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terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Madame Bovary. Gustave Flaubert. «Viam-se, pelas portas abertas da estrebaria, enormes cavalos de tração que comiam tranquilamente em manjedouras novas»

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«(…) Essa carta, selada com um lacre de cera azul, suplicava ao sr. Bovary que viesse imediatamente à fazenda Bertaux para pôr no lugar uma perna quebrada. Ora, de Tostes a Bertaux, há pelo menos duas léguas a percorrer, passando por Longueville e Saint-Victor. A noite estava escura. A sra. Bovary temia que o seu marido tivesse um acidente. Então ficou decidido que o criado da estrebaria iria na frente. Charles sairia três horas depois, ao nascer da lua. Mandariam um rapaz na sua direcção para indicar-lhe o caminho da fazenda e abrir os portões para ele. Por volta das quatro da manhã, Charles, bem abrigado no seu casaco, pôs-se a caminho de Bertaux. Ainda envolvido no calor do sono, deixou-se embalar pelo trote pacífico do seu animal. Quando esse parou sozinho diante de buracos cercados de espinho cavados à beira dos campos, Charles acordou de sobressalto, lembrou-se imediatamente da perna quebrada e tratou de recordar todos os tipos de fracturas que conhecia. Havia parado de chover; o dia estava nascendo e, nos galhos das macieiras sem folhas, os pássaros mantinham-se imóveis, eriçando suas pluminhas ao vento frio da manhã. A planície estendia-se a perder de vista, e os arvoredos em torno das fazendas formavam, a grandes intervalos, manchas de um violeta escuro sobre essa larga superfície cinza, que se perdia no horizonte, no tom morno do céu. Charles, de tempos em tempos, abria os olhos; depois, seu espírito cansava-se e o sono vinha, logo ele caía em uma espécie de sonolência em que as suas sensações recentes confundiam-se com as suas lembranças, fazendo com que ele próprio se visse duplicado, como estudante e como marido, deitado na sua cama, como estivera até há pouco, e atravessando uma sala de recuperação, como em outros tempos. O odor quente dos cataplasmas misturava-se na sua cabeça ao cheiro de orvalho fresco; ouvia os anéis de ferro rolarem sobre os trilhos da cama e sua mulher ressonando... Ao passar por Vassonville, viu, à beira de um fosso, um menino sentado à relva.
O senhor é o médico?, perguntou a criança. E, depois da resposta de Charles, pegou nos seus tamancos e pôs-se a correr na frente dele. O agente de saúde, durante o caminho, compreendeu pelo discurso do seu guia que o sr. Rouault devia ser um cultivador dos mais abastados. Quebrara a perna na noite anterior, ao voltar da festa dos Reis Magos na casa de um vizinho. Sua mulher morrera há dois anos. Apenas sua filha, que o ajudava a manter a casa, vivia com ele. Os sulcos das rodas tornaram-se mais profundos. Estavam quase chegando a Bertaux. O rapazote desapareceu, enfiando-se num buraco da cerca, e apareceu logo a seguir no fundo de um pátio para abrir o portão. O cavalo deslizava na relva molhada; Charles abaixava-se para passar através dos galhos.
Os cães de guarda, nas suas casotas, latiam puxando a corrente. Quando entrou em Bertaux, o cavalo ficou com medo e recuou assustado. Era uma fazenda de boa aparência. Viam-se, pelas portas abertas da estrebaria, enormes cavalos de tração que comiam tranquilamente em manjedouras novas. Ao longo das edificações, estendia-se uma grande estrumeira fumegante, e, entre as galinhas e os perus do galinheiro, bicavam aqui e ali cinco ou seis pavões, grande luxo dos galinheiros de Caux. O curral era comprido, e a granja, alta, com muros lisos como a palma da mão. Sob o abrigo, havia duas grandes carroças e duas charruas, com seus chicotes, seus cabrestos, seus equipamentos completos, entre os quais havia tosões de lã azul que se sujavam com a poeira fina que caía dos celeiros. O pátio ficava numa subida; era coberto de árvores simetricamente espaçadas, e o barulho alegre de um bando de gansos retumbava perto do charco.
Uma jovem, com um vestido de merino azul enfeitado com três babados, veio à soleira da porta para receber o sr. Bovary e fez com que ele entrasse na cozinha, onde estava aceso um bom fogo. Em torno dele, a refeição dos trabalhadores ardia em pequenos recipientes de tamanhos irregulares. Roupas húmidas secavam na lareira. A pá, as pinças e bico do fole, todos eles de proporções colossais, brilhavam como aço polido, e, ao longo das paredes, estendiam-se utensílios de cozinha, nos quais se reflectia de maneira desigual a chama clara do fogão, assim como os primeiros raios de sol que penetravam pelas vidraças». In Gustave Flaubert, Madame Bovary, 1856, Relógio D’Água, 2011, ISBN 978-989-641-177-0.

