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quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

O Santuário de NSA de Aires. 1743 1792. Raquel Alexandra AR Seixas. «A ancestralidade do sítio não foi decerto alheia ao processo de cristianização e motivou, sobremaneira, a reinterpretação sacro-cristã do espaço, implantado num local de fácil acesso…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A sacralização do espaço e do templo

«(…) Muitos são os espaços de culto que registam sinais de ocupação antiquíssima, continuamente reocupados e reinterpretados. A arqueologia tem demonstrado como inúmeros povoados pré-históricos foram romanizados e inúmeros povoados romanos foram cristianizados, procedendo-se, nestes casos, à contínua sacralização de espaços através da promoção de uma continuidade que concede a estes lugares um estatuto único e um sentido de permanência, e aos povos um sinal de pertença e de unicidade. Fenómeno verificado no sítio onde se ergue o Santuário de Nossa Senhora de Aires, desde há muito identificado como um antigo povoado romano. Os trabalhos de construção do novo templo trouxeram à luz do dia alguns artefactos arqueológicos da época romana, descritos nas fontes coevas. Com as obras para a nova capela-mor, começada a 6 de Julho de 1743, foram mesmo descobertos vestígios de uma necrópole romana: três lápides sepulcrais, publicadas em 1744 por fr. Francisco Oliveira na Gazeta de Lisboa. O frade dominicano, cuja ordem possuía uma casa em Alcáçovas, em visita ao local no ano de 1745 encontrou outra ara funerária publicada, por iniciativa própria, no I tomo do Diccionario Geografico:

D.M.S. / Maria Euprepia- / a qua ifate / Concesseru- / nt vivere a-/ nis XXXV ben-/ e merenti mo-/ destus conjuci / sua posuit.

Esta e mais uma inscrição fúnebre foram incorporadas na arquitectura da cerca, precisamente nas extremidades da frente poente, aplicadas em plintos coroados por pináculos em pinha. Túlio Espanca indica que estas lápides terão sido aí colocadas pouco tempo antes de 1758, em desacordo com a cronologia dos apontamentos do presbítero Francisco Oliveira, que diz taxativamente:

para nam perder-se persoadi o capitam João de Melo a xpore-se (sic) em parte pública nas suas casas da galaria que reformou em 1759 as quais ficam perto da mesma igreja.

Deste modo, pensamos ser plausível a hipótese de estas aras terem integrado a cerca entre 1759 e 1792, ano de término da construção do novo Santuário. A inclusão dos dois vestígios romanos numa construção cristã certifica o respeito pelos antepassados, que anteriormente haveriam ocupado o local. Realidade que traduz a passagem e a permanência dos homens (que) elevou determinados lugares a uma condição numinosa (e luminosa).

No ano de 1901, José Leite Vasconcelos foi convidado a visitar a herdade das Paredes, junto à Senhora de Aires, no qual appareciam a cada passo restos romanos. Ali deparou-se com a presença de ânforas, dolia, tégulas, imbrices, argamassa signina, moedas romanas, escórias de fornos de olaria e canos. Tendo ainda encontrado, como noticia, uma moeda romana do século VI, além de muitas outras que viu na mão de particulares, um capitel e uma coluna de mármore provindos das Paredes. As descobertas promoveram o reconhecimento arqueológico, sob a alçada do então Museu Etnológico, desenvolvido por Félix Pereira em 8 de Junho de 1902. Os trabalhos concluíram que no sítio das Paredes, e por conseguinte na Senhora de Aires, existia uma povoação romana, confirmada pela necrópole (documentada desde o século XVIII), pelos artefactos do quotidiano e pelas inúmeras moedas cunhadas entre os séculos II e VI d.C. Mais recentemente, Jorge Alarcão identificou no sítio da Senhora de Aires e na herdade das Paredes um vicus, isto é, um povoado civil do Império Romano controlado pelo exército.

A ancestralidade do sítio não foi decerto alheia ao processo de cristianização e motivou, sobremaneira, a reinterpretação sacro-cristã do espaço, implantado num local de fácil acesso, contrariamente ao habitual. Decididamente, o registo de ocupação anterior, não-cristã, substituiu a premissa da inacessibilidade e promoveu as leis da aculturação. A contínua deslocação dos populares ao local, comprovada pelas numerosas moedas portuguesas de varias épocas, desde a 1ª dynastia, documenta a importância do espaço e fundamenta o desejo de cristianização. A simbólica da sacralização é extensível à casa terrena da Virgem, o Santuário, local privilegiado do culto. Recorde-se, a este propósito, o milagre da reposição dos bois narrado por Agostinho Santa Maria, pois: sendoh (a Martim Vaqueiro) necessario dinheyro para começar a obra, vendeo para isso alguns bois, que levando os o comprador se não acharão menos na manada. Este prodígio celeste é fortalecido pelo simbolismo atribuído à capela-mor, construída no mesmo lugar, aonde estava a porta do curral». In Raquel Alexandra AR Seixas, O Santuário de NSA de Aires, Arquitectura e Devoção, 1743 1792, Dissertação de Mestrado em História da Arte Moderna, FCSH, Universidade Nova de Lisboa, 2013.

Cortesia de FCSH/UNLisboa/JDACT

JDACT, Raquel Alexandra AR Seixas, Monumentos, Religião, Caso de Estudo, História, Alentejo, Cultura e Conhecimento,

sábado, 12 de dezembro de 2020

O Santuário de NSA de Aires. 1743 1792. Raquel Alexandra AR Seixas. «Deo principio o Lavrador à obra em hum sitio, que ficava distante do curral, julgando-o por mais oportuno: porém a Senhora que havia elegido o do seu apparecimento, dispoz, que tudo o que se havia obrado no primeyro dia»

Cortesia de wikipedia e jdact

Arquitectura e Devoção

«(…) Por que motivo a lenda da Senhora de Aires reproduz tanto a versão do achamento, como da aparição? Com efeito, ambas têm propósitos distintos, se a primeira apela para a antiguidade do culto, a segunda confere à imagem pétrea um valor sobrenatural. O trinómio, Senhora de Aires / Eremita de Arem / Almançor, tem a peculiaridade de sacralizar historicamente o lugar e a imagem, ao situar a veneração nos tempos antecedentes à ocupação árabe. Por sua vez, o milagre da aparição torna palpável a presença da Virgem e a Revelação Divina, pois las apaiciones se presentan como una manifestación sensible de lo sobrenatural. A aparição outorga à imagem esculpida um significado transcendente, equiparando-a às relíquias dos santos; mediante uma aparição a imagem passa a representar e a suportar uma presença real, uma epifania.

