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quarta-feira, 20 de março de 2024

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «… nomes a formarem várias ligações, mapa de muitos caminhos, como se todos fossem filhos, primos, sobrinhos, irmãos uns dos outros; e também as crianças, nunca esquecidas, crianças de todos, futuros pais, futuros avós, futuros bisavós»

jdact

26 de Março de 2021

«Perguntou a uma delas pela mãe. Recebeu resposta e agradecimento: senhor comendador. Tinha pressa de ir ter com a mulher, de certeza que já estava bem acordada. Durante um par de minutos, inclinou-se lá de cima, sobre a linha dos fornos que caramelizavam a alfarroba. Havia trabalhadores a varrerem cinza, a carregarem caldeiras, cada um a cumprir a sua função. Pouco faltaria para haver espanhóis a tomarem aquela mistura, no desayuno em casa ou encostados à barra, como eles dizem. A torrefação Camelo é uma máquina certa, nunca se cansava de repetir. Lembrou-se do bolo seco na boca, a mastigá-lo, as pessoas vestidas com as melhores roupas, voltas e voltas na boca, havia muito que essas pessoas não teriam conseguido imaginar. Desembaciou os olhos. À sua frente ainda estavam os homens que trabalhavam nos fornos, sorriu para todos eles.

Voltou à divisão dos sacos de café, Uganda, das máquinas a torrar grãos, das pás a arrefecê-los. Desbarrigado, indiferente ao fato de treino fora de moda, levava uma alegria que era uma espécie de vaidade. No entanto, mesmo à beira da saída, o encarregado quis dar-lhe uma palavra mais sóbria, falou do lugar onde o senhor Rui tinha de ir nessa tarde.

A pensar no lugar onde tinha de ir nessa tarde, aquela hora mudou de cor. O sorriso esmoreceu no rosto do senhor Rui, senhor comendador.

Era um veio de acidez, podia avançar por ele, isolá-lo do resto do sabor. Nesse exercício, conseguia identificar um tipo de frescura que sugeria a imagem de maçãs verdes, como quando descascava uma maçã noutro tempo e a lâmina da faca tinha riscos húmidos e a carne da maçã sangrava pequenas gotas de sumo ácido. Mas, claro, reconhecia também o doce, a sua preferência. Em alguma idade teria aprendido esse gosto, o doce confortava-o. Todavia, o doce era complexo. Ali, aquecia-lhe ligeiramente a boca com um morno que, sem inventar, lhe trazia a memória de bolachas da infância, bolachas maria em dias assinalados.

Pousou a chávena no pires, o som da loiça. A manhã entrava inteira por aquele momento, assentava nas paredes brancas, pousava em toda a extensão da mesa, na toalha, no cesto do pão, nas palavras que a mulher dizia. Ao olhar para a mulher, sentiu ainda o peso do café sobre a língua, a espessura, sentiu também o seu nome bonito, Alice. O líquido descia-lhe pela garganta, desaparecia, e o sabor do café evaporava lentamente no interior da boca. Nesse processo, desenrolava novos sabores ou, talvez, novas gradações do mesmo sabor, como tons de uma cor, castanho. Aquilo que a mulher dizia apresentava uma delicadeza semelhante, estendia um enredo de filhos, netos e bisnetos, que se cruzavam em múltiplas direcções, nomes que se enredavam, Helena, Rui, Ivan, Rita, João Manuel, Marcos, nomes dispostos em várias ordens; e também as crianças, os filhos do Rui, do Ivan, do Marcos; nomes a formarem várias ligações, mapa de muitos caminhos, como se todos fossem filhos, primos, sobrinhos, irmãos uns dos outros; e também as crianças, nunca esquecidas, crianças de todos, futuros pais, futuros avós, futuros bisavós». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

JDACT, José Luís Peixoto, Literatura, Narrativa, Campo Maior, Rui Nabeiro, O Saber,

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «Depois de tanta veterania, algum privilégio havia de lhe calhar. Conversaram com gosto, as notícias do café vinham com optimismo. Estavam de costas voltadas para a montanha de sacas de juta…»

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26 de Março de 2021

«Foi nesse momento que, dentro daquela primavera, dobrou ligeiramente os joelhos até achar uma abertura entre verde e cor-de-rosa e, a partir desse mirante, avistou o motorista. Precisou de dar alguns minutos, não queria aparecer logo, mas faltou-lhe paciência para grandes esperas. Agradeceu em silêncio pela preferência matutina, por ter chegado cedo ao circuito de manutenção, antes de sombras fugidias que o julgassem, e saiu do loendro muito aprumado, como se viesse a caminhar no seguimento de uma andança séria, enquanto esticava e encolhia os braços para a frente.

Sem explicações, entrou no automóvel, sentou-se, bebeu de uma pequena garrafa de água, muito digno. Não foi preciso dizer nada ao motorista, que regressou à segurança de saber para onde iam em seguida. As ruas da vila apresentavam nova animação, motorizadas, gente que aparecia à janela, cães a darem algum passeio, arrumados à sombra das paredes.

Muito bem-disposto, passou o portão da torrefação Camelo, sorriso aberto, dentição luminosa. A sexta-feira sentia-se da forma subtil com que os dias da semana se distinguem uns dos outros, o tempo roda. As pás giravam sobre os grãos de café, arrefeciam-nos depois da torra, como se estivessem ali para fazer uma demonstração prática dessa qualidade cíclica do tempo. Mas faltava vontade para teorias, o trabalho estava já em plena acção, conforme se desejava. O encarregado largou logo qualquer coisa que podia esperar e, lampeiro, avançou na direcção do senhor Rui, que também seguia na direcção dele. O que diziam foi abafado pelo afã das máquinas, falavam de assuntos que pouco interessariam a quem não partilhasse o brilho nos olhos de um e de outro. O patrão, claro, tinha a sua história, as lembranças que bastas vezes lhe cruzavam a ideia, em pequeno a aprender com o pai e com o tio, e todas as suas idades, a decidir cada evolução daqueles armazéns, até ser um homem de oitenta e nove anos, até ser aquela a sua empresa de estimação, pequena entre outras empresas do grupo que, àquela mesma hora, eram preocupação da sua descendência.

Depois de tanta veterania, algum privilégio havia de lhe calhar. Conversaram com gosto, as notícias do café vinham com optimismo. Estavam de costas voltadas para a montanha de sacas de juta, as figuras dos dois homens recortadas nesse fundo. Não se tratava da pilha de sacos que está logo à esquerda de quem entra, mas sim os outros, os que estão um pouco mais à frente, à direita, café do Uganda, esse nome gravado nos sacos: Uganda Natural Robusta Coffee. O fim da conversa foi assinalado por alguns pequenos passos e, logo a seguir, duas ou três passadas rijas. A propósito de algum detalhe, o senhor Rui disse uma graça a dois rapazes com farda da fábrica, rapazes de cinquenta e tal anos, calças castanhas, camisola vermelha, grená, cor de romã madura, boina na cabeça, óculos. Riram-se os dois, como era próprio, um deles acrescentou um comentário conveniente e tratou-o por senhor comendador.

Já na sala de embalagem, três mulheres cumprimentaram-no com a deferência de uma sílaba pouco articulada, talvez sem consoantes, a mesma que usavam em todas as manhãs que o senhor Rui decidia entrar ali. À margem dessa etiqueta, a máquina repetia a sua música, a sua sequência infinita, os pacotes chegavam em fila, altivos, novos e brilhantes, deslumbrados, a verem o mundo pela primeira vez a partir de uma passadeira de metal e, por fim, encontravam as mãos da mulher que os alinhava no interior de uma caixa de papelão, prontos para se lançarem numa viagem que ainda desconheciam. O senhor Rui cumprimentou as funcionárias também com uma sílaba, mas afinada por outra nota». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

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segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. « Abriu os olhos, esvaziou os pulmões. Já tinha os calcanhares mais acomodados, mas sabia que voltariam a doer se tivesse a extravagância de lançar-se em novo andamento»

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26 de Março de 2021

«A minha mãe vira-se para mim, entro nos seus olhos, são olhos verdadeiros. A nata já solidificou sobre o leite fervido. Os olhos da minha mãe, limpos, o seu rosto, esta é aquela juventude que ficará aqui, teremos de avançar sem ela, teremos de continuar, não poderemos deter-nos por nada, nem sequer por aquilo que mais importa, pela única coisa que importa. Ainda estamos sozinhos na cozinha, a minha mãe ainda não preparou as canecas, ainda não misturou o leite, ainda não as adoçou, ainda não chamou as minhas irmãs, ainda não sabe o que vai acontecer ao meu pai, faltam tão poucos anos, ainda não envelheceu, a minha mãe ainda não envelheceu. A minha mãe, os seus olhos jovens e limpos e eu com nove anos, o meu Rui, pode deixar que eu falo com o meu Rui, eu com nove anos, a querer poupá-la de tudo, a querer resolver tudo, a querer segurar-lhe nas mãos e, na hora certa, a querer sussurrar-lhe aos ouvidos: não tenha medo, mãe; não tenha medo, mãe; sou o seu Rui, estou aqui.

