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sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Portugal. A Primeira Nação Templária. Freddy Silva.«Pelos próprios actos, Godofredo de Bulhão revelara-se valoroso, discreto, digno e modesto. Os seus servos, em privado, atestaram a sua posse das virtudes que são postas em prática sem qualquer exibição»

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1099. Junho. Fora dos portões de Jerusalém

«A conduta dos vitoriosos sobre os vencidos dependia muito de quem estava no comando de que exército, e as atrocidades, como em qualquer guerra, tornaram-se uma prática normal, a justaposição de extrema voolência e fé angustiada. O ar de repulsa de alguns cruzados estava empalado no cheiro a depravação dos restantes, mas o mesmo se aplicava aos árabes, que massacraram todos oscativos que haviam mantido prisioneiros dentro de uma mesquita.

Uma semana depois de a adrenalina da guerra diminuir, a 22 de Julho, o dia de Maria Madalena, realizou-se um conselho no interior refrescante da Igreja do Santo Sepulcro, para deliberar sobre a eleição de um rei para Jerusalém. De entre os líderes cujos nomes foram sugeridos, destacava-se um, pela antiguidade: o conde Raimundo de Toulouse, muito admirado como combatente e o primeiro a voluntariar-se para a cruzada naquele fatídico dia de Novembro em Clermont. Mas, no fim, os votos foram atribuídos ao homem que não procurara nenhuns.

Pelos próprios actos, Godofredo de Bulhão revelara-se valoroso, discreto, digno e modesto. Os seus servos, em privado, atestaram a sua posse das virtudes que são postas em prática sem qualquer exibição. Os seus ideais para o homem comum impressionaram até os xeques árabes, que se admiraram com a modéstia do príncipe flamengo, pois, quando foram levar oferendas a Godofredo, surpreenderam-se perante uma tenda real desprovida de sedas, e o seu rei sentado num fardo de palha. Informado dos seus comentários, Godofredo esclareceu que o homem deve lembrar-se de que é apenas pó e ao pó voltará. Godofredo marchara até à Cidade Santa com um princípio: libertar o Santo Sepulcro. O benefício pessoal não fora a sua motivação. Quando lhe apresentaram o título de rei de Jerusalém, recusou-se educadamente a ser coroado, aceitando antes o título alternativo de Advocatus Sancti Sepulchri (defensor do Santo Sepulcro) e adoptando o termo informal princeps (primeiro cidadão).

Como mais tarde diria, nunca usarei uma coroa de ouro no lugar onde o Salvador do mundo foi coroado de espinhos. Urbano II, cujas palavras tinham posto em movimento estes acontecimentos, para o bem ou para o mal, nunca saberia dos desenvolvimentos em Jerusalém, pois morreu duas semanas depois do fim do cerco e antes de a notícia lhe poder chegar aos ouvidos. Entretanto, o infatigável Godofredo de Bulhão atravessou o Portão de Sião a sul e saiu das muralhas de Jerusalém, para um caminho que subia um pequeno declive até uma colina calcária onde, segundo a tradição, a Virgem Maria passou para a eternidade e o seu filho fez a Última Ceia. Neste local sagrado, Godofredo encontrou uma igreja quase em ruínas, a Hagia Sião, a Basílica Bizantina da Assunção. O edifício dilapidado mal era habitável, quando mais por um rei, e a sua posição para lá das muralhas protectoras da cidade torná-la-ia difícil de defender, se e quando os exércitos árabes voltassem. Ainda assim, Godofredo fixou aí residência. Mas não iria ali viver sozinho, pois prontamente se lhe juntou um capítulo de cónegos de Santo Agostinho, bem como um ícone religioso por direito próprio, Pedro, o Eremita.

Acontece que, longe de ser um evangelista moribundo, Pedro era tido em grande estima, pois, logo após a conquista de Jerusalém, os cruzados embarcaram noutra campanha militar e deixaram o monge temporariamente no comando da cidade. Pedro , o Eremita, voltou eventualmente a França para se tornar prior de uma igreja do Santo Sepulcro, que fundou antes de entrar em retiro perto de Huy, onde também fundou um mosteiro. Os seus contemporâneos não foram ingratos, nem esqueceram o seu contributo para os mais puros ideais do cristianismo.

Os fiéis, moradores de Jerusalém, que, quatro ou cinco anos antes lá tinham visto o venerável Pedro, reconhecendo nesse tempo, na mesma cidade, aquele a quem o patriarca entregara cartas invocando o auxílio dos príncipes do Ocidente, dobraram os joelhos diante dele e prestaram-lhe os seus respeitos com toda a humildade. Lembraram as circunstâncias da sua primeira viagem; e louvaram o Senhor que o dotara de um efectivo poder de discurso e da força de despertar nações e reis para suportar tantos e tão  longos trabalhos por amor ao nome de Cristo. Tanto em privado como em público, todos os fiéis de Jerusalém se esforçaram por prestar a Pedro, o Eremita , as mais elevadas honras, e atribuíram-lhe a ele apenas, depois de Deus, a sua felicidade por terem escapado à dura servidão sob a qual durante tantos anos haviam gemido, e em ver a Cidade Santa recuperar a sua antiga liberdade. Godofredo de Bulhão». In Freddy Silva, Portugal. A Primeira Nação Templária, 2017, Alma dos Livros, 2018, ISBN 978-989-890-700-4.

Cortesia de EAlmadosLivros/JDACT

JDACT, Freddy Silva, Cultura, Conhecimento, Saber, Narrativa,

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Portugal. A Primeira Nação Templária. Freddy Silva.«… o conde Henrique era conhecido do papa Urbano II, que o nomeou um dos doze líderes dessa expedição sagrada. E há mais. Os monges cistercienses eram escritores consumados…»

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Numa terra do oeste da Ibéria chamada Lusitânia

«A aventura do conde Henrique raramente é reconhecida na história. No entanto, as suas viagens até à Palestina são asseveradas por um cronista da Ordem de Cister, que também observou como o conde era acompanhado por um monge português da Ermida de São Julião. Mais provas desta viagem vêm de fontes estrangeiras, nem todas apoiantes dos portugueses, além do mais, como o padre Zapater, cronista da Ordem de Cister na corte espanhola de Aragão. Um relato posterior de um membro da Ordem dos Templários vai ao ponto de afirmar que o conde Henrique era conhecido do papa Urbano II, que o nomeou um dos doze líderes dessa expedição sagrada. E há mais. Os monges cistercienses eram escritores consumados. Redigiram copiosos volumes sobre os acontecimentos do seu tempo, e num desses relatos afirmam que, na Palestina, Henrique venerou os locais sagrados, e, em troca da sua fiel assistência, um grato rei de Jerusalém, um cavaleiro flamengo, deu-lhe a custódia de várias relíquias sagradas, incluindo a lança usada na crucificação de Cristo, amostras da coroa de espinhos e o manto de Maria Madalena.