A intensificação do discurso aparicionista e dos achamentos, na Europa Católica, conduziu à intervenção dos altos dignitários da Igreja. No Concílio Lateranense (1516) e no Concílio de Trento (1545-1563) tomou-se medidas restritivas quanto às aparições e revelações, determinando-se que não se devia admitir nenhum milagre sem o reconhecimento e autorização dos bispos. Todavia, a predisposição humana para a criação e aceitação de novos milagres levou Bento XIV, ainda no século XVIII, a reiterar que a Igreja só mediante um atento exame é que consentiria a legitimação de um novo milagre. Pese embora a limitação efectuada nas reuniões conciliares, a proliferação dos milagres marianos não refreou, pelo contrário, fortaleceu-se. Na verdade, o movimento reformista católico deu um enorme contributo ao florescimento do culto mariano e à proliferação de santuários erigidos sob a sua evocação, durante os séculos XVI e XVII, em resposta às críticas protestantes e à relativização do papel de Maria no Milagre da Salvação.

A inscrição do jesuíta António Franco, de 1690, é omissa quanto à identificação do lavrador que encontrou a imagem de Nossa Senhora de Aires no acto da lavoura. Foi, precisamente, fr. Agostinho o primeiro a identificar o intermediário humano, entre a população e o sagrado, com o rico lavrador Martim Vaqueiro. E, na senda de outros lendários, a difundir a ideia de que o fundador do templo estava enterrado no local transcrevendo, para o efeito, a inscrição sepulcral que pavimentava o presbitério: esta capella, & sepultura he de Martim Vaqueyro, Fundador desta casa, da nobre, & antiga geração dos Vaqueyros.

Atendendo à inexistência no local desta lápide, o mais provável é que a sua referência tenha resultado da imaginação do compositor do Santuario Mariano; caso contrário, teria sido integrada na nova construção de 1743 e referida por fr. Francisco Oliveira nas Memorias da Villa de Vianna. Como observa William Christian, estes mediadores são os sucessores dos santos mártires e em certa medida suprem a falta de relíquias corporais dos santuários marianos. Eles contribuem para a consolidação e autenticidade da lenda, ao corporizarem o principal interveniente e beneficiário do milagre da manifestação sagrada. Se o relato da aparição, ideado por fr. Agostinho de Santa Maria, não reuniu muitos apoiantes, o mesmo não se pode dizer da identificação do beneficiário da manifestação divina, daí em diante associado ao rico e nobre lavrador Martim Vaqueiro, o fundador do templo.

A sacralização do espaço e do templo

A escolha do local é um dos pontos determinantes das lendas, é a Virgem que elege o sítio para a sua devoção. Os santuários são edificados em lugares precisos, lugares onde a figura tutelar manifestou o desejo de ser cultuada, quer através da aparição, quer do achamento da imagem sagrada. Para reforçar a ideia do local consagrado multiplicam-se os relatos da persistência da Virgem pelo lugar aclamado, que, no caso de Nossa Senhora de Aires, nos é relatado, uma vez mais, por fr. Agostinho de Santa Maria:

Deo principio o Lavrador à obra em hum sitio, que ficava distante do curral, julgando-o por mais oportuno: porém a Senhora que havia elegido o do seu apparecimento, dispoz, que tudo o que se havia obrado no primeyro dia, se achasse desfeyto no segundo, & continuando a edificação em o segundo, & terceyro em a mesma paragem, lhe succedeo o mesmo, que na primeyra vez. Com que desistindo do seu parecer, se resolveo em edificar a Igreja no mesmo lugar, em que a Senhora lhe havia apparecido. E fez-se em tal fórma, que a cappela mòr se abricou no mesmo Lugar, aonde estava a porta do curral.

A perseverança das Senhoras pelo territorio da gracia, seja por via da destruição dos trabalhos feitos, seja por via das fugas da imagem escultórica, enfatizam o vínculo entre a Virgem e o local e entre o sagrado e a comunidade. Transformam o sítio num espaço de culto permanente, num ponto concreto para a devoção pessoal e colectiva. Lugares distantes da população, geralmente em meios rurais, em áreas propícias ao afastamento do mundo terreno e das tarefas quotidianas; lugares que remetem para a ideia do separado, imanente ao próprio conceito de sagrado, ao procurarem o afastamento do espaço habitado e da convivência humana diária». In Raquel Alexandra AR Seixas, O Santuário de NSA de Aires, Arquitectura e Devoção, 1743 1792, Dissertação de Mestrado em História da Arte Moderna, FCSH, Universidade Nova de Lisboa, 2013.

