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sábado, 15 de novembro de 2014

A Afronta a António Nobre. César de Frias. «Exerceu sugestão, disse. Direi melhor, exerce, pois o facto dessa sugestão ainda hoje se constata dia a dia nos livros que vão aparecendo. Sem grande arrojo poderia dizer mesmo,-exercerá, atendendo a que no Só há um manancial inesgotável de poesia…»

jdact

(…) Contudo, e em inexpugnável oposição aos entraves levantados injustamente à sua expansão, e às pedradas, não muitas, valha a verdade, dum ou outro zoilo, que, de quando em longe, zunem desarmoniosamente na ambiência carinhosa que o circunda, o interesse pelo livro mantêm-se sempre forte, palpitante e cálido, como se constata. E porquê? Qual a causa desta violenta e estranha atracção pelo Só? Que procura nele essa corrente de leitores, dia a dia maior e mais ávida? Decerto aspirar o mágico hálito, ora acre, ora doce, do mistério e da tristeza, que dos seus versos dimana, como se no facetado maravilhoso daquelas estrofes se encontrasse espelhado, retratado com espantosa nitidez e semelhança o fundo revolvido e chagado das suas almas, ainda teimosas, apesar do quotidiano e brutal embate da realidade que as rodeia e de contínuo as rasga com as garras aduncas, em vestirem-se da clâmide branca e ihamada de oiro do Sonho. É como se aquelas perturbadas almas, que se aglutinam na multidão caudalosa dos seus leitores, pressentissem e adivinhassem quási, ao lerem essa autobiografia sombria e convulsa, serem elas mesmas pobres irmãs da alma de Anto, tristes como ela, irmãs pelo sangue negro e tóxico da dolorosidade que as entumece, pela complexidade, cheia de antagonismos, das ambições que lá dentro redemoinham, pela submissão, quási aprazível, quási voluptuosa, ao cilício da dúvida que as flagela, pelo peso da descrença que as abate e roja no pó cinzento e frio do tédio. Irmãs, por um lado, incomparavelmente mais felizes, pois, desprovidas do sentir mago, da intuição feiticeira dos Artistas, sentem e sofrem, ao invés deles, apenas a agrura dos seus destinos, num pequeno quinhão, restrito às suas personalidades vulgares, embora, por outro lado, se devam achar um tanto mais desgraçadas, porque, sentindo e sofrendo, elas, almas rasas, sem o condão excelso de, na voz divina, de oiro e cristal, do génio, dizerem alto, uivarem, rezarem, cantarem as sensações do seu martírio e os sofrimentos da sua tragédia ingente, rudes, mudas, emparedadas, não podem alcançar a compensação que aos excepcionais, pela majestosa beleza que impregna os seus desabafos postos em Arte, acode a aliviar-lhes o fadário de viverem num mundo inferior e contrário à sua natureza melindrosa.
Se o culto pelo Só, expresso numa permanente e intensa leitura e desdobrando o seu fogo de Vesta em espíritos mais ou menos artistas, embora apenas receptivos, assimiladores, pois, quanto a mim, para admirar sinceramente qualquer obra de arte é de absoluta e primacial necessidade ser-se de algum modo também um pouco artista, no que me ponho de inteiro acordo com uma opinião, ainda mais concreta sobre o assunto, de Faguet, o mestre-crítico, le lecteur de poetes est un initié…, é tão considerável, que em breve espaço de tempo lhe rarefaz no mercado as edições sucessivas e grossas e origina um jogo diabólico de cifras sobre os poucos exemplares que ainda aparecem, como acabo de dizer, não deve igualmente deixar de ser apontada, como não menor nem menos robusta, antes pelo contrário, a sugestão que ele exerceu, já sobre os poetas contemporâneos do autor, já, e maiormente, sobre os das nova e novíssima gerações. Acusam, bem acentuado, o seu ascendente, todos os que após ele vieram ao mundo, neste retalho da terra ocidental, com a dolorosa e estranha sina de vibrarem suas almas acima das almas do vulgo, como monges e levitas mais ou menos inspirados dessa religião de sempre, ou, de quando menos, de enquanto os Homens permanecerem humanos, a Poesia.
Exerceu sugestão, disse. Direi melhor, exerce, pois o facto dessa sugestão ainda hoje se constata dia a dia nos livros que vão aparecendo. Sem grande arrojo poderia dizer mesmo,-exercerá, atendendo a que no Só há um manancial inesgotável de poesia, de pensamento poético, a que, não só é lícito alguém recorrer como fonte inspiradora, mas até é de recomendar que assim seja, pelo carácter nacional, português, que da maior parte daquelas estrofes transpira. Assim se terá sempre um elemento poderoso de salutar reacção contra as influências estrangeiras, que a moda versátil nos sopra, e ao peso das quais as virtudes rácicas se derrancam e estiolam na literatura que fazemos». In César de Frias, A Afronta a António Nobre, Livraria Central, Editora, Lisboa, PQ9261N6Z67, Library University of Toronto 15 de Setembro de 1967.

Cortesia de L. Central/JDACT

domingo, 6 de julho de 2014

A Afronta a António Nobre. César de Frias. «… o sucesso da obra de António Nobre, ao presente por completo esgotada e sem grandes esperanças de ser em breve reeditada de novo, por incompreensível recusa da família do Poeta…»

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(…)
Ao Violão
«Manhã de Junho. O céu é rubro. A lua, tonta
de somno, vae tombando… O sol no azul desponta
apagam-se de todo os astros: pyrilampos
que scintillam do céu nos azulados campos.
Dos olivaes do monte o rouxinol diz missa
à natureza que o ouve, extactica e submissa.
Os passaros gentis, vindos á luz este anno,
andam em bando, aos mil, n'um labutar insano,
a alluir, a desfazer com o biquito e as azas,
os ninhos virginaes, as suas aéreas casas
a luz do sol, desperta a aldeia socegada:
os carros da lavoira alongam-se, na estrada.
D’um misero casal, á soleira da porta,
uma velhinha magra e doente, quasi morta,
fia na sua roca o linho das estrigas.
Muito ao longe no monte, algumas raparigas
andam á lenha. Sim; já canta a cotovia:
é preciso cuidar da refeição do dia…
Vêm-se ao collo das mães, pequenos, a gritar,
despenteados, sem graça, immundos, por lavar.
E vê-se, além, passando, a multidão cristã
que vae para a capella ouvir a missa aldeã.