No fim de 1099, o mesmo rei enviou o conde Henrique de volta a Portugal. Ao chegar, partiu prontamente para a cidade de Braga, acompanhado por Geraldo, o em breve arcebispo francês dessa cidade, após o que depositaram as ditas relíquias sagradas dentro da sua igreja principal. Henrique passou os dois anos seguintes a viajar entre a cidade de Coimbra (para administrar os assuntos de Estado) e a sua corte em Guimarães (para atender à sua esposa negligenciada), antes de embarcar numa segunda viagem à Palestina em 1103, de novo com a frota genovesa, desta vez acompanhado por dom Maurício, bispo francês de Coimbra, juntamente com Guido da Lusitânia e outros nobres da região.Três anos depois, o conde Henrique e o bispo estão de volta a Coimbra, como é evidenciado pela assinatura do conde num documento. Portanto, não só os relatos põem o sempre viajante conde de Portucale em Jerusalém na altura da cruzada, duas vezes, como também oferecem outra revelação: enunciam o nome do cavaleiro flamengo, rei de Jerusalém, que originalmente lhe entregou os artefactos religiosos para que os guardasse em Portucale, pois na descrição dos movimentos do conde Henrique consta que o seu valor era estimado por Godofredo, rei de Jerusalém. O que leva à pergunta: o que aconteceu no cerco de Jerusalém, e como foi que um cavaleiro flamengo de classe social média atingiu o mais alto lugar do poder na cidade de Deus?

1099. Junho. Fora dos portões de Jerusalém

O contorno da cidade tremeluzia e refractava ao calor escaldante do sol de verão. Soldados choravam abertamente ao ver esta aparição divina, a miragem agora demasiado real. E embora se tivessem saído melhor do que a mal organizada Cruzada do Povo, só cerca de doze mil dos trinta e quatro mil cruzados originais chegaram ao destino pretendido. O terreno em torno da cidade no topo da colina era árido devido ao calor implacável. Os homens tinham sede e fome e eram em número insuficiente para montar um cerco. A única opção era um ataque total.

Cruzados vendo Jerusalém pela primeira vez.

Cinco semanas depois, as muralhas da cidade mantinham-se resilientes a todos os ataques. Melhores notícias chegaram a 17 de Junho, quando navios de Génova ancoraram em Jafa para fornecer aos líderes dos exércitos engenheiros competentes e, consequentemente, com a capacidade de construir armas de cerco a partir de madeira canibalizada dos seus navios. O ar abafado tornava a pressa impossível, até que a notícia da chegada iminente de reforços árabes que marchavam desde o Egipto motivou os cruzados a agir. Com um esforço final, lançaram todos os projécteis contra as muralhas da cidade a partir do norte e do sul, até que os muros que protegiam Jerusalém cederam. A vitória era deles». In Freddy Silva, Portugal. A Primeira Nação Templária, 2017, Alma dos Livros, 2018, ISBN 978-989-890-700-4.

Cortesia de EAlmadosLivros/JDACT

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terça-feira, 13 de novembro de 2018

Portugal. A Primeira Nação. Freddy Silva. «Entretanto, o Verão de 1096 estava em pleno vigor, e nos reinos flamengos e ducados franceses, incluindo a Borgonha, reuniam-se exércitos, colocando as selas…»

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140 A. C., numa terra do oeste da Ibéria chamada Lusitânia...
«(…) As instruções de Afonso aos cavaleiros Henrique e Raimundo eram simples: reconquistar as partes da Galiza e de Portucale roubadas pelos mouros. O que fariam admiravelmente, com os dois borgonheses a granjear grande reputação pelos serviços prestados durante oito anos, reconquistando território a sul até ao rio Tejo, incluindo a cidade de Lisboa. Como prova do seu apreço por Raimundo, Afonso, o Bravo, ofereceu-lhe a mão da sua filha Urraca em casamento e concedeu-lhe o governo da Galiza como feudo pessoal. O igualmente corajoso Henrique, descendente dos reis francos pela linha masculina, bisneto do rei Roberto I, filho do duque Henrique de Borgonha e sobrinho da segunda mulher de Afonso, recebeu em casamento a mão da filha ilegítima de Afonso, dona Tareja, juntamente com um dote de terras em Castela. Em qualquer outra era, isto teria parecido um acordo simples, mas sendo o século XI, nem na própria família se podia confiar, e mal Raimundo se juntara a Urraca em matrimónio, o sogro descobriu a sua ambição de expandir o seu recém-adquirido território galego. Assim Afonso, o Bravo, concebeu um plano astuto para o impedir, atribuindo a Henrique e Tareja uma fatia do território contíguo,  o condado de Portucale, que, naquele momento, estava sob a suserania de Raimundo. Essencialmente, Afonso enfraqueceria as pretensões do genro mais ambicioso fazendo de Raimundo um vizinho imediato do seu primo Henrique, ao mesmo tempo que estabelecia os territórios de ambos como dependências do seu reino de Castela e Leão. E, finalmente, algum sentido de ordem tem efeito sobre a região. Pelo menos por agora.
Entretanto, o Verão de 1096 estava em pleno vigor, e nos reinos flamengos e ducados franceses, incluindo a Borgonha, reuniam-se exércitos, colocando as selas e partindo para leste na árdua Cruzada à Terra Santa. Quando a notícia deste mais nobre empreendimento chegou a Afonso VI, o rei espanhol jurou incondicionalmente dar um contributo pessoal, mas com os mouros a fazer constantes incursões no seu reino, retomando até Lisboa, Afonso estava demasiado ocupado com as próprias campanhas em casa para se aventurar no estrangeiro. Em vez disso, enviaria ajuda à Primeira Cruzada através do seu confiável genro Henrique, que agiria em seu nome. Aqui, as relações familiares funcionaram a favor de Henrique (a segunda esposa de Afonso também era borgonhesa), para não falar da sua educação na iluminada Casa de Borgonha. Nesta época, o ducado da Borgonha era o epicentro de um renascimento, a encruzilhada comercial e intelectual da Europa, e dado que Henrique e Afonso eram antigos alunos deste círculo liberal, ambos partilhavam, sem dúvida, laços intelectuais, bem como uma visão comum do mundo. Em troca do seu compromisso de navegar os quatro mil quilómetros até Jerusalém, e em parte para manter o primo Raimundo sob controlo, o recém-sogro de Henrique concedeu-lhe ainda o governo da cidade portuária de Porto Cale e do território circundante.
Para um homem que nascera o filho mais novo, e portanto esperava alcançar pouca riqueza ou herança por título, Henrique de Borgonha saiu-se bem. Após receber a antiga terra dos lusitanos, foi-lhe atribuído o título de conde e retirou-se, entusiasmado, para a sua nova propriedade de montanhas, charneca, costa e florestas, adoptando os costumes locais, aprendendo a língua portuguesa, mudando o seu nome para conde dom Henrique, em sinal de respeito. Em vez de ficar na cidade de Porto Cale, optou pelas colinas verdejantes e pela interior cidade de Guimarães, já venerada no seu tempo como local de peregrinação, após o que concedeu um foral à cidade e estabeleceu ali a capital do condado de Portucale.
Com os assuntos do Estado em ordem, dom Henrique parou brevemente para desfrutar da sua nova e maravilhosa vida, antes dos preparativos para embarcar na longa viagem até à Palestina, com o objectivo de libertar a Igreja do Santo Sepulcro. Mal sabia ele que a sua decisão marcaria um momento crucial na história de Portucale, pois as pessoas que conheceria em Jerusalém moldariam o destino deste território. Henrique partiu de Porto Cale rumo a Génova, na costa norte de Itália, e juntou forças com um dos exércitos cruzados, provavelmente o liderado pelo filho do rei francês, depois prosseguiu com a frota até ao antigo porto de Jafa, desembarcando cinquenta e três quilómetros a oeste dos portões de Jerusalém. O seu sentido de oportunidade não podia ter sido melhor, coincidindo com a chegada dos cruzados que desciam sobre a cidade vindos do Norte, empoeirados pelos meses de marcha laboriosa pelo Levante». In Freddy Silva, Portugal, a Primeira Nação Templária, 2017, Alma dos Livros, 2018, ISBN 978-989-890-700-4.

