchado pela fumaça e pelo pó. O cimento do prédio residencial já tinha sido liso e plano, e agora, como tantos outros apartamentos partilhados, tinha rachaduras e buracos grandes e pequenos que eram preenchidos por pequenas poças d’água. Nenhum dos ocupantes podia arcar com o custo dos reparos, e eles não se uniam para levantar o dinheiro necessário para a manutenção e a limpeza das áreas comuns. No fim da tarde, mosquitos gordos zumbiam e se lamentavam perto dos meus ouvidos. Decidi fazer uso do meu melhor árabe e amárico para propor que secássemos as poças d’água.

Minha madrasta dera de ombros numa encantadora manifestação de conformismo. É a vontade de Alá, disse. As poças secarão quando parar de chover. Alá traz a chuva e Alá faz o sol brilhar. A terceira esposa do meu pai aceitava a vida da maneira que se apresentava a ela. Como minha mãe, ela era passiva, mas sua passividade era diferente. As duas eram versadas em autopiedade, resignadas às circunstâncias. Porém, minha mãe amaldiçoava, ralhava, gritava, exigia e insultava aqueles que considerava responsáveis. A mãe de Sahra sorria e repreendia com doçura; abaixava o olhar e parecia contente. O que quer que o próximo dia lhe trouxesse seria a vontade de Alá, e ela não via razão para desafiar os acontecimentos, seu marido nem seu Deus. Todas as suas frases terminavam com Inshallah, é a vontade de Alá. Era este o seu método de sobrevivência. Não tive a energia nem a habilidade linguística para sugerir que, embora pudéssemos deixar que Alá se encarregasse de coisas como trazer a chuva e o brilho do sol, talvez pudéssemos secar as poças nós mesmas. Tive malária duas vezes durante a infância e aprendi nas aulas de ciências e higiene, tanto em Juja Road quanto na Escola Feminina de Ensino Fundamental Muçulmano, que o parasita responsável pela malária deposita seus ovos na água parada. Para evitar a doença, combatíamos os insectos com veneno e dormíamos sob filós, mas tínhamos também que secar as poças d’água que se formavam no nosso complexo habitacional e até nas ruas em torno da nossa casa. É claro que nunca conseguimos erradicar as poças de nosso bairro, mas, enquanto crescia, sequei nosso complexo habitacional em Nairóbi com o zelo de uma sobrevivente e contei a meus parentes somalis sobre animais invisíveis que se reproduziam na água.

A pequena Sahra e sua mãe levavam uma vida bastante comunitária. Durante todo o dia as pessoas entravam e saíam do edifício que abrigava o complexo. Num dos cantos do pátio havia uma grande jarra d’água feita de pedra, e os homens entravam, apanhavam um pouco de água com a concha de alumínio e bebiam directamente a partir dela. As mulheres usavam a mesma jarra para fazer chá e encher suas panelas. A certa altura daquela tarde, alguém disse algo sobre a higiene: lave as mãos antes de usar a jarra. Todos bebemos daí. O quê?, disse um jovem com um sorriso confuso. Lavar as mãos com o quê? Não há mais água. De facto, a concha metálica bateu contra o fundo da jarra de pedra fazendo muito barulho, indicando que estava vazia, e as senhoras mais velhas começaram a se lamentar e gritar, pedindo às mais novas que fossem buscar água. As preocupações com a higiene se perderam no meio do burburinho. Todos falavam, numa balbúrdia amigável de fofocas e críticas aos habash, palavra usada pelos somalis para se referir aos etíopes. Todas as frases que diziam eram pontuadas por expressões como pela vontade de Alá ou pelo amor de Alá.

Sentada no carro que me levava para longe do meu pai após tê-lo visto pela última vez, pensei no que teria me afastado da minha família e dele durante tanto tempo: a regra que dita que um homem deve contar com a obediência de suas mulheres, de suas esposas e de suas filhas, e que elas devem se submeter a ele. Se as mulheres de um homem rejeitarem a submissão, elas . atingem; sua reputação, sua autoridade, a ideia de que ele é leal, forte e cumpridor de sua palavra. Essa ideia faz parte de uma crença mais ampla segundo a qual os indivíduos não têm importância, suas escolhas e seus desejos não têm significado, principalmente se os indivíduos em questão forem mulheres. Essa ideia de honra e direito masculino restringe drasticamente as escolhas das mulheres». In Ayaan Hirsi Ali, Nomad, From Islam to America, Nómade, tradução de Augusto Calil, Companhia das Letras, 2010, ISBN 978-858-086-374-1 e / ou In Ayaan Hirsi Ali, Nómada, Galaxia Gutenberg, 2011, ISBN 978-848-109-928-7.

Cortesia da CdasLetras/GGutenberg/JDACT

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domingo, 22 de dezembro de 2019

Nómada. Ayaan Hirsi Ali. «As cabines telefónicas e as placas do metro londrino eram britânicas, mas seria difícil acreditar que estávamos na Inglaterra. Senti o cheiro das lancheiras das minhas colegas na Escola Feminina de Ensino Fundamental Muçulmano em Nairóbi…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O horário de visitas se aproximava. Logo a torrente de somalis sobre a qual Sahra me alertara começaria a chegar para ver meu pai, e eu não poderia suportar a ideia de um confronto. Assim, dolorosamente, despedi-me de abeh. Quando os homens da Scotland Yard me escoltaram para fora do hospital, eu me vi na Whitechapel Road, centro da maior população muçulmana do Reino Unido. Um ruidoso mercado coberto com uma lona ficava do outro lado da rua, repleto de barracas vendendo sáris de todos os tamanhos, cartões telefónicos internacionais e sanduíches de cordeiro picantes. Ao meu lado, na calçada, no ponto de autocarro perto da escadaria do hospital, havia um grupo de muçulmanas usando cada variedade imaginável de coberta islâmica, desde um lenço pastel sobre a cabeça até o espesso niqab preto que cobre o corpo completamente, com um véu de tecido também preto que esconde o rosto e os olhos. Eram mulheres jovens e fortes, e não velhas senis; algumas estavam grávidas, a maioria tinha muitas crianças pequenas, e estavam sob o sol na rua fazendo compras para a família. Muitas usavam uma variação que eu não conhecia: além de um longo roupão e de um lenço sobre a cabeça, elas tinham um véu extra para o rosto afixado com velcro, com duas tiras espessas de tecido preto presas de modo a deixar visível apenas cerca de dois centímetros, o suficiente para revelar os cílios.
As cabines telefónicas e as placas do metro londrino eram britânicas, mas seria difícil acreditar que estávamos na Inglaterra. Senti o cheiro das lancheiras das minhas colegas na Escola Feminina de Ensino Fundamental Muçulmano em Nairóbi, um embate de temperos e alimentos, e óleos perfumados para o cabelo. Aqui havia novamente a ruidosa agitação da rua e a mistura de pessoas, somalis e, imagino, paquistaneses e bengalis, que se amontoavam no mercado. Os simples odores me causaram uma pontada de saudades da inocência da juventude. Não sei se em outras culturas o sentimento de pertencer a uma comunidade é tão forte, mas para alguém que cresceu dentro de um clã, a sensação, o cheiro, da família é muito poderosa. E se alguém em meio a essa multidão me reconhecesse e decidisse comprar uma briga? Aos olhos de muitos deles, sou uma infiel e uma traidora, que anda por aí sem receber o devido castigo.
Eu e meus guarda-costas voltamos para o carro e dirigimos pela Whitechapel Road, lentamente, em meio ao tráfego pesado. Sentada do lado de fora de um fast-food halal, vi uma mulher pequena usando um longo roupão preto com um coque de tecido bordado sobre o nariz e a boca, ao estilo das argelinas. Duas crianças pequenas choravam no carrinho de bebé ao lado dela, que procurava animá-las e confortá-las enquanto erguia o tecido para tentar comer o quitute discretamente sob o véu. A criança mais velha também usava um véu. Não era um véu que cobria o rosto, e sim o cabelo e os ombros; era branco e folgado e possuía um elástico, fazendo com que se instalasse confortavelmente sobre a cabeça da criança. A menina não deveria ter mais do que três anos.
Um pouco mais adiante havia uma mesquita, a maior de Londres, de acordo com minha escolta. Uma pequena multidão de homens estava do lado de fora, todos usando roupas folgadas, barbas longas e chapéus brancos típicos. Todas aquelas pessoas tinham abandonado seus países de origem, indispostas a ou incapazes de deixar o passado para trás, apenas para se reunirem aqui, onde defendem a sua cultura com mais força do que em Nairóbi. Ali estava a mesquita, como um norte magnético simbólico, a força que levava as mulheres deles a se cobrir com tamanha ferocidade, para melhor separá-las da terrível influência da cultura e dos valores do país onde escolheram morar. Foi apenas um vislumbre, e ainda assim fui acometida por uma sensação instantânea de pânico e sufocamento. Eu estava de volta ao coração de tudo: dentro do mundo de véus e antolhos, do mundo em que as mulheres precisam esconder o cabelo e o corpo, precisam se encolher para comer em público, e precisam manter a distância de alguns passos quando acompanham o marido na rua. Uma teia de valores, de horror, de vergonha e de religião, ainda me enredava a todas aquelas mulheres no ponto de autocarro e a quase todas as mulheres que passavam pela Whitechapel Road naquela manhã. Estávamos todas muito longe de onde nasci, mas eu era a única que tinha deixado para trás aquela cultura. Elas trouxeram consigo a sua teia de valores, atravessando metade do mundo. Tive a sensação de ser a única verdadeira nómada.

