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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Afonso Henriques. O Homem. Cristina Torrão. «… com certeza sabes que a tua tia Urraca confiou o governo das cidades de Astorga e Zamora a teu pai… Embora não compreendesse o que Egas lhe dizia, Afonso acenou entendimento com a cabeça»

jdact e wikipedia

Guimarães. Maio de 1112
«A respirar às golfadas, Afonso especou na soleira da porta que dava acesso à torre de menagem. As suas três irmãs e as aias desfaziam-se em grande pranto. Lacaios oravam pelos cantos mal iluminados, alguns estendiam os braços ao alto, numa atitude de súplica. Apesar de a noite ter caído, havia poucas velas acesas. Os olhos castanhos do pequeno buscaram sua mãe e descobriram-na proseando com Ermígio Moniz Ribadouro. Parecia inquieta, embora não pranteasse como as outras mulheres. A bem da verdade, Afonso não imaginava sua mãe a chorar. O pequeno engoliu em seco, perante a ameaça que pairava no ar abafado, despoletada com a vinda dos irmãos Ermígio e Egas Moniz. Sua irmã Sancha estranhara: porque não volveu o senhor nosso pai com eles? A chuva grossa começara a cair durante a tarde no pó seco do terreiro. Afonso convencera a irmã a procurar abrigo nos estábulos, onde podiam brincar com a ninhada da Catita, uma das perdigueiras do castelo. Os cachorrinhos vieram ao seu encontro numa alegria de crianças a quem se distribui doces e, depois de se certificar de que as crias não corriam perigo, a perdigueira deitou-se no seu canto. Afonso e Sancha nem se apercebiam que a borrasca aumentava de intensidade. Até que a Catita deu um salto, num ladrar ameaçador. Os cachorros assustados aconchegaram-se no ninho quente deixado pela mãe, quando os dois cavaleiros irromperam no estábulo, embrulhados em mantos encharcados, as montadas a resfolegarem de cansaço e de susto. Sossega, Catita, disse um deles à perdigueira alarmada, que lhes examinava as vestes. A cadela acabou por se deixar afagar na cabeça. E Afonso reconheceu os irmãos de Ribadouro: Ermígio Moniz, senhor das terras de Faria e de Santo Estêvão de Ribalima, e Egas Moniz, a quem pertenciam as terras de São Martinho, Neiva e Lamego.
Ao depararem com as crianças, os senhores lançaram-lhes um olhar alarmado. Afonso teve a sensação de que Egas Moniz lhes ia a dirigir a palavra, quando o irmão Ermígio proferiu: apressemo-nos a ir ter com dona Teresa! E há que mandar alguém tratar das cavalgaduras. Deixaram o estábulo. A voz de Sancha exprimiu o receio que igualmente se apoderava de Afonso: porque não volveu o senhor nosso pai com eles? O pequeno remeteu-se ao silêncio. A irmã considerou: é tempo de volvermos à torre... Não. Eu fico aqui. E não receias a fúria da senhora nossa mãe? Afonso abanou a cabeça, numa negativa muda, mas decidida. Sancha deixou-o sozinho. Os cachorrinhos dormitavam agora ensarilhados uns nos outros. Afonso sentou-se ao lado deles, sobre a palha, permanecendo imóvel. Nem o moço que veio tratar das montadas deu pelo filho de dona Teresa, naquele canto escuro. Em breve, todo o estábulo escurecia e o pequeno resolveu-se, enfim, a chegar-se à porta. Observou o chicotear da chuva. De repente, desatou a correr pelo terreiro fora, a chapinhar na lama, até chegar à escada de madeira, que dava acesso ao primeiro andar da torre de menagem. Não era fácil para uma criança de quatro anos vencer os degraus. A sua ama-de-leite foi a primeira a dar com ele, especado à entrada, a pingar dos cabelos e das vestes. A mulher desatou numa ladainha: que desgraça, meu rico menino, que desgraça! Nossa Senhora nos valha! Agarrando-lhe nos braços, encarou-o com os olhos rasos de lágrimas: deixou-nos um herdeiro tão pequenino, o nosso bondoso senhor. Apertou-o contra o peito e soluçou-lhe aos ouvidos: que será de nós, meu Deus? Afonso sufocava, quando ouviu a voz de Egas Moniz de Ribadouro: ah, aqui estás! O fidalgo agarrou-o pela mão e afastou-o da ama, cujo choro perto do seu ouvido lhe provocara tonturas. E um nó crescia-lhe na garganta. Egas Moniz levou-o para a reentrância da janela, sentaram-se nos assentos de pedra e o homem começou: com certeza sabes que a tua tia Urraca confiou o governo das cidades de Astorga e Zamora a teu pai… Embora não compreendesse o que Egas lhe dizia, Afonso acenou entendimento com a cabeça. Agastado, el-rei Afonso de Aragão veio pôr cerco a Astorga, ao saber que nós lá nos encontrávamos... Dona Teresa deseja falar-vos, senhor. Afonso estremeceu, não se apercebera da aproximação do lacaio, que fungou ruidosamente para um lenço e se pôs, depois, a limpar as lágrimas. Egas Moniz ainda hesitou, mas acabou por dizer ao pequeno: aguarda aqui por mim! Afonso tentava, em vão, engolir o nó que se lhe havia formado na garganta. A chuva fustigava contra a portada de madeira da pequena janela sem vidros. O vento assobiava por entre as frinchas, o pequeno sentia-o soprar contra a sua túnica encharcada. Mas não tinha frio. Mal conseguia respirar, na atmosfera abafada, atacado por suores. Um trovão retumbou mais forte. O pequeno saltou para o chão, desatou a correr porta fora e só parou no estábulo, de respiração ofegante. O coração parecia querer escapar-se-lhe pelas orelhas e o cabelo pingava-lhe pelo rosto abaixo. O enjoo que subia por ele acima lembrou-lhe a noite que passara a vomitar, depois dos festejos da Páscoa, que se seguiam à longa abstinência da Quaresma e o levaram a devorar mais doces do que os que podia comportar. Deixou-se cair em cima da palha, ao lado da Catita, que aconchegava as suas crias». In Cristina Torrão, Afonso Henriques, O Homem, Edição Ésquilo, 2008, ISBN 978-989-809-249-6.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Testamentos Régios. Primeira Dinastia. António Brochado Mota. «… tendo, teoricamente, como primeiro objectivo, a garantia de uma Boa Morte e a probabilidade de obter um bom lugar no Além»

