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quinta-feira, 23 de julho de 2015

A Construção da Identidade Galega nos Discursos Poéticos. Rosália de Castro. Henrique Samin. «… está falando através da máscara, ou seja: não foram pessoas específicas que fizeram o pedido para Rosalía; foi a própria Galiza, representada por sua paisagem, que fez o pedido para a cantora que nela habita»

jdact e cortesia de wikipedia

«(…) A esta altura, cabe destacar um dos mais importantes centros de cultivo do Celtismo na Galiza: a chamada Cova Céltica. Este núcleo surgiu na Coruña, na livraria de Uxío Carré Aldao, ele mesmo um importante intelectual em seu tempo, e tornou-se um duplo centro de resistência: em primeiro lugar, foi o local no qual reuniam-se os escritores regionalistas que, em reação contra os vanguardistas que escreviam em castelhano a fim de seguir as novas tendências madrilenhas, ali se reuniam para criar e publicar escritos em galego. Em segundo lugar, é preciso ter em mente que faziam parte da Cova Céltica tanto o já mencionado historiador Manuel Murguía quanto Eduardo Pondal; e contra Murguía, defensor das origens célticas da Galiza, estava Celso Garcia La Riega, intelectual pontevedrês que, em oposição àquele, defendia que as origens do povo galego eram gregas, e não célticas. Por este motivo, Garcia La Riega apelidou ao grupo da livraria de Carré, pejorativamente, la cueva céltica; mas o grupo, apoderando-se da denominação, traduziu-a para o galego. Desta forma, a Cova Céltica tornou-se um centro cultural que desempenhou importante papel neste processo de construção da identidade galega, ao tornar-se um centro activo de defesa do Celtismo. Passaremos, agora, a um exame mais pormenorizado de algumas obras de Rosalía de Castro e Eduardo Pondal, a fim de demonstrar mais explicitamente de que maneira a construção da identidade galega é nelas realizada.

A cantora: território e tradição nos cantares gallegos de Rosalía de Castro
Como mencionamos anteriormente, os Cantares gallegos de Rosalía de Castro foram idealizados pela poetisa como uma forma de retomar o lirismo galego, dignificando sua língua e reverenciando as belezas e tradições da Galiza, havendo a poetisa se inspirado no Libro de los cantares de Antonio Trueba. O ponto de partida de ambas as obras é o mesmo: trata-se de resgatar motivos populares por via de glosas e apropriações temáticas, procedimento percebido como uma forma de entrar em contacto com o lirismo popular e, através deste, com o substrato das próprias tradições e costumes do povo. Disso deriva a similaridade do ternário que encontramos nestes dois livros: como observa Carballo Calero; tradução nossa, à obra de Trueba comparecem motivos como o da moça desonrada, da romaria, o canto nocturno dos pequenos animais, a ausência, a separação dos amantes na alvorada, temas que também comparecem à obra de Rosalía. A escritora galega, no entanto, realiza seu projecto lançando mão de um recurso particular: a construção de uma persona literária, a saber, a figura da cantora que emoldura os Cantares, fazendo-se explicitamente presente no primeiro e no último poemas do livro, mas também podendo ser entrevista em diversos outros momentos da obra. Vejamos como se configura esta cantora rosaliana. Consoante Pociña e López: Rosalía recorre à utilização deste personagem, a cantora, para estabelecer uma distância entre a autora e a sua obra, transferindo para esta máscara a tarefa de dignificar o seu povo e a sua língua, deixando ao mesmo tempo diluída asua própria personalidade; deste modo fica encoberta a ousadia de fazer algo que é novo e importante.
O sentido deste recurso está, na verdade, implícito no prólogo dos Cantares gallegos. Rosalía parece de facto sincera quando não se considera capaz de desempenhar à altura a tarefa de representar uma porta-voz da Galiza; talvez de facto padeça da angústia autoral que postulam os mesmos Pociña e López, considerando-se deslocada tanto do espaço da palavra pública, até então fundamentalmente ocupado por homens, quanto do espaço da palavra poética, uma vez que se apresenta como seguidora de uma proposta literária inovadora, inaugurada por Antonio Trueba. Deste modo, a adopção de uma máscara literária representa uma forma de instaurar uma clivagem entre Rosalía e seus poemas, que funcionaria simultaneamente como refúgio defensivo e recurso criativo, sendo este segundo sentido o que mais nos interessa. A cantora rosaliana faz a sua primeira aparição no poema que abre os Cantares gallegos. Dividido em quatro partes, o poema começa com uma incitação para o canto, dirigida a uma certa menina gaiteira, adjectivo que, mais que a alegria, evoca, segundo Pociña e López, uma certa frivolidade que identifica-a às meninas das cantigas medievais, muitas das quais tão relacionadas ao lirismo popular quanto as poesias de Rosalía. Nas demais seções do poema, o discurso é transferido para a primeira pessoa, o que nos permite supor que seja a própria Rosalía a cantora, o que nos remete à já mencionada noção de máscara. É como se a poetisa, na parte inicial, criasse uma trincheira protectora, para só a partir da segunda secção se expor de facto. Reforça esta hipótese a estância inicial da segunda parte:

Assim me pediram
na beira do mar,
ao pé das ondinha
que vêm e que vão.

Assim me pediram
na beira do rio
que corre entre as ervas
do campo florido.

Note-se que Rosalía não explicita quem fez o pedido; ao invés disso, apenas descreve o lugar onde tal pedido foi realizado. Todavia, é preciso considerar que a autora está falando através da máscara, ou seja: não foram pessoas específicas que fizeram o pedido para Rosalía; foi a própria Galiza, representada por sua paisagem, que fez o pedido para a cantora que nela habita». In Henrique Samin, A construção da Identidade Galega nos Discursos Poéticos de “Rosália de Castro” e Eduardo Pondal, Conexão Letras, volume 2, nº 2, 2006.

Cortesia de Conexão Letras/JDACT

domingo, 4 de novembro de 2012

Cantares Gallegos. Rosalía de Castro. «A inspiração chega de formas imprevisíveis. Uma imagem entrevista, uma frase entrouvida, um cheiro que pesperta uma lembrança, uma conversação, uma notícia no jornal, uma repentina ideia surgida na cabeça…»

Cortesia de wikipedia

Cantares Gallegos
Lugar más hermoso
nunca hubo en la tierra
que el que Yo miraba,
que aquel que me hiciera.

Lugar más hermoso
del mundo no hallara
que aquél de Galicia,
Galicia encantada!

Galicia florida!
Cual ella ninguna
de flores cubierta,
cubierta de espumas.

De espumas que el mar
con perlas devuelve;
de flores que nacen
al pie de las fuentes.

De valles tan hondos,
tan verdes, tan frescos,
que las penas calman
tan sólo con verlos.

Que en ellos los ángeles
dormidos se quedan,
ya como palomas,
ya en forma de nieblas.
Coidou que eram rosas
garridas e frescas.


Cantaré, Galicia,
tus dulces cantares,
que me lo rogaron
orilla los mares.

Cantaré, Galicia,
en lengua gallega,
consuelo de males,
alivio de penas.

Mimosa, suave,
sentida, quejosa;
encanta si ríe,
conmueve si llora.

Cual ella ninguna
tan dulce que cante
saudades amargas,
suspiros amantes,

misterios de tarde,
murmullos de noche:
cantaré, Galicia,
orilla las fuentes.

Que así me pidieron,
que así me mandaton,
que cante y que cante
en la lengua que hablo.

Que así me mandaron,
que así me dijeron...
Ya canto, chiquillas.
Mirad, que comienzo.

Con dulce alegría,
con blando compás,
al pie de las ondas
que vienen y van.

Dios santo permita
el que estos cantares
de alivio os sirvan
en vuestros pesares;

de amable consuelo,
de suave contento,
cual hartan de dichas
cumplidos deseos.

De noche, de día,
al alba, de tarde,
me oiréis cantando
por montes y valles.

Quien quiera me llame,
con ello me obliga:
que yo he de cantarle
de noche y de día,

por darle consuelo,
por darle contento,
trocando en sonrisas
quejas y lamentos.

Buscadme, rapazas,
viejas y mociños.
Buscadme entre robles,
buscadme entre trigos,

en casa del rico
y en la de los pobres,
porque estos cantares
a todos responden.

Que ayer a la Virgen
ayuda pedí
para que os consuele
en vuestro sufrir,

en vuestros tormentos,
en vuestros pesares.
Mirad, que comienzo,
niñas, Dios mediante!