E eu, mal caiu no oceano a derradeira estrella,
abri a larga, antiga, hierática janella,
deixei que o ar lavasse os meus pulmões e vim
postar-me, doce amada!, ao pé do teu jardim.
Dormes ainda, eu sei: a tua alma habita,
Nesse Paiz, além da abobada infinita…
Mas sei que tu, de mãos cruzadas sobre o peito,
estás, alli, n’um branco e pequenino leito.
Assim não ouves, não, uma canção secreta
que eu vibro, baixo e baixo, em meu violão de poeta.

Acorda, meu Amor! Levanta-te, creança!
Desprende ao vento a longa e emmaranhada trança.
Ajudo-te a fazer, (por que isso me compete),
a tua delicada e simplice toilette.
Só te verá o mar, esse discreto velho…
O lago do jardim será o teu espelho.
E, escuta!, banhar-te-has, n’um cálice de rosa:
para o teu corpo, flor!, é uma tina espaçosa!...
Hei-de enxugar-te o corpo, á luz dos meus desejos,
e cobrir te-hei, depois, com um lençol de beijos!
Vamos! Acorda, amor! Levanta-te do ninho!
Descerra o meigo olhar; veste o roupão de arminho,
e vem comigo, vem, por esses campos fora:
espera-nos o almoço a que preside a Aurora!
Ah, quanto é bello vêr a natureza era festa!
Que harmonias sem fim, nos ramos da floresta!
Como é viril e grande a voz que sae da Terra,
e vae de praia em praia, e vae de serra em serra!
As rolas passam, longe... e não sei que ave canta:
que muzica divina e explendida garganta!
Mais uma vez: acorda! As doces cotovias
clamam por ti do ceu e mandam-te os Bons Dias.
[…]
António Nobre

O SÓ já hoje se inscreve no número das obras clássicas da literatura portuguesa e a notoriedade que disfruta, justa e calorosa, garante bem que será lido e amado enquanto se falar a nossa língua. Já no presente as Antologias arquivam trechos seus, criteriosamente escolhidos como paradigmas de beleza poética, na suavidade e equilíbrio do ritmo e no surto alto da inspiração, que o desprende da chateza dos versificadores vulgares e o arremessa para as regiões da violenta emoção, a única, ao certo, em que se aprovisionam de ar suficiente e vital os pulmões dos grandes Poetas e Artistas, e longe da qual eles asfixiam e abrem cavernas. Fora disto, muito acima deste culto semi-oficial, o que se apresenta como mais importante, como mais impressionante, pelo seu significado de espontaneidade, é a corrente de leitores, livres da menor coacção, cada vez engrossando mais e mais e erguendo em uníssono coro as suas vibrantes confianças do encantamento sentido, num contágio de indignação que não abranda de vitalidade por mais anos que passem e outros livros também de valor surjam a provocar a atracção simpática do publico.
Três edições conta já o SÓ, todas excedendo, pelas suas tiragens avultadas, a magreza clássica das edições do nosso estreito mercado literário, que então em livros de versos (e isto é num país de poetas!) é duma debilidade irrisória. Pelo contraste ressaltante deste facto mais avulta ainda o sucesso da obra de António Nobre, ao presente por completo esgotada e sem grandes esperanças de ser em breve reeditada de novo, por incompreensível recusa da família do Poeta às instâncias que nesse sentido de várias partes lhe têem sido feitas. Segundo depoimento de A Águia, só do Brasil chegam frequentemente encomendas de 100, 500 e 1.000 exemplares, que, está claro, pela infeliz circunstância apontada, não podem ser satisfeitas. Assim, sobre os raros exemplaresque aparecem à venda, em liquidações de bibliotecas particulares e fundos de livraria, a especulação galopa infrene, cabriola, delira. Por exemplares das 2.ªs e 3.ªs edições surgem ofertas gradas, de cinquenta escudos e mais. Quanto aos da edição princeps, os poucos felizes que hoje os possuem, aferrolham-nos ciosamente, em ímpetos de bibliófilos avaros e loucos». In César de Frias, A Afronta a António Nobre, Livraria Central, Editora, Lisboa, PQ9261N6Z67, Library University of Toronto 15 de Setembro de 1967.

Cortesia de L. Central/JDACT

sábado, 22 de março de 2014

Piano. Jazz. Filipe Raposo. « O João dorme... Ó Maria, Diz aquela cotovia que fale mais devagar: não vá o João, acordar... Tem só um palmo de altura e nem meio de largura: para o amigo orangotango o João seria... um morango! Podia engoli-lo um leão quando nasce! As pombas são um poucochinho maiores... Mas os astros são menores!»

Cortesia de litafalcao


À Luz da Lua!
Íamos sós pela floresta amiga,
onde em perfumes o luar se evola,
olhando os céus, modesta rapariga!
Como as crianças ao sair da escola.

Em teus olhos dormentes de fadiga,
meio cerrados como o olhar da rola,
eu ia lendo essa balada antiga
d'uns noivos mortos ao cingir da estola...

A Lua-a-Branca, que é tua avozinha,
cobria com os seus os teus cabelos
e dava-te um aspecto de velhinha!