Cortesia de wikipedia

Primeiro e segundo testamentos do rei Afonso Henriques
«Ângela Beirante coloca o aparecimento do Testamento em Portugal, ou, simplesmente, a acção de testar, nos finais do século XII. Não nos pertence questionar esta afirmação. O que podemos dizer, segundo informações colhidas em várias leituras, é que o seu aparecimento no nosso país não chega exclusivamente só por efeito da sua propagação através do Direito Civil Romano. O Direito Canónico, e, concomitantemente, a Igreja Católica, por ele regida, foram talvez os maiores responsáveis pela sua difusão, aconselhando e impondo até, a que os seus fiéis fizessem atempadamente o seu Testamento, não esperando pelos últimos momentos da sua vida para ditar as derradeiras vontades. Para a Igreja, era a melhor forma de garantir um bom lugar no Além e de ter uma Boa Morte. Para pressionar os cristãos, a Igreja chegou mesmo a negar sepultura eclesiástica àquele que morresse ab intestato, ou que fizesse testamento sem a presença de um pároco junto de si. A não observação desta particularidade determinava a que a própria Igreja se apresentasse com direito à terça ou à quarta parte dos bens do testador, exigindo a nulidade do seu testamento. Não estranha, por isso, que a elaboração dos testamentos e o seu cumprimento estivessem por muitos anos remetidos às autoridades religiosas, alegando dúvidas quanto à eficácia da sua resolução por parte das autoridades civis. Com o monarca Afonso III surgiram alguns sinais de mudança quanto à autoridade da Igreja nesta matéria, atribuindo-se aos tribunais públicos o papel anteriormente desempenhado por ela em tal assunto, com o argumento da prática de abusos por parte de algum clero. Mesmo assim, este monarca ainda evoca, no seu testamento, a autoridade do papa Honório III ou a daquele que viver na hora da sua morte, para que as suas vontades se cumprissem rigorosamente. […] Et supplico Sanctitatem ejus, quod si aliquis, vel aliqui voluerit, vel voluerint impedire istud meum testamentum quod non compleatur, & singula supradicta non sustinet, sed faciat sicut pro justitia debet facere pro salute animarum.
Torna-se claro que, a par desta autoridade invocada pela Igreja, não estaria só o desejo de proteger o testador da ineficácia das leis civis, invocada a seu favor. Também a obtenção de parte dos bens materiais, para além dos benefícios de cláusulas pias, como dinheiro para missas diárias, aniversários por morte e a realização de outros actos religiosos, estavam presentes no espírito dos eclesiásticos, sendo certo que, quer num caso, quer noutro, as leis canónicas estavam inteiramente do seu lado. Por causa destes interesses, João Martins, bispo de Lisboa, mereceu do papa o epíteto de cobiçoso e usurpador do poder real. Na sequência de queixa que lhe foi apresentada por Dinis I, aquele dignitário foi então obrigado a retroceder nas suas orientações que a tal respeito difundia pelos párocos de Lisboa.  Verifica-se assim que o Testamento, enquanto instituição jurídica que nos chega legada pelos Romanos, é depois muito aproveitada e fortemente divulgada pela Igreja junto dos seus crentes, tendo, teoricamente, como primeiro objectivo, a garantia de uma Boa Morte e a probabilidade de obter um bom lugar no Além. Mas se para uns, este documento tinha como única finalidade a salvação da própria alma, para outros, era um meio de manifestar as últimas vontades, transmitir ou extinguir direitos, dispor, no todo ou em parte, do seu património para depois da morte, reconhecer, ou não, filhos extraconjugais, nomear os seus tutores em caso de menoridade, impor a incomunicabilidade dos bens, temporária ou vitalícia, indicar o lugar para a sua sepultura e exigir determinadas manifestações religiosas, quotidianas, mensais e anuais, e ainda o perdão de qualquer acto indigno, bem como o de dívidas alheias ou o pagamento das próprias. São estas as disposições gerais dos Testamentos.
No caso dos Reis ou da grande nobreza, o Testamento tinha uma finalidade acrescida: nomear o sucessor à respectiva coroa ou Casa e entregar-lhe o poder e a governação. No caso dos reis importava especificamente garantir a continuidade da dinastia; no caso dos nobres objectivava-se manter casa e títulos, normalmente atribuídos ao primogénito varão, de forma a que por ele se prolongasse o nome da família. Mas se, no início do século XII, data a partir da qual se generalizou o acto de testar, as escrituras tinham como primeiro objectivo a salvação da alma, o que se manteve até bem perto do século XIX, a partir desta época elas foram perdendo a sua finalidade espiritual, até se diluírem no tempo, ficando apenas, como motivo principal, o abordar da questão dos bens materiais. O modelo dos Testamentos Régios da Primeira Dinastia Portuguesa é, podemos dizê-lo, quase sempre o mesmo. Os monarcas manifestam, como primeira preocupação, o desejo de acudir à salvação da sua alma, ao que se segue a nomeação do legítimo herdeiro da coroa. Depois vem a indicação do local onde pretendem ser sepultados e a explanação das últimas vontades. Portanto, as fórmulas de testar não sofrem grandes alterações e, quando existem, devem-se mais ao estilo do chanceler que executa o documento do que a mudanças conceptuais produzidas pelo evoluir do Direito Civil Romano ou do Direito Canónico. O rei Afonso Henriques, nos seus dois Testamentos, não se desvia destas linhas de orientação: invoca, primeiro que tudo, a Santíssima Trindade, e só depois se identifica como rei de Portugal por vontade de Deus, fazendo de seguida uma estrita referência à sua ascendência, a começar pelo seu avô, o magno imperador Afonso, a que se seguem os nomes do pai, o conde Henrique e da mãe, a Rainha dona Teresa. Agradece ao Criador os benefícios que Dele recebeu, concedendo-lhe o alargamento do seu Reino e saúde para o conseguir. Faz algumas alusões ao dia da sua morte e ao dever de se preparar para ela, intercalando com algumas citações dos Evangelhos alusivas ao momento final da vida, e só depois começa a dispor, com justiça, dos seus bens materiais, o que faz para remissão dos seus pecados e para que receba em centuplicado por Deus no futuro. […] Hec itaque omnia ego predictus Alfonsus diligenter considerans animaduerit quia iustum et ualde necessarium est unicuique ratione disponent, dum uiuit in hac uita ob remissionem pecatorum suorum sua omnia delegare ubi uelit et quibus uelit, ut illud a Domino centuplicatum recipiat in futuro». In António Brochado Mota, Testamentos Régios, Primeira Dinastia (1109-1383), Dissertação de Mestrado em História Medieval, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, Lisboa, 2011.

Cortesia da UL/FL/História/JDACT

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Dona Teresa. A Primeira Rainha de Portugal. Prefácio de G. Oliveira Martins. Marsilio Cassotti. «Pouco se sabe da infância de Sancha de Leão, avó paterna de D. Teresa. Apenas que teve por aia uma mulher, de nome D. Fronilde, provavelmente galaico-portuguesa»

jdact

As Antepassadas Portucalenses (783-1014)
«(…) Animados com a facilidade da conquista, em 989 uma parte do exército islâmico chegou inclusivamente ao coração do reino. Leão não se salvou da devastação. Montemor e Viseu caíram em mãos dos muçulmanos. A cidade, que tão unida estava à meninice de alguns infantes leoneses, perdeu-se. Recuperá-la ia tornar-se quase numa obsessão para a família real. A escassa capacidade do poder central para fazer frente aos ataques exteriores de finais do século X iria acentuando as diferenças entre as regiões a norte e a sul do Minho. Enquanto a zona nortenha se manteria próxima da coroa, as terras do sul ganhariam cada vez mais autonomia, incentivadas pela posição geográfica e pelas características orográficas de um território rodeado de montanhas. O crescimento dessa consciência diferenciada do resto dos territórios do reino leonês coincidiria com o progressivo enfraquecimento de alguns ramos das famílias nobres mais antigas, devido à sua forte endogamia.
Apesar de todos os descalabros, o filho e sucessor de Gonçalo Mendes, o conde Mendo Gonçalves, trisavô de D. Teresa de Portugal, chegaria a ter uma grande influência na corte. Com a morte do rei Bermudo II de Leão (951-999), fez valer a sua proximidade do herdeiro, o pequeno Afonso V (999-1028), bisavô de D. Teresa, o que deu ao novo rei o apoio dos magnates que giravam à volta dele. O conde Mendo morreu em 1008, segundo o Chronicon Lusitano, que dá estritamente a notícia, parece que assassinado, talvez por ordem de um conde castelhano, tio materno do infante, com o objectivo de desvincular a coroa da influência portuguesa. Nesse mesmo ano deu-se a desintegração do refinado califado de Córdova. Os pequenos reinos independentes, chamados taifas, que ocuparam o seu lugar, eram vistos como uma presa mais fácil para os cristãos, o que levaria a que solicitassem ajuda aos mais aguerridos correligionários berberes do norte de África, os fanáticos almorávidas.
Afonso V de Leão tinha então catorze anos. Ao fazer vinte, em 1014, os documentos da sua chancelaria mostram-no casado com a sua antiga companheira de infância, D. Elvira Mendes, filha do falecido conde Mendo e bisavó de D. Teresa de Portugal, a segunda nobre portucalense desse nome que foi rainha de Leão. Uma vez que a idade dela devia andar próxima da dele, numa época em que as mulheres costumavam ser muito mais jovens do que os maridos, poderia pensar-se que os sentimentos podem ter tido tanta importância como as razões estratégicas naquele casamento. D. Elvira deu ao marido dois filhos, Sancha e Bermudo.

Neta de uma ‘Rainha Proprietária’ (1014-1072)
Pouco se sabe da infância de Sancha de Leão, avó paterna de D. Teresa. Apenas que teve por aia uma mulher, de nome D. Fronilde, provavelmente galaico-portuguesa. A maior parte dos textos espanhóis sobre a história dessa época chamam galegos aos nascidos nos territórios a sul do Minho, baseando-se no facto de que estes tinham pertencido ao reino da Galiza. Pelo contrário, são bem conhecidos os acontecimentos que durante esse período afectaram o futuro reino da sua neta. Com o laconismo próprio dos anais medievais, o Chronicon Lusitano assinala que em 1022 os normandos atacaram um castelo que Bermudo tinha em território bracarense. D. Sancha recordaria esse ano como o da morte da mãe, D. Elvira Mendes, ainda relativamente jovem, possivelmente de um mau parto, uma das causas principais da mortalidade das mulheres casadas naquela época.
Enquanto o pai voltava a contrair matrimónio com uma infanta navarra, D. Sancha permaneceu com a aia, a quem o rei, como agradecimento pelo muito que teria feito pela filha, outorgou um importante donativo, a carta de couto do mosteiro de San Esteban de Piavela. Isso consistia num privilégio que proibia a entrada dos oficiais reais nas suas propriedades e terras, e que eximia as mesmas do pagamento de certos impostos. Quando atingiu a maioridade, D. Sancha começou a viver regularmente no mosteiro de São Pelayo de Leão, agora sob a invocação de São João Baptista, do qual chegaria a ser abadessa, mas sem votos, segundo um documento posterior. Nele declarava: Eu, Sancha, rainha, apesar de ser a domina do referido mosteiro, no entanto quero considerar-me entre as freiras e clérigos, como uma de tantos. Pelo que se conhece da sua conduta posterior, D. Sancha deve ter praticado pouco a humildade, embora fosse dotada da capacidade de a fingir quando era necessário. Enquanto fazia os seus primeiros exercícios de poder no mosteiro, o pai ia impondo um tipo de autoridade que um par de reinados antes não se conhecia. Aproveitando a dissolução do califado cordovês, Afonso V decidiu dar um novo impulso à reconquista dos territórios ocidentais, em retrocesso desde as avançadas de Almançor». In Marsilio Cassotti, D. Teresa, A Primeira Rainha de Portugal, Prefácio de G. Oliveira Martins, Attilio Locatelli, A Esfera dos Livros, 2008, ISBN 978-989-626-119-1.

