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quinta-feira, 25 de abril de 2024

Manuel António Pina. Poesia. «É pelo hálito que te conheço no mesmo escultor modelou os teus ouvidos e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos…»

jdact

OS TEMPOS NÃO

Os tempos não vão bons para nós, os mortos.

Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se).

As palavras esmagam-se entre o silêncio

que as cerca e o silêncio que transportam.

 

É pelo hálito que te conheço no

mesmo escultor modelou os teus ouvidos

e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos

fala-se de mais são tempos de poucas palavras.

 

Falo contigo de mais assim me calo e porque

te pertence esta gramática assim te falta

e eis por que não temos nada a perder e por que é

 cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.

In Manuel António Pina, Ainda não é o Fim Nem o Princípio do Mundo Calma é Apenas um Pouco Tarde,  Assírio & Alvim, 1974,  ISBN: 978-972-079-293-8.

Cortesia de Assírio&Alvim/JDACT

JDACT, Liberdade, Manuel António Pina, 25 de Abril, Democracia,

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Melo Antunes. Maria Manuela Cruzeiro. «Marx e todos os malditos, digamos assim, para o regime, por meio de livros que eram emprestados, ou então através de livreiros que tinham sempre por baixo do balcão..., uma encomenda...»


jdact

O Sonhador Pragmático
«(…)
Quais eram os autores que, nessa fase dos quinze-dezasseis anos, mais o terão marcado a esses vários níveis?

Bem, repare, eu não os poderei citar todos, mas penso que, no plano literário, foi sobretudo a literatura portuguesa que me começou a entusiasmar. Depois, e penso que mais ou menos nessa época, comecei a ler muitos autores franceses, desde, por exemplo, Voltaire e Rousseau (que já os lia aos dezasseis-dezassete anos), passando depois para uma grande parte dos filósofos do século XIX, etc. Poderia dizer, portanto. que as minhas primeiras influências vêm dos iluministas, incluindo, portanto, uma série de outros pensadores e filósofos. Nessa fase ainda não tinha lido Marx nem Engels, só o fiz um pouco mais tarde. Mas eu misturei um pouco a literatura e a filosofia…, enfim, é um pouco isso quer dizer, são leituras algo anárquicas. Contudo, eu tinha uma ideia muito clara, tinha um fio condutor muito claro na minha cabeça, e, portanto, foi possível não me dispersar excessivamente. O que interessa referir é que quando chego aos dezoito anos há aí um impasse, porque eu queria seguir um curso de letras, de história, de filosofia (naquela altura havia um curso de histórico-filosóficas), mas o meu pai não confiou que isso pudesse corresponder à salvação da minha alma...

E muito menos às expectativas e aos projectos que ele teria para si...

Claro. De modo que achou que a única coisa que me deveria disciplinar seria seguir a carreira militar, e eu acabei por ceder, até porque isso era uma forma de me autonomizar mais rapidamente. E foi assim.

Foi uma negociação?

Sim, houve uma certa negociação, sem dramas excessivos, mas fiquei sempre com essa mágoa dentro de mim e por isso também fiz o meu curso, na Escola do Exército, sem grande empenhamento. É verdade, sem me empenhar excessivamente...

Continuando paralelamente as suas leituras...

...Sim, empenhando-me fortemente nas minhas leituras. Já estava nessa altura em Lisboa e, portanto, tinha um contacto paralelo com a universidade, com muita gente que a frequentava...

Lembra-se de alguém com quem tenha estabelecido um contacto mais íntimo, através de conversas, discussões, debates, que eram muito mais frequentes na altura do que agora?

Dessa altura, dos meus vinte anos, não me recordo de ninguém em especial...

...que o tenha marcado particularmente.

... Estou a lembrar-me agora, de repente, de um, acho que é o Fernando Pernes, que é hoje, suponho eu, presidente da Fundação de Serralves ou pelo menos está nessa fundação, com quem tive contacto estreito. Mas havia muitos outros cujos nomes já foram ficando diluídos, digamos assim.

Sei que também chegou a frequentar algumas aulas na Faculdade de Letras...

Fui a algumas e depois, mais tarde, também em Direito, mas essa proximidade com a universidade, para mim, só tinha uma função: estar a par da bibliografia, de algumas orientações pedagógicas que me interessavam, ter acesso a algumas sebentas. Lembro-me de uma que me encantou na altura e que estudei profundamente (mas isso também tem a ver com os meus vícios intelectuais no que respeita à literatura clássica), a sebenta do padre Manuel Antunes. E tudo isso influiu, há um conjunto muito vasto de coisas que me foram influenciando decisivamente. Também na altura, já começava, aqui em Lisboa, a ser mais fácil absorver outro tipo de literatura. Portanto, já por volta dos meus vinte anos tinha acesso a toda a chamada literatura proibida, Marx e todos os malditos, digamos assim, para o regime, por meio de livros que eram emprestados, ou então através de livreiros que tinham sempre por baixo do balcão..., uma encomenda...» In Maria Manuela Cruzeiro, Melo Antunes, O Sonhador Pragmático, Editorial Notícias, 2004, 2005, ISBN 972-461-563-4.