Estava escondido atrás das ramas e das flores de um loendro. Com os joelhos pouco dobrados, espreitava o motorista. As flores exageravam no cor-de-rosa e, ao mesmo tempo, tingiam o ar com um perfume doce, grosso, meloso. O sol começava a aquecer e, também por isso, o perfume apurava o açúcar.

Tomou uma posição mais justa, endireitou-se, mas não quis aparecer logo, precisava de dar mais alguns minutos. Lembrou-se dos óculos do Marcello Caetano, já era a segunda vez que tinha essa lembrança naquele dia. Mas logo a seguir olhou na direcção de Espanha, o olhar atravessou a vedação do estádio, lançou-se no começo da estrada. Os campos de oliveiras certinhas, que cobriam uma e outra berma, chegaram da imaginação, ou da memória, em algum desses lugares os observava também.

Pareciam malucos, os pardais, enrolavam-se em tropelias a baixa altitude, desafiavam o sol, sabiam que, a qualquer momento, podiam entrar pelas copas das árvores e descansar as asas e os bicos. Porque começou a saturar-se de esperar, voltou a dobrar ligeiramente os joelhos e voltou a espreitar o motorista entre duas pernadas do loendro.

Lá continuava ele, intrigado, encostava-se e desencostava-se da porta do automóvel, cumprimentava um transeunte, bom dia, trocava frases avulsas com os bombeiros que davam um passo fora do quartel.

Na primeira hora da manhã, quando o senhor Rui chegou de fato de treino, sapatilhas atadas com largos laços, o motorista ficou logo com duas palavras presas na garganta. A rotina é uma forma de lógica; por isso, durante o caminho para o estádio, poucos minutos em ruas sem trânsito, o motorista franziu a cara e calculou há quantos anos o patrão não começava o dia com aquela ginástica. Não alcançou um número certo. Em vez de concluir esse raciocínio, dedicou-se a pequenos sinais, gestos ou sugestões, espécie de pequenas perguntas ocultas, discretíssimas. Mas o patrão, senhor Rui, optou por olhar para o lado, ignorar o rosto metediço no espelho retrovisor e restantes códigos.

No estacionamento, puxado o travão de mão, quando o motorista se ofereceu para acompanhá-lo, recebeu logo resposta negativa, o senhor Rui levantou a palma da mão e agitou-a. E prescindiu de outras palavras, apenas um certo tom, cara sisuda. Às vezes, fazia falta esse rigor. E afastou-se em linha recta, na medida do possível, para o circuito de manutenção. Nos pensamentos, quase ofendido, parecia-lhe que aquele interesse desafiava as suas competências e respondia a acusações que não tinham sido realmente feitas. Era a idade, cismou que a desconfiança do motorista nascia do tema da idade. Os novos têm a arrogância do que desconhecem, bamboleiam-se todos manientos, carregados de presunção, sem repararem que levam um céu de pedra suspenso sobre a cabeça, nuvens esculpidas. Está mesmo ali, bastaria um movimento de pescoço para enxergá-lo, mas ficam de olhos turvos quando dirigem a vista para certas lonjuras, conforme olhos de peixe morto, ganham a mesma capa de cegueira.

Influído por esse despique, passou diante das bilheteiras do estádio do Campomaiorense, quatro buracos quadrados numa parede, e entrou no circuito de manutenção. Seguia de queixo erguido, acompanhava os passos com movimento atlético de cotovelos ao longo do corpo mas, de repente, os artelhos tomaram outra decisão. E, logo os dois ao mesmo tempo, lançaram uma pontada que lhe apanhou os calcanhares, o peito dos pés, articulações, tendões, músculos. Só teve tempo de se encostar ao vulto do loendro e serenar. Pensou numa cadeira ou num banco, mas aquela sombra já era de valor. Fechou os olhos, encheu os pulmões. Lembrou-se do sentinela no Quartel do Trem, a hora de sair, licença, e o sentinela lá estava, sempre um rapaz amedrontado, por mais que o escondesse numa cara desta ou daquela maneira, um rapaz em sentido, a cabeça a assar no capacete, os pés a ferverem nas botas, meias de fio áspero. Abriu os olhos, esvaziou os pulmões. Já tinha os calcanhares mais acomodados, mas sabia que voltariam a doer se tivesse a extravagância de lançar-se em novo andamento. Lembrou-se das razões porque deixou de fazer aquela caminhada, pequena derrota, mais uma». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

 Cortesia de QuetzalE/JDACT

JDACT, José Luís Peixoto, Literatura, Narrativa, Campo Maior, Rui Nabeiro, O Saber, 

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «… a Clarisse irá lamber os lábios para não desperdiçar nenhum cristal de açúcar, a minha mãe irá desfrutar do consolo de ver-nos consolados. Caem as últimas gotas negras pelo bico do filtro, cone invertido, o eflúvio do café»

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26 de Março de 2021

«Quando entreguei o prato e o pano à minha mãe, tinha a cesta aviada com pedaços de carne acomodados em folhas de couve, pode deixar que eu falo com o meu Rui. A minha mãe explicou-me os destinatários dessas encomendas, orelha, toucinho, ossos, pés, fígado, baço. Antes de sair, passou-me a mão pelo cabelo, uma festa, como se me penteasse. Quando terminei a primeira ronda, estavam as mulheres no começo de encher as farinheiras. O cheiro avinagrado da massa das farinheiras impregnava a divisão. A seguir, com a cesta novamente carregada, as ruas de Campo Maior entardeceram, a cal recebeu diferentes amarelos, acinzentados e azuis, até cair a noite. Quando voltei da segunda ronda de distribuição, mãos agradecidas a receberem as encomendas, olhos regalados a apreciarem a carne, a textura da carne sobre a couve, a minha mãe esperava-me com a vasilha do leite, tinha essa intenção planeada desde sempre. Depois do morno do sebo e da palha, depois do olhar mal iluminado das vacas, depois das ruas, noite antes do serão, gente a voltar para casa, cheguei com o quarto de litro de leite, mais um ou dois dedos por paga de bom freguês.

Foi ao entregar a vasilha que a minha mãe me prometeu a nata. Eu conhecia já o desenvolvimento desse gesto, não era a primeira vez. Entrei em casa e sentei-me à mesa com as minhas irmãs, a pequena não estava ainda farta de brincadeira. Sopa de feijão com massa, a minha mãe sempre de pé, a ir de uma tarefa para outra, acabámos de comer em silêncio, as sombras engrossavam nos cantos. Mas a pequena estava ainda esperta, não pensava em sono, e a minha irmã Cremilde fazia-lhe a vontade, as suas vozes a desmontarem-se até serem risos e, sem esforço, a transformarem-se outra vez em vozes. Recolhida a loiça, quando fui buscar o caderno da escola e me sentei à mesa, arrumado ao candeeiro de petróleo, a minha mãe deu ordem às raparigas para irem para o quarto, não se importaram, sabiam que lá estariam mais soltas.

O carvão do lápis, no papel, sob a luz do candeeiro, penumbra, era feito de sombra, escrevi letras com sombra. O tempo, a minha mãe e eu, todos os objectos da cozinha. E, há poucos minutos, voltei a guardar o caderno, os trabalhos terminados, aptos para o olhar do professor e, imediatamente, os sons do alumínio e do esmalte, a vasilha de alumínio a verter o leite para o púcaro de esmalte. Apercebo-me ainda do momento em que arrumei o púcaro às brasas, a raspar no chão de cinzas, ao lado da cafeteira com água que está sempre encostada ao lume. Esse momento aconteceu e está ainda a acontecer, existiu o ponto em que tudo era esse momento, e existe este ponto arrastado em que é um eco, imagem desfiada, composta por notícias em que só agora reparo.

