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sábado, 2 de maio de 2020

Marina. Carlos Ruiz Zafón. «O eco de minha voz perdeu-se no casarão. Tomei consciência do manto de sombras que se estendia ao meu redor. O clarão dos relâmpagos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O crepúsculo era um telão de mármore acinzentado no horizonte. Tive a impressão de ter ouvido um estalo às minhas costas, na entrada da ruela. Virei-me assustado. Por um instante, senti que alguém estava me seguindo. Mas não havia ninguém, apenas a chuva metralhando as poças d’água no caminho. Enfiei-me pelo portão. A claridade dos relâmpagos guiou meus passos até a casa. Os querubins da fonte me deram as boas-vindas. Tremendo de frio, cheguei à porta da cozinha, nos fundos. Estava aberta. Entrei. A casa estava completamente às escuras. Lembrei-me das palavras de Germán sobre a ausência de eletricidade. Até então, não me tinha ocorrido que ninguém me tinha convidado. Pela segunda vez, eu me enfiava naquela casa sem pretexto algum. Pensei em partir, mas a tempestade uivava lá fora. Suspirei. Minhas mãos doíam de frio e eu mal sentia as pontas dos dedos. Tossi como um cachorro e senti o coração latejando nas têmporas. Minha roupa estava grudada no corpo, gelada. Meu reino por uma toalha, pensei.
Marina?, chamei. O eco de minha voz perdeu-se no casarão. Tomei consciência do manto de sombras que se estendia ao meu redor. O clarão dos relâmpagos filtrando-se pelas janelas proporcionava apenas uma rápida sensação de claridade, como o flash de uma máquina fotográfica. Marina?, insisti. E Oscar... Timidamente, entrei na casa. Meus sapatos empapados produziam um som viscoso ao andar. Parei quando cheguei no salão onde tínhamos jantado na véspera. A mesa estava vazia e as cadeiras, desertas. Marina? Germán? Não obtive resposta. Avistei um castiçal e uma caixa de fósforos em cima de uma mesinha console. Meus dedos enrugados e insensíveis só conseguiram acender a vela na quinta tentativa. Levantei a chama tremelicante. Uma claridade fantasmagórica inundou a sala. Deslizei até o corredor onde tinha visto Marina e seu pai desaparecerem no dia anterior. O corredor conduzia até outro salão, igualmente coroado por um lustre de cristal. Suas contas brilhavam na penumbra como carrosséis de diamantes. A casa era habitada por sombras oblíquas que a tempestade projectava de fora através das vidraças. Velhos móveis e poltronas dormiam sob lençóis brancos. Uma escada de mármore subia para o primeiro andar. Fui até lá, sentindo-me um verdadeiro intruso. Dois olhos amarelos brilharam no alto da escada. Ouvi um miado. Kafka. Suspirei aliviado. Um segundo depois, o gato se retirou para as sombras. Parei e olhei ao redor. Meus passos tinham deixado um rasto de pegadas sobre a poeira.
Tem alguém aí?, chamei novamente, sem obter resposta. Imaginei aquele grande salão décadas atrás, vestido de gala. Uma orquestra e dezenas de casais dançando. Agora, parecia o salão de um navio afundado. As paredes estavam cobertas por quadros a óleo. Todos retratavam a mesma mulher. Era a mesma que aparecia no quadro que vi na primeira noite em que entrei naquela casa. A perfeição e a magia do traço e a luminosidade daquelas pinturas eram quase sobrenaturais. Fiquei perguntando quem seria o artista. Mesmo porque, era evidente que todos eles eram obra da mesma mão. Parecia que aquela dama me vigiava de todos os lados. Não era difícil perceber a incrível semelhança entre aquela mulher e Marina: os mesmos lábios sobre uma pele clara, quase transparente. A mesma figura, esbelta e frágil como a de uma estatueta de porcelana. Os mesmos olhos cor de cinza, tristes e sem fundo. Senti alguma coisa roçar meu tornozelo. Kafka ronronava aos meus pés. Abaixei e acariciei a sua pelagem prateada. Onde está sua dona, hein? Como resposta, ele miou melancolicamente. Não havia ninguém ali. Ouvi o som da chuva batendo no telhado. Milhares de aranhas-de-água corriam pelas calhas. Imaginei que Marina e Germán tinham saído por algum motivo impossível de adivinhar. Em todo caso, não era da minha conta. Fiz um carinho em Kafka e resolvi ir embora antes que retornassem». In Carlos Ruiz Zafón, Marina, 1999, Planeta Editora, 2010, ISBN 978-989-657-119.1

Cortesia de PlanetaE/JDACT

sexta-feira, 27 de março de 2020

Marina. Carlos Ruiz Zafón. «A aula acabaria dentro de duas horas. Uma eternidade. Lá fora, a chuva arranhava os vidros. Quando a campainha tocou, fugi a toda a velocidade…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Germán examinou-me com curiosidade benevolente. Devolvi a sua amabilidade com uma inclinação de cabeça e levei a colher aos lábios. Assim pelo menos não podia falar e acabar enfiando os pés pelas mãos. Continuamos a comer em silêncio. Não demorei para perceber que, do outro lado da mesa, Germán estava caindo no sono. Quando a colher finalmente escorregou de seus dedos, Marina levantou-se e, sem dizer uma palavra, afrouxou sua gravata de seda prateada. Germán suspirou. Uma das suas mãos tremia levemente. Marina deu o braço ao pai para ajudá-lo a levantar. Germán concordou, abatido, e sorriu fraco para mim, quase envergonhado. Parecia que tinha envelhecido 15 anos num piscar de olhos. Me desculpe, por favor, Oscar..., disse num fio de voz. São coisas da idade. Levantei-me também, oferecendo ajuda a Marina com os olhos. Ela recusou e pediu que ficasse na sala. Seu pai se apoiou nela e assim os dois abandonaram o salão. Foi um gosto, Oscar..., murmurou a voz cansada de Germán, perdendo-se no corredor de sombras. Venha-nos visitar de novo, venha-nos visitar... Ouvi os passos sumirem no interior da casa e esperei por Marina à luz das velas por quase meia hora. A atmosfera da casa começou a pesar sobre mim.
Quando tive certeza de que Marina não voltaria, comecei a me preocupar. Pensei em ir atrás dela, mas não me pareceu correcto ficar procurando pelos quartos sem ter sido convidado. Pensei em deixar um bilhete, mas não tinha como fazer isso. Estava anoitecendo, de modo que o melhor a fazer era ir embora. Voltaria no dia seguinte, depois das aulas, para ver se estava tudo bem. Surpreso, constatei que não via Marina há apenas meia hora e a minha mente já estava procurando pretextos para voltar. Fui até à porta dos fundos, na cozinha, e percorri o jardim até ao portão. O céu se apagava sobre a cidade cheio de nuvens em trânsito. Enquanto ia para o internato, passeando lentamente, os acontecimentos daquele dia desfilaram na minha memória. Ao subir as escadas para o quarto andar estava convencido de que tinha sido o dia mais estranho da minha vida. Mas se fosse possível comprar uma entrada para ver tudo se repetir, compraria sem pensar duas vezes.

À noite, sonhei que estava preso dentro de um imenso caleidoscópio. Um ser diabólico, de quem só podia ver o olho enorme através da lente, fazia o mecanismo girar. O mundo se desfazia em labirintos de ilusões de óptica que flutuavam ao meu redor. Insectos. Borboletas negras. Despertei de repente, com a sensação de ter café fervente correndo nas veias. Aquela febre não me abandonou por todo o dia. As aulas de segunda-feira se suicidaram como comboios sem paragem na minha estação. JF percebeu imediatamente. Você já anda nas nuvens normalmente, sentenciou, mas hoje está além da estratosfera. Está doente? Tratei de tranquilizá-lo com um gesto vago. Consultei o relógio acima do quadro-negro. Três e meia. A aula acabaria dentro de duas horas. Uma eternidade. Lá fora, a chuva arranhava os vidros. Quando a campainha tocou, fugi a toda a velocidade, dando um bolo em JF e em nosso passeio habitual pelo mundo real. Atravessei os eternos corredores até chegar à saída. Os jardins e as fontes da entrada empalideciam sob o manto da tempestade. Não tinha guarda-chuva e o meu casaco não tinha capuz. O céu era uma lápide de chumbo. Os lampiões ardiam como fósforos. Comecei a correr. Evitei poças, desviei de bueiros inundados e cheguei à saída. Riachos de chuva desciam pela rua como uma veia perdendo sangue. Molhado até aos ossos, corri por ruelas estreitas e silenciosas. Os bueiros rugiam à minha passagem. Parecia que a cidade se ia fundir num oceano negro. Levei dez minutos para chegar à cerca do casarão de Marina e Germán. Nessa altura, as minhas roupas e sapatos estavam irremediavelmente encharcados». In Carlos Ruiz Zafón, Marina, 1999, Planeta Editora, 2010, ISBN 978-989-657-119.1