A Minha meia-irmã
No caminho de volta até ao aeroporto de Heathrow, lembrei-me da primeira vez que encontrei a minha meia-irmã, Sahra, em 1992, na Etiópia. Ela tinha oito anos, e eu, com 22, tinha acabado de me casar e estava a caminho da Europa. Apelamos para a linguagem de sinais, sorrimos, ficamos de mãos dadas e falhando nas tentativas de compreender uma à outra. Sahra era uma criança adorável, com uma curiosidade luminosa e um jeito de demonstrar afeição fisicamente que herdara do meu pai. Ela corria pela casa com a mesma energia, entusiasmo e espírito brincalhão da minha irmã Haweya. Naquele dia, Sahra vestia um vestido sem mangas, rasgado e remendado em tantos pontos que não pude evitar de me sentir constrangida por não lhe ter trazido um novo». In Ayaan Hirsi Ali, Nomad, From Islam to America, Nómade, tradução de Augusto Calil, Companhia das Letras, 2010, ISBN 978-858-086-374-1 e / ou In Ayaan Hirsi Ali, Nómada, Galaxia Gutenberg, 2011, ISBN 978-848-109-928-7.
                                                                                                                            
Cortesia da CdasLetras/GGutenberg/JDACT

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Nómada. Ayaan Hirsi Ali. «Não fui ao hospital em busca de absolvição. Já não acreditava na ideia de que se fizesse a coisa certa, como cumprir o meu dever de buscar o perdão dos meus pais e conquistar a sua bênção, meus pecados seriam lavados»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Eu precisava voar até Londres imediatamente. Sendo esta uma viagem urgente, não planeada e puramente pessoal, providenciar um esquema de segurança seria uma tarefa complicada, diferentemente de participar de uma conferência, quando tudo era coordenado com a polícia com semanas de antecedência. Eu sabia que não seria sábio simplesmente partir, acompanhada pelos homens que costumam proteger-me nos Estados Unidos. Esses homens não estavam familiarizados com o Reino Unido e não poderiam andar armados. Se fosse descuidada no meu planeamento, poderia colocar em risco tanto a mim como outras pessoas. Telefonei para alguns amigos na Europa que pensei serem influentes e pedi a eles que tentassem ajudar-me a conseguir a protecção necessária para fazer a viagem. Eles passaram muitas horas tentando ajudar-me, aparentemente sem sucesso. Um amigo ouviu de um funcionário do governo britânico que, como nasci na Somália, eu deveria pedir ajuda à embaixada somali; ela poderia entrar em contacto com o ministério britânico das Relações Exteriores e solicitar ajuda para providenciar a minha segurança. Essa lógica burocrática absurda poderia ser considerada cómica noutras circunstâncias, mas não diante da necessidade de chegar a Londres para ver meu pai moribundo.
Quando o meu avião partiu eu não sabia se poderia contar com a protecção de seguranças após a aterragem. Mas isso não importava mais; após dias de espera o meu único medo era o de chegar tarde demais. Eu sabia que se meu pai morresse não permitiriam que eu visse o corpo dele. Ele seria levado por parentes homens para ser lavado e enterrado num prazo de 24 horas. As mulheres não podem ficar ao lado do túmulo durante uma cerimónia fúnebre muçulmana. Acredita-se que a presença delas é uma distracção; elas podem-se tornar histéricas e até se jogar na cova para ficar junto do corpo. Seria inapropriado tentar participar da cerimónia. Meu pai tinha uma atitude contraditória em relação às mulheres. Ele adoptou algumas ideias modernas em relação à alfabetização, insistiu para que a sua primeira esposa frequentasse a universidade e defendeu que eu e minha irmã Haweya fôssemos à escola quando minha mãe resistiu à ideia. Ele acreditava na força das mulheres e insistia repetidas vezes que o nosso papel era valioso e importante. Mas, conforme ficou mais velho, tornou-se mais ortodoxo nas convicções islâmicas segundo as quais devemos nos cobrir, nos casar e nos submeter ao nosso marido. Apesar de suas opiniões frequentemente excêntricas, nem mesmo meu pai teria tolerado a presença de uma mulher num funeral.
Quando cheguei a Heathrow, o aeroporto de Londres, um grande carro preto da embaixada holandesa estava esperando para me receber; outro veículo, menor e mais seguro, trazia homens da Scotland Yard. Fomos directamente para o hospital. Agora, para meu alívio, o meu pai estava vivo diante de mim. Pobre abeh. Estava amarrado a um leito hospitalar, velho, vulnerável, doente. Sorriu profundamente ao ver-me e então cochilou, acordando de tempos em tempos em busca de ar, fazendo repetidas tentativas de falar, mas sem conseguir emitir nenhuma palavra, somente um ofegante Ash hah. Então ele me mandou beijos com um movimento dos lábios e apertou a minha mão com toda a força que lhe restava. Senti o peso do fardo de tudo aquilo que não havia dito a ele e dos anos que desperdiçamos afastados. As únicas palavras que fui capaz de encontrar foram mensagens simplórias de amor, e eu as repeti de novo e de novo. Era tarde demais para outra coisa.
Não fui ao hospital em busca de absolvição. Já não acreditava na ideia de que se fizesse a coisa certa, como cumprir o meu dever de buscar o perdão dos meus pais e conquistar a sua bênção, meus pecados seriam lavados. Talvez minha presença nem mesmo o agradasse muito, pois ele veria que a filha vestia calças e não usava lenço sobre a cabeça. Fui até lá apenas pela luz em seus olhos, para que me reconhecesse, pelo amor dele por mim e pelo amor que sentia por ele, um reconhecimento mútuo do facto de que sempre fomos preciosos um para o outro. Ele usava as suas últimas reservas de energia na tentativa de me dizer alguma coisa. Nunca saberei o que era. Para meu pai, Deus era o criador e o mantenedor, mas Deus também era feroz e cheio de ira. No fundo, compreendi que, no seu leito de morte, ele estava aterrorizado por eu ter incorrido na ira de Alá ao ter rejeitado a sua fé. O pai sempre nos ensinou que aqueles que Deus não perdoou levarão uma vida miserável na terra e queimarão no fogo eterno do além. Mas, apesar das nossas crenças não se terem reconciliado, o que seria impossível, pois são de mundos diferentes, acho que meu pai me perdoou. No fim, ele permitiu que o seu sentimento de amor paterno transcendesse a adesão às exigências do seu Deus inclemente». In Ayaan Hirsi Ali, Nomad, From Islam to America, Nómade, tradução de Augusto Calil, Companhia das Letras, 2010, ISBN 978-858-086-374-1 e / ou In Ayaan Hirsi Ali, Nómada, Galaxia Gutenberg, 2011, ISBN 978-848-109-928-7.
                                                                                                                            