Cortesia de FCSH/UNLisboa/JDACT

JDACT, Raquel Alexandra AR Seixas, Monumentos, Religião, Caso de Estudo, História, Alentejo, Cultura e Conhecimento,

O Santuário de NSA de Aires. 1743 1792. Raquel Alexandra AR Seixas. «Havia naquelle destrito huma herdade de hum Lavrador rico, o qual tinha hum curral, aonde recolhia os seus boys, no mesmo sitio, em que hoje se vê a Igreja»

Cortesia de wikipedia e jdact

Arquitectura e Devoção

«A verdade de um curso não está no que aí se aprende mas no que disso sobeja: o halo que isso transcende e onde podemos achar-nos homens». In Vergílio Ferreira, Aparição

«A presente dissertação é dedicada ao estudo do Santuário de Nossa Senhora de Aires, em Viana do Alentejo, no distrito de Évora. As motivações religiosas, intrínsecas à piedade popular, estimularam a instituição do culto dedicado a Maria na segunda metade do século XVI. A crescente afluência de peregrinos justificou a substituição da primitiva ermida e a construção do novo Santuário, 1743-1792, cujo traçado foi realizado pelo irmão João Baptista, da Congregação do Oratório de São Filipe de Néri de Estremoz. Procura-se compreender as intenções subjacentes à obra, enquadrando-a no contexto histórico e artístico do seu tempo. A formação mística e filosófica do projectista será também tida em consideração na análise arquitectónica, mormente o templo centralizado da capela-mor e o baldaquino de talha dourada». In Resumo

A construção da lenda de Nossa Senhora de Aires

«A fundação de um templo dedicado à Virgem é quase sempre, senão sempre, precedida pela narrativa de um acontecimento mítico-imaginário, concebida a partir de um de dois modelos: a aparição ou o achamento fortuito de uma imagem escultórica. É esta ocorrência que dita o princípio da lenda, conferindo à imagem e ao lugar o estatuto sacro. E promove a criação de um conjunto de histórias tendentes à legitimação do poder milagreiro da Virgem e à divulgação eficaz do seu culto. No caso específico de Nossa Senhora de Aires, a avaliar pelos dados recolhidos, cremos que o culto antecedeu o registo e estruturação da lenda, obrada somente na primeira metade do século XVIII. Os principais construtores da memória histórico-descritiva do início deste culto transtagano foram fr. Agostinho de Santa Maria (1718) e as religiosas do Convento do Bom Jesus de Viana do Alentejo (1744).

Não obstante a composição da lenda datar do século XVIII, a primeira alusão à manifestação sagrada da Virgem de Aires remonta a 1690 e foi perpetuada na inscrição da lápide, colocada no frontispício da porta principal da actual igreja, composta, segundo fr. Francisco Oliveira, pelo jesuíta António Franco: expulsos os mouros destas terras, quando um lavrador arava o seu campo encontrou a imagem que se vê no antigo altar. Oh feliz terra, mais fecunda do que nenhuma outra! Um só rego, te deu mais do que ceara ou colheita alguma dará.

A tradição do achamento tem a particularidade, no discurso peninsular, de se associar frequentemente a um eremita, que, fugindo dos mouros, se viu obrigado a esconder a imagem sagrada num determinado local, para vir a ser descoberta após a Reconquista. Versão sistematicamente relacionada com o temível Almançor e a incursão de 982, que obrigou à retirada cristã: talvez esconderão estes Mongez a peregrina Imagem, no anno de novecentos, e outenta e douz, em que El Rey de Cordova Almansor destruhio o dito convento de Monje de Arem.

Apesar de este episódio estar firmado na tradição oral, como comprova a inscrição de 1690, fr. Agostinho de Santa Maria, na obra incontornável que é o Santuario Mariano, introduz um conjunto de novos elementos sobre o culto da Senhora de Aires, doravante integrados no imaginário devoto dos crentes. O autor foi, para além do principal lendário de Nossa Senhora de Aires, o introdutor do relato do milagre da aparição ao lavrador Martim Vaqueiro:

Havia naquelle destrito huma herdade de hum Lavrador rico, o qual tinha hum curral, aonde recolhia os seus boys, no mesmo sitio, em que hoje se vê a Igreja. Ficava a casa do Lavrador distante como cousa de cem passos, & tinha esta herdade o nome de Vaqueyros. Reparàrão em algumas noytes os criados do Lavrador, em que deyxando fechada a porta do curral, vião os boys de noyte pastando na herdade, & pela manhã os achavão recolhidos, & a porta do curral fechada, sem poderem saber quem fosse, o que lhes fazia esta que tinhão por travessura. Fizerão queyxa ao seu amo, que se resolveo a ir dormir huma noyte junto à porta do curral, para saber quem obrava estas cousas. Nesta noyte lhe appareceo Nossa Senhora em sonhos, & lhe disse, que ella era a que abria a porta, & soltava os boys, para irem a pastar sem fazerem damno às searas: que lhe fizesse naquele sitio huma Casa, porque era vontade de Deos, que nella fosse louvada, & seu Santissimo Filho, & que ela o ajudaria.

À compilação de Agostinho de Santa Maria seguiu-se uma memória descritiva da Historia da Vila de Viana do Alentejo, produzida pelas religiosas do Mosteiro do Bom Jesus da mesma vila, em 1744. Neste manuscrito prevalece a versão do achamento em detrimento da aparição:

Aludindo á ditoza invenção da soberana imagem da Senhora, que o ceo es a Martim Vaqueyro, de antiga, e nobre família desta villa, e que foi o fundador desta caza, e primeyra igreja; como consta da inscripsão que esta na sua sepultura, na capella mayor da mesma; o qual andando lavrando exerçiçio sempre util e antão honrrozo, e que facilitava a singeleza daquelles tempoz […] abrindo o arado aquelle ditozo campo, descobrio o requissimo thezouro, que ali tinha escondido a piedade, e devoção dos monjez de Arem.

Esta nota espelha a força que a tradição oral exercia junto das populações rurais, responsáveis pela conservação da primeira tradição sobre a origem do culto da Senhora de Aires, divulgada e difundida de geração em geração e imortalizada desde 1690 na inscrição da autoria de António Franco. Neste campo são elucidativas as reflexões de Peter Burke, quando de ende que en las comunidades donde una mayoría de las famílias permaneciam de generacion en generacion, vivendo en las mismas casas com sus padres y abuelos, y cultivando los mismos terrenos, es razonable que admitamos um elevado grado de continuidad cultural. Entre estos grupos las tradiciones orales eran muy estables». In Raquel Alexandra AR Seixas, O Santuário de NSA de Aires, Arquitectura e Devoção, 1743 1792, Dissertação de Mestrado em História da Arte Moderna, FCSH, Universidade Nova de Lisboa, 2013.