Cortesia de PlanetaE/JDACT

Marina. Carlos Ruiz Zafón. «Diga-me, Oscar, o que o mundo nos conta nesses últimos dias? Formulou a pergunta de tal modo que suspeitei que, se anunciasse o fim da Segunda Guerra Mundial…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Quando saímos de lá, a garoa tinha vestido as ruas de prata. Era uma da tarde. Fizemos o caminho de volta sem trocar uma palavra. Na casa de Marina, Germán nos esperava para almoçar. Não diga nada a Germán sobre isso, por favor, pediu Marina. Não se preocupe. Percebi que, de qualquer jeito, não saberia explicar o que tinha acontecido. À medida que nos afastávamos do local, a lembrança daquelas imagens e daquela estufa sinistra foi-se atenuando. Quando chegamos na Plaza Sarriá, vi que Marina estava pálida e respirava com dificuldade. Você está bem?, perguntei. Marina disse que sim, não muito convencida. Sentámo-nos num banco da praça. Ela respirou profundamente várias vezes, com os olhos fechados. Um bando de pombos saltitava a nossos pés. Por um instante, temi que Marina fosse desmaiar. De repente, ela abriu os olhos e sorriu para mim. Não se assuste. Só fiquei um pouco enjoada. Deve ter sido aquele cheiro. Com certeza. Provavelmente era algum bicho morto. Uma ratazana ou...
Marina concordou com essa hipótese. Em pouco tempo, a cor voltou a seu rosto. O que está me fazendo falta é comer alguma coisa. Ande, vamos embora. Germán já deve estar cansado de esperar. Levantamos e tomámos o caminho de sua casa. Kafka esperava no portão. Olhou para mim com desprezo e correu para se esfregar nos tornozelos de Marina. Estava eu pensando nas vantagens de ser um gato, quando reconheci o som daquela voz celestial no gramofone de Germán. A música se filtrava pelo jardim como uma maré alta. Que música é esta? Léo Delibes, respondeu Marina. Nem desconfio... Delibes. Um compositor francês, esclareceu Marina, adivinhando meu desconhecimento. O que ensinam a vocês nessas escolas? Dei de ombros. E um trecho de uma das óperas dele. Lakmé. E a voz? Minha mãe. Olhei para ela, perplexo. Sua mãe é cantora de ópera? Marina me devolveu um olhar impenetrável. Era, respondeu. Ela morreu.
Germán esperava por nós no salão principal, uma peça ampla e ovalada. Um lustre de lágrimas de cristal pendia do tecto. O pai de Marina estava vestido quase a rigor. Usava um casaco com colete e a sua cabeleira prateada estava cuidadosamente penteada para trás. Tive a impressão de que estava diante de um cavaleiro do final do século. Sentámos à mesa, posta com toalhas de linho e talheres de prata. E um prazer tê-lo aqui connosco, Oscar, disse Germán. Não é todos os domingos que temos a honra de tão grata companhia. A louça era de porcelana, uma verdadeira peça de antiquário. O cardápio parecia consistir numa sopa de aroma delicioso e pão. Mais nada. Enquanto Germán me servia antes de todos, compreendi que todo o luxo se devia à minha presença. Apesar dos talheres de prata, da sopeira de museu e dos luxos de domingo, aquela casa não tinha dinheiro suficiente para um segundo prato. Aliás, quanto a não ter, não tinha nem luz. O casarão era iluminado permanentemente por velas.
Germán deve ter lido o meu pensamento. Deve ter percebido que não temos electricidade, Oscar. Na verdade, nós não damos muito crédito aos avanços da ciência moderna. Afinal de contas, que tipo de ciência é essa, capaz de colocar um homem na lua, mas incapaz de colocar um pedaço de pão na mesa de cada ser humano? Acho que o problema não está na ciência, mas naqueles que decidem como empregá-la, sugeri. Germán considerou a minha ideia e concordou solenemente, não sei se por cortesia ou por convencimento mesmo. Percebo que você é um tanto filósofo, Oscar. Já leu Schopenliauer? Senti os olhos de Marina pousados em mim, sugerindo que seguisse os passos de seu pai. Só por alto, improvisei. Saboreamos a sopa sem falar. Germán sorria amavelmente de vez em quando e observava a filha com carinho. Algo me dizia que Marina não tinha muitos amigos e que Germán via com bons olhos a minha presença, embora, no que me dizia respeito, Schopenliauer podia muito bem ser uma marca de artigos ortopédicos.
Diga-me, Oscar, o que o mundo nos conta nesses últimos dias? Formulou a pergunta de tal modo que suspeitei que, se anunciasse o fim da Segunda Guerra Mundial, causaria um grande alvoroço. Não muito, na verdade, disse, sob a atenta vigilância de Marina. Teremos eleições... Isso despertou o interesse de Germán, que deteve a dança da sua colher e avaliou o tema. E você, Oscar? F, de direita ou de esquerda? Óscar e um anarquista, pai, cortou Marina. O pedaço de pão engasgou na minha garganta. Não sabia o que significava aquela palavra, mas soava como anarquista de bicicleta. Germán observou-me detidamente, intrigado. O idealismo da juventude..., murmurou. É compreensível, é compreensível. Na sua idade, também li Bakunin. É como o sarampo: enquanto você não passa por isso... Dei uma olhada de ajuda para Marina, que lambeu os lábios como um gato. Piscou o olho para mim e virou para o outro lado». In Carlos Ruiz Zafón, Marina, 1999, Planeta Editora, 2010, ISBN 978-989-657-119.1

Cortesia de PlanetaE/JDACT

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Marina. Carlos Ruiz Zafón. «Marina estendeu a mão para a marca. Seus dedos tocaram o cabelo e Marina retirou a mão bruscamente. Percebi que era um gesto de repugnância. É cabelo..., de verdade, disse»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Examinei o grupo de bonecos. Reconheci uma figura fantasiada de mago, um policial, uma grande dama de roupa grená e um hércules de circo... Tinham sido construídos em escala real e vestiam luxuosos trajes de gala de baile de máscaras, que o tempo tinha transformado em farrapos. Mas havia neles alguma coisa que os unificava, que lhes dava uma estranha qualidade que indicava uma origem comum. Estão inacabados, descobri. Marina captou no acto o que eu estava querendo dizer. Alguma coisa faltava em cada um daqueles seres. O policial não tinha braços. A bailarina não tinha olhos, só duas órbitas vazias.. O mago não tinha boca, nem mãos... Examinamos as figuras balançando-se na luz espectral. Marina se aproximou da bailarina e examinou-a cuidadosamente. Apontou uma pequena marca na sua testa, bem em baixo da raiz do seu cabelo de boneca. A borboleta negra, de novo. Marina estendeu a mão para a marca. Seus dedos tocaram o cabelo e Marina retirou a mão bruscamente. Percebi que era um gesto de repugnância. É cabelo..., de verdade, disse.
Impossível.
Começamos a examinar cada uma das sinistras marionetes e encontramos a mesma marca em todas elas. Accionei outra vez a alavanca e o sistema de roldanas levantou os corpos de novo. Vendo-os subir assim, inertes, pensei que eram almas mecânicas que partiam para se unir ao seu criador. Parece que tem alguma coisa ali, disse Marina, nas minhas costas. Virei e vi que estava apontando para um canto da estufa, onde se distinguia uma velha escrivaninha. Uma fina capa de poeira cobria a superfície. Uma aranha passou correndo deixando um rastro de minúsculas pegadas. Ajoelhei e soprei a película de pó. Uma nuvem cinzenta se ergueu no ar. Sobre a escrivaninha havia um volume com encadernação de couro, aberto no meio. Com uma linda caligrafia, lia-se por baixo de uma velha fotografia de cor sépia colada no papel: Aries, 1903. A imagem mostrava duas meninas siamesas unidas pelo tronco. Exibindo vestidos de gala, as duas irmãs ofereciam à câmera fotográfica o sorriso mais triste do mundo.
Marina virou as páginas. O caderno era um álbum de fotografias normal e corriqueiro. Mas as imagens que continha nada tinham de normal e menos ainda de corriqueiro. A imagem das meninas siamesas era um prelúdio. Os dedos de Marina viraram uma folha atrás da outra para contemplar as fotos, com uma mistura de fascínio e repulsa. Dei uma olhada e senti um estranho formigamento na espinha dorsal. Fenómenos da natureza, murmurou Marina. Pessoas com má formação, que antigamente eram relegadas aos circos... O reverso obscuro da natureza exibia o seu rosto monstruoso. Almas inocentes presas no interior de corpos horrivelmente deformados. Por alguns minutos, passámos as páginas daquele álbum em silêncio. Uma a uma, as fotografias mostravam, sinto dizer isso, criaturas de pesadelo. Contudo, as deformações físicas não conseguiam ofuscar os olhares de desolação, de horror e solidão que ardiam naqueles rostos.
Meu Deus..., sussurrou Marina. As fotografias eram legendadas, com o ano e a procedência da foto: Buenos Aires, 1893. Bombaim, 1911. Turim, 1930. Praga, 1933... Era difícil para mim adivinhar quem, e porque, havia reunido semelhante colecção. Um catálogo do inferno. Finalmente, Marina tirou os olhos do livro e se afastou nas sombras. Tratei de fazer o mesmo, mas me sentia incapaz de me afastar da dor e do horror que aquelas imagens transpiravam. Poderia viver mil anos e nunca esqueceria o olhar de cada uma daquelas criaturas. Fechei o livro e virei para Marina. Ouvi a sua respiração na penumbra e senti-me insignificante, sem saber o que fazer, o que dizer. Alguma coisa naquelas fotos tinha perturbado Marina profundamente.
Está tudo bem?, perguntei. Marina fez que sim em silêncio, com os olhos quase fechados. De repente, alguma coisa ressoou na sala. Explorei o manto de sombras que nos cercava. Ouvi de novo aquele som inclassificável. Hostil. Maligno. Foi então que senti um cheiro de podre, nauseabundo e penetrante. Vinha da escuridão, como o hálito de um animal selvagem. Tive a certeza de que não estávamos sozinhos. Havia mais alguém ali. Observando-nos. Petrificada, Marina contemplava a muralha de trevas. Peguei a sua mão e guiei-a até a saída». In Carlos Ruiz Zafón, Marina, 1999, Planeta Editora, 2010, ISBN 978-989-657-119.1