Cortesia da CdasLetras/GGutenberg/JDACT

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Nómada. Ayaan Hirsi Ali. «Alguns deles com certeza achariam que eu merecia a morte, e para muitos mais a minha simples presença seria uma profanação do leito de morte do meu pai»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Deixei-o falar. Não fiz falsas promessas de conversão. Se as tivesse feito, talvez desse mais paz a ele, mas não pude fazê-lo, não pude mentir a respeito disso. Consegui dizer gentilmente que, apesar de não concordar mais com o islão, eu ainda lia o Alcorão. Não acrescentei que a cada releitura eu me tornava mais crítica em relação às suas mensagens. Ele irrompeu numa série de súplicas: que Alá a proteja, que Ele a traga de volta para o rumo correcto, que Ele a leve ao Paraíso no além, que Alá a abençoe e preserve sua saúde. Ao fim de cada súplica, respondi com a fórmula exigida: amin, que assim seja.
Depois de algum tempo disse a meu pai de que precisava tomar um avião. Ele não perguntou para onde nem por quê; percebi que os detalhes dos assuntos terrenos tinham pouca importância para ele agora. Então desliguei, deixando entre nós muitas outras coisas por dizer, e quase perdi o avião que me levaria ao Brasil para uma conferência sobre multiculturalismo. No fim de Junho, após a conferência no Brasil, eu deveria ir até à Austrália para participar de um colóquio sobre o Iluminismo. Planeei visitar o meu pai no fim do verão. Mas em meados de Agosto, quando estava voltando da Austrália, recebi outro telefonema de Marco durante uma paragem em Los Angeles. Meu pai estava em coma. Telefonei novamente para a minha prima, Magool, e ela me deu o número de telemóvel da minha meia-irmã, Sahra. Quando vira a filha mais nova do meu pai pela última vez, em 1992, Sahra estava com oito ou nove anos, uma criança franzina e energética. Conhecemo-nos quando parei na Etiópia durante a viagem da minha casa, no Quénia, até à Alemanha.
De lá, sob as ordens do meu pai, eu deveria ir ao Canadá para me unir a um homem que mal conhecia, um primo distante que se havia tornado meu marido. Naquela época, Sahra morava em Adis Abeba com a mãe, que, como a minha própria mãe, ainda estava casada com meu pai apesar da sua ausência. Brinquei com esta meia-irmã durante toda a tarde, esforçando-me para lembrar o amárico da minha infância, o único idioma falado por ela na época e a língua que eu mesma falava quando tinha essa idade e ainda morava com meu pai.
Agora, no Verão de 2008, Sahra tinha 24 anos. Estava casada e tinha uma filha de quatro meses. Morava com a mãe, a terceira esposa do meu pai. Não contei a Sahra que pretendia visitar o meu pai no hospital. É horrível escrever algo deste tipo, mas a verdade é que eu não sabia se poderia confiar nela e dividir essa informação. Acredito que os membros mais próximos da minha família não desejam realmente matar-me, mas a verdade é que eu os envergonhei e magoei; eles têm de suportar a indignação causada pelas minhas declarações públicas, e sem dúvida alguns membros do meu clã querem matar-me por causa disso.
Mas Sahra adiantou-se e sugeriu que se eu quisesse visitar abeh seria melhor evitar o horário oficial de visitas, quando multidões de somalis procurariam o meu pai no Royal London Hospital em busca de uma bênção dele que melhorasse as suas chances de chegar ao Paraíso. Para muitos, abeh era um símbolo da luta contra o regime militar do presidente Siad Barre; ele era um homem que dedicou a maior parte de sua vida adulta à tentativa de derrubar aquele regime. No East End de Londres, as coisas eram como na Somália: muitas esposas, muitos filhos e netos, anciãos do clã e do subclã e dos subclãs irmãos, muitos e muitos parentes procuravam meu pai para manifestar o seu respeito por ele. Para muitos deles eu não seria bem-vinda ao lado da cama do meu pai por ser uma descrente, uma infiel, uma ateia declarada, uma fugitiva suja e, ainda pior, uma traidora do clã e da fé.
Alguns deles com certeza achariam que eu merecia a morte, e para muitos mais a minha simples presença seria uma profanação do leito de morte do meu pai, podendo até custar a ele o seu lugar no além. Entretanto, não senti em Sahra tamanha rejeição. Ela foi doce e silenciosa, um pouco como se participasse de uma conspiração, como se ao conversar com ela pelo telefone eu a tivesse envolvido em algo clandestino e perigoso». In Ayaan Hirsi Ali, Nomad, From Islam to America, Nómade, tradução de Augusto Calil, Companhia das Letras, 2010, ISBN 978-858-086-374-1 e / ou In Ayaan Hirsi Ali, Nómada, Galaxia Gutenberg, 2011, ISBN 978-848-109-928-7.

Cortesia da CdasLetras/GGutenberg/JDACT

terça-feira, 11 de abril de 2017

Nómada. Ayaan Hirsi Ali. «Aliás, outro dia, um dos membros mais destacados de nosso clã disse que desejava debater contigo»

jdact e wikipedia

«(…) No entanto, se fosse até lá acompanhada pela polícia, isso certamente causaria ressentimentos, transmitindo a impressão de que eu não podia confiar nem na minha própria família. Segurança!, bradou meu pai. Precisa de segurança para quê? Alá vai protegê-la de todos que desejarem fazer-lhe mal! Ninguém da nossa comunidade vai encostar um dedo em si. Além disso, a nossa família nunca foi conhecida pela cobardia! Aliás, outro dia, um dos membros mais destacados de nosso clã disse que desejava debater contigo. Se quiser, posso pedir a eles que reúnam uma delegação para levá-la a Jidá, para que possa conversar com ele na Arábia Saudita! Por que não convoca uma conferência de imprensa para anunciar que não é mais uma infiel? Diga a eles que voltou ao islão e que agora é uma mulher de negócios!
Ri do meu pai em voz baixa e durante algum tempo dediquei-me apenas ao prazer de ouvi-lo falar. Então perguntei sobre a sua saúde. Ele respondeu: lembre-se, Ayaan, que a nossa saúde e a nossa vida estão nas mãos de Alá. Estou a caminho do além. O que quero, filha querida, é que leia apenas um capítulo do Alcorão. Laa-uqsim Bi-yawmi-il-qiyaama. Ele recitou, em árabe, é claro, apesar de estarmos conversando em somali, a sura da ressurreição: juro pelo Dia da Ressurreição! E juro pela alma, constante censora de si mesma, que ressuscitareis. O ser humano supõe que não lhe juntaremos os ossos? Sim! Juntar-lhos-emos, sendo Nós Poderosos para refazer-lhe as extremidades dos dedos. Mas o ser humano deseja ser ímpio, nos dias que tem à sua frente. Ele interroga Quando será o Dia da Ressurreição? Eu disse a meu pai que não mentiria para ele e que não acreditava mais no exemplo do Profeta. Ele interrompeu-me, e o tom de sua voz se tornou apaixonado, impaciente, depois admoestador. Ele leu para mim outros versos do Alcorão, traduzindo-os para o somali, e listou muitos exemplos de pessoas que tinham deixado o islão como eu, mas depois voltaram para a fé. Ele falou das hordas de não muçulmanos que se convertiam em todo o mundo e a respeito do único Deus verdadeiro; ele me alertou para não colocar em risco a minha existência no além.
Enquanto o ouvia, disse a mim mesma que aquele discurso professoral vinha de um pai que expressava o seu amor da única maneira que sabia. Queria acreditar que o facto de ele estar orientando-me significava que, em algum sentido mais profundo, ele tinha começado a perdoar-me pela pessoa que me havia tornado. Entretanto, acho que não foi nada disso. Talvez ele estivesse apenas cumprindo o seu dever. O facto de eu viver como uma ocidental significava que tinha perdido a minha honra; eu vestia roupas ocidentais, o que para ele não era melhor do que se não usasse roupa nenhuma. O pior de tudo é que eu tinha abjurado do islão e escrito um livro com o ousado e triunfante título de Infiel para proclamar a minha apostasia. Mas o meu pai sabia que a sua vida estava chegando ao fim e queria certificar-se de que todos os filhos, apesar dos seus erros, estivessem no caminho que leva ao Paraíso». In Ayaan Hirsi Ali, Nomad, From Islam to America, Nómade, tradução de Augusto Calil, Companhia das Letras, 2010, ISBN 978-858-086-374-1 e / ou In Ayaan Hirsi Ali, Nómada, Galaxia Gutenberg, 2011, ISBN 978-848-109-928-7.