Cortesia de FCSH/UNLisboa/JDACT

JDACT, Raquel Alexandra AR Seixas, Monumentos, Religião, Caso de Estudo, História, Alentejo, Cultura e Conhecimento,

terça-feira, 1 de julho de 2014

Castelo de Vide. Convento de Nª. Sª. Da Conceição. Monumento de Interesse Público. «… são classificados como monumento de interesse público a Igreja e o antigo Convento de São Francisco, na Rua Sequeira Sameiro, Castelo de Vide, freguesia de São João Baptista, concelho de Castelo de Vide, distrito de Portalegre, …»


Cortesia de wikipedia

«O Convento de Nossa Senhora da Conceição de Frades Recoletos da Ordem de São Francisco foi fundado em 1585, ficando a igreja e as dependências conventuais, das quais se destaca o pequeno e harmonioso claustro, concluídas em 1589. O conjunto sofreu nova campanha de obras em meados do século XVIII, da qual resultaram a remodelação da fachada do templo, hoje de características barrocas, bem como os retábulos de talha dourada e policromada do interior, e os revestimentos azulejares setecentistas, de oficina lisboeta, do átrio do convento, figurando cenas da vida de Santo António. A partir de 1863 esteve instalado no convento o primeiro Asilo de Cegos do país, instituído em 1856 por João Diogo Juzarte Sequeira Sameiro, tendo -se então adaptando a planimetria do edifício às necessidades dos invisuais, sem adulteração significativa da estrutura original.
A classificação da Igreja e do antigo Convento de São Francisco reflecte os critérios constantes do artigo … 2001, de 8 de Setembro, relativos ao carácter matricial do bem, ao seu interesse como testemunho simbólico ou religioso, ao seu valor estético, técnico e material intrínseco, à sua concepção arquitectónica e urbanística, e à sua extensão e ao que nela se reflecte do ponto de vista da memória colectiva. A zona especial de protecção (ZEP) tem em consideração a implantação do conjunto arquitectónico no contexto urbano de Castelo de Vide, onde existem outros edifícios com interesse patrimonial, incluindo imóveis classificados. A sua fixação visa preservar toda a área envolvente, garantindo o enquadramento dos imóveis e as perspectivas da sua contemplação. Procedeu -se à audiência escrita dos interessados, nos termos gerais do artigo … Foi promovida a audiência prévia da Câmara Municipal de Castelo de Vide. Assim:

Sob proposta dos serviços competentes, nos termos do disposto no artigo … 2011, de 12 de Julho, manda o Governo, pelo Secretário de Estado da Cultura, o seguinte: Artigo 1.º Classificação, são classificados como monumento de interesse público a Igreja e o antigo Convento de São Francisco, na Rua Sequeira Sameiro, Castelo de Vide, freguesia de São João Baptista, concelho de Castelo de Vide, distrito de Portalegre, conforme planta constante do anexo à presente portaria, da qual faz parte integrante. Artigo 2.º Zona especial de proteção, é fixada a zona especial de protecção do monumento referido no artigo …, conforme planta constante do anexo à presente portaria, da qual faz parte integrante». In Portaria n.º 513/2014, 18 de Junho de 2014, Diário da República, 2.ª série - N.º 123 - 30 de Junho de 2014.

Cortesia de JRRabaça/JDACT

domingo, 20 de janeiro de 2013

Mosteiro dos Lóios. Igreja de São Salvador de Vilar de Frades. Barcelos. Areias de Vilar. «Arquitectura religiosa românica, de que conserva o primitivo portal. Pelo exterior subsistem outras reminiscências do templo medievo, nomeadamente uma torre rectangular de sabor defensivo e um pano de muro do antigo alçado frontal da igreja românica»


cortesia de wikipedia

«A Igreja de São Salvador de Vilar de Frades, também referida como Igreja de Vilar de Frades e Igreja do Mosteiro dos Lóios, localiza-se no sopé do monte Airó, junto à margem esquerda do rio Cávado, na freguesia de Areias de Vilar, concelho de Barcelos. 
Faz parte do complexo do convento da Congregação dos Cónegos Seculares de S. João Evangelista que aí estabeleceu a sua primeira casa-mãe, tendo sido, antes, um mosteiro beneditino. A sua arquitectura é notável, especialmente pelo abobadamento da igreja, principalmente na capela-mor e transepto, bem como pelo portal manuelino da fachada principal, ao lado do qual se encontra, na torre sul, um portal e uma janela de características românicas, construídos, contudo, já no século XIX com vestígios do mosteiro original. Encontra-se classificada como Monumento Nacional desde 1910.
A mais antiga referência ao mosteiro beneditino de Vilar de Frades data de 1509. Contudo, segundo frei Leão de São Tomás, teria existido uma carta do monge beneditino frei Drumário, escrita em 7 de Outubro de 571 que datava a fundação do mosteiro em 566, pela mão de São Martinho de Dume. Segundo Jorge de São Paulo, acreditando na existência dessa carta, o mosteiro seguiu a regra de São Bento desde essa data até 714, ano em que foi destruído devido às invasões muçulmanas, nada restando dessa fase da vida do convento. Teria sido reconstruído, segundo o mesmo autor, em 1070, mantendo-se sob a alçada da Ordem Beneditina até 1425. A reconstrução foi obra, sobretudo, de nobres locais, como Godinho Viegas, que pelo seu empenho na Reconquista Cristã, receberam os favores dos primeiros monarcas portugueses, como Sancho I, que deu a carta de couto ao mosteiro em 1172. Em 1104, Dona Gotinha, parente de Godinho Viegas, terá dado um novo estímulo ao convento, doando uma propriedade rústica da freguesia de Santiago de Encourados.
Em 1302, D. Beringeira Aires, herdeira e padroeira de outros conventos além deste, doou, a 12 de Agosto, o padroado e jurisdição que tinha sobre o mosteiro a Geraldo, bispo do Porto. Em 1400, passou a ser uma abadia secular, sob o padroado do arcebispo de Braga, Martinho Afonso Pires. Em 1425, finalmente, Fernando Guerra, arcebispo de Braga, passa o mosteiro para as mãos de Mestre João Vicente, futuro bispo de Lamego e Viseu. Este encontrou-o em bastante mau estado, mas reformou-o de forma exemplar, com o apoio que recebeu da Santa Sé e da diocese de Braga que anexaram 13 igrejas ao convento até 1510, depois de ter faltado apoio semelhante à nova congregação religiosa em outros locais. A congregação ainda teve o apoio de Vasco, em Évora, mas a oferta do mosteiro veio a mostrar-se decisiva. O Mestre terá encontrado o antigo mosteiro reduzido a umas pobres casas ou chóças, & huma pequena Igreja, tudo em tal estado que mais tinha de ruina, que de edifício. O Claustro servia, nessa altura, de corte de gado, as oficinas estavam arrasadas, a igreja servia de celeiro e adega. Os frades passaram a viver nas celas térreas e na igreja velha.


