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terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

O Exército Perdido de Cambises. Paul Sussman. «Tara torceu a boca, fingindo indignação. Como se atreve a falar assim das minhas crianças? Elas choram de saudade de mim…»

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Londres, meses mais tarde

«(…) Não quero que a inflamação subcutânea se espalhe. Pode ir tranquila, boa viagem, disse Alexandra. Vou telefonar no final da semana para saber se aconteceu alguma complicação. Quer parar de se preocupar? Vai dar tudo certo. Acredite ou não, o zoo pode sobreviver sem você por duas semanas. Tara sorriu. Alexandra tinha razão. Ela ficava sempre ligada demais no seu trabalho. Era uma característica que herdara do pai. Eram as primeiras férias, propriamente falando, que tirava em dois anos, e sabia que tinha de aproveitar ao máximo. Apertando o braço de sua assistente, disse: Desculpe, estou exagerando, não é? Bem, não acha que as cobras vão sentir saudades suas, acha? Elas não têm sentimentos. Tara torceu a boca, fingindo indignação. Como se atreve a falar assim das minhas crianças? Elas choram de saudade de mim todas as noite que passo fora. Ambas acharam graça. Tara pegou o gancho de serpentes e, juntas, recolocaram a cobra no depósito. Tem a certeza de que vai saber colocá-la de volta? Claro, afirmou Alexandra. Pode ir sossegada. Tara apanhou o seu casaco, o capacete, e dirigiu-se para a porta. Antibióticos até sexta-feira, lembre-se. Vá embora, pelo amor de Deus! E não se esqueça de retirar a pedra dela. Meu Deus, Tara!

Alexandra agarrou um pedaço de pano e arremessou-o. Tara agachou-se, rindo, e fugiu corredor abaixo. E não se esqueça de usar os óculos protectores quando for apanhá-la, advertiu falando por sobre os ombros. Sabe como a safada fica depois que é medicada! O tráfego da tarde estava pesado, mas ela era bastante hábil em se enfiar nas brechas com sua motobike, cruzando o Tamisa pela Ponte Vauxhall e indo rápida, nos últimos três quilómetros até Brixton. De vez em quando, consultava o relógio. O seu voo estava marcado para dali a três horas e ela não tinha sequer arrumado a mala. Que mer…!, resmungou por dentro do seu capacete. Morava sozinha, num apartamento de subsolo cavernoso atrás de Brockwell Park. Comprara-o havia cinco anos com o dinheiro que a mãe lhe deixara, e sua melhor amiga, Jenny, tinha se mudado para o quarto vago como locatária. Durante alguns anos, levaram uma vida ao estilo boémio, livre de preocupações, dando festas uma atrás da outra, trocando de namorados, sem levar nenhum a sério.

Então Jenny encontrara Nick e, alguns meses depois, foram morar juntos, deixando Tara para cuidar sozinha do apartamento. O pagamento da hipoteca quase a levou à falência, mas ela não quis mais nenhum inquilino. Começou a gostar de ter o seu próprio espaço. Uma vez por outra, reflectia se algum dia se acertaria com um homem, como Jenny. E houve uma vez, anos atrás, em que apareceu uma pessoa, mas fazia um bocado de tempo. De modo geral, sentia-se feliz vivendo sozinha. Encontrou o apartamento em total desordem, quando entrou. Serviu-se de um copo de vinho, ligada num CD de Lou Reed, e dirigiu-se para o estúdio, onde com um tapa accionou o botão da sua secretária eletrónica. Uma voz metálica feminina anunciou: Você tem seis mensagens. Duas eram de Nigel, um velho amigo da universidade, a primeira convidando-a para jantar no sábado, a segunda cancelando a primeira porque ele se lembrou que ela ia viajar. Outra era de Jenny, prevenindo-a para não sair em nenhuma excursão em camelos, porque todos os cameleiros eram tarados. Outra era da escola confirmando a palestra que daria sobre serpentes, outra era de Harry, um operador da bolsa que já a vinha perseguindo havia dois meses sem que ela respondesse aos seus recados, e a última era de seu pai». In Paul Sussman, O Exército Perdido, 2005, Bertrand Editora, 2016, ISBN 978-972-253-057-6.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Paul Sussman, Literatura, Deserto,

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

O Exército Perdido de Cambises. Paul Sussman. «Ela calçou um par de luvas de couro grosso e também óculos de protecção, pois a cobra poderia, e foi de facto o que fez, cuspir veneno»

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Londres, meses mais tarde

«(…) A dra. Tara Mullray afastou uma mecha de cabelo cor de cobre dos olhos e seguiu em frente, caminhando pela plataforma suspensa. As lâmpadas tornavam o ambiente muito quente e um lustre de suor formou-se sobre a sua testa, de pele macia e pálida. Abaixo, através dos orifícios de ventilação nos topos dos tanques, relanceou os olhos sobre as cobras, porém não lhes deu atenção maior do que as cobras a ela. Já trabalhava no viveiro de répteis fazia uns quatro anos, e qualquer novidade sobre seus habitantes já se esgotara muito tempo atrás. Ela passou pela píton africana, pela Bit arietans, pela víbora Echix pyramidum e pela víbora do Gabão, detendo-se finalmente acima da naja. A serpente estava encolhida no canto do seu tanque, porém, assim que ela se aproximou, levantou a cabeça, a língua vibrando, o seu corpo grosso, marrom-oliva, movendo-se de um lado para o outro como um metrónomo. Olá, Joey, disse ela, deixando no chão o depósito e o gancho de serpentes que vinha carregando e acocorando-se na plataforma. Tudo bem com você? A cobra testou o lado interno da tampa do tanque, irrequieta. Ela calçou um par de luvas de couro grosso e também óculos de protecção, pois a cobra poderia, e foi de facto o que fez, cuspir veneno.

Certo, você é um amor de garoto,  disse ela, agarrando o gancho. Hora de tomar o seu remédio. Ela se inclinou à frente e soltou a tampa do tanque, inclinando-se para trás, quando a cabeça da cobra se ergueu para aproximar-se dela, suas aletas ligeiramente inchadas. Com movimentos precisos, tantas e tantas vezes ensaiados, ela agarrou o pegador da tampa do depósito, prendeu a cobra no gancho e, mantendo os olhos sobre ela o tempo todo, soltou-a já dentro do depósito, tampando-o rapidamente. Do interior do depósito veio um suave rumor rastejante, produzido pela cobra, que agora explorava seu novo ambiente. É para o seu próprio bem, Joey, disse ela. Não vá ficar zangado. A naja era a única da colecção de que ela não gostava. Com as outras, mesmo a taipan, ela se sentia perfeitamente à vontade. Mas a naja sempre a deixava nervosa. Era astuciosa e agressiva, e tinha um péssimo temperamento. Joey a tinha picado uma vez, coisa de um ano atrás, enquanto ela o removia do tanque para limpeza. Ela a tinha fisgado muito por baixo, no corpo, e a serpente de pescoço negro conseguira girar e dar o bote sobre as costas de sua mão desprotegida. Felizmente foi apenas uma picada enxuta, sem injecção de veneno, mas bastou para abalá-la.

Em quase dez anos trabalhando com cobras, nunca fora picada. E, desde então, passou a tratar a naja com a máxima cautela, usando luvas quando tinha de lidar com ela, cuidado que não tomava com as demais. Verificou a tampa para se assegurar de que estivesse bem fechada e, erguendo o depósito, fez o caminho de volta pela passarela, atenta a cada passo, ao descer as escadas e depois atravessando um longo corredor até ao seu escritório. Podia sentir a cobra movendo-se no interior do depósito e isso a fez diminuir as passadas, tentando não balançá-la demais. Não havia porque perturbar a serpente mais do que o necessário.

No escritório, Alexandra, sua assistente, já a aguardava. Juntas, removeram a cobra do depósito e a colocaram sobre um banco. Alexandra mantendo-a esticada enquanto Tara inclinava-se para examiná-la. Já devia ter cicatrizado, suspirou, observando uma área na metade da extensão das costas da cobra, onde as escamas estavam inchadas e feridas. Deve ter esfregado as costas na rocha novamente. Acho que deveríamos deixar o seu tanque descoberto por enquanto, para ela melhorar. Retirou um pouco de anti-séptico do armário e começou gentilmente a untar o ferimento. A língua da cobra vibrou de novo, entrando e saindo, e os olhos pretos levantaram-se para ela ameaçadoramente. A que horas é o seu voo?, perguntou Alexandra. Às seis, respondeu Tara, olhando para o relógio na parede. Preciso sair logo que termine isto aqui. Gostaria que o meu pai morasse no exterior. Faz a relação parecer muito mais exótica. Tara sorriu. Você poderia chamar a minha relação com meu pai de muitas coisas, Alex, mas não de exótica. Tome cuidado com a cabeça dela, agora. Ela acabou de limpar a área afectada e, espremendo sobre o dedo um pouco de creme, espalhou-o ao longo do flanco da cobra. Enquanto eu estiver fora ela vai precisar ser limpa dia sim, dia não, certo? E continue com os antibióticos até sexta feira». In Paul Sussman, O Exército Perdido, 2005, Bertrand Editora, 2016, ISBN 978-972-253-057-6.