Cortesia de ENotícias/JDACT

Melo Antunes. Maria Manuela Cruzeiro. «Sim, foi definitiva. E contemporaneamente começou a minha atracção pelos estudos que não eram exactamente aqueles que constituíam o currículo científico ou paracientífico…»

jdact

O Sonhador Pragmático
«(…) Bern, mas, voltando à infância, conservo na memória muitíssimos episódios e lembro-me perfeitamente do que foi a minha vida no interior de Angola, as idas no Verão para a praia, no Lobito ou em Luanda, onde tive perfeita noção do que eram as relações, se quiser, de colonizador/colonizado, naquela época, e até as marcas de racismo que havia nessas relações. E. portanto, acho que isso teve uma importância fundamental na formação da minha consciência.

O ambiente em casa, uma vez que é filho de um oficial do Exército, era de aceitação total dessas regras?

Não..., embora os meus pais fossem conservadores. O meu pai era particularmente adepto do regime vigente, mas tinha uma formação humanista, que o fazia distinguir entre as opções políticas, digamos assim, de apoio ao salazarismo e as relações humanas. Por isso penso que também terei sido influenciado por essa visão humanista dos meus pais, que muito me ajudou. Posso contar um episódio passado em Quibala. terra do interior de Angola, onde o meu pai estava colocado. Uma vez, lembro-me perfeitamente de ter ido buscar-me à escola, como de costume, um dos criados lá de casa, um dos impedidos, um cuanhama altíssimo, fortíssimo, como são os homens do Sul de Angola, e eu entendi que estava suficientemente cansado para ir às costas dele cerca de um quilómetro e tal, fazendo ele de cavalo e eu de cavaleiro. Quando cheguei a casa, o meu pai zangou-se fortemente comigo. Eu fiz aquilo, de facto, mas era criança, não me dava conta de que era uma violência o que estava a cometer. O que significa que, na realidade, como em muitas outras ocasiões, ele defendia uma relação que não era normal entre colonizador e colonizado, quer dizer, tinha uma visão que, repito, chamo de humanista e que, penso, teve influência na minha formação.

Lembra-se de mais algum episódio que recorde particularmente?

Eu poderia falar de tantas coisas..., assisti muitas vezes a actos de violência cometidos sobre negros… Tenho na memória muitas dessas cenas de violência. Sei lá, eram sobretudo comerciantes e camionistas, ou gente mais ou menos ligada ao sector comercial, como os transportes, etc., é essa pelo menos a ideia que tenho mais viva. Cenas de violência, de discriminação... São muitíssimas as coisas de que guardo memória.

Essa experiência de infância, entre os seis e os nove anos, que o marcou profundamente, terá sido posteriormente enquadrada, como diz, política e ideologicamente. Mas não parece que tenha sido decisiva para a escolha da sua profissão futura.

Não, aí não, quer dizer... eu, de certa maneira, fui forçado a seguir a carreira militar. Eu, a partir dos meus catorze, quinze anos, comecei a ter crises graves no interior da família porque...

Desculpe interromper, senhor coronel, quantos irmãos tem?

Mais um, mais novo. Nasceu já depois de eu vir de Angola, faz uma diferença de nove anos de mim.

E seguiu também a carreira militar?

Não, é engenheiro.

Falava então dessas crises no seio familiar.

Sim, crises que começaram na adolescência, como é normal, entre os catorze e os quinze anos. Foi a crise religiosa antes de mais nada. Os meus pais, em especial o meu pai, era um homem profundamente religioso, profundamente devotado à Igreja Católica, e aceitou bastante mal, ou por outra, não aceitou, a minha crise religiosa. De forma que começaram os conflitos, que são frequentes nessa fase da vida, mas que talvez no meu caso fossem bastante críticos em determinado momento, visto que a seguir à crise religiosa vem a perda da fé se assim se pode dizer...

E foi definitiva essa perda?

Sim, foi definitiva. E contemporaneamente começou a minha atracção pelos estudos que não eram exactamente aqueles que constituíam o currículo científico ou paracientífico, se assim se pode chamar, que era o sétimo ano dos liceus de ciências (a alínea f). Eu gastava o meu tempo com as literaturas, com a história, com a filosofia, com a sociologia e, obviamente, também com a política, naquilo que era possível, visto que, como se sabe, naquela altura era muito difícil o acesso a bibliografia que nos pudesse informar de forma completa». In Maria Manuela Cruzeiro, Melo Antunes, O Sonhador Pragmático, Editorial Notícias, 2004, 2005, ISBN 972-461-563-4.

