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segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Jorge de Melo em Portalegre. O bispo. A história e a Arte. Manuel Inácio Pestana. «Trinta e dois anos aqui viveu o bispo, tempo demasiado longo para uma vida estéril, pacata, imóvel, perfeitamente inconcebível no homem de fibra e de ânimo forte e decidido que nele se adivinha»

jdact e cortesia de postais de Portalegre

«(…) Desses contactos acreditamos que derivassem naturais benefícios para Portalegre, cidade que teve no rei João III o seu verdadeiro rei, a quem tanto ficou a dever, e no bispo Jorge um indubitável e dedicado amigo e servidor. Trinta e dois anos aqui viveu o bispo, tempo demasiado longo para uma vida estéril, pacata, imóvel, perfeitamente inconcebível no homem de fibra e de ânimo forte e decidido que nele se adivinha. Para além de ter cuidado da publicação das Constituições do bispo D. Pedro Gavião e da elaboração dos Estatutos de S. Bernardo de Portalegre, vinte anos lhe sobejaram para acompanhar as obras do convento e do seu precioso monumento funerário. Escasseia documentação que permita conjecturar o que teria sido, de facto, a vida deste homem em Portalegre. Mas bastará atentar na qualidade da obra que nos deixou no domínio das artes para compreendermos que se trata de um espírito culto e iluminado, sentindo e pressentindo a força e a filosofia da época, a Renascença em plena pujança, com o exemplo do rei mecenas a tentar naturalmente também as suas inclinações, ele, a quem a bolsa farta não preocupava. Com os mestres, artistas e peritos ocupados na obra total de S. Bernardo, desde os arquitectos aos decoradores, decerto se entreteria; e quantos não terá ajudado?
Se entendeu por bem fazer em Portalegre tão boa aplicação dos lucros de Alcobaça e se os seus estudos de Paris e de Roma não foram de facto em vão, ele, que já na abadia deixara sinal vivo do gosto e respeito que tinha pelas artes maiores e pelos artistas, deve-se-lhe, p. ex., o enriquecimento em manuelino e reforma do gótico remoto do Mosteiro, também dessa forma serviu a Igreja e serviu os seus próprios gostos. Não foi, porém, com o gótico ou o gótico-manuelino em Portalegre. Foi sim, o Renascimento, ainda que, conforme as palavras de Jorge Rodrigues e Paulo Pereira, nessa construção a teoria da luz revela o escopo do programa arquitectural manuelino ‘e’ as coberturas são nervadas (…) fazendo uso das da ogiva, assim como noutros pormenores que correspondem à primeira campanha das obras se manifeste a influência anterior do gótico final. Jorge, na paz tranquila do pétrio túmulo, contempla aquele sagrado encontro, intencionalmente encomendado, por razões pessoais de fé, de sentimento e de significado, neste caso por se tratar de tema muito do gosto humanístico dos séculos XV e XVI, pela imagem de esposa ideal em oposição à mulher feiticeira, tentadora e pecadora.
Santa Ana era o exemplo representado e ensinado da esposa que assegura a prosperidade material e que respeitava o marido na ausência, enquanto ocupado com os seus negócios, ideal que prosseguiu aceite até ao século XVII. Depois impor-se-á o dogma da Imaculada na figura sagrada da Virgem Maria, sua filha, concebida sem pecado. Este culto de Santa Ana, fortalecido desde os finais da Idade Média, tinha suas raízes nos Evangelhos Apócrifos (ou secretos, significado mais correcto o correntemente atribuído de errados ou não canónicos), dos quais o Protoevangelho de S. Tiago, o Menor, mais ou menos dos anos 150 da era cristã, é o mais antigo dos evangelhos ditos de ficção e o que mais terá influenciado a imaginação dos artistas renascentistas.
A Porta Dourada, ainda hoje existente, só será aberta no fim do Mundo; é um símbolo forte, por isso mesmo escolhida para o encontro dos pais de Maria, reconciliados no desgosto de não terem descendentes, e que ali se juntaram depois do anúncio que a cada um fizera um anjo.  Soube assim, Ana que iria tornar-se, apesar da sua idade avançada, a mãe da Mãe de Jesus Salvador, o que, na verdade, aconteceu nove meses depois, história, mais tarde e sucessivamente, acrescentada em outros e mui variados pormenores, tendo servido de inspiração aos artistas. Estas são razões suficientemente justificadas da utilização de um tema tão complexo e tão carregado de simbolismo, assim como, do mesmo modo, se justifica a presença esculpida de outras figuras do agiológico cristão (S. Simão, Santa Helena, S. Miguel, S. Jorge e os fundadores da Ordem de Cister S. Bento e S. Bernardo) e a exaltação de Nossa Senhora representada em glória na edícula superior do majestoso painel». In Ibn Maruán, Manuel Inácio Pestana, Revista Cultural do Concelho de Marvão, Coordenação de Jorge Oliveira, nº 4, 1994.