Cortesia da Esfera dos Livros/JDACT

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Os Feitos de Fuas Roupinho na Crónica de 1419. Tiago Queimada Silva. «Dois capítulos da ‘Crónica’ são consagrados aos feitos de Fuas Roupinho, que era, segundo a mesma crónica, o senhor de Porto de Mós. Gani, rei da terra ‘onde ora he Cárceres e Valemça’, liderou uma expedição em terra de cristãos, atingindo o seu exército o termo de Porto de Mós»


Cortesia de wikipedia (vandamarques)

Resumo
«O presente estudo centra-se em dois capítulos específicos da Crónica de Portugal de 1419, dedicados às proezas de Fuas Roupinho. Tendo como objectivo uma melhor compreensão da funcionalidade que esses relatos incorporam, quando enquadrados nos propósitos político-ideológicos globais da crónica régia quatrocentista. Novos dados relativos à suposta identidade histórica do mítico almirante luso.

A Crónica de Portugal de 1419 sinaliza o nascimento de uma sólida tradição cronística régia, meio de transmissão de um discurso historiográfico bastante definido, consistente e sensível aos desígnios políticos da recém empossada dinastia de Avis. Por outro lado, ainda em relação às necessidades legitimadoras desta dinastia, a imagem idealizada de Afonso Henriques, como um semi-santo paladino da Cristandade, é plasmada no discurso historiográfico régio para prevalecer, a partir daí, sobre as representações alternativas do primeiro rei português, nomeadamente, as criadas em meios aristocráticos. No entanto, no seio da narrativa do reinado de Afonso Henriques na Crónica de 1419, constam dois capítulos cuja peculiaridade nos chama imediatamente a atenção, ao roubarem momentaneamente o protagonismo ao monarca luso. Neles se reportam os feitos de Fuas Roupinho, apresentado como senhor de Porto de Mós e almirante de uma frota portuguesa que cumpriu um papel importante nos combates marítimos e acções de pirataria contra os  muçulmanos, nos inícios da década de 80 do século XII. Pretendo clarificar alguns aspectos atinentes ao relato dos feitos de Fuas Roupinho na Crónica de 1419, bem como aventar algumas propostas sobre o significado ideológico que estas narrativas incorporam, no que respeita ao discurso historiográfico da dinastia de Avis, ou seja, tentar perceber em que medida elas se articulam com os propósitos legitimadores deste texto, produzido a mando do filho do rei João I, o então infante Duarte.

Fuas Roupinho na Crónica de 1419
Dois capítulos da Crónica são consagrados aos feitos de Fuas Roupinho, que era, segundo a mesma crónica, o senhor de Porto de Mós. De acordo com esta compilação, Gani, rei da terra onde ora he Cárceres e Valemça, acompanhado do seu irmão, liderou uma expedição em terra de cristãos, atingindo o seu exército o termo de Porto de Mós. Ao tomar conhecimento da aproximação dos muçulmanos, Fuas Roupinho decide abandonar o local. Deixando aí homens que pudessem defender o castelo, e esconde-se na serra que chamavom da Mondega. Daqui envia, de seguida, uma mensagem aos habitantes de Alcanede e de Santarém, na qual lhes pede que o auxiliem no combate contra o rei muçulmano que se dirige a Porto de Mós. Os mouros investem sobre o dito castelo, convencidos de que a tarefa a que se propunham seria facilmente concretizada, enquanto os homens que estavam escondidos com Fuas Roupinho lhe aconselham que vá imediatamente em socorro do seu castelo. O nobre português dirige então um discurso aos seus homens, onde lhes explica o seu plano, o qual consistia em esperar pelo anoitecer, quando os inimigos se encontrassem entorpecidos pelo sono, acometendo-os nessa altura. Por fim, o plano de Fuas Roupinho foi cumprido, obtendo os cristãos a vitória e aprisionando o rei Gani e o seu irmão, a 22 de Maio de 1218 (AD 1180), de acordo com a indicação da Crónica. Ambos foram levados a Coimbra e apresentados perante Afonso Henriques, que outorga muitas merçees a Fuas Roupinho, em consideração pelo seu feito.
A Crónica prossegue, no capítulo imediatamente posterior, com as outras proezas de Fuas, que à época, pousava com o rei em Coimbra. Por essa altura, os habitantes de Lisboa escrevem uma missiva a Afonso Henriques, na qual dão a conhecer que a cidade era assolada por uma frota de mouros, comandada por Ferneio d Alphamim, requerendo os lisboetas, por esse motivo, o auxílio régio. O rei encarrega Fuas Roupinho de ir a Lisboa, onde deveria armar uma esquadra para combater os muçulmanos, dando, ao mesmo tempo, instruções aos habitantes da cidade para que seguissem as ordens do recém nomeado almirante. Depois da armada a frota cristã, ela segue para o cabo Espichel, onde encontra as galés mouras. Trava-se, então, uma batalha naval, de onde saem triunfantes os cristãos, em Julho da era de 1218 (AD 1180). Depois de retornar a Lisboa, Fuas Roupinho escreve ao monarca português, comunicando-lhe a sua vontade, coincidente com a dos habitantes de Lisboa, de encetar uma guerra marítima contra os muçulmanos, pedido ao qual o rei prontamente acede. A frota liderada por Fuas parte para o Algarve, onde coreo a costa, admitindo o cronista, neste ponto, não ter encontrado fontes escritas que fornecessem quaisquer pormenores sobre esta operação militar. De seguida, a frota portuguesa ataca Ceuta, de onde traz grande espólio para Lisboa. Inebriados pelas vitórias alcançadas, Fuas Roupinho e os seus homens decidem repetir o ataque à cidade norte-africana, sendo, no entanto interceptados no estreito de Gibraltar por 54 galés muçulmanas, que derrotam as embarcações cristãs e trazem a morte ao próprio almirante português, em 17 de Outubro da mesma era de 1218 (AD 1180)».
In Tiago João Queimada Silva, Os Feitos de Fuas Roupinho na Crónica de 1419, História da Idade Média, Espaços, Poderes, Quotidianos, Universidade de Coimbra, Revista Portuguesa de História, tomo XLIII, 2012.

Cortesia de UCoimbra/JDACT

domingo, 20 de outubro de 2013

Dona Teresa. A Primeira Rainha de Portugal. Prefácio de G. Oliveira Martins. Marsilio Cassotti. «O infantado consistia na realidade num enorme dote composto por cidades, mosteiros e outras posses que Ramiro II estabeleceu em princípio para a filha, a infanta Elvira, mas do qual, a partir de então, começariam a gozar como “dominas”»

jdact

As Antepassadas Portucalenses (783-1014)
«(…) Em 931, o rei de Leão, que dois anos antes, por morte do irmão, tinha incorporado nos seus domínios o da Galiza, retirou-se para o mosteiro de Sahagún, e entregou os dois reinos a Ramiro, que foi ungido monarca de Leão. Depois, arrepender-se-ia, sairia do convento e sublevar-se-ia contra Ramiro, mas este acabaria por vencer e fechá-lo-ia num calabouço para toda a vida. Em todas estas lutas, Ramiro contou com o apoio da família da sua mulher. Mas uma vez consolidado Ramiro no trono leonês, acabou por se separar dela para casar com uma infanta navarra. Mesmo assim, a família da sua mulher permaneceu fiel ao rei; de facto, o ex-sogro seria um dos seus mais estreitos colaboradores durante o seu reinado. Adosinda acabaria como Aragonta num mosteiro. Até então, as rendas das rainhas tinham-se regulado por antigas normas do direito clássico, romano e germânico, de forma fundamental, o dote, derivado do primeiro, e as arras, propostas pelo segundo, ouro e propriedades que serviam para a manutenção da casa da soberana e para garantir uma saída digna de cena, embora fosse num convento. Mas isso deixava pendente a questão da manutenção das filhas dos reis, as infantas, até que casassem, assim como quando ficavam solteiras e entravam na religião. A Ramiro II de Leão (931-950) corresponderia a criação de uma instituição que significaria um importante salto qualitativo no desenvolvimento das mulheres da realeza, uma verdadeira escola para a aprendizagem do exercício do poder: o infantado. Uma instituição que mais tarde teria raízes em Portugal.
O infantado consistia na realidade num enorme dote composto por cidades, mosteiros e outras posses que Ramiro II estabeleceu em princípio para a filha, a infanta Elvira, mas do qual, a partir de então, começariam a gozar como dominas, todas as filhas dos reis leoneses enquanto permanecessem solteiras. Uma infanta inteligente e cultivada tinha, graças aos benefícios fiscais que lhe proporcionava esta instituição, assegurada uma notável posição na corte, da qual, se se mostrasse prudente, nada nem ninguém conseguiria afastá-la. Nem sequer um marido, pois embora, em princípio, as infantas deixassem de gozar dessas vantagens quando casavam, houve algumas que souberam conservá-las até nestas circunstâncias. Mas o infantado não proporcionava apenas evidentes créditos económicos e políticos; na medida em que a época o consentia, favorecia também a independência dessas mulheres. O infantado, em princípio, teria a sua sede no mosteiro de São Pelayo de Leão, onde estas orgulhosas mulheres conviviam, com título de abadessas, embora sem fazer votos religiosos, com as freiras que ali professavam. No convento começavam a treinar-se desde jovens na arte do comando com as do seu mesmo sexo, e com a passagem dos anos passavam a residir nos mosteiros ou castelos dos seus próprios feudos, e então, se ainda não o tinham exercido, dedicavam-se ao governo dos homens. Embora Adosinda Guterres não tivesse chegado a ser rainha de Leão (o seu lugar seria ocupado por uma navarra), o filho, Ordoño III (951-956), tornar-se-ia monarca à morte de Ramiro, facilitando assim o futuro enlace da casa real leonesa com outra mulher da mesma estirpe.
A partir de então, no entanto, as linhagens galaico-portuguesas tiveram de competir pela influência no trono de Leão com a casa real de Navarra. Apesar disso, o rei Bermudo II (985-999), filho de Ordoño III e neto de Adosinda Guterres, pode ser considerado fruto daqueles poderosos nobres, cujas terras a sul do rio Minho tinham já uma personalidade tão forte e marcada que as suas rebeliões eram capazes de tirar e pôr reis. Ao mesmo tempo, as elites do oeste da Península tinham problemas para que o poder central colaborasse em fazer frente a um dos grandes desafios dessa época, as agressões de normandos e muçulmanos, das quais se tiveram que defender por conta própria. Uma das primeiras invasões dos homens do norte deu-se em 968. Os Estados do conde portucalense, Gonçalo Mendes, primogénito da condessa Mumadona de Guimarães e quinto avô, pelo lado paterno, de Teresa de Portugal, sofreram fortes danos, e as populações tiveram que se organizar para pagar o resgate dos prisioneiros de guerra, vítimas inermes dos piratas escandinavos, quando estes se internavam no território, através dos rios que desembocavam no mar.
Não menos graves, embora mais custosos em termos estratégicos, foram os ataques de Almançor à cidade de Coimbra. A partir de 985, durante cerca de sete anos, os Estados cristãos do norte da Península atravessariam os seus piores momentos. O califado de Córdova era tão poderoso que aquele grande chefe muçulmano chegaria a saquear a cidade de Santiago de Compostela. Na Primavera de 987, as forças do conde Gonçalo conseguiram repelir um novo ataque à colina coimbrã, mas no ano seguinte a fortaleza cairia depois de uma batalha campal, tendo os seus defensores que se render. Em consequência disso, muitos nobres deslocaram-se para as suas propriedades mais seguras do norte». In Marsilio Cassotti, D. Teresa, A Primeira Rainha de Portugal, Prefácio de G. Oliveira Martins, Attilio Locatelli, A Esfera dos Livros, 2008, ISBN 978-989-626-119-1.