Cortesia de BertrandE/JDACT

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Paul Sussman. O Exército Perdido de Cambises. «O seu corpo foi encontrado dois meses mais tarde. Ou pelo menos o que restou dele, carbonizado na fornalha do jipe incendiado. Um grupo de turistas num safari pelo deserto…»

 

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«(…) O jovem deixou escapar um assovio baixo. Uma semana atrás, completou Yakub, No Cairo. A Espada da Vingança. Ele morreu? Não, sobreviveu. Por pouco. O jovem soltou um gemido. Que pena! Acabe com todos os burocratas e o mundo será um lugar bem mais saudável. Esse curry está soberbo, Yakub. Duas moças europeias levantaram-se de uma mesa no outro extremo do jardim e passaram por eles. Uma delas voltou-se, dando uma olhada no jovem, e sorriu. Ele a cumprimentou com um gesto de cabeça. Acho que ela gostou de você, brincou Yakub, depois que elas se afastaram. Pode ser, o jovem deu de ombros para o companheiro. Mas quando eu contar a ela que sou um arqueólogo, vai querer uma boa distância de mim. A primeira regra da arqueologia, Yakub... Nunca diga a uma mulher o que faz. É o beijo da morte. Ele terminou seu curry com batatas fritas e reclinou-se, as moscas zumbindo na árvore acima da sua cabeça. O ar estava impregnado com o cheiro do braseiro, da fumaça de lenha e da carne tostada. Bem, quanto tempo está planeando ficar por aqui?, perguntou Yakub. Em Siwa? Mais uma hora, acho. E depois, volta para o deserto? Depois, volto para o deserto. Yakub assentiu com a cabeça. Já está lá há um ano. Você volta, compra suprimentos e depois desaparece outra vez. O que anda fazendo lá no meio do nada?

Medições, sorriu o jovem. E cavo buracos. E desenho diagramas. Mas, quando o dia está realmente bonito tiro fotos, também. E o que está procurando? Um túmulo? O jovem deu de ombros. Acho que pode chamar assim. Mas já encontrou alguma coisa? Quem sabe, Yakub? Talvez. Talvez não. O deserto é hábil em pregar artefactos na gente. Nós pensamos que encontramos alguma coisa, daí vamos ver e não encontramos nada, realmente. E quando pensamos que não encontramos porcaria nenhuma, de repente descobrimos algo que vale a pena. O Saara, como dizemos lá na minha terra, é um grande filho da pu… enganador.

Para dizer isso, ele falou em inglês, e Yakub repetiu as palavras, lutando para tirá-las da boca. O jovem achou graça, tirando cigarros e uma pequena bolsa de maconha do bolso da camisa. Isso mesmo, Yakub. E isso nos dias em que a gente está com sorte. Ele enrolou um bocado com habilidade, acendendo-o e tragando profundamente, depois inclinando a cabeça para trás contra o tronco da palmeira e exalando a fumaça, satisfeito. O senhor fuma demais essa porcaria, dr. John, advertiu o egípcio. Vai acabar fazendo mal. Ao contrário, meu amigo, suspirou o jovem, fechando os olhos, Aqui no deserto é a única por… que consegue manter a minha sanidade. Ele deixou o hotel uma hora mais tarde, o envelope pardo ainda seguro na sua mão. A tarde agora adiantada, com o sol mergulhando no oeste, sua coloração passando de um amarelo aguado para um alaranjado cítrico. Ele atravessou de volta a praça, até ao jipe, agora carregado de caixas com provisões.

Entrando no veículo, deu partida e, indolentemente, conduziu-o pelos cinquenta metros até à entrada da única garagem da cidade. Complete, disse ao frentista. Encha também os galões de reserva. E ponha água nos recipientes plásticos. A da bica serve. Ele jogou as chaves para o frentista e caminhou cerca de cem metros estrada acima até ao correio. Já dentro, abriu o envelope pardo, retirou uma série de fotografias, examinou-as, em seguida recolocou-as no envelope, lambendo-lhe a aba e fechando-o. Quero enviar esta correspondência. Registada, disse ao homem no balcão. O homem pegou o envelope, pesou-o e, puxando um formulário da gaveta em baixo da escrivaninha, começou a preenchê-lo. Professor Ibrahim az-Zahir, disse ele, lendo o nome escrito na parte frontal, enunciando-o para ter certeza de que tudo estava correcto. Universidade do Cairo. O jovem recebeu uma cópia do formulário, pagou e, deixando o envelope, voltou a pé para a garagem. O tanque do jipe, os tanques reservas e os recipientes de água estavam cheios agora e, com uma última olhada ao redor da praça do mercado, ele tornou a subir no veículo, ligou o motor e conduziu-o lentamente para fora da cidade. Parou por instantes no limiar do deserto e olhou, pensativo, para a cidade que deixava para trás. Depois, ligando o rádio-estéreo, acelerou o motor e avançou para a frente, penetrando através do terreno arenoso.

O seu corpo foi encontrado dois meses mais tarde. Ou pelo menos o que restou dele, carbonizado na fornalha do jipe incendiado. Um grupo de turistas num safari pelo deserto deu por acaso com o veículo a cerca de cinquenta quilómetros a sueste de Siwa, capotado ao pé de uma duna, casco de metal disforme com algo dentro que lembrava uma forma humana. Ele tinha, assim parecia, capotado ao tentar transpor a duna, embora não fosse uma duna particularmente escarpada e, curiosamente, houvesse outras marcas de pneus por perto, como se ele não estivesse sozinho quando o acidente aconteceu. O corpo estava tão desfigurado que só pôde ser identificado conclusivamente pelos registos das arcadas dentárias que foram enviados dos Estados Unidos». In Paul Sussman, O Exército Perdido, 2005, Bertrand Editora, 2016, ISBN 978-972-253-057-6.

 Cortesia de BertrandE/JDACT

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quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Paul Sussman. O Exército Perdido. «Alô, disse, agora falando em árabe, quero por favor falar com... Yakub fez-lhe um aceno e deixou-o a sós…»

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«(…) Ele passou por duas parabólicas, conectadas a satélites, e um acampamento militar improvisado, antes de entrar numa estrada pavimentada que o levou ao centro de um grande aglomerado que já havia avistado do topo da duna: Siwa Town. O lugar estava praticamente deserto. Duas carroças puxadas a burro avançavam ruidosamente pela estrada e, na praça principal, um grupo de mulheres agrupava-se ao redor de uma imunda barraca de vegetais, seus xailes de algodão cinza puxados sobre os rostos. Todas as demais pessoas haviam se refugiado nos prédios devido ao calor do meio-dia. Ele encostou o carro num dos lados da praça, logo por baixo de uma barreira de pedras encimada por edificações em ruínas e, pegando num grande envelope de papel pardo do banco traseiro, saltou e atravessou a praça, não se preocupando em trancar as portas do veículo. Parou num armazém geral e conversou brevemente com o proprietário, passando-lhe um pedaço de papel e um maço de dinheiro, e fazendo um sinal de cabeça indicando o Toyota, depois seguiu adiante, virando numa rua transversal, e entrou num prédio decrépito com o letreiro Welcome Hotel pintado na lateral. Assim que entrou, um homem atrás de um balcão saltou à frente com um grito de alegria e apressou-se em cumprimentá-lo. Dr. John! O senhor está de volta! Que bom vê-lo! Ele falou em berbere e o jovem respondeu no mesmo dialecto. Bom vê-lo também, Yakub. Como vão as coisas? Bem. E o senhor, como está? Sujo, respondeu o jovem, sacudindo a poeira da t-shirt com a inscrição LOVE EGYPT. Preciso de uma duche urgente. Sem dúvida, sem dúvida. O senhor sabe onde fica o chuveiro. Água quente, não, receio, mas, fria, toda que quiser. Mohammed! Mohammed! Um garoto apareceu vindo da sala ao lado. O dr. John está de volta. Traga-lhe uma toalha e sabão para ele tomar um duche. O garoto saiu apressado, suas sandálias estalando alto contra os ladrilhos do soalho.