Cortesia de RelógioD’Água/JDACT

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Madame Bovary. Gustave Flaubert. «Uma noite, por volta das onze horas, foram acordados pelo barulho de um cavalo que parou bem em frente à porta. A criada abriu o postigo do celeiro e trocou algumas palavras com o homem…»

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«(…) Nas belas noites de Verão, na hora em que as ruas mornas estão vazias, quando as criadas jogam peteca na soleira das portas, ele abria a janela e nela apoiava os seus cotovelos. O rio, que dá ares de uma pequena e ignóbil Veneza a esse bairro de Rouen, corria lá baixo, amarelo, violeta ou azul, entre as suas pontes e grades. Trabalhadores, acocorados na margem, lavavam os seus braços na água. Em varas que saíam do alto dos sótãos, meadas de algodão secavam ao ar livre. Em frente, acima dos telhados, o céu puro se estendia, com o sol vermelho que se punha. Como o tempo devia estar bom por lá! Que frescor no faial! E abria as narinas para aspirar os bons odores do campo, que não chegavam até ele. Emagreceu, seu corpo esticou-se e o seu rosto ganhou uma espécie de expressão dolente que o tornou quase interessante. Naturalmente, por desleixo, acabou por deixar de lado todas as resoluções que se impusera. Uma vez, perdeu o acompanhamento da consulta, no dia seguinte, a aula, e, saboreando a ociosidade, pouco a pouco foi deixando de comparecer.
Passou a frequentar cafés, apaixonando-se especialmente pelo dominó. Confinar-se todas as noites num local público sujo para bater em ossinhos de carneiro marcados com pontos pretos sobre mesas de mármore parecia-lhe um acto precioso de liberdade, que aumentava sua auto-estima. Era como uma iniciação ao mundo, o acesso aos prazeres proibidos; e, ao entrar, girava a maçaneta com uma alegria quase sensual. Então, muitas coisas que se encontravam comprimidas dentro dele dilataram-se; passou a saber de cor estribilhos de boas-vindas que cantava, entusiasmou-se com Béranger, aprendeu a fazer ponche e enfim conheceu o amor. Graças a esses trabalhos preparatórios, foi reprovado no exame oficial de saúde. Esperavam-no à noite em casa para festejar o seu sucesso! Foi embora a pé e parou na entrada do vilarejo onde, pedindo que chamassem sua mãe, contou-lhe tudo. Ela o desculpou, atribuindo o fracasso à injustiça dos examinadores, e o fortaleceu um pouco, encarregando-se de arranjar as coisas. Somente cinco anos mais tarde o sr. Bovary ficou sabendo da verdade, que já era velha, e ele aceitou-a, não podendo, aliás, supor que o homem que pusera no mundo fosse um tolo.
Charles pôs-se outra vez ao trabalho e preparou sem interrupção as matérias do seu exame, cujas questões passou a saber de cor. Passou com uma nota bastante alta. Que dia mais feliz para a sua mãe! Foi oferecido um grande jantar. Onde exerceria o seu ofício? Em Tostes. Ali havia apenas um médico já velho. Há muito tempo a sra. Bovary esperava a morte dele, e o infeliz ainda não tinha batido as botas quando Charles se instalou em frente, como seu sucessor. Mas ter criado seu filho, tê-lo feito estudar medicina e encontrado Tostes para exercê-la não bastava: era preciso também encontrar uma mulher. Encontrou uma: a viúva de um oficial de justiça de Dieppe, que tinha 45 anos e 1.200 libras de renda. Embora fosse feia, seca como uma vara e cheia de bexigas, a verdade é que a sra. Dubuc podia escolher entre os seus pretendentes. Para chegar aonde queria, a sra. Bovary foi obrigada a livrar-se de todos eles e frustrou muito habilmente os planos de um salsicheiro que contava com o apoio dos padres.
Charles via no casamento o advento de uma melhor condição, imaginando que seria mais livre e poderia dispor de si e do seu dinheiro. Mas era a sua mulher quem mandava; devia, diante da sociedade, dizer isso, não dizer aquilo, fazer jejum nas sextas-feiras, vestir-se como ela queria, assediar por ordem dela os pacientes que não pagavam. Ela abria as suas cartas, espiava as suas negociações e escutava, pela divisória, as consultas no seu consultório quando os pacientes eram mulheres. Exigia chocolate todas as manhãs, atenções sem fim. Queixava-se sem parar dos seus nervos, do seu peito, dos seus humores. O barulho de passos incomodavam-na; se os passos eram interrompidos, a solidão era-lhe odiosa; se alguém vinha vê-la, era para assistir à sua morte, sem dúvida. À noite, quando Charles voltava para casa, ela tirava de baixo dos lençóis os seus braços magros e compridos, enroscando-os no pescoço dele, e, tendo feito com que se sentasse ao pé da cama, punha-se a falar dos seus desgostos: ele a esquecera, estava amando outra! Bem que lhe tinham dito que seria infeliz, e ela acabava por pedir um xarope para a sua saúde e um pouco mais de amor.

