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sábado, 3 de março de 2018

As crónicas de Zurara: a corte, a aristocracia e a ideologia cavaleiresca em Portugal no século XV. Miguel Aguiar. «O mesmo se diga relativamente a uma passagem da crónica dedicada a Pedro Meneses. Reportando-se às despesas efectuadas pelo capitão»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ao longo dos cerca de trinta anos em que ocupou o cargo de cronista-mor, Zurara surge como autor de quatro textos distintos, orientados segundo o propósito de contar uma nova etapa na história do reino, isto é, o que a historiografia convencionou chamar o processo de expansão, mas que os homens de Quatrocentos conceberam como as guerras de Marrocos ou a descoberta de novas terras. Ao mesmo tempo, existia uma espécie de projecto contínuo no que toca à redacção da crónica geral do reino, como fica patente em várias partes das obras aqui em análise: como na cronyca do Regno he contheudo, como na coronica gerall do rregno mais largamente podeys achar ou como mays compridamente acharees na cronica do Regnado deste Rey dom Affomso [V]. Enquanto cronista-mor, Zurara estaria encarregado de ir reunindo materiais e provavelmente de ir redigindo o que seria a crónica geral do reino, mesmo que esta, tanto quanto se sabe, não tivesse visto a luz do dia senão já no século seguinte pela mão de Rui Pina. Essa função primordial seria executada em simultâneo com a feitura do conjunto de textos em análise neste artigo, sobre os quais é possível detectar algumas indicações acerca das fontes reunidas pelo autor e do tratamento que lhes terá dado. Creio aliás, como tentarei demonstrar, que uma parte delas poderá ajudar a explicar a forma de algumas das crónicas.
A primeira tipologia consiste nos testemunhos orais, dos quais Zurara faz explícita menção em várias passagens da sua obra. É o caso da importância dos testemunhos dos infantes Henrique e Pedro sobre a conquista de Ceuta e também de outros depoimentos que hoje se apresentam anónimos, mas de quem o cronista diz ter recebido avisamento. No caso da elaboração da Crónica de D. Duarte de Meneses é bem possível que o peso dos testemunhos orais tenha sido ainda mais significativo, uma vez que Zurara esteve cerca de um ano no Magrebe (partiu em 1467, tendo tido certamente a oportunidade de entrevistar muitos dos que conheceram e acompanharam o capitão de Alcácer nas suas lides bélicas. Essa estadia podia até ter permitido o contacto com algum tipo de documentação que não se encontraria na Torre do Tombo ou noutras instituições com sede em Lisboa e que albergavam arquivos potencialmente interessantes, como é o caso da Casa de Ceuta. Numa passagem da crónica em honra de Duarte Meneses, Zurara alude à estratégia utilizada pelo capitão para controlar as aldeias dos vales contíguos a Alcácer. A certa altura, Duarte logrou que essas aldeias lhe pagassem tributo, especificando o cronista que os moradores de uma determinada terra ao tempo que eu screuya esta storea eram trezentos casados e mais os que pagauam tributo. Sabendo que se trata de um mero indício que apenas permite avançar suposições, é pelo menos lícito colocar a possibilidade de Zurara ter consultado uma espécie de arrolamento desses vizinhos, talvez guardado no paço do capitão de Alcácer, local a partir de onde se exercia a autoridade sobre as terras em redor da praça. O mesmo se diga relativamente a uma passagem da crónica dedicada a Pedro Meneses. Reportando-se às despesas efectuadas pelo capitão aquando da estada na cidade dos infantes Henrique e João, Zurara afirma que achou per seus lyvros, isto é, provavelmente um registo contabilístico da casa de Pedro Meneses, que a despesa com carnes e dádivas subiu a 6756 dobras.
As fontes mencionadas mais frequentemente são, porém, escritos já compilados e trabalhados, e nos quais Zurara se baseou para elaborar a sua redação. É o caso de referências anónimas como aquelles que os feitos de Çeepta escreverão, ou alguuns screuerom em seus scriptos. Noutros casos, Zurara indica autores ou materiais específicos. Na Crónica da Guiné refere por três vezes huu Affomso cerueira que esta estorya primeiramente quis ordenar, enquanto na Crónica de D. Duarte de Meneses cita um livro dos feitos de Fernando Noronha, não aclarando, contudo, a utilização que dele terá feito. Seja como for, esta última e pequena referência deve sublinhar a evidência de que muito do que foi escrito na época não chegou até ao presente. É por isso plausível admitir a existência de outros textos, nomeadamente de proveniência nobiliárquica, que circulariam e podiam ter sido conhecidos e utilizados pelo autor em questão, mas cuja existência é totalmente obscura para a crítica moderna». In Miguel Aguiar, As crónicas de Zurara: a corte, a aristocracia e a ideologia cavaleiresca em Portugal no século XV, Revista Medievalista, Número 23, Janeiro-Junho 2018, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