Interrompendo um raciocínio, de repente, como se me quisesse apanhar desprevenido, o leite sopra um arrufo e lança-se; mas os meus reflexos são imediatos, inclino-me e puxo o púcaro. A minha mãe dá conta deste gesto. Tem tudo preparado, abre a lata do café. Fixo-me nas minhas mãos de rapaz de nove anos, o tamanho e a forma dos dedos, as unhas, a pele da palma das mãos, os pulsos. Reparo nos meus braços, na proporção do meu corpo em relação ao que me rodeia, esta cozinha, a cozinha dos meus nove anos, reparo neste tempo, serão da minha infância, inverno, dia de semana, o meu irmão que ainda não chegou, um homem com dezasseis anos, as minhas irmãs, a Cremilde com onze e a Clarisse com sete, e o meu pai, que também ainda não chegou, o patrão não lhe concedeu anuência, mas que está em algum lugar, a respirar, a ver alguma coisa, quase de certeza a pensar em nós, quase de certeza a pensar que gostava de estar aqui.

E esta hora tão precisa, intensa, a minha mãe, resguardada pela luz e pela escuridão, o candeeiro de petróleo a aguentar todo o peso da noite. A minha mãe com a cintura envolta em nuvens, entorna a água sobre o coador. É café do melhor, trazido de Espanha pelo meu tio, é ouro. Vai preparar canecas de café com leite para as minhas irmãs e para mim, para o meu irmão mais tarde, a Clarisse irá lamber os lábios para não desperdiçar nenhum cristal de açúcar, a minha mãe irá desfrutar do consolo de ver-nos consolados. Caem as últimas gotas negras pelo bico do filtro, cone invertido, o eflúvio do café». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

 Cortesia de QuetzalE/JDACT

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Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «As minhas irmãs continuam no quarto. Não me viro para ver a minha mãe, mas sinto a sua presença, mãe desmedida, este é o mundo onde ela existe»

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26 de Março de 2021

«Hoje, durante toda a tarde, atravessei Campo Maior bastas vezes. Pousei o livro da segunda classe, comi um caldo e, logo a seguir, estava eu já disposto, encostado a dois breves minutos de folga, em silêncio bem-comportado. A minha mãe aceitava uma encomenda, pode deixar que eu falo com o meu Rui. Eu ali, transparente ou invisível, e a minha mãe a falar de mim, o Rui dela. Temos carne nova na mercearia, sabes e por toda a vila. O porco foi morto ontem e, àquela hora, já não estava pendurado de cabeça, preso pelas patas traseiras, tinham começado a desmanchá-lo no primeiro início da manhã, cedo, no fresco, antes ainda da minha abalada para a escola.

Pode deixar que eu falo com o meu Rui, e falaria, mas o primeiro mandado já estava capaz de ser feito. Com solene cerimónia, a minha mãe apresentou-me um prato de fêveras, coberto por um pano. E tanto o prato, como o pano, como as fêveras, pertenciam à melhor selecção.

Atravessei a praça da República e, depois, escolhi as ruas que me pareceram mais apuradas para aquele desfile. Levava o prato à frente do peito, seguro pelas duas mãos. Em cada passada, levantava o pé com firmeza, não arriscava sequer tropeçar numa ideia. Nesse rigor, cruzei-me com moços da minha idade, obrigados a decorar os mesmos rios de Angola que eu e, apesar dessa grande confiança, não nos cumprimentámos. Em silêncio, reconhecendo gravidade, ficaram apenas a seguir-me com o olhar.

Mais perto da casa do doutor, crescia o desejo de ver o meu pai, talvez calhasse a achá-lo entre uma tarefa e outra, podia mesmo coincidir com a oportunidade de um passeio no carro do patrão, do doutor, os bancos de couro, o gargalo esticado para ver a estrada depois do capô, longa carroçaria de chapa mociça, e o meu pai, compenetrado, os braços pousados no guiador, pronto para qualquer manobra. Mas, quase ao mesmo tempo, logo colado a esse pensamento, o coração desengatilhava-se a bater, tipo bombo, era o medo de encontrar o filho do doutor, medo de que andasse solto, espírito envenenado. Fiz os últimos metros nesse suplício, como se o prato de fêveras me puxasse a mim. Fui direito às traseiras, bati à porta da copa, chegou uma servente de cozinha que me desenganou logo da possibilidade de ver o meu pai, tinha acabado de sair de automóvel, tinha ido levar ou buscar a patroa, a esposa do doutor.

À espera da devolução da loiça, a ansiedade cresceu com a idealização do filho do doutor, rosto esgazeado que podia saltar-me à frente. Assim que recebi o prato enxaguado, a pingar água, o pano muito bem dobrado, quis sair dali. Nessa urgência, distingui um urro abafado, talvez o filho do doutor, trancado em algum ponto daquele casarão, ou no interior da minha cabeça.

As brasas, como pequenas almas. A cinza, quase misturada com a sombra, pó de sombra. O leite, escondido na sua cor, mas prestes a irromper de repente pelas paredes do púcaro. Tenho de evitar essa bruteza de desperdício. Tenho também de esquivar-me aos pingos súbitos que as barrigas dos chouriços largam, chuva muito lenta de gordura espessa, gordura que se desfez para atravessar os poros das tripas e, depois, aquecida por este fumo paciente, se reagrupou num pingo meloso. Não afasto o olhar do lume, estou de guarda às chamas e ao leite, mas reconheço na pele o toque da luz do candeeiro, o aroma tóxico e doce do petróleo queimado. O meu irmão ainda não chegou a casa. Não se sabe a que horas o meu pai chegará, dispensado por fim pelo doutor. As minhas irmãs continuam no quarto. Não me viro para ver a minha mãe, mas sinto a sua presença, mãe desmedida, este é o mundo onde ela existe». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

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terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «Aqui, este lume tem de cumprir dois deveres para servir a nossa família. O primeiro são os varões de farinheiras, chouriços, morcelas, paios e paiolas na chaminé. Esses enchidos foram enfiados um a um nos varões…»

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26 de Março de 2021

«Como se tomasse sabor à língua ressequida, como se comesse papas imaginárias, abriu e fechou a boca, repetiu breves estalidos. A seguir, apertou as pálpebras nos olhos e, ao destapá-las, a penumbra ganhou formas, foi capaz de distinguir a luz que chegaria apenas mais tarde, o nascer efectivo do dia, luz que haveria de atravessar alguns pontos da janela fechada e, a partir daí, disparar linhas no ar do quarto, conferindo dados suficientes para um cálculo de área e volume. Mas ele tinha referências de maior confiança, conhecimento acumulado sem necessidade de medições, todos os dias em que despertava naquele quarto. Por orgulho, ignorava ainda o despertador. Mas existia o tempo e a respiração da mulher, que resvalava ténue no céu da boca. E o mesmo reconhecimento de pureza, Alice, ligação simples e, naquele silêncio de sons quebradiços, ligação profunda.

Em passos seguidos, indiferente à roupa escolhida, dobrada e preparada de véspera, fez o caminho que a cabeça lhe ditava. Ocupado nessa tarefa, regressou ao seu nome. Regressou ao nome que a mulher lhe chama todos os dias, o que lhe chamava logo depois de se casarem, com um ou dois meses de casados, o nome que lhe chamavam na tropa, em Elvas, o nome que a mãe lhe chamava, a voz da mãe, cada momento em que a voz da mãe se ouvia de novo, o seu nome entre frases que a mãe dizia pela primeira vez, mas também o nome que os funcionários lhe chamam, os funcionários mais antigos e os mais novos, avós, pais, netos, o nome que os clientes lhe chamam, de norte a sul, até os clientes estrangeiros, e o nome por que é tratado nas ruas de Campo Maior, que escuta às vezes, quase sussurrado quando alguém dá alerta para a sua passagem, e o nome que as irmãs lhe chamavam, as manas, e o tio Joaquim, homem bem falante, e o professor na terceira classe, o seu nome a atravessar a sala de aula, a luz da sala de aula, o seu nome a atravessar manhãs antigas, e o nome que o pai lhe chamava, o pai, a maneira como o pai referia o seu nome, os tons com que o pronunciava, a voz do pai existiu, não foi esquecida, existiu.

Onde existia a voz do pai naquele instante?

O fato de treino tinha cheiro de armário. Assim que terminou de vesti-lo, de puxar o fecho do casaco, acertou os elásticos na cintura. Em sequência, atou as sapatilhas, um pé, outro pé, e levantou-se devagar, mas com firmeza, sem precisar de se agarrar a nada. Passou a mão pelo bigode e saiu.