Cortesia de AlmadosLivros/JDACT

Portugal. A Primeira Nação. Freddy Silva. «Os dois cavaleiros nobres, Henrique e o seu distante, mas muito mais ambicioso, primo Raimundo, filho de Guilherme, o Grande, conde da Borgonha, partiram para o Norte da Ibéria a pedido de Afonso VI…»

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140 A. C., numa terra do oeste da Ibéria chamada Lusitânia...
«(…) A sua influência ainda se reflecte na origem dos nomes de locais de toda a Europa, como o rio Danúbio, ou as Paps of Anu, as lendárias colinas sagradas da Irlanda, em tempos veneradas por outra lendária raça celta, os tuadhe d’anu, o povo de Anu. Como tantas raças antigas, diz-se que os tuadhe implementaram a matemática, a agricultura, as artes e a música; possuíam o belo dom do temperamento e do conhecimento que lhes dava controlo sobre as forças da natureza, e esses atributos fizeram com que fossem comparados a deuses. O chefe dos lusitanos, Viriato, era celebrado como um líder celtibérico possuidor das mais nobres das antigas virtudes. Era honesto, justo e fiel à sua palavra, e as suas estratégias brilhantes venceram muitas guerras contra poderosas forças romanas, ao ponto de o recrutamento nas legiões ter baixado significativamente. Só através da traição é que os romanos se tornaram senhores deste pedaço de terra ferozmente independente no vértice da Europa e do Atlântico. Basta dizer que um ressentimento profundo, quase ódio, por todas as coisas romanas persiste até hoje no ADN dos seus habitantes.
Os lusitanos eram também um povo incrivelmente espiritual. Acreditavam na sobrevivência da alma, no Outro Mundo, e que em certas zonas da Terra há uma força especial que pode ser mobilizada para fazer a ligação a domínios que existem para lá dos cinco sentidos. Tais crenças encontrariam continuidade no mais celta dos sacerdócios, o dos druidas, que também encontrou um lar na Lusitânia, bem como na Galiza, a norte; e numa tribo celta na região da Dinamarca chamada burgundii, que um dia daria nome à província francesa da Borgonha. Os druidas tinham outra coisa em comum com os lusitanos: eram odiados e temidos na mesma medida por Júlio César, e ele fez questão de os obliterar a ambos durante a sua vida.
Depois de os romanos virem, verem, conquistarem e inevitavelmente perderem, a Lusitânia mudou de nome e lealdade inúmeras vezes, dependendo do vento político do mês. As regiões montanhosas são assim: de mente independente, espírito autónomo, teimosas até ao âmago. Porém, no século IX, a paisagem política começou a estabilizar, ou relativamente, pelo menos, dado que esta era a turbulenta Idade das Trevas, e fê-lo em torno de uma aldeia apropriadamente chamada Cale. Cale situava-se na foz do rio Douro (rio de Ouro), que corre para o oceano Atlântico no Norte do que é hoje Portugal. Os troianos foram talvez um dos primeiros grupos a instalar-se em Cale, pois o nome deriva da palavra grega kallis (belo), referindo-se à sinuosa beleza do fértil vale do Douro. Dada a forma como os troianos passaram por esta região na sua viagem rumo à Grã-Bretanha, a hipótese é consistente. Cale é também um etnónimo derivado da tribo celta que se instalou na região, os callaici, cujo nome provém da fonte da sua veneração, a deusa Cailleach, presente até hoje na tradição irlandesa. Assim, os callaici ou gallaeci associaram o seu nome ao respectivo lar no estuário, que se expandiu para Porto Cale (belo porto). O seu nome também se encontra em regiões importantes localizadas ali perto: Gaia, Galiza, e mais tarde o gal em Portugal. Mas estamos a adiantar-nos.
Com a evaporação dos lusitanos e dos romanos, a história local torna-se tão fácil de explicar como o padrão de tráfego dentro de um monte de térmitas. Em resumo, o Noroeste da Ibéria era geralmente conhecido como Galiza. Algures por volta do ano 848, entre as muitas conquistas e reconquistas que caracterizam a fluida estabilidade desta região, Porto Cale expande-se de simples porto para a região de Portucale, uma faixa costeira entre os rios Douro e Minho. O território de Portucale leva então uns duzentos anos a libertar-se do jugo da Galiza; primeiro, passa a governo único no ano de 950, depois é governado como feudo até 1050, mas vinte anos decorridos é reincorporado no reino da Galiza. Por volta de 1083, só para acrescentar mais ingredientes a esta complexa caldeirada, dois primos da Casa de Borgonha chegam de Dijon a cavalo.
Os dois cavaleiros nobres, Henrique e o seu distante, mas muito mais ambicioso, primo Raimundo, filho de Guilherme, o Grande, conde da Borgonha, partiram para o Norte da Ibéria a pedido de Afonso VI, rei de Castela e Leão, Galiza e Portucale. Cognominado o Bravo, Afonso VI atribuíra a si mesmo a ingrata tarefa de integrar todos os diferentes reinos espanhóis, metade dos quais sob domínio muçulmano, tal como partes das suas províncias. Mas, embora isto exigisse combater os sarracenos, mouros e outros árabes, Afonso VI parece ter sido um governante algo iluminado, pois não fez julgamentos generalizados sobre os inimigos. Continuou a oferecer protecção aos muçulmanos no seu território, cunhou moedas em árabe e admitiu na sua cama a princesa refugiada muçulmana Zaida de Sevilha». In Freddy Silva, Portugal, a Primeira Nação Templária, 2017, Alma dos Livros, 2018, ISBN 978-989-890-700-4.