sexta-feira, 2 de março de 2018

As crónicas de Zurara: a corte, a aristocracia e a ideologia cavaleiresca em Portugal no século XV. Miguel Aguiar. «Os relatos de enfrentamentos militares, cercos, expedições navais, cavalgadas sobre aldeias inimigas, preenchem quase totalmente as diversas obras…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«No capítulo 46 da Crónica do conde Duarte Meneses, depois de cerca de trinta páginas onde se descrevem os episódios que tiveram lugar durante o cerco muçulmano a Alcácer Ceguer, Gomes Eanes Zurara apresenta uma lista com os nomes daqueles que se a este cerco uyerom pera seruyr deos e seu Rey. O cronista realça trinta e três homens que se terão destacado, aí se encontrando, naturalmente, o illustre e muy famoso caualleyro dom Duarte de meneses, mas também outros indivíduos pertencentes a linhagens da média e alta nobreza de corte (Vasconcelos, Melo, Távora, Ataíde, Sousa, Noronha, entre outros). Depois de arrolados estes nomes, Zurara sublinha que na defesa da praça também participaram outros nobres homeens e gente, dispensando-se do trabalho de explicitar a sua identidade por nom causar fastyo. A lista é o corolário de um ciclo da narrativa em que se descrevem os principais acontecimentos que marcaram o assédio que a segunda praça portuguesa no Magrebe sofreu, decorria o ano de 1459. Aí são perceptíveis as dificuldades em aguentar a pressão muçulmana, mas também em gerir as tensões inerentes à própria composição da guarnição. Por isso, e como não podia deixar de ser, o capitão Duarte Meneses é amplamente elogiado. Personificando a autoridade na cadeia de comando e a encarnação da indispensável virtude da prudência, Duarte vai fazendo a sensível gestão dos egos e ímpetos bélicos dos fidalgos sob o seu comando, sem deixar, contudo, de dar provas da sua fortaleza, outra virtude essencial, ao desafiar o comandante inimigo para o combate. Ao longo destas páginas são também relatadas as façanhas individuais dos fidalgos portugueses: nas muralhas, nos combates travados na barreira erguida diante da praça, o lugar onde mais onradamente se podia combater, e também nas rápidas surtidas a cavalo fora das muralhas, organizadas sobretudo para destabilizar as forças inimigas ou para atingir determinados objectivos estratégicos.
Os relatos de enfrentamentos militares, cercos, expedições navais, cavalgadas sobre aldeias inimigas, preenchem quase totalmente as diversas obras de Zurara, a ponto de se ter dito que as suas obras convertiam a crónica geral do reino na crónica dos cavaleiros da Távola redonda da corte. Mas o que explica esta aparente devoção do autor pelos modelos narrativos de pendor cavaleiresco? Haverá razões que expliquem os repetitivos e estereotipados capítulos que descrevem façanhas mais ou menos reais de forma grandiloquente? De que forma se podem entender e enquadrar estas obras? O objectivo essencial deste artigo é analisar a produção cronística de Zurara de acordo com o contexto em que foi elaborada, com os objectivos que terão presidido à sua feitura e com os materiais de que o cronista dispôs. Por isso, começarei por me referir sumariamente às diversas obras por si assinadas, aos seus objectivos práticos, à sua relação com a chamada crónica geral do reino e também às fontes que Zurara terá utilizado, procurando demonstrar que todos estes aspectos são fundamentais para compreender o conteúdo e o estilo das obras em questão. Depois, o objectivo é analisar as obras de Zurara enquanto discurso sobre a cavalaria em Portugal no século XV. Ao realçar as perspectivas do cronista e sua relação com aquele que seria o sistema de valores que caracterizava a ideologia cavaleiresca nesta época, procurarei contrapor o discurso de Zurara com outros testemunhos coevos. Uma ideologia que, como se tentará demonstrar, tinha também implicações práticas, cuja tradução, no caso das crónicas assinadas por Zurara, se reflecte nomeadamente no seu carácter didáctico e de exempla, fazendo delas uma espécie de espelhos de nobres, mais à frente desenvolverei este conceito. Por fim, o derradeiro ponto a considerar nesta linha de inquérito é o papel desempenhado por este conjunto de escritos enquanto elementos de propaganda ao serviço de um dos desígnios constantes no reinado de Afonso V: a expansão ultramarina e a cruzada.