Cortesia de PlanetaE/JDACT

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Marina. Carlos Ruiz Zafón. «Abri os olhos. Um rosto sorria para mim. Olhos brilhantes e amarelos cintilavam, sem vida. Olhos de vidro num rosto esculpido em madeira laqueada»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Você primeiro, convidou Marina. Enchendo-me de coragem, penetrei no matagal. Sem nenhum aviso prévio, Marina pegou na minha mão e seguiu atrás de mim. Senti os meus passos afundando naquele manto de matéria vegetal. A imagem de um emaranhado de serpentes obscuras com olhos escarlates passou-me pela cabeça. Evitando a selva de galhos hostis que arranhavam a pele, chegámos a uma clareira bem na frente da estufa. Lá chegando, Marina largou a minha mão para contemplar a sinistra construção. A hera estendia uma teia de aranha sobre toda a estrutura. A estufa parecia um palácio sepultado nas profundezas de um pântano. Acho que ela nos despistou, concluí. Ninguém coloca os pés nesse lugar há anos. Mesmo a contragosto, Marina me deu razão. Deu uma última olhada para a estufa com um ar de decepção. As derrotas caem melhor em silêncio, pensei comigo. Venha, vamos sair daqui, sugeri, oferecendo a mão na esperança de que a pegasse de novo para atravessar o matagal. Marina ignorou-a e, franzindo a testa, afastou-se para rodear a estufa. Suspirei e fui atrás dela sem muita vontade. Aquela menina era mais teimosa do que uma mula.
Marina, comecei, aqui não... Encontrei-a na parte traseira da estufa, diante do que parecia ser uma entrada. Ela olhou para mim e ergueu a mão até à vidraça. Limpou a sujeira que cobria uma inscrição no vidro. Reconheci a mesma borboleta negra que marcava o túmulo anónimo do cemitério. Marina pousou a mão sobre ela. A porta cedeu lentamente. Pude sentir o hálito infecto e adocicado que vinha lá de dentro. Era um fedor de pântanos e poços envenenados. Desobedecendo ao pouco de bom senso que ainda restava na minha cabeça, penetrei naquelas trevas.

Um cheiro fantasmagórico de perfume e madeira velha flutuava nas I sombras. O chão, de terra fresca, transpirava humidade. Espirais de vapor dançavam até a cúpula de vidro. A condensação daquelas nuvens sangrava gotas invisíveis na escuridão. Um som estranho palpitava além do meu campo de visão. Um murmúrio metálico como se fosse uma persiana agitada. Marina avançava lentamente. A temperatura era morna, húmida. Notei que a minha roupa estava grudada na pele e que uma película de suor brotava na minha testa. Virei para Marina e comprovei, a meia-luz, que o mesmo estava acontecendo com ela. Aquele murmúrio sobrenatural continuava a agitar-se nas sombras. Parecia vir de todos os lados. O que será isso?, sussurrou Marina, com uma ponta de medo na voz.
Sacudi os ombros. Continuámos a penetrar na estufa. Parámos no local para onde convergiam os feixes de luz que se filtravam do tecto. Marina ia dizer alguma coisa quando ouvimos de novo aquele matraquear sinistro. Perto. A menos de 2 metros. Imediatamente acima de nossas cabeças. Trocamos um olhar mudo e, lentamente, levantámos os olhos para a área mergulhada na sombra do tecto da estufa. Senti a mão de Marina fechando-se sobre a minha com força. Tremia. Tremíamos. Estávamos cercados. Várias silhuetas angulosas pendiam do nada. Identifiquei uma dúzia, talvez mais. Pernas, braços, mãos e olhos brilhando nas trevas. Um rebanho de corpos inertes se balançava sobre nós como marionetes infernais. Ao roçar uns com os outros, produziam aquele ruído metálico. Demos alguns passos para trás e, antes que pudéssemos perceber o que acontecia, o tornozelo de Marina ficou preso numa alavanca ligada a um sistema de roldanas. A alavanca cedeu. Num décimo de segundo, aquele exército de figuras congeladas despenhou-se no vazio. Saltei para cobrir Marina e ambos caímos de bruços. Ouvi o eco de um tranco violento e o rugido da velha estrutura de vidro vibrando. Tive medo que as placas de vidro quebrassem e uma chuva de lâminas transparentes nos pregasse no chão. Naquele momento senti um contacto frio na nuca. Dedos.
Abri os olhos. Um rosto sorria para mim. Olhos brilhantes e amarelos cintilavam, sem vida. Olhos de vidro num rosto esculpido em madeira laqueada. Naquele instante, ouvi Marina sufocar um grito ao meu lado. São bonecos, disse, quase sem fôlego. Levantámos para verificar a verdadeira natureza daqueles seres. Marionetes. Figuras de madeira, metal e cerâmica, suspensas pelos mil fios pendentes de uma treliça. A alavanca, accionada por Marina sem querer, tinha destravado o mecanismo de roldanas que sustentava os bonecos, que despencaram e pararam a três palmos do chão, balançando como um macabro ballet de enforcados. Que droga é essa?, exclamou Marina». In Carlos Ruiz Zafón, Marina, 1999, Planeta Editora, 2010, ISBN 978-989-657-119.1