Que linda eras, o luar que o diga!
E eu compondo estes versos, tu a lê-los,
E ambos cismando na floresta amiga...

JDACT

sábado, 10 de dezembro de 2011

Poesia. Só. António Nobre. «Um dia, em Maio, no mês das flores, chamou-o a Pátria pra tê-lo ao lado: vieram vê-lo cinco doutores, não no quiseram para soldado!»

Cortesia de falcaodejade

D. Enguiço
O bom amigo que vou cantando,
neto de santos, irmão de aflitos,
nasceu chorando, nasceu gritando,
nasceu aos gritos! Nasceu aos gritos!

Já pressentia, menino estranho,
o que no mundo cá o esperava,
e assim pedia, num dó tamanho,
não mo tirassem lá donde estava.

Mas a parteira pouco se importa:
- Oh que rabugem! Ai credo! Cruzes!
Esta eu vos juro que não vem morta...
(No altar da Virgem ardem as luzes.)

E foi crescendo. Mas como via
quanto era inútil a sua queixa,
aí caiu nessa melancolia,
que não o deixa, que não o deixa!

O amor precoce feriu-lhe o peito 
que paixão doida não era a sua!
«Se a vir, dizia, no mar me deito»
e até promessas fazia à Lua...

Mais tarde, em Coimbra, nalguma ceia
com mais rapazes, no Zé Magrinho,
diante dum copo, duma lampreia,
só debicava, cheirava o vinho.

Não tinha sede, não tinha fome,
nunca dormia, sempre em vigília:
ele é o herdeiro dum grande nome.
Assim são todos nessa família.

Ia às batotas (que mal faz isso?)
Ver seus amigos se lá estavam,
 e, mal no viam: «Lá vem o enguiço!»
E era verdade - que não ganhavam...

Um dia, em Maio, no mês das flores,
chamou-o a Pátria pra tê-lo ao lado:
vieram vê-lo cinco doutores,
não no quiseram para soldado!
(...)
Tem graça sempre, tem imprevisto:
anda ele agora, na Terra Santa,
pra achar os ossos de Jesus Cristo...
Vede-o, bons sábios!Tirando a planta.

Olá, senhoras, que ides na frota,
que ides às Ásias, enquanto eu fico,
boa viagem!... E tomai nota,
dai lá saudades ao compatriota...
Meu pobre Chico! Meu pobre Chico!
Poema de António Nobre, in «Só»
(Paris, 1893)

JDACT 

terça-feira, 25 de outubro de 2011

António Nobre. Poesia. Só: «A Lua! Ela não tarda aí, espera! O mágico poder que ela possui! Sobre as sementes, sobre o oceano, impera, sobre as mulheres grávidas influi...»

Cortesia de macroscopio

Da influência da Lua
Outono. O Sol, qual brigue em chamas, morre
nos longes de água... Ó tardes de novena!
Tardes de sonho em que a poesia escorre
e os bardos, a cismar, molham a pena!

Ao longe, os rios de águas prateadas,
por entre os verdes canaviais, esguios,
são como estradas líquidas, e as estradas,
ao luar, parecem verdadeiros rios!

Os choupos nus, tremendo, arrepiadinhos,
o xale pedem a quem vai passando...
E nos seus leitos nupciais, os ninhos,
as lavandiscas noivas piando, piando!

O orvalho cai do céu, como um ungento.
Abrem as bocas, aparando-o, os goivos;
e a laranjeira, aos repelões do vento,
deixa cair por terra a flor dos noivos.

E o orvalho cai... E, à falta de água, rega
o vale sem fruto, a terra árida e nua!
E o padre-oceano, lá de longe, prega
o seu sermão de lágrimas à Lua!

A Lua! Ela não tarda aí, espera!
O mágico poder que ela possui!
Sobre as sementes, sobre o oceano, impera,
sobre as mulheres grávidas influi...

Ai os meus nervos, quando a Lua é cheia!
Da arte novas concepções descubro,
tudo me aflijo, fazem lá ideia!
Ai a ascensão da Lua, pelo Outubro!

Tardes de Outubro! Ó tardes de novena!
Outono! Mês de Maio, na lareira!
Tardes...
Lá vem a Lua, gratiae plena,
do convento dos céus, a eterna freira!
António Nobre, in «Só», Porto 1886

Cortesia de pnbrevitas

JDACT

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A Bela Poesia. António Nobre. Só: «Que linda menina que assoma na rua! Que linda, a andar! Em extase, o povo comenta «que é a Lua, que vem a andar...»

Cortesia de tertuliabibliofila 

Os Sinos
Os sinos tocam a noivado,
no ar lavado!
Os sinos tocam, no ar lavado,
a noivado!

Que linda menina que assoma na rua!
Que linda, a andar!
Em extase, o povo comenta «que é a Lua,
que vem a andar...»

Também, algum dia, o povo na rua,
quando eu casar,
ao ver minha noiva, dirá «que é a Lua
que vai casar...»

E o sino toca a baptizado
um outro fado!
E o sino toca um outro fado,
a baptizado!

E banham o anjinho na água de neve,
para lavar,
e banham o anjinho na água de neve,
para o sujar.

Ó boa madrinha, que enxugas de leve,
tem dó desses gritos! Compreende esses ais:
antes o enxugues a Velha! Antes Deus to leve!
Não sofre mais...

Os sinos dobram por anjinho,
lá no Minho!
Os sinos dobram, lá no Minho!
Por anjinho!

Que asseada que vai prá cova!
Olhai! Olhai!
Sapatinhos de sola nova,
olhai! Olhai!

Ó ricos sapatos de solinha nova,
bailai! Bailai!
Nas eiras que rodam debaixo da cova...
Bailai! Bailai!