O lume tem de se conformar com chamas comedidas, sem extravagâncias de grande queima. Pode envolver os madeiros, dar-lhes uma capa de flama, mas não pode atirar-se à bruta para cima dos chamiços, por muita sede que lhes tenha. Aqui, este lume tem de cumprir dois deveres para servir a nossa família. O primeiro são os varões de farinheiras, chouriços, morcelas, paios e paiolas na chaminé. Esses enchidos foram enfiados um a um nos varões, que ficaram amparados por dois bancos antes de serem alçados, distribuídos pelos vários escalões do interior da chaminé. O segundo encargo deste lume é o púcaro de leite e a cafeteira. Não se pode deixar o lume avivar muito enquanto estiverem estas carnes a fumar, uma dúzia de dias pelo menos, mas este leite precisa de algum fogacho para ferver. É por isso que estou de sentinela, esta cana serve para animar o lume se começa a esmorecer, mas também para lhe dar uma cacetada se quiser levantar cabelo.

A nata do leite, mal cheguei com a vasilha, a minha mãe prometeu-me essa iguaria. A noite estava começada, mas não sei se tinham batido as seis no relógio da igreja matriz. Oferta de mãe, afeição natural. Se fosse preciso uma razão em voz alta, havia o vigor que a nata me infundia, gaiato de nove anos a fazer-se, mas ninguém pediu razões». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

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Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «Abriu os olhos, regressou ao seu corpo. Começou por virar-se devagar e, ao fazê-lo, regressou à sua idade: oitenta e nove anos, esse número. Enquanto rolava o corpo no colchão…»

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26 de Março de 2021

«Se continuasse nessa direcção, pouco tardaria para alcançar a fronteira. Ali, no sossego, os nervos da fronteira eram uma memória inofensiva, despertaram-lhe certa forma de entusiasmo ou de juventude, mas não deu o passo que ultrapassaria essa linha, regressou de repente ao discernimento do quarto, ainda o corpo na mesma posição, imóvel, deitado, interessado no morno, a madrugada.

O passado tem de provar constantemente que existiu. Aquilo que foi esquecido e o que não existiu ocupam o mesmo lugar. Há muita realidade a passear-se por aí, frágil, transportada apenas por uma única pessoa. Se esse indivíduo desaparecer, toda essa realidade desaparece sem apelo, não existe meio de recuperá-la, é como se não tivesse existido. Lembrou-se do bolo seco na boca, a mastigar o bolo, a não conseguir engoli-lo, voltas e voltas na boca, um cálice de licor, a molhar a ponta dos lábios num cálice de licor, esse doce a misturar-se com a massa mastigada do bolo. O passado é enorme, é como uma montanha, e assenta inteiro sobre o presente, que é como uma agulha, como a ponta afiada de uma agulha. Uma montanha assente sobre a ponta de uma agulha, onde é que já se viu?

Imóvel, deitado, libertava frases dentro de si. Eram frases que se afastavam na escuridão, tinha tempo de observá-las, considerá-las. Talvez devido ao silêncio daquela hora, talvez devido à limpeza do jejum, eram frases que continham uma verdade solene e ardente, com alguma angústia às vezes, sobretudo no momento em que começavam a desfazer-se, a misturar-se com as coisas esquecidas, a voz a tornar-se vaporosa. A quem pertencia aquela voz? Fixou-se nela. Escutou-a com a mesma clareza com que teria escutado uma voz vinda de fora, alguém a falar-lhe. No entanto, aquela era uma voz que dizia eu e que, ao fazê-lo, se referia a ele. Quem dizia eu no seu interior? Era ele aquela voz?

Sentiu a mulher a seu lado, que nome bonito, Alice, nome de menina, e quase pensou em despertá-la, partilhar o alívio. Mas conhecia bem o seu rosto adormecido, amparou-se nele tantas vezes ao longo das décadas, rosto indefeso, confiança absoluta, Alice, vários rostos e, no entanto, sempre o mesmo. Essa lembrança, como fotografias sobrepostas, chegou-lhe à garganta, a ternura é uma forma sublime de amizade. E, ainda de olhos fechados, precisou de inspirar fundo, como se sorvesse toda a escuridão e, logo a seguir, a devolvesse à madrugada.

Abriu os olhos, regressou ao seu corpo. Começou por virar-se devagar e, ao fazê-lo, regressou à sua idade: oitenta e nove anos, esse número. Enquanto rolava o corpo no colchão, cilindro, insecto lento, tentava não acordar a mulher, ruídos de molas, juntas da cama, corrente de ar abrupta ao rés dos lençóis. Ao mesmo tempo, uma guinada na lombar, a nuca pouco articulada, os pulsos a terem de ser manobrados com prudência para não se abrirem numa luxação. E, na saída da roupa da cama, reprimiu o suspiro que a coluna aprumada e as vértebras encaixadas lhe pediram. A ponta do pé, embicada, tocou o chão». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

JDACT, José Luís Peixoto, Literatura, Narrativa, Campo Maior, Rui Nabeiro, O Saber, 

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «Sabia de episódios em todos os recantos da vila, presenciara uma parte deles, salpicado por muita realidade, e vivera uma porção ainda mais extensa desse rol. E sorria com força nova…»

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26 de Março de 2021

«Acordou sem idade. Lembrou-se do corpo, mas não mexeu um dedo. Sentiu a roupa da cama, indistinta daquela hora da madrugada, mas não abriu os olhos. Coberto pelo agasalho, preferia a escuridão à penumbra ou, pior ainda, aos números modernos e implicantes do despertador electrónico. As pálpebras eram-lhe leves, da mesma maneira que era leve o mundo naquele instante, o silêncio lá fora sobre a vila, o ar limpo que inspirava e que o desimpedia por dentro. Não mexeu um dedo ou qualquer músculo, tinha certezas. Sabia que envelhecer é acumular dores: começam por doer certos gestos, certos jeitos, virar-se de repente, agachar-se para atar o sapato; depois, doem as acções mais comuns, sentar-se, levantar-se, caminhar; até que, por fim, dói tudo, dói estar, dói ser.

Essas eram as dores que não sentia ali. Estava como na mocidade ou, pelo menos, estava como quando desconhecia determinadas queixas. Deitado, louvava as serventias da ignorância e, sem querer entregar-se à excessiva ingenuidade, quase acreditou que podia ter rejuvenescido de repente. Era uma hipótese, quem sabe, se calhar. Já tinha sido testemunha de fenómenos muito mais imprevistos. Se lhe fosse oferecido esse negócio, estava pronto a aceitá-lo de imediato, embora jamais se mostrasse demasiado ansioso, há muito que conhecia as regras das transacções comerciais. Em todo o caso, à cautela, permanecia imóvel, mantinha a posição.

Lembrou-se dos óculos do Marcello Caetano. E baralhou-se, passou um segundo ou o que pareceu ser um segundo. Lembrou-se do cheiro avinagrado da massa das farinheiras e quis continuar nessa lembrança, prosseguiu, a massa branca que repousava em dois alguidares, grãos de gordura a brilharem, a mãe e duas mulheres a instalarem-se em bancos, de roda do primeiro alguidar e, com unhas cortadas à tesoura, a encherem as tripas, e a massa das farinheiras nas costas das mãos, quase a chegar aos pulsos, enfiavam-na com os dedos num pequeno funil de alumínio e, através desse instrumento, nas tripas, que não enchiam completamente antes de amarrar com o atilho, e a mãe a levantar o rosto, a dar por ele, seu filho, a chamá-lo, a chamá-lo de novo no interior dessa lembrança. Vinha de longe a voz da mãe e, no entanto, custava-lhe diferenciá-la de si próprio. Onde existia a voz da mãe naquele instante? E repetiu a lembrança da mãe a chamá-lo, o cheiro avinagrado da massa das farinheiras.

Era um homem deitado. Como se, ao perder a idade, tivesse perdido uma parte do nome. Desfrutava de uma simplicidade que esquecera durante longas temporadas. Como se tivesse sido aliviado de uma carga invisível, talvez o olhar que as multidões lhe dirigiam quando chegava, talvez o peso do respeito, senhor comendador, senhor comendador, era um homem deitado. Ou seja, mantinha o nome, sempre recusou ser anónimo, levava o nome entranhado, mas tinha perdido o peso que o tempo lhe acrescentara. Mantinha a história mas, incrivelmente, como um mistério daquela hora da madrugada, o peso que lhe sobrecarregava os ossos tinha sido levantado.