Cortesia de AlmadosLivros/JDACT

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Portugal. A Primeira Nação. Freddy Silva. «Durante a convalescença, Pedro contou, com todos os pormenores, como as pessoas, que os tinham precedido sob a sua orientação, se haviam mostrado destituídas de inteligência…»

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1096. Agosto. Com o exército do Norte, preparando-se para partir…
«(…) Foi assim que, na Primavera de 1097, os cruzados chegaram, por fim, à Anatólia com a ajuda dos navios do imperador. Contudo, quando o exército de Godofredo se preparava para sitiar Niceia, descobriram que Comneno estabelecera um tratado secreto com os turcos, no qual a rendição da cidade era garantida ao imperador, fazendo assim com que parecesse que fora o seu exército bizantino, e não os cruzados, a ganhar o conflito. Após a traição, Godofredo e os irmãos, juntamente com os respectivos exércitos de cruzados, viraram para sul, em direcção a Jerusalém, e retomaram o seu intento original.

1098. Na Estrada Deserta perto de Antioquia...
À distância, pareciam fósforos escurecidos brilhando ao calor que se erguia das planícies áridas do Levante. Quando os cavaleiros cruzados os alcançaram na Síria, a Cruzada do Povo somava menos de dez por cento das almas desesperadas que haviam ousado sair dos reinos francos. As histórias eram horrendas. Padres que viajavam entre eles provocavam os peregrinos, sugerindo que os turcos engoliam os seus valores de modo a escondê-los dos assaltantes. Por isso, sempre que capturavam um, os peregrinos abriam--lhe a barriga, e dedos ávidos sondavam os intestinos ensanguentados, procurando tesouros escondidos. Os peregrinos eram por sua vez chacinados pelos igualmente bárbaros turcos. Os que capturavam vivos eram expostos nas praças das cidades e usados para tiro ao alvo pelos arqueiros. Os sobreviventes eram devolvidos ao deserto, onde tinham, por vezes, de beber a própria urina. Ou morriam à fome. Quanto a Pedro, o Eremita, o seu zelo fora finalmente encurtado pelos turcos, que o torturaram. Godofredo Bulhão ficou satisfeito só por o encontrar ainda vivo. O cavaleiro desmontou do seu cavalo, abraçou o emaciado evangelista como um amigo há muito perdido e fez com que cuidassem dele até recuperar alguma saúde.
Durante a convalescença, Pedro contou, com todos os pormenores, como as pessoas, que os tinham precedido sob a sua orientação, se haviam mostrado destituídas de inteligência, imprevidentes e intratáveis ao mesmo tempo, e por isso era muito mais por sua culpa do que pelos feitos de qualquer outro que haviam sucumbido ao peso das suas calamidades. Renovado o seu vigor, o monge prosseguiu a viagem com o exército de Godofredo nos restantes quilómetros de pó, areia e rocha ainda entre eles e Jerusalém. Que Godofredo parece ter marchado para a Terra Santa com um objectivo próprio desde o início tornou-se evidente no seu envolvimento com os turcos. Embora o seu papel no exército fosse importante, o seu envolvimento nas batalhas e escaramuças no Levante mostrou-se insignificante. E batalhas não faltaram. Escrevendo à esposa em França, o cavaleiro Étienne Henri Blois tinha esperança de que os restantes quatro mil e oitocentos quilómetros até Jerusalém levassem apenas cinco semanas a percorrer. Na verdade, demorou dois anos até os cruzados terem um vislumbre da cidade que tanto haviam perseverado para alcançar.

140 A. C., numa terra do oeste da Ibéria chamada Lusitânia...
Um anteriormente imparável Júlio César estava enfadado: há uma civilização nos confins nórdicos da Ibéria que não se governa e não se deixa governar. A tribo que lhe daria e às subsequentes legiões romanas duzentos anos de irritações eram os lusitanos, uma tribo celta cujo nome se traduz como povo da luz de Ani. Ani é uma das divindades principais do mundo celta, uma variante da deusa suméria Inanna. Em encarnações posteriores, volta a surgir como Santa Ana, avó de Jesus. Independentemente dos seus muitos derivados, Ana, Anu, Annan, Danu, Dana, era considerada a mãe dos deuses». In Freddy Silva, Portugal, a Primeira Nação Templária, 2017, Alma dos Livros, 2018, ISBN 978-989-890-700-4.

Cortesia de AlmadosLivros/JDACT

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Portugal. A Primeira Nação. Freddy Silva. «Para Godofredo, a realidade da situação era que dezenas de milhares de homens precisavam de ser transportados para o outro lado do Bósforo»