Cortesia da CdasLetras/GGutenberg/JDACT

Infiel. Ayaan Hirsi Ali. «Bebíamos água da torneira. Jamais conseguiríamos achar o caminho de volta se fôssemos pastorear rebanhos no deserto; não sabíamos nem mesmo ordenhar uma cabra sem levar um coice»

Cortesia de wikipedia e jdact
«(…) Durante o resto da vida, minha avó foi impecável em tudo. Criou oito meninas e um menino, e nunca houve quem dissesse uma palavra capaz de lhe de trair a virtude ou o trabalho. Ela inculcou nos filhos força de vontade, obediência e senso de honra. Pastoreava os animais, ia buscar lenha, construía cercados de varas rendadas com galhos arrancados. Tinha mãos e cabeça duras, e, quando o marido presidia às reuniões de clã na qualidade de árbitro, a avó procurava manter as filhas bem longe e a salvo dos homens, das cantorias e dos tambores. Só à distância é que elas podiam ouvir os desafios poéticos e observar os homens trocarem bens e histórias. Minha avó não tinha ciúme da co-esposa mais velha, embora a mantivesse à distância; quando esta morreu, tolerou a presença da arrogante enteada Khadija, a garota quase da sua idade. Artan tinha nove filhas e uma esposa jovem. Era sumamente importante preservar a honra de todas essas mulheres. Ele as conservava bem longe dos outros nómades, passando semanas a errar em busca de um lugar com pasto e sem homens. Viajava incessantemente pelos mais remotos desertos. Debaixo da árvore da nossa casa de Mogadíscio, a avó sempre falava na bela vaziez (qualidade do que é ou está vazio) de se sentar diante da cabana que ela construíra com as próprias mãos e ficar contemplando a vastidão do espaço sem fim.
De certo modo, ela vivia na Idade do Ferro. Não havia sistema de escrita entre os nómadas. Os artefactos de metal eram raros e valiosos. Os ingleses e os italianos proclamavam-se senhores da Somália, mas isso não significava nada para ela. Para a avó, não havia senão os clãs: os grandes clãs nómadas dos isaq e dos darod, os inferiores agricultores hawiye e os sab, mais reles ainda. Aos trinta e poucos anos, quando viu um branco pela primeira vez, ela pensou que o sol tivesse queimado superficialmente, levemente, a pele do pobre homem. A minha mãe, Asha, nasceu no início da década de 1940, com a sua gémea idêntica, Halimo. A avó as pariu sozinha, debaixo de uma árvore. Eram a sua terceira e quarta filhas; ela tinha uns dezoito anos e estava pastoreando cabras e ovelhas quando sentiu as dores. Deitou-se e deu à luz; então cortou os cordões umbilicais com a sua faca. Algumas horas depois, arrebanhou as cabras e ovelhas e conseguiu levá-las para casa em segurança, antes do anoitecer, carregando as gémeas recém-nascidas. Ninguém deu importância à façanha: ela apenas tinha levado mais duas meninas para casa. Para a minha avó, os sentimentos não passavam de uma perversão imbecil. Mas o orgulho, sim, era importante, orgulho pelo trabalho, orgulho pela própria força, e a autoconfiança. Se fosse fraca, as pessoas falariam mal. Se as suas cercas de espinhos não fossem fortes o bastante, os seus animais seriam atacados por leões, hienas e raposas, o seu marido casaria com outra, as suas filhas perderiam a virgindade e seus filhos seriam objecto de desprezo. Aos olhos dela, éramos crianças inúteis. Criadas em uma casa de blocos de cimento, com telhado sólido, não sabíamos fazer nada que prestasse. Andávamos pelo leito da rua; a rua da nossa casa não tinha calçada, porém, mesmo assim, era uma via aberta na terra.Bebíamos água da torneira. Jamais conseguiríamos achar o caminho de volta se fôssemos pastorear rebanhos no deserto; não sabíamos nem mesmo ordenhar uma cabra sem levar um coice. A avó dedicava a mim um desprezo todo especial. Eu tinha pavor de insectos, por isso, na sua opinião, eu era uma criança verdadeiramente burra. Quando as suas filhas completavam cinco ou seis anos, ela já lhes havia ensinado as coisas mais importantes que precisavam saber para sobreviver. Eu não sabia nada. Minha mãe também nos contava histórias. Tinha aprendido a cuidar dos animais da família e a conduzi-los pelos desertos aos lugares mais seguros. As cabras eram presa fácil para o predador; as meninas também». In Ayaan Hirsi Ali, Infiel, 2006, tradução de Luís Araújo, Editora Schwarcz, Companhia das Letras, 2007, ISBN 978-853-591-109-1.
Cortesia de CdasLetras/JDACT

quarta-feira, 22 de março de 2017

Nómada. Ayaan Hirsi Ali. «Descobri sobre a doença dele em Junho de 2008, algumas semanas antes da sua morte. Eu tinha recebido uma mensagem de Marco, meu ex-namorado holandês»

jdact e wikipedia

«(…) Ao entrar na Unidade de Terapia Intensiva do Royal London Hospital para ver meu pai, receei ter chegado tarde demais. Ele estava estirado no leito hospitalar, com a boca estranhamente aberta, e numerosas e ameaçadoras máquinas estavam ligadas ao seu corpo. Elas emitiam bipes e tiques, e as linhas que se erguiam e mergulhavam em rápida sucessão nos seus monitores pareciam indicar uma breve contagem regressiva até à sua morte. Abeh, gritei com toda a força. Abeh, sou eu, Ayaan. Apertei a mão dele entre as minhas e, ansiosa, beijei a sua testa; os olhos do meu pai se abriram subitamente. Ele sorriu, e o calor do seu olhar e o seu sorriso encheram toda a sala. Pus a palma das minhas mãos sobre a mão direita dele, e ele as apertou e tentou falar, tentou obrigar algumas palavras a saírem. Mas só o que conseguiu foi emitir um chiado e tossir sem fôlego. Fez esforço para se sentar, mas não era capaz de sustentar o peso do próprio corpo. Ele estava coberto com lençóis brancos, e dava a aparência de estar amarrado na cama. Calvo, parecia ser muito menor do que nas minhas lembranças. Havia um terrível tubo na sua garganta que fornecia a ele oxigénio por meio de um respirador; outro tubo saía dos rins para uma máquina de diálise, e um emaranhado de tubos entrava-lhe pelo pulso. Sentei-me ao lado dele e acariciei-lhe o rosto, dizendo: abeh, abeh, está tudo bem. Abeh, meu pobre abeh, o senhor está tão doente. Ele não pôde responder. Quando tentava falar, caía novamente na cama, com o peito ofegante, e a máquina que lhe fornecia oxigênio sibilava em busca de mais ar. Então, depois de repousar por alguns instantes, ele fazia nova tentativa. Indicava com a mão direita que queria uma caneta para escrever, mas mal era capaz de segurá-la; seus músculos estavam muito fracos, e só conseguia fazer rabiscos no papel. O esforço para segurar a caneta era tamanho que começou a escorregar para fora da cama.
A ala hospitalar era ampla, e as enfermeiras estavam ocupadas trocando lençóis e dando remédios. Percebi que o médico tinha sotaque e, por um instante, pensei que fosse do México. Quando perguntei de onde vinha, ele disse-me que era espanhol. A ala era administrada quase que exclusivamente por imigrantes. Não soube distinguir os enfermeiros dos médicos e, enquanto olhava ao redor, tentei adivinhar a origem dos membros da equipa, dos técnicos e dos auxiliares: a península indiana, negros que pensei serem da África oriental ou ocidental, pessoas que pareciam do norte da África, algumas mulheres com lenços na cabeça sobre os uniformes médicos. Se havia funcionários somalis na ala, eu não os vi nem eles me viram, felizmente. Uma das enfermeiras desenrolou um avental de plástico, amarrou-o ao redor da cintura e pediu que eu me afastasse, mas meu pai não quis soltar-me e tive de forçar seus dedos a largarem minha mão. A enfermeira o deixou numa posição mais erecta, apoiando-o em travesseiros e olhando para mim com interesse. Uma das enfermeiras me disse que tinha lido uma reportagem sobre mim numa revista, e por isso algumas delas sabiam quem eu era. Afastei o olhar e reparei no prontuário médico afixado à cama; meu pai estava registado como Hirsi Magan Abdirahman, apesar de seu nome ser Hirsi Magan Isse. Um jovem médico contou-me que meu pai tinha leucemia. Ele poderia ter sobrevivido por mais um ano se não tivesse desenvolvido uma infecção, que se tornara séptica. Apesar de ter saído do coma no qual entrara alguns dias antes, apenas os aparelhos o mantinham vivo. Perguntei seguidas vezes se meu pai estava sentindo dor, mas o médico disse que não; que havia desconforto, mas não dor. Perguntei ao médico se poderia tirar uma foto com meu pai. Ele respondeu que não. Disse que para isso seria necessário pedir permissão ao paciente, e o paciente não estava em condições de tomar esse tipo de decisão.
Em 1992, quando o deixei em Nairóbi, o meu pai era um homem forte e vivaz. Ele podia ser feroz, até assustador, um leão, um líder entre os homens. Durante a minha infância ele foi o meu lorde, o meu herói, alguém cuja ausência era misteriosa, por cuja presença eu ansiava, cuja aprovação significava tudo e cuja ira eu temia. Agora eram muitas as desavenças entre nós. Eu o ofendera profundamente em 1992, ao fugir do marido somali que ele escolhera para o meu matrimónio. Ele tinha-me perdoado por isso; conversámos sobre o assunto, pouco à vontade, pelo telefone. Uma década mais tarde eu o ofendi novamente, quando me declarei incrédula e critiquei abertamente o tratamento dispensado pelo islão às mulheres. O nosso último conflito, o pior, ocorreu depois que fiz um filme sobre o abuso e a opressão a que são submetidas as muçulmanas, Submission, com Theo van Gogh, em 2004. Depois desse episódio o meu pai simplesmente parou de atender os meus telefonemas; ele recusou-se a falar comigo. Algum tempo depois da morte de Theo, quando tive de me esconder e o meu telefone foi-me retirado, parei de tentar entrar em contacto com ele. Quando as pessoas me perguntavam a seu respeito, eu respondia apenas que éramos distantes.
Descobri sobre a doença dele em Junho de 2008, algumas semanas antes da sua morte. Eu tinha recebido uma mensagem de Marco, meu ex-namorado holandês, dizendo que a minha prima que vivia na Inglaterra, Magool, estava procurando-me com urgência. Ela não é próxima da família do meu pai, mas tem recursos. Quando minha meia-irmã, Sahra, percebeu como o pai estava doente, ela pediu a Magool que tentasse encontrar-me, e Magool telefonou para Marco, a única pessoa de quem eu havia sido próxima que ela conhecera, cinco anos antes, da última vez que havíamos conversado. Telefonei para meu pai no seu apartamento num conjunto habitacional localizado no East End de Londres. Já era tarde, noite, onde ele se encontrava, e fazia uma linda tarde de sol na Costa Leste dos Estados Unidos, onde eu estava. Minhas mãos tremiam. Quando atendeu o telefone. A sua voz era exactamente como deveria ser, forte e enérgica. Ao ouvir a voz dele percebi as lágrimas enchendo os meus olhos e disse a única coisa que quis transmitir, que eu o amava, e pude ouvi-lo sorrir, um sorriso tão poderoso que pareceu atravessar a linha telefónica. É claro que me amas!, irrompeu ele. E é claro que eu te amo! Não reparou como os pais acalentam e se relacionam com os filhos? Não viu na natureza como os animais cuidam das suas crias e as lambém? É claro que eu te amo. És minha filha. Eu disse a meu pai o quanto queria vê-lo, mas expliquei que poderia ser difícil garantir a minha segurança numa visita ao seu apartamento, localizado numa área onde predominam os imigrantes, na sua maioria muçulmanos. Visitar um lugar como aquele, desprotegida, seria como um insecto minúsculo a voar numa sala repleta de imensas teias de aranha: a mosquinha pode chegar ao outro lado sem nada sofrer, mas se for apanhada as consequências são óbvias». In Ayaan Hirsi Ali, Nomad, From Islam to America, Nómade, tradução de Augusto Calil, Companhia das Letras, 2010, ISBN 978-858-086-374-1 e / ou In Ayaan Hirsi Ali, Nómada, Galaxia Gutenberg, 2011, ISBN 978-848-109-928-7.