Cortesia de PlanetaE/JDACT

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Marina. Carlos Ruiz Zafón. «O seu rasto nos levou a uma viela sem saída cortada pelo trecho descoberto dos carris do caminho-de-ferro de Sarriá, que subiam até Vallvidrera e Sant Cugat. Parámos ali»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A dama de negro permaneceu em silêncio por quase cinco minutos ao pé do túmulo. Finalmente, inclinou-se, depositou a rosa vermelha na lápide e foi embora lentamente, assim como tinha vindo. Como uma aparição. Marina olhou para mim de um jeito nervoso e aproximou-se para cochichar alguma coisa no meu ouvido. Senti os seus lábios roçando a minha orelha e uma lagarta com patinhas de fogo começou a dançar um samba na minha nuca.
Encontrei-a por acaso há três meses, quando vim com Germán para depositar flores no túmulo da sua tia Reme... Ela vem sempre no último domingo do mês às dez da manhã e deixa uma rosa vermelha sobre essa lápide, explicou Marina. Usa sempre a mesma capa com capuz e luvas. Vem sempre sozinha. Nunca mostra o rosto. Nunca fala com ninguém. Quem está enterrado aí? O estranho símbolo entalhado no mármore despertava a minha curiosidade. Não sei. No registo do cemitério não aparece nenhum nome... E quem é essa mulher? Marina ia responder quando viu a silhueta da dama de negro desaparecendo pelo portão do cemitério. Puxou-me com a mão e levantou-se apressada. Rápido. Vamos perdê-la. Então vamos segui-la?, perguntei. Você não queria acção?, disse ela, a meio caminho entre a pena e a irritação, como se eu fosse um bobo.
Quando chegámos à rua Dr. Roux, a mulher de negro estava caminhando em direcção à Bonanova. Tinha voltado a chover, embora o Sol teimasse em não se esconder. Seguimos a mulher através daquela cortina de lágrimas de ouro. Cruzámos o Paseo de la Bonanova e subimos até ao sopé das montanhas, povoado de palacetes e mansões que já tinham conhecido tempos melhores. A dama penetrou naquela rede de ruas desertas. Um manto de folhas secas cobria o chão, brilhantes como as escamas abandonadas de uma grande serpente. Quando chegou a um cruzamento, ela se deteve, uma estátua viva. Ela nos viu..., sussurrei, refugiando-me com Marina atrás de um grosso tronco de árvore sulcado de inscrições. Por um instante, temi que ela se fosse virar e ver-nos. Mas não. Em pouco tempo, dobrou à esquerda e desapareceu. Marina e eu nos entreolhamos e recomeçámos a nossa perseguição.
O seu rasto nos levou a uma viela sem saída cortada pelo trecho descoberto dos carris do caminho-de-ferro de Sarriá, que subiam até Vallvidrera e Sant Cugat. Parámos ali. Não havia sinal da dama de negro, embora eu tivesse visto, e Marina também, quando ela dobrou naquela altura. Por cima das árvores e dos telhados das casas, viam-se as torres do internato à distância. Deve ter entrado em casa, comentei. Deve morar aqui por perto. Não. Essas casas estão desabitadas. Ninguém vive aqui. Marina indicou as fachadas ocultas atrás de cercas e muros. Um par de velhos armazéns abandonados e um casarão devorado pelas chamas, décadas antes, era tudo o que restava de pé. A dama de negro tinha sumido debaixo dos nossos narizes.
Seguimos pela viela. Uma poça reflectia uma lâmina de céu aos nossos pés. Gotas de chuva turvavam a nossa imagem. No final da rua, um portão de madeira balançava movido pelo vento. Marina olhou para mim em silêncio. Chegámos mais perto e cuidadosamente me debrucei para dar uma espreitadela. O portão, preso num muro de ladrilhos vermelhos, dava para um pátio. O que em outra época era um jardim agora estava completamente tomado pelas ervas daninhas. Por trás daquela massa verde, adivinhava-se a fachada de um estranho edifício coberto de hera. Demorei alguns segundos para entender que se tratava de uma estufa de vidro armada sobre um esqueleto de aço. As plantas rangiam como um enxame à espreita». In Carlos Ruiz Zafón, Marina, 1999, Planeta Editora, 2010, ISBN 978-989-657-119.1

Cortesia de PlanetaE/JDACT

Marina. Carlos Ruiz Zafón. «Uma eternidade. Uma brisa leve roçava os ciprestes. Duas pombas brancas esvoaçavam entre os túmulos. Uma formiga subia pela perna da minha calça. E mais nada»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Seguindo as suas instruções, nos acomodámos numa espécie deterraço, discreto e elevado, na ala norte do terreno. De lá, tínhamos uma boa visão do solitário cemitério. Ficámos sentados em silêncio contemplando tumbas e flores murchas. Marina não dava um pio e, depois de alguns minutos, comecei a ficar impaciente. O único mistério que via em tudo aquilo era saber porque diabos estávamos fazendo ali. Isso está meio morto, não?, sugeri, consciente da ironia. A paciência é a mãe da ciência, replicou Marina. E a madrinha da demência, devolvi. Não tem nada de nada aqui. Marina deu-me um olhar que não consegui decifrar. Está enganado. Aqui estão as lembranças de centenas de pessoas, as suas vidas, os seus sentimentos, as suas ilusões, a sua ausência, os sonhos que nunca conseguiram realizar, as decepções, os enganos e os amores não correspondidos que envenenaram as suas vidas... Tudo isso está aqui, preso para sempre. Olhei para ela intrigado e um tanto intimidado, embora não soubesse exatacmente do que estava filando. Fosse como fosse, era importante para ela. Ninguém entende nada da vida enquanto não entender a morte, acrescentou Marina.
Mais uma vez, fiquei sem entender direito o sentido das suas palavras. A verdade é que não penso muito nisso, disse. Quer dizer, na morte. Marina sacudiu a cabeça como um médico que detecta sintomas de uma enfermidade fatal. Quer dizer que você é um daqueles inocentes desprevenidos..., comentou com um certo ar de cilada. Os desprevenidos? Agora sim estava perdido. Cem por cento perdido. Marina deixou o olhar deslizar para longe e o seu rosto adquiriu um tom de seriedade que fazia com que parecesse mais velha. Eu estava completamente hipnotizado por ela. Suponho que nunca ouviu falar da lenda, começou Marina. Lenda?
Já imaginava..., sentenciou. O caso é que, segundo dizem, a morte tem emissários que andam pelas ruas em busca dos ignorantes e dos cabeças-de-vento que não pensam nela. Ao dizer isso, cravou as suas pupilas nas minhas. Quando um desses infelizes se encontra com um emissário da morte, continuou Marina, é levado sem saber para uma armadilha. Uma porta do inferno. Esses emissários andam com o rosto coberto para esconder que não têm olhos, mas apenas dois buracos negros habitados por vermes. Quando já não há mais escapatória, o emissário revela o seu rosto e a vítima compreende o horror que a espera... Suas palavras flutuaram com o eco, enquanto meu estômago encolhia. Foi então que Marina deixou escapar aquele seu sorriso malicioso. Sorriso de gato. Está zombando de mim, disse eu, finalmente. E claro. Passaram-se mais cinco ou dez minutos em silêncio, talvez mais.
Uma eternidade. Uma brisa leve roçava os ciprestes. Duas pombas brancas esvoaçavam entre os túmulos. Uma formiga subia pela perna da minha calça. E mais nada. Logo senti que a minha perna estava ficando dormente e fiquei com medo que o cérebro seguisse o mesmo caminho. Estava quase protestando quando Marina levantou a mão, obrigando-me a calar antes mesmo de ter aberto a boca. Em seguida, apontou para o portão do cemitério. Alguém acabava de entrar. O vulto parecia ser uma dama coberta por uma capa de veludo preto. Um capuz escondia o rosto. As mãos, cruzadas no peito, mergulhadas em luvas da mesma cor da capa, que ia até ao chão e não permitia que se vissem os pés. De onde estávamos, parecia que aquela figura sem rosto se deslocava sem tocar o solo. Por alguma razão, senti um calafrio. Quem...?, sussurrei.
Pssst, cortou Marina. Escondidos atrás das colunas do terraço, ficamos espiando a dama de negro. Ela avançava entre os túmulos como uma aparição, segurando uma rosa vermelha entre os dedos enluvados. A flor parecia uma ferida recém-aberta esculpida a punhal. A mulher aproximou-se de uma lápide que ficava logo por baixo do nosso posto de observação e parou, de costas para nós. Pela primeira vez, notei que aquele túmulo, ao contrário de todos os outros, não tinha nenhum nome. Exibia apenas uma inscrição gravada no mármore: um símbolo que parecia representar um insecto, uma borboleta negra com as asas abertas». In Carlos Ruiz Zafón, Marina, 1999, Planeta Editora, 2010, ISBN 978-989-657-119.1

Cortesia de PlanetaE/JDACT

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Marina. Carlos Ruiz Zafón. «Mais adiante, um jardim encantado povoado de lápides, cruzes e mausoléus cobertos de mofo empalidecia sob as sombras azuladas. O velho cemitério de Sarriá»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Cumprimentei com a mão, mas ela já tinha evaporado. Esperei em vão que Marina voltasse a aparecer. O sol roçava a cúpula do céu e calculei que os ponteiros deviam rondar as doze badaladas do meio-dia. Quando me convenci de que Marina não ia aparecer, voltei para o internato. Os velhos portões do bairro pareciam sorrir, cúmplices. Eu ouvia o eco de meus passos, mas poderia jurar que estava andando a um palmo do chão.