A actividade do cronista-mor: entre a crónica-geral do reino e as narrativas que chegaram aos nossos dias
A actividade de Gomes Eanes de Zurara enquanto cronista-mor do reino estendeu-se entre o final da década de 1440 e o início da década de 1470. Entre 1449 e 1450, e com possíveis alterações até 1460, compôs a Crónica da Tomada de Ceuta. Apesar de ser uma obra estruturada como se de uma gesta cavaleiresca se tratasse, foi entendida pela crítica como pertencente à crónica geral do reino, sendo neste caso a peça final da narrativa dedicada ao reinado de João I. A Crónica dos Feitos da Guiné, provavelmente composta entre 1452 e 1453 (ou seja, ainda em vida do infante Henrique), e com alterações até 1464, é aquela que suscitou mais problemas eruditos e acesas polémicas entre os especialistas (discutindo-se, entre outras coisas, a hipótese de resultar de uma fusão entre um livro dedicado aos feitos do infante e uma narrativa centrada nas navegações e conquistas propriamente ditas. O texto relata as navegações e as conquistas portuguesas promovidas pelo infante Henrique ao longo da costa ocidental africana, apresentando inúmeras descrições de expedições militares, em cujos interlúdios se podem encontrar descrições geográficas ou notícias de acontecimentos marcantes como, por exemplo, o célebre episódio da primeira grande venda de escravos negros em Lagos. As duas outras crónicas compõem, juntamente com a narrativa dedicada à conquista de Ceuta, uma espécie de trilogia do Norte de África. Em primeiro lugar, a crónica do Conde Pedro de Meneses, composta entre 1458 e 1464, e, finalmente, a Crónica do conde Duarte de Meneses, começada em 1464, depois da morte do capitão de Alcácer Ceguer, e completada até 1469. Ambas apresentam um carácter híbrido, aliando a biografia dos dois exemplares fidalgos e capitães ao relato pormenorizado dos cercos, recontros e cavalgadas dos portugueses em torno de Ceuta e de Alcácer Ceguer». In Miguel Aguiar, As crónicas de Zurara: a corte, a aristocracia e a ideologia cavaleiresca em Portugal no século XV, Revista Medievalista, Número 23, Janeiro-Junho 2018, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

sábado, 5 de abril de 2014

Descobrimentos e Renascimentos. Formas de Ser e de Pensar nos séculos XV e XVI. Luís Barreto. «… Mateus Pisano em 1460: … “era ele já homem feito e de letras nada tinha ainda aprendido; mas ardia em tal desejo de saber, que em breve veio a ser um bom gramático, notável astrólogo e grande cronista”»

jdact

A Dialéctica das Antropologias. Gomes Eanes de Zurara e o nascimento do discurso historiográfico de transição
«O conjunto das unidades discursivas de Gomes Eanes de Zurara forma um lugar cultural de extrema complexidade no outono da medievalidade portuguesa. A Crónica da Guiné é, sem dúvida, uma obra de dominante escrita medieval, mas é também, e ao mesmo tempo, um campo teórico onde uma dominada forma nova de escrever e pensar a História flui subterraneamente por entre os tradicionais enunciados. Lugar do paradoxo onde se conjugam alguns dos primeiros enunciados renascentistas da Cultura portuguesa com toda uma forma e limite tradicional de pensar a realidade natural e social. o discurso historiográfico de Zurara marca em Portugal o nascimento da transição lenta/gradativa e jamais linear, da historiografia medieval para a historiografia renascentista. Transição que vai desde os meados do seculo XV até às décadas de 1520 / 1530, altura em que Lopes de Castanheda e João de Barros começam a escrever os seus renascentistas discursos. Transição que vai de Zurara a Duarte Galvão (1445-1517), passando por Rui de Pina (1460?-1522) e Garcia de Resende (1470-1536), transição que corresponde no seu todo, à historiografia do primeiro andamento do Renascimento português, isto é, ao período em que as categorias do ser e pensar herdado da medievalidade são ainda, não apenas dominantes, mas mesmo determinantes em toda a lógica e ordem do discurso. Transição gradativa entre o outono da medievalidade e o nascimento do Renascimento português que levará Pedro de Mariz, em 1594, nos seus Diálogos de Vária História a chamar cronista a Rui de Pina e historiador a João de Barros, mostrando a diferença que une / separa ao mesmo tempo estes dois momentos.