O apoio da Sé de Braga não foi constante. Ainda que a congregação se tenha instalado em Vilar com a concordância do cabido da Sé de Braga, que permitiu a anexação da Igreja do Mosteiro de São Bento da Várzea desde que os futuros reitores se submetessem à autoridade do arcebispo de Braga, ficando a confirmação da eleição dos mesmos, em Capítulo Geral, dependente da confirmação da Sé.
Os cónegos, contudo, desde cedo que manifestaram desejos de autonomia em relação a Braga, procurando apoio junto da corte régia, Afonso V de Portugal, junto do conde de Barcelos, do duque de Bragança e mesmo da Santa Sé. Esta última confirmaria o seu apoio à nova Ordem, durante o pontificado dos papas Martinho V e Eugénio IV, este último promoveu o mestre João Vicente a bispo de Lamego, além de ordenar que o convento ficasse sem dependência do arcebispo. Monsenhor José Augusto Ferreira chega mesmo a dizer que os Cónegos Azuis de Vilar fizeram-se vermelhos e enveredaram pelo caminho da ingratidão. A acção de Fernando da Guerra é, aliás, paradoxal neste conflito de interesses, já que continuou a anexar igrejas ao convento, ao mesmo tempo que tentava forçar os frades a reconhecerem a sua autoridade, o que conseguiu a 29 de Abril de 1461, ao confirmar o reitor João de Nazareth. Nos séculos seguintes, os reitores tentarão, de novo, o máximo de autonomia em relação ao arcebispado. Há que ter em conta que, tal como defende José Marques, a Ordem dos Lóios, ou cónegos seculares evangelistas, que se apresentava como uma comunidade de tipo novo, deve, sem dúvida, a sua existência e fundação ao apoio de Fernando Guerra, ao ceder as instalações do convento de S. Salvador de Vilar de Frades, até porque a congregação tinha tido problemas em instalar-se tanto em Lisboa como no Porto, recebendo apenas apoio em Braga.
Ao convento foram anexadas, ao longo da sua ocupação pelos Lóios, várias igrejas, a maioria das quais pela mão de Fernando Guerra, dando um poderio crescente à Ordem nesta região. Além da já citada igreja do Mosteiro de São Bento da Várzea, anexou ainda a Igreja de Santa Maria Madalena, de São João de Areias de Vilar, Santa Leocádia de Pedra Furada, Santa Maria de Moure, S. Jorge de Airó, São Martinho de Airó, São Vicente de Areias, São Pedro de Adães e Santiago de Encourados. O arcebispo Luís Pires fará ainda a anexação de Santa Maria de Góis, depois da renúncia do abade desta Igreja ao ingressar na Ordem dos Lóios.


A Igreja de São Martinho de Manhente, e convento, terá sido confiada pelo papa Nicolau V, através de uma bula de 1448, confirmada por uma bula posterior de 1450, tendo sido feita a tomada de posse em 1480, após confirmação também de Luís Pires. Com esta anexação, o reitor de Vilar de Frades passou a deter as prerrogativas do couto de Manhente, ou seja, capitão-mor, coudel-mor, repartidor das armas, alcaide-mor e ouvidor do cível, tendo a competência de nomear o juiz do couto. A Igreja de São Melião de Mariz foi anexada após um conjunto de peripécias: após a morte do abade desta igreja, os cónegos pediram a Jorge da Costa, que estava em Roma, para que anexasse também esta igreja ao seu convento. O cardeal, contudo, designou João dos Santos como abade desta igreja. Os cónegos, contudo, convenceram o novo abade a ingressar na congregação e a pedir a anexação da igreja ao seu convento. O papa Júlio II confirmará a anexação». In Wikipédia.

continua
Cortesia de Wikipédia/JDACT

sábado, 19 de janeiro de 2013

Monumentos e Lendas de Santarém. Zeferino Brandão. «Se um estranho à terra vem, dizeis todos em geral: nunca aqui chegou ninguém; e do vosso natural nada vos parece bem. Enfim que por natureza, e constelação do clima, esta nação portuguesa o nada estrangeiro estima, o muito dos seus despreza»