Acho que nunca fui tão pontual naem minha vida. A cidade ainda estava de pijama quando cruzei a Plaza Sarriá. A minha passagem, um bando de pombos levantou voo ao toque dos sinos da missa das nove. Um rol de folheto publicitário iluminava as poças deixadas pela chuvinha nocturna. Kafka tinha-se adiantado para me receber no início da rua que levava ao casarão. Um grupo de pardais mantinha-se a uma distância prudente, no alto de um muro. O gato os observava com uma estudada indiferença profissional. Bom dia, Kafka. E então, já cometemos algum assassinato esta manhã? O gato respondeu com um mero rom-rom e, como se fosse um imperturbável mordomo inglês, tratou de me guiar através do jardim até à fonte. Reconheci a silhueta de Marina sentada na beirada, com um vestido cor de marfim que deixava os ombros descobertos. Segurava um livro com encadernação de couro, no qual escrevia com uma esferográfica. O seu rosto delatava uma grande concentração, ela não percebeu a minha presença. Sua mente parecia estar noutro mundo, o que permitiu que a contemplasse, abobalhado, por alguns instantes. Concluí que aquelas clavículas só podiam ter sido desenhadas por Leonardo da Vinci: não havia outra explicação. Ciumento, Kafka rompeu a magia com um miado. A esferográfica parou de repente e os olhos de Marina se ergueram até aos meus. Em seguida, ela fechou o livro.
Preparado?
Marina me guiou pelas ruas de Sarriá, sem um destino conhecido e sem qualquer indício das suas intenções além de um sorriso misterioso. Para onde estamos indo?, perguntei depois de vários minutos. Paciência. Já vai ver. Continuei a segui-la docilmente, embora abrigasse a suspeita de estar sendo vítima de alguma brincadeira que, pelo menos por enquanto, não conseguia compreender. Descemos até ao Paseo de la Bonanova e, de lá, virámos em direcção a San Gervasio. Passamos diante do buraco negro do bar Víctor. Entrincheirados atrás dos óculos escuros, um bando de mauricinhos empunhava as suas cervejas, indolentemente sentados no selim das suas vespas. Quando passámos, vários deles puxaram os ray-ban até a ponta do nariz para fazer uma radiografia de Marina. Tomara que explodam!, pensei.
Assim que chegamos à rua Dr. Roux, Marina dobrou à direita. Descemos várias quadras até uma pequena viela sem asfalto, que começava na altura do número 112. O enigmático sorriso continuava a dançar nos lábios de Marina. É aqui?, perguntei intrigado. A ruazinha não parecia levar a parte alguma. Marina se limitou a seguir em frente. Levou-me por um caminho que subia até um portal ladeado por ciprestes. Mais adiante, um jardim encantado povoado de lápides, cruzes e mausoléus cobertos de mofo empalidecia sob as sombras azuladas. O velho cemitério de Sarriá.
O cemitério de Sarriá é um dos lugares mais escondidos de Barcelona. Quem procurar no mapa, não vai achar nada. Se perguntar a vizinhos ou taxistas, é mais provável que não saibam dizer, embora todos já tenham ouvido falar dele. E se alguém, por acaso, se atrever a procurar por conta própria, é mais provável que se perca. Os poucos que conhecem o segredo da sua localização suspeitam que, na verdade, o velho cemitério não seja mais do que uma ilha do passado que aparece e desaparece a seu bel-prazer. Esse foi o cenário que Marina escolheu para me levar naquele domingo de Setembro para revelar um mistério que me intrigava tanto quanto a ela». In Carlos Ruiz Zafón, Marina, 1999, Planeta Editora, 2010, ISBN 978-989-657-119.1

Cortesia de PlanetaE/JDACT

Marina. Carlos Ruiz Zafón. «Dei de ombros. Bem... Saí caminhando rua abaixo, sentindo que a magia daquela casa se desprendia de mim a cada passo que dava. De repente, a sua voz soou às minhas costas»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A menina sorria maliciosamente. Os olhos de Germán pousaram nos meus, escuros e impenetráveis. Remexi no bolso e estendi o relógio para ele, esperando que a qualquer momento aquele homem começasse a berrar e ameaçasse chamar a polícia, a guarda civil ou o tribunal tutelar da infância e juventude. Acredito em você, disse ele delicadamente, aceitando o relógio e sentando-se à mesa connosco. A sua voz era suave, quase inaudível. Sua filha começou a arrumar um prato para ele com dois croissants e uma xícara de café com leite igual à minha. Enquanto fazia isso, beijou-o na testa e Germán abraçou-a. Fiquei olhando os dois na contraluz daquela claridade que penetrava pelas janelas. O rosto de Germán, que imaginei como um ogro, tornou-se delicado, quase doentio. Era alto e extremamente magro. Sorriu com amabilidade enquanto levava a xícara aos lábios e, por um instante, notei que entre pai e filha circulava uma corrente de afecto que ia muito além das palavras e dos gestos. Um vínculo de silêncio e olhares unia os dois nas sombras daquela casa, no final de uma rua esquecida, onde viviam afastados do mundo, um cuidando do outro.
Germán terminou a sua refeição e agradeceu gentilmente por eu ter-me dado ao trabalho de ir devolver o seu relógio. Tanta amabilidade fez com que me sentisse ainda mais culpado. Bem, Óscar, disse com voz cansada, foi um prazer conhecê-lo. Espero revê-lo por aqui outras vezes, quando quiser nos dar o prazer de uma visita. Não entendia porque insistia em me tratar com cerimónia. Havia algo naquele homem que lembrava outra época, um tempo em que aquela cabeleira grisalha brilhava e aquele casarão era um palácio no meio do caminho entre Sarriá e o céu. Apertou a minha mão e despediu-se, desaparecendo naquele labirinto insondável. Fiquei olhando enquanto ele se afastava, mancando levemente pelo corredor. A sua filha o observava tentando ocultar o véu de tristeza que encobria o seu olhar.
Germán não está muito bem de saúde, murmurou. Ele se cansa com facilidade. Mas desmanchou aquele clima melancólico logo em seguida. Gostaria de comer mais alguma coisa? Está ficando tarde, disse eu, lutando contra a tentação de aceitar qualquer desculpa para prolongar a minha permanência na sua companhia. Creio que é melhor eu ir embora... Ela aceitou a minha decisão e me acompanhou até ao jardim. A luz da manhã tinha espalhado a névoa. O início do Outono tingia as árvores de cobre. Caminhámos até à grade da entrada; Kafka ronronava ao sol. Ao chegar ao portão, a menina ficou no interior da propriedade e me deu passagem. Ficámos nos olhando em silêncio. Ofereceu a mão e eu a apertei. Senti o seu pulso sob a pele aveludada. Obrigado por tudo, disse. E desculpe... Não tem importância.
Dei de ombros. Bem... Saí caminhando rua abaixo, sentindo que a magia daquela casa se desprendia de mim a cada passo que dava. De repente, a sua voz soou às minhas costas. Oscar! Virei. Ela continuava lá, atrás da grade, com Kafka deitado a seus pés. Por que entrou na nossa casa na outra noite? Olhei ao redor como se esperasse encontrar a resposta escrita no chão. Não sei, admiti finalmente. O mistério, creio... A menina sorriu enigmaticamente. Você gosta de mistérios? Fiz que sim. Acho que se me tivesse perguntado se gostava de arsénico, minha resposta seria a mesma. Tem alguma coisa para fazer amanhã? Neguei, igualmente mudo. Se tinha alguma coisa, inventaria uma desculpa. Como ladrão, eu não valia um centavo, mas como mentiroso devo confessar que sempre fui um artista. Então espero você aqui, às nove, disse ela, perdendo-se entre as sombras do jardim. Espere! O meu grito a deteve. Você não me disse como se chama... Marina... Até amanhã». In Carlos Ruiz Zafón, Marina, 1999, Planeta Editora, 2010, ISBN 978-989-657-119.1