(...)

Que pena me fazem os amortalhados,
vestidos de preto, deitados de costas...
E de olhos fechados! E de olhos fechados!
E de mãos postas!

E os sinos dobram a defuntos,
dlim! Dlão! Dlim! Dlom!
E os sinos dobram, todos juntos,
dlom! Dlim! Dlim! Dlom!
António Nobre, in «Só», o livro mais triste que há em Portugal!

JDACT

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Hoje, Só Poesia. António Nobre. «Ir, pelas tardes, até à fonte ver as pequenas a encher e a rir, e ver entre elas o Zé da Ponte um pouco torto, quase a cair»

Cortesia de rcbpdgl 

Canção da Felicidade
Felicidade! Felicidade!
Ai quem ma dera na minha mão!
Não passar nunca da mesma idade,
Dos 25, do quarteirão.

Morar, mui simples, nalguma casa
Toda caiada, defronte o mar;
No lume, ao menos ter uma brasa
E uma sardinha pra nela assar...

Não ter fortuna, não ter dinheiro,
Papéis no banco, nada a render:
Guardar, podendo, num mealheiro
Economia prò que vier.

Ir, pelas tardes, até à fonte
Ver as pequenas a encher e a rir,
E ver entre elas o Zé da Ponte
Um pouco torto, quase a cair.

Não ter quimeras, não ter cuidados
E contentar-se com o que é seu,
Não ter torturas, não ter pecados,
Que, em se morrendo, vai-se prò Ceu!

Não ter talento: suficiente
Para na vida saber andar,
E quanto a estudos saber somente
(Mas ai somente!) ler e contar.

Mulher e filhos! A mulherzinha
Tão loira e alegre, Jesus! Jesus!
E, em nove meses, vê-la choquinha
Como uma pomba, dar outra à luz.

Oh! grande vida, valha a verdade!
Oh! grande vida, mas que ilusão!
Felicidade! Felicidade!
Ai quem me dera na minha mão!

Para as Raparigas de Coimbra
Tristezas têm-nas os montes
Tristezas tem-nas o Céu
Tristezas têm-nas as fontes,
Tristezas tenho-as eu!

Ó choupo magro e velhinho,
Corcundinha, todo aos nós,
És tal qual meu avozinho:
Falta te apenas a voz.

Minha capa vos acoite
Que é pra vos agasalhar:
Se por fora é cor da noite,
Por dentro é cor do luar...

Ó sinos de Santa Clara,
Por quem dobrais, quem morreu?
Ah, foi-se a mais linda cara
Que houve debaixo do céu!

A sereia é muito arisca,
Pescador, que estás ao sol:
Não cai, tolinho, a essa isca...
Só pondo uma flor no anzol!

A Lua é a hóstia branquinha,
Onde está Nosso Senhor:
É duma certa farinha
Que não apanha bolor.

Vou encher a bilha e trago-a
Vazia como a levei!
Mondego, qu'é da tua água,
Qu'é dos prantos que eu chorei?

No Inverno não tens fadigas
E tens água para leões!
Mondego das raparigas,
Estudantes e violões!

E só porque o mundo zomba
Que pões luto? Importa lá!
Antes de vistas de pomba...
Pombas pretas também há!
Poemas de António Nobre, in «Só»

JDACT

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A Bela Poesia. António Nobre. Só: «… moços do país! Vereis então o que é esta vida, o que é que vos espera… Toda uma Sexta-feira de Paixão!»

Cortesia de falcaodejade

1
Em horas que lá vão, molhei a pena
na chaga aberta desse corpo amado,
mas numa chaga a supurar gangrena,
cheia de pus, de sangue já coalhado!

E depois, com a mão firme e serena,
compus este missal dum torturado:
talvez choreis, talvez vos faça pena…
Chorai! Que imenso tenho eu já chorado.

Abri-o! Orai com devoção sincera!
E, à leitura final duma oração,
vereis cair no solo uma quimera:

moços do país! Vereis então
o que é esta vida, o que é que vos espera…
Toda uma Sexta-feira de Paixão!
António Nobre, in «Só, Sonetos» “…o livro mais triste que há em Portugal”
Coimbra, 1889



JDACT

sábado, 16 de julho de 2011

A Bela Poesia. Só. António Nobre: «Pelo cair das folhas, o melhor dos meses, mas, tende cautela, não vos faça mal... Que é o livro mais triste que há em Portugal!»


Cortesia de anibaljosematos e purl 

Memória
Aquele que partiu no brigue Boa Nova
E na barca Oliveira, anos depois, voltou;
Aquele santo (que é velhinho e já corcova)
Uma vez, uma vez, linda menina amou:
Tempos depois, por uma certa lua nova,
Nasci eu… o velhinho ainda cá ficou,
Mas ela disse: - «Vou, ali adiante, à Cova,
António, e volto já…» e ainda não voltou!
António é vosso. Tomai lá a vossa obra!
«Só» é o poeta-nato, o lua, o santo, o cobra!
Trouxe-o dum ventre: não fiz mais do que o escrever…
Lede-o e vereis surgir do poente as idas mágoas,
Como quem vê o Sol sumir-se, pelas águas,
E sobe aos alcantis para o tornar a ver!