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1096. Agosto. Com o exército do Norte, preparando-se para partir…
«(…) Ainda bem, porque, sendo o segundo de três irmãos, Godofredo ia herdar pouco. Portanto, foram-lhe dadas menos vantagens na vida. Isso até o seu tio Godofredo, o Corcunda (filho de Godofredo, o Barbudo), morrer sem um herdeiro e legar o senhorio de Bulhão ao seu jovem e iluminado sobrinho. À medida que percorriam os reinos da Europa Central, os exércitos de cruzados encontravam uma população intimidada, mas mais precavida devido ao comportamento saqueador dos seus precursores, a Cruzada do Povo. Além de algumas escaramuças com os gregos e um incidente na Hungria, no qual Balduíno se ofereceu para ficar como refém do rei para garantir a conduta adequada dos exércitos ao longo do seu território, as coisas em geral correram bem.
Em Novembro de 1096, Godofredo Bulhão e os seus cavaleiros e soldados de infantaria estavam próximo de Constantinopla quando ficaram sob o assédio esporádico de tropas que mais tarde se revelou terem sido enviadas pelo imperador Comneno. Talvez após a sua experiência com a Cruzada do Povo o imperador tivesse ficado desconfiado da ajuda que Urbano II lhe mandava; além disso, a presença no exército que chegava do velho inimigo do imperador, o príncipe Boemundo, pouco fez para aplacar a paranóia de Comneno. Ainda assim, no espaço de quatro meses, todos os cruzados se reuniram nos portões de Constantinopla. Exigiam sustento e esperavam esta simples cortesia de Comneno.
Comneno fez promessas e quebrou-as. Traíram-se progressos pela hostilidade, irritando ainda mais os soldados. Depois, exigiu-lhes um juramento de obediência e fidelidade. Quando não obteve nenhum, tentou subjugá-los pela fome enquanto dava grandes banquetes a cavaleiros selecionados, um potencial candidato ao distúrbio de personalidade múltipla. Mas o ano estava a acabar e o Inverno anunciava-se. Finalmente, os cruzados fartaram-se e saquearam as zonas rurais.
Chegou o ano de 1097 e a Anatólia ainda acenava aos cruzados do outro lado do estreito canal do Bósforo. O abismo rochoso que separava a Europa do Oriente reflectia na perfeição o impasse entre os cavaleiros e o seu neurótico anfitrião. Foi neste ponto que Godofredo Bulhão deve ter detectado uma segunda intenção na insistência do papa numa cruzada. No que a este cavaleiro dizia respeito, a sua intenção era marchar para Jerusalém, libertar a Igrela do Santo Sepulcro e restabelecer o acordo entre cristãos e árabes, mesmo que isso significasse um acordo frágil. Era um plano claro, mas Comneno só apresentava obstáculos, de facto, exigia agora um voto de obediência dos nobres no comando dos exércitos. Para todos os efeitos, a cruzada parecia um acordo oportunista entre o papa e o sacro imperador romano para recrutar soldados e livrar dos turcos as terras do imperador.
Para Godofredo, a realidade da situação era que dezenas de milhares de homens precisavam de ser transportados para o outro lado do Bósforo. Podiam construir os seus navios para o curto salto, mas isso levaria meses. Comneno sabia isso; também era o dono de todos os navios em Constantinopla. A única forma de avançar era através da diplomacia e do compromisso; assim, Godofredo e os nobres reuniram-se com o imperador, após o que o sempre calculista Comneno propôs um juramento modificado. Em troca do transporte de tropas para território turco, os líderes do exército concordavam em auxiliá-lo, marchando sobre a cidade de Niceia, atacando os turcos na sua fortaleza e libertando a cidade em nome da cristandade. Godofredo concordou, relutante; Raimundo, outro líder do exército, disse educadamente a Comneno que a sua proposta era indecente, mas fez a promessa de não o atacar». In Freddy Silva, Portugal, a Primeira Nação Templária, 2017, Alma dos Livros, 2018, ISBN 978-989-890-700-4.

Cortesia de AlmadosLivros/JDACT

Portugal. A Primeira Nação. Freddy Silva. «… a sua extrema gentileza a sua moderação, a sua justiça e a sua castidade eram grandes; brilhava como uma luz entre os monges, ainda mais do que como um duque entre os cavaleiros»

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1096. Agosto. Constantinopla. Capital do Sacro Império Romano…
«(…) Era um milagre, e o imperador Comneno esfregou as mãos de contente ao vê-lo: uma vasta coluna de gente que se aproximava da cidade. Chegara finalmente a recompensa pelos seus esforços de arrancar ao papa um novo exército que restauraria decerto o seu poder esmaecido sobre um império em declínio. Mas esta visão sublime de uma poderosa e brilhante força de combate dissipou-se à medida que um após outro dos milhares de camponeses sujos, insalubres e famintos se encostava ao portão da cidade, esperando hospitalidade do sacro imperador romano. Não era um exército de cavaleiros, mas de maltrapilhos.
O problema de ter uma grande massa de fanáticos medievais desorganizados a marchar de aldeia em aldeia com pouco mais do que uma visão de esperança e a caridade dos aldeões locais é que nenhuma liderança pode prover devidamente às suas necessidades físicas, e quando a Cruzada do Povo atravessara a Hungria, não estava apenas a aceitar caridade, mas a devorá-la. Muitos recorriam ao furto às de início hospitaleiras populações cristãs, virando-se de vez em quando para o roubo de esposas locais, violando mulheres, queimando celeiros e basicamente lançando-se ao saque, algum dele a mando de um dos líderes, o conde Emerico, que tomou ele mesmo parte no saque e instigou os seus camaradas ao crime.
Mataram quatro mil só na Hungria e pegaram fogo à cidade sérvia de Belgrado. Mas não antes de a saquearem. Comneno nada via além de ter de providenciar sustento a um bando de pobres, vagabundos e oportunistas. Os portões da cidade mantiveram-se firmemente fechados e a Cruzada do Povo desenrascou-se montando tendas do lado de fora das muralhas intransponíveis. Seguiram-se semanas de ócio e, de narizes encostados à janela de riquezas dentro de Constantinopla, os peregrinos dedicaram-se a pilhar casas nos arredores da capital. Apesar dos melhores esforços  de Pedro, o Eremita, e Gualtério Sem-Haveres para darem exemplos de decoro, o banditismo substituiu a disciplina: não os continha a decência das pessoas da província, nem os apaziguava a afabilidade do imperador, mas comportavam-se muito insolentemente, destruindo palácios, queimando edifícios públicos, arrancando os telhados de igrejas que estavam cobertas de chumbo e depois oferecendo-se para vender de novo o chumbo aos gregos.
Um Comneno furioso tomou eventualmente a decisão sensata de reunir provisões e libertar a sua capital deste enxame, chegando a fornecer barcos à Cruzada do Povo para os levar pelo apertado estreito do Bósforo até à Anatólia, para fora das suas fronteiras.

1096. Agosto. Com o exército do Norte, preparando-se para partir…
A Festa da Assunção não tardou a chegar para os milhares de cavaleiros persuadidos pela consciência ou pela retórica de Urbano II a postar-se nos campos da Lorena e da Flandres, ajustando o equipamento e aguardando a ordem que impulsionaria
uma vasta coluna de combatentes em direcção à Terra Santa. O brilhante sol de Agosto voejando-lhes nas cotas de malha era um bom presságio.
Pelo caminho, deveriam encontrar-se com mais três exércitos de homens igualmente inspirados que marchavam de localizações distintas por toda a Europa, fundindo-se em Constantinopla para formar uma unidade de combate de quatro mil cavaleiros e trinta mil soldados de infantaria. Ao contrário da Cruzada do Povo, este ramo nortenho do exército cruzado era liderado por nobres flamengos que impunham a disciplina, três irmãos de linhagem merovíngia, filhos de Eustácio II, conde de Bolonha. O mais novo, Balduíno de Bolonha, era estudante das artes liberais; depois, havia Eustácio III, que herdara o título de conde de Bolonha após a morte do pai; e, finalmente, alto, louro, barbudo e devoto, um cavaleiro exemplar chamado Godofredo Bulhão.
Um cronista das cruzadas chamado Raúl Caen descreveu Godofredo deste modo: o brilho da nobreza era aumentado, neste caso, pelo esplendor das virtudes mais elevadas, tanto nos assuntos do mundo como nos do céu. Quanto a estes, distinguiu-se pela generosidade para com os pobres e a piedade para os que haviam cometido faltas. Além disso, a sua humildade, a sua extrema gentileza a sua moderação, a sua justiça e a sua castidade eram grandes; brilhava como uma luz entre os monges, ainda mais do que como um duque entre os cavaleiros». In Freddy Silva, Portugal, a Primeira Nação Templária, 2017, Alma dos Livros, 2018, ISBN 978-989-890-700-4.