Sujeito e Unidade Discursiva
Zurara (1410?-1474) nasceu no Ribatejo e viveu desde muito cedo na Corte em estreita relação com o centro do poder político estatal de Quatrocentos. No reinado de Duarte I exerceu funções administrativas numa secretaria ou arquivo régio. Com Afonso V inicia a sua carreira historiográfica ao ser nomeado cronista em substituição de Fernão Lopes, no ano de 1448. O quadro administrativo-político agora em funções predominantemente intelectuais vai subindo na hierarquia social e ao longo de 1451 / 1452 torna-se cavaleiro da Casa Real, comendador da Ordem de Cristo e encarregado da livraria régia. A partir de 6 de Junho de 1454, acumula um novo cargo intelectual-burocrático, o de guarda-mor da Torre do Tombo, que lhe duplica o confortável rendimento anual, então de 12 000 réis. As suas obrigações de intelectual orgânico do poder político estatal não lhe impedem actividades privadas como a de procurador do Mosteiro de Almoster e a de cronista de feitos privados da mais alta nobreza que o levam a Marrocos entre 1467 e Agosto de 1468 em missão de recolha documental.
Estas breves notas biográficas sobre Zurara servem-nos para o situarmos como tipologia intelectual. Estamos frente a um quadro administrativo estatal que se intelectualiza cada vez mais, vindo a restringir as actividades mais burocráticas em virtude do seu estatuto de historiador. Tal evolução de quadro mais prático a teórico, de escriturário a escritor, está bem documentada nas palavras de mestre Mateus Pisano em 1460: … era ele já homem feito e de letras nada tinha ainda aprendido; mas ardia em tal desejo de saber, que em breve veio a ser um bom gramático, notável astrólogo e grande cronista. O conjunto das unidades discursivas de Zurara distribui-se por quatro crónicas. A primeira é a Crónica da Tomada de Ceuta por El-Rei D. João I, concluída em Silves a 25 de Março de 1450, e que foi deixada em adiantado estado por Fernão Lopes e apenas retomada por Zurara ao longo de 1449 e 1450. Por volta de 1453-1454, começou a Crónica da Guiné, que só acabaria cerca de 1464. Em 1458 inicia a Crónica de D. Pedro de Meneses, terminada em 1463. Em 1464 começa a Crónica de D. Duarte de Meneses, que acaba nos finais de 1468 ou inícios de 1469. A Crónica de Guiné é, certamente, o escrito de Zurara que maiores problemas eruditos levanta. O manuscrito mais antigo, de finais do século XV inícios do XVI, foi revelado por Ferdinand Denis em 1893 e editado em Paris / 1841 pelo visconde de Santarém com o título de Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné». 

In Luís Filipe Barreto, Descobrimentos e Renascimentos, Formas de Ser e de Pensar nos séculos XV e XVI, Temas Portugueses, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1983.

Cortesia de INCM/JDACT

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné. Gomes Eanes Zurara. «O Infante disse que lhe prazia; e no outro dia muito cedo mandou Lançarote, aos mestres das caravelas, que os tirassem fora e que os levassem àquele campo, onde fizessem suas repartições, segundo antes dissera…»