JDACT

A Construção da Identidade Galega nos Discursos Poéticos. “Rosália de Castro”. Henrique Samin. «Os celtas habitaram a Península Ibérica. Há registros de sua presença num poema do século VI a.C., a "Ora Marítima", de Rufo Festo Avieno, que na verdade é baseado em fontes mais antigas…»


jdact e cortesia de wikipedia

«Posteriormente, o já mencionado Manuel Murguía, grande amigo de Eduardo Pondal, daria novo fôlego à teoria, afirmando que, embora os celtas não fossem originários da Galiza, foram seus conquistadores, num processo que acabaria por delinear, de forma irrevogável, a identidade do povo galego.
Estas teorias tinham, decerto, uma finalidade específica: reinterpretar certas evidências históricas (por exemplo, estruturas arqueológicas, como os castros, vestígios de fortificações do tempo da ocupação romana, no território galego), de modo a inseri-las num projecto de identidade nacional que diferenciasse a Galiza das outras nações europeias, e da Espanha em particular.
Tratava-se da fundamentação de uma nacionalidade galega, derivada de uma "situação geográfica especial, língua e costumes diferentes e, acima de tudo, de uma raça celta que era diferente e superior à condição étnica dos outros povos peninsulares", empreendimento no qual a contribuição de Murguía seria determinante. A partir de uma leitura idealizada dos celtas como um povo essencialmente heróico e de feitos gloriosos, o Celtismo traria algo desta "essência" para os próprios galegos, de modo a representá-los como um povo nobre e façanhoso.
Os celtas, de facto, habitaram a Península Ibérica: há registros de sua presença num poema do século VI a.C., a "Ora Marítima", de Rufo Festo Avieno, que na verdade é baseado em fontes mais antigas, sendo a principal um périplo massaliota do século VI a.C.; há também menções a celtas na Península Ibérica em obras de historiadores e geógrafos gregos. Todavia, a crença numa relação contínua entre a cultura galega actual e os antigos celtas não resiste à percepção de que, posteriormente, a Península Ibérica foi cristianizada, dominada pelos romanos e pelos muçulmanos.
Por outro lado, a crença no enraizamento da cultura galega nos celtas permaneceria forte no ideário galego. Como afirmou Ramón V. Paz, no seu artigo Somos los gallegos celtas?:
  • O celtismo foi um dos pilares mais firmes sobre os quais se assentou a identidade cultural da Galiza. Realmente, actuou como se tratasse de um "lugar de memória" colectivo. Nenhuma outra característica da história da Galiza teve em sua época defensores tão egrégios, nem tampouco qualquer construção intelectual sobre a identidade da Galiza penetrou tão rapidamente na mentalidade popular. O celtismo, como a chuva, acabou por se converter em algo consubstancial com a Galiza e com os galegos, tanto a partir de um olhar alheio como a partir da consciência própria. Não obstante, o celtismo é um feito intelectual plenamente histórico, isto é, que se reconhece num espaço temporal preciso. Não constitui nenhuma essência imutável; ao contrário, pode-se rastrear pormenorizadamente todo o processo de sua aparição, sua hegemonia, bem como seu enfraquecimento como paradigma interpretativo da Galiza. Dito em termos mais actuais, poderíamos falar perfeitamente do celtismo como um exemplo de invenção, no sentido de construção de um mito nacional, a partir da investigação histórica baseada na análise de alguns elementos objectivos, tanto materiais ou artísticos (megalíticos e castros, em primeiro lugar), como culturais e linguísticos.
De facto, González López, na sua obra Grandeza y decadência del reino de Galicia, escreveria que:
  • a toponímia galega, as tradições e costumes de nossa terra, os monumentos arqueológicos encontrados nela, as formas culturais fundamentais da vida humana, como a casa, o carro e o arado, que ainda sobrevivem, procedem dos tempos célticos, a psicologia de nosso povo, e, talvez, o substrato fonético de nossa língua galega são claros testemunhos do fundo étnico céltico da Galiza, de toda ela.
Similarmente, Costa Clavell traça uma relação directa entre o "carácter galego" e traços psicológicos dos celtas, afirmando que "a personalidade do povo celta era, sem dúvida alguma, vigorosa e profunda", e que a Galiza "deve aos celtas a inevitável consistência de sua diferenciada personalidade nacional". Percebe-se, por conseguinte, a que ponto o Celtismo tornou-se um elemento fundamental da identidade cultural galega, num processo, aliás, mencionado por Miller, para quem as histórias nacionais contêm elementos míticos na medida em que "interpretam eventos de um modo particular, e também na medida em que elas amplificam o significado de alguns eventos e diminuem o significado de outros"». In Henrique Samin, A construção da Identidade Galega nos Discursos Poéticos de “Rosália de Castro” e Eduardo Pondal, Conexão Letras, volume 2, nº 2, 2006.