Cortesia da CM de Marvão/JDACT

sábado, 13 de setembro de 2014

Jorge de Melo em Portalegre. O bispo, a história e a Arte. Manuel Inácio Pestana. «… o bispo Jorge de Melo pensado nesta hipótese quando decidiu escolher para o exílio voluntário uma das povoações mais distantes da igreja da Guarda, situada para além do Tejo, invocação geográfica importante da bula papal?»

jdact e wikipedia

«(…) E logo vem uma proveitosa notícia, autêntica, subscrita desta forma pelo padre Diogo: E ainda hoje estão na cerca de S. Francisco desta cidade umas casas que agora servem dos azeméis dos religiosos e de palheiros, onde pousava este, frei Baltasar, bispo de anel que era pois como se sabe, um coadjutor expressamente destinado às consagrações e ordenações. São muito importantes, em nosso entender, as informações do padre Soto Mayor, importantes para a história de Portalegre, sem dúvida, mas ainda mais para o conhecimento da vida e práticas do bispo aqui instalado. Pormenores inéditos apresentam-se de tal modo sugestivos, como o caso da negociação da rainha e do respectivo diálogo e da referência a desgosto que dele tinha a rainha, assim como da presença deste frei Baltasar como coadjutor, e outros mais sinais que se revelam no texto do Tratado da Cidade, merecem e justificam uma cuidadosa e aprofundada investigação histórica. Construiu, como já se percebeu, à sua custa o Convento de S. Bernardo com muita soma de dinheiro de Alcobaça, preferindo o sítio da Fontedeira em Portalegre ao assento das proximidades de Marvão.
O bispo Jorge viveu, pelo menos nos últimos anos da sua vida, em casas anexas ao Convento, que em tempo do historiador padre Diogo serviam de tulha; nelas falecendo desta vida terrena no dia 5 de Agosto de 1548, óbito que não lográmos encontrar registado nos arquivos locais consultados. Este o perfil do homem e do bispo que veio instalar-se nesta cidade, tornando-a episcopal» e episcopável pela sua presença histórica. Episcopal porque, de facto, Portalegre, inesperadamente residência de um bispo, o da diocese a que pertencia, se tornou por tal razão sede dela, mesmo sem igreja catedral; assento prelatício desde 1516, desta forma; e, de igual modo, tornou-se episcopável, ou seja, capacitada e potencial sede de um bispado, antecipando de 33 anos a realidade consumada em 1549, precisamente um ano depois do falecimento do titular egitaniense. Demonstrou decerto esta feliz circunstância a notoriedade de Portalegre, comparada com outras localidades, mais ou menos importantes da área meridional da diocese, enobrecida desde 1533 (Janeiro 3) como sede de comarca, com sua correição e provedoria.
Por sua morte se partiu o bispado, lembra o padre Soto Mayor, e ficou do Tejo para cá ao de Portalegre (…). E como nesta conjuração, diz ainda noutro passo o mesmo cronista, falecesse nesta cidade, que ainda era vila, o bispo Jorge de Melo, bispo da Guarda. O bispo Julião, refere-se a Julião Alva então prior da diocese de Lamego, que pedira à rainha, de quem era confessor, o fizesse bispo, vendo esta ocasião, não lhe passou por alto. Tratou com a rainha (D. Catarina) e esta com el-rei (João III), que dividissem o bispado e fizessem de um, dois (…). A verdade é que assim se procedeu até à erecção da nova diocese (bula papal de Paulo III) e o bispo Julião Alva veio a tomar posse pela mão do notário apostólico Sebastião Andrade, que fora servidor do bispo Jorge de Melo, já no ano de 1550.
Acaso, quando a outra rainha (D. Maria de Castela) forçou Jorge ao escambo de Alcobaça pela Guarda, se se procedesse à divisão territorial desta extensíssima diocese não poderia ter sido o bispo Jorge o primeiro titular do novo bispado? Teria porventura o bispo Jorge pensado nesta hipótese quando decidiu escolher para o exílio voluntário uma das povoações mais distantes da igreja da Guarda, situada para além do Tejo, invocação geográfica importante da bula papal? Ao confrontarmos em termos cronológicos, os diversos factos históricos que se ligam a Portalegre e nesta cidade se interceptam, parece-nos ser de oportuna reflexão, interrogarmo-nos sobre as possíveis e prováveis relações pessoais de bom entendimento entre o bispo Jorge de Melo e o próprio rei João III. Terá o monarca intervindo de algum modo no projecto de reforma das dioceses do Sul, entretanto iniciada? Recordemos, p. ex., que nas décadas imediatamente anteriores se criaram, por desmembramento de Évora, as de Elvas e Beja. Recordemos também que João III estanciava com frequência em Évora; e entre 1533 e 1536 assim aconteceu sem interrupção, ali estabelecendo por 3 anos sucessivos a capital do reino, por via da peste que assolara Lisboa e pelo gosto e afecto que o atraiam à nobre capital alentejana, aí mesmo onde reunira cortes em 1535 (Janeiro 13) nas quais então, sublinhe-se, estivera presente o bispo Jorge de Melo. Apesar de, e para além dos dislates e irreverências do reverendíssimo bispo, coexistindo num tempo comum e num espaço próximo, poder-se-iam ter encontrado o bispo e o rei, discutindo questões de interesse mútuo, ambos admiradores da arte e da cultura, como se comprova pelas obras que ambos legaram à história». In Ibn Maruán, Manuel Inácio Pestana, Revista Cultural do Concelho de Marvão, Coordenação de Jorge Oliveira, nº 4, 1994.