Quer comer?, perguntou Yakub. Claro. Quero comer. Faz oito semanas que só ponho na boca feijão e sardinha em lata. Todas as noite sonhava com os frangos ao curry do Yakub. O homem riu. E vai querer também batatas fritas para acompanhar? Quero batatas fritas. E pão fresco. E um refrigerante gelado. Quero tudo que puder servir-me. Yakub riu mais ainda. O mesmo velho dr. John de sempre! O garoto reapareceu trazendo a toalha e uma barra de sabão, entregando-as logo em seguida. Primeiro, preciso fazer um telefonema, disse o jovem. Sem problema. Venha. Venha. O proprietário conduziu-o a uma sala em grande desordem, com uma armação com cartões-postais, todos com os cantos já dobrados, encostada na parede, e um telefone em cima de um arquivo de fichas. Deixando o seu envelope sobre uma cadeira, o jovem pegou o fone e fez a discagem. Ouviu alguns toques, até que uma voz ecoasse do outro lado da linha. Alô, disse, agora falando em árabe, quero por favor falar com... Yakub fez-lhe um aceno e deixou-o a sós. Dali a dois minutos, retornou com uma garrafa de refrigerante, mas o seu hóspede continuava ao telefone, e assim deixou a garrafa sobre o fichário e saiu para começar a cuidar da refeição.

Trinta minutos mais tarde, banhado e barbeado, o cabelo escovado para trás da testa queimada pelo sol, o jovem estava sentado no jardim do hotel à sombra de uma palmeira nodosa, devorando ferozmente a sua comida. Então, o que está acontecendo pelo mundo, Yakub?, perguntou, partindo um pedaço de pão e besuntando-o com o molho da beira do prato. Yakub bebericava o seu refrigerante. Já soube do embaixador americano? Nada. É como se eu tivesse estado em Marte nos dois últimos meses. Explodiram com ele». In Paul Sussman, O Exército Perdido, 2005, Bertrand Editora, 2016, ISBN 978-972-253-057-6.

Cortesia de BertrandE/JDACT

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terça-feira, 10 de novembro de 2020

Paul Sussman. O Exército Perdido. «O deslocamento de ar foi repentino, e tão abafado que não se tornou evidente, de imediato, que ocorrera uma explosão»

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«A limusine saiu lentamente através dos portões da embaixada, comprida, polida, e tão negra como uma baleia, fazendo uma pausa breve, antes de seguir para entrar no tráfego. Dois motociclistas da polícia tomaram suas posições à frente dela, dois atrás. Por uma centena de metros o comboio continuou em frente, árvores e edifícios deslizando de ambos os lados, depois dobrou à direita e novamente à direita, para o Corniche el-Nil. Outros motoristas lançavam olhares, tentando ver quem se encontrava no interior do veículo, porém os vidros das janelas eram escuros demais e impediam que enxergassem qualquer coisa do seu interior, excepto silhuetas borradas de duas cabeças humanas. Uma bandeirola americana tremulava na extremidade da sua lateral, na esquerda dianteira. Após um quilómetro, o comboio chegou a uma confusa confluência de estradas e viadutos. O líder dos motociclistas diminuiu a marcha, ligou a sirene e seguiu adiante, guiando a limusine com todo cuidado pelo labirinto pavimentado e subindo a seguir uma auto-estrada elevada onde o trânsito não era tão intenso. O comboio ganhou velocidade, acompanhando as placas para o aeroporto. Os motociclistas na traseira inclinaram-se um pouco à frente, aproximando-se, e iniciaram uma conversa. O deslocamento de ar foi repentino, e tão abafado que não se tornou evidente, de imediato, que ocorrera uma explosão. Houve primeiro um rumor seco e surdo, e a limusine foi projectada no ar, dando uma guinada que a fez atravessar a faixa central da auto-estrada, colidindo contra uma parede de concreto. Foi somente quando uma nova explosão, mais alta agora, fez estremecer o veículo já avariado, e um jacto de fogo subiu do seu fundo, que ficou claro que não fora apenas um acidente de estrada. Os guardas pararam bruscamente, fazendo as motas derraparem. A porta da frente da limusine escancarou-se e o motorista jogou-se para fora, gritando, com seu casaco em chamas. Dois dos motociclistas jogaram suas jaquetas sobre ele, abafando o fogo; os demais tentaram alcançar as portas traseiras do carro. Mãos frenéticas davam murros na lataria do interior da limusine, enquanto uma mortalha de fumaça negra a envolvia e já se erguia do veículo para o céu. O ar tornou-se carregado do cheiro acre da gasolina e da borracha queimadas. Os carros reduziram a marcha e pararam, seus motoristas estupidificados. Na dianteira da limusine, a bandeira americana em chamas rapidamente reduziu-se a cinzas.

Pu… que pariu! O motorista soltou um berro de alegria quando seu Toyota com tracção nas quatro rodas projectou-se do topo da duna e decolou, suspenso no ar como um desajeitado pássaro branco, antes de bater com um baque surdo no solo, do outro lado. Por um momento pareceu que ele fosse perder a direcção, o veículo deslizando para baixo num ângulo perigoso, mas ele conseguiu controlá-lo e, alcançando o fundo do declive, apertou o pé no acelerador novamente, ganhando impulso e logo alcançando o topo da duna seguinte. Pu… que pariu, por…, car…!, ele berrou. E continuou berrando por mais vinte minutos, a música altíssima saindo do estéreo do jipe, seus cabelos louros açoitados pelo vento, até que travou derrapando junto a uma barreira de areia bastante alta e desligou o motor do carro. Deu uma tragada no seu baseado, sacou seus binóculos e saltou, as botinas triturando ruidosamente a areia. O deserto estava sinistramente silencioso, o calor tornava o ar mais espesso. A palidez do céu parecia fazer pressão sobre a paisagem em volta. Ele ficou observando por alguns instantes a desordenada colagem das dunas e fossos de cascalho que se espalhava ao seu redor, um cenário estranhamente fora do mundo, privado de vida e movimento, e então, dando mais uma tragada no baseado, elevou os binóculos e focalizou-os em direcção noroeste.

Uma escarpa em formato de lua crescente de pedra calcária atravessava a sua linha de visão, com a mancha de um oásis verde-escuro traçada ao fundo. Minúsculas vilas esbranquiçadas distribuíam-se entre bosques de palmeira e lagos salgados, e uma mancha branca maior no extremo oeste da paisagem marcava uma pequena cidade. Siwa, sorriu o homem, exalando um anel de fumaça pelas narinas. Graças a Deus. Ele permaneceu naquele local por alguns minutos, deslocando os binóculos para várias direcções, e então voltou para o jipe, ligou a ignição, a zoada do seu estéreo ecoando novamente através das areias. Aos solavancos pelo deserto, rodando numa estrada de terra batida, alcançou o limiar do oásis uma hora depois. Três antenas de rádio e uma torre de água de concreto elevavam-se à direita. Um bando de cães selvagens chegou latindo junto às calotas do veículo. Ei, cães, também estou contente em ver-vos! Ele riu, tocando a buzina, e começou a fazer o jipe dar arrancos para a frente e marcha-atrás, levantando nuvens de poeira e forçando os cães a se dispersarem». In Paul Sussman, O Exército Perdido, 2005, Bertrand Editora, 2016, ISBN 978-972-253-057-6.