Cortesia de ENotícias/JDACT

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Lembrando Poemas. Patxi Andión. «… mas…, mas no son…, no son una cancion. Que helada que está esta casa… Sera…, sera que esta cerca el rio…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Aniversario
«Veinte años de estar juntos
esta tarde se han cumplido.
Para ti…, flores…, perfumes,
para mi…, algunos libros.
No te he dicho grandes cosas
porque…, porque no me habrian salido,
ya sabes…, cosas de viejos…
Requemor de no haber sido.
Hace tiempo que intentamos
abonar nuestro destino.
Tu…, tu bajabas la persiana
Yo…, yo apuraba mi ultimo vino.
Hoy, en esta noche fria,
casi…, como ignorando el sabor
del la soledad compartida,
quise hacerte una cancion
para cantar…, despacito,
como se duerme a los niños.
Y…, y ya ves, solo…, palabras
sobre notas me han salido
que al igual que tu y que yo
ni se importan …, ni se estorban
se soportan amistosas,
mas…, mas no son…, no son una cancion.
Que helada que está esta casa…
Sera…, sera que esta cerca el rio…
O…, o es que estamos en invierno
y estan llegando…, estan llegando
los frios».

Canela Pura
«Sí, mírala, mírala!
Mira como anda,
mira como suena,
mira como sonríe
el alama llena;
llena de aire,
llena de agua
que destila con los ojos
desde la escarcha.
Canela pura,
canela pura
le llueve a mi morena de la cintura!
Sí, mírala, mírala!
La mirada en vuelo,
la sonrisa en alto,
y sábras por qué
me gusta tanto.
Me mira y se me olvidan
todas las penas,
se me llenan los bolsillos
de cosas buenas.
Canela pura,
canela pura
le llueve a mi morena de la cintura!
De tantos versos
que había en mi cuerpo,
solo me queda uno
y está en su pelo.
Sobra la teoría,
sobran las palabras,
es mejor navegar
que amar el agua.
Canela pura,
canela pura
le llueve a mi morena de la cintura!
Sí, mírala, mírala!
Palabra simple,
imagen tonta,
que vienen a explicarte
cómo me asombras.
Canción sencilla,
canción del pueblo,
para decirte, niña,
cómo te quiero.
Canela pura,
canela pura
le llueve a mi morena de la cintura!»
Poemas de Patxi Andión

Cortesia de Musixmatch/Wikipedia/JDACT

quinta-feira, 3 de março de 2016

O Futuro e os seus Inimigos. Daniel Innerarity. «Os prognósticos têm a mesma função que os oráculos: o decisivo não é se eles acertam, é legitimar determinadas decisões. Os prognósticos têm carácter normativo: dissuadir ou mobilizar…»

jdact

Necessidade e limites da prospectiva
«(…) Tanto do ponto de vista epistemológico como prático, quando falamos do futuro referimo-nos sempre a uma concreta dimensão do presente. Para falar com propriedade, o futuro não existe: o futuro é sempre o futuro de algo, cuja evolução se pode adivinhar por meio de paralelismos, regularidades e influências. O futuro só é cognoscível e projectável naquilo que tem de passado e de presente, isto é, naquilo que é menos futuro. A questão está em saber se, a partir do que sabemos hoje, podemos saber alguma coisa acerca de amanhã, ou seja, passar do diagnóstico ao prognóstico. A principal tarefa da prospectiva não é extrapolar tendências, é expandir espaços de possibilidade. Em última instância não existe adivinhação do futuro, porque só se pode conhecer o presente; trata-se de detectar o mais cedo possível aquilo que começa a acontecer. É o que Igor Ansoff, o descobridor dos chamados sinais fracos, designou por conhecimento precoce. Os métodos interpretativos teriam por função gerir esse não-saber que se exprime debilmente e com pouca clareza. A prospectiva é fundamentalmente um instrumento para o diagnóstico do presente das sociedades. A sua tarefa consiste em ajustar os instrumentos para perceber as oportunidades reais, esses futuros latentes que estão ocultos nas redes de interdependências que se desenrolam com os processos que pomos em marcha. Embora nunca possamos predizer com exactidão o futuro humano, esse trabalho terá sempre sentido para a indagação das nossas possibilidades reais de abrir espaços de jogo à configuração institucional do futuro desejável.
A terceira característica da prospectiva é o seu carácter de conhecimento prático. A prospectiva tem no seu seio uma intenção de orientar as acções de acordo com a ideia que se tiver de qual é o futuro desejável. O prognóstico é a continuação do diagnóstico no futuro, e a intervenção é a sua consequência operativa. A tarefa actual da prospectiva não é tanto o conhecimento do futuro como à reflexão e o aconselhamento que possibilitem a escolha num espectro de opções e preferências, chamando a atenção para os seus potenciais efeitos associados. Os prognósticos mais interessantes são os que nos dizem alguma coisa sobre processos que de algum modo sejam configuráveis activamente ou em relação com os quais se possa ao menos reagir passivamente e desenvolver atitudes antecipatórias. Em todos os prognósticos há um elemento de aposta, um elemento que não é plenamente formalizáve1 ou traduzível em termos científicos. É por esta razão que pode sempre haver um uso ideológico do futuro: o sentido dos prognósticos, principalmente nos âmbitos da economia e da política, não consiste na descrição do futuro, mas em controlar um determinado comportamento mediante o apelo ao futuro. O futuro funciona como uma autoridade que não pode ser contrariada, pois ninguém se vai opor à necessidade. Os futurólogos e os investigadores de tendências pronunciam frequentemente os seus prognósticos com tons admonitórios.
Os prognósticos têm a mesma função que os oráculos: o decisivo não é se eles acertam, é legitimar determinadas decisões. Os prognósticos têm carácter normativo: dissuadir ou mobilizar, às vezes até por meio de uma advertência de sanção que está implícita na advertência. A investigação de tendências pode servir para pôr o futuro ao seu serviço, para o instrumentalizar, como têm feito todas as ideologias. Atendendo precisamente a este carácter prático, mais de intervenção sobre a realidade do que de mero reflexo, Mertolt falou das profecias que se realizam e das que se destroem a si próprias, isto é, em que os agentes se comportam de uma certa maneira em função precisamente daquilo que foi prognosticado. São prognoses que dependem de um contexto, que se modifica no lapso de tempo anterior à realização ou ao desmentido do que foi prognosticado, de maneira que a modificação desse contexto não teria acontecido se o prognóstico não se realizasse. Um dos exemplos mais conhecidos de prognósticos que se destroem a si próprios foi o relatório do Clube de Roma de 1972. As consequências prognosticadas não se produziram, em parte por efeito das modificações políticas e económicas induzidas pela sua publicação. Foram bons ou não este e outros prognósticos com efeitos semelhantes? Do ponto de vista da objectividade científica, não foram bons, pois as suas previsões não se verificaram. Do ponto de vista das melhorias sociais que propiciaram, poderia dizer-se que foram bons prognósticos. Tiveram a sorte de alguém os ter feito gorar». In Daniel Innerarity, El Futuro y sus inimigos, 2009, O Futuro e os seus Inimigos, Teorema, 2011, ISBN 978-972-695-960-1.