Uma noite, por volta das onze horas, foram acordados pelo barulho de um cavalo que parou bem em frente à porta. A criada abriu o postigo do celeiro e trocou algumas palavras com o homem que ficara por baixo, na rua. Vinha chamar o médico; trazia consigo uma carta. Nastasie desceu os degraus tremendo de frio e abriu todas as fechaduras e todos os ferrolhos. O homem deixou o seu cavalo e, acompanhando a criada, entrou logo atrás dela. Tirou de dentro do seu gorro de lã com borlas cinza uma carta embrulhada em um trapo e apresentou-a delicadamente a Charles, que se ergueu com o auxílio do travesseiro para lê-la. Nastasie, próxima da cama, segurava uma lamparina; a mulher, por pudor, ficara voltada para a ruazinha e dava-lhe as costas». In
Gustave Flaubert, Madame Bovary, 1856, Relógio D’Água, 2011, ISBN 978-989-641-177-0.

Cortesia de RelógioD’Água/JDACT

domingo, 23 de outubro de 2016

Madame Bovary. Gustave Flaubert. «O programa afixado com a lista das cadeiras a estudar deixou-o atordoado: Anatomia, Patologia, Fisiologia, Farmácia, Química, Botânica, Clínica, Terapêutica…»

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«(…) Aos doze anos, a mãe conseguiu que começassem os seus estudos. Foi encarregado disso o padre-cura. Mas as lições eram tão breves e com tantas interrupções que de pouco serviam. Eram dadas nas horas vagas, na sacristia, de pé, à pressa, entre um baptismo e um enterro; ou então o cura mandava chamar o seu aluno depois das avé marias, quando já não tinha de sair. Subiam para o seu quarto e instalavam-se: os mosquitos e as borboletas voltejavam em torno da vela. Fazia calor, a criança pegava no sono e o bom do padre, adormecendo com as mãos sobre a barriga, não tardava a ressonar, de boca aberta. Outras vezes, quando o senhor cura voltava de levar o viático a algum doente dos arredores e via Charles a fazer travessuras pelo campo, chamava-o, fazia-lhe um sermão de um quarto de hora e aproveitava a ocasião para o fazer conjugar um verbo voltado para uma árvore. A chuva vinha interrompê-los, ou então qualquer pessoa conhecida que passava. Aliás, mostrava-se sempre satisfeito com ele e dizia mesmo que o rapaz tinha muita memória. Charles não podia ficar naquilo. A mãe foi enérgica. Envergonhado, ou cansado, talvez, o pai cedeu sem resistência, e esperou-se ainda um ano até o garoto fazer a sua primeira comunhão. Passaram-se mais seis meses; e, no ano seguinte, Charles foi definitivamente enviado para o colégio de Ruão, aonde o próprio pai o foi levar, no fim de Outubro, na altura da Feira de Saint-Romain. Seria impossível que agora algum de nós o tivesse já esquecido completamente. Era um rapaz de temperamento moderado, que brincava nas horas de recreio, se aplicava nas horas de estudo, estava atento