Cortesia de wikipedia

Capítulo XXIV
Como as caravelas chegaram a Lagos, e das razões que Lançarote disse ao Infante
«Chegaram as caravelas a Lagos, donde antes partiram, havendo nobre tempo de viagem, que lhe não foi a fortuna menos graciosa na bonança do tempo que lhe antes fora no filhamento da presa; onde as novas chegaram ao Infante, que antes poucas horas se acertara chegar ali, doutras partes donde havia dias que andava.
E como vedes que as gentes são desejosas de saber, uns cometeram de se chegar à ribeira, outros se metiam nos bateis, que achavam amarrados ao longo da praia, e iam receber seus parentes e amigos, de guisa que em breve tempo foi sabido seu bom aquecimento, com o qual geralmente todos eram alegres. E por aquele dia abastou a esses principais de beijar a mão ao Infante seu senhor, contando-lhe em breve a soma de seus feitos; e d'aí repousaram, como homens que chegavam a sua terra e a suas casas, onde já sabeis qual seria sua folgança entre suas mulheres e filhos.
E no outro dia Lançarote, como homem que do feito tinha principal cargo, disse ao Infante:
– Senhor! Bem sabe a vossa mercê como haveis de haver o quinto destes Mouros e de tudo que ganhamos em aquela terra, onde por serviço de Deus e vosso nos mandastes. E agora estes Mouros, pelo grande tempo que andamos no mar, assim pelo nojo que deveis considerar que terão em seus coraçoes, vendo-se fora da terra de sua natureza e postos em cativeiro, sem havendo algum conhecimento de qual será sua fim; d'aí a usança que não hão de andar em navios; por tudo isto veem assaz mal corregidos e doentes; pelo qual me parece que será bem que de manhã os mandeis tirar das caravelas, e levar àquele campo que está alem da porta da vila, e farão deles cinco partes, segundo o costume, e seja vossa mercê chegardes aí e escolher uma das partes, qual mais vos prouver.
O Infante disse que lhe prazia; e no outro dia muito cedo mandou Lançarote, aos mestres das caravelas, que os tirassem fora e que os levassem àquele campo, onde fizessem suas repartições, segundo antes dissera; pero primeiramente que se em aquilo outra cousa fizesse, levaram em oferta o melhor daqueles Mouros à igreja daquele lugar, e outro pequeno, que depois foi frade de S. Francisco, enviaram a S. Vicente do Cabo, onde sempre viveu como catolico Cristão, sem havendo conhecimento nem sentimento doutra lei senão daquela santa e verdadeira em que todolos Cristãos esperamos nossa salvação. E foram os Mouros desta presa CCXXXV.