Cortesia de Conexão Letras/JDACT

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Rosália de Castro. A construção da identidade galega nos discursos poéticos. Henrique Samin. «A poesia galega, toda música e vaguidade, toda queixas, suspiros e doces sorrisinhos, murmurando algumas vezes com os ventos misteriosos dos bosques, outras vezes brilhando como o raio de sol que cai sereninho por cima das águas de um rio lauto e nobre que corre…»



Cortesia de wikipedia e jdact

«Na origem da obra-prima rosaliana está, portanto, o projecto de dar voz ao que é percebido como expressão genuína do povo galego: seu lirismo. Seria, no entanto, um engano crer que há nisto apenas um intento estético. No trecho transcrito do prólogo dos Cantares gallegos, vislumbramos uma segunda dimensão de seu projecto: se um poeta como Trueba cantasse as belezas e os costumes galegos, afirmava a poetisa, a Galiza se ergueria até ao lugar próprio, o que demonstra um propósito político no projecto rosaliano. O que significa cantar as belezas e os costumes da Galiza, na própria língua galega?
Significa afirmar as particularidades culturais e linguísticas da Galiza; significa, em última instância, afirmar a singularidade do território galego, o lugar das belezas, e a própria historicidade galega, residente na sua língua. A propósito deste último elemento, vale transcrever um outro trecho do prólogo de Rosália, em que a poetisa declara a necessidade de se "cantar as belezas da nossa terra naquele dialecto suave e mimoso que querem fazer bárbaro os que não sabem que supera as demais línguas em doçura e harmonia". Observe-se que, nestas palavras, a escritora esboça uma hierarquia entre as diversas línguas, dedicando o posto mais alto ao galego; hierarquia aliás fundamentada em uma espécie de contraposição que situa, de um lado, a língua galega, portadora de singulares "doçura" e "harmonia"; e de outro as demais línguas, consideradas uniformemente como isentas de ambos os atributos. Para Rosália, no entanto, estas qualidades singulares da sua língua materna possuem uma origem determinada, situada na tradição, de onde o elogio, feito no mesmo prólogo, à beleza dos cantos populares, um "arrulho incessante de palavrinhas mimosas e sentidas"; se a língua galega é tão doce e graciosa, afinal, é porque este é o modo galego de ser, o que também se deve às próprias peculiaridades da terra galega, que alimenta e acalenta esta poesia:
  • A poesia galega, toda música e vaguidade, toda queixas, suspiros e doces sorrisinhos, murmurando algumas vezes com os ventos misteriosos dos bosques, outras vezes brilhando como o raio de sol que cai sereninho por cima das águas de um rio lauto e nobre que corre sob os galhos dos salgueiros em flor, deveria ser cantada num espírito sublime e cristalino, se assim podemos dizer; uma inspiração fecunda como a vegetação que adorna esta nossa privilegiada terra; e, sobretudo, um sentimento delicado e penetrante, para dar a conhecer tantas belezas de primeira ordem (...)
Há um forte laço, afinal, que une a terra ao povo, o povo à tradição, a tradição à língua, e, finalmente, a língua à poesia, poesia esta que Rosália, em Cantares gallegos, pretende honrar e reverenciar.
No empreendimento pondaliano, por outro lado, assume uma dimensão essencial a valorização do mito. Na já mencionada análise de David Miller, a função dos mitos é fundamental, uma vez que eles asseguram que a comunidade nacional da qual um indivíduo faz parte possui bases históricas sólidas e incorpora uma continuidade real através das gerações; ademais, os mitos desempenham um papel moralizante, ao expôr para os membros da comunidade as virtudes de ancestrais e encorajá-los a desenvolvê-las, além de fortalecer seu senso de solidariedade e comprometimento mútuo. No projecto pondaliano, a finalidade do mito era não apenas localizar o rasto histórico do povo galego, mas também estabelecer fundamentos em nome dos quais reivindicar a unidade cultural e política dos galegos, por eles considerados a "gente de Breogán", sendo este o motivo do seu recurso ao Celtismo, fenómeno cultural que surgira na Europa no início do século XVIII, com a publicação, em França, da obra Antiquité de La nation et la langue dês ceifes, do abade Paul Pezron. Em linhas gerais, a teoria de Pezron defendia que os franceses seriam descendentes dos celtas, povo glorioso e heróico, bem como responsáveis pela difusão da cultura céltica por outros países europeus, inclusive os ibéricos Em reacção às ideias de Pezron, intelectuais peninsulares, como Pedro e Rafael Mohedano e Juan Masden, passaram a defender que, na verdade, o "berço" da cultura céltica seria a própria Península Ibérica, difundindo-se, a partir daí, para outros países europeus, incluindo a França. Paralelamente, uma outra versão da teoria surgia nas terras galegas: em 1838, o historiador Xosé Verea e Aguiar, na sua Historia de Galicia, afirmaria ser a Galiza o verdadeiro lugar de origem dos celtas, a partir de onde eles se alastraram por toda a Europa.
Posteriormente, o já mencionado Manuel Murguía, grande amigo de Eduardo Pondal, daria novo fôlego à teoria, afirmando que, embora os celtas não fossem originários da Galiza, foram seus conquistadores, num processo que acabaria por delinear, de forma irrevogável, a identidade do povo galego.
Estas teorias tinham, decerto, uma finalidade específica: reinterpretar certas evidências históricas (por exemplo, estruturas arqueológicas, como os castros, vestígios de fortificações do tempo da ocupação romana, no território galego), de modo a inseri-las num projeto de identidade nacional que diferenciasse a Galiza das outras nações europeias, e da Espanha em particular». 
In Henrique Samin, A construção da Identidade Galega nos discursos poéticos de Rosália de Castro e Eduardo Pondal, Conexão Letras, volume 2, número 2, 2006.