Cortesia da CdasLetras/GGutenberg/JDACT

Infiel. Ayaan Hirsi Ali. «Podia fazer a sua própria casinha abobadada de galhos dobrados e esteiras, e depois desmontá-la e carregá-la num mal-humorado camelo de carga»

Cortesia de wikipedia e jdact
«(…) As histórias da avó eram de arrepiar. Havia as de uma bruxa horrorosa, chamada Matadora ou Carniceira, que tinha a faculdade de adoptar a aparência de uma pessoa querida, respeitável e, de súbito, saltava sobre a pessoa, rindo na sua cara, rarararará, e a matava com a comprida e afiada faca que trazia o tempo todo escondida nas dobras do vestido. E comia-a inteira. Minha avó também nos contava histórias da sua juventude, dos bandos de guerreiros que assolavam o deserto, roubando animais e mulheres, incendiando casarios. Falava sobre todos os desastres esquecidos da sua vida e da dos seus pais: sobre a peste endémica, a malária e a seca, que deixavam regiões inteiras despovoadas. Contava da sua vida. Dos bons tempos, quando as chuvas chegavam e tingiam tudo de verde, quando as enxurradas enchiam repentinamente o leito dos rios, e havia carne e leite em abundância. Tentava nos ensinar o que levava à decadência: quando o capim verdejava, os pastores se entregavam à preguiça e as crianças engordavam. Homens e mulheres se misturavam, cantando e batucando na penumbra, e isso lhes minava a precaução, impedindo-os de se prevenir contra o perigo. Tal combinação, dizia, levava à competição, ao conflito, à desgraça.
Às vezes, nas histórias da avó, surgiam mulheres valentes, mães, como a minha, que se valiam da astúcia e da coragem para salvar os filhos do perigo. Isso nos incutia segurança, de certo modo. A minha avó e também a minha mãe eram destemidas e inteligentes: decerto nos salvariam quando chegasse a nossa vez de enfrentar os monstros. Na Somália, as crianças aprendiam cedo a se precaver contra a traição. As coisas nem sempre eram o que pareciam; o menor deslize podia ser fatal. A moral de todas as histórias da minha avó mirava a nossa honra. Devíamos ser fortes, espertas, desconfiadas; devíamos acatar as normas do clã. A desconfiança era recomendável, principalmente para as meninas. Pois elas podiam ser roubadas. Ou podiam ceder. E aquela que perdesse a virgindade manchava não só a própria honra como a do pai, dos tios, dos irmãos, dos primos. Não havia nada pior do que ser agente de semelhante catástrofe. Por mais que gostássemos das suas histórias, geralmente não dávamos atenção à avó. Ela nos pastoreava quase como as cabras que costumava amarrar na nossa árvore, já que éramos mais desobedientes. O nosso passatempo eram as histórias e as brigas; acho que só vi um brinquedo aos oito anos, quando nos mudamos para a Arábia Saudita. Vivíamos implicando uns com os outros. Haweya e Mahad uniam-se contra mim, ou então Haweya e eu nos uníamos contra Mahad. Mas o meu irmão e eu nunca fazíamos nada juntos. Nós nos detestávamos. Minha avó sempre dizia que era pelo facto de eu ter nascido só um ano depois dele: roubei-lhe o colo da minha mãe. Não tínhamos pai, porque estava na prisão. Eu nem me lembrava dele. A maioria dos adultos que eu conhecia tinha sido criada nos desertos da Somália. País mais oriental e um dos mais pobres da África, a Somália se projectava no oceano Índico, resguardando qual mão protectora a ponta da península Arábica antes de mergulhar no litoral do Quénia. Minha família era de nómadas que percorriam constantemente os desertos do norte e do nordeste em busca de pastagens para os rebanhos. Às vezes, fixavam-se durante uma ou duas estações; quando já não havia água ou pastagem suficiente, ou quando as chuvas não chegavam, pegavam a cabana, punham as esteiras nos camelos e partiam à procura de um lugar melhor para manter os rebanhos vivos. Minha avó sabia tecer tão bem a palha seca que as suas moringas eram capazes de levar água por quilómetros e quilómetros.
Podia fazer a sua própria casinha abobadada de galhos dobrados e esteiras, e depois desmontá-la e carregá-la num mal-humorado camelo de carga. O seu pai, um pastor isaq, morrera quando a avó tinha uns dez anos. A sua mãe casara com o tio dela. (Era uma prática comum. Poupava o dote e evitava problemas.) Quando minha avó fez treze anos, um nómada rico chamado Artan, que já passava dos quarenta, pediu a sua mão a esse tio. Artan era um dhulbahante, uma boa estirpe dos darod. Respeitadíssimo, hábil com os animais e bom viandante, conhecia tão bem o ambiente que sempre sabia quando partir e aonde ir para encontrar a chuva. Os membros dos outros clãs pediam-lhe que arbitrasse as suas disputas. Artan já era casado, mas só tinha uma filha com a mulher, uma menina um pouco menor do que a minha avó. Ao decidir tomar outra esposa, escolheu primeiro o pai da noiva: que fosse um homem de bom clã e de reputação ilibada. A moça tinha que ser trabalhadora, forte, jovem e pura. A avó Ibaado era tudo isso. Artan pagou um lobolo por ela. Dias depois de Artan casar com ela e a levar embora, a minha avó fugiu. Tinha percorrido quase todo caminho de volta ao acampamento da mãe quando o marido a alcançou. Ele consentiu em deixá-la descansar um pouco com a família para se recuperar. Uma semana depois, o seu padrasto levou-a ao acampamento de Artan e lhe disse: este é o teu destino». In Ayaan Hirsi Ali, Infiel, 2006, tradução de Luís Araújo, Editora Schwarcz, Companhia das Letras, 2007, ISBN 978-853-591-109-1. 
Cortesia de CdasLetras/JDACT