Cortesia de Teorema/JDACT

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Uma Defesa da Esperança Política. O Futuro e os seus Inimigos. Daniel Innerarity. «Os modelos lógicos e causais só explicam a inovação fraca. Tratar-se-ia do futuro entendido como um passado projectado para diante, no sentido da previsão como retrovisão antecipadora»

rosaramalho
jdact

Necessidade e limites da prospectiva
«(…) Em ambientes complexos a tarefa de antevisão do futuro deve ter um carácter mais interpretativo, isto é, deve imaginar o incalculável. As perspectivas complexas exigem um pensamento não linear; devem entender os processos e as interdependências em rede de um modo reflexivo, auto-poético, não sequencial, emergente, e não pensar a causalidade como algo baseado no passado e linear. Quando os processos tomam um tempo longo e os efeitos não podem ser referidos causalmente a uma origem indiscutível, as dimensões invisíveis tendem a ser negadas e são situadas fora do quadro conceptual de referência. A perspectiva mecanicista não está em condições para compreender os processos distanciados no espaço e no tempo. Isto é um verdadeiro problema, dado que muitos dos produtos da ciência, químicos, nucleares, genéticos e nanotecnológicos, se caracterizam pela sua inserção em processos de grande distância espaço-temporal, pela extensão do seu período de latência e por efeitos que não podem ser atribuídos de uma maneira incontroversa às suas causas.
Os modelos lógicos e causais só explicam aquilo a que poderíamos chamar a inovação fraca. Tratar-se-ia de um saber acerca do futuro entendido como um passado projectado para diante, no sentido da previsão como retrovisão antecipadora, de que falava Âlfred Schütz. Dessa maneira só pode ser antevisto o que se pode esperar com base no típico, o que se pode obter a partir de experiências que se sedimentaram na consciência. Se Schütz tivesse razão, o novo só poderia surgir como ampliação do passado, não se poderia antever o que ainda não tivesse acontecido e a imaginação seria a simples reprodução do já experimentado e já sabido. O modelo dedutivo supõe que o acontecido no passado também pode acontecer no futuro; o caso particular submete-se a regras conhecidas e uma ordem conhecida é aplicável a um novo caso. Deste modo, porém, não se experimenta propriamente nada de novo. As deduções são tautológicas. Quando se deduz, não se faz senão interpretar o que acontece como repetição do já conhecido e acreditado.
Para a inovação em sentido próprio é necessário recorrer ao processo da abdução: a partir de um conjunto de fenómenos sem relação aparente entre si, formula-se uma nova regra que liga todos esses fenómenos com sentido, de tal modo que possam ser entendidos como expressões dessa regra. Só desta maneira pode a sociedade conhecer alguma coisa nova acerca de si própria. Por isso as conclusões abdutivas têm, como dizia Peirce, o carácter de conjecturas ou apostas. Os prognósticos não trabalham com explicações causais, mas plausíveis; não se movem no terreno da demonstração lógica, mas no da verosimilhança.
O segundo elemento de qualquer prospectiva é a observação do presente. Qualquer descobrimento do futuro começa por uma aproximação cognitiva à realidade. A verdadeira dificuldade da predição do futuro provém do pouco que conhecemos o presente. Em última instância, o presente é a base de todas as predições, e a nossa vista curta no tocante ao futuro resulta de um empobrecimento da percepção do presente: falta de interesse e de curiosidade, atitudes estereotipadas, exploração rudimentar. Como se explica aquele paradoxo de a futurologia acabar sempre por nos remeter para o diagnóstico do presente? O paradoxo do futuro provém de que nós designamos com esta palavra uma extensão de tempo que, por princípio, escapa ao nosso alcance. Na medida em que se torna realidade, na medida em que o conhecemos ou fazemos alguma coisa com ele, ele já não é futuro, mas presente. Falar de uma teoria do futuro tem o seu quê de contraditório, salvo se entendermos que se trata mais de uma teoria política do tempo presente, na medida em que o actual contém linhas de força que podemos prolongar hipoteticamente para antever o verosímil, e na medida em que, do ponto de vista prático, podemos preparar-nos, condicionar, evitar ou favorecer aquilo que no nosso presente aparece como futuro possível». In Daniel Innerarity, El Futuro y sus inimigos, 2009, O Futuro e os seus Inimigos, Teorema, 2011, ISBN 978-972-695-960-1.