Cortesia da Esfera dos Livros/JDACT

Dona Teresa. A Primeira Rainha de Portugal. Prefácio de G. Oliveira Martins. Marsilio Cassotti. «A eleita seria a bisavó da bisavó de “Teresa de Portugal”. Chamava-se Adosinda Guterres; a mãe, Aldonsa Mendes, era filha do conde Hermenegildo Guterres, conquistador de Coimbra»

jdact

As Antepassadas Portucalenses (783-1014)
«(…) Aragonta acabou, pois, por casar com o tio em finais de 922. Mas alguma coisa deve ter acontecido entre marido e mulher, porque no início de 923 Ordoño II decidiu repudiá-la, aduzindo o seu parentesco próximo, desculpa que costumava ser alegada naqueles tempos quando um monarca desejava contrair novas núpcias. Na prática, a Igreja ainda não tinha alcançado o poder de impedir tais comportamentos. Já no século IV, tinha sido proibida até ao sétimo grau a consanguinidade dos matrimónios, incluindo a realeza, mas agora, na Península, isso só parecia ser preocupação de alguns abades, um dos quais denunciaria que esse tipo de uniões estava condenado no Antigo Testamento, nos profetas, nos apóstolos e nos Santos Padres, mas ninguém parecia dar-lhe ouvidos. Depois do repúdio, Aragonta acabou num mosteiro fundado por ela perto de Tuy, onde a família da mãe tinha propriedades. É muito possível que Teresa de Portugal também se baseasse nesses precedentes, quando, em 1120 cruzou o Minho e reivindicou certos direitos a essas terras galegas. Curiosamente, dois primos direitos de Aragonta Gonçalves acabariam por atravessar o Minho no sentido inverso. Um para professar no mosteiro de Guimarães, fundado pela tua, a condessa Mumadona, e outro no mosteiro de Arouca. Naquela altura, o rio não devia constituir nenhum muro divisório entre as aristocracias que viviam de um ou outro lado; de facto, estavam tão estreitamente aparentadas que muitos historiadores espanhóis se referem a elas como se de um mesmo grupo social se tratasse, denominando-as nobreza galaico-portuguesa.
Conta-se que, tendo-se arrependido Ordoño da separação de Aragonta, quis voltar para ela. Mas desta vez a esposa repudiada disse que não. E nem mesmo um rei podia tirar uma freira do convento sem incorrer num sério problema com as autoridades eclesiásticas. Ordoño acabou por se convencer, e em breve casou de novo, pela terceira vez. Fê-lo antes de concluído o ano de 923, com a infanta Urraca, irmã do rei de Navarra, o que leva a pensar que o verdadeiro motivo do repúdio de Aragonta fosse político. O seu matrimónio com Urraca procuraria dar segurança ao flanco oriental do seu reino, limítrofe com o navarro do irmão da sua nova mulher, que tinha a capital em Pamplona e que dominava uma ampla zona dos Pirenéus, de indubitável valor estratégico, uma vez que controlava os passos de França. Uma necessidade política semelhante tinha obrigado o pai de Ordoño a casar com uma infanta navarra. O matrimónio dele com alguém da mesma linhagem causaria no reino de Leão a reafirmação do direito navarro, derivado das antigas tradições vascas, quanto às leis sobre a herança. Este reconhecia a legitimidade das filhas a herdar da mesma forma que os varões. Quando eram primogénitas, herdavam a propriedade. Na linhagem real herdavam a coroa, mas só como transmissoras dos direitos para os seus filhos varões. Leis parecidas tinham tido os cantábricos e asturianos que forjaram a primeira monarquia asturiana, um cúmulo de tradições que influenciariam notavelmente o matrimónio de Teresa com o conde Henrique de Borgonha.
Morto Ordoño II de Leão em 924, Ramiro colaborou com o irmão mais velho, já coroado rei de Leão, na tarefa de domar as aspirações de uns primos pretendentes ao trono. O segundo dos seus irmãos assumiu a responsabilidade do reino da Galiza. Ramiro, também com carácter régio, governou a zona entre o Minho e o Mondego, para o que estabeleceu a capital em Viseu. Nesse mesmo ano casou mas, por ironia do destino, não o fez com a filha da condessa Mumadona, como ela talvez teria esperado, mas antes com outra prima de Aragonta Gonçalves, a rainha viúva que então vivia recolhida no seu convento. A eleita seria a bisavó da bisavó de Teresa de Portugal. Chamava-se Adosinda Guterres; a mãe, Aldonsa Mendes, era filha do conde Hermenegildo Guterres, conquistador de Coimbra, e portanto irmã da falecida rainha Elvira Mendes, pelo que Adosinda e Ramiro eram primos direitos. Também desta vez não se deu importância ao problema da consanguinidade existente entre os cônjuges. Na escolha pesaria, além do mais, quase de certeza, a importância das relações familiares dela. Ramiro esperava contar com o apoio que a nobreza do sul do Minho tinha oferecido tradicionalmente aos candidatos ao trono de Leão. Pouco tempo depois de casar, Adosinda deu-lhe um filho varão». In Marsilio Cassotti, D. Teresa, A Primeira Rainha de Portugal, Prefácio de G. Oliveira Martins, Attilio Locatelli, A Esfera dos Livros, 2008, ISBN 978-989-626-119-1.

Cortesia da Esfera dos Livros/JDACT

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Evocação Histórica. Afonso Henriques. Mário Domingues. «A história, porém, é muito escassa de informes acerca do que sucedeu ao conde de Portugal no seu país de origem. Sabe-se que o prenderam. Mas, porquê, ignora-se. Contudo, Henrique pôde evadir-se em 1111 e, regressando à Península…»

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Luta obstinada pela Independência
Os condes Raimundo e Henrique firmam aliança secreta para se apoderarem da herança de Afonso VI
«(…) Se as coisas corressem como os condes de Portugal e da Galiza calculavam, o conde Henrique ficaria dominando a sul toda a fronteira muçulmana, bem como os distritos contíguos da margem direita do Tejo e em boa posição para alongar as suas invasões pelo Al-Gharb e a Andaluzia. Mas, nestas engenhosas combinações em que tudo preveem, os mortais nunca incluem o único elemento certo e inevitáve1: a morte. Raimundo, falecendo no ano seguinte, 1107, transtornou profundamente os planos de Henrique, inutilizando o bem elaborado pacto secreto. Por outro lado, Sancho, o filho querido do monarca, pereceu em luta contra os mouros, junto das muralhas de Uclés, em 1108, o que conferiu automaticamente a D.Urraca os direitos de sucessão ao trono do pai. Afonso VI, com cuja morte todos contavam, só veio a falecer em Toledo, em 1109, inconformado com a falta de Sancho, o seu filho predilecto, que a formosa Zaida lhe dera e em quem ele depositara tantas esperanças. As pedras do xadrez da Espanha cristã, com esta mudança brusca e imprevista, iam dar ensejo a outra movimentação no jogo dos interesses.