sábado, 25 de junho de 2016

Infiel. Ayaan Hirsi Ali. «O estranho passou um ano na casa com o casal. Durante todo esse ano, a relva continuou verdejando e as chuvas voltaram, de modo que não havia razão para seguir viagem. A esposa teve outro filho na cabana»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Aprenda bem isso, diz minha avó, brandindo uma vara na minha direcção. Os nomes lhe darão força. São a sua linhagem. Se os honrar, eles a manterão viva. Se os desonrar, você vai ser prescrita. Não será ninguém. Há-de levar uma vida desgraçada e há-de morrer sozinha. Repita. As crianças somalis precisam decorar sua genealogia: é mais importante do que quase tudo. Sempre que depara com um desconhecido, um somali pergunta: quem és? E os dois começam a retroceder em suas linhagens distintas até encontrarem um ancestral em comum. Se tiver o mesmo antepassado que um somali, mesmo que seja na oitava geração, os dois estão ligados como primos. São membros da grande família que forma o clã. Um oferece comida e hospitalidade ao outro. Embora o filho pertença ao clã do pai, é sempre útil recordar os detalhes da estirpe da mãe, caso viaje e precise da ajuda de um estranho.
Por isso, embora o suor escorresse por nossas costas naquelas longas tardes, o meu irmão mais velho, Mahad, e eu aprendíamos a recitar em uníssono os nomes das duas genealogias. Posteriormente, minha avó começou a ensinar Haweya, minha irmã caçula, a fazer o mesmo, mas não conseguiu. Haweya era viva e inteligente, porém muito mais irrequieta do que nós. A verdade é que esse conhecimento ancestral parecia inútil para nós, crianças modernas, criadas em casas de concreto, com telhados sólidos, por trás de paredes firmes e cercadas. Geralmente fugíamos, esquivando-nos das fortes pancadas que minha avó procurava dar nas nossas pernas com as varas arrancadas da árvore. Tratávamos era de trepar na árvore e ficar brincando nos galhos. Acima de tudo, adorávamos escutar as histórias da minha avó quando a mãe estava cozinhando no fogareiro a carvão e nós nos deitávamos em uma esteira debaixo da nossa árvore. Essas histórias nunca eram narradas quando a gente queria. Chegavam de surpresa. A avó podia estar entrançando uma esteira, resmungando consigo e, de repente, a gente percebia que o murmúrio tinha se transformado em um conto de fadas.
Era uma vez um rapaz nómada casado com uma bela mulher, e eles tinham um filho, ela começava. Os três sabíamos que devíamos nos calar instantaneamente e fingir que estávamos ocupados com alguma coisa; a menor interrupção bastava para irritá-la, e a avó então ralhava connosco e voltava a entrelaçar as finas hastes de palha seca que passava dia e noite costurando para fazer grandes e caprichados tapetes. As chuvas não vieram, e o nómada empreendeu a travessia do deserto em busca de pastagens em que pudesse se fixar com a família. Pouco depois de iniciar a caminhada, chegou a um trecho de relva verde e fresca. Lá havia uma cabana feita de galhos fortes, coberta de esteiras recém-tecidas e toda varrida. A cabana estava vazia. Ele voltou para junto da mulher e contou que, com apenas uma jornada, tinha encontrado o lugar perfeito. Mas, dois dias depois, ao voltar à pastagem com a esposa e o bebé, deu com um estranho postado à entrada da cabana. Não era alto, era um homem atarracado, de dentes muito brancos e pele lisa. Haweya estremecia de prazer. E de medo. O estranho disse: tem mulher e filho. Fique com a casa, seja bem-vindo, e sorriu. O jovem nómada achou aquele sujeito admiravelmente simpático e agradeceu; convidou-o a visitá-lo quando quisesse. Mas a esposa sentiu um mal-estar com o desconhecido. E o bebé começou a chorar assim que o viu. Naquela noite, um animal entrou sorrateiramente na cabana e arrebatou a criança do berço. O nómada tinha comido bem e dormia um sono profundo, não ouviu nada. Que desgraça. O desconhecido foi visitar o casal para dar os pêsames. Mas, quando ele falou, a mulher reparou nos pedacinhos de carne vermelha entre seus dentes e viu que um daqueles dentes fortes e brancos estava quebrado.
O estranho passou um ano na casa com o casal. Durante todo esse ano, a relva continuou verdejando e as chuvas voltaram, de modo que não havia razão para seguir viagem. A esposa teve outro filho na cabana, outro lindo bebé. Porém, uma vez mais, quando a criança completou apenas uma estação de idade, um bicho apareceu de madrugada e a levou entre os dentes. Dessa vez, o pai chegou a persegui-lo, mas era muito lerdo para alcançá-lo. Na terceira vez, o nómada se engalfinhou com o animal, lutou o quanto pôde, mas acabou vencido. E o monstro lhe devorou mais um filho! Por fim, ao perder o terceiro bebé, a mulher disse ao marido que ia deixá-lo. E assim aquele nómada idiota acabou perdendo tudo! Muito bem, o que acabam de aprender?, gritava a minha avó. Sabíamos a resposta. Que o nómada era um bom vagabundo. Ficou na primeira pastagem que encontrou, mesmo sabendo que havia algo errado com ela. Foi tolo: não soube interpretar os sinais, sinais que o bebê e a mulher perceberam instintivamente. Na verdade, o estranho era aquele que se coça com uma vara, o ser monstruoso que se transformava em hiena e comia a criança. Tínhamos entendido. O nómada fora ingénuo, vagaroso, fraco e covarde. Merecia mesmo perder tudo». In Ayaan Hirsi Ali, Infiel, 2006, tradução de Luís Araújo, Editora Schwarcz, Companhia das Letras, 2007, ISBN 978-853-591-109-1.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

sábado, 12 de março de 2016

Infiel. Ayaan Hirsi Ali. «A resposta é não: prefiro continuar viva. No entanto, certas coisas precisam de ser ditas, e há ocasiões em que o silêncio é cúmplice da injustiça»

Cortesia de wikipedia e jdact


«Certa manhã de Novembro de 2004, Theo van Gogh levantou-se para ir trabalhar na sua produtora de cinema em Amsterdão. Pedalando a velha bicicleta preta, seguiu por uma rua central. A uma porta, esperava-o um marroquino munido de uma arma de fogo e duas facas de açougueiro. Quando Theo ia pela Linnaeusstraat, Muhammad Bouyeri aproximou-se, sacou a arma e baleou-o várias vezes. Theo caiu da bicicleta e, cambaleando, foi para o outro lado da rua, mas logo tombou. Bouyeri seguiu-o. Theo pediu: será que não podemos conversar?, mas o marroquino disparou outros quatro tiros. Em seguida, degolou-o com uma das facas de açougueiro. Com a outra, cravou-lhe no peito uma carta de quatro páginas. A carta era endereçada a mim.
Dois meses antes, Theo e eu tínhamos feito um curta-metragem intitulado Submission, part. 1. Eu tinha a intenção de um dia filmar a segunda parte. (Theo avisou que só participaria se no segundo filme houvesse um pouco de humor!) A primeira parte falava em desafio, nas mulheres muçulmanas que passam da submissão total a Deus a um diálogo com a divindade. Mulheres que rezam, mas, em vez de baixar os olhos, erguem-nos para Alá, com as palavras do Alcorão tatuadas na pele. Dizem-Lhe sinceramente que, se essa submissão seguir causando-lhes tanta miséria e Ele permanecer calado, elas serão capazes de deixar de se submeter. Há a mulher açoitada por ter cometido adultério; outra entregue em matrimónio a um homem que ela detesta; outra espancada regularmente pelo marido; e outra que o pai repudia ao saber que o irmão dela a estuprou. Os perpetradores justificam cada abuso em nome de Deus, citando os versículos do Alcorão agora escritos no corpo dessas mulheres. Elas representam centenas de milhares de muçulmanas em todo o mundo. Theo e eu sabíamos do perigo de fazer o filme. Mas ele era um homem corajoso, um guerreiro, por improvável que possa parecer. Também era muito holandês, e nenhuma nação do mundo é mais profundamente apegada à liberdade de expressão do que a Holanda. A ideia de tirar o seu nome dos créditos do filme por motivos de segurança o enfurecia. Certa vez ele disse-me: se eu não puder assinar meu próprio filme na Holanda, então a Holanda já não é a Holanda, e eu já não sou eu. As pessoas perguntam-me se estou com vontade de morrer, já que insisto tanto em dizer o que digo. A resposta é não: prefiro continuar viva. No entanto, certas coisas precisam de ser ditas, e há ocasiões em que o silêncio é cúmplice da injustiça.
Esta é a história da minha vida. Um registo subjectivo das minhas lembranças pessoais, tão próximas da exactidão quanto me é possível; o meu relacionamento com o resto da minha família ficou de tal modo esfrangalhado que já não posso refrescar a memória pedindo-lhes ajuda. Trata-se da história do que vivenciei, do que vi e de porque penso como penso. Cheguei à conclusão de que é útil e talvez até importante contar esta história. Quero deixar claras algumas coisas, rectificar certos relatos e também falar em outro tipo de mundo, contar como ele é. Nasci na Somália. Fui criada na Somália e na Arábia Saudita, na Etiópia e no Quénia. Fixei-me na Europa em 1992, aos vinte e dois anos de idade, e integrei o Parlamento holandês. Fiz um filme com Theo, agora vivo cercada de guarda-costas e viajo em carro blindado. Em Abril de 2006, um tribunal holandês mandou-me sair do abrigo de segurança que eu alugava do Estado. O juiz decidiu que meus vizinhos tinham o direito de alegar que se sentiam inseguros com a minha presença no prédio. Eu já havia tomado a decisão de me mudar para os Estados Unidos antes que irrompesse o debate acerca da minha cidadania holandesa. Este livro é dedicado à minha família e também aos milhões e milhões de muçulmanas reduzidas à sujeição.