Cortesia de AlmadosLivros/JDACT

sábado, 22 de setembro de 2018

Portugal. A Primeira Nação. Freddy Silva. «Tão generoso foi Pedro, O Eremita, para os pobres e tão honrado pela sua grande devoção que até os pêlos da sua mula eram arrancados como relíquias sagradas»

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1095. Novembro. em Auvergne, uma região montanhosa no centro de França...
«(…) Simeão dificilmente poderia recusar tal oferta, sobretudo devido às referências de carácter de Pedro. O seu contemporâneo Guiberto Nogent disse sobre ele:

O seu exterior não deixava senão uma impressão muito pobre; mas poderes superiores agitavam este corpo miserável; tinha um intelecto rápido e um olhar penetrante, e falava com facilidade e fluência. Vimo-lo daquela vez rebuscar cidades e vilas, e pregando em toda a parte; as pessoas reuniam-se à sua volta, cobriam-no de presentes e celebravam a sua santidade com tão grandes louvores que não me lembro de uma honra assim alguma vez ter sido prestada a qualquer outra pessoa. Exibiu grande generosidade na disposição de todas as coisas que lhe eram dadas. Devolveu esposas aos maridos, não sem o acréscimo de presentes seus, e restabeleceu, com maravilhosa autoridade, a paz e o bom entendimento entre os que estava em discórdia. Em tudo o que fez ou disse parecia ter em si algo divino.

Tão generoso foi Pedro, O Eremita, para os pobres e tão honrado pela sua grande devoção que até os pêlos da sua mula eram arrancados como relíquias sagradas. Encorajado pelo entusiasmo de Pedro, Simeão aceitou a oferta do peregrino e entregou-lhe algumas cartas antes da sua partida. Pedro, com túnica de lã e manto de sarja, de braços nus e pés descalços, conseguiu encontrar-se com Urbano II em Roma e entregou--lhe as cartas de Simeão discutindo a terrível situação na Terra Santa. Isto foi apenas o início do seu esforço de recrutamento ao longo do árduo caminho de volta às terras francesas. Anos de pregação errante, enquanto vivia apenas com um pouco de pão, vinho e algum peixe, finalmente compensaram, e, nesta fria tarde de Novembro em Clermont, Pedro erguia-se numa robusta plataforma de madeira ao lado de Urbano II. O frágil eremita falou primeiro, o seu esqueleto e pele precariamente sustentados pelo seu zelo, mas, ainda assim, falou ao espaço aberto, coberto por um interminável exército desorganizado de seguidores, que ele persuadira a marchar sobre a Terra Santa. Guiberto de Nogent comentaria que Pedro se parecia muito com o seu burro e cheirava consideravelmente pior. Pedro partilhou com a multidão as torturas, tribulações, misérias e humilhações sofridas pelos peregrinos cristãos, ele incluído, às mãos dos turcos. Deus o quer, Deus o quer.
Restava pouco para Urbano II alimentar o fervor da multidão, além de um discurso obviamente demasiado patriótico coroado por uma singular proposição de venda: tomai, então, a estrada para Jerusalém para remissão dos vossos pecados, e parti com a certeza da glória imperecível que vos aguarda no reino dos céus. Deus o quer, Deus o quer. Ébrios de esperança e religião, é dúbio que poucos tenham ficado para trás, sob chuvisco gélido, para ouvir a data coordenada de partida para toda a cruzada, que devia ser liderada por cavaleiros e começar em Agosto seguinte, na Festa da Assunção. Ou sequer para assimilar a última parte do discurso de Urbano, pedindo contenção: não ordenamos nem aconselhamos que a viagem seja empreendida pelos velhos ou pelos fracos, ou pelos que não estão aptos para as armas, e não deixeis as mulheres partir sem os maridos ou os irmãos... e nenhum leigo deverá começar a marcha excepto com a bênção do seu pastor.
Mas em tempos caracterizados por uma economia baseada no saque, a promessa de uma remissão dos pecados e da glória do reino dos céus foi suficiente para incitar três exércitos, combinando uns cento e vinte mil camponeses mal equipados. Mal a neve do Inverno foi substituída pela Primavera, em Março de 1096, a Europa Central tornou-se num longo, mal preparado e desorganizado enxame de homens, mulheres, crianças, agricultores, até enfermos, marchando em três, por vezes cinco exércitos de pessoal não militar. Pedro, o Eremita, chefiava um. Um segundo era liderado por outra personagem excêntrica, um antigo senhor da Île-de-France que, tal como Pedro, buscava uma verdadeira experiência mística de Deus, e assim renunciou aos seus bens terrenos para marchar para Jerusalém. Ficaria conhecido como Gualtério Sem-Haveres.
Esta foi a Cruzada do Povo.
Ao longo da extenuante estrada para leste rumo a Constantinopla, muitos perguntavam desesperadamente ao chegar a cada nova aldeia: isto é Jerusalém?» In Freddy Silva, Portugal, a Primeira Nação Templária, 2017, Alma dos Livros, 2018, ISBN 978-989-890-700-4.

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sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Portugal. A Primeira Nação. Freddy Silva. «… até Maomé instruía os seus seguidores no sentido de se voltarem para o local do Templo de Salomão durante as orações, pois era igualmente respeitado pelos muçulmanos como lugar de grande sacralidade»