Cortesia de PlanetaE/JDACT

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Marina. Carlos Ruiz Zafón. « Estava prestes a dar alguma resposta engenhosa, quando uma sombra imensa se espalhou sobre a mesa como uma nuvem de tinta. Minha anfitriã levantou os olhos e sorriu»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A menção daquele nome invocou a visão da figura enorme de cabeleira branca que me surpreendeu na galeria do casarão dias antes. Germán? Meu pai.
E você é...?, perguntei. Filha dele. Quero dizer, como é o seu nome? Eu sei perfeitamente o que você queria dizer, replicou a menina. Sem uma palavra, montou na bicicleta e cruzou o portão da entrada. Antes de se perder no jardim, virou-se brevemente. Aqueles olhos estavam rindo da minha cara às gargalhadas. Suspirei e fui atrás dela. Um velho conhecido me deu as boas-vindas. O gato olhava para mim com o desprezo habitual. Desejei ser um dobermann. Atravessei o jardim escoltado pelo felino. Fui desviando daquela selva até chegar à fonte dos querubins. A bicicleta estava encostada na fonte e a sua dona tirava uma bolsa do cesto que ficava na frente do guiador.
Cheirava a pão fresco. A menina tirou uma garrafa de leite da sacola e ajoelhou-se para encher uma tigela que estava no chão. O animal correu disparado para o seu café da manhã. Dava a impressão de que aquilo era um ritual diário. Pensei que seu gato só comesse passarinhos indefesos, disse. Não, ele só caça. Não come. É uma questão territorial, explicou como se estivesse falando com uma criança. Ele gosta é de leite. Não é verdade, Kafka, que você gosta de leite? O kafkiano felino lambeu os dedos em sinal afirmativo. A menina sorriu calorosamente, enquanto acariciava o dorso do animal. Quando fez isso, os músculos das suas costas se desenharam nas dobras do vestido. Exactamente nesse instante, ela se virou e me surpreendeu olhando para ela e lambendo os lábios.
E você? Já tomou seu café da manhã?, perguntou. Neguei com a cabeça. Então deve estar com fome. Todos os bobos têm fome, disse. Venha, entre e coma alguma coisa. E bom estar de estômago cheio quando for explicar a Germán porque roubou o relógio dele. A cozinha era uma sala grande situada na parte de trás da casa. Os croissants que a jovem tinha comprado na pastelaria Foix, na Plaza Sarriá, constituíram a minha inesperada refeição. Trouxe também uma xícara enorme de café com leite e sentou-se na minha frente enquanto eu devorava aquele banquete com avidez. Olhava para mim como se tivesse recolhido um mendigo faminto da rua, com uma mescla de curiosidade, pena e medo. Ela mesma não tocou na comida. Já tinha visto você por aí algumas vezes, comentou sem tirar os olhos de cima de mim. Você e aquele garoto pequeno com cara de susto. Costumam atravessar a rua à tarde quando o internato dá uma folga. Às vezes, você vem sozinho, cantarolando distraído. Aposto que passam muito bem naquela masmorra...
Estava prestes a dar alguma resposta engenhosa, quando uma sombra imensa se espalhou sobre a mesa como uma nuvem de tinta. Minha anfitriã levantou os olhos e sorriu. Eu fiquei imóvel, com a boca cheia de croissant e os pulsos batendo como um par de castanholas. Temos visita, anunciou ela, divertida. Pai, esse é Oscar Drai, contumaz ladrão de relógios. Oscar, esse é Germán, meu pai. Engoli de uma só vez e me virei lentamente. Uma silhueta que me pareceu altíssima se erguia bem na minha frente. Vestia um terno de alpaca, com colete e gravata. Uma cabeleira branca penteada caprichosamente para trás caía sobre os seus ombros. Um bigode branco pintava o rosto marcado por ângulos cortantes ao redor dos olhos escuros e tristes. Mas o que realmente o definia eram as mãos. Mãos brancas de anjo, de dedos finos e intermináveis. Germán... Não sou ladrão, senhor..., articulei nervosamente. Tudo isso tem explicação. Se me atrevi a penetrar na sua casa foi porque pensei que estava desabitada. Mas uma vez dentro, não sei o que me deu, ouvi aquela música, vou, não vou, o caso e que fui e vi o relógio. Não pretendia pegá-lo, juro, mas me assustei e quando percebi que tinha carregado o relógio comigo já estava bem longe daqui. Quer dizer, não sei se expliquei direito...» In Carlos Ruiz Zafón, Marina, 1999, Planeta Editora, 2010, ISBN 978-989-657-119.1

Cortesia de PlanetaE/JDACT

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Marina. Carlos Ruiz Zafón. «Uma bicicleta emergia lentamente da bruma. Uma menina usando um vestido branco descia a encosta pedalando na minha direcção. Na contraluz do amanhecer…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Pouco antes do amanhecer, despertei com a vaga sensação de ter sonhado com a voz presa no gramofone. Do outro lado da minha janela, Barcelona se iluminava numa tela de sombras escarlates, sobre um bosque de antenas e terraços. Pulei da cama e procurei o maldito relógio que tinha assombrado a minha existência nos últimos dias. Ficámos encarando-nos por um instante. Finalmente, me armei daquele tipo de determinação que só aparece quando temos de enfrentar tarefas absurdas e resolvi acabar de vez com aquela história. Ia devolvê-lo.
Tratei de me vestir em silêncio e atravessei o corredor escuro do quarto andar na ponta dos pés. Ninguém notaria a minha ausência até as dez, onze da manhã. E a essa hora eu já devia estar de volta. Lá fora as ruas estendiam-se sob aquele manto púrpura que envolve o amanhecer em Barcelona. Desci até à calle Margenat. Sarriá despertava ao meu redor. Nuvens baixas penteavam o bairro capturando as primeiras luzes do dia num halo dourado. As fachadas das casas se desenhavam entre os vestígios de neblina e as folhas secas que voavam sem rumo. Não demorei a encontrar a rua. Parei um instante para absorver aquele silêncio, aquela estranha paz que reinava naquele canto perdido da cidade. Começava a sentir que o mundo tinha parado junto com o relógio que estava no meu bolso, quando ouvi um rumor às minhas costas. Virei e deparei-me com uma visão que parecia roubada de um sonho.

Uma bicicleta emergia lentamente da bruma. Uma menina usando um vestido branco descia a encosta pedalando na minha direcção. Na contraluz do amanhecer, eu podia adivinhar a silhueta de seu corpo através do algodão. Uma longa cabeleira cor de feno ondeava escondendo o rosto. Fiquei ali, imóvel, contemplando-a enquanto se aproximava, como um imbecil com ataque de paralisia. A bicicleta parou a uns 2 metros de mim. Os meus olhos, ou talvez a minha imaginação, adivinharam o contorno de pernas esguias tentando alcançar o chão. Meu olhar subiu por aquele vestido que parecia saído de um quadro de Sorolla e foi parar num par de olhos de um cinza tão profundo que alguém poderia cair lá dentro. Estavam cravados em mim com olhar sarcástico. Sorri e ofereci a minha melhor cara de idiota. V deve ser o sujeito do relógio, disse a menina num tom que combinava com a força do seu olhar. Calculei que devia ter a minha idade, talvez um ano a mais. Adivinhar a idade de uma mulher era, para mim, uma arte ou uma ciência, nunca um passatempo. A sua pele era tão pálida quanto o vestido. V mora aqui?, gaguejei, indicando o portão.
Ela mal piscou. Aqueles dois olhos me perfuravam com tanta fúria que precisei de mais duas horas para me dar conta de que, no que me dizia respeito, aquela era a criatura mais deslumbrante que eu tinha visto na vida ou que esperava ver um dia. E ponto final. F. quem é você para perguntar? Acho que eu sou o sujeito do relógio, improvisei. Meu nome é Óscar. Óscar Drai. Vim devolver. Sem lhe dar tempo para responder, tirei o relógio do bolso e estendi a mão. A menina sustentou o meu olhar por alguns segundos antes de pegá-lo. Quando fez isso, vi que a sua mão era tão branca quanto a de um boneco de neve e que exibia um aro dourado no dedo anelar.
Já estava quebrado quando o peguei, expliquei. Está quebrado há 15 anos, murmurou sem olhar para mim. Quando afinal levantou os olhos, foi para me examinar de cima a baixo, como quem avalia um móvel velho ou um traste qualquer. Algo nos seus olhos me disse que não dava muito crédito à minha qualificação como ladrão: provavelmente estava-me catalogando na secção dos cretinos ou simplesmente bobos. A cara de lunático que eu exibia não ajudava muito. A menina levantou uma sobrancelha ao mesmo tempo que sorria enigmaticamente e me estendia o relógio de volta. Foi você quem pegou, é você quem vai devolver ao legítimo dono. Mas... O relógio não é meu,
esclareceu a menina. É de Germán». In Carlos Ruiz Zafón, Marina, 1999, Planeta Editora, 2010, ISBN 978-989-657-119.1

Cortesia de PlanetaE/JDACT

sábado, 31 de agosto de 2019

Marina no 31. Carlos Ruiz Zafón. «Naquela mesma tarde, quando as aulas terminaram, JF e eu escapulimos pela porta da cozinha e pegamos a misteriosa rua que levava ao palacete. O pavimento de pedras estava cheio de poças e montes de folhas»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Deu uma olhada na fotocópia e lançou-me um olhar enviesado. Procure na letra i de idiota e vai ver que não sou o único famoso por aqui, replicou JF. Naquele dia, ao meio-dia, na hora do pátio, JF e eu penetrámos sorrateiramente no tenebroso auditório. Os nossos passos no corredor central despertavam o eco de cem sombras caminhando nas pontas dos pés. Dois raios de luz prateada caíam sobre o palco empoeirado. Fomos nos sentar naquele clarão de luz, diante das fileiras de cadeiras vazias que se fundiam na penumbra. O sussurro da chuva arranhava as vidraças do primeiro andar. Bem, atacou JF, para que todo esse mistério? Sem dizer uma palavra, tirei o relógio e o estendi para ele. JF arqueou as sobrancelhas e avaliou o objecto. Examinou-o detidamente por alguns segundos, antes de devolvê-lo com olhar intrigado. O que acha?, perguntei. Bem, parece ser um relógio, replicou JF. Quem é esse tal de Germán? Não tenho a mínima ideia. Comecei a contar detalhadamente a aventura de dias antes no casarão arruinado. JF ouviu atentamente o relato dos acontecimentos com a paciência e a atenção quase científica que o caracterizavam. Ao final da narrativa, pareceu avaliar o assunto antes de dar as suas primeiras impressões.
Em poucas palavras, você roubou o relógio, concluiu. Não é essa a questão, repliquei. Teríamos que ver qual é a opinião do tal Germán a esse respeito, acrescentou JF. É muito provável que o tal Germán esteja morto há muitos e muitos anos, sugeri, não muito convencido.