Capítulo XXV
Como o autor aqui razoa um pouco sobre a piedade que ba daquelas gentes, e como foi feita a partilha
Tu, celestial Padre, que com tua poderosa mão, sem movimento de tua divinal essencia, governas toda a in finda companhia da tua santa cidade, e que trazes apertados todolos eixos dos orbes superiores, distinguidos em nove esferas, movendo os tempos das idades breves e longas, como te praz!
Eu te rogo que as minhas lagrimas nem sejam dano da minha consciencia, que nem por sua lei daquestes, mas a sua humanidade constrange a minha que chore c piedosamente o seu padecimento. E se as brutas animalias, com seu bestial sentir, por um natural instinto conhecem os danos de suas semelhantes, que queres que faça esta minha humanal natureza, vendo assim ante os meus olhos aquesta miseravel companha, lembrando-me de que são da geração dos filhos de Adão!
No outro dia, que eram VIII dias do mês de agosto, muito cedo pela manhã por razão da calma, começaram os mareantes de correger seus bateis e tirar aqueles cativos, para os levarem segundo lhes fora mandado; os quaes, postos juntamente naquele campo, era uma maravilhosa cousa de ver, que entre eles havia alguns de razoada brancura, fremosos e apostos; outros menos brancos, que queriam semelhar pardos; outros tão negros como etiopes, tão desafeiçoados assim nas caras como nos corpos, que quasi parecia, aos homens que os esguardavam, que viam as imagens do hemisfério mais baixo.
Mas qual seria o coração, por duro que ser podesse, ti que não fosse pungido de piedoso sentimento, vendo assim aquela companha? Que uns tinham as caras baixas e os rostros lavados com lagrimas, olhando uns contra os outros; outros estavam gemendo mui dolorosamente, esguardando a altura dos ceus, firmando os olhos em eles, bradando altamente, como se pedissem acorro ao Padre da natureza; outros feriam seu rostro com suas palmas, lançando-se tendidos no meio do chão; outros faziam suas lamentações em maneira de canto, segundo o costume de sua terra, nas quaes, posto que as palavras da linguagem dos nossos não podesse ser entendida, bem correspondia ao grau de sua tristeza.
Mas para seu dó ser mais acrecentado, sobrevieram aqueles que tinham cargo de partilha e começaram de os apartarem uns dos outros, a fim de poerem seus quinhões em igualeza; onde convinha de necessidade de se apartarem os filhos dos padres, e as mulheres dos maridos e os dos irmãos dos outros. A amigos nem a parentes não se guardava nenhuma lei, somente cada um caía onde o a sorte levava!
Ó poderosa fortuna, que andas e desandas com tuas rodas, compassando as cousas do mundo como te praz! E sequer põe ante os olhos daquesta gente miserável algum conhecimento das cousas postumeiras, por que possam receber alguma consolação em meio de sua grande tristeza! E vos outros, que vos trabalhaes desta partilha, esguardae com piedade sobre tanta miseria, e vede como se apertam uns com os outros, que apenas os podeis desligar!
Quem poderia acabar aquela partição sem mui grande trabalho? Que tanto que os tinham postos em uma parte, os filhos, que viam os padres na outra, alevantavam-se rijamente e iam-se para eles; as madres apertavam os outros filhos nos braços e lançavam-se com eles de bruços, recebendo feridas, com pouca piedade de suas carnes, por lhe não serem tirados! E assim trabalhosamente os acabaram de partir, porque alem do trabalho que tinham com os cativos, o campo era todo cheio de gente, assim do lugar como das aldeias e comarcas de arredor, os quaes leixavam em aquele dia folgar suas mãos, em que estava a força do seu ganho, somente por ver aquela novidade.
E com estas cousas que viam, uns chorando, outros departindo, faziam tamanho alvoroço, que poinham em turvação os governadores daquela partilha.
O Infante era ali em cima de um poderoso cavalo, acompanhado de suas gentes, repartindo suas mercês, como homem que de sua parte queria fazer pequeno tesouro, que de RVI 3 almas suas aconteceram no seu quinto, mui breve fez delas sua partilha, que toda a sua principal riqueza estava em sua vontade, considerando com grande prazer na salvação daquelas almas, que antes eram perdidas, E certamente que seu pensamento não era vão, que, como ja dissemos, tanto que estes haviam conhecimento da linguagem, com pequeno movimento se tornavam Cristãos; e eu que esta história ajuntei em este volume, vi na vila de Lagos moços e moças, filhos e netos daquestes, nados em esta terra, tão bons e tão verdadeiros Cristãos como se descenderam de começo da lei de Cristo, por geração, daqueles que primeiro foram bautizados». In Gomes Eanes Zurara, Projecto Vercial, Universidade do Minho.

Cortesia UMinho/JDACT

terça-feira, 4 de maio de 2010

Amadis de Gaula: Uma das obras mais marcantes da cultura medieval ibérica.

Cortesia de auladeliteraturaportuguesa
Amadis de Gaula é uma obra marcante do ciclo de novelas de cavalaria da Península Ibérica do século XVI. Apesar de se saber que a obra existe desde o século XIV, a versão definitiva mais antiga, actualmente conhecida, é a de Rodriguez de Montalvo, ou Garci-Rodriguez (também conhecido por Ordónez) de Montalvo, impressa em língua castelhana em 1508 e denominada Los quatro libros de Amadís de Gaula.
Tudo indica, contudo, que a versão original era portuguesa e muito anterior. O próprio Montalvo reconhece ter emendado os três primeiros livros e ser apenas autor do quarto. A versão original de Amadis de Gaula tem sido atribuída a vários autores portugueses.
  • A crónica de Gomes Eanes de Azurara, na Crónica do Conde D. Pedro de Meneses (1454, 1. I, cap. G3), refere o nome de Vasco da Lobeira, tido por um dos autores da obra, juntamente com João de Lobeira.
  • Nos Poemas Lusitanos (1598), de António Ferreira, incluem-se dois sonetos alusivos ao episódio de Briolanja, personagem do Amadis (1. I, cap. 4U ), o qual, por sua vez, interessa pelas recusas de Amadis às solicitações da donzela, por fidelidade a Oriana, apesar da interferência de D. Afonso, irmão de D. Dinis, em favor da solicitante;
  • O Lais dedicado a Leonoreta, inserto no Amadis, escrito em Português, teria sido composto por João de Lobeira, trovador do tempo de Afonso III e de D. Dinis;
  • Sendo assim, o trovador teria escrito também os dois livros iniciais da novela, a que mais tarde Vasco da Lobeira teria acrescentado o terceiro, o que explicaria ter-lhe Azurara mencionado o nome.
Seja como for, a única versão completa é a de Montalvo, que constituiu um enorme êxito em toda a Europa, sendo traduzida para as principais línguas da Europa ocidental, além dos originais castelhano e português.
Vários autores, de vários países, escreveram sequelas de Amadis, inclusive o próprio Montalvo, com o quinto livro do ciclo, Las sergas de Esplandián.
Em Portugal foram escritos vários romances do tipo de Amadis, sendo o mais famoso Palmeirim de Inglaterra de Francisco de Morais.