Quem é você? Sou Ayaan, filha de Hirsi, filho de Magan. Estou com a minha avó, sentada numa esteira debaixo de um talai. Atrás de nós, a casa; e a nossa única protecção contra o sol que abrasa a areia branca são os ramos do talal. Continue, diz ela, encarando-me. E Magan era filho de Isse. Que mais? Isse era filho de Guleid, filho de Ali. Filho de Wafays. Filho de Muhammad. Ali. Umar. Hesito um instante. Osman. Mahamud. Respiro fundo, cheia de orgulho. Bah?, pergunta minha avó. De que grupo? De Bah Ya'qub, Garab-Sare. Digo o nome da esposa mais poderosa de Osman Mahamud: a filha de Ya'qub, aquela, a do ombro mais alto. Minha avó acena com a cabeça, relutante. Eu me saí bem, para uma garotinha de cinco anos. Consegui enumerar os meus ancestrais até trezentos anos antes, a parte crucial. Osman mahamud é o nome do subclã do meu pai e, portanto, o meu. Aquele a que pertenço, aquele que sou. Depois, à medida que eu for crescendo, minha mãe vai me persuadir, vai me castigar até aprender a genealogia do meu pai, recuando oitocentos anos, até o grande clã dos darod. Eu sou uma darod, uma harti, uma macherten, uma osman mahamud. Sou da estirpe chamada Ombro Mais Alto. Sou uma magan». In Ayaan Hirsi Ali, Infiel, 2006, tradução de Luís Araújo, Editora Schwarcz, Companhia das Letras, 2007, ISBN 978-853-591-109-1.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

sexta-feira, 11 de março de 2016

Nómade. Ayaan Hirsi Ali. «A Holanda funcionava de uma maneira diferente de todos os países nos quais morei. Era uma terra pacífica, estável, próspera, tolerante, generosa, de uma bondade profunda»

jdact e wikipedia

Do Islão para a América
«Fui nómade durante toda a minha vida. Sem raízes, tenho viajado pelo mundo. Sempre que me instalei em algum lugar, fui obrigada a fugir; deixei de lado cada uma das certezas que me foram ensinadas. Nasci em Mogadíscio, Somália, em 1969. Quando ainda era muito pequena, meu pai foi preso em decorrência do seu envolvimento na oposição política à brutal ditadura. Ele escapou da prisão e fugiu rumo ao exílio. Aos oito anos, eu e os meus irmãos fomos levados por minha mãe para a Arábia Saudita, para viver com ele. Um ano mais tarde, fomos expulsos do país e mudámo-nos para a Etiópia, onde ficava a base de operações do grupo oposicionista do meu pai. Após cerca de dezoito meses vivendo por lá, nós nos mudámos novamente, para o Quénia. Cada mudança de país me encontrava despreparada num idioma totalmente novo e costumes muito distintos. A cada vez, eu tentava adaptar-me da maneira desesperada e muitas vezes vaidosa de uma criança. A única constante na minha vida era o resoluto elo da minha mãe com o Islão. O meu pai deixou o Quénia, e a nossa família, quando eu tinha onze anos. Só pude revê-lo quando já tinha 21 anos. Durante a sua ausência, tornei-me uma muçulmana zelosa e fiel, por influência de um professor da escola. Também retornei, por oito meses, à Somália, onde vivenciei o nascimento da guerra civil e o caos e a brutalidade do grande êxodo de 1991, quando metade da população do país foi expulsa de casa e 350 mil pessoas morreram. Quando eu tinha 22 anos, meu pai ordenou que me casasse com um parente, um desconhecido que vivia em Toronto. Na viagem do Quénia até ao Canadá, eu deveria fazer uma escala na Alemanha, onde obteria o meu visto canadense e então seguiria viagem. Mas uma espécie de desespero instintivo fez-me mudar de ideia. Tomei um comboio rumo à Holanda. Essa viagem foi ainda mais angustiante do que as viagens anteriores que eu fizera, e o meu coração pulava ao pensar nas implicações do que eu estava a fazer e no que o meu pai e o meu clã fariam quando descobrissem que eu tinha fugido. Na Holanda, descobri a generosidade dos desconhecidos. Eu não era nada para aquelas pessoas, e mesmo assim elas me alimentaram e abrigaram, me ensinaram o seu idioma e permitiram que eu aprendesse o que quisesse. A Holanda funcionava de uma maneira diferente de todos os países nos quais morei. Era uma terra pacífica, estável, próspera, tolerante, generosa, de uma bondade profunda. Enquanto aprendia holandês, comecei a formular uma meta quase impossível, tamanha a ambição dela: estudar ciências políticas para descobrir por que esta sociedade, apesar de infiel aos meus olhos, funcionava, ao passo que todas as outras sociedades que eu conhecera, independentemente do quanto se afirmassem muçulmanas, apodreciam com corrupção, violência e uma malícia egocêntrica. Por muito tempo oscilei entre os ideais claros do iluminismo que aprendi na universidade e a minha submissão aos ditames igualmente claros de Alá, aos quais eu temia desobedecer. Enquanto cursava a faculdade, trabalhei como tradutora de somali para o holandês a serviço do departamento de assistência social da Holanda, e conheci muitos muçulmanos em circunstâncias difíceis, em lares para mulheres espancadas, prisões, aulas especiais. Nunca liguei os pontos, na verdade, tentei evitar isso ao máximo, de modo que não pude perceber a relação entre a fé no islão e a pobreza, entre a religião e a opressão das mulheres, bem como a impossibilidade de escolhas livres e individuais. Ironicamente, foi Osama bin Laden quem me libertou desse desejo. Após o 11 de Setembro, pareceu-me impossível ignorar as alegações dele segundo as quais a destruição de vidas inocentes (ainda que infiéis) era condizente com o Alcorão. Procurei no texto, e descobri que era verdade. Isso significava que eu não poderia mais ser uma muçulmana. Na verdade, percebi que já não era muçulmana havia muito tempo. Ao manifestar-me a respeito de tais questões, comecei a receber ameaças de morte. Também pediram que me candidatasse ao parlamento holandês como membro do Partido Liberal, defensor do livre mercado. Ao eleger-me parlamentar, sendo jovem, negra e mulher, e com frequência acompanhada por um guarda-costas, tornei-me muito visível. Mas estava protegida; meus amigos e colegas, não. Após ter concluído com o director Theo van Gogh um filme que demonstrava como o islão anula as mulheres, Theo foi assassinado por um muçulmano fanático, um jovem de 26 anos que nascera em Marrocos e fora trazido para Amsterdão pelos seus pais». In Ayaan Hirsi Ali, Nomad, From Islam to America, Nómade, tradução de Augusto Calil, Companhia das Letras, 2010, ISBN 978-858-086-374-1.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Mataram Mariana. Álvaro Arranja. «… dirigida aos sectores mais desfavorecidos da sociedade, com promessas de melhoria das condições sociais. Foi a fase do bacalhau a pataco…»