JF esfregou o queixo. Também me pergunto o que dirá o Código Penal acerca do furto premeditado de objectos pessoais e relógios com dedicatórias..., observou o meu amigo. Não houve premeditação nem vítimas fatais, protestei. Tudo aconteceu de repente, nem tive tempo de pensar. Quando percebi que estava com o relógio, já era tarde demais. No meu lugar, você teria feito a mesma coisa. Em seu lugar, eu teria sofrido uma paragem cardíaca, esclareceu JF, que era antes um homem de palavras do que um homem de acção. Supondo que fosse louco o suficiente para invadir um casarão atrás de um gato diabólico. Quem pode saber os tipos de germes que se pode pegar de um bicho desses... Ficamos em silêncio por alguns segundos, ouvindo o eco distante da chuva. Bem, concluiu JF, o que está feito, está feito. Não está pensando em voltar lá, está? Sorri. Sozinho, não. Os olhos do meu amigo se arregalaram, grandes como pratos. Ah, não! Nem pensar.
Naquela mesma tarde, quando as aulas terminaram, JF e eu escapulimos pela porta da cozinha e pegamos a misteriosa rua que levava ao palacete. O pavimento de pedras estava cheio de poças e montes de folhas. Um céu ameaçador cobria a cidade. JF, que não parecia muito convencido, estava mais pálido do que nunca. A visão daquele lugar preso no passado deixava o seu estômago do tamanho de uma bolinha de gude. O silêncio era ensurdecedor. Acho que a melhor coisa é dar meia-volta e ir embora daqui,  murmurou, retrocedendo alguns passos. Você parece uma galinha assustada.
As pessoas não sabem apreciar o valor de uma galinha. Sem ela não teríamos ovos nem... De repente, o tilintar de um guizo se espalhou no vento. JF emudeceu. Os olhos amarelos do gato nos observavam. De repente, o animal deu um chiado de serpente e mostrou as garras. Os pelos do lombo se eriçaram e a sua mandíbula exibiu os mesmos dentes que tinham ceifado a vida de um pardal dias atrás. Um relâmpago distante acendeu uma caldeira de luz na cúpula do céu. JF e eu trocamos um olhar. Quinze minutos depois estávamos sentados num banco junto ao tanque do claustro do internato. O relógio continuava no bolso do meu casaco. Mais pesado do que nunca. Ficou ali pelo resto da semana, até à madrugada de sábado». In Carlos Ruiz Zafón, Marina, 1999, Planeta Editora, 2010, ISBN 978-989-657-119.1

Cortesia de PlanetaE/JDACT

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Marina. Carlos Ruiz Zafón. «Nos dias que se seguiram, o danado do relógio e eu viramos companheiros inseparáveis. Eu o levava comigo para todo o lado, colocando-o para dormir em baixo do meu travesseiro»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Seus grandes olhos cinzentos, tristes e sem fundo, dominavam a sala. Subitamente, o encantamento se rompeu. Uma silhueta se ergueu da poltrona e virou-se na minha direcção. Uma longa cabeleira branca e dois olhos acesos como brasas brilharam na escuridão. Só consegui ver duas imensas mãos brancas avançando para mim. Em pânico, saí correndo em direcção à porta, mas no caminho tropecei no gramofone e derrubei-o, caindo no chão. Ouvi a agulha arranhando o disco. A voz celestial se apagou num gemido infernal. Saltei para o jardim sentindo aquelas mãos roçarem a minha camisa e atravessei-o com asas nos pés e o medo ardendo em cada poro do meu corpo. Não parei um instante sequer. Corri cada vez mais, sem olhar para trás até que uma pontada de dor perfurou as minhas costelas e então percebi que mal conseguia respirar. Naquela altura, estava coberto de suor frio e as luzes do internato brilhavam 30 metros à minha frente.
Deslizei por uma porta ao lado das cozinhas, que ninguém nunca vigiava, e me arrastei para o meu quarto. Os outros internos já deviam estar no refeitório há muito tempo. Sequei o suor da testa e pouco a pouco o meu coração recuperou o seu ritmo habitual. Começava a me acalmar, quando alguém bateu na porta do quarto com os nós dos dedos. Óscar, hora de descer para jantar, entoou a voz de um dos professores, um jesuíta racionalista chamado Segui, que detestava fazer papel de polícia. Já estou indo, padre, respondi. Um segundo. Vesti apressadamente o paletó do uniforme e apaguei a luz do quarto. Através da janela, o espectro da lua erguia-se sobre Barcelona. Só então me dei conta de que ainda segurava o relógio na mão.

Nos dias que se seguiram, o danado do relógio e eu viramos companheiros inseparáveis. Eu o levava comigo para todo o lado, colocando-o para dormir em baixo do meu travesseiro, com medo de que alguém o encontrasse e perguntasse de onde ele tinha surgido. Não saberia o que responder. Tudo isso é porque não foi achado, foi roubado, sussurrava no meu ouvido uma voz acusadora. O termo técnico é furto com invasão de domicílio, acrescentava a voz que, por alguma estranha razão, usava um tom de suspeita semelhante ao do actor que dobrava Perry Mason. Toda a noite, esperava pacientemente que todos os meus colegas dormissem para examinar o meu tesouro particular. Com a chegada do silêncio, examinava o relógio à luz de uma lanterna. Nem toda a sensação de culpa do mundo conseguiria diminuir a fascinação que o produto da minha primeira aventura no mundo do crime desorganizado me causava. O relógio era pesado e parecia forjado em ouro maciço. A tampa de vidro quebrada sugeria uma pancada ou uma queda. Supus que o mesmo impacto teria sido responsável pelo fim da vida do seu mecanismo e pelo congelamento dos ponteiros às 6h23, numa condenação eterna. Na parte de trás lia-se uma inscrição:

Para Germán, em quem fala a luz.
K.A.
19-1-1964

De repente, a ideia de que aquele relógio devia valer uma fortuna cruzou a minha cabeça e o remorso não demorou a chegar. Aquelas palavras gravadas faziam com que me sentisse como um ladrão de recordações. Numa quinta-feira manchada de chuva, resolvi compartilhar o meu segredo. O meu melhor amigo no internato era um garoto de olhos penetrantes e temperamento nervoso, que respondia pelo nome de JF, embora essa sigla pouco ou nada tivesse a ver com o seu nome real. JF tinha alma de poeta libertário e respostas tão afiadas que muitas vezes cortava a língua com elas. Era de constituição delicada e bastava mencionar a palavra micróbio num raio de um quilómetro ao seu redor, para que acreditasse que tinha uma infecção. Certa vez, procurei o termo hipocondríaco no dicionário e fiz uma cópia para ele. Não sei se já sabia, mas a sua biografia está no Dicionário da Real Academia, anunciei». In Carlos Ruiz Zafón, Marina, 1999, Planeta Editora, 2010, ISBN 978-989-657-119.1