Ora isto, senhores deu-se em Trás-os-Montes,
Em terras de Borba, com torres e pontes.
Português antigo, do tempo da guerra,
Levou-o o destino pra longe da terra.
Passaram os anos, a Borba voltou,
Que linda menina que, um dia, encontrou!
Que linhas fidalgas e que olhos castanhos!
E, um dia, na igreja correram os banhos.
Mais tarde, debaixo dum signo mofino,
Pela lua nova, nasceu um menino.
Ó mães dos poetas! sorrindo em seu quarto,
Que são virgens antes e depois do parto!
Num berço de prata, dormia deitado,
Três moiras vieram dizer-lhe o seu fado
(E abria o menino seu olhos tão doces):
«Serás um príncipe! mas antes... não fosses».
Sucede, no entanto, que o Outono veio
E, um dia, ela resolve ir dar um passeio.
Calçou as sandálias, toucou-se de flores,
Vestiu-se de Nossa Senhora das Dores:
«Vou ali adiante; à Cova, em berlinda,
António, e já volto...» E não voltou ainda!
Vai o esposo, vendo que ela não voltava,
Vai lá ter com ela, por lá se quedava.
Ô homem egrégio! De estirpe divina,
De alma de bronze e coração de menina!
Em vão corri mundos, não vos encontrei
Por vales que fora, por eles voltei.
E assim se criou um anjo, o Diabo, o lua;
Ai corre o seu fado! A culpa não é sua!
Sempre é agradável ter um filho Virgílio,
Ouvi estes carmes que eu compus no exílio,
Ouvi-os vós todos, meus bons Portugueses!
Pelo cair das folhas, o melhor dos meses,
Mas, tende cautela, não vos faça mal...
Que é o livro mais triste que há em Portugal!».
António Nobre, in «Só»

JDACT

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

António Nobre: «Tardes de outomno! ó tardes de novena! Outubro! Mez de Maio, na lareira! Tardes... Ó favos rubros! os meus labios são abelhas, E eu ando a construir meu cortiço de mel... »

Cortesia de auladeliteraturaportuguesa 

A Poezia do Outomno
Noitinha. O sol, qual brigue em chammas, morre
Nos longes d'agoa... Ó tardes de novena!
Tardes de sonho em que a poezia escorre
E os bardos, a sonhar, molham a penna!

Ao longe, os rios de agoas prateadas
Por entre os verdes cannaviaes, esguios,
São como estradas liquidas, e as estradas
Ao luar, parecem verdadeiros rios!

Os choupos nus, tremendo, arripiadinhos,
O chale pedem a quem vae passando...
E nos seus leitos nupciaes, os ninhos,
As lavandiscas noivam piando, piando!

O orvalho cae do céu, como um unguento.
Abrem as boccas, aparando-o, os goivos...
E a larangeira, aos repellões do vento,
Deixa cair por terra a flor dos noivos.

E o orvalho cae... E, á falta d'agoa, rega
O val sem fruto, a terra arida e nua!
E o Padre-Oceano, lá de longe, prega
O seu Sermão de Lagrymas, á Lua!

Tardes de outomno! ó tardes de novena!
Outubro! Mez de Maio, na lareira!
Tardes...
Lá vem a Lua, gratiae plena,
Do convento dos céus, a eterna freira!
António Nobre, in «Só»
 
Cortesia de sebodomessias

Febre Vermelha
Rozas de vinho! Abri o calice avinhado!
Para que em vosso seio o labio meu se atole:
Beber até cair, bebedo, para o lado!
Quero beber, beber até o ultimo gole!

Rozas de sangue! Abri o vosso peito, abri-o!
Montanhas alagae! deixae-as trasbordar!
As ondas como o oceano, ou antes como um rio
Levando na corrente Ophelias de luar...

Camelias! Entreabri os labios de Eleonora!
Desabrochae, á lua, a ancia dos vossos calis!
Dá-me o teu genio, dá! ó tulipa de aurora!
E dá-me o teu veneno, ó rubra digitalis...

Papoilas! Descerrae essas boccas vermelhas!
Apagae-me esta sede estonteadora e cruel:
Ó favos rubros! os meus labios são abelhas,
E eu ando a construir meu cortiço de mel...

Rainunculos! Corae minhas faces-de-terra!
Que seja sangue o leite e rubins as opalas!
Tal se vêm pelo campo, em seguida a uma guerra,
Tintos da mesma cor os corações e as balas!...

Chagas de Christo! Abri as petalas chagadas!
N'uma raiva de cor, n'uma erupção de luz!
Escancarae a bocca, ás vermelhas rizadas,
Cancros de Lazaro! Feridas de Jezus...

Flores em braza! Orgaos da cor! Tirava
Operas d'oiro, podesse eu, das vossas teclas.
Volcões de Maio! ungi minha pelle de lava!
Dae-me energia, audacia, ó pequeninos Heclas!

Dae-me do vosso sangue, ó flores! entornae-o
Nas veias do meu corpo estragado e sem cor:
Que vida negra! Foi escripto, á luz do raio,
O triste fado que me deu Nosso Senhor...

Scismo já farto de velar minha alma doente,
Não dura um mez siquer, minhas amigas, vede!
Mas, mal vos vejo, então, pulo alegre e contente
A uivar, como os leões quando os ataca a sede!

Corto o estrellado céu, voo atravez do espaço,
Cruzo o infinito e vou rolar aos pés de Deus,
Como se accaso fosse, em catapultas de aço,
Por um Titan de bronze atirado a esses céus!

Amo o vermelho. Amo-te, ó hostia do sol-posto!
Fascina-me o escarlate. Os meus tedios estanca:
E apezar d'isso, ó cruel hysteria do Gosto,
Certa flor da minh'alma é branca, branca, branca...
António Nobre, in «Só»

Cortesia de O Citador/JDACT

segunda-feira, 28 de junho de 2010

António Nobre: Uma obra marcada pela lamentação e nostalgia, imbuída de subjectivismo, mas simultaneamente suavizada pela presença de um fio de auto-ironia

(1867-1900)
Porto
Cortesia de anibaljosematos
Apesar da sua produção poética mostrar uma clara influência de Almeida Garrett e de Júlio Dinis, ela insere-se decididamente nos cânones do simbolismo francês. A sua principal contribuição para o simbolismo lusófono foi a introdução da alternância entre o vocabulário refinado dos simbolistas e um outro mais coloquial, reflexo da sua infância junto do povo nortenho.