Cortesia de BertrandE/JDACT

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segunda-feira, 27 de julho de 2020

O Último Segredo do Templo. Paul Sussman. «Nove dias antes, a Fortaleza Antónia havia tombado; seis dias depois de os pátios externos e as colunatas do Templo terem sido muradas»

jdact e Cortesia de wikipedia

Templo Sagrado. Jerusalém
Agosto de 70 d. C.
«Cabeças cruzavam o muro do Templo, sibilantes; diversas delas, como um bando de pássaros desajeitados, com os olhos esbugalhados, boquiabertas, pedaços de carne humana rolando de onde haviam sido cruelmente arrancadas do pescoço. Algumas caíam no Pátio das Mulheres, sobre a pavimentação enegrecida pela fuligem, como um desencontrado ruído de tambores levando as crianças e os anciãos a fugirem horrorizados. Outras eram lançadas mais à frente, atravessando o Portão de Nicanor, no Pátio dos Israelitas, onde caíam em volta do grande Altar dos Holocaustos, como granizos gigantes. Poucas chegavam a alcançar distâncias ainda maiores, batendo contra os muros e telhados do próprio Mishkan, o Santuário, bem no coração do Templo, que parecia gemer e ressoar sob o ataque como se estivesse sofrendo dor física. Miseráveis!, balbuciou o garoto com a voz embargada; lágrimas de desespero queimando-lhe os olhos azul-safira. Romanos miseráveis e desprezíveis! De sua vista privilegiada, nas fortificações do Templo, ele fitava logo abaixo a movimentação da multidão de soldados romanos; suas armas e armaduras resplandecendo numa ira inflamada. Seus brados preenchiam a noite, misturando-se com a sibilante catapulta, com as batidas dos tambores, os gritos dos que estavam para morrer e, envolvendo tudo mais, o gigantesco e surdo golpe de demolição. Assim, o mundo parecia estar se partindo lentamente aos olhos do garoto. Tem compaixão de mim, ó Senhor,  ele sussurrava, citando os Salmos.  Porque estou angustiado; consumidos estão de tristeza os meus olhos, a minha alma e o meu corpo. Por seis meses o cerco se fechara sobre a cidade como uma coleira de ferro pronta a estrangulá-la, roubando-lhe a vida. Da sua base inicial, no Monte Scopus e no Monte das Oliveiras, as legiões romanas, quatro delas formadas por milhares de soldados auxiliares, moveram-se inexoravelmente para o interior da cidade, destruindo toda e qualquer linha de defesa, obrigando os judeus a retrocederem, amontoando-os no centro da cidade. Inúmeros foram assassinados, trespassados enquanto tentavam rechaçar seus oponentes, crucificados ao longo dos muros da cidade e por todo o Vale do Quidron, onde a quantidade de urubus era tão numerosa, que ofuscava o sol. O odor da morte difundia-se por toda parte, um corrosivo e dominante mau cheiro que dilacerava as narinas como chamas.
Nove dias antes, a Fortaleza Antónia havia tombado; seis dias depois de os pátios externos e as colunatas do Templo terem sido muradas. Agora tudo o que restava era o Templo Interior, fortificado, onde o que ainda subsistia do antigo orgulho da população da cidade estava esmagado, seres humanos como peixes num tonel imundos, famintos, obrigados a se alimentar de ratos e roer tiras de couro, e a beber a sua própria urina, tamanha era a sua sede. Apesar disso, lutavam furiosa e esperançosamente, lançando pedras e feixes em chamas sobre os invasores, de vez em quando investindo com impetuosidade contra os romanos numa tentativa de fazê-los retroceder para fora dos pátios, tudo isso para, enfim, regressar com ferimentos ainda mais graves. Os dois irmãos mais velhos do garoto morreram na última empreitada, golpeados enquanto tentavam derrubar uma máquina de guerra do cerco romano. Pelo que lhe era sabido, suas cabeças mutiladas estavam entre aquelas arremessadas de volta ao interior dos muros do Templo. Vivat Titus! Vincet Roma! Viva! Titus! As vozes dos romanos se espalhavam num urro estrondoso, declarando o nome do seu general, Tito, filho do imperador Vespasiano. Pela muralha, os defensores ensaiavam um brado em resposta, evocando os nomes de seus próprios líderes: João de Giscala e Simão Bar-Giora. Mas o clamor era fraco, pois as suas bocas estavam ressecadas, e o fôlego, enfraquecido; e, de qualquer maneira, era difícil dar o sangue por homens que, conforme os rumores, já haviam firmado um acordo com os romanos para salvar suas próprias vidas. Eles mantiveram o brado por quase um minuto, e então suas vozes foram diminuindo gradualmente. O garoto retirou um seixo do bolso de sua túnica e começou a chupá-lo, esforçando-se para esquecer a sede que sentia. Ele se chamava David e era filho de Judá, o vinicultor. Antes da grande revolta, a sua família havia cultivado uma vinha nas colinas fora de Belém: uvas vermelho-rubi que produziam o vinho mais puro e doce que alguém pudesse provar, como a luz do sol nas manhãs de Primavera, como a brisa suave na sombra de tamarindeiros. No Verão, o garoto ajudara a colher e a espremer as uvas, pisando-as, sorrindo com a sensação dos polpudos frutos sob os seus pés e a maneira como o suco manchava as suas pernas de vermelho-sangue. Agora prensas de lagar estavam quebradas, os vinhos estragados, e sua família assassinada, toda ela. Encontrava-se sozinho no mundo. Aos doze anos de idade já carregava a dor de um homem cinco vezes mais velho. Eles estão voltando! Preparem-se! Preparem-se!» In Paul Sussman, O Último Segredo do Templo, 2005, Bertrand Editora, 2016, ISBN 978-972-253-056-9.

Cortesia de BertrandE/JDACT

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

O Último Segredo do Templo. Paul Sussman. «Pois! E depois faria armadilhas; assim, se algum ladrão conseguisse entrar, seria capturado. E aí eu colocava todos eles na prisão»

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Vale dos Reis. Luxor, Egipto
«(…) Said ibn-Bassat, popularmente conhecido como Cabeça de Cenoura por causa dos seus cabelos claros em tons de cobre, era um velho amigo de Khalifa. Tinham-se conhecido anos antes, na Universidade do Cairo, onde ambos estudavam história antiga. Problemas financeiros forçaram Khalifa a abandonar os seus estudos e a aceitar o emprego na polícia. Said, por outro lado, terminou o curso, licenciando-se com distinção, e entrara para o Serviço de Antiguidades, onde foi promovido ao cargo de director-assistente do Vale dos Reis. Embora ele nunca tenha dito isso, essa era a vida que Khalifa teria escolhido para si, se a necessidade não o tivesse empurrado para outro caminho. Ele adorava antiguidades e teria feito qualquer coisa para trabalhar nas ruínas. Não que ele invejasse o seu amigo, é claro. Afinal o Cabeça de Cenoura não tinha uma família como ele, que representava algo que Khalifa jamais teria abandonado, nem por todos os monumentos do Egipto.
Os três partiram juntos para o vale, passando pelos túmulos de Ramsés III e Horemheb, antes de prosseguirem à direita e seguirem por um caminho que conduzia à entrada do túmulo de Amenófis II, que se encontrava aos pés de um conjunto de escadas e protegido por um pesado portão de ferro. Said começou a mexer no cadeado. Vai continuar fechado durante quanto tempo?, perguntou Khalifa. Apenas mais um mês ou dois. O A restauro está quase no fim. Ali abriu caminho entre os dois, andando na ponta dos pés, espiando o que poderia haver na escuridão mais adiante. Há ali algum tesouro? Creio que não, respondeu Said, tirando o menino do caminho e abrindo o portão. Foi tudo roubado em tempos antigos.
Apertou um interruptor, e as luzes acenderam-se, iluminando um longo e íngreme corredor talhado na rocha. As paredes e o tecto ainda guardavam algumas das decifrações das antigas marcas esculpidas. Ali tomou a dianteira e começou a descer. Sabem o que eu teria feito se tivesse sido rei do Egipto?, perguntou, com a voz a ecoar no espaço pelo estreito espaço do túmulo. Metia todos os meus tesouros numa câmara secreta bem escondida e tinha outra sala só com um bocadinho dos tesouros, para enganar os ladrões…, como aquele de que me falaste, pai, o Horror Ankamão. Hor-ankh-amun, corrigiu-o Khalifa, com um sorriso.
Pois! E depois faria armadilhas; assim, se algum ladrão conseguisse entrar, seria capturado. E aí eu colocava todos eles na prisão. Sorte deles então, disse Said, rindo. A punição habitual para assaltantes de túmulos, no Egipto antigo, era ter o nariz arrancado e ser enviado para as minas de sal da Líbia. Ou então eram empalados num ferro…
Piscou o olho para Khalifa, e, rindo, os dois homens saíram pelo corredor, atrás de Ali. Andaram apenas alguns metros e logo se ouviu o som de passos apressados atrás deles. Um homem de jilaba apareceu na entrada do túmulo, com a respiração pesada, fazendo sombra ao brilhante rectângulo do céu da tarde.
O inspetor Khalifa está aqui?, perguntou, ofegante. O detective olhou de relance para o amigo e então deu um passo em direcção à luz. Sou eu. Tem de vir depressa ao outro lado. Foi encontrado um... O homem fez uma pausa, tentando recuperar o fôlego. O quê?, perguntou Khalifa. O que foi encontrado? O homem olhou para ele, os olhos bem abertos. Um corpo! A voz de Ali chegou-lhes do fundo do corredor: fixe! Pai, também posso ir?» In Paul Sussman, O Último Segredo do Templo, 2005, Bertrand Editora, 2016, ISBN 978-972-253-056-9.