nas aulas, dormia bem no dormitório e comia bem no refeitório. Tinha como encarregado de educação o dono de um armazém de quinquilharias da Rue Ganterie, que o levava a passear uma vez por mês, ao domingo, depois de fechar a loja, indo com ele até ao porto para ver os barcos e acompanhando-o de novo ao colégio, às sete horas em ponto, antes da ceia. Todas as quintas-feiras à noite escrevia uma longa carta a sua mãe, com tinta encarnada, e fechava-a com três obreias; depois relia os seus cadernos de História, ou então lia um velho volume de Anacharsis deixado por cima das mesas da sala de estudo. Quando havia passeio, conversava com o criado, que, como ele, também era do campo.
À força de ser aplicado, conseguiu manter sempre notas médias na classe; uma vez obteve até uma distinção em História Natural. Mas, no fim do 3º ano, os pais retiraram-no do colégio para o mandar estudar Medicina, convencidos de que ele poderia chegar sem auxílio até ao bacharelato. A mãe alugou-lhe uma divisão num quarto andar, ao pé da Eau-de-Robec, em casa de um tintureiro seu conhecido. Fez os arranjos necessários para a pensão, comprou-lhe móveis, uma mesa e duas cadeiras, mandou vir de casa uma velha cama de cerejeira e comprou ainda um pequeno fogão de aquecimento, em ferro fundido, juntamente com a provisão de lenha que deveria aquecer o seu querido filho. Depois despediu-se dele no fim da semana, após mil recomendações para que fosse bem comportado, agora que ficaria entregue a si mesmo. O programa afixado com a lista das cadeiras a estudar deixou-o atordoado: Anatomia, Patologia, Fisiologia, Farmácia, Química, Botânica, Clínica, Terapêutica, sem contar Higiene e Matéria Médica, tudo nomes cuja etimologia ignorava e que se lhe apresentavam como outras tantas portas de santuários cheios de augustas trevas. Não compreendia nada; por mais que escutasse, não apreendia. No entanto, aplicava-se ao estudo, tinha cadernos cosidos com capas, assistia a todas as aulas, não faltava a uma única visita. Cumpria a sua tarefa quotidiana como um cavalo de picadeiro que gira no mesmo lugar, com os olhos vendados, ignorando o que está a fazer. Para lhe reduzir as despesas, a mãe mandava-lhe todas as semanas, pelo almocreve, um pedaço de vitela assada no forno, que ele comia de manhã, quando regressava do hospital, enquanto ia batendo com a sola do sapato na parede. Logo a seguir tinha de correr para as aulas, para o anfiteatro, para o hospício, e voltar de novo a casa, atravessando todas as ruas. À noite, depois do magro jantar do seu hospedeiro, subia ao quarto e punha-se de novo a trabalhar, com a roupa molhada no corpo, fumegando, diante do braseiro do fogão». In Gustave Flaubert, Madame Bovary, 1857, Relógio d’Água, 2011, ISBN 978-989-641-177-0.