Certa Velhinha
1
Além, na tapada das Quatorze Cruzes,
Que triste velhinha que vae a passar!
Não leva candeia; hoje, o céu não tem luzes...
Cautella, velhinha, não vás tropeçar!

Os ventos entoam cantigas funestas,
Relampagos tingem de vermelho o Azul!
Aonde irá ella, n'uma noite d'estas,
Com vento da Barra puxado do sul?

Aonde irá ella, pastores! boieiras!
Aonde irá ella, n'uma noite assim?
Se for un phantasma, fazei-lhe fogueiras,
Se for uma bruxa, queimae-lhe alecrim!

Contava-me aquella que a tumba já cerra,
Que Nossa Senhora, quando a chama alguem,
Escolhe estas noites p'ra descer á Terra,
Porque em noites d'estas não anda ninguem...

Além, na tapada das Quatorze Cruzes,
Que linda velhinha que vem a passar!
E que olhos aquelles que parecem luzes!
Quaes velas accezas que a vêm a guiar...

Que pobre capinha que leva de rastros,
Tão velha, tão rôta! Que triste viuvez!
Mas se lhe dá vento, meu Deus! tantos astros!
É o céu estrellado vestido do envez...

Seu alvo cabello, molhado das chuvas,
Parece uma vinha de luar em flor...
Oh cabello em cachos, como cachos de uvas!
So no céu ha uvas com aquella cor...

A luz dos seus olhos é uma luz tamanha
Que ao redor espalha divino clarão!
Parece que chove luar na montanha...
Que noite de inverno que parece verão!

Além, na tapada das Quatorze Cruzes,
Velhinha tão alta que vem a chegar!
Parece uma Torre côada de luzes!
Ou antes a Torre de Marfim, a andar!

Não! Não é uma Torre côada de luzes,
Nem antes a Torre de Marfim, a andar,
Que pela tapada das Quatorze Cruzes,
N'uma noite destas, eu vejo passar...

Tambem não é, ouve, minha velha ama!
Como tu contavas, a Virgem de Luz:
Digo-te ao ouvido como ella se chama,
Mas guarda segredo, que é...
- Jezus! Jezus!
2
Além, na tapada das Quatorze Cruzes,
Já não é a velhinha que vae a passar:
Um grande cortejo cheiinho de luzes,
Anninhas da Eira que vae a enterrar.

Falla d'um pastor:

«Anninhas da Eira! Anninhas da Eira!
Cantae, raparigas, cantae e chorae!
Morreu, coitadinha! sorrindo, trigueira,
Como um passarinho, sem soltar um ai.

Quando era pequeno, levava-me á escola,
E quando, mais tarde, cresci e medrei,
Oh danças nas eiras, ao som da viola!
Nas danças de roda, que beijos lhe dei!

Os annos vieram, os annos passaram,
Meu fado arrastou-me, da aldeia sai:
Nunca mais meus olhos seus olhos tocaram,
Perdi-a de todo, nunca mais a vi...

E além, na tapada das Quatorze Cruzes,
N'uma noite d'estas com vento a ventar,
Ó meu Deus! é ella que vae entre luzes!
Ó meu Deus! é a Anninhas que vae a enterrar!

Olá! bons senhores, vestidos de preto,
Deixae a defunta, que a levarei eu!
O suor alagava-vos, eu levo o carreto...
O caixão de Anninhas é tambem o meu!

Tenho os relampagos, deixae-me sem velas
A rezar por ella, sob o temporal!
Cai-me no peito, cravae-m'as, procellas!
Cruzes da tapada, em forma de punhal!»

Mas os bons senhores, de preto vestidos,
Cigarros accezos, e velas na mão,
Lá passam ao vento, com sete sentidos,
Com medo que, ás vezes, não seja um ladrão...

«Mãos das ventanias! mãos das ventanias!
Tirae-lhes a Anninhas e levae-a a Deus!
Com suas mãosinhas, agora tão frias,
Irá na viagem a dizer-me adeus...

Ó vento que passas! corcel de rajada!
Assenta-nos ambos no mesmo selim:
Quero ir mais ella na longa jornada...
Quero ir com Anninhas pelo céu sem fim!

Ó Leste, que trazes as rolas, ás costas,
Quaes rolas, leva-nos aos pés do Senhor!
Quero ir como ella, assim de mãos postas...
Quero ir com Anninhas para onde ella for!

Ó Norte dos Marços! ó Sul das procellas,
Levae-nos quaes brigues, como azas, levae!
Levae-nos como aguias, levae-nos quaes velas...
Quero ir com Anninhas para onde ella vae!»
3
Além, na tapada das Quatorze Cruzes,
Que triste velhinha que vae a passar!
E que olhos aquelles que parecem luzes...
Aonde irá ella? Quem irá buscar?
António Nobre, in «Só»

Quando Chegar a Hora
Quando eu, feliz! morrer, oiça, Sr. Abbade,
Oiça isto que lhe peço:
Mande-me abrir, alli, uma cova á vontade,
Olhe: eu mesmo lh'a meço...

O coveiro é podão, fal-as sempre tão baixas...
O cão pode lá ir:
Diga ao moço, que tem a pratica das sachas,
Que m'a venha elle abrir.

E o sineiro que, em vez de dobrar a finados,
Que toque a Alléluia!
Não me diga orações, que eu não tenho peccados:
A minha alma é dia!

Será meu confessor o vento, e a luz do raio
A minha Extrema-Uncção!
E as carvalhas (chorae o poeta, encommendae-o!)
De padres farão.