jdact

«E já os mouros a haviam intitulado Calabicastro, por síncope de Escalabis Castrum, sendo ao mesmo tempo conhecida e venerada dos católicos com o nome de Santarém, o qual como epitáfio lhe puseram, para conservar a memória do sepulcro de Santa Iria.
«A ambição romana, que, em nome, como em posse, queria fazer tudo seu - diz fr. Luiz de Sousa - lhe pôs o de Proesidium Julium, e metendo dentro moradores romanos, como quem conhecia a força do sítio, honrou-a com título e privilégios de Colónia Romana. E porque o lugar era capaz de tudo, assentou nele uma das tres Relações ou casas de justiça com que se governava a Lusitânia, a que chamavam Conventos jurídicos. Eis a derivação dos três nomes, por que foi conhecida Santarém.
Mas na mudança de nome, se bem se considera, diz a crónica dos carmelistas descalços, não perdeu o primeiro de Scalabis, ou (Bis-Scala), por ser agora a Escala, ou Escada dúplice, em que a Terra subiu de ponto, dando túmulo à Santa Iria, e a Santa dando o seu nome à Terra, em que se fez um Empório de singulares prodígios. Em eminente sítio, entre dilatadas campinas, que fertiliza o Tejo, e à direita dele, está situada Santarém, 75 km ao NE de Lisboa, na latitude de 39° 19’ e longitude 9° 50’'. Por causa de dois profundos vales, que se abatem no andar daquele formoso rio, e ainda por amor de outras quebradas, parece o monte uma curta cordilheira, a qual sobre a coroa de seus montes, em plano igual ao daquele que pelo lado do norte os reúne, distinguindo-se pelo do sul a pouca distância que lhes serve de continuação, é assento da grande povoação de Santarém, saudável por seus ares puríssimos, e aprazível por suas vistas esplêndidas.
No primeiro dos seus vales, que é o mais largo, e, junto à margem do rio, está situada a graciosa aldeia da Ribeira, a qual pela sua grandeza bem merecia o privilégio de vila; e no segundo, o cada vez mais triste e decaído lugar do Alfange. Além do Tejo, para o nascente, estendem-se os feracíssimos campos de Almeirim, tão celebrados da antiguidade, pela abundância dos frutos, criação de gados e ligeireza dos cavalos: e da parte do nordeste também bordam a margem direita do rio campos menos extensos, mas igualmente férteis.
Alguns anos faz o Tejo, em uns e outros, o ofício de Nilo no Egipto, e às vezes é tamanha a enchente, que leva grande destruição às terras marginais, como também o notável rio dos Montes de Al-Kamar costuma fazer. Caminhando do norte para sudoeste, vêem-se outeiros e vales cobertos de olivedos e árvores frutíferas, e semeados de habitações pitorescas, com que a terra igualmente se torna atractiva e farta. No Livro das Grandezas de Lisboa dá fr. Nicolau de Oliveira a seguinte curiosa noticia:
  • Em Santarém há tanta cópia de azeite, que ouvi dizer algumas vezes a moradores daquela vila, que se largassem o azeite, que tem, faziam um rio tão grande como o Tejo; e assim se diz por exageração Olivaes de Santarém ; e deste azeite se leva só para Flandes em cada um ano mais do três mil pipas, afora o que vai para as conquistas; e tanto trigo, que a não haver tanto concurso de gente estrangeira neste Reino, e a faltarem-lhe as navegações de suas conquistas, bastava para sua sustentação; e se cultivarão bem os campos e pauis que se tem (o que se poderá fazer com pouco custo) se poderão mandar daqui para fora embarcações carregadas de trigo, assim como agora vem de outras partes.
Em todos os tempos se têm dito e escrito coisas exageradas a respeito de Santarém: é todavia fora de dúvida que as grandes várzeas e colinas, que a circundam, formam um quadro imenso e formosíssimo. A nossa alma sente-se arrebatada perante ele, e quer exclamar com o cantor das Georgicas: O ubi campi!
No remate do primeiro dos montes, para o ladu do sul, e quase a prumo sobre o rio, fica o bairro da Alcáçova, antiga fortaleza, para a qual se entrava por ponte levadiça; o do monte próximo, seguindo para oeste, é coroado pelo cemitério dos Capuchos. Tal é o sitio, onde foi edificada uma das mais insignes povoações deste reino. Depois da descrição primorosa, que tez do mesmo lugar o nosso clássico fr. Luiz de Sousa, foi temeridade esboçá-lo. Mas por não ser um esboço desenho bem acabado, pode aquele tolerar-se, visto ser-nos preciso, antes de entrarmos no assunto principal do livro, indicado pelo titulo deste, dizer onde fica Santarém. Ocultar essa circunstância era faltar ao rigoroso dever de historiador.
Prometemos dizer a verdade, a qual bastante nos custou a apurar do muito que lemos e ouvimos acerca desta terra monumental. Também referiremos o que ouvimos, repare-se bem, porque em matérias onde faltam autores, vale de muito a tradição vulgar, e as coisas que os antigos traziam entre si, como autênticas e verdadeiras, e as ensinavam a seus descendentes. Seremos talvez prolixo, transcrevendo ou citando passagens e documentos curiosos. Assim o entendemos.
Santarém é uma terra, que a maior parte dos portugueses não conhece, e que Portugal deveria ufanar-se de possuir. Todavia, quantos dos nossos compatriotas terão viajado pelo estrangeiro, sem se lembrarem talvez de que existe Santarém! Proh pudor!
É o caso de se dizer com um antigo poeta nosso:

Se um estranho à terra vem,
dizeis todos em geral:
nunca aqui chegou ninguém;
e do vosso natural
nada vos parece bem.
Enfim que por natureza,
e constelação do clima,
esta nação portuguesa
o nada estrangeiro estima,
o muito dos seus despreza.

In Zeferino Brandão, Monumentos e Lendas de Santarém, Lisboa, David Corazzi Editor, 1883, Makew Parr Collection, Magellan and the Age of Disvovery, presented to Brandeis University, 1961, Tipografia Horas Românticas, Rio de Janeiro.