Aproveitou essa liberdade, sorriu por dentro. Essencial, reduzido ao ser ou, com mais rigor, ampliado nele, seguiu a reverberação imaterial que ocupava e estendeu a sua presença à casa, silêncio formal, cerimonioso, pontilhado por estalidos aleatórios na distância, madeiras a queixarem-se. Deitado na cama, na vasta escuridão dos olhos fechados, avançou por corredores, entrou em divisões que, apesar da passagem dos anos, continuavam a parecer-lhe novas. Recordou o momento em que foram projectadas e edificadas; com a mesma facilidade, poderia ter recordado o tempo em que apenas as imaginava.

Nunca quis acostumar-se à posse, deixar de apreciar, perder o gosto, era aquela uma casa boa. E atravessou as paredes da casa, muros, portas, portões, ou atravessou uma ideia com a mesma grossura, e lançou o sentido nas ruas da vila. Conhecia todas as ruas, tanto as mais antigas, distorcidas por séculos, calcorreadas por gente e gente, sombras sacrificadas, como as mais recentes, ainda cheirosas de cimento. Se fosse preciso, não lhe custaria achar caminho em Campo Maior na noite mais preta, sem lua, sem iluminação pública, de olhos fechados.

Em tempos, pousara a palma da mão bem aberta na cal, sentira-lhe as múltiplas camadas. Sabia de episódios em todos os recantos da vila, presenciara uma parte deles, salpicado por muita realidade, e vivera uma porção ainda mais extensa desse rol. E sorria com força nova ao reparar no fresco de algumas ruas, aragem que bulia entre as fachadas, erguidas de um lado e de outro, portas abertas ou apenas encostadas, o trinco solto, roupas estendidas de gente que conhecia bem, vozes a tratarem do jantar, braseiras espalhadas nos fins de tarde de Março, a avivar as brasas para o serão. A que ano pertenceriam esses marços?, esta era a pergunta que não colocava, preferia analisar o aroma das folhas de laranjeira, vindo de algum quintal, de alguma horta, já talvez a caminho do campo e, dessa maneira, escutava o som das botas a pisarem a terra, ervas de Março ou, mais provavelmente, ervas sem mês e sem ano». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

 Cortesia de QuetzalE/JDACT

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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Festas do Povo, das Flores 2011. Campo Maior: «Passados sete anos, Campo Maior volta a realizar a sua maior tradição, o seu cartão de visita para Portugal e para o mundo entre 27 de Agosto e 4 de Setembro.



Cortesia de afdopovo



Sete anos depois da última edição, as Festas do Povo de Campo Maior voltam a realizar-se este ano, entre 27 de Agosto e 4 de Setembro.
«Estamos muito satisfeitos por esta manifestação e vontade em realizar as festas por parte dos habitantes da vila», disse o presidente da Associação das Festas do Povo de Campo Maior, recordando que o evento não se realiza desde 2004. De acordo com João Rosinha, “as festas são uma tradição secular do nosso povo e não podemos nem queremos perder esta manifestação da nossa identidade”. As Festas do Povo, são um evento tradicional único, contemplam a ornamentação das ruas de Campo Maior, sobretudo do centro histórico, com milhares de flores em papel, feitas pela própria população.


Cortesia de afdopovo



Estamos confiantes que conseguimos chegar até às 90 ruas inscritas. A maior parte delas, entre 85% a 90%, localizam-se no centro histórico da vila, salientou. Em tempos de crise, a organização pretende estimular a economia da vila e da região. No decorrer das festas, são esperados mais de um milhão de visitantes de todo o país e também turistas provenientes de várias partes do mundo, sobretudo da vizinha Espanha. «A realização das festas é bastante importante para a dinamização da economia da vila, da região e até da vizinha Extremadura espanhola, num raio de 120 quilómetros. Todos ficamos a ganhar», garantiu o presidente da associação. São muitas toneladas de papel, madeira, arame, esferovite e cola para a população iniciar os trabalhos, observou João Rosinha.



Cortesia de afdopovo



A Associação das Festas do Povo de Campo Maior pretende igualmente candidatar o evento cultural a Património da Humanidade, pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura). «Assim que passar a azáfama da organização dos trabalhos, vamos pensar, de uma forma mais séria, na candidatura a Património da Humanidade», esclareceu.
As Festas do Povo de Campo Maior consistem na decoração das ruas da vila, sobretudo no centro histórico, com flores de papel e outros objectos em cartão e papel, feitos pelos habitantes de cada uma das ruas. O trabalho desenvolvido em cada rua fica em segredo, mesmo para amigos e familiares dos moradores, e só é dado a conhecer na noite da «enramação», que antecede o início da celebração». In Café de Portugal, Associação das Festas do Povo, Câmara Municipal de Campo Maior.

A Amizade do amigo e colega CDT.
Cortesia do Café de Portugal/JDACT

sábado, 19 de março de 2011

A Fortaleza de Campo Maior: «Erguida no alto do outeiro de Santa Vitória para defesa da raia alentejana, do alto de suas torres divisam-se as vizinhas Badajoz e Elvas. Só seria incorporada definitivamente aos domínios de D. Dinis em virtude do Tratado de Alcanises, 1297»


Cortresia de campomaior

Erguida no alto do outeiro de Santa Vitória para defesa da raia alentejana, do alto de suas torres divisam-se as vizinhas Badajoz e Elvas. Actualmente o monumento integra a Praça-forte de Campo Maior, depois da de Elvas, a mais importante fortificação do distrito de Portalegre.
A vila foi conquistada por forças portuguesas entre 1295 e 1296. Só seria, entretanto, incorporada definitivamente aos domínios de D. Dinis em virtude do Tratado de Alcanises, 1297. Para incrementar o seu povoamento e assegurar-lhe a defesa, o soberano concedeu-lhe Carta de Foral e determinou a reconstrução do seu castelo, 1310.


Diante do crescimento da povoação e da sua importância estratégica sobre a raia alentejana, D. João II ampliou-lhe as defesas, fazendo erguer uma nova cerca envolvente que inscrevia toda a vila dentro das muralhas. Esses trabalhos prosseguiam sob o reinado de D. Manuel I, quando foi figurada por Duarte de Armas no seu Livro das Fortalezas (c. 1509).


JDACT
Nos séculos XVII e XVIII, diante da modernização dos meios ofensivos, a defesa da vila foi remodelada com a introdução de linhas abaluartadas e construção de novas instalações militares, transformando a povoação medieval em uma Praça-forte.
O conjunto medieval foi severamente danificado em 1732. Por volta das 3 horas da madrugada, durante uma violenta tempestade, registrou-se a queda de um raio sobre a torre do castelo e posterior explosão e incêndio.
No século XX o castelo foi classificado como Monumento Nacional. Foram iniciadas obras de consolidação e restauro, caracterizadas por trabalhos de reconstrução. Uma segunda etapa de obras foi iniciada na segunda metade da década de 1960, estendendo-se até ao início da década de 1970, marcada por intervenções nas muralhas do castelo e na Capela de Nossa Senhora dos Aflitos. Uma terceira etapa teve lugar na década de 1980. No início de 2010 registou-se o desmoronamento parcial do monumento devido a condições de forte instabilidade atmosférica e chuva persistente.


JDACT
«Mandado edificar por D. Dinis, em 1310, este castelo fronteiriço da raia alentejana foi profundamente alterado em meados do século XVII, aquando das guerras da independência, segundo traças e direcção do engenheiro militar Nicolau de Langres. Da época medieval subsistem apenas alguns panos de muralha e parte da torre norte, com os seus matacães. Da cintura, fortificada na campanha seiscentista, restam, ainda, baluartes, portas e revelins. Em 1732, uma violenta trovoada causou a ruína de uma das torres que servia de paiol. A explosão que então deflagrou e o incêndio que se seguiu afectaram grande parte da vila e consumiu mesmo mais de metade das habitações em redor do castelo. D. João V ordenou a sua reconstrução, a cargo do engenheiro militar Manuel de Azevedo Fortes, transformando as antigas ruínas medievais numa fortaleza mais pequena, mas de maior operacionalidade». In PAF, IGESPAR. 

Cortesia de IGESPAR/wikipédia/JDACT

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Conflito Luso-Espanhol de 1801: Parte II. O «Combate de Arronches» A guerra que opôs portugueses e espanhóis, em 1801, teve como palco privilegiado o Alto Alentejo. Nessa breve campanha de duas semanas, que se saldou pela derrota das forças lusitanas e pela perda de Olivença e seu termo, apenas ocorreram acções militares com algum significado em Arronches, Flor da Rosa e Campo Maior

Cortesia de edicoescolibri

Com a devida vénia a António Ventura, o Combate de Flor da Rosa, edição patrocinada pela Câmara Municipal do Crato, ISBN 972-8288-23-9, Edições Colibri, Junho de 1996.