Cortesia de Teorema/JDACT

sábado, 8 de agosto de 2015

Uma Defesa da Esperança Política. O Futuro e os seus Inimigos. Daniel Innerarity. «Falando com propriedade, não há condições para uma argumentação do tipo ceteris paribus porque a suposição de que não acontece nada diferente do esperado implica uma descontinuidade»

rosaramalho 
jdact

Necessidade e limites da prospectiva
«(…) Na verdade com a crescente dinâmica da civilização diminuem notavelmente as possibilidades de prognosticação do tipo de vida que nós e os que depois vierem iremos ter. Como acabo de indicar, a certeza de outros tempos acerca do futuro resultava simplesmente de então ser muito maior a verosimilhança de o futuro ser, no essencial, muito parecido com o presente. Em relação ao nosso tempo, todo o presente de outrora desfrutou da extraordinária vantagem cultural de poder dizer sobre o seu próprio futuro coisas muito mais exactas do que as que nós hoje podemos adiantar.
Não é exagerado falar da nossa incapacidade colectiva de antecipar o futuro: aumentou a inexactidão das predições. Nenhuma civilização soube tão pouco sobre o futuro como a nossa. Paradoxalmente, a exactidão e a validade dos prognósticos não são melhoradas, mas reduzidas, pelo progresso do saber. Embora nunca tenhamos tido ao nosso alcance tantos dados sobre o mundo e sobre nós próprios, o futuro é cada vez menos transparente. Nesta perspectiva, compreende-se que a caracterização weberiana dos processos civilizatórios como processos de racionalização tenha actualmente uma tonalidade eufemística ou ambígua: a racionalidade não vem necessariamente acompanhada por segurança, estabilidade, previsão e controlo.

Que se conhece quando se conhece o futuro?
A prospectiva é o conhecimento do futuro possível, desejável ou verosímil, bem como das possibilidades de o configurar. Poderíamos defini-la como a tentativa de conhecer, identificar e avaliar as tendências sociais. Mas com isto não fica tudo dito, pois resta no ar a questão do seu estatuto epistemológico, isto é, falta determinar o que é que nós conhecemos quando conhecemos o futuro. Como o futuro é uma realidade paradoxal, também o será a pretensão de o conhecer. Se na história irrompe alguma novidade ou alguma emergência, nós não podemos sabê-lo nem antevê-lo. Com base em que experiência anterior poderemos dizer que estamos perante outra totalmente nova? Sem termo de comparação, a novidade escapa-nos; havendo-o, a novidade não seria tão nova. O completamente novo seria irreconhecível, pois não poderíamos identificá-lo segundo nenhuma das nossas categorias. Se, porém, fosse prognosticável, o novo já não seria o futuro mas sim a repetição das suas antevisões, ou seja, uma forma de continuidade do presente.
O nosso conhecimento do futuro está sempre enredado neste dilema. A prospectiva não é possível nem para o completamente novo nem para o completamente velho. Trata-se de conhecer o relativamente novo, visto que o novo consiste em algo conhecido ser posto num contexto inédito e experimentar uma nova valorização. É preciso distinguir o futuro esperável, que vem ceteris paribus (que podemos antever com base em experiências anteriores), da inovação radical, que surge transcendendo o horizonte aberto pelas experiências e não corresponde a nenhuma expectativa. A prospectiva é inseparável de uma constelação em que intervêm três elementos: identificação do novo, observação do presente e orientação para a acção.
O conhecimento do futuro pressupõe, em primeiro lugar, a capacidade de identificação do novo. A futurologia clássica seguia a lógica de uma evolução contínua na qual em presença de determinadas condições se repetiria o que já ocorrera no passado. É uma concepção fraca do novo, entendido como mera extrapolação do que já existe. O novo em sentido enfático tornar-se-á incompreensível se nos empenharmos em situar os acontecimentos em cadeias lógicas, já que surgem repetidamente factores que interrompem as sequências causais. Falando com propriedade, não há condições para uma argumentação do tipo ceteris paribus porque a suposição de que não acontece nada diferente do esperado implica uma descontinuidade, a saber: perante os desafios sociais, técnicos ou ecológicos, os seres humanos só recorrem a soluções que já estavam inventadas, o que contradiz a realidade da nossa história, que é tanto continuidade como inovação». In Daniel Innerarity, El Futuro y sus inimigos, 2009, O Futuro e os seus Inimigos, Teorema, 2011, ISBN 978-972-695-960-1.