Cortesia de TH Românticas/JDACT

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Edifício do Asilo de Inválidos Militares. Runa (Torres Vedras). «Interior revestido de mármores, com topos da cruz em abóbada de quarto de esfera, sendo a fronteira sobrepojada por relevo em mármores; altar em pirâmide de caixas e terminando num "tempietto" no cruzeiro, que é encimado por cúpula com tambor»


Cortesia de wikipedia

“Arquitectura residencial, neoclássica. Conjugando na sua estrutura espaçosa as instalações hospitalares, palácio particular e igreja, estabelece assim uma certa correspondência com o programa construtivo de Mafra”.

Descrição
«Edifício rectangular, desenvolvido em 4 alas de 3 pisos separados por friso, com alçados monótonos de janelas emolduradas em cantaria, tendo a do 3º cornija saliente; é centrado por igreja, de planta em cruz latina de topos arredondados e nave curta precedida por espaçosa galilé, criando assim 2 claustros. Frontespício da igreja com 3 portais de modelo serlliano, sendo os laterais encimados por inscrições e 3 janelas, tendo a central frontão redondo e balaustrada; coroamento em frontão triangular com armas no tímpano. Interior revestido de mármores, com topos da cruz em abóbada de quarto de esfera, sendo a fronteira sobrepojada por relevo em mármores; altar em pirâmide de caixas e terminando num "tempietto" no cruzeiro, que é encimado por cúpula com tambor. Tribuna real sobre galilé, onde se conservam pinturas e outras obras.

Cronologia
  • Século XVIII, D. Maria Francisca Benedita pede à irmã, D. Maria I, autorização para fundar hospital; esta concedeu e ofereceu edifício da Luz, mas a Infanta preferia fazer obra completamente sua; 
  • 1790, compra Quinta de Alcobaça, e mais tarde outras; 
  • 1792, início da construção do Asilo de Runa, por ordem de D. Maria I, sendo os planos de José da Costa e Silva; 
  • 1803, início da construção, onde participaram mais de 300 operários;1807, quando a família real foge para o Brasil, grande parte do edifício estava erguido e, mesmo fora, a princesa enviava dinheiro para o prosseguimento das obras;
    1821, aquando do regresso da família real, estava muito adiantado;
    1827, inaugurado pela princesa; dadas grandes despesas com construção (mais de 600 contos), não foi possível deixar grande dotação ao hospital, que tinha de rendimento c. de 8.800$000, mais o valor das jóias legadas pela princesa - 57.281$200;
    1830, valor das jóias apropriadas Casa do Infantado, pagando-se então 24.200$800; 1842, pagou-se os 23.060$400 restantes;
    1831, hospital com grandes dificuldades de manutenção é integrado no Ministério do Exército;
    1834, com abolição dos dízimos perdeu Comenda de Santiago;
    1835, transferência do órgão do Convento da Graça em Penafirme;
    1965, denominado Lar de Veteranos Militares.
Edifício onde está instalado o Asilo de Inválidos Militares. Com esta obra, Costa e Silva soube ligar-se à tradição setecentista, mas livrando-a do amaneiramento empírico em que fatalmente caíra. Releva um neoclassismo frio e algo monótono, especialmente no edifício, do qual se destaca timidamente a fachada da igreja, toda em cantaria, com coroamento mais elevado em frontão triangular e acesso por vão triplo, segundo motivo serlliano. Na sala de tribuna conservam-se 3 tábuas de "Primitivos Portugueses" e 1 tela de Stº António e o Menino, assinada por Vieira Lusitano. O palácio da princesa ocupava a ala S. e O. do edifício que são decoradas em motivos neoclássicas. No topo do transepto direito órgão portátil, com algumas pinturas e com inscrição interior: "João da Cunha o fez em / Lxª Novembro em o prº do mes / anno 1745 / pede pelo amo de Dº Hum padre / Nosso e ave maria pela alma / de seu Pay Phelipe da / Cunha / que também hera da / mesma Arte.


D. Maria Francisca Benedita
(1746-1829)
jdact

Princesa da Beira e do Brasil, quarta e última filha do rei D. José I e da rainha D. Mariana Vitória, sua mulher. Nasceu em Lisboa a 25 de Julho de 1746, sendo baptizada com grande pompa na igreja patriarcal, a 10 do mês de Agosto seguinte, pelo cardeal matriarca Tomás de Almeida, tendo por padrinho o papa Benedito XIV, representado pelo infante Pedro, tio da infanta, a qual recebeu os nomes de Maria Francisca Benedita Ana Isabel Josefa Antónia Lourença Inácia Teresa Gertrudes Rita Joana Rosa Fal. no paço da Ajuda em 18 de Agosto de 1829.
D. Maria Benedita era muito formosa e inteligente; aprendia com muita facilidade, tanto as línguas como as ciências e as artes liberais. Falava com toda a correcção o inglês, espanhol. francês e italiano. O rei José I apreciava muito a música, e foi ele quem organizou o teatro real no paço da Ribeira, para o qual mandou vir os melhores cantores de Itália. O célebre maestro napolitano David Peres foi contratado para vir ensinar as infantas, tornando-se D. Maria Francisca Benedita a sua discípula mais dedicada. Tinha grande amor e vocação para a música, amor que sempre conservou, porque já na avançada idade de 80 anos ainda gostava de tocar piano, cantar e recitar poesias».
In Paula Noé, Sistema de Informação para o Património Arquitectónico, Monumentos, 1991.