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1095. Novembro. em Auvergne, uma região montanhosa no centro de França...
«(…) Mas de quanta ajuda ao certo precisavam esses cristãos? Após a conquista da Palestina pelos árabes no ano 637 d. C., apenas um quarto de Jerusalém, incluindo a Igreja do Santo Sepulcro, ficou nas mãos dos cristãos. Naturalmente, isto aumentou o número de peregrinos cristãos que acorriam a este e a outros locais associados à vida do avatar Jeshua Ben Joseph, também conhecido como Jesus. Contudo, não só o acesso aos locais sagrados era permitido, e foi mantido sob o domínio árabe, como o culto cristão também era tolerado; até Maomé instruía os seus seguidores no sentido de se voltarem para o local do Templo de Salomão durante as orações, pois era igualmente respeitado pelos muçulmanos como lugar de grande sacralidade. Esta tolerância prevaleceu até ao século X, sob os califas do Egipto, que prometiam solenemente protecção aos viajantes. Na verdade, a vida sob o domínio dos infiéis não era tão dura como o esperado; até a carga tributária era mais leve do que sob o anterior domínio cristão.
Mas, em 1065, este retrato optimista mudou quando os desordeiros vizinhos turcos dos árabes, liderados pelo bárbaro Emir Ortok, conquistaram e saquearam a cidade de Deus, após o que três mil cidadãos foram massacrados. Ortok reprimiu violentamente quaisquer cristãos remanescentes e depois, por diversão, prendia ou matava os peregrinos visitantes, a não ser que cada um lhe entregasse uma peça de ouro como preço de admissão na Igreja do Santo Sepulcro.
Isto presumindo que algum peregrino chegava vivo à cidade. Devido à desestabilização política, bandos de bandidos sem lei deambulavam pelas planícies da Palestina em busca de turistas desafortunados, enquanto cavaleiros beduínos conduziam ataques avulsos a peregrinos vindos de além do rio Jordão. Não admira que tal comportamento tenha gerado uma forte solidariedade e fervor em muitos dos bispos e barões europeus, instigados pelo discurso inflamado de Urbano II para que reunissem vastos exércitos numa cruzada para arrancar os locais anteriormente cristãos aos turcos seljúcidas e assegurar uma passagem segura aos peregrinos.
No entanto, apesar da retórica do papa, pode ter havido entre os presentes quem percebesse uma segunda intenção. Cinco meses antes, um dos poucos pontos altos no Concílio de Placência, pelo menos para Urbano II, fora a recepção pelo papa de emissários enviados de Constantinopla pelo imperador Comneno. O imperador bizantino debatia-se com um grande problema:

Há vários anos que os turcos consumiam o seu império, tendo já engolido a maior parte da Anatóha, da Síria e da Palestina. O concílio revelou-se um momento oportuno para Comneno: Urbano estava perto, em termos geográficos, e sete anos antes, este promissor novo papa revertera a excomunhão de Comneno da Igreja. Por isso, os presságios pareciam propícios a outro pequeno favor de um dos poucos amigos de Comneno, particularmente se este incluísse enviar um exército de novos cavaleiros por Constantinopla.

Comneno era um manipulador astuto. Os seus embaixadores não só exageraram a necessidade de um exército, como, não fosse o papa vacilar, também deviam lembrá-lo de que Jerusalém estava sob o restrito controlo dos seljúcidas, com os direitos de visita dos peregrinos em jogo. Em todo o caso, o desempenho de Urbano em Clermont teve um êxito para lá dos sonhos mais loucos de ambos os homens, e no espaço de meses, dezenas de milhares voluntariaram-se para livrar o Médio Oriente dos turcos e reconquistar os locais sagrados.

Quem não precisou de grandes desculpas para embarcar nesta cruzada foi um fervoroso monge de baixa estatura vindo de Amiens chamado Pedro, o Eremita. Pedro fora soldado, casado e era pai de cinco filhos, bem como um nobre e vassalo do conde Eustácio de Bolonha. No entanto, renunciou a tudo para se tornar um monge enclausurado, excepto para uma peregrinação a Jerusalém. Ficou horrorizado com o tratamento que ali era dado aos peregrinos, tanto que lhe foi concedida uma audiência com Simeão, o patriarca da cidade, durante a qual, Pedro prometeu solicitar o apoio de nobres de toda a Europa, até do papa, em seu nome: não hesito em assumir uma tarefa pela salvação da minha alma; e, com a ajuda do Senhor, estou pronto a ir e a procurá-los a todos, rogar-lhes, mostrar-lhes a imensidade das vossas dificuldades, e pedir-lhes a todos que apressem o dia da vossa libertação». In Freddy Silva, Portugal, a Primeira Nação Templária, 2017, Alma dos Livros, 2018, ISBN 978-989-890-700-4.

Cortesia de AlmadosLivros/JDACT

Portugal. A Primeira Nação. Freddy Silva. «Gritos de Deus vult, Deus vuit, ergueram-se em concordância sobre os campos gelados de Clermont. Deus o quer, Deus o quer»

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1095. Novembro. em Auvergne, uma região montanhosa no centro de França...
«(…) Tendo-se entusiasmado, o papa saiu da igreja, subiu a uma plataforma de madeira e começou a dirigir-se a um ajuntamento ainda maior, cujos números haviam forçado a área de encontro disponível do Champet e os serviços que a vila era capaz de fornecer: Esta terra que habitais, cercada de todos os lados pelos mares e rodeada pelos picos das montanhas, é demasiado estreita para a vossa vasta população; tão-pouco abunda em riquezas; e mal fornece comida suficiente para os seus cultores. Por isso é que vos matais uns aos outros, que fazeis guerra, e que frequentemente pereceis por ferimentos mútuos. Deixar então que o ódio parta de entre vós, deixai que acabem as vossas disputas, deixai cessar as guerras e deixai dormir todas as dissensões e controvérsias. Entrai na estrada para o Santo Sepulcro, arrancai essa terra à raça perversa e sujeitai-a a vós… Deus conferiu-vos sobre todas as nações grande glória nas armas. Empreendei então esta jornada pela remissão dos vossos pecados, com a certeza da glória imperecível do reino dos céus.
Gritos de Deus vult, Deus vuit, ergueram-se em concordância sobre os campos gelados de Clermont. Deus o quer, Deus o quer. Não tardaria que isto se tornasse num purulento slogan de propaganda para o recrutamento de milhares de soldados rasos.
Apesar do ar lânguido, o discurso motivacional de Urbano parecia ter um efeito muito mais revigorante do que o registado em Placência. Por isso, continuou, com um floreado adicional de demagogia: eles derrubam e profanam os nossos altares..., pegarão num cristão, abrir-lhe-ão o estômago e amarrar-lhe-ão o intestino a uma estaca; depois, estocando-o com uma lança, fá-lo-áo correr, até que arranque as próprias entranhas e caia morto no chão. O papa usou então um isco que lhe garantia aumentar o número de participantes na sua causa.