Mas as aguias, um dia, em bando como astros,
Virão devagarinho,
E hão-de exhumar-me o corpo e leval-o-ão de rastros,
Em tiras, para o ninho!

E ha-de ser um deboche, um pagode, o demonio,
N'aquelle dia, ai!
Aguias! sugae o sangue a vosso filho Antonio,
Sugae! sugae! sugae!

Raro têm de comer. A pobreza consome
As aguias, coitadinhas!
Ao menos, n'esse dia, eu matarei a fome
A essas desgraçadinhas...

De que serve, Sr. Abbade! o nosso pacto:
Não me lembrei, não vi
Que tinha feito com as aguias um contrato,
No dia em que nasci.
António Nobre, in «Só»

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sábado, 1 de maio de 2010

António Nobre: Um eu forte, escorado na memória das paisagens e das gentes

(1867-1900)
António Pereira Nobre, mais conhecido como António Nobre, foi um poeta português cuja obra se insere na corrente ultra-romântica, simbolista, decadentista e saudosista (interessada na ressurgência dos valores pátrios) da geração finissecular do século XIX português. A sua principal obra, Só (Paris, 1892), é marcada pela lamentação e nostalgia, imbuída de subjectivismo, mas simultaneamente suavizada pela presença de um fio de auto-ironia e com a rotura com a estrutura formal do género poético em que se insere, traduzida na utilização do discurso coloquial e na diversificação estrófica e rítmica dos poemas. Apesar da sua produção poética mostrar uma clara influência de Almeida Garrett e de Júlio Dinis, ela insere-se decididamente nos cânones do simbolismo francês.
A sua principal contribuição para o simbolismo lusófono foi a introdução da alternância entre o vocabulário refinado dos simbolistas e um outro mais coloquial, reflexo da sua infância junto do povo nortenho.

 
António Nobre nasceu na cidade do Porto mas passou a sua infância em Trás-os-Montes e na Póvoa de Varzim. Partiu para Paris, em 1890,  onde se licenciou em Ciências Políticas. Durante a sua estada em França familiarizou-se com as novas tendências da poesia e aderiu oao simbolismo. Em Paris teve encontros com Eça de Queirós, na altura cônsul de Portugal. Nesta cidade escreveu a maior parte dos poemas que viriam a constituir a colectânea Só, que publicaria em 1892.


Ai quem me dera entrar nesse convento.
Que há além da morte e que se chama a Paz!
António Nobre, Soneto n°18, in Só

Cortesia de Instituto-Camões

O livro de poesia Só, que seria a sua única obra publicada em vida, constitui um dos marcos da poesia portuguesa do século XIX. Esta obra seria, ainda em sua vida, reeditada em Lisboa, com variantes, lançando definitivamente o poeta no meio cultural português. Aparecida num período em que o simbolismo era a corrente dominante na poesia portuguesa coeva, Só diferencia-se dos cânones dominantes desta corrente, o que poderá explicar as críticas pouco lisonjeiras com que a obra foi inicialmente recebida em Portugal. Apesar desse acolhimento, a obra de António Nobre teve como mérito, juntamente com Cesário Verde, Guerra Junqueiro, Antero de Quental, entre outros, de influenciar decisivamente o modernismo português e tornar a escrita simbolista mais coloquial e leve.

Em todos os seus livros (Só e os póstumos Primeiros versos e Despedidas), bem como no seu abundante epistolário, está presente um sentimentalismo aparentemente simples, reflectido nos temas recorrentes da sua obra: a saudade, o exílio, a pátria e a poesia. Este sentimentalismo ganha uma dimensão mítica, por vezes um certo visionarismo, na procura de um passado pessoal entretanto perdido pelo desenraizamento da sua pátria ou pelo sentimento de amargura a sua estagnação lhe causa, como se percebe no seu poema Carta a Manuel. Na sua obra poética, António Nobre procurou recuperar um pitoresco português ligado à vida dos simples, ao seu vigor e à sua tragédia, pelos quais sentia uma ternura ingénua e pueril. Nessa tentativa assume uma atitude romântica e saudosista que marcaria profundamente a literatura portuguesa posterior, aproximando-o de figuras literárias como Guerra Junqueiro e Almeida Garrett.

O Meu Cachimbo
Ó meu cachimbo! Amo-te immenso!
Tu, meu thuribudo sagrado!
Com que, bom Abbade, incenso
A Abbadia do meu passado.

Fumo? E occorre-me á lembrança
Todo esse tempo que lá vae,
Quando fumava, ainda criança,
Ás escondidas do meu Pae.

Vejo passar a minha vida,
Como n'um grande cosmorama:
Homem feito, pallida Ermida,
Infante, pela mão da ama...

Por alta noite, ás horas mortas,
Quando não se ouve pio, ou voz,
Fecho os meus livros, fecho as portas
Para fallar comtigo a sós.

E a noite perde-se em cavaco,
Na Torre d'Anto, aonde eu moro!
Alli, mettido no buraco,
Fumo e, a fumar, ás vezes... choro.

Chorando (penso e não o digo)
Os olhos fitos neste chão,
Que tu és leal, és meu amigo...
Os meus amigos onde estão?

Não sei. Tral-os-á o «nevoeiro»...
Os trez, os intimos, Aquelles,
Estão na Morte, no extrangeiro...
Dos mais não sei, perdi-me d'elles.

Morreram-me uns. Por elles peço
A Deus, quando está de maré:
E, ás noites, quando eu adormeço,
Phantasmas, vêm, pé ante pé...

Tristes, nostalgicos da cova,
Entram. Sorrio-lhes e fallo...
Deixam-se estar na minha alcova,
Até se ouvir cantar o gallo...

Outros, por esses cinco oceanos,
Por esse mundo erram, talvez...
Não me escreveis, ha tantos annos!
Que será feito de vocês?