Eduardo Pondal
Cortesia de Conexão Letras/JDACT

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Rosália de Castro: Cantares Galegos. «Cantarte hei, Galicia, teus dulces cantares, que así mo pediron, na beira do mar. ...que así mo pediron, que así mo mandaron, que cante e que cante na lengua que eu falo»

Cortesia de europealacarte

Has de cantar

Has de cantar,
menima gaiteira;
has de cantar,
que me morro de pena.

Canta menina,
na beira da fonte;
canta dareiche
bolinhos do pote.

Canta menina ,
com brando compás,
dareiche unha proia
da pedra do lar.

Papinhas com leite
também te darei;
sopinhas com vinho,
torradas com mel.

Batatas assadas
com sal e vinagre,
que sabem a nozes,
Que ricas que sabem!

Que festa, rapariga,
se cantas faremos ...!
Festinhas por fora,
festinhas por dentro.

Canta, se quiseres,
rapaza do demo;
canta, se queres,
dareiche um mantelo.

Com som da gaita,
com som da pandeira,
te peço que cantes,
rapariga morena.

Com o som da gaita,
com o som do tambor.
te peço que cantes,
menina, por Deus. 

JDACT

domingo, 16 de janeiro de 2011

Rosália de Castro. O Rexurdimento: «Um projecto político, concebido dentro do ideário iluminista, que propunha a recuperação da singularidade económica, histórica, linguística e literária da Galiza, até então soterrada sob o domínio político e cultural espanhol, uniu-se uma valorização, de feições românticas, dos sinais identificadores do povo galego»

Cortesia de sensualparnaso 

Momento ímpar de renascimento da literatura galega, o Rexurdimento teve lugar na segunda metade do século XIX, constituindo simultaneamente um fenómeno de extrema importância cultural e política, sobretudo na medida em que alentou os esforços em prol da construção de uma nacionalidade galega. Por esse motivo, começamos este artigo explicitando de que maneira ocorreu este processo e contextualizando as produções poéticas de Rosálía de Castro e Eduardo Pondal neste ambiente sociocultural.