Todos os que morrerem pelo caminho, seja por terra ou por mar, ou em combate contra os pagãos, terão a imediata remissão dos pecados. Isto lhes concedo pelo poder de Deus, do qual estou investido. Oh, que desgraça se uma tão desprezada e ignóbil raça, que venera demónios, conquistasse um povo que tem a fé de Deus omnipotente e que o nome de Cristo torna gloriosa! Com que censuras nos esmagará o Senhor se não ajudardes aqueles que, como nós, professam a religião cristã! Que aqueles que injustamente se habituaram a travar guerras privadas contra os fiéis vão agora contra os infiéis e acabem com uma vitória esta guerra que há muito devia ter sido começada. Que aqueles que, durante muito tempo, foram ladrões se tornem agora cavaleiros. Que aqueles que têm lutado contra os seus irmãos e parentes lutem agora de forma correcta contra os bárbaros. Que aqueles que têm servido como mercenários por um pequeno salário obtenham agora a recompensa eterna. Que aqueles que se têm desgastado de corpo e alma trabalhem agora por uma honra dupla. Vede! Deste lado estarão os tristes e os pobres, daquele, os ricos; deste lado, os inimigos do Senhor, daquele, os seus amigos. Que aqueles que vão não adiem a jornada, mas que arrendem as suas terras e recolham dinheiro para as suas despesas; e assim que o Inverno acabar e a Primavera chegar, que se ponham ardentemente a caminho com Deus como seu guia.

Curiosamente, apesar de toda a conversa do papa abordando a libertação das Terras Santas, incluindo as suas cartas seguintes, quase não foi feita qualquer menção a dois dos seus mais importantes locais sagrados. O cronista Fulquério de Chartres, que assistiu ao discurso em Clermont, não faz qualquer menção ao facto de Urbano ter discutido a libertação de Jerusalém ou do seu templo mais sagrado, a Igreja do Santo Sepulcro, o local da sepultura de Cristo, só de ter pedido para ajudar rapidamente esses cristãos e destruir essa raça vil, os turcos, das terras dos nossos amigos». In Freddy Silva, Portugal, a Primeira Nação Templária, 2017, Alma dos Livros, 2018, ISBN 978-989-890-700-4.

Cortesia de AlmadosLivros/JDACT

Portugal. A Primeira Nação. Freddy Silva. «Depois da sua tirada, justificada, segundo alguns, Urbano instigou zelo suficiente entre a multidão reunida para dar início a uma cruzada e recuperar os locais sagrados cristãos»

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1125. Uma mesa de carvalho. Num grande salão de um pequeno Condado chamado Portugale...
«O pergaminho de velino envelhecido é uma doação de uma pequena vila perto da cidade de Braga. Diz: eu, rainha dona Tereja, dou a Deus e aos cavaleiros do templo de Salomão a aldeia chamada Fonte Arcada..., com todos os seus direitos e benefícios, pelo bem da minha alma. A generosa doação inclui nada menos do que dezassete concessões de terra adicionais por parte de famílias locais. Meticulosamente escrita a pena e tinta, está assinada: eu, Guilherme, procurador do Templo neste território, recebo este documento.
O signatário contém a chave de um mistério. Como procurador do Templo, Guilherme Ricardo está investido do poder e da autoridade para conduzir transações em nome do grão-mestre dos cavaleiros templários em Jerusalém, Hugo Payens. Mas é muito mais do que isso. O seu nome surge numa segunda concessão, desta vez como Magister Donus Ricardus, de metade da propriedade de Villa-nova, doada por Àffonso Annes a Deus, e à irmandade dos cavaleiros templários. Este Guilherme Ricardo é também o primeiro mestre dos cavaleiros templários num pequeno condado chamado Portugale. Estes acontecimentos são extraordinários porque o ano é 1125 e não se conhecem membros dos cavaleiros templários fora de Jerusalém, muito menos numa região do lado oposto da Europa. Mais estranho ainda, em 1111, sete anos antes de a irmandade templária surgir, foi atribuída aos cavaleiros uma propriedade estratégica no mesmo território.
Três coisas estão certas. Um: os cavaleiros templários juraram fidelidade não ao papa, mas a um monge influente no condado francês de Champanhe. Dois: num documento dirigido aos templários, um jovem destinado a ser rei de uma terra que será conhecida como Portugal revela que na vossa irmandade e em todas as vossas obras sou um irmão. Três: durante um interrogatório da Santa Inquisição (maldita), um cavaleiro templário fez uma afirmação críptica: existe na ordem uma lei tão extraordinária da qual se deve guardar tal segredo que qualquer cavaleiro preferiria que lhe cortassem a cabeça do que revelá-la a alguém.
E praticamente todos os templários capturados provaram isto ao serem queimados vivos. O que se segue é a verdadeira e inaudita história por detrás da primeira nação templária.

1095. Novembro. em Auvergne, uma região montanhosa no centro de França...
A crescente assembleia de abades, bispos, arcebispos, príncipes, nobres, senhores e leigos reuniu-se no interior do grande salão da igreja em Clermont e aguardou a chegada do papa. Quando avistaram a sua cabeça tonsurada a descer a nave, era óbvio que Urbano II estava menos do que satisfeito. O longo ano de viagem levara o pontífice a várias regiões de França e do Mediterrâneo, depois ao Norte de Itália, onde um conclave eclesiástico, em Placência, testou a sua paciência, e os resultados estavam longe do que esperava. Além disso, Placência, na Primavera, fora muito mais climaticamente gratificante do que o amargo frio de Novembro de Clermont, neste ano do Senhor de 1095.
Urbano II levantou-se do lugar e dirigiu-se ao conselho, começando com o seu relato sobre a situação da Igreja no Médio Oriente. Além do problema de os turcos seljúcidas terem dominado a Ásia Menor e tomado o controlo de grande parte do Levante, incluindo Jerusalém, este povo problemático também cortara o acesso aos locais sagrados cristãos, contrariamente aos seus mais tolerantes predecessores árabes.
E ainda não acabara. Urbano também tinha um problema com os cristãos. Vira clérigos traficar propriedade da Igreja, nobres e monarcas, em casa e no estrangeiro, que, espojando-se no luxo, violavam constantemente as leis da Igreja em paz, provocando lutas com árabes apenas pelos ganhos materiais. E, quanto aos seus cavaleiros, bem, portavam-se mais como mercenários.
Depois da sua tirada, justificada, segundo alguns, Urbano instigou zelo suficiente entre a multidão reunida para dar início a uma cruzada e recuperar os locais sagrados cristãos dos infiéis e assim canalizar toda aquela energia destrutiva para algo por que valesse a pena lutar: eu, ou antes, o Senhor roga-vos, como arautos de Cristo, que divulgueis isto em toda a parte e que busqueis que todas as pessoas, sejam de que classe forem, soldados rasos e cavaleiros, pobres e ricos, levem rapidamente auxílio a esses cristãos e que destruam essa raça vil das terras dos nossos amigos. Digo isto aos que estão presentes, destina-se também aos que estão ausentes. Além do mais, Cristo o ordena». In Freddy Silva, Portugal, a Primeira Nação Templária, 2017, Alma dos Livros, 2018, ISBN 978-989-890-700-4.

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