Cortesia da CM de Marvão/JDACT

Jorge de Melo em Portalegre. O bispo, a história e a Arte. Manuel Inácio Pestana. «Mas, adianta o narrador, o mais certo de tudo é que a “rainha estava desgostosa do abade por certo respeito” e, juntamente pelo interesse de agasalhar ali o filho (porque tinha muitos), pediu a el-rei que o tirasse dali, com lhe dar de comer em outra parte»

jdact e wikipedia

«(…) Coagido a largar o rico priorado de Alcobaça amuou-se, lê-se em José Osório da Gama Castro, e entrou em verdadeira fúria, prometendo a si próprio desempenhar-se o pior possível do novo cargo, e prejudicar quanto coubesse em sua alçada a pobre diocese egitaniense que, apesar de servir de prémio de consolação ao voluptuoso prelado, ele ficara aborrecido por lhe lembrar o seu desaire» (…). A resistência à sua colocação na cidade da Guarda atitudes rebeldes daí consequentes provocam um processo disciplinar na Cúria Romana, acusando de abuso e contumácia, que conduz à excomunhão maior, suspensão a divinis com multas, proibição de entrar na igreja, etc, de tal modo se comportando que o papa Paulo III em 1545 ordenou ao Núncio de Lisboa se encarregasse da administração da diocese. É discutível se o novo bispo fez alguma coisa pela sua catedral no sentido de prosseguir e acabar as obras em curso desde o séc. XIV, para os quais teria sido constrangido a conceder subsídios, tese aliás, pouco provável porque havia verbas para o efeito. No entanto, refere Gama Castro que consta terem sido de uma iniciativa e de seu compromisso o lajeamento geral e a abóbada artesoada do coro de cima em cujos fechos se ostentam as armas heráldicas dos Melos, assim como numa das primitivas portas manuelinas. Ao tempo do seu governo diocesano, que durou 29 anos, corresponde, de facto, o andamento das obras, cujo acabamento se previa para o ano de 1540, mas só aconteceu 10 anos mais tarde, 1550. De qualquer modo, não seria rigorosamente necessário para o efeito, a presença do bispo da diocese. Bem ocupado andou ele todo esse tempo com as obras que empreendeu em Portalegre, essas sim custeadas pela sua farta bolsa. Fortunato Almeida, que bebeu a principal biografia do bispo Jorge de Melo em frei Manuel Santos, Alcobaça Ilustrada, e outros mais biógrafos de enciclopédias, nada mais, acrescentam de interesse a partir da fixação do bispo em Portalegre, ou melhor, desde a intervenção papal no polémico processo que o envolveu.
Vale-nos então o padre Diogo Pereira Soto Mayor, conhecido autor do Tratado da Cidade de Portalegre, redigido no ano de 1619, e só impresso em 1919, 1ª edição e 1984, 2ª edição, autor que viveu entre 1550/60 e 1632 (morreu em 6 de Agosto). Não tendo, embora, conhecido já o bispo Jorge, dele terá tido indubitavelmente certificadas notícias pela memória que deixou na nossa cidade o bispo exilado, auto-exilado, diz este indigno capelão em a Santa Sé de Portalegre, como ele próprio se intitula, que deu entrada o bispo Jorge na então vila de Portalegre no dia 23 de Abril de 1526, rotulando-o como um senhor dos principais fidalgos deste reino e conta a seguir, a conhecida história do encontro dele com o cardeal Jorge da Costa em Roma e da sua passagem daí para Alcobaça, onde se fez clérigo cisterciense e abade, e finalmente o negócio, igual a negociação, da Rainha que forçou a sua saída para a Guarda. Bem curiosa é, não só a notícia apresentada pelo padre Soto Mayor, como também a linguagem e a argumentação usada nessa negociação: Outros dizem que a Rainha desejava aquela abadia para seu filho, o cardeal Afonso, e que, estando um dia de Reis em Alcobaça, se foi falar com o abade e lhe permitiu Reis como se costuma em Portugal, que em Castela, para pedirem Reis, dizem Aguinaldo. Assi que o abade respondeu à Rainha que visse Sua Alteza o que queria e ela dixi: que aquela abadia pera seu filho D. Afonso, D. George, ou por fás ou por nefas, houve de lha dar…, que é, como quem diz que forçadamente, sem considerar das razões e da justiça ou considerar de tal concessão.
Mas, adianta o narrador, o mais certo de tudo é que a rainha estava desgostosa do abade por certo respeito e, juntamente pelo interesse de agasalhar ali o filho (porque tinha muitos), pediu a el-rei que o tirasse dali, com lhe dar de comer em outra parte, o que el-rei fez, com lhe dar em satisfação o bispado da Guarda, que ele aceitou muito contra sua vontade. Mas como à (vontade) dos reis não há resistência, foi-lhe necessário dissimular sua mágoa, que foi tanta que dizem que nunca entrou na Guarda, e para consagrar os santos óleos e fazer ordens, tinha um bispo de anel, frade de S. Francisco, que se chamava frei Baltasar, muito grande letrado e seu pregador». In Ibn Maruán, Manuel Inácio Pestana, Revista Cultural do Concelho de Marvão, Coordenação de Jorge Oliveira, nº 4, 1994.