Cortesia de Teorema/JDACT

sábado, 22 de novembro de 2014

Uma Defesa da Esperança Política. O Futuro e os seus Inimigos. Daniel Innerarity. «O ministro que hoje se serve de um relatório científico não só tem ao seu dispor uma coisa de que anteriormente qualquer administração carecia como recebe também uma coisa de que anteriormente nenhuma administração precisava»

jdact e cortesia de wikipedia

Como se conhece o futuro? Uma teoria da prospectiva. Necessidade e limites da prospectiva
«(…) Toda e qualquer reflexão sobre a necessidade e a possibilidade da prospectiva deve partir deste facto: vivemos nume época de crescente complexidade em resultado das aceleradas modificações nos âmbitos sociais, económicos, políticos e culturais. Esta circunstância tem uma consequência directa no conhecimento do futuro. As estáveis estruturas sociais das sociedades anteriores podiam antecipar o futuro sem receio de grandes equívocos considerando-o como continuação da tradição. Na sociedade contemporânea, porém, as experiências do passado servem cada vez menos quando precisamos de indicações para a acção futura. Se de alguma coisa podemos estar certos é de que as nossas expectativas vão ser confirmadas em muito menor medida (Nassehi, 1993). Uma sociedade da inovação é inevitavelmente uma sociedade da decepção, isto é, da previsão falhada, curta de vista acerca do seu próprio futuro. O futuro torna-se mais incerto do que nunca.
Quando as coisas mudam com grande rapidez, os dados do presente são menos relevantes para se tomar uma decisão; por isso se torna necessário um trabalho imaginativo para interpretar os sinais dos tempos. Estamos, por assim dizer, condenados a fazer o esforço de conhecer o futuro. Dadas a necessidade de antever o futuro e a dificuldade de o fazer observando simplesmente a realidade ou recorrendo ao mero senso comum, não há saída que não seja compensar essa dificuldade com um procedimento especial. Nisto reside a justificação da prospectiva, que não provém do saber mas de um desconhecimento estrutural do futuro, que nós tentamos compensar com os processos das ciências. A evolução da prospectiva a partir dos anos sessenta do século passado explica-se por essa necessidade de enfrentar cientificamente a perda de certeza social acerca do futuro. A abundante oferta de prognósticos que todos podem consultar e incluir nas suas planificações não significa que tenhamos por fim ao nosso dispor um futuro que estava escondido de outras civilizações. Acontece até o contrário: a crescente insegurança acerca do mundo em que viveremos dentro de dez ou cinquenta anos torne necessário um esforço compensatório para recuperar alguma confiança nas nossas previsões com os meios artificiais da ciência. No passado, era menos difícil entrar em relação com o futuro, e por isso era menos sentida a necessidade de aguçar os nossos instrumentos de previsão.
O ministro que hoje se serve de um relatório científico não só tem ao seu dispor uma coisa de que anteriormente qualquer administração carecia como recebe também uma coisa de que anteriormente nenhuma administração precisava. As nossas tentativas de assegurar o domínio da realidade mediante processos científicos desempenham as funções de uma prótese. Ora bem: nenhum instituto de prognósticos está em condições de reproduzir a estabilidade orientadora que outrora era assegurada por tradições vivas, ou seja, quando a futurologia ainda não tinha sentido. A futurologia é a tentativa de restabelecer na medida do possível a calculabilidade das condições da nossa acção com os meios artificiais da ciência. Podemos celebrar a nossa capacidade de antecipação como um verdadeiro progresso, mas não deveríamos esquecer que essa alegria é comparável à do míope que põe uns óculos. Os mesmos motivos que tornam inevitável a prospectiva estão na origem das suas enormes limitações. Numa sociedade que corre atrás da inovação, premeia a capacidade criadora e favorece a individualização, num mundo dinâmico que se distingue das sociedades tradicionais porque as suas estruturas não foram pensadas para durar nem os comportamentos são especialmente predizíveis, reduz-se a estabilidade e a sua segurança estrutural. A dificuldade de adquirir competência em relação ao futuro é o preço que temos de pagar pelo avanço do conhecimento e pelo crescimento socioeconómico. Numa civilização acelerada, a prognosticabilidade diminui porque crescem as dificuldades de compreensão, com as nossas categorias, de processos que são extremamente complexos. Entre as novas ignorâncias, uma das mais evidentes é a que decorre da impredizibilidade dos movimentos iniciados. Muitas das mudanças sociais subtraem-se ao controlo racional, à planificação, à programação ou à previsão. Consequências aleatórias, imprevistas, riscos dificilmente reconhecíveis, desempenham agora um papel mais relevante do que nas chamadas sociedades industriais. No entanto, a diminuição da certeza sobre o futuro não deve ser entendida como a antecâmara de uma perspectiva sombria, como se o desconhecimento fosse sempre um presságio do pior». In Daniel Innerarity, El Futuro y sus inimigos, 2009, O Futuro e os seus Inimigos, Teorema, 2011, ISBN 978-972-695-960-1.