O Combate de Arronches
«A posição de Arronches foi ocupada por 1300 homens de Infantaria e de Cavalaria, sob o comando do Coronel D. José Carcome Lobo, com instruções para não guarnecer a praça, mas de a utilizar apenas como ponto de apoio. Não se pretendia conservar Arronches, que não tinha, aliás, condições para uma defesa eficaz, dado o mau estado das suas fortificações, mas apenas estacionar ali uma força de observação para manter linhas de comunicação e para qualquer eventual operação de auxílio a Campo Maior, que sofria um rigoroso cerco, ou surtida sobre Monforte. Essas forças deviam recusar um confronto de envergadura com o inimigo, e possuíam instruções para, em caso de ataque espanhol, retirar em boa ordem em direcção a Alegrete. As rotas estavam previamente definidas e, no lugar de Mosteiros, o Brigadeiro Bernardim Freire de Andrade, com algumas forças, apoiaria a operação a realizar ou daria cobertura à retirada.

Alegrete
Cortesia de azenhadoramalho
Verificada a impossibilidade de socorrer Campo Maior, chegam a Arronches notícias de uma próxima investida espanhola. Monforte fora ocupado, o mesmo sucedendo a Assumar. Pelos diários de operações das Divisões espanholas observamos que duas delas - a 2ª e a de Vanguarda – avançaram sobre Arronches, onde corriam notícias sobre uma hipotética presença de novas tropas em Codecera, o que, a ser verdade, e juntamente com as que avançavam a partir de Assumar, ameaçariam a praça pelos flancos. Alguns contactos havidos entre vedetas portuguesas e espanholas comprovavam que a ameaça era, pelo menos em parte, real. D. José Carcome, em vez de retirar, ficou em Arronches, e quase foi surpreendido pela chegada súbita das forças adversas. Nem sequer tomou partido de algumas vantagens do terreno, encontrando-se a maior parte dos soldados portugueses formados no Rossio, fora das muralhas.

Arronches
Cortesia de cmarronches
A derrota foi rápida e só não assumiu a forma de uma catástrofe total pela pronta intervenção de Bernardim Freire, que enviou algumas tropas de Mosteiros para protegerem a retirada dos que estavam em Arronches. A confusão não podia ser mais completa; a Cavalaria debandou no meio do maior caos, atropelando a Infantaria. Os soldados fugiam cada um para seu lado, encurralados entre o rio e os muros da Vila, abandonando bagagens e armas.O relatório de D. José Carcome, onde pretende justificar a sua actuação, deve ser confrontado com o que Bernardim Freire de Andrade elaborou sobre os mesmos sucessos. Apresentam, como é óbvio, diferenças assinaláveis...

D. Manuel Godoy, nas suas Memórias, escritas muitos anos depois, no exílio, sem recurso a documentos e, por isso mesmo, com numerosas imprecisões, descrevia o combate de Arronches da seguinte forma: «Era ya el 28; noticioso yo de que el 30 era el dia senalado para el ataque general de nuestias posiciones, resolvi anticiparme y cargué el 29 sobre Arronches. La guarnición de aquella plaza, fuerte casi de dos mil hombres de tropas veteranas, o fuese por estar mal segura de poder defenderia sin el auxilio de las tropas que debían mostrarse el 30, o creyendo más bien que el ataque general se comenzaba ya por otros puntos, dejó la fortaleza para hacernos frente a campo raso, cierta de tener a poco trecho detrás de ella la vanguãrdia del Ejército. Llegó, en efecto, ésta y la caballería enemiga cubriendo sus dos alas. Nuestras tropas ligeras de vanguardia y algunos escuadrones de la división primera nos bastaron para ahuyentar a los que en grande fuerza habían de sostener a los de Arronches; la caballería enemiga, huyendo a toda brida desde el primer encuentro, desbarató los batallones que venía cubriendo; la fuga de éstos fué precipitada; la guarnición de Arronches, cortada de la plaza, retirándose de un punto a otro, y aguardando el socorro, nos hizo frente un poco tiempo, pero en vano. Unos trescientos hombres quedaron fuera de combate entre muertos y heridos; outro número casi igual quedaron prisionerosj los demás pudieron escaparse amparados de las malezas y con mejor conocimiento que nosotros de las sendas y los rodeos de aquel terreno. Arronches fué ocupada por nosotros».

Manuel Godoy
Cortesia de wikipédia

D. José Carcome, muito criticado pela incompetência demonstrada, foi considerado responsável pelo ocorrido, mas não sofreu qualquer punição, continuando a manter a confiança do Duque de Lafões que, na noite em que recebeu a notícia do que sucedera em Arronches, elogiou o comportamento daquele oficial bebendo à saúde da sua bravura. No livro que dedicámos ao Combate de Arronches alinhámos algumas notas biográficas, ainda que incompletas, sobre aquele polémico militar.

D. José Carcome Lobo nascera em Ameixoeira, em 1757, filho e neto de militares. Assentou praça em Agosto de 1774 no Regimento de Lippe, transitando em 1778 para o de Setúbal. A partir de l781 faz serviço no Regimento da Armada,nomeadamente na nau «Santo António» e nas fragatas «Bom Despacho» e «Cisne» (1785). Em Abril de 1794 era Capitão graduado do Regimento de Cascais, passando para o Regimento de Infantaria de Castelo de Vide como Sargento-Mor (25 de Abril). Nesse mesmo ano, a 15 de Outubro, passou para a 2ª Companhia de Granadeiros do Exército Auxiliar à Coroa de Espanha. Como reconhecimento pelos serviços prestados no Rossilhão e na Catalunha, foi promovido a Tenente Coronel agregado do Regimento de Castelo de Vide (17-12-1795) e pelas «suas qualidades merecimentos e serviços», era novamente promovido em 17 de Dezembro de 1797, passando para o 2º Regimento de Infantaria de Olivença com a patente de Coronel.

Geografia Histórica, 1736
Cortesia de edicoescolibri

Quanto à sua experiência guerreira, existem referências contraditórias. Soriano, que escreve muito depois dos acontecimentos e certamente influenciado pela opinião geral desfavorável sobre o militar, afirma que fora «criado somente nos exercícios de paradas», enquanto que Stockler refere a experiência de Carcome no Rossilhão, concluindo que o que lhe faltava era preparação teórica, não deixando, porém, de rematar: «mas de que vale a prática da guerra sem os princípios da Arte?».

Após a derrota de Arronches, as tropas portuguesas sediadas entre aquela vila e Alegrete, comandadas por Bernardim Freire de Andrade, retiraram em direcção a Portalegre. Nesta cidade, onde já se encontrava o Duque de Lafões, as notícias da derrota causaram uma profunda inquietação, ampliada por boatos alarmistas que davam como certa a chegada de tropas espanholas aos arredores da cidade e de reforços inimigos a Valência de Alcântara, o que possibilitariam uma nova frente de ataque. O Exército português abandonou Portalegre e empreendeu uma retirada em direcção a Alpalhão, no que foi seguido quer pelas forças que marchavam a partir de Alegrete, e que tomaram a estrada de Castelo de Vide, quer por outros corpos que guarneciam a Serra de Portalegre. As tropas espanholas puderam avançar sem resistência, apoderando-se de armazéns, depósitos de munições, hospitais e bagagens que as forças portuguesas abandonaram. Em alguns casos, as próprias autoridades portuguesas cooperavam com os invasores , como sucedeu com o governador de Portalegre, Mateus de Pina Pereira Moscoso». In O Combate de Flor da Rosa, edição patrocinada pela Câmara Municipal do Crato, ISBN 972-8288-23-9, Edições Colibri, Junho de 1996.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

quarta-feira, 9 de junho de 2010

D. Manuel de Meneses: Foi um general da Armada Real, cronista-mor e cosmógrafo-mor de Portugal. Um alentejano de Campo Maior protagonista de muitas «aventuras no mar e em terra»

(1565-1628)
Campo Maior
Cortesia de wikipédia
D. Manuel de Meneses foi um general da Armada Real, cronista-mor e cosmógrafo-mor de Portugal. Num artigo publicado no «Diário do Minho» (28 de Abril de 2003), escrito por Vítor Serrão, aprende-se que, Joana Baptista, freira no convento das Maltesas de S. João de Estremoz, que deixou obras de pintura em casas franciscanas, como o cobre de Santa Maria Madalena proveniente do Convento do Salvador, de Braga (agora no Museu Nacional de Arte Antiga, inv. nº 1058) e em lugares beneditinos, como o Mosteiro de Tibães, «originária de Campo Maior, segundo a tradição, era irmã do general do exército real, D. Manuel de Meneses, cronista do rei».
«Foy duas vezes casado,a primeira com D. Luiza de Moura, filha herdeira de Francisco de Moura, e D. Maria de Castro de quem teve a D. João de Meneses que não deixou successão, e a segunda com D. Maria de Castro filha de D. António de Mendoça, commendador de Moura, senhor de Marateca, e de D. Anna de Castro». In Barbosa Machado.