Cortesia da CM de Marvão/JDACT

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Jorge de Melo em Portalegre. O bispo, a história e a Arte. Manuel Inácio Pestana. «Sabe-se comprovadamente que Jorge de Melo fora forçado a aceitar o bispado em troca da famosa e proveitosa “Abadia de Alcobaça”, pois esta a cobiçara a rainha D. Maria para seu filho Afonso…»


jdact

«Pouco se sabe, tanto quanto seria desejável, a respeito de Jorge de Melo. Não está feita a biografia completa. Dados disponíveis são apenas notas, algumas notas, e registos dos estudiosos da história da Igreja em Portugal, donde os coordenadores de enciclopédias e dicionários históricos retiram os apontamentos mínimos para informarem de modo genérico o público curioso.
Carece-nos a nós próprios o tempo para atenta e dilatada investigação, de modo que esta proposta não será mais que uma reflexão sem outras pretensões que não sejam as de relembrar o homem que, vindo de terras distantes, legou a Portalegre um importante património cultural. Das linhas biográficas, aliás muito elementares, que lhe dedicou na sua obra Évora Ilustrada o padre António Franco, que para a sua cidade se esforçou denodadamente e, às vezes, com evidente exagero e correndo riscos, por atrair glórias e virtudes, declara-o natural da capital transtagana, notícias que apenas reencontramos em Gama e Castro, praticamente redigidas nos mesmos termos.
Na verdade, àquela cidade estão ligados os Melos da Casa Cadaval, e são estes os da linha do bispo Jorge. Uma sua parente, D. Joana de Melo, monja e abadessa bernarda do Convento de Portalegre, é tida por vários autores como igualmente natural de Évora. Não se estranhará, pois, aceitar-se para o bispo Jorge a mesma pátria alentejana. É das crónicas, designadamente das páginas da Alcobaça Ilustrada que Jorge de Melo, feito bispo da Guarda em 1519, se recusou a tomar assento nesta cidade, atribuindo-se-lhe a desculpa de que não queria viver na terra onde matavam os bispos, alusão clara à morte violenta do bispo Álvares de Chaves, apunhalado no ano de 1496 por um seu criado que pretendia, e conseguiu, arrebatar-lhe as chaves do cofre episcopal.
Sabe-se comprovadamente que Jorge de Melo fora forçado a aceitar o bispado em troca da famosa e proveitosa Abadia de Alcobaça, pois esta a cobiçara a rainha D. Maria para seu filho Afonso, com cuja acomodação na vida muito se preocupou e para o qual, quando ainda não atingira os 8 anos de idade, já alcançara os bispados de Évora e de Viseu, um cardinalato, o arcebispado de Lisboa e o priorado do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. De facto, embora titular também do bispado da Guarda, a abadia de Alcobaça representava honrarias especiais e benefícios de grande vulto. Abade perpétuo do mais rico convento do país seria, além de particularíssimo privilégio, segura garantia de um futuro tranquilo. Eram, na realidade, extraordinárias, no sentido mais exacto desta expressão, as benemerências dos abades daquele mosteiro cisterciense:
  • acumulavam os títulos, e correspondentes rendas e prerrogativas, de fronteiros-mores das suas terras e alfândegas do mar, de esmoleres-mores;