Cortesia de BEditora/JDACT

domingo, 3 de fevereiro de 2019

O Último Segredo do Templo. Paul Sussman. «Eles estavam no meio do Vale dos Reis, perto da entrada para o túmulo de Ramsés VI. Era final de tarde e a multidão de turistas que tinham abarrotado o local…»

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Vale dos Reis. Luxor, Egipto
«(…) Pai, podemos ir para casa? Hoje dá o Alim al-Simsim na teler.isão... O inspector Yusuf Ezz el-Din Khalifa apagou o cigarro e suspirou, olhando para Ali, seu filho, que estava logo ali em pé, a meter o dedo no nariz. Um homem cujas características revelavam a boa forma e elegância, com as maçãs do rosto salientes, os cabelos caprichosamente penteados e olhos grandes e brilhantes. Ele demonstrava um vigor comedido, aguçado pelo humor, um homem sério, mas que apreciava momentos alegres. Ali, não é todos os dias que se pode fazer uma visita privada dentro do maior sítio arqueológico do Egipto, admoestou-o ele. Mas eu já estive aqui com a escola, murmurou o filho. Duas vezes. A senhora Wadood mostrou-nos tudo. Eu aposto que ela não mostrou o túmulo de Ramsés II, retorquiu Khalifa, que nós vimos hoje. Nem a de Yuya e de Tjuyu. Ora, não havia nada dentro desse, reclamou Ali. Apenas morcegos e um monte de ligaduras velhas. Nós somos muito sortudos de termos recebido a permissão para entrar lá, insistiu o pai do menino. Estava fechado para o público desde quando foi encontrado em 1905. E, para tua informação, aquelas ligaduras velhas pertenciam às múmias que estavam lá e foram deixadas pelos assaltantes em tempos antigos, depois de tê-las removido dos corpos.
O rapaz ergueu a cabeça para ele, com o dedo ainda enfiado no nariz. Percebia-se um leve interesse nos seus olhos. Porque é que fizeram uma coisa dessas? Bem, explicou Khalifa, quando os sacerdotes embalsamavam as múmias, eles colocavam jóias e amuletos preciosos entre as ligaduras, e então, depois, os ladrões tentavam roubá-los. O rosto do menino iluminou-se. E também lhes arrancaram os olhos? Não que eu saiba, respondeu Khalifa, com um sorriso. Apesar de que algumas vezes eles arrancavam um dedo ou uma mão. O que eu também vou fazer se continuares a meter o dedo no nariz! Ele agarrou o pulso do filho, brincando, puxando os dedos, como se fosse arrancá-los. Ali contorceu-se e resistiu, a rir-se às gargalhadas. Eu sou mais forte do que tu, pai!, exclamou. Eu acho que não, disse Khalifa, segurando-o pela cintura e virando-o de cabeça para baixo. Eu acho que ainda falta muito.
Eles estavam no meio do Vale dos Reis, perto da entrada para o túmulo de Ramsés VI. Era final de tarde e a multidão de turistas que tinham abarrotado o local a maior parte do dia já tinha saído, deixando o lugar sinistramente vazio. Perto dali, um grupo de trabalhadores estava desobstruindo o local dos escombros de uma escavação, cantando num tom monocórdico enquanto eliminavam amostras danificadas de pedra calcária dentro de baldes de borracha; logo mais abaixo no vale, uma excursão enchia o túmulo de Ramsés IX. Se não fosse isso, o local estaria deserto, excepto por alguns seguranças, pelo Ahmed da lixeira e, na ladeira acima do vale, saltando sobre qualquer coisa que pudesse encontrar, o mascate dos cartões-postais e o vendedor de refrescos, que observavam atentamente o chão, na esperança de conseguirem algum negócio mais tardio.
Olha, vamos fazer uma coisa, disse Khalifa, colocando o filho no chão e mexendo no seu cabelo. Vamos dar uma vista rápida ao túmulo de Amenófis II, e então daremos o passeio por encerrado, está bem? Seria indelicado sair agora depois que Said se esforçou tanto para conseguir a chave.
Enquanto ele falava, ouviu-se um grito vindo do gabinete do supervisor, a cinquenta metros dali, e uma figura alta e desajeitada avançou para eles. Achei!, gritou a pessoa, brandindo uma chave. Houve alguém que a pôs no gancho errado!» In Paul Sussman, O Último Segredo do Templo, 2005, Bertrand Editora, 2016, ISBN 978-972-253-056-9.

Cortesia de BEditora/JDACT

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

O Último Segredo do Templo. Paul Sussman. «Idiota!, gritou o homem do casaco de cabedal. Levantem-no! Os guardas avançaram, puseram o homem de pé e forçaram-no a carregar…»

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Dezembro de 1944. Sul da Alemanha
«(…) O segundo camião tinha parado atrás do deles. O homem no lugar do passageiro, que usava um casaco de cabedal com uma gola alta e parecia estar no comando, inclinou-se pela janela, disse qualquer coisa a um guarda e acenou com a mão. Muito bem, gritou o guarda. Venham cá! Foram conduzidos para a traseira do segundo camião. A lona que a cobria foi levantada, revelando um grande caixote de madeira. Descarreguem-no! Depressa! Despachem-se!
Yitzhak e o comunista, um homem esquelético de meia-idade com um triângulo vermelho cosido à perna das calças, Yitzhak usava dois triângulos amarelos sobrepostos para mostrar que era judeu, treparam para o camião e agarraram os lados do caixote. Era pesado, tendo eles de se esforçar para conseguirem arrastá-lo pelo chão metálico até à extremidade da caixa de carga. Os outros seguraram-no e depois, lentamente, acabaram por depositâ-1o na estrada gelada.
Não,  não, não!, gritou o homem do casaco, debruçado na janela do camião. Eles que o carreguem… para ali! Apontou para lá do edifício arruinado, onde uma estreita avenida de neve virgem subia até se perder no meio das árvores, uma espécie de estrada ou caminho, presumivelmente. E certifiquem-se de que eles o transportam com cuidado! Os prisioneiros olharam uns para os outros, transmitindo silenciosamente o seu medo e exaustão, mas depois dobraram-se e içaram o caixote muito devagar, um em cada canto e dois no meio, arquejando com o esforço. Isto vai ser mau, murmurou o comunista. Vai ser muito mau...
Avançaram para a floresta com os pés a afundarem-se na neve até à barriga das pernas. Os guardas e o homem do casaco de cabedal iam atrás deles, mas Yitzhak não se atrevia a olhar em volta, com medo de perder o equilíbrio. À sua frente, o rabi tossia descontroladamente. Deixe-me aguentar um pouco do peso, sussurrou Yitzhak. Sou forte e para mim é mais fácil. És um mentiroso, Yitzhak..., grasnou o velho. E, ainda por cima mentes muito mal.
Calem-se!, ordenou um dos guardas atrás deles. Nada de conversas. Continuaram a avançar com dificuldade, gemendo de esgotamento e com a pele queimada pelo frio. O caminho, que inicialmente acompanhava um acidente de terreno numa subida relativamente suave, era agora muito mais escarpado e serpenteava continuamente por entre as árvores, enquanto a neve se tornava mais profunda. O homossexual escorregou e caiu numa zona particularmente íngrime, o que fez com que o caixote se inclinasse para a frente e embatesse num tronco de árvore. O canto superior direito do caixote estalou e estilhaçou-se. Idiota!, gritou o homem do casaco de cabedal. Levantem-no!
Os guardas avançaram, puseram o homem de pé e forçaram-no a carregar novamente o caixote sobre os ombros. A minha bota..., implorou ele, apontando para a bota esquerda que lhe saltara do pé e estava agora meio enterrada na neve.
Os guardas riram-se, pontapearam a bota para longe e ordenaram-lhes que continuassem a andar. Que Deus o ajude, sussurrou o rabi. Que Deus ajude o pobre rapaz. Continuaram a subir, cada vez mais para cima, a ofegar e a gemer, com cada passo a sugar-lhes um pouco mais da vida que lhes restava, até que, no momento em que Yitzhak estava certo de que ira cair e morrer, o trilho se tornou repentinamente plano e emergiu do meio das árvores para o que parecia ser uma pedreira abandonada, profundamente cortada no flanco da serra. Nesse mesmo instante, as nuvens abriram-se e revelaram uma enorme montanha a pairar sobre eles; ao longe, à direita, um pequeno edifício empoleirado na beira de uma falésia. A visão durou apenas alguns segundos e perdeu-se novamente por detrás de uma cortina de nevoeiro, desaparecendo tão rapidamente, que Yitzhak pensou se não a teria apenas imaginado por causa da exaustão e do desespero». In Paul Sussman, O Último Segredo do Templo, 2005, Bertrand Editora, 2016, ISBN 978-972-253-056-9.