Cortesia de Teorema/JDACT

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Uma Defesa da Esperança Política. O Futuro e os seus Inimigos. Daniel Innerarity. «Dado que nem as sociedades modernas nem muito menos as actuais entendem o novo como reposição do antigo mas como algo radicalmente desconhecido, como inovação, a abertura para o futuro significa inevitavelmente insegurança»

jdact e cortesia de wikipedia

Como se conhece o futuro? Uma teoria da prospectiva. Da Adivinhação ao Conhecimento
«(…) É o esquema básico de uma sociedade tradicional, que procura neutralizar o carácter aberto do futuro tentando concebê-lo como mera continuação do presente. Mas o imprevisível acaba sempre por aparecer, e é preciso um novo processo de defesa. Uma sociedade arcaica não o pode conceber senão como um destino que já estava escrito mas que simplesmente não era conhecido. É este dispositivo que se encontra por trás de todos os outros aos quais se confiava a possibilidade de descobrir os segredos do destino e de entrar em contacto com um âmbito que se prolongava para lá do presente: profecias, adivinhações, vaticínios, oráculos e visionários não eram senão fontes de conhecimento privilegiado. Para todos eles, o futuro era uma realidade preexistente, ou seja, não era futuro no sentido em que nós o entendemos, como espaço aberto à nossa liberdade. Para os antigos o futuro já existia e todo o esforço humano devia orientar-se para a aquisição da prerrogativa de adivinhá-lo, descobri-lo e contá-lo. O esforço de intervenção no futuro só podia ser entendido como a tentativa de modificar um destino preexistente. As sociedades modernas rebelam-se contra essa forma de fatalidade em duas dimensões: contra a ideia de o futuro ser uma realidade que já existe e contra a fatalidade de um destino inexorável no qual não se pode intervir. A modernidade é uma reivindicação do futuro como tal, isto é, como humanamente configurável, aberto e indeterminado, como um âmbito de potencialidade, um espaço vazio que espera ser colonizado, desenhado e configurado pelos nossos desejos. A exploração do futuro não é feita para descrever um destino inexorável, mas para alcançar qualquer coisa. O futuro é uma especulação sobre o possível e não o conhecimento do que necessariamente irá acontecer.
É deste espírito que surge a moderna indagação acerca do futuro nas suas diversas formas, da prospectiva às predições científicas, à previsão económica ou à planificação política. Em nenhum dos casos se procura adivinhá-lo ou prescrevê-lo, mas sim dar-lhe um porvir: construir uma representação do futuro desejável a partir da observação dos futuros possíveis. O futuro aberto é, como o espaço, um âmbito sujeito a projecto, planificação, gestão e regulação. Há especialistas nisso: não como os visionários tradicionais, que prediziam o que ia acontecer, mas peritos na observação do presente para a produção do futuro desejado. A partir de então as coisas tornaram-se mais complexas. O mundo moderno foi um mundo de partes e todos que actuavam ao longo de cadeias lineares de causas e efeitos numa atmosfera de simplicidade mecanicista. Nesta visão do mundo, a prospectiva era uma metáfora poderosa para a antevisão não só da realidade física mas também dos processos sociais e organizativos. Hoje não entendemos o futuro como uma evolução necessária mas como uma complexa cadeia de acontecimentos de vária significação que só podemos antever por meio de indagações sobre o verosímil e o possível. Necessitamos de entender os dilemas provenientes da nossa enorme capacidade de condicionar o futuro, uma capacidade que não vem acompanhada pela correspondente habilitação quando queremos conhecer o que de tudo isso pode resultar. Ao contrário do esquema clássico que estava na base do espírito planificador, o nosso conhecimento alcança menos do que a nossa acção.
Dado que nem as sociedades modernas nem muito menos as actuais entendem o novo como reposição do antigo mas como algo radicalmente desconhecido, como inovação, a abertura para o futuro significa inevitavelmente insegurança. O futuro não seria futuro se soubéssemos o que ele nos viria trazer. Por isso ele se converteu para nós num campo de projecção de esperanças e medos de todos os tipos, no verdadeiro cenário de batalha. É por este motivo que o campo do social está povoado de referências ao futuro, positivas como a esperança ou negativas como o medo, que não são fáceis de gerir e nas quais se revela a estrutura básica da nossa estrutura projectiva». In Daniel Innerarity, El Futuro y sus inimigos, 2009, O Futuro e os seus Inimigos, Teorema, 2011, ISBN 978-972-695-960-1.