Todos os meios, mesmo os condenáveis, serviam ao conde Henrique para se engrandecer
Como a morte de Raimundo desmanchara os bem urdidos planos secretos que tantas vantagens trariam ao conde Henrique, parece que este ainda tentou obter alguma coisa do monarca seu sogro, cujo falecimento se previa para muito breve. Urraca achava-se a um passo do trono. Mal o pai deixasse de existir, Henrique converter-se-ia de seu aliado que fora em simples vassalo. Seria essa situação que o Bolonhês pretenderia evitar. Não o conseguiu, como claramente se depreende do decurso dos acontecimentos. Furioso, abandonou a corte de Toledo, com o sogro ainda vivo. Quase em seguida, o grande monarca falecia, não sem ter tido tempo de declarar única herdeira da coroa sua filha Urraca, viúva do conde Raimundo. Estava aceso o rastilho para a explosão dos conflitos que, naqueles tempos, se sucediam habitualmente à morte de um rei. As ambições latentes erguiam-se em labaredas altas de furiosas lutas entre os que se sentiam ansiosos por desfrutar ou partilhar das delícias do poder supremo. Como de costume, também, o inimigo muçulmano aproveitava o ensejo para tirar partido das dissensões dos cristãos, tal como estes não deixavam de tentar obter vantagens das desavenças entre os maometanos. Assim, os mouros de Sintra, que eram vassalos e tributários do conde Henrique, trataram logo de revoltar-se. Mas o conde, marchando resoluto sobre eles, reduziu-os à obediência e puniu-os com severidade.
Entretanto, ao findar o ano 1109, a rainha D. Urraca, com plena concordância de seus súbditos, tomava posse dos Estados de Leão e Castela, dos quais era vassalo o condado Portucalense. Henrique não suportava a suserania da cunhada. A apetecida independência parecer-lhe-ia agora mais longínqua. Disposto a obtê-la pela força, já que não a lograra pela astúcia, partiu em 1110 para França, no intuito de aliciar homens de armas que o ajudassem a concretizar os seus sonhos. A história, porém, é muito escassa de informes acerca do que sucedeu ao conde de Portugal no seu país de origem. Sabe-se que o prenderam. Mas, porquê, ignora-se. Contudo, Henrique pôde evadir-se em 1111 e, regressando à Península, encaminhou-se para o reino de Aragão. Dois anos antes, em fins de 1109, D. Urraca, cujo temperamento sensual as crónicas nos denunciam, custando-lhe suportar a viuvez, casou em segundas núpcias, apesar da má vontade de alguns fidalgos e do clero, com Afonso I, rei de Aragão. Parece que este fora mais talhado para a guerra do que para o amor.
Brutal por índole, entediavam-no as doçuras do lar. Por seu lado, a rainha depressa verificou que não conseguia subjugar o marido como dominava quase toda a gente. As discórdias particulares dos cônjuges breve se transformaram em conflitos políticos. O clero, que a1iás sempre se declarara contra aquele casamento, obteve que o papa decretasse o divórcio, baseando a nulidade do enlace no parentesco dos esposos em grau proibido. Por seu turno, os fidalgos galegos rebelaram-se contra Afonso I, alegando que a sua autoridade régia era nula, devido a uma disposição testamentária de Afonso VI que estabelecia que, no caso de Urraca contrair segundas núpcias, ficasse reinando na Galiza seu neto Afonso Raimundes. Por esta doutrina estava disposta a bater-se a nobreza galega, chefiada por Pedro Froilaz, conde de Trava». In Mário Domingues, D. Afonso Henriques, Evocação Histórica, edição da L. Romano Torres, Lisboa, 1970.

Cortesia de Romano Torres/JDACT

quarta-feira, 24 de julho de 2013

A Comenta Secreta. Que segredos guardam Afonso Henriques e o mestre templário Gualdim Pais? Maria João Pardal e Ezequiel Marinho. «Ao chegar junto à casa onde este vivia foi surpreendido pelo fogo e pelo frenesim da vizinhança que, tentava em vão combater as chamas»

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Destino Sombrio
«(…) Onde estará a rapariga? Vamos, vinde por aqui... não pode andar longe... vamos procurá-la! - exclamaram os carrascos que, não satisfeitos com a chacina, antes de partirem, lançaram fogo à casa, provocando um corrupio na vizinhança, que depois do troar do alarme na aldeia, se aproximou, tentando perceber o que se passava. Catarina apercebeu-se subitamente que estava encurralada na loja onde seu pai guardava os víveres. Era impossível atravessar as chamas que consumiam já toda a divisão. Sem alternativa, ajoelhou-se e rezou, rogando a Deus que lhe desse forças para enfrentar toda a desgraça que sobre ela se abatia.
Fr. Maninho Viegas, tio de Catarina, sabendo das contendas dessa tarde resolvera visitar o seu irmão Sancho para saber o que se passara. Ao chegar junto à casa onde este vivia foi surpreendido pelo fogo e pelo frenesim da vizinhança que, tentava em vão combater as chamas. Foi de imediato informado que se desconhecia o paradeiro da sua família. As forças começavam a falhar-lhe. - O que teria acontecido? - pensava. Foi então que de súbito, se lembrou do túnel. Este fora escavado, uns anos antes, por ele e pelo irmão, como resposta a uma eventual necessidade de fuga. Será que a família se tinha refugiado aí? O que teria acontecido? Dirigiu-se assim, para o local onde se alcançava a entrada do túnel, dissimulada por detrás de uma cascata, a fim de confirmar todas as suas inquietações. Estava visivelmente consternado e, segurando um rosário na mão direita, rezava fervorosamente enquanto caminhava em passos apressados. Catarina chorava baixinho e rezava encurralada na loja, por baixo da casa dos pais.
O monge aproximava-se agora da entrada do túnel. Atravessara a queda de água e alcançara a entrada, por entre as pedras cobertas de musgo. Tacteando com as suas mãos as paredes húmidas da cavidade prosseguiu, estranhando o facto de ainda não se haver cruzado com o irmão ou a cunhada e receando o pior. Chegado ao final do túnel ajoelhou-se, e procurou o acesso à loja da casa do irmão. Sem grande dificuldade rastejou pela pequena abertura que se encontrava ao nível do chão, afastando em simultâneo o pequeno baú que, anos antes, ambos lá haviam colocado para encobrir a entrada.
Catarina, aterrorizada com o som do arrastar do baú, rezou ainda com mais afinco, para que os caminhos do Céu se lhe abrissem, na hora em que julgou ser descoberta pelos carrascos de seus pais. Subitamente uma mão pousa sobre o seu ombro e uma voz familiar ressoa: - Catarina, minha filha... estás bem? Os teus pais? O que se passou? - fr. Martinho encontrara a sobrinha. - Oh! Meu tio, ainda bem que vos encontro, pois já não posso mais conter este sofrimento que sobre mim se abate! - e desaba num pranto, correndo para os braços do monge, que a abraça com ternura. Por entre soluços e breves palavras, Catarina relatou ao tio o sucedido. - Minha querida Catarina! Que grande desgraça se abate sobre nós! - a consternação do monge era visível.

A Fuga
Catarina e seu tio, fr. Martinho Viegas, seguiam agora o curso da ribeira, aproveitando a escuridão que restava para não serem vistos. Para trás ficavam as ruínas da casa consumida pelas chamas e a aldeia onde Catarina vivera toda a sua vida. As pernas fraquejavam-lhes, especialmente as de Catarina, ainda combalida pelo choque. As urtigas picavam-lhe os pés e tornozelos, mas ela continuava a caminhada, de mão dada com o tio, imune à dor, ao frio e à fome. Pensava nos pais, na saudade que tinha deles. Estavam mortos. Já nada havia a fazer!
 - Catarina, tenho que te falar de um assunto, disse o monge, quebrando o silêncio e aproveitando o conforto de duas grandes pedras no leito da ribeira, para descansarem e se refrescarem um pouco. -Dizei meu tio... - havia na voz da jovem um tom de tristeza. - Minha pobre Catarina... a tua vida corre perigo! Agora que teu pai já não está entre nós tenho o dever de zelar pela tua segurança. Os irmãos do mosteiro acolher-te-ão, e dar-te-ão alimento... mas... temos uma pequena dificuldade... -Dizei, meu tio... - Não poderás revelar a tua identidade. Corres grande perigo... os homens que mataram teus pais é a ti que procuram agora, filha... vamos ter de te esconder. - Oh!... Meu tio, explicai-me porque me procuram... falaram de uma chave... porque corro perigo... explicai-me! Deveis-me isso, por Deus!
 - Sim, minha filha. A seu tempo revelar-te-ei esses porquês... mas por agora vamos deixar-te chegar ao final do nosso destino, para que repouses convenientemente. Catarina olhava para o seu braço direito enquanto caminhava. Os seus pés tropeçavam nas heras que cresciam junto à ribeira e, ao olhar para baixo, já nem se reconhecia nas vestes sujas e rasgadas. A marca que tinha no seu braço tinha uma forma bizarra. Parecia uma constelação de estrelas. Vários sinais acastanhados, juntos numa composição que lembrava um homem caçador. Nunca percebera muito bem o significado daquele símbolo a que o pai chamava Orion, muito menos o do crescente lunar que tinha tatuado no pulso, mas sabia que os devia esconder bem, para que não lhe fizessem mal. Tinha aquelas marcas desde que se conhecia e, para grande desgosto de sua mãe, outros sinais que a condenavam. A cor do seu cabelo já a incriminara diversas vezes da prática de bruxaria, e o seu espírito rebelde confundido com uma certa luxúria, e até mesmo, perversão. Diziam-lhe frequentemente que os seus cabelos se assemelhavam às chamas que ardiam no inferno, visão que a atormentava e que, durante os anos de meninice, a levara por uma vez a tingi-los de preto».