Cortesia de BEditora/JDACT

O Último Segredo do Templo. Paul Sussman. «Fora!, ordenaram os guardas, empurrando-os com as armas. Debateram-se para saltar do camião, e das suas bocas soltavam-se nuvens de vapor»

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Dezembro de 1944. Sul da Alemanha
«(…) Vira-te para afrente e está quieto. Endireitou-se e olhou para os pés, sem meias, enfiados numas botas já muito estragadas, uma fraca protecção contra aquele inverno gelado. Ao seu lado, o rabi começara novamente a tossir, e o seu corpo frágil tremia como se alguém o estivesse a sacudir. Yitzhak segurou as mãos do velho entre as suas e esfregou-lhas, tentando transmitir-lhes algum calor. Larga-o, rosnou o guarda. Mas ele... És surdo? Disse-te para o largares. Levantou a arma e apontou-a para Yitzhak. O velho afastou as mãos das dele. Não te preocupes comigo, meu jovem amigo, disse. Nós, os rabis, somos muito mais resistentes do que julgas. Esboçou um sorriso fraco e mergulharam ambos no silêncio, de olhos postos no chão e a tremer, balançando um contra o outro sempre que o camião descrevia uma curva. Eram seis, não contando com os dois guardas: quatro judeus, um homossexual e um comunista. Tinham sido conduzidos para fora do campo e metidos no camião logo de madrugada, e desde essa altura que viajavam para leste e su1, pensava Yitzhak, embora não perdesse ter a certeza. Inicialmente, a terra apresentara-se plana e húmida, e a estrada seguia a direito. Contudo, na última hora, tinham começado a subir uma vertente íngreme e cheia de curvas, enquanto os pastos e as florestas iam ganhando gradualmente o tom branco da neve. Vinha outro camião atrás deles, com o condutor e outro homem na cabina, mas, tanto quanto Yirzhak sabia, não levava prisioneiros na traseira.
Passou a mão pela cabeça rapada, não conseguia habituar-se àquela sensação mesmo depois de quatro anos, juntou as mãos entre as coxas, contraiu os ombros e tentou que a sua mente seguisse à deriva, combatendo o frio e a fome com pensamentos a respeito de tempos melhores e mais quentes. Jantares de família na sua casa em Dresden; os estudos da Mishnah na velha yeshiva; a alegria dos dias santos, em especial o Hanukkah, o festival das luzes, o seu favorito entre todas as festividades comemorativas. E, claro, Rivka, a bela Rivka, a sua irmã mais nova. Que engraçada era, com a sua massa de cabelos negros como carvão e os olhos flamejantes! Que esperta e traquinas! Porcos!, gritara, quando arrastaram o pai de ambos para a rua e lhe cortaram os caracóis das têmporas. Porcos nojentos! E fora por causa disso que lhe tinham arrancado punhados de cabelos, para depois a encostarem a uma parede e lhe darem um tiro. Tinha treze anos e era tão bonita... Pobre Rivka. Pobre pequenina Rivka.
O camião passou por cima de um sulco e deu um violento safanão, despertando-o para o presente. Olhou para a traseira e verificou que passavam por uma grande povoação. Torceu o pescoço, espreitou pelo rasgão na lona e viu de relance a tabuleta ao lado da estrada: Berchtesgaden. O nome soava-lhe vagamente familiar, embora não conseguisse localizá-lo.
Vira-te para a frente!, grunhiu o guarda. Não volto a avisar-te. Prosseguiram durante mais trinta minutos e a estrada tornou-se mais íngreme e com curvas mais apertadas, até que por fim escutaram o apito seco do camião que os seguia e encostaram à berma.
Fora!, ordenaram os guardas, empurrando-os com as armas. Debateram-se para saltar do camião, e das suas bocas soltavam-se nuvens de vapor. Encontravam-se no meio de uma espessa floresta de pinheiros, estacionados junto a um velho edifício de pedra já sem janelas e cujo telhado abatera. Lá muito em baixo, entre os ramos carregados de neve, avistavam-se manchas verdes de pastagens com casas aqui e acolá, tão pequenas como brinquedos e de cujas chaminés se erguiam novelos de fumo. Para cima, as vertentes íngremes e densamente arborizadas continuavam a subir, desaparecendo numa cortina de neblina e nuvens ainda mais escura, o que sugeria a existência de altas montanhas. Estava tudo muito silencioso e fazia muito, muito frio. Yitzhak bateu com os pés no chão para evitar que ficassem entorpecidos». In Paul Sussman, O Último Segredo do Templo, 2005, Bertrand Editora, 2016, ISBN 978-972-253-056-9.

Cortesia de BEditora/JDACT

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O Último Segredo do Templo. Paul Sussman. «Fechou a cavidade com a placa de mármore e, agarrando a menorá, forçou-a no chão, grunhindo pelo esforço empenhado»

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Templo de Jerusalém. Agosto, ano 70 d.C.
«(…) O garoto os repetiu, tropeçando nas palavras. O ancião o fez repeti-los várias vezes, até que os tivesse decorado perfeitamente. O som da batalha invadia naquele momento todo o santuário, como uma inundação. Gritos de pânico, o som metálico das armas, o estrondo da alvenaria sendo destruída. Matias correu ao longo da sala, olhou através da entrada e então voltou rapidamente. Eles atravessaram o Portão de Nicanor!, gritou. Não pode voltar por aquele caminho. Venha, ajude-me!
Dando alguns passos adiante, o ancião agarrou a haste da menorá e começou a puxá-la e movê-la pelo chão. O garoto juntou-se a ele, e ambos a moveram um metro à esquerda, revelando uma placa quadrada de mármore com duas alças de apoio. O sacerdote agarrou-as, deslocando a placa de mármore para longe, revelando assim uma cavidade escura onde havia uma estreita escadaria de pedra em espiral que conduzia à mais completa escuridão. O Templo possui muitas passagens secretas, disse Matias, agarrando o braço do garoto e conduzindo-o para a abertura, e esta é a mais secreta de todas. Desça os degraus e siga pelo túnel. Não desvie nem para a direita nem para a esquerda. Será levado para bem longe da cidade, ao sul, muito além das paliçadas romanas. Mas e quanto a... Não há tempo! Vá! Agora é a esperança de nosso povo! O sveu nome será Shomer Ha-Or. Adopte esse nome. Mantenha-o. Orgulhe-se de tê-lo. Transmita-o. Será protegido por Deus. Mas também julgado. Ele inclinou-se, beijou o garoto em ambas as faces, e então, colocando as mãos na sua cabeça, empurrou-o para baixo. Fechou a cavidade com a placa de mármore e, agarrando a menorá, forçou-a no chão, grunhindo pelo esforço empenhado. Foi apenas o tempo suficiente para colocá-la na posição anterior e começar a ouvir os gritos que vinham da entrada, juntamente com o som cortante das lâminas. Eleazar, o ourives, entrou cambaleante, com uma das mãos decepada e o sangue jorrando pelo pulso mutilado. A outra mão agarrava o machado com o qual girava loucamente contra uma muralha de soldados romanos que o perseguia. Por um momento conseguiu mantê-los no vão da entrada. Então, com um grito de ordem, eles avançaram, e logo Eleazar foi dominado, tombando no chão, onde os seus membros foram decepados, e o peito esmagado. Yahweh! Clamava. Yahweh!
O sumo sacerdote observava com a face inexpressiva; então virou-se, pegou um punhado de incenso e lançou-o nas brasas do altar de ouro. Uma nuvem perfumada se espalhou pelo ar. Atrás dele, podia-se ouvir a aproximação dos romanos, as suas botas com solado de ferro batendo no chão e o ruído das suas armas ecoando pelas paredes. Tornou-se o Senhor um inimigo, lamentava-se, repetindo as palavras do profeta Jeremias, devorando Israel; devorou todos os seus palácios, destruiu todas as suas fortalezas. Os romanos encontravam-se bem atrás dele naquele momento. E então o sumo sacerdote fechou os olhos. Ouviam-se risos e o zunido suave de uma espada sendo erguida no ar. Por um momento o tempo parou; então a espada moveu-se entre os seus ombros, atravessando-lhe o corpo. Ele cambaleou, caindo de joelhos. Caia o sangue sobre a Babilónia, disse, tossindo, o sangue borbulhando pelos cantos de sua boca. Sobre a Babilónia, sobre a Casa de Abner. E, dizendo isso, tombou morto, com a face no chão, diante da grande menorá. Os soldados chutaram para o lado o seu cadáver e colocaram os tesouros do Templo sobre os seus ombros, levando-os do santuário. Vicerunt Romani! Victi Iudaei! Vivat Titus!, gritavam. Roma venceu! Os judeus foram derrotados! Longa vida a Tito!