  • o direito, com seus criados, a aposentadoria por onde quer que se deslocassem, em tudo segundo se praticava com as pessoas reais; 
  • isenção de sisas e portagens; propriedade e rendimentos dos riquíssimos coutos anexos, etc, etc.
Por tudo isto e pela ilustração, prestígio e respeitabilidade eclesiástica e social do cargo, muito bem instalado se sentiria nele Jorge de Melo desde o momento em que o seu protector Jorge da Costa, cardeal de Alpedrinha e bispo de Frassati, assim o houvera por bem e o determinara em Roma no ano de 1505 ao renunciar, ofendido que estava pela desfeita de el-rei João II que aceitara a eleição de frei João Claro na sucessão alcobacense de frei Isidoro de Portalegre. Manifestara o cardeal particular estima por Jorge de Melo, que entretanto em Roma se passeava sem alarde, fidalgo nobilíssimo dos deste apelido, o qual assistia na cidade pontifícia como filho segundo para se acomodar pelo eclesiástico, provavelmente à espera de uma oportunidade.
Seu nome secular era Simão, filho de Garcia de Melo, alcaide-mor de Serpa, e de D. Filipa Pereira da Silva e teve como irmãos Jorge de Melo, monteiro-mor que foi de D. João III, Henrique de Melo, o primogénito, alcaide-mor na sucessão do título paterno, sobrinho do alcaide-mor de Olivença Martim Afonso de Melo, senhor de Ferreira, origem da Casa dos Duques de Cadaval. Do seu protector de Roma, teria provavelmente Simão de Melo retirado e aproveitado o primeiro antropónimo, talvez, quem sabe?, como demonstração de admiração e reconhecimento.
Retomemos, porém, a sequência biográfica para afirmarmos a convicção, aliás subscrita por diversos autores de que Jorge de Melo se recusara a entrar na cidade da Guarda, espírito atrabiliário que era e sempre mal disposto, relata Fortunato de Almeida, certamente mais violento que melancólico, para demonstrar a sua contrariedade pela imposta nomeação prelatícia, e nessa sua disposição se fundamentará a intencional ausência para lugares distantes, os mais distantes, da diocese, primeiro, segundo se crê, para Abrantes e pouco depois para Portalegre, em definitivo». In Ibn Maruán, Manuel Inácio Pestana, Revista Cultural do Concelho de Marvão, Coordenação de Jorge Oliveira, nº 4, 1994.

continua
Cortesia da CM de Marvão/JDACT

sábado, 19 de junho de 2010

Manuel Inácio Pestana: D. Jorge de Melo em Portalegre. O bispo, a história e a arte

Cortesia de IPPAR
Quem tiver alguma notícia a respeito do conhecido e sempre nomeado Convento de S. Bernardo, de Portalegre, saberá ao certo quem foi D. Jorge de Melo.
Relembremos, no entanto, a sua figura, a sua obra, a sua personalidade, a sua presença em Portalegre e as consequências que desta circunstância derivaram para a cidade, sua história, fama e glória. Pouco se sabe, tanto quanto seria desejável, a respeito de D. Jorge de Melo. Não está feita a biografia completa. Dados disponíveis são apenas notas, algumas notas, e registos dos estudiosos da história da Igreja em Portugal, donde os coordenadores de enciclopédias e dicionários históricos retiram os apontamentos mínimos para informarem de modo genérico o público curioso.
 