Num momento posterior, concentramo-nos em duas figuras emblemáticas dos projectos literários dos autores mencionados:
  • na poesia rosaliana,
  • a representação da cantora,
  • na obra pondaliana,
  • a representação do bardo.
Apresentamos, neste estágio, as características de cada uma destas figuras, explicitando de que maneira cada uma delas se relaciona com a fundação literária da Galiza, ora no presente, caso da poesia de Rosálía, ora num futuro possível como ocorre na poesia de Pondal. Para cada uma das análises, utilizamos poesias das obras fundamentais destes autores:
  • os Cantares Gallegos de Rosálía de Castro,
  • os Queixumes dos pinos de Eduardo Pondal.
O propósito é, por fim, contribuir para os estudos em torno da cultura e da literatura galega em dois aspectos principais: primeiro, retomando e reconsiderando análises em torno das obras de Rosálía e de Pondal, em relação ao projecto de construção da identidade da Galiza; segundo, contribuindo para a análise de questões mais específicas no interior das obras dos autores mencionados, por meio de uma investigação de elementos fundamentais das suas criações literárias.

Gustavo Adolfo Bécquer
«Oh que amor tão calado que é o da morte! / Que sono o do sepulcro tão tranquilo!»
Cortesia de etudogentemorta
Para se compreender devidamente o contexto no qual se inserem as obras de Rosálía de Castro e Eduardo Pondal, faz-se necessária uma sucinta explanação acerca do contexto cultural e literário da Galiza na segunda metade do século XIX, período no qual ocorreu o chamado Rexurdimento da literatura galega.
Como constatou Gutiérrez Izquierdo, o Rexurdimento ocorreu devido a uma concorrência de factores. A um projecto político, concebido dentro do ideário iluminista, que propunha a recuperação da singularidade económica, histórica, linguística e literária da Galiza, até então soterrada sob o domínio político e cultural espanhol, uniu-se uma valorização, de feições românticas, dos sinais identificadores do povo galego:
  • sua língua,
  • seus costumes,
  • suas tradições.
Os Jogos Florais da Galiza, evento que marca simbolicamente este encontro de factores, ocorreu em 1861. Nele surgiu a primeira antologia poética na qual se faziam presentes autores do então nascente Rexurdimento, em cujas obras encontramos, nas palavras do autor mencionado, «uma temática costumista, rural e paisagística, entendida como reivindicação e procura dos sinais de identidade do povo galego, e a consciência do abandono e marginalização que sofre a Galiza, que se revela na tonalidade dolorosa e na denúncia social de tantos poemas».

Rosália de Castro
(1837-1885)
Cortesia de wikilingue  
Embora o vocabulário político da Europa do início do século XIX já falasse num «princípio de nacionalidade», foi no fim deste século que o termo «nacionalismo» surgiu, sendo utilizado, inicialmente, para designar grupos de ideólogos de direita franceses e italianos que ostentavam a bandeira nacional contra os estrangeiros, os liberais e os socialistas; posteriormente, o termo passou a referir-se a todos os movimentos que consideravam a «causa nacional» como de primordial importância política: mais exactamente, a todos os que exigiam o direito à determinação, ou seja, em última análise, o direito de formar um Estado independente, destinado a algum grupo nacionalmente definido. Este novo nacionalismo político registava uma série de mutações, dentre as quais: a pressuposição de que a autodeterminação e a formação de Estados soberanos independentes não se aplicava somente a nações capazes de demonstrar sua viabilidade económica, política e cultural, mas a qualquer grupo que reivindicasse o título de «nação»; a progressiva tendência para admitir que esta autodeterminação nacional «não podia ser satisfeita por qualquer forma de autonomia inferior à plena independência do Estado»; e a tendência nova para definir a nação em termos étnicos e de línguagem (cf. Hobsbawm 1998: 204, 206).

Nos Cantares gallegos de Rosálía de Castro, a ideia de uma vontade popular enquanto,  para utilizar a terminologia de Miller, síntese de um conjunto de crenças compartilhadas direccionadas para um objectivo comum, inscritas numa historicidade e uma territorialidade específicas (o que configura sua singularidade), assume um lugar central. Detenhamo-nos brevemente em cada um destes aspectos: a história, representada na poesia rosaliana pela tradição e a territorialidade.