Dezembro de 1944. Sul da Alemanha
Yitzhak Edelstein aconchegou seu uniforme listado de prisioneiro em volta de si e soprou as mãos em forma de concha, que estavam roxas pela exposição ao frio. Inclinando-se para a frente, tentou observar o que havia para fora do caminhão, mas conseguiu ver muito pouco por baixo da aba da lona, nada mais do que apenas a estrada asfaltada, os troncos das árvores e o pára-choques traseiro. Ele virou-se e pressionou o rosto na parte rasgada da lona, vislumbrando o terreno íngreme cheio de árvores e coberto de neve, até que o cano de uma espingarda lhe bateu no tornozelo». In Paul Sussman, O Último Segredo do Templo, 2005, Bertrand Editora, 2016, ISBN 978-972-253-056-9.

Cortesia de BEditora/JDACT

O Último Segredo do Templo. Paul Sussman. «O sacerdote manteve o seu olhar por mais um momento, depois endireitou-se, virando-se para a menorá; ao olhar fixamente para a luz bruxuleante, os seus olhos se fecharam gradualmente»

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Templo de Jerusalém. Agosto, ano 70 d.C.
«(…) Então olhou o garoto com atenção e, tomando-lhe a mão, conduziu-o adiante, para o final da sala, onde se detiveram em frente da menorá de ouro, observando os seus braços flexionados e as hastes meticulosamente decoradas, toda ela forjada com um único bloco de ouro puro, feita sob as instruções do próprio Todo-Poderoso. O garoto observava atentamente as bruxuleantes lamparinas, os seus olhos brilhando como água reflectindo a luz do sol, completamente admirado. Belíssimo, não é?, disse o ancião, observando o aspecto maravilhado do rosto do garoto e colocando a mão sobre o seu ombro. Nenhum objecto na Terra é mais sagrado para nós, nada é mais precioso para o nosso povo, pois a luz da sagrada menorá é a luz do próprio Senhor Deus. Ainda que isso venha algum dia a se perder para nós... Ele suspirou e ergueu a mão, tocando o peitoral sagrado, o Efode. Eleazar é um bom homem, acrescentou, como se fosse uma reflexão tardia. É um segundo Bezalel.
Por um longo período eles permaneceram em silêncio, contemplando o magnífico candelabro, o seu esplendor os rodeava e envolvia. Então, acenando com a cabeça, o sumo sacerdote voltou-se para que pudesse olhar directamente para o garoto. Hoje o Senhor decretou que o seu templo sagrado iria ruir, disse ele com calma, como o fez antigamente, neste mesmo dia, Tish B'Av, há mais de seiscentos anos, quando a Casa de Salomão foi entregue aos babilónios. As pedras sagradas serão reduzidas a pó, as vigas do telhado, fendidas, e o nosso povo será levado ao exílio e espalhado aos quatro ventos. O ancião inclinou-e um pouco, olhando fixamente os olhos do garoto. Temos uma esperança, David, uma única esperança. Um segredo, um grande segredo, conhecido por apenas alguns de nós. Agora, neste derradeiro momento, também precisa conhecê-lo. Ele se inclinou para o garoto, dizendo em voz baixa e rapidamente, como se temesse que alguém pudesse ouvi-los, mesmo estando ali sozinhos. Os olhos do garoto mostravam todo o seu espanto enquanto o ouvia, o seu olhar atento movendo-se do chão para a menorá e de volta para o chão, e seus ombros tremiam. Quando o sacerdote terminou, endireitou-se e deu um passo para trás.
Veja, disse, com um sorriso tímido nos seus lábios pálidos, mesmo na derrota ainda haverá vitória. Mesmo nas trevas haverá luz. O garoto permaneceu em silêncio; a face expressava a sua confusão, tomado de perplexidade e incredulidade. O sacerdote se aproximou e tocou no seu cabelo. Ele já saiu da cidade certa vez, indo muito além da paliçada romana. Agora deverá novamente deixar toda esta terra, já que a nossa ruína está próxima, e a sua segurança não poderá ser mantida por muito tempo. Tudo já foi organizado. Resta somente uma coisa: nomear o guardião, aquele que será o responsável pelo transporte até ao seu destino final e, lá chegando, irá esperar a vinda de tempos melhores. David, filho de Judá, foi designado para esta tarefa, se aceitá-la. Aceita a tarefa?
O garoto sentia o seu olhar atento erguer-se em direcção ao do sacerdote, como que içado por cordas invisíveis. Os olhos do ancião eram acinzentados, mas com uma estranha e hipnótica translucidez, como nuvens passeando por um imenso céu azul. Ele sentia um peso dentro de si e também uma leveza, como se estivesse flutuando. O que deverei fazer?, perguntou, a sua voz como que um grasnido. O ancião o observava, olhos que percorriam todo o seu rosto, explorando cada detalhe como se fossem palavras num livro. Então, meneando a cabeça, vasculhou a sua veste e retirou um pequeno rolo de pergaminho, entregando-o ao garoto. Isto irá guiá-lo, afirmou. Proceda conforme o que está escrito nele, e tudo ficará bem. Ele tomou o rosto do garoto nas suas mãos. Agora é a nossa única esperança, David, filho de Judá. Por seu único intermédio a chama continuará viva. Não revele este segredo a mais ninguém. Guarde-o como a sua própria vida. Transmita-o aos seus filhos, e aos filhos dos seus filhos, e assim sucessivamente, até que chegue o momento de revelá-lo a todos. O garoto observava o sacerdote atentamente. Mas quando, mestre?, sussurrou. Quando saberei que é chegada a hora?
O sacerdote manteve o seu olhar por mais um momento, depois endireitou-se, virando-se para a menorá; ao olhar fixamente para a luz bruxuleante, os seus olhos se fecharam gradualmente, como se estivesse em estado de transe. O silêncio ao redor se intensificava; as pedras no seu peitoral pareciam queimar como se possuíssem uma chama interior. Três sinais irão guiá-lo, disse com suavidade, a voz repentinamente distante, como se estivesse falando de um lugar muito alto. Primeiro: o mais jovem dos doze virá e na sua mão haverá um falcão; segundo: um filho de Ismael e um filho de Isaac permanecerão juntos, como amigos, na Casa de Deus; terceiro: o leão e o pastor serão um, e ao redor do pescoço haverá uma lâmpada. Quando estas três coisas se realizarem, será chegada a hora. Logo adiante, o véu situado na entrada do Santo dos Santos parecia ondular-se levemente. E o garoto sentia uma suave e fresca brisa tocar-lhe a face. Vozes estranhas pareciam ecoar nos seus ouvidos, e a sua pele formigava; havia um curioso odor penetrante e bolorento, como o próprio Tempo, se o Tempo pudesse ser descrito como um odor. Isso durou apenas um instante, e então, inesperada e surpreendentemente, ouviram uma grande explosão, um estrondo do lado de fora, e o clamor de milhares de vozes se levantou em sinal de grande terror e desespero. Os olhos do sacerdote se arregalaram. É o fim, disse ele. Repita os sinais comigo!» In Paul Sussman, O Último Segredo do Templo, 2005, Bertrand Editora, 2016, ISBN 978-972-253-056-9.