Cortesia de ilustremos (Marco Gotopo)
A obra Amadis de Gaula, através de uma introdução em que se afirma que foi encontrada num baú enterrado do «manuscrito encontrado», inicia-se com o relato dos amores furtivos entre o Rei D. Perion de Gaula (Gales) e a Infanta D. Elisena da Bretanha, que deram lugar a uma criança abandonada numa barca. A criança, Amadis, é criada pelo cavaleiro Gandales. Mais tarde Amadis vai em busca das suas verdadeiras origens, o que o leva a meter-se em fantásticas aventuras, sempre protegido pela feiticeira Urganda e perseguido pelo mago Arcalaus, o encantador.
Atravessa o arco encantado dos leais amadores no centro da Ilha Firme, luta contra o terrível monstro Endriago, mantando-o. Passa por todo o tipo de perigosas aventuras, pelo amor da sua amada Oriana, filha do Rei D. Lisuarte da Grã-Bretanha.

Cortesia de diputaciondevalladolid
Antes das modificações introduzidas por Montalvo, a obra acabava tragicamente, na sequência do que acontecia nas histórias do Ciclo Arturiano. Originalmente a história acabava com o Rei Lisuarte, mal aconselhado por conselheiros invejosos, a afastar Amadis do seu lado e a tentar casar Oriana com um inimigo do herói. Este, resgata Oriana e leva-a para a Ilha Firme.
D. Lisuarte declara guerra a Amadis, aliado a Galaor (também apaixonado por Oriana) e a Esplandian (que Lisuarte criou sem saber que era seu neto). Através de várias batalhas, Galaor enfrenta Amadis, que o mata. D. Lisuarte também é morto por Amadis em combate. Num terceiro combate o herói enfrenta Esplandian, sendo que desta vez é Amadis que é morto.
Oriana que, de uma janela, observa o combate, ao ver a morte de Amadis, atira-se dali para o solo e morre. A feiticeira Urganda aparece e revela a verdade sobre os seus pais a Esplandian.

Primera edicão. 1508. Cortesia da Universidad de Berkeley (California)
A versão de Montalvo, no entanto, modifica todo este final trágico. Nesta versão, D. Lisuarte e Amadis fazem as pazes, conhece-se a identidade de Esplandian de uma forma menos trágica e Galaor nem sequer aparece na batalha. Para encerrar a obra, usa-se um subterfúgio que a faz terminar bruscamente. D. Lisuarte é encantado e Amadis assume a regência.

Em meados do século XV, o castelhano Garcí Rodríguez de Montalvo, cavaleiro de Medina del Campo, decide elaborar uma refundição corrigida dos antigos originais que estavam corruptos e mal compostos em antigo estilo, por falta dos diferentes e maus escritores, como ele próprio afirma no final do seu Prólogo, versão a que acrescenta um novo livro, As Sergas de Esplandião (filho de Amadis). 
Amadis de Gaula é muitas vezes referenciado no clássico satírico Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes, escrito no princípio do século XVII. A personagem D. Quixote idolatra Amadis e compara frequentemente as aventuras do herói com as suas. 