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«(…) Vivia-se o momento alto dessa aliança entre a plebe urbana de Lisboa e a elite do Partido Republicano que tornou possível a revolução. Usando a definição de Fernando Rosas, o bloco social e político do 5 de Outubro a esteio da Primeira República, estava no seu auge. O Governo Provisório da República tinha consciência das expectativas geradas no seio do operariado, por anos de propaganda anti-monárquica dirigida aos sectores mais desfavorecidos da sociedade, com promessas de melhoria das condições sociais. Foi a fase do bacalhau a pataco… Após o 5 de Outubro, os republicanos defrontam-se com a questão social, levantada sobretudo pelas inúmeras greves que eclodem. Logo a 24 de Outubro, declaram-se em greve os carroceiros de Lisboa e Setúbal (a carroça era ainda o principal meio de transporte de mercadorias). Segundo A Capital, os efeitos da greve fazem-se sentir com o comércio e a construção civil paralisados. Ainda segundo o mesmo jornal, estão 8000 carroceiros em greve. Poucos dias depois, mesmo nos últimos dias de Outubro, os fragateiros tomam idêntica iniciativa. Em 5 de Novembro são os ferroviários da linha da Póvoa. Outras greves surgem, como a dos eléctricos, as dos corticeiros, a dos estampadores, a do calçado, serração, operários da União Fabril, os marítimos e os gazomistas de Setúbal.
No dia 15, inicia-se uma greve na Carris. O Século, ao alto da primeira página, sob o título Operários que se Agitam, Lisboa Sem Carros Eléctricos, informa que os operários da fábrica geradora abandonam o trabalho e todo o pessoal da Companhia se declara em greve. Ainda na mesma notícia, é afirmado que em toda a cidade os eléctricos estacaram por falta de corrente. Os chauffeurs da Empresa de Automóveis de Aluguer de Lisboa (hoje taxistas) declaram-se em greve, no dia 24 de Novembro, tendo os proprietários sido convocados ao Governo Civil, para uma tentativa de mediação que não resultou. A 25 de Novembro são os ferroviários do Minho e do Douro, depois os caixeiros e os cortadores. Cerca de sessenta greves são declaradas entre o 5 de Outubro e o final do ano de 1910. Neste ano de 1910, segundo um inquérito oficial, havia em Portugal 119 sindicatos em actividade, com 23 237 membros. Lisboa tinha 33 sindicatos, com 7570 membros; o Porto 39 sindicatos, com 7645 membros, e o resto do País 47 sindicatos, com 8022 membros.
Tinha-se chegado a esta situação depois de uma década de lento declínio. Sobretudo desde 1906, quando o Governo de João Franco atiçou a oposição republicana, que a maior parte dos sindicatos tinha vindo a perder apoio, à medida que os trabalhadores se deixavam absorver pela perspectiva próxima da revolução. Em 1910, dos 4 sindicatos com mais de 100 membros (a Associação de Classe da Construção Civil do Porto, as A. C. dos Marítimos e dos Soldadores de Setúbal e a A. C. dos Operários Têxteis de Lisboa) só um tinha sede em Lisboa. Porém, a proclamação da República transformou esta situação. Na Primavera de 1911 já existiam 356 sindicatos em Portugal, a maioria dos quais haviam sido fundados ou reanimados depois de Outubro de 1910. A sua distribuição geográfica também se alterara claramente. A área mais forte era agora o Sul, isto é, os concelhos de Lisboa e Setúbal, o Alentejo e o Algarve, onde o PRP (Partido Republicano Português) fora mais popular durante a Monarquia. O Porto ficava com menos de metade dos sindicatos de Lisboa e os concelhos limítrofes com muito menos do que Almada, o Barreiro e o Seixal ou até Setúbal por si só». In Álvaro Arranja, Mataram Mariana, Dos Fuzilamentos de Setúbal à Ruptura Operariado-República em 1911, Centro de Estudos Bocageanos, nº 14, Setúbal, 2011, ISBN 978-989-8361-05-9.

Cortesia CEB/JDACT

domingo, 23 de novembro de 2014

Mataram Mariana. Álvaro Arranja. «Porém, essas mortes (cinco meses após o 5 de Outubro) e a imagem das indefesas operárias conserveiras baleadas na Avenida Luísa Todi, quando lutavam pela sua dignidade como operárias e como mulheres…»

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«Quase nada sabemos sobre Mariana Torres e António Mendes, os dois operários mortos em 13 de Março de 1911, em Setúbal, pelas balas da recém-criada Guarda Republicana. Porém, essas mortes (cinco meses após o 5 de Outubro) e a imagem das indefesas operárias conserveiras baleadas na Avenida Luísa Todi, quando lutavam pela sua dignidade como operárias e como mulheres, foram um acontecimento marcante para a relação entre a República e o operariado e a própria evolução histórica da 1ª República. Passados os momentos iniciais da natural euforia revolucionária, imediatamente posterior ao 5 de Outubro de 1910, o novo regime tem de encarar os problemas do país. O ano de 1911, vai ser preenchido por esse choque com a realidade de um país alheio aos grandes ventos da industrialização que sopram no centro e norte da Europa.
Dos vários problemas que se colocam ao novo regime, a situação social é o de mais difícil resolução. A República herda uma sociedade baseada numa desigualdade social profunda, com uma oligarquia económica pouco habituada a ver contestados os seus privilégios. As várias crises políticas e económicas do regime monárquico constitucional, não puseram em causa essa dominação. Do outro lado, nos sectores populares, o novo regime defensor dos princípios da liberdade e igualdade, era encarado como a possibilidade da melhoria das condições de vida extremamente penosas da maioria do povo. Uma esperança, quase messiânica, nas virtualidades da República, estava nas mentes de vastos sectores do operariado (sobretudo de Lisboa, margem sul do Tejo [margem esquerda do Tejo], Setúbal e Alentejo).
Afinal tinham sido eles a combater na Rotunda (mesmo quando muitos militares tinham batido em retirada), ou nas ruas de Setúbal, Almada, Moita ou Loures, no dia 4 de Outubro. Tinham sido eles a guardar os bancos, onde certamente não tinham nenhuma conta aberta. A República pertencia-lhes porque tinha sido conquistada com o seu sangue. Esse idílio entre o operariado e o novo regime republicano vai ser posto em causa, logo nos finais de 1910, com a questão da legislação referente ao direito de greve dos trabalhadores a ao lock-out patronal. Para o movimento operário organizado nas associações de classe, já então maioritariamente de tendência anarco-sindicalista, a legislação aprovada pelo Governo Provisório da República impõe limitações inaceitáveis aos direitos dos trabalhadores. Essa legislação passará à história com a qualificação de decreto-burla.
1911 verá o desencadear de vastos movimentos grevistas, amplamente secundados por esses mesmos operários que se tinham batido (por vezes de arma na mão) pela implantação do novo regime. A greve das conserveiras setubalenses é um momento decisivo dessa relação operariado-República, sobretudo após os fuzilamentos de Setúbal (como os designaram na imprensa da época) em Março de 1911. Seguiu-se uma paralisação geral do trabalho, convocada em Lisboa, de solidariedade com os operários setubalenses, momento em que se fala pela primeira vez em Portugal de uma Greve Geral. Desses momentos de viva conflitualidade social prestaremos particular atenção, para além da greve de Setúbal, à greve da União Fabril (a futura CUF) e à relação triangular Alfredo da Silva, República e operariado. Abordaremos igualmente o desenrolar do Congresso Sindicalista de 1911 e o debate sobre o direito à greve, travado na Assembleia Constituinte.

As greves após o 5 de Outubro
Em 5 de Outubro de 1910, a proclamação da República só foi possível mercê da contribuição activa que uma grande parte do operariado deu, não só à preparação do movimento, mas também à luta armada desencadeada contra as forças monárquicas. Se não se tivesse registado a intervenção do elemento popular, a República não haveria triunfado. A revolução republicana de 5 de Outubro viu burgueses a encomendar bombas e proletários a manejá-las. Nos dias seguintes à implantação da República assistiu-se em Lisboa a um acontecimento pouco habitual noutras revoluções, com dezenas de populares armados a fazer sentinela a bancos, rotos e famintos a guardarem os cofres abarrotados de libras». In Álvaro Arranja, Mataram Mariana, Dos Fuzilamentos de Setúbal à Ruptura Operariado-República em 1911, Centro de Estudos Bocageanos, nº 14, Setúbal, 2011, ISBN 978-989-8361-05-9.

Cortesia CEB/JDACT