Cortesia de BEditora/JDACT

sábado, 17 de março de 2018

O Último Segredo do Templo. Paul Sussman. « O rapaz voltou os olhos para ele, uma enorme silhueta diante do flamejante céu e, então, prosseguiu. Afastando a cortina: caminhou pela sala sustentada por pilares»

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Templo de Jerusalém. Agosto, ano 70 d.C.
«(…) Depressa!, incitou-o. Os alicerces dos muros não resistirão por muito tempo. Correram através do pátio, esquivando-se das diversas cabeças espalhadas pelo chão, flechas zunindo ao redor. No final do percurso, escalaram os quinze degraus até chegar ao Portão de Nicanor e atravessaram um segundo local aberto onde multidões de kohenim faziam sacrifícios no grande Altar dos Holocaustos, com os trajes cobertos de fuligem, e as vozes de lamentação, abafadas pela fúria da batalha: oh, Deus, que nos rejeitaste e quebrastes as nossas defesas com a Tua ira, defende-nos! Tu, que fizeste a terra tremer, tu que a rasgaste, repara as suas fendas, pois ela vacila!
Eles atravessaram mais esse pátio e subiram os doze degraus que conduziam ao Pórtico do Mishkan, cuja fachada maciça se erguia acima deles como uma falésia, com cem cúbitos de altura e ornamentado com uma magnífica vinha trabalhada com o mais puro ouro. Aí, Eleazar parou, virou-se para o rapaz, agachando-se a ponto de seus olhos permanecerem na mesma altura. Não posso prosseguir. Somente os kohenim e o Sumo Sacerdote podem entrar no santuário. E quanto a mim? A voz do rapaz soava vacilante. A tua entrada foi autorizada neste momento de extrema gravidade. Foi o Matias quem o disse. O Senhor compreenderá. Colocou as mãos nos ombros do rapaz e apertou com força. Não tema, David, o seu coração é puro. Nenhum mal lhe sucederá. Olhou fixamente nos olhos do rapaz e então, levantando-se, empurrou-o em direcção à entrada, com os seus dois pilares de prata e cortina bordada de seda nas cores vermelho, azul e roxo. Vai… E que Deus te acompanhe!
O rapaz voltou os olhos para ele, uma enorme silhueta diante do flamejante céu e, então, prosseguiu. Afastando a cortina: caminhou pela sala sustentada por pilares cuja pavimentação era de mármore polido, e o tecto, tão alto que se perdia nas sombras. O local era agradável e silencioso, com uma doce e inebriante fragrância no ar. A batalha parecia retroceder e desaparecer, como se estivesse ocorrendo num outro mundo. Shema Yisrael, adonai elohenu, adonai ehud… sussurrou ele. Ouve, Ó Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Ele parou por um momento, atemorizado, e depois, vagarosamente, recomeçou a caminhar em direcção ao final da sala, os seus pés tocando silenciosamente o mármore branco. Logo adiante, encontravam-se os objectos sagrados do Templo, a mesa do Pão da Proposição, o altar do incenso, revestido de ouro, a magnífica menorá de sete braços, e, mais à frente, um tremulante e diáfano véu de seda, a entrada para o debir, o Santo dos Santos, onde nenhum homem poderia pisar, salvo o Sumo Sacerdote, sozinho, e ele o fazia apenas uma vez por ano, no Dia da Expiação.
Seja bem-vindo, David, disse uma voz. Estava à tua espera. Matias, o Sumo Sacerdote, aproximou-se, saindo das sombras, à esquerda do rapaz. Trajava uma veste azul-celeste presa com um avental tecido em ouro e púrpura; uma fina tiara adornava-lhe a cabeça, e no seu tórax encontrava-se o Ephod, o peitoral sagrado, com as suas doze pedras preciosas, cada uma representando uma das doze tribos de Israel. O seu rosto tinha muitas rugas, e a sua barba era branca. Enfim, encontramo-nos, filho de Judá, disse ele com mansidão, aproximando-se do rapaz para olhá-lo fixamente, acompanhado pelo suave tilintar dos doze minúsculos sinos costurados ao redor da bainha da túnica. O Eleazar, o ourives, falou-me muito de ti e disse-me que eras o mais destemido entre todos que defendem os lugares sagrados. E o mais valente. E o mais digno de confiança. Como se o David de outrora tivesse regressado… Foi o que ele disse». In Paul Sussman, O Último Segredo do Templo, 2005, Bertrand Editora, 2016, ISBN 978-972-253-056-9.

Cortesia de BEditora/JDACT

O Último Segredo do Templo. Paul Sussman. «O rapaz cuspiu a pedra que tinha na boca, agarrou noutra da pilha aos seus pés, colocou-a na baladeira de sua funda de couro e espreitou as muralhas…»

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Templo de Jerusalém. Agosto, ano 70 d.C.
«(…) O rapaz retirou uma pedra do bolso de sua túnica e começou a chupá-la, esforçando-se para esquecer a sede que sentia. Ele chamava-se David e era filho de Judá, o vinicultor. Antes da grande revolta, a sua família havia cultivado uma vinha nas colinas fora de Belém: uvas vermelho-rubi que produziam o vinho mais puro e doce que alguém pudesse provar, como a luz do sol nas manhãs de Primavera, como a brisa suave na sombra de tamarindeiros. No Verão, o rapaz ajudara a colher e a espremer as uvas, pisando-as, sorrindo com a sensação dos polpudos frutos sob os seus pés e a maneira como o suco manchava as pernas de vermelho-sangue. Agora as tinas de estavam quebradas, os vinhos estragados, e os membros da sua família assassinada, toda ela. Encontrava-se sozinho no mundo. Aos doze anos de idade já carregava a dor de um homem cinco vezes mais velho. Aí vêm eles outra vez! Preparem-se! Preparem-se! Ao longo das fortificações, o brado soou como um novo sinal das tropas romanas precipitando-se sobre os muros do Templo; escadas sendo usadas para escalar os muros já podiam ser avistadas, tanto que, naquele furor sombrio e infernal, parecia que milhares de gigantes centopeias desciam pelas paredes. Uma desesperada saraivada de pedras atingira-os, levando o ataque a parar por um momento antes de avançar novamente, alcançando os muros e erguendo as escadas, cada uma sustentada no chão por dois homens enquanto vários outros usavam estacas para içá-las e colocá-las do outro lado da muralha. Uma multidão de soldados começou a escalada, percorrendo todos os lados do Templo como uma crescente nuvem negra.
O rapaz cuspiu a pedra que tinha na boca, agarrou noutra da pilha aos seus pés, colocou-a na baladeira de sua funda de couro e espreitou as muralhas, procurando um possível alvo distraído pela saraivada de flechas lançadas logo abaixo. Ao seu lado uma mulher, dentre muitas outras auxiliares na defesa dos muros, cambaleou, com a garganta trespassada por uma lança, o pilum, seu sangue jorrando pelas mãos. Ignorou-a e continuou a avaliar o exército inimigo, finalmente reconhecendo um romano responsável por levar a insígnia da XV Legião Apollinaris. Rangeu os dentes e começou a girar a funda sobre a cabeça, olhos atentos no alvo. Girou uma, duas, três vezes…
O seu braço foi agarrado por trás. Ele virou-se, esmurrando o estranho com o punho livre e aos pontapés. David! Sou eu, o Eleazar. Eleazar, o ourives! Um enorme homem barbudo achava-se bem atrás dele, com um pesado machado de ferro enfiado no seu cinto, a cabeça enfaixada com um pano ensanguentado. O garoto parou de se debater. Eleazar! Eu pensei que fosse... Um romano? O homem riu melancolicamente, apoiando-se no braço do garoto. Não cheiro assim tão mal, pois não? Eu teria atingido o porta-estandarte deles, repreendeu o garoto. Era um alvo fácil. Eu teria esmagado a cabeça do sacana! E o homem sorriu, outra vez com mais simpatia. Tenho certeza de que o terias atingido. Todos sabem que David Bar-Judá é o melhor atirador de funda das redondezas. Mas há coisas mais importantes neste momento. Ele observou à sua volta e então baixou o tom de voz. O Matias mandou-me chamar-te. O Matias! A notícia surpreendera o garoto. - O Sumo... O homem tapou-lhe a boca com a mão e olhou novamente ao redor. Cala-te!, silvou. Há algo aqui, algo secreto. Simão e João não ficariam nada satisfeitos se soubessem que isso foi feito sem o consentimento deles. Os olhos do rapaz cintilaram, confusos: sem compreender o que o homem estava a falar. O ourives não fez qualquer esforço para se explicar e apenas observou, assegurando-se de que as suas palavras tivessem surtido o efeito desejado; então retirou a mão da boca do rapaz e, segurando-lhe o braço, conduziu-o pela parte superior das muralhas e fê-lo descer umas estreitas escadas até o Pátio das Mulheres cujas lajes estremeciam que os aríetes dos romanos embatiam nos portões do templo com um vigor renovado». In Paul Sussman, O Último Segredo do Templo, 2005, Bertrand Editora, 2016, ISBN 978-972-253-056-9.

Cortesia de BEditora/JDACT