Com a devida vénia para Graça Videira Lopes, publico a sua tradução de Amadis de Gaula.
(Amadis de Gaula)
Wikipédia/JDACT

domingo, 2 de maio de 2010

Gomes Eanes de Zurara: O iniciador da historiografia da expansão marítima, com a Crónica da tomada de Ceuta (1415)

(1410-1474)
Cortesia de flickr
Gomes Eanes de Zurara também chamado como Gomes Eanes de Azurara, foi Guarda-Conservador da Livraria Real, cerca do ano de 1451. Foi, depois de Fernão Lopes, em 1454, Guarda-Mor da Torre do Tombo. Deslocou-se, em 1467, a Alcácer Ceguer, com o fim de completar a sua crónica do conde D. Duarte de Meneses. Nas suas crónicas, sem deixar de ser probo, Zurara fixa-se na apreciação das grandes figuras, espelhando heroísmo e feitos paradigmáticos, exaltando o valor das épicas personagens de que se ocupa.
Nos seus escritos, reflectindo o ambiente subsequente ao encontro de Alfarrobeira, Zurara está para o seu antecessor, Fernão Lopes, como a crónica dos heróis estará para a crónica de um povo.

Estátua de Zurara no pedestal do Monumento a Luís Vaz de Camões, da autoria de Victor Bastos
 (Praça Luís de Camões, Lisboa)
Alexandre Herculano, no seu artigo, publicado no Panorama, vol. 3.º de 1839, a pág. 250, diz ser Gomes Eanes filho de João Eanes de Azurara, bispo de Évora e de Coimbra; que entrou, sendo mancebo, na ordem de cavalaria de Cristo, onde chegou a ter o grau de comendador de Alcains, a qual comenda possuía em 1454, e que depois trocou pelas do Pinheiro Grande e da Granja de Ulmeiro, que se vê serem suas pelos anos de 1459. «Parece, diz o grande historiador, que durante a sua mocidade Gomes Eanes, segundo o costume dos cavaleiros daqueles tempos, se ocupou inteiramente no exercício das armas, sem curar de instruir-se nas boas letras». «Verdade é que o abade Barbosa o faz erudito na história desde mancebo; mas o mestre Mateus de Pisano, seu contemporâneo, preceptor de D. Afonso V, e autor duma crónica da conquista de Ceuta, escrita em latim, diz que sendo já de idade madura se aplicara ao estudo, mas que até então fora inteiramente hóspede em literatura. Foi depois desta época que Eanes entrou no serviço do rei D. Afonso, como guarda da Torre do Tombo, segundo se colhe da carta de sua nomeação passada a 6 de Junho de 1454, como bibliotecário da livraria real fundada por aquele monarca, do que nos informa mestre Mateus na obra já citada; e como encarregado de escrever varias crónicas das coisas portuguesas, conforme o diz o próprio Azurara no capítulo II da crónica do conde D. Pedro de Menezes».
São incertas todas as datas relativas à vida deste nosso cronista. Não se sabe o ano em que nasceu nem o em que morreu; os seus biógrafos limitam-se a dizer que vivia ainda em 1473, porque aparecem certidões passadas por ele neste anuo.

Azurara era muito considerado por seu saber e qualidades, de valimento na corte e pessoalmente benquisto dos reis em cujos reinados viveu: D. João I, D. Duarte, e com especialidade D. Afonso V, prova-se isto por muitos documentos e factos. Foi este monarca quem o nomeou cronista mor e guarda-mór da Torre do Tombo, substituindo Fernão Lopes, que deu o seu consentimento por se sentir já velho, cansado e doente; deu-lhe casas contíguas ao paço real, onde o cronista habitou; uma tença de doze mil reais brancos anuais; em 1467 fez-lhe mercê duma capela que vagara para a coroa, doou-lhe umas casas em Lisboa, como consta do livro III dos Místicos; diz-se que também lhe conferiu o cargo de desembargador da Casa do Cível. Antes de todas estas mercês, já Gomes Eanes era homem abastado, segundo se colhe de outros documentos coevos. «Acerca deste cronista, diz Herculano no artigo a que nos referimos, se conserva ainda urna lembrança curiosa no Arquivo da Torre do Tombo. Em 1461 uma peliteira viúva e rica, chamada Joana Eanes, o adoptou por filho, constituindo-o seu herdeiro. O abade Correia da Serra nota, com razão, que tal adopção de um homem nobilitado por seus cargos e pela qualidade de cavaleiro, feita por uma plebeia, era inteiramente oposta ás ideias do século XV, devendo