Cortesia de Relógio d’Água/JDACT

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Madame Bovary. Gustave Flaubert. «Logo que voltou para casa, o garoto foi amimado como um príncipe. A mãe alimentava-o com doces; o pai deixava-o correr descalço e, para se mostrar filósofo, dizia até que ele podia andar todo nu»

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«(…) Tudo voltou a acalmar-se. As cabeças inclinaram-se sobre as pastas e o caloiro ficou duas horas numa atitude exemplar, embora tenha havido, uma vez ou outra, alguma bolinha de papel que, atirada com o bico de uma pena, lhe veio acertar na cara. Mas ele limpava-se com a mão e continuava imóvel, de olhos baixos. À noite, na sala de estudo, tirou da carteira as mangas de alpaca, arrumou as suas coisas e traçou cuidadosamente as linhas no papel. Vimo-lo trabalhar conscienciosamente, procurando todas as palavras no dicionário e esforçando-se bastante. Foi sem dúvida essa boa vontade de que deu provas que lhe valeu não ter passado para a classe inferior, porque, embora soubesse razoavelmente as regras, não tinha nenhuma elegância nos modos. Fora o cura da aldeia que o iniciara no latim, visto os seus pais, por economia, o terem enviado para o colégio o mais tarde possível. O pai, senhor Charles-Denis-Bartholomé Bovary, antigo ajudante do cirurgião-mor, comprometido, por volta de 1812, em assuntos de recrutamento e obrigado, por essa época, a abandonar o serviço, aproveitara-se então das vantagens pessoais para arrecadar um dote de seis mil francos, que se lhe oferecia na pessoa da filha de um negociante de chapéus, a qual se apaixonara pela sua elegância. Homem belo, fanfarrão, fazendo tilintar bem as esporas, usando suíças compridas a tocar nos bigodes, com os dedos sempre carregados de anéis e vestido de cores vistosas, tinha o aspecto de um valente, com a desenvoltura de um caixeiro-viajante. Depois de casado viveu dois ou três anos da fortuna da mulher, comendo bem, levantando-se tarde, fumando em grandes cachimbos de porcelana, só voltando para casa à noite, depois do espectáculo, e frequentando os cafés. O sogro morreu e deixou pouca coisa; ele indignou-se com isso, montou uma fábrica, perdeu nela algum dinheiro e retirou-se para o campo, onde pretendeu desforrar-se. Mas, como não entendia mais de agricultura do que de chitas, e porque montava os cavalos em vez de os pôr a trabalhar, bebia sidra às garrafas em vez de a vender em barris, comia as melhores aves da capoeira e engraxava as botas de caçar com o toucinho dos porcos, não tardou a aperceber-se de que mais valia abandonar toda a especulação.
Pela importância de duzentos francos anuais conseguiu então arrendar, numa aldeia dos confins das terras de Caux e da Picardia, uma espécie de quinta e, ao mesmo tempo, residência de proprietário. Desgostoso, cheio de remorsos, acusando o céu, sentindo inveja de toda a gente, encerrou-se ali a partir da idade de quarenta e cinco anos, enojado com os homens, dizia ele, e decidido a viver em paz. A mulher fora em tempos louca por ele; amara-o com mil e uma atitudes de servilismo, que ainda mais o afastaram