In Maria João Martins Pardal e Ezequiel Passos Marinho, A Comenda Secreta, Ésquilo, Lisboa, 2005, ISBN 972-8605-58-7.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

A Comenta Secreta. Que segredos guardam Afonso Henriques e o mestre templário Gualdim Pais? Maria João Pardal e Ezequiel Marinho. «Tinha uma particularidade, provocada por uma antiga ferida de guerra que lhe tolhia os movimentos do braço esquerdo e lhe valera a alcunha de ‘maneta’ por parte dos aldeões»

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Destino Sombrio
«(…) Era também o camponês mais rico das redondezas, facto que estimulava ainda mais invejas, dado que possuía terras suas e estava isento de impostos. Tinha uma particularidade, ao que se dizia provocada por uma antiga ferida de guerra que lhe tolhia os movimentos do braço esquerdo e lhe valera a alcunha de maneta por parte dos aldeões. Vivia junto de sua mulher, Carmen, e sua filha, Catarina, jovem de rara beleza, cobiçada por todos os homens dos arredores pelos seus finos traços e brancura cândida. O seu cabelo de fogo, comprido e ondulado, contrastava com a pele clara marcada por sinais visíveis que, naqueles tempos, eram considerados impuros. O azul cristalino dos seus olhos, no entanto, em nada revelava essa impureza, de que tantas vezes tinha sido acusada. No braço direito, a jovem transportava um sinal que, no dia do seu nascimento, a condenara a um destino peculiar, profetizado ao ser concebida naquele solstício.
Ao cair da noite Carmen limpava as feridas de Sancho Viegas, que chegara a casa coberto de sangue em virtude das escaramuças junto ao mosteiro. Catarina aquecia água para embeber as compressas que a mãe colocava nas costas de seu pai. - Mais devagar mulher! protestava Sancho, que não disfarçava as dores, percebendo-se na sua voz a irritação que lhe provocavam. - Assim ainda me esfolas a carne! Cuidado mulher, o meu ombro! As tuas mãos cortam como lâminas! - continuava a protestar. - Já falta pouco... está quase... Catarina, essa água vem ou não vem? - Carmen mantinha a calma. Já sabia que de nada adiantava exaltar-se, especialmente na situação em que o marido se encontrava... só provocaria maior irritação e agressividade. - Vou a caminho, minha mãe... aqui está a água! – Catarina estava apreensiva! Os acontecimentos da tarde tinham-na feito pressentir más notícias.
 - Ajuda-me filha, molha essa compressa e coloca-lhe o unguento enquanto eu... - foram interrompidas por violentas pancadas na porta. - Quem será a esta hora da noite? - Quem está aí? - perguntou Carmen enquanto pegava instintivamente numa forquilha. Ninguém respondeu e os fortes embates que ameaçavam arrombar a porta voltaram a ecoar por toda a casa. - Catarina, depressa... o alçapão... mete-te lá dentro... esconde-te! - ordenou, baixinho, Sancho Viegas, adivinhando que a insistente violência das pancadas nada teria a ver com as escaramuças dessa tarde. Levantando-se com algum esforço, Sancho, envolto em ligaduras, deixava transparecer o estado de fragilidade em que se encontrava. Teve ainda tempo de pegar numa adaga, na vã tentativa de defender a sua família, quando quatro forasteiros, envergando capuchos brancos que lhes escondiam os rostos e um manto que lhes cobria todo o corpo, invadiram a casa, tal era a violência dos seus actos. Dois deles agarraram Carmen pelos braços, deixando-lhe pouca manobra para se defender.
Ainda tentou usar a forquilha que segurava na mão, mas esta escapara-lhe com a pancada seca que os homens lhe deram na nuca e que quase a fez perder os sentidos. - O que quereis de nós?... É a mim que procurais? Largai-a! - Sancho, apesar da fraqueza, não se deixava vencer pela derrota. - Onde está a rapariga? - perguntaram os atacantes. - Diz-nos! Onde está a rapariga? - Nunca!... nunca vos direi! Largai essa mulher se sois homens! Levai-me a mim! Deixai-a ir em paz e tomai-me a mim! – Sancho Viegas continuava a lutar. - Onde guardais a chave dos mistérios? - insistiam os agressores.
Carmen recuperava agora as forças. Apesar de cambaleante, foi arrastada pelos homens até, à mesa, derrubando, com o movimento do seu corpo, as tinas que continham os unguentos e as compressas usadas momentos antes para aliviar as dores de Sancho. - Não... não... Largai-me! - Carmen tentava defender-se sem efeito. Os homens levavam a melhor. Catarina, escondida dentro do compartimento que ficava por baixo da casa ouvia, aterrorizada, os gritos de seus pais. Uma nesga de luz entrava pelas frinchas da madeira do soalho por onde podia espreitar e deixava-a ver os homens que violentamente desrespeitavam a sua mãe e maltratavam o seu pai. Conteve a custo um gemido de sofrimento, limpando as lágrimas que lhe escorriam pela face abaixo. Viu a mãe ser brutalmente espancada e violada e por fim, os braços inertes e o rosto inexpressivo, acusavam um corpo já sem vida.
 - Mãe… balbuciou, contendo o pranto. Seu pai, sem forças, dominado por aqueles homens que o obrigavam a ajoelhar, chamava em vão por Carmen. - Procuramos a chave... diz-nos onde está! - Qual chave? Não sei do que falais... - replicava Sancho. - Não zombeis de nós... a chave que trouxestes do Egipto... sabeis bem a que chave me refiro! - insistiram os forasteiros, mostrando saber bem o que procuravam. - Não sei ao que vos referis... largai-me! - Sancho mantinha-se firme. - Diz-nos onde está a rapariga! Não pode andar longe. Diz-nos onde está! - insistiram os homens de capuz, ameaçando-o com uma espada. - Nunca vos direi onde ela está! Nunca... ouvistes bem? Nunca! - disse Sancho Viegas, vencendo todas as debilidades e continuando a lutar. Tinha sangrado muito... a fraqueza apoderava-se dele... e o físico de um homem de quarenta anos, naquelas condições, pouco podia perante os quatro forasteiros.
O olhar de Catarina cruzou-se, por breves e últimos instantes, com o de seu pai, subjugado e em sofrimento, e a impotência perante tal situação provocou-lhe uma angústia que guardaria até à morte. Contudo, tamanho sacrifício não poderia ser em vão. Os pais davam a vida pela sua segurança e, mesmo sem compreender o que se estava a passar, o seu dever era pôr-se a salvo. Nada mais podia fazer por aquelas duas almas que eram a razão da sua existência. Em surdina, Catarina soluçava compulsivamente. Limpou mais uma vez os olhos lacrimosos, acenando um último adeus ao pai. A sua tristeza era profunda e ainda não digerira todas as imagens que se gravavam na sua mente. As palavras daqueles homens ecoavam na sua cabeça... era atrás dela que andavam... mas porquê? Que poderiam querer de uma simples rapariga como ela? Falavam de uma chave... que chave seria essa? Não compreendia! O medo tornara-se aterrador ao perceber que os dois homens haviam assassinado o seu pai. Ouvira os seus passos em direcção à porta e, de repente, tudo ficara silencioso».