Cortesia de Monumentos/JDACT


quinta-feira, 10 de maio de 2012

Monumentos e Lendas de Santarém. Zeferino Brandão. «Depois das “Viagens na Minha Terra”, Santarém é como um pomo vedado; pertence de propriedade ao autor daquele espirituoso e poético livro»; diz A. Herculano. Mas Santarém já devia de ter sido “pomo vedado depois da História de S. Domingos”; e Garrett, por ser filho de Eva, pecou tocando no pomo»



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«Noutros tempos, para ir de Lisboa a Santarém, metia-se a gente em um barco ‘sério e sisudo’, que nos esperava ao “cais das colunas, no vapor de Vila Nova” saía do cansado corredor no triste desembarcadoiro de Vila Nova da Rainha, o mais feio pedaço de terra aluvial, em que a gente ainda poisou os nossos pés, escarranchava-se sobre uma alimária qualquer, ou encaixava-se dentro da carroça de um amigo, que providencialmente nos aparecia ao desembarcar, apeávamo-nos sobre as areias do célebre pinhal da Azambuja, montávamos uma “enfezada mulinha asneira, que tinha de ser o nosso transporte dali até Santarém, subíamos, a bom trotar da mulinha uma empinada ladeira”, muito próxima da povoação, e chegávamos enfim ao alto, apresentando-se-nos diante do nós a ‘majestosa entrada da grande vila’; como aconteceu ao autor das “Viagens na Minha Terra”.
Ou então em Vila Nova da Rainha saltávamos do vapor para uma «pobre gôndola atada a dois rocins lazarentos, às albardas góticas, aos campinos selvagens, como uma coisa viva a uma coisa morta, e representando um sincronismo impossível entre os dois termos: 1553 – 1853. Dois cavalos éticos, a cujas selas rugosas e remendadas ia prender-se a corda que a movia, choutavam ao longo da senda marginal de sirga, montados por dois campinos em ‘desabilé’ ribatejano, e conduziam-nos até á ponte da Asseca. No cães montávamos, por exemplo, um cavalo que um amigo tinha antecipadamente disposto para aí nos esperar no dia da nossa chegada, e partíamos imediatamente para Santarém», que fica perto, há maneira de A. Herculano, quando em 1854 visitou aquela muito antiga e notável vila.
Hoje não é assim. Quem se resolve a sair da capital destes reinos, para ver Santarém, poucos têm essa curiosidade, chega à estação de Santa Apolónia, compra um bilhete para a de Santarém, mete-se no comboio, e duas horas depois ouve dizer a um empregado da companhia real dos caminhos de ferro portugueses: — «Santarém, dez minutos de demora!» Salta a gente para a plataforma, pega na sua mala, e, ao sair da estação, encontra um veículo, que nos leva inevitavelmente à porta da hospedaria da ‘Felicia’, se não recomendarmos ao cocheiro, que nos conduza a outra parte.
É mais rápido, mais cómodo, mas também é menos poético este passeio hoje em dia.
Não se nos dava de afirmar, que se vivesse agora o autor da ‘Historia de S. Domingos’, não era capaz de descrever ‘O sítio da vila de Santarém’, de forma que o seu estilo tivesse sabor clássico.
«Depois das “Viagens na Minha Terra”, Santarém é como um pomo vedado; pertence de propriedade ao autor daquele espirituoso e poético livro»; diz A. Herculano. Mas Santarém já devia de ter sido “pomo vedado depois da História de S. Domingos”; e Garrett, por ser filho de Eva, pecou tocando no pomo.
Fez muito bem.
A Santarém de fr. Luiz de Sousa, que diferença que fazia da que viu Garrett!
Por isso este fugiu dali exclamando:
  • «Em Portugal não há religião de nenhuma espécie. Até a sua falsa sombra, que é a hipocrisia desapareceu. Ficou o materialismo estúpido, alvar, ignorante, devasso e disfarçado, a fazer gala de sua hedionda nudez cínica no meio das ruínas profanadas de tudo o que elevava o espirito».
Grande alma de poeta, que, no meio da horrível devastação, teve a coragem de dizer a verdade a uma geração de hipócritas.
Mas nem por isso Santarém ficou pertencendo de propriedade ao autor das “Viagens na Minha Terra”. E visto que para os ‘escritores de profissão’ é ela como um pomo vedado, nós que não somos do número desses tais, descrevê-la-emos, como podermos e soubermos, e desculpe-nos a veneranda memória do sábio redactor do ‘Panorama’.
O Tibre concorre para a notícia da fundação de Roma, como o Tejo para a de Santarém. Aquele rio não submerge Rómulo e o Tejo arroja à sua margem direita a cesta onde vinha “Abidis”.
E, fábula ou não, Rómulo é amamentado por uma loba, “Abidis” por uma corça.
Se foram, ou não foram alimentados com o ‘nevado sanguíneo alimento das tais’ alimárias, para me servir da frase do padre Vasconcelos, autor da “Historia de Santarém Edificada”, pouco importa.
Heródoto tem o seu Cyro; Tito-Lívio o seu Rómulo: e os nossos cronistas o seu “Abidis”.
O próprio fr. Luiz de Sousa não considerou que poderiam ficar manchadas as páginas da sua brilhantíssima “Historia de S. Domingos”, escrevendo:
  • «com o de Escalabis foi ela (Santarém) conhecida muito antes que a conhecessem Romanos: e tanto atrás que não falta quem queira referir sua origem a um “Abydis” Rei vigésimo quarto dos que em Hespanha floresceram logo depois do dilúvio por sucessão continuada».
A poesia é necessária à historia, e nos livre, que ela faltasse na historia da humanidade.
A história refere a verdade; mas se a narrasse, nua e crua, era de uma aridez insuportável.
Estas reflexões ocorreram-nos a propósito do primeiro nome, que teve Santarém, “Scalabis”. Nome que o nosso Camões, recordou quando disse, referindo-se a Santarém:

… o sempre ennobrecido
Scalabicastro, cujo campo ameno
Tu claro Tejo, regas tão sereno.

E já os muros a haviam intitulado Calabicastro, por síncope de “Escalabis Castrum”, sendo ao mesmo tempo conhecida e venerada dos católicos com o nome de Santarém, o qual como epitáfio lhe puseram, para conservar a memória do sepulcro de Santa Iria (29)». In Zeferino Brandão, Monumentos e Lendas de Santarém, Lisboa, David Corazzi Editor, 1883, Makew Parr Collection, Magellan and the Age of Disvovery, presented to Brandeis University, 1961, Tipografia Horas Românticas, Rio de Janeiro.



 Cortesia de TH Românticas/JDACT