Planta da Restituição da Bahía, por João Teixeira Albernaz, 1631
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«D. Manuel de Meneses, desde muito novo manifestou grande talento; estudou matemática, música e história. Era homem muito perito em assuntos genealógicos. Começou a servir na carreira militar embarcando na armada inglesa que veio a Lisboa a favor de D. António, prior do Crato, e como era de gentil presença e muito semelhante à da gente do norte, foi preso por alguns guardas milicianos como espião dos ingleses, e por esse facto conservou toda a vida a alcunha de flamengo, nome com que nessa época designavam indistintamente, todos os habitantes do norte da Europa. Passada essa ocasião exerceu quatro vezes o posto de capitão-mor das naus da Índia, sendo a primeira em 1581, e depois em 1609, 1614 e 1616, tendo nas penúltima arribado a Lisboa, e na última depois de renhido combate com quatro naus inglesas naufragou na costa da ilha de S. Lourenço, donde afinal surgiu no porto de Goa. Acompanhou a Paris o seu parente o duque de Pastrana, e depois sucedeu no cargo de cronista-mor do reino a Frei Bernardo de Brito e mais tarde no de cosmógrafo-mor a Manuel de Figueiredo, discípulo do célebre Pedro Nunes. Retirando-se então para uma sua quinta em Campo Maior, vivia aí todo entregue aos seus estudos, quando em 1625 foi nomeado com o posto de general para comandar a armada de vinte e seis navios guarnecidos de 24.000 homens com a qual se restaurou nesse ano a Baía. Regressando à pátria desejou o governo do reino do Algarve para viver ali como dizia abraçado com os livros e os seus compassos, mas não lhe satisfizeram essa vontade, e em 1626 foi mandado conduzir as naus que vinham da Índia governadas pelo capitão-mor Vicente de Brito de Meneses. Sendo colhido por uma grande tormenta essa armada, veio por fim a perder-se na costa de França em Janeiro de 1627, e esse infeliz sucesso foi largamente narrado por D. Francisco Manuel de Melo, nas suas Epanáforas. De França passou D. Manuel de Meneses a Madrid e voltando à pátria faleceu pouco tempo depois. Escreveu D. Manuel várias obras, mas de todas unicamente há a certeza de estar impressa a que tem por título: Relacion de Ia armada de Portugal del ano 1626. No século passado saiu por diligência do Sr. Varnhagen, na Revista trimensal do Instituto, um outro trabalho sobre a Recuperação da cidade do Salvador. A Crónica d'el-rei D. Sebastião que ele escreveu e que deixou incompleta, e cujo manuscrito existia no mosteiro de Alcobaça, nunca viu a luz da impressão, e a que o padre Bayer publicou em nome dele é decididamente apócrifa. Se dermos crédito a D. Francisco Manuel de Melo imprimiu-se também uma outra obra de D. Manuel de Meneses escrita em latim e português e cujo título era Relação do sucesso e batalha que teve com a nau S. Julião com a qual, sendo capitão-mor daquela viagem, se perdeu na ilha de Comero além de Madagáscar ou S. Lourenço no ano de 1616».  In Portugal, Dicionário Histórico, Manuel Amaral

Capitanias de Castela e de Portugal. Em frente navios de fogo
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«Quando moço, Dom Manoel, deu mostras de grande aplicação às boas letras; tanto que sendo filho mais velho, estudou como para letrado. Inclinouse com felicissimo progresso, às sciencias Mathemáticas, em que teve por Mestre ao Padre Delgado, discipulo de Clávio. Soube com perfeição a música, e professou a historia Romana, e Grega: de cujo idioma tinha algum conhecimento: e singular noticia, por longo estudo, das linhagens do Reyno; logrado com tal satisfação de si proprio, que muytas vezes lhe ouvi: "Desejára ter oficio de poder casar, elle sómente, aos homens de Portugal; porque só elle, lhes poderìa dar a cada hum, a molher que lhe competisse". Amava a Poesia, e della antes a poética, que a versificatoria: o que lhe procedia de sêr nos versos (que tal vez provou a fazer) infelicíssimo; quão prático nos preceitos da arte, assi no modo Lyrico, como no Cómico, Satyrico, e Épico. O seu Autor latino era Tácito, o Grego Tucídides; e dos Poetas vulgares, estimava pella variedade o Ariosto: confessando sobre os heroycos, a eminencia do nosso Camões.
Começou a servir na guerra, quando a vinda dos Ingrezes a Lisboa, que o Prior do Crato, Dom Antonio (António I de Portugal), conduziu com grande Armada, em socorro de seus direitos ; e como Dom Manoel fosse então mancebo, e fosse tal, não sendo comummente conhecido, com presença muito semelhante aos naturais do Norte, sucedeu, que por algumas companhias de gente miliciana, foi preso, com vós : De que era espião dos Ingleses, que entre os Portugueses se dissimulava. Por esta causa, reteve toda a vida, a alcunha de Flamengo: como em Portugal viciosamente são chamados, sem distinção, todos os Estrangeiros». «Passada esta ocasião, continuou o serviço da guerra nas Armadas, em as quais foi brevemente capitão dos melhores navios; e quatro vezes depois Capitão-mor das naus da Índia, donde só duas viagens fez a salvamento, e das restantes, uma se perdeo, e arribou outra, de que lhe resultaram mais calunias, que mercês pelas duas que acertou ; ambas de maior crédito, que interesse: o qual ele desestimava, e a penas conhecia, por ser de coração alto, e exquisitamente desapegado de pompas, que reprehendia com sobejo desprezo». In Da Epanáphora trágica de D. Francisco Manuel de Melo

Plataformas que «asentou Dõ Manuel de Meneses»
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Frazão de Vasconcellos só reconhece três Armadas da Índia em que D. Manuel de Meneses foi como capitão-mor. Diz «que a primeira capitania-mor de D.Manuel de Meneses que se encontra documentada é a da armada de 1609, de cinco naus, que saíu a barra de Lisboa em 22 de Março. D. Manuel ía na nau Piedade. As outras eram a Jesus, capitão Antonio Barroso, a Penha de França, capitão Ambrósio de Pina, a Guadalupe, capitão Luís de Bardi.
Depois houve a «Armada de 1613», que se compunha de quatro naus e partiu de Lisboa em 5 de Abril. D. Manuel de Meneses, capitão-mor, ia na nau Nossa Senhora da Luz. Arribaram todas as naus a Lisboa no mês de Agosto e não tornaram a saír nesse ano».
«E por fim «a terceira e última capitania-mor da carreira da Índia» de que teve mercê foi a da armada de 1616, composta das naus S. Julião, em aquale ia embarcando, e das Vencimento e Nossa Senhora do Cabo, capitaneadas, respectivamente, por Lançarote da França Pita e um primo deste, Lançarote da França de Mendonça». In Frazão de Vasconcellos

«A 16 de Agosto de 1616, ao levantar do sol (…) avistou-se o sinal duma nau desconhecida, muito baixo no horizonte. (…) Apenas se via o alto dos mastros, como se uma serra nos separava. Progressivamente apareceram as velas e o casco dum imenso navio… era uma nau portuguesa de 1500 toneladas que se dirigia à Índia.(…) Ao meio dia o nosso navio, o Globo, estava à altura da enorme nau. Às nossa preguntas: "Quem sois ?", "Donde vindes?" responderam da Nau: Do mar». In Edward Terry, tripulante do Globo