Cortesia de PlanetaE/JDACT

Marina. Carlos Ruiz Zafón. «Mais uma vez, alguém decidiu por mim. Um som celestial invadiu as sombras do jardim como um perfume. Ouvi os contornos daquele sussurro desenharem uma ária acompanhada ao piano»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A sua fachada sombria erguia-se por trás de uma fonte com esculturas que o tempo tinha vestido de musgo. Começava a escurecer e o local me pareceu um pouco sinistro: rodeado por um silêncio mortal, só a brisa se atrevia a sussurrar uma advertência sem palavras. Compreendi que tinha penetrado numa das zonas mortas do bairro e pensei que o melhor a fazer era voltar atrás e retornar ao internato. Estava debatendo-me entre o bom senso e a fascinação mórbida por aquele lugar esquecido, quando descobri dois brilhantes olhos amarelos acesos no meio da escuridão, cravados em mim como punhais. Engoli em seco. A pelagem cinzenta e aveludada de um gato se recortava imóvel diante das grades do portão da mansão. Um pequeno pardal agonizava entre seus dentes pontiagudos. Um guizo prateado pendia do pescoço do felino. Seu olhar estudou-me por alguns segundos. Pouco depois, deu meia-volta e deslizou por entre as barras de ferro. Fiquei olhando enquanto ele se perdia na imensidão daquele éden maldito, levando o pardal na sua última viagem.
A visão daquela pequena fera altiva e desafiadora cativou-me. A julgar por seu pelo lustroso e pelo guizo no pescoço, deduzi que tinha dono. Talvez aquela casa hospedasse algo mais que os fantasmas de uma Barcelona desaparecida. Cheguei mais perto e apoiei as mãos nas grades da entrada. O metal estava frio. As últimas luzes do crepúsculo iluminavam o rasto que as gotas do sangue do pardal tinham deixado através daquela selva.
Pérolas escarlates desenhavam a trilha do labirinto. Engoli de novo, ou melhor, tentei engolir. A minha boca estava seca. Como se soubesse de alguma coisa que eu ignorava, o sangue latejava nas minhas têmporas. Foi nesse instante que senti a porta ceder sob meu peso, e compreendi que estava aberta. Quando dei o primeiro passo para o interior, a lua iluminava o rosto pálido dos anjos de pedra da fonte. Eles me observavam. Meus pés pareciam pregados no chão. Temia que a qualquer momento aqueles seres pulassem dos seus pedestais e se transformassem em demónios armados de garras de lobo e línguas de serpente. Mas nada disso ocorreu. Respirei profundamente, considerando a possibilidade de desligar a minha imaginação ou, melhor ainda, abandonar a minha tímida exploração daquela propriedade.
Mais uma vez, alguém decidiu por mim. Um som celestial invadiu as sombras do jardim como um perfume. Ouvi os contornos daquele sussurro desenharem uma ária acompanhada ao piano. Era a voz mais bonita que eu já tinha ouvido na vida. A melodia me parecia familiar, mas não consegui identificá-la. A música vinha da casa. Segui o seu rasto hipnótico. Lâminas de luz vaporosa se filtravam pela porta entreaberta de uma galeria envidraçada. Reconheci os olhos do gato, fixados em mim do parapeito de um janelão do primeiro andar. Fui-me aproximando da galeria iluminada de onde saía aquele som indescritível. Era a voz de uma mulher. O brilho ténue de cem velas bruxuleava no interior. A luz revelava a cometa dourada de um velho gramofone, no qual girava um disco. Sem pensar no que estava fazendo, fui invadindo a galeria, fascinado por aquela sereia aprisionada no gramofone. Na mesa onde a engenhoca repousava entrevi um objecto brilhante e esférico. Era um relógio de bolso. Peguei-o e fui examiná-lo à luz das velas. Os ponteiros estavam parados e a tampa, rachada. Parecia de ouro e tão velho quanto a casa em que se encontrava. Um pouco mais adiante havia uma grande poltrona de costas para mim, diante de uma lareira sobre a qual pude apreciar o retrato a óleo de uma mulher vestida de branco». In Carlos Ruiz Zafón, Marina, 1999, Planeta Editora, 2010, ISBN 978-989-657-119.1

Cortesia de PlanetaE/JDACT

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Marina. Carlos Ruiz Zafón. «O edifício tinha quatro andares, sem contar os dois porões e o sótão com o claustro, onde viviam os poucos sacerdotes que ainda trabalhavam como professores»

Cortesia de wikipedia e jdact

«No final da década de 1970, Barcelona era uma miragem de avenidas e becos, onde, só de cruzar a soleira de uma portaria ou de um café, uma pessoa poderia viajar para trinta ou quarenta anos antes. O tempo e a memória, a história e a ficção se fundiam como aquarelas na chuva naquela cidade feiticeira. Foi ali, sob o eco de ruas que já não existem, que catedrais e edifícios fugidos de alguma fábula tramaram o cenário desta história.
Na época, eu era um menino de 15 anos que mofava entre as paredes de um internato com nome de santo, nas margens da estrada de Vallvidrera. Naquele tempo, o bairro de Sarriá ainda conservava o aspecto de um pequeno povoado encalhado à margem de uma metrópole modernista. Meu colégio se erguia no alto de uma rua que subia do Paseo de La Bonanova. Sua fachada monumental sugeria mais um castelo do que uma escola. E sua silhueta angulosa de cor barrenta era um quebra cabeça de torres, arcos e alas em trevas. O colégio era cercado por uma cidadela de jardins, fontes, tanques lodosos, pátios e pinheirais encantados. Ao seu redor, edifícios sombrios hospedavam piscinas cobertas por um véu fantasmagórico de vapor, ginásios enfeitiçados de silêncio e capelas tenebrosas onde as imagens dos santos sorriam sob o reflexo dos círios.
O edifício tinha quatro andares, sem contar os dois porões e o sótão com o claustro, onde viviam os poucos sacerdotes que ainda trabalhavam como professores. Os quartos dos internos se enfileiravam ao longo dos corredores cavernosos do quarto andar. Essas intermináveis galerias jaziam em perpétua penumbra, envoltas por um eco espectral. Eu passava meus dias sonhando acordado nas salas de aula daquele imenso castelo, esperando pelo milagre que se produzia todo dia às cinco e vinte da tarde. Nessa hora mágica, o sol vestia os altos janelões de ouro líquido. A campainha tocava anunciando o fim das aulas e nós, os internos, dispúnhamos de quase três horas livres antes do jantar no refeitório. A ideia era de que esse tempo deveria ser dedicado aos estudos e à reflexão espiritual. Não me lembro de ter destinado um único dia dos muitos que passei ali a nenhuma dessas nobres tarefas. Aquele era o meu momento favorito. Driblando o controle da portaria, partia para explorar a cidade. Costumava voltar para o internato, ainda a tempo de jantar, caminhando entre velhas ruas e avenidas enquanto anoitecia ao meu redor. Naqueles longos passeios, experimentava uma sensação de liberdade embriagante. A minha imaginação voava por cima dos edifícios e se erguia até ao céu. Por algumas horas, as ruas de Barcelona, o internato e o meu triste dormitório no quarto andar sumiam. Por algumas horas, só com um par de moedas no bolso, eu era o sujeito mais sortudo do universo.
Muitas vezes, o meu caminho me levava para aquela área que na época era chamada de deserto de Sarriá e que não era nada mais que um arremedo de bosque perdido numa terra de ninguém. A maioria das antigas mansões senhoriais, que nos bons tempos povoavam o norte do Paseo de la Bonanova, ainda estava de pé, embora em ruínas. As ruas que cercavam o internato traçavam uma cidade fantasma. Muros cobertos de hera vedavam a entrada em jardins selvagens nos quais se erguiam residências monumentais, palácios invadidos pelo mato e pelo abandono, nos quais a memória parecia flutuar como uma névoa que demora a se dissipar. Muitos desses casarões só esperavam a demolição e outros tinham sido saqueados por anos a fio. Alguns, no entanto, ainda estavam habitados. Os seus ocupantes eram membros esquecidos de famílias arruinadas. Uma gente cujo nome se escrevia em quatro colunas no La Vanguardia, na época em que os bondes ainda despertavam o temor reservado a invenções modernas. Reféns de um passado moribundo, negavam-se a abandonar o barco à deriva. Temiam que os seus corpos se desfizessem em cinzas ao vento se ousassem pôr os pés fora das suas mansões devastadas.
Prisioneiros, definhavam à luz dos candelabros. Muitas vezes, quando passava apressado diante das grades enferrujadas de um daqueles portões, eu tinha a impressão de que olhares assustados me acompanhavam por detrás das janelas descascadas. Uma tarde, no fim de Setembro de 1979, resolvi aventurar-me ao acaso por uma daquelas avenidas semeadas de palacetes modernistas que não tinha reparado antes. A rua descrevia uma curva que terminava num portão de ferro igual a tantos outros. Do outro lado da grade, estendiam-se os restos de um velho jardim marcado por décadas de abandono. Entre a vegetação, entrevia-se a silhueta de um casarão de dois andares». In Carlos Ruiz Zafón, Marina, 1999, Planeta Editora, 2010, ISBN 978-989-657-119.1

Cortesia de PlanetaE/JDACT