Cortesia de Teorema/JDACT

terça-feira, 24 de junho de 2014

Uma Defesa da Esperança Política. O Futuro e os seus Inimigos. Daniel Innerarity. «A aporia de uma sociedade dinâmica é o conhecimento do futuro ser tão necessário como impossível. Por um lado, essa previsão torna-se muito mais necessária numa civilização dinâmica»

jdact e cortesia de wikipedia

Contra a Falsa Mobilidade
«(…) A questão não está em lutar contra o tempo ou desprezá-lo, mas sim em pô-lo a nosso favor. Boa parte desta tarefa resume-se no conselho para reintroduzir a espessura do tempo da maturação, da reflexão e da mediação onde o choque do imediato e da urgência nos obriga a reagir com demasiada frequência no modo do impulso.Talvez desta maneira as organizações e a sociedade em geral ganhem capacidade de exercer influência nos processos acelerados, o que só se consegue levando a melhor ao tempo abstracto unificador mediante uma gestão do tempo que recorra com inteligência às suas diversas modalidades.

Como se conhece o futuro? Uma teoria da prospectiva
O desejo de antever o futuro é uma constante na história da humanidade. Os seres humanos aspiraram sempre, por motivos diferentes e de modos diversos, a entrever o que aconteceria depois. Os oráculos e as profecias exerciam nas sociedades tradicionais uma função que na modernidade se transformou em planificação e prospectiva. A modernidade incumbiu-se de domesticar a antecipação irracional, convertendo-a em conhecimento metódico do futuro. Mas se alguma coisa nós aprendemos foi que a fascinação pelos prognósticos não faz do futuro uma coisa dócil. O futuro resiste-nos continuamente e cada vez mais, por motivos de tipo estrutural relacionados com a natureza da nossa sociedade. A aporia de uma sociedade dinâmica é o conhecimento do futuro ser tão necessário como impossível. Por um lado, essa previsão torna-se muito mais necessária numa civilização dinâmica, na qual quem se limita ao que está a acontecer nem sequer compreende o que acontece. A imaginação ocupa boa parte do espaço que pertencia à observação. Daí resulta que todos, indivíduos e instituições, nos vejamos obrigados a reforçar as nossas capacidades de antevisão e prospectiva. Mas, ao mesmo tempo, nunca o futuro pareceu tão enigmático como agora. Todos os instrumentos de adivinhação do futuro parecem insuficientemente desenvolvidos para que com eles possamos compreender a complexidade do mundo actual, incaptável e opaco, virado para a inovação e enredado em teias de interdependência. Neste contexto, se quisermos fortalecer a nossa capacidade de configurar o futuro, convém que não nos iludamos quanto às nossas capacidades de antecipá-lo nem quanto à sua irredutível incerteza. A política é obrigada a ser uma peculiar gestão desse desconhecimento do que nos espera; só desse modo conseguirá descobrir as suas verdadeiras oportunidades de intervenção nos processos sociais.

Da Adivinhação ao Conhecimento
O desejo de antecipar o futuro traduziu-se ao longo da história em diversos processos. Se fosse preciso resumir o carácter dos dispositivos e que esse empresa era confiada, poderíamos dizer que nas sociedades arcaicas se pretendia uma adivinhação do futuro concebido como realidade preexistente; que nas sociedades modernas se aspirava a produzir um conhecimento científico do futuro e a planificá-lo metodicamente, vinculando-o, portanto, à liberdade humana; e que nas sociedades actuais há uma maior consciência da sua incerteza, facto que muito moderou as nossas pretensões de o condicionar. De conceber o futuro como o completamente outro, passámos à sua moderna domesticação e ao actual reconhecimento da sua intransparência.
Os seres humanos, as culturas, as instituições, sempre se muniram de processos que na medida do possível lhes concedessem a capacidade de prever o futuro. É essa uma das aspirações elementares do género humano, que pode ser satisfeita de várias maneiras, se bem que sempre dentro dos limites impostos por aquele elemento de inovação e imprevisibilidade que vence qualquer estratégia de protecção absoluta contra surpresas. É possível obter um futuro certo por meio da transformação ritual dos ciclos em círculos e da insistência no modelo original». In Daniel Innerarity, El Futuro y sus inimigos, 2009, O Futuro e os seus Inimigos, Teorema, 2011, ISBN 978-972-695-960-1.

Cortesia de Teorema/JDACT