«O Homem de Preto»
«Assim aparece na história a figura de D. Manuel de Meneses. Eram quatro os navios ingleses . A carraca, a que os portugueses simplesmente chamavam nau S. Julião, estava por 13°26', no canal de Moçambique, perto da Grande Comore. Os navios ingleses eram naus de guerra, da esquadra de Benjamin Joseph, que saíram com seis naus, entre elas, a Charles, capitânia, Unicorn, James e Globe. A nau S. Julião, que tanto surpreendeu os ingleses pelas suas dimensões era de 1500 toneladas. Seja como fôr, as forças eram desiguais, o contramestre português depois de voltar duma entrevista com o almirante inglês, «declarou em público que só a nau capitânia, que ele vira, bastava para pelejar com a nossa». Antes disso, às perguntas da esquadra inglesa responderam da nau com palavras ultrajosas e fizeram cinco tiros contra o costado, ferindo alguns, depois do que, da Globe fizeram dezoito tiros e a nau continuou também o fogo». O almirante inglês na James aproximou-se então e pediu entrevista com o chefe. Ao cabo de muita insistência e depois de os ingleses emprestarem uma embarcação, apenas foi o contramestre com mais dois homens. Quando voltou e declarou o que vem de sêr dito, «D. Manuel o repreendeu asperamente, dizendo que posto que assim o entendesse, ou por seu pouco ânimo, ou por qualquer outra causa, o não dissesse mais em público, por não fazer descoroçoar a gente».
Uma das testemunhas inglesas fala da silhueta grave dum homem vestido de preto sobre a nau. Estava ao pé do oficial que lhes falava em italiano quando aproximavam-se. Os marinheiros ingleses aprenderam rapidamente que esse homem era o capitão-mór dos portugueses e chamava-se D. Manuel de Meneses.
À exigência dos ingleses de apresentar desculpas, D. Manuel, na varanda da popa, respondeu que "quando Sua Majestade tinha assentado pazes com o seu rei, para que buscavam ocasião de brigas? Que se afastassem da nau e lhe não passassem pela proa, senão que os havia de fazer afastar com artilharia.
Parece que de propósito passaram os ingleses com uma nau pequena pela proa do S. Julião. O capitão-Mor fez tirar com algumas peças. O general Benjamin Joseph, recebe uma bala que o parte pelo meio. Foi o general inglês substituido no comando por Henry Pepwel que mais tarde também será atingido pela artilharia da nau. Só contra quatro navios atraz dele, o S. Julião pôs a proa na ilha Mohilia (Mohéli ou Mwali), das Comoros. Aí, depois da noite passada bem à vista dos navios ingleses, sempre o farol aceso, - não se dirá que fugiu - , o escrivão da nau, da parte dos passageiros, pede a D. Manuel, que se não fizesse a nau à vela daquela paragem, porque entendiam que se perderiam. D. Manuel, furioso, trata-o logo muito mal de palavras, e manda levar a nau, pelas 3 horas da tarde, logo seguida pelo inimigo. De noite voltou a nau a acender farol. Na manhã seguinte, 18 de Agosto, estavam-lhe pela popa as naus inglesas. Dentro dessas naus, na oração dantes do levantar do sol, Edward Perry nota nos marinheiros britanicos uma devoção maior que em algum outro momento, antes ou depois. O homem de preto, em frente, não é um adversário ordinário. Nos sucessos desta armada avulta o heróico combate que D. Manuel sustentou com quatro naus inglesas. Seguia só, pois a nau Nossa Senhora do cabo, e a Vencimento (Vencimento do Monte do Carmo), também designada por Nossa Senhora do Carmo, havia-se separado da capitânia por alturas da Guiné. Seus mastros cortados, incapaz de manobrar, D. Manuel de Meneses vai receber um por um as cargas inteiras de cada navio, ao que também não deixa de lhes responder. Pepwel, ferido, é retirado da luta. A batalha dura até às 3 horas da tarde. O S. Julião dirige-se para a Grande Comore, e apenas com um pedaço de vela no traquete, deriva para as costas da ilha Amgagiza (Ngazidja ou Grande Comore). Ao pedido dos ingleses de se entregar, D. Manuel responde que a nau de Sua Magestade não se entregava, que não viessem mais a bordo, porque os havia de mandar matar». In D. Manuel de Menezes, citado por Frazão de Vasconcellos.

Encontramos D. Manuel de Meneses alguns anos mais tarde, eleito capitão-mór da armada de Portugal para uma expedição de recuperação da cidade brasileira de Salvador de Bahía. Dessa expedição existem numerosos documentos, particularemento um escrito por ele mesmo, em português, Recuperação da cidade do Salvador, que ficou manuscrito, encontrando-se numa biblioteca de Madrid.
É nesse escrito de D. Manuel, que encontramos a citação que parece leitura de Descartes, na primeira parte do seu Discours de la Méthode: «Le bon sens est la chose du monde la mieux partagée; car chacun pense en être si bien pourvu que ceux même qui sont les plus difficiles à Contenter en toute autre chose n'ont point coutume d'en désirer plus qu'ils en ont». Mas Descartes escrevia aproximadamente em 1636 (primeira edição em 1634) e D. Manuel em 1625 «escrita no mar e no porto».

Regimento do Cosmógrafo-Mor, 1592. Biblioteca da Ajuda
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«Eu el Rey (Filipe I de Portugal) faço saber aos que este Regimento virem que, vendo eu a grande importância de que hé a navegação dos mares da coroa, destes meus Reinos, senhorios e conquistas e comercios della, e como o principal effeito do Cargo do Cosmografo mór deve ser em beneficio da mesma navegação, me pareceo necessario verse reformarse o Regimento do dito cargo feito em tempo do Senhor Rey Dom Sebastião, meu sobrinho, que Deos tem, no anno de mil quinhentos cíncoenta e nove». Data da época em que (João Baptista) Lavanha exerce o cargo de cosmógrafo-mor, a publicação do Regimento do Cosmógrafo-Mor (1592), primeiro documento conhecido que fornece informações exaustivas de como o ensino e a formação dos homens do mar era entendida nos finais do século XVI. Trata-se de um documento muito rigoroso, que estabelece um conjunto de disposições reguladoras de toda a actividade relacionada com as navegações, colocando o cosmógrafo-mór como a figura chave de todo o processo. «Hej por bem de lhe fazer merce do ditto officio de Cosmografo mor em portugal como o teuerão João bautista Labanha e Dom Manuel de Meneses Com obrigação de ler em sua casa hûa lição…».Esta menção a D. Manuel de Meneses como Cosmógrafo Mor causa (…) algum embaraço, tanto por este não surgir mencionado em qualquer dos registos consultados, quanto por não ter sido possível identificar nenhum alvará ou carta régia que o nomeie para o cargo. Com efeito, D. Manuel de Meneses substituiu, de facto, João Baptista Lavanha. Mas no cargo, alias vitalício de Cronista-Mor do reino, como se verifica na carta datada de 11 de Outubro de 1625, passada após a morte deste. A importância do cargo (de cosmógrafo Mor) é tal, que sendo este atribuído de forma vitalícia, sempre que os seus detentores estivessem incapacitados de o exercer ou se encontrassem ausentes de Lisboa, era nomeado um substituto. Só se adquiria a posse do cargo por morte do seu original detentor. É exactamente isto que ocorre com as frequentes ausências de João Baptista Lavanha na corte espanhola.

"Assisti com Dom Manoel quasi toda a noite de aquella tribulação, porque lhe devia amor & doutrina ; & querendo elle mudar vestidos, como todos a seu exemplo fizemos, ordenandose cada qual do melhor que tinha ; porque morrendo, como esperava, fosse a vistosa mortalha, recomendação para a honrada sepultura. Em meyo desta obra, & consideração a que ella excitava tirou Dom Manoel os papeis que consigo trazia entre os quaes abrio hum, & voltado para mim (que já dava mostras de ser afeiçoado ao estudo poético) me disse socegadamente : "Este hé hum soneto de Lope de Vega que elle me deu, quando agora vim da Corte ; louva nelle ao Cardeal Barbarino, legado a latere do Sumo Pontifice Urbano VIII". A estas palavras seguio a lição delle, & logo seu juizo ; como se fora examinado em huma serena Academia ; tanto que por razão de certo verso, que parecia ocioso naquelle breve poéma, discorreo, ensinandome o que era : Pleonasmo, & Acirologia, & no que diferião ; com tal socego, & magisterio, que sempre me ficou notavel : sendo tudo explicado com tão boa sombra, que influio em mim grande descuido do risco : donde vim a entender, que este fim, devia de mover comigo tão estranha pratica para o tempo». In D. Francisco Manuel de Melo, EpanaphoraTrágica.

A recuperação de Baía, por Juan Bautista Maíno
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Há inúmeras histórias e crónicas sobre D. Manuel de Meneses, o alentejano de Campo Maior que correu mundo e foi protagonista de muitas «aventuras no mar e em terra, argumentos vivos e cheios de calor humano», escritas por Barbosa Machado e por D. Francisco Manuel de Melo.
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