Cortesia de aportaverde
Em primeiro lugar, a tradição. Bastante significativas são as duas versões narradas por Manuel Murguía, destacado historiador galego com quem Rosálía se casaria em 1858 que, como veremos, também foi importante na construção do projecto poético pondaliano, para a decisão de Rosálía de escrever em galego. A primeira versão mostra-nos Rosálía exilada em Castela, em 1860 e enfrentando uma espécie de deslocamento geográfico: em meio a terras desoladas, recordando a exuberância dos campos galegos, teria sentido a poetisa necessidade de cantar a sua terra, na sua língua, a fim de romper com tudo o que a cercava. A segunda versão descrita por Murguía, que talvez se possa considerar menos romântica, diz-nos que Rosálía decidira escrever em galego para conferir um status literário à língua galega, a língua de sua família, que via sendo empregada de modo torpe nas composições de outros autores (Carballo Calero, 1981: 159).

Tratar-se-ia, por conseguinte, de restabelecer, neste território da alteridade, uma historicidade particular, através do resgate do vínculo que unia a poetisa à sua terra originária. Por outro lado, na segunda versão, escrever em galego significaria resgatar e revalorizar uma história familiar que, na visão de Rosálía, estava sendo deturpada e corrompida. Uma maneira, enfim, de restabelecer o sentido de uma tradição que estaria sendo paulatinamente perdida.
Ainda a respeito deste ponto, faz-se necessário mencionar as matrizes românticas sobre as quais configuraram-se os Cantares gallegos rosalianos. Destacar aqui apenas duas destas matrizes:
  • as poesias de António de Trueba,
  • as poesias de Gustavo Adolfo Bécquer.
A própria Rosálía de Castro, no prólogo de Cantares Gallegos, reconhece o quanto a sua poesia deve à obra de Trueba. Diz-nos a poetisa:
  • O Libro dos Cantares de don António de Trueba, que me inspirara e dera alento para levar a cabo este trabalho, passa pelo meu pensamento como um remorso, e quase assomam as lágrimas aos meus olhos ao pensar como a Galiza se ergueria até o lugar que lhe corresponde se um poeta como o Antón dos Cantares fosse o destinado para dar a conhecer as suas belezas e seus costumes.
O que desejou Rosálía foi seguir os passos de Trueba, deste modo desvelando um lirismo latente na cultura popular galega.
Na origem da obra-prima rosaliana está, portanto, o projecto de dar voz ao que é percebido como expressão genuína do povo galego, o seu lirismo. Seria, no entanto, um engano crer que há nisto apenas um intento estético. No trecho transcrito do prólogo dos Cantares Gallegos, vislumbramos uma segunda dimensão de seu projecto. Se um poeta como Trueba cantasse as belezas e os costumes galegos, afirmava a poetisa, a Galiza se ergueria até ao seu lugar próprio, o que demonstra um propósito político no projecto rosaliano.

Eduardo Pondal
(1835-1917)
Cortesia de himnogallego
O que significa cantar as belezas e os costumes da Galiza, na própria língua galega?
Significa afirmar as particularidades culturais e linguísticas da Galiza; significa, em última instância, afirmar a singularidade do território galego, o lugar das belezas, e a própria historicidade galega, residente na sua língua». In  Henrique Samin, A construção da Identidade Galega nos discursos poéticos de Rosália de Castro e Eduardo Pondal, Conexão Letras Volume 2, número 2, 2006.

La canción que oyó en sueños el viejo
A la luz de esa aurora primaveral, tu pecho
vuelve a agitarse ansioso de glorias y de amor.
¡Loco...!, corre a esconderte en el asilo oscuro
donde ya no penetra la viva luz del sol.

Aquí tu sangre torna a circular activa,
y tus pasiones tornan a rejuvenecer...
huye hacia el antro en donde aguarda resignada
por la infalible muerte la implacable vejez.

Sonrisa en labio enjuto hiela y repele a un tiempo;
flores sobre un cadáver causan al alma espanto;
ni flores, ni sonrisas, ni sol de primavera
busques cuando tu vida llegó triste a su ocaso.

Cortesia de Conexão Letras/Universidade do Rio de Janeiro/JDACT