dela. Outrora jovial, expansiva e apaixonada, tornara-se, ao envelhecer (como o vinho que, exposto ao ar, se transforma em vinagre), mal-humorada, lamurienta, nervosa. Sofrera tanto, sem se queixar, ao princípio, quando o via correr atrás de todas as marafonas da aldeia e quando, à noite, voltava dos piores lugares, embrutecido e a cheirar à bebedeira! Depois, o orgulho dela revoltara-se. Então tornara-se calada, engolindo a raiva num estoicismo mudo que conservou até à morte. Mantinha-se continuamente ocupada, tratando dos negócios da casa. Ia falar aos advogados, ao juiz, recordava-se do vencimento das letras, conseguia prorrogações; e, em casa, passava a ferro, cosia a roupa, lavava, vigiava os trabalhadores, liquidava as contas, enquanto, sem se preocupar com coisa nenhuma, o senhor, permanentemente entorpecido numa sonolência amuada de que só despertava para lhe dizer coisas desagradáveis, continuava a fumar ao canto da lareira e a cuspir nas cinzas. Quando ela teve um filho, foi preciso entregá-lo a uma ama. Logo que voltou para casa, o garoto foi amimado como um príncipe. A mãe alimentava-o com doces; o pai deixava-o correr descalço e, para se mostrar filósofo, dizia até que ele podia andar todo nu, como os filhotes dos animais. Ao contrário das tendências maternas, tinha ele um certo ideal viril da infância, segundo o qual procurava formar o filho, querendo que este fosse educado duramente, à maneira espartana, para adquirir uma boa constituição. Mandava-o ir deitar-se às escuras, ensinava-o a beber grandes doses de rum e a insultar as procissões. Mas, como era por natureza pacífico, o miúdo correspondia mal aos seus esforços. A mãe andava sempre com ele agarrado às saias; recortava-lhe cartões, contava-lhe histórias, entretinha-se com ele em monólogos sem fim, cheios de gracinhas melancólicas e de tagarelices mimalhas. No isolamento da sua vida, ela meteu naquela cabeça de criança todas as vaidades esparsas, desfeitas. Sonhava com altas posições, via-o já crescido, belo, espirituoso, bem estabelecido, como engenheiro ou magistrado. Ensinou-o a ler e, com a ajuda de um velho piano que tinha, até o ensinou a cantar duas ou três romanças. Mas, a tudo isso, o senhor Bovary, pouco preocupado com as letras, dizia que não valia a pena! Teriam eles alguma vez meios para o manter nas escolas do Governo, para lhe comprar um cargo ou montar-lhe um negócio? Além disso, um homem desembaraçado triunfa sempre na vida. A senhora Bovary mordia os lábios e o filho vagabundeava pela aldeia. Ele seguia os trabalhadores e fazia voar os corvos, atirando-lhes com torrões. Comia amoras pelos valados, guardava os perus com uma vara, espalhava o trigo para secar, corria pelo bosque, brincava ao jogo do avião debaixo do pórtico da igreja nos dias de chuva e, nos dias de festa, pedia ao sacristão que o deixasse tocar os sinos, para se pendurar com todo o peso na grande corda e sentir-se levado por ela no seu vaivém.
Por isso foi crescendo como um carvalho. Adquiriu mãos robustas e cores saudáveis». In Gustave Flaubert, Madame Bovary, 1857, Relógio d’Água, 2011, ISBN 978-989-641-177-0.