In Maria João Martins Pardal e Ezequiel Passos Marinho, A Comenda Secreta, Ésquilo, Lisboa, 2005, ISBN 972-8605-58-7.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

quarta-feira, 17 de julho de 2013

A Comenta Secreta. Que segredos guardam Afonso Henriques e o mestre templário Gualdim Pais? Maria João Pardal e Ezequiel Marinho. «Vestiam roupagens pobres e defendiam apenas as necessidades básicas que ansiavam proporcionar às suas famílias. Tinham fome e os tributos que pagavam aumentavam assustadoramente»

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O Mensageiro
«(…) Mandou chamar o seu capitão da guarda e ordenou-lhe: - O Mestre Abraão que se apronte! Preparai uma guarnição de homens e mandai-me chamar o meu pajem. - Sim Mestre, farei como ordenais ! - e retirou-se, com uma vénia. Alguns minutos depois, Renato abeirou-se da porta e perguntou se podia entrar. - Entra Renato, disse-lhe Gualdim, franzindo a testa, quero falar contigo. Depois de uma breve pausa continuou. - Em breve farás dezoito anos; és já um homem feito! Demonstras bravura e valentia… também inteligência… características que fazem de ti um bom e gentil-homem. - Obrigado, senhor - disse Renato, com um enorme orgulho e alguma timidez. - Estás há algum tempo junto de mim; tenho acompanhado a tua educação, conforme me pediu teu pai… paz à sua alma... mas ainda não estás comigo! Já passaram quatro anos desde a sua morte, e sabes que delegou em mim a responsabilidade da tua educação, pouco antes do seu passamento.
Ambos se benzeram, e Renato não escondeu algum pesar. – Há muitas coisas que ainda não sabes a meu respeito, continuou Gualdim, mas que a seu tempo, te revelarei. Apesar de ainda não teres sido armado cavaleiro, dominas já a lide das armas e reconheço em ti outras características que serão úteis a este projecto do Rei. Estou seguro de que serás capaz de honrar a minha escolha, quando o dever te chamar. És filho de teu pai, um homem justo e virtuoso, e certo disso, não tenho dúvidas que o destino se te revelará. Estás à minha guarda e vais começar comigo uma viagem. Vais comigo para Theodomar! - Theodomar, senhor?... aqui no condado?... mas... será uma viagem longa? - O entusiasmo do jovem era bem visível. - Sim Renato. Theodomar, Nabância... ou Sellium são nomes para o mesmo lugar. Os antigos chamam-lhe Theo – mar, o mar de Deus... conto contigo Renato, meu jovem amigo? Estás comigo?
 - Claro, senhor, acompanhar-vos-ei, se preciso for, até ao infinito. Irei, se assim o desejardes. Estou convosco. Sois meu Mestre e Senhor, farei o que vos aprouver! - Renato sabia que muitos perigos se iriam, por certo, atravessar no caminho, mas estava confiante. Tinha fé. Ambos levaram a mão ao peito em sinal de promessa, tocando os corações com o punho fechado. Em breve começariam a viagem. Gualdim Pais, com a sua voz forte e possante cantarolava, feliz, uma melodia antiga. Sentia-se cheio de energia.

Destino Sombrio
O dia nascia, anunciando-se sombrio. Atiçado pelo vento, o fogo rangia furiosamente, carregando os céus de uma atmosfera densa e alaranjada. O fumo tornava o ar irrespirável. Na granja de Turquel dos coutos de Al-Cobaxa alguns casebres eram consumidos pelas chamas, deixando diversas famílias em alvoroço. As pessoas da aldeia vizinha contemplavam, amedrontadas, o cenário de terror, e comentavam os acontecimentos da noite anterior. Era já a terceira vez esse ano que as populações de Turquel, Maiorga e Évora de Al-Cobaxa se rebelavam contra a prepotência dos monges. Supervisionados pelos irmãos conversos [existiam três tipos de monges: os noviços, que ainda não tinham professado; os professos, que recebiam o hábito branco e faziam os votos de pobreza, castidade e obediência e os conversos, que se caracterizavam por usar barba, renunciar aos seus bens pessoais e fazer trabalhos servis], que por causa da sua barba comprida e bigode receberam a alcunha de barbudos, homens e mulheres eram explorados a troco de quase nada; trabalhavam para que o excedente da produção agrícola enriquecesse a Ordem de Cister. Os irmãos conversos eram a segunda comunidade do mosteiro. A sua função nos lugares conventuais era de subalternidade estando-lhes destinados os trabalhos mais rudes.
No dia anterior, depois de uma tarde de provocações junto ao Mosteiro de Santa Maria de Al-Cobaxa, em que as populações unidas, procuravam junto da comunidade cisterciense [os monges de Cister (Cistel) ou de Cluny têm origem nos beneditinos. Cistel uma localidade ao Sul de Dijon, onde nasce o conde Henrique. Mantêm o mesmo lema dos seus antecessores ora lege et labora (reza lê e trabalha)] o apoio para os seus males e injúrias, a tragédia aconteceu! Um grupo de camponeses combinara juntar-se ao pôr-do-sol, no final dos trabalhos, armado de utensílios agrícolas e carregando consigo a vontade de justiça que animava os seus corações famintos. Vestiam roupagens pobres e defendiam apenas as necessidades básicas que ansiavam proporcionar às suas famílias. Tinham fome e os tributos que pagavam aumentavam assustadoramente.
Ao fim de algumas horas de protesto, os homens de Maiorga, animados já pelo vinho, começaram numa troca de violências verbais que acabaram em conflito com as restantes gentes das granjas vizinhas. Sem explicação aparente, num acto de deplorável desespero, viram-se, ao fim de breves minutos, envoltos em acesas e inúteis escaramuças, resultando daí um triste cenário de rostos ensanguentados, corpos feridos, roupagens desfeitas e um cheiro de vingança que viria a encobrir as verdadeiras razões do massacre que se aproximava. Sancho Viegas, um camponês robusto, de carácter firme e decidido, encabeçava a revolta do povoado de Turquel. O seu lavor era o trabalho do ferro e demais metais. A sua impulsividade nem sempre lhe trouxera bons augúrios, no entanto, era um homem capaz de lutar até ao seu limite pelas causas em que acreditava e isso merecia a admiração dos restantes aldeões. Já se habituara a contar com diversos inimigos, especialmente aqueles que ficavam incomodados com o facto de ser irmão do mestre dos conversos, fr. Martinho Viegas, monge de coro que chefiava as granjas de Maiorga e Turquel».

In Maria João Martins Pardal e Ezequiel Passos Marinho, A Comenda Secreta, Ésquilo, Lisboa, 2005, ISBN 972-8605-58-7.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

terça-feira, 16 de julho de 2013

A Comenta Secreta. Que segredos guardam Afonso Henriques e o mestre templário Gualdim Pais? Maria João Pardal e Ezequiel Marinho. «O seu olhar era agora de esperança. Estava na hora... tinha chegado o momento... “a sua missão começava aqui!” Estando certo do seu dever para com o rei e dos ideais que juntos partilhavam…»

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O Mensageiro
«(…) Reconstruir uma igreja?!!! - exclamou, de repente, Gualdim, estupefacto, depois de ter lido a mensagem contida no manuscrito. -
Em Nabância?!!! [Nabância, Theodomar, Thomar ou Sellium são os nomes que tomou a cidade de Tomar ao longo dos tempos] Gualdim Pais continuou a ler e a sua expressão tornou-se mais séria ainda. Deu dois passos em direcção à luz e repousou, por breves minutos, o olhar pensativo no castelo que se avistava lá ao longe, através de uma das janelas do salão. Os olhares dos dois homens que o acompanhavam com a presença naquele salão recaíam sobre si próprio. - Será que…? - o relinchar dos cavalos lá fora interrompeu-lhe os pensamentos. Um homem embriagado caíra nos bebedouros, onde os animais saciavam a sede, e provocara uma algaraviada de risos e comentários, que vinham da rua.
 - Renato... - falou o Mestre num tom decidido, conduz o nosso convidado às cozinhas. Que lhe seja servida uma refeição e concedido descanso. Quero ficar a sós!
O jovem escudeiro levou o homem a uma cozinha farta, onde sobressaíam as cores e paladares do campo. Num pequeno alguidar de madeira, podia ver-se o tom rosado das amoras silvestres, noutro um pouco maior, a frescura das verduras, noutro ainda o peixe seco variado e pairando no ar, um saboroso aroma a galo do campo assado. O mensageiro sentou-se e, duas mulheres fortes, de faces rosadas e atributos salientes, colocaram-lhe sobre a mesa pratos e copos de barro, onde lhe verteram, de uma quartinha, um aromático vinho de Collares.
A comitiva de Henrique de Borgonha tinha-se feito acompanhar, desde Dijon, de alguns oleiros e ceramistas, por isso, no condado, desde cedo as refeições começaram a ser servidas em pratos [na época era frequente utilizar a côdea do pão, como prato]. Entretanto no salão, Gualdim imobilizava-se junto à janela... não tinha manifestado todo o conteúdo da missiva. Estava apreensivo. Olhou novamente para o manuscrito que segurava nas mãos. Enquanto lia e relia as palavras de Sua Majestade andava em círculos pela sala, detendo-se, de quando em quando, junto à janela. Seguido do selo do monarca, de leitura quase imperceptível, via-se escrito Santa Maria e imediatamente abaixo, via-se o desenho de uma serpente no qual estava assinalada a letra M, tudo no canto inferior direito.
 - O Abraxas! - pensou Gualdim, recordando a sua passagem pelo Egipto, onde tomara contacto com as crenças gnósticas. Já tinha visto um selo semelhante àquele no qual figurava uma personagem com cabeça de galo, cujo corpo estava coberto por uma armadura, do qual saíam duas serpentes em vez de duas pernas, cada uma com duas cabeças. Mas esse era um dos símbolos secretos da Ordem. A cruz figurava nele por cima do ser com cabeça de galo e era acompanhado da inscrição Secretum Templi. Cria-se que o Abraxas dava vigilância, poder e sabedoria. Aquele que anuncia a chegada da Luz, a personagem com cabeça de galo, era aqui representada como o despertado. Mas a serpente... – pensava ele - ... era o símbolo da salvação, que Moisés tinha colocado sobre um pau. Quem olhasse para ela seria salvo do seu infortúnio. Era a protectora da sabedoria escondida. A serpente... letra M... qual seria o objectivo do rei? Teria por certo a ver com o reino... a Ofiusa... a terra da serpente - pensava Gualdim, em silêncio.
 - Temos de partir quanto antes... tenho que reunir a comparsaria, e preparar a viagem. Não há tempo a perder, quero ver se partimos em menos de uma semana! - disse para si, Gualdim Pais, enquanto se dirigia à porta.