Hoje, delicias do abandono!
Vivo na paz, vivo no limbo:
Os meus amigos são o Outomno,
O Mar e tu, ó meu Cachimbo!

Ah! quando for do meu enterro,
Quando eu partir gelado, emfim,
No meu caixão de mogno e ferro,
Quero que vás ao pé de mim.

Santa mulher que me tratares,
Quando em teus braços desfalleça,
Caso meus olhos não cerrares,
Embora! Que isto não te esqueça:

Colloca, sob a travesseira,
O meu cachimbo singular
E enche-o, sollicita enfermeira,
Com Gold-Fly, para eu fumar...

Como passar a noite, amigo!
No Hotel da Cova sem conforto?
Assim, levando-te commigo,
Esquecer-me-ei de que estou morto...
António Nobre, in «Só»

A obra de António Nobre está muito marcada pelas paisagens que conheceu, quer se trate do Douro interior e do litoral a norte do Porto, que conheceu na infância e na juventude, quer do Mondego e de Coimbra onde estudou. O escasso número de volumes da obra não exclui que ela constitua um marco de referência da Literatura Portuguesa (à semelhança de outros autores de obra quase única, como são Cesário Verde e Camilo Pessanha). Trata-se, de facto, em especial no caso de Só, de uma obra emblemática em si mesma e do fim-de-século português, combinando a herança romântica com a estética do Decadentismo e do Simbolismo, que o poeta bem conhecia (como aliás a geração coimbrã a que pertence). 
A sobreposição desses modelos, o seu universo pessoal e o seu talento de poeta fazem nascer uma voz original, tecendo o sábio trabalho sobre os tipos de verso e de estrofe mais diversos, sobre o ritmo e formas poéticas clássicas como o soneto ou outras, com destaque para o poema longo e de construção dialógica (por exemplo, em «António» ou «Os figos pretos»).
Do ponto de vista técnico, trata-se de uma poesia que parece muito próxima da oralidade, mas tal é desmontado quer por referências temáticas de requintada estesia, quer pelo uso de versos como o alexandrino e o decassílabo, a par de outras medidas, combinando com mestria ritmos sofisticados, ao modo simbolista, mas sem criar a opacidade que se pode ler em poetas seus contemporâneos (v.g. Eugénio de Castro), antes mantendo uma cadência cantabile, que qualquer leitor consegue acompanhar - o que não será alheio ao sucesso atestado pelas múltiplas reedições. Estes processos enquadram a construção de um sujeito dramatizado (especialmente visível no jogo de vozes em certos poemas) que se apresenta como narcísico e dândi, mas que, sob a máscara da ironia, esconde o pessimismo e o dolorismo de uma descrença individual que retrata a sua época.
No centro desse mundo está um eu forte, escorado na memória das paisagens e das gentes que foram cenário dos tempos felizes, muito vívidos mas sem possibilidade de retorno; os poemas tentam combater essa decepção procedendo ao inventário dos bens passados (lugares, figuras, nomes, circunstâncias), tentando, pela presentificação e pela hipotipose, ancoradas numa memória fotográfica, combater a desaparição de tudo isso no abismo da lembrança. Assim, o sujeito lírico sobrepõe a voz presente com os ecos do passado - o seu, pessoal ou mesmo familiar, e o dos tempos ancestrais, que o fundam como indivíduo e como Lusíada, epítome dos feitos heróicos da História nacional.
«O eu cinde-se entre o adulto, António, e Anto, sua face ora infantil, ora dândi, representando-se como herói e protagonista mas também como outro, distante de si, numa antecipação do eu fragmentado que os poetas modernistas viriam a trabalhar mais fundamente». O sujeito assume a carga simbólica de ser um avatar do povo português, o que virá a prolongar-se no protagonista do poema inacabado «O Desejado» (in Despedidas): Anrique, nome arcaizante, corporiza uma variação sobre o mito sebástico, pondo o mito em ruínas ao espelho do Portugal do fim de oitocentos. Herói derrotado, António é, no Só, o Princípe fadado para ser «poeta e desgraçado», narciso marcado pela memória deceptiva de tudo o que foi e não volta mais, só face a si mesmo e à sua excepcional condição de visionário. Uma leitura cuidada do Só mostra bem que a pretensa ingenuidade visível a uma primeira leitura é um logro: além do que no plano técnico atrás se assinalou, para isso contribui muito o labor poético visível no confronto entre as duas edições feitas em vida de António Nobre, em 1892 e em 1898, não deixando dúvidas a muito detalhada elaboração que sustenta esta poética e o seu universo de motivos, de símbolos e de mitos.

António Nobre no Penedo da Saudade
Cortesia de falcaodejade
Muito ousada para a época, a sua obra foi lida por alguns como nacionalista e tradicionalista, mas essas leituras estão hoje bastante relativizadas, valorizando a crítica mais recente aspectos como aqueles que acima se repertoriam. Não se trata de uma obra solipsista e ensimesmada, antes de representar um universo interior e um Portugal que epitomizam o sujeito finissecular e que expressam uma crise de valores que em breve, historicamente, há-de trazer mudanças de vulto. E é sobretudo, como já se esboçou atrás, uma das pedras de toque na gestação do sujeito moderno: a memória não permite recuperar o que se perdeu, os heróis parecem condenados à derrota, e Narciso tornou-se uma figura deceptiva; em lugar dessa felicidade perdida, o poeta visionário ergue a forma possível de resistência à ruína – a edificação da Obra, assegurando a permanência do seu nome e a do país que com tanta subtileza soube retratar.
Cortesia de Paula Morão, Instituto Camões.

Morre aos 33 anos de idade, após prolongada luta contra a tuberculose pulmonar.
Wikipédia/JDACT