Cortesia de IPPAR
«O Mosteiro de São Bernardo de Portalegre, cujo orago é dedicado a Nossa Senhora da Conceição, foi fundado em 1518 por D. Jorge de Melo, bispo da Guarda, para albergar "donzelas sem dote". As obras deste complexo monástico iriam arrastar-se ao longo de todo o século XVI. Em 1526 um alvará régio de D. João III confirmava a doação, por parte do concelho de Portalegre, do sítio da Fontedeira às religiosas do novo mosteiro, iniciando-se as primeiras construções. Quatro anos mais tarde estavam já erigidas a igreja e dependências como o dormitório, a casa do capítulo e o refeitório. Não obstante o avanço destas obras, a consagração da igreja só seria feita em 16 de Março de 1572 pelo bispo de Portalegre, D. André de Noronha. O templo do mosteiro possui planta em cruz, dividida em três naves, sendo a cabeceira composta por capela-mor, actualmente sem altar, e duas capelas colaterais. Esta estrutura interior mostra-se ainda devedora das linhas de "raiz tardo-medieval muito portalegrense" (BUCHO, Domingos, 1994), relegando o espaço centralizado dos templos de cariz clássico que já então se explorava em muitas edificações religiosas, e optando por desenvolver uma estrutura "manuelina" nas abóbadas nervadas que cobrem as naves e o espaço da capela-mor.
Cortesia de IPPAR
A estrutura interior do templo denota as diversas campanhas de obras levadas a cabo em diferentes épocas. Do século XVI subsistem o púlpito em mármore de Estremoz, decorado por motivos grotescos, bem como o portal principal do templo e o túmulo de D. Jorge de Melo, edificados entre 1538 e 1540, obras de grande erudição atribuídas a Nicolau de Chanterenne (PEREIRA,Paulo, RODRIGUES,Jorge, 1988, pp.40-41). O túmulo do fundador tem levantado inúmeras questões, tanto no que respeita à sua autoria como no que se relaciona com a leitura dos elementos iconográficos. Se as enigmáticas siglas A.I.O., esculpidas na base do corpo inferior do túmulo, têm contribuído para que a autoria de Chanterenne tenha sido posta em causa, as peças escultóricas, que indicam a coexistência de duas temáticas diferentes na composição tumular - o culto mariano e a alegoria da Morte - mostram-nos algumas dissemelhanças ao nível do trabalho escultórico. Desta forma, considera-se a hipótese de o túmulo ter sido executado por dois mestres, tendo talvez sido aproveitado um altar primitivo da igreja como elemento central da composição da arca tumular (GASPAR,Diogo, 1998, pp.10-13). Acima de tudo, o imponente monumento funerário, de que se destacam algumas peças de grande qualidade, nomeadamente os motivos grotescos, as representações de Santa Ana e São Joaquim, a figura do jacente que retrata o fundador e os bustos de São Pedro e São Paulo, é o símbolo de afirmação pessoal de D. Jorge de Melo enquanto mecenas humanista. A campanha barroca dotou o templo de diversos painéis de azulejos, elaborados cerca de 1739, que decoram tanto o espaço interior, nomeadamente as capelas laterais e a capela-mor da igreja, o transepto, a nave e o nártex, como o alpendre exterior, quase todos com representações da vida de São Bernardo.
Túmulo de D. Jorge de Melo
O portal principal do templo mostra-nos um programa decorativo de grande qualidade escultórica, numa linguagem erudita repleta de motivos grotescos, com representações de motivos guerreiros, mascarões, seres híbridos, havendo evidentes referências ao fundador do convento, como o relevo com as armas do bispo da Guarda, inseridas no frontão do portal. A fachada original foi substituída por um portal alpendrado construído possivelmente no século XVII, cujo interior foi forrado com painéis de azulejos setecentistas. Em 1878 o Convento de São Bernardo de Portalegre foi extinto, e a partir do ano seguinte passaria a funcionar neste espaço o Seminário diocesano. Na I República, em 1911, o convento seria convertido em quartel, e entre 1932 e 1961 funcionou na igreja o Museu Municipal de Portalegre. In IPPAR/2004, Catarina Oliveira.
 
(D. Jorge de Melo em Portalegre, de Manuel Inácio Pestana), a última lição do Professor (26Junho1993).
Cortesia de IPPAR/Ibn Maruán nº 4, 1994, CMMarvão/JDACT