Hugues de Payns havia chefiado alguns anos antes um conjunto de cavaleiros, ordenados para o seu serviço, renunciando ao mundo e consagrando-se a Cristo, na protecção dos peregrinos e da Cidade Santa de Jerusalém. Entre esses homens que se dirigiam ao monte Moriah estavam André de Montbard, Geoffroy de Saint-Ometr Hugues Rigaud, Archambaud de Saint-Aignan, Nivard de Montdidier Rossal, Geoffroy Bissol e Gondomar, que se presume ser português [há alguns autores que fazem referência ao cavaleiro e 5º Mestre da Ordem do Templo em Portugal, fr. Pedro Arnaldo, como sendo o nono cavaleiro: Gondomar, provavelmente, visto ser natural desta terra, ao que tudo indica, e haver documentação que se refere a um dito cavaleiro Arnaldo (da Rocha), que poderá guiar-nos até à sua pessoa]. Dirigiu-se à Terra Santa, nesta cruzada, um grupo de nove cavaleiros, todos homens veneráveis. Tomando o tríplice voto de Castidade Pobreza e Obediência, dedicaram as suas vidas, dali até à morte, à protecção dos peregrinos e à garantia do Reino de Cristo. Foram mais tarde chamados Cavaleiros do Templo de Salomão, ou simplesmente os Templários. A nobre missão destes nove homens foi dignificada com a atribuição de terras e benefícios por parte de reis e cónegos, para proverem às suas necessidades, merecendo o reconhecimento do patriarca de Jerusalém, às mãos de quem prestaram juramento de obediência. O então novo Rei de Jerusalém, Balduíno II, que sucedera seu primo Balduíno I, logo viu na atitude dos nobres e valorosos cavaleiros algo de grande valor e importância. O Concílio de Troyes, trouxe-lhes a Regra e o hábito branco, símbolo de inocência, no qual foi inscrita a cruz vermelha, pelo martírio. Por outro lado, também se sabe que estes nove cavaleiros entraram muito poucas vezes em campanha, enquanto estiveram na Terra Santa.

Gualdim assistira, em Braga, ao juramento d'El-Rei Afonso Henriques, familiar em segundo grau de Hugues de Payns e do abade de Claraval. Era ainda companheiro de Pedro Afonso, filho bastardo do monarca e Mestre de Avis [a Ordem de Avis é dissidente da Ordem de Calatrava, que teve origem em Espanha. Foi fundada por Afonso Henriques quando alguns frades se radicaram em Évora, tendo ficado conhecidos pelos Freires de Évora. Em 1211, Afonso II doou-lhes o lugar de Avis, e pensa-se que nessa época, a ordem portuguesa já tivesse um estatuto independente embora continuasse subordinada à castelhana]. Sabia que o rei tinha uma missão maior. Sua Majestade queria encontrar-se com ele em Al-Cobaxa! (designação árabe para Alcobaça). O seu olhar era agora de esperança. Estava na hora... tinha chegado o momento... a sua missão começava aqui! Estando certo do seu dever para com o rei e dos ideais que juntos partilhavam e defendiam, começou a preparar mentalmente a viagem. Necessitava de pessoal para trabalhar e de um Mestre canteiro».

In Maria João Martins Pardal e Ezequiel Passos Marinho, A Comenda Secreta, Ésquilo, Lisboa, 2005, ISBN 972-8605-58-7.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Dona Teresa. A Primeira Rainha de Portugal. Prefácio de G. Oliveira Martins. Marsilio Cassotti. «”Mumadona” beneficiava de um recurso que faltava à sua cunhada ‘Aragonta’. A sua mãe, a condessa Onega, neta de Vímara Peres, conquistador da cidade do Porto e fundador da cidade de Guimarães»

Mumadona Dias
jdact

As Antepassadas Portucalenses (783-1014)
«(…) Segundo narra uma crónica, por questões de protocolo Elvira devia chamar ao marido Serenissimus Imperator na presença da corte, título que aparecia nos documentos régios para esclarecer os outros potentados cristãos da Península que o de Leão estava acima de todos eles. De acordo com essa mesma fonte, a presença da rainha nos actos da cúria cortesã era algo habitual, o que demonstraria uma especial consideração por parte do marido. Lamentavelmente para este, a vida de Elvira seria relativamente breve, como a da maioria das mulheres casadas naqueles tempos. Num dia que se desconhece de 921, adoeceu gravemente. O rei encontrava-se fora da corte em campanha e, quando regressou vitorioso, ela tinha morrido. Relata outra crónica, bem conhecida de Teresa, que o seu real antepassado sentiu então tanta dor pelo seu falecimento quanto tinha sido o gozo do triunfo logrado naquelas jornadas. O óbito teve lugar em Zamora. Apesar disso, a educação e a criação que Elvira Mendes tinha dado ao seu filho Ramiro em Viseu estabeleceria uma relação especial com aquelas terras, que seria decisiva para alguns dos seus descendentes ... e levá-los-ia a procurar esposa entre as grandes famílias que conheceram na sua meninice.
A morte da rainha Elvira Mendes significou o início dos problemas para Aragonta Gonçalves, rainha de Leão de estirpe portucalense, antepassada pelo lado paterno de Teresa, que viveu seis gerações antes dela. Os inconvenientes não seriam de menor importância para o pai, Gonçalo Betote, conde de Deza e um dos mais importantes repovoadores de Guimarães, morreu por volta do ano 929, quando soube que a sua filha mais nova tinha sido escolhida para ocupar o trono de Leão de imediato, pois para isso tinha de casar com Ordoño II, que nos seus cinquenta anos seria considerado, naqueles tempos, um homem bastante velho.
A necessidade de contar com a protecção de parentes na corte leonesa não era algo que pudessem desdenhar nem sequer as famílias ricas e poderosas como a dela, pelo que se resignaria logo, embora o reinado de Aragonta, e portanto a sua influência, estivesse destinado a ser breve. Menos satisfeita estaria a jovem prometida, sabendo que por morte do marido teria de se retirar para um convento. É possível que a concertação deste casamento, nada vantajoso dada a idade e doença do marido, tivesse alguma coisa a ver com a cunhada de Aragonta, Mumadona Dias, condessa de Guimarães (900-968), fundadora do célebre mosteiro dessa cidade. Talvez esperasse que a sua única filha, Onega, casasse com Ramiro, herdeiro potencial da coro a de Leão. Mumadona propiciaria o casamento da mais jovem das suas cunhadas com o achaquento Ordoño para manter livre o melhor lugar para a filha. Não lhe faltava capacidade para levar a cabo essa pequena intriga cortesã, uma vez que, pela sua inteligência e carácter empreendedor, até, fora do âmbito religioso, esta antepassada directa de Teresa (seis gerações antes) seria uma das personagens da família mais influentes na corte leonesa.

NOTA: Para além do seu estreito parentesco com a casa real, Mumadona beneficiava de um recurso que faltava à sua cunhada Aragonta. A sua mãe, a condessa Onega, neta de Vímara Peres, conquistador da cidade do Porto e fundador da cidade de Guimarães, tinha sido a ama de Ramiro, uma espécie de segunda mãe para o infante. Segundo os costumes da época, Mumadona tinha dado o nome da sua progenitora à filha mais nova, talvez outro modo subtil de atrair a atenção de Ramiro. Em qualquer dos casos, as relações deste com a família da sua ama eram de grande familiaridade, a tal ponto que, nos documentos, Ramiro chamava a Mumadona conlaza, ou irmã de leite. Sempre que ele regressava a Viseu de alguma das suas campanhas em territórios muçulmanos, costumava ir visitar a sua mãe de empréstimo, D. Onega e oferecia-lhe algum presente, fruto dos seus saques. Do seu afecto por ela e pela sua filha dariam prova, para além do mais, várias doações registadas nos cartulários dos conventos. Por exemplo a da vila de Creixomil a Mumadona Dias.
Uma das primas de Aragonta pelo lado materno (Eriz) tinha-se casado com um nobre que não era bem visto pelos seus pais. Sánchez Albornoz. Estudios sobre las instituciones medievales españolas, México, 1965.

Regressando à infeliz Aragonta, o maior problema que se lhe apresentava ao casar com Ordoño era o de se tornar rainha consorte de um soberano com os pés para cova. Há muitos séculos que a Igreja Católica tinha estabelecido que para que um matrimónio fosse válido devia contar também com o consentimento da esposa, mas uma coisa era dizer que não a um pai e outra, dizer que não a um rei. Se tivesse podido argumentar que ele se dedicava a práticas sodomitas, a lei visigoda teria estado do seu lado, e a Igreia, sem dúvida, também teria saído em sua defesa, mas esse não era o caso de Ordoño. A única tábua de salvação que lhe restava era tornar-se freira e enclausurar-se num convento».

In Marsilio Cassotti, D. Teresa, A Primeira Rainha de Portugal, Prefácio de G. Oliveira Martins, Attilio Locatelli, A Esfera dos Livros, 2008, ISBN 978-989-626-119-1.

Cortesia da Esfera dos Livros/JDACT