Cortesia de Relógio d’Água/JDACT

Madame Bovary. Gustave Flaubert. «O caloiro articulou, com voz titubeante, um nome ininteligível. Repita! Ouviu-se o mesmo balbuciar de sílabas, abafado pela galhofa da classe. Mais alto!»

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«Estávamos na sala de estudo quando o director entrou, seguido de um caloiro sem uniforme e de um contínuo que transportava uma grande carteira. Os que estavam a dormir acordaram e todos se puseram de pé como se tivessem sido surpreendidos a trabalhar. O director fez sinal para que nos sentássemos novamente; depois, voltando-se para o encarregado de vigiar os estudos: senhor Roger, disse-lhe a meia voz, aqui tem um aluno que lhe recomendo; entra para a 5ª classe. Se for aplicado e tiver bom comportamento, passará para os mais crescidos, de acordo com a sua idade. O caloiro, que ficara no canto atrás da porta, de tal modo que mal o conseguíamos ver, era um rapaz do campo, com cerca de quinze anos e mais alto do que qualquer de nós. Tinha o cabelo cortado a direito sobre a testa, como o dos que cantavam no coro da igreja, e mostrava um ar sisudo e muito acanhado. Embora não fosse largo de ombros, o fato de tecido verde e botões pretos devia ficar-lhe apertado debaixo dos braços e deixava ver, pelas aberturas das mangas, uns pulsos vermelhos habituados a andar despidos. As pernas, com meias azuis, saíam-lhe de umas calças amareladas, repuxadas pelos suspensórios. Calçava sapatos grossos, cardados e mal engraxados. Começámos a recitar as lições. Ele escutou com toda a atenção, como se estivesse a ouvir uma prédica, não ousando sequer cruzar as pernas nem apoiar-se nos cotovelos, e, às duas horas, quando tocou o sino, o vigilante teve de lhe chamar a atenção para que se pusesse connosco na forma. Tínhamos o costume de, ao entrar na aula, atirar os bonés para o chão, a fim de ficarmos com as mãos mais livres; havia que lançá-los logo do limiar da porta para debaixo do banco, de maneira que batessem na parede e levantassem bastante pó; era essa a praxe. Mas, fosse porque não tivesse notado a manobra ou porque não se atrevesse a tentá-la, já a oração terminara e ainda o caloiro conservava o boné em cima dos joelhos. Era um daqueles barretes compostos por elementos de boina de feltro, boné turco, chapéu redondo, gorro de peles e carapuça de algodão; uma coisa medíocre, enfim, daquelas cuja fealdade muda tem profundidades de expressão semelhantes às do rosto de um imbecil. Ovóide e armado com barbas de baleia, o boné começava por três chouriços circulares; depois alternavam-se, separados por uma tira vermelha, losangos de veludo e pele de coelho; vinha depois uma espécie de saco que terminava num polígono cartonado, coberto por um complicado bordado a sutache, donde pendia, na extremidade de um cordão demasiado fino, uma pequena borla de fios de ouro, à maneira de bolota. Era novo; a pala reluzia.
Levante-se, disse o professor. Levantou-se; o barrete caiu. Toda a classe desatou a rir. Abaixou-se para o apanhar. O colega do lado voltou a fazê-lo cair com uma cotovelada e o rapaz apanhou-o novamente. Deixe lá o boné, disse o professor, homem dotado de um certo humorismo. Houve uma gargalhada geral dos alunos que desconcertou o pobre rapaz, de modo que não sabia se devia conservar o barrete na mão, deixá-lo no chão ou enfiá-lo na cabeça. Voltou a sentar-se e a pô-lo em cima dos joelhos. Levante-se, repetiu o professor, e diga-me o seu nome. O caloiro articulou, com voz titubeante, um nome ininteligível. Repita! Ouviu-se o mesmo balbuciar de sílabas, abafado pela galhofa da classe. Mais alto!, gritou o professor. Mais alto! O caloiro, tomando então uma resolução extrema, abriu desmesuradamente a boca e atirou a plenos pulmões, como se fosse para chamar alguém, esta palavra: Charbovari. Uma enorme algazarra irrompeu na sala, subiu em crescendo, com gritos estridentes (uivava-se, ladrava-se, batia-se com os pés, repetia-se: Charbovari! Charbovari!), depois rolou em notas isoladas, acalmando-se com grande dificuldade e recomeçando subitamente, de vez em quando, numa fila, como uma bomba mal extinta, algum riso sufocado. Entretanto, à força de ameaças de castigos, a ordem restabeleceu-se a pouco e pouco na classe e o professor, tendo conseguido perceber o nome de Charles Bovary, depois de o ter feito ditar, soletrar e reler, intimou logo o pobre diabo a ir sentar-se no banco dos cábulas, em cima do estrado. Ele começou a mexer-se, mas, antes de dar um passo, hesitou. Que procura?, indagou o professor. O meu bo…, disse timidamente o caloiro, olhando à sua volta com uma expressão preocupada. Quinhentos versos para toda a classe!, exclamou furiosamente o professor, detendo, como o quos ego, uma nova borrasca. Fiquem lá quietos!, continuou, indignado, o professor, limpando a testa com o lenço que acabava de tirar do gorro. E você, seu caloiro, vai-me copiar vinte vezes o verbo ridiculus sum. Depois, com uma voz mais branda: deixe lá, o seu boné vai aparecer; ninguém lho roubou!» In Gustave Flaubert, Madame Bovary, 1857, Relógio d’Água, 2011, ISBN 978-989-641-177-0.

Cortesia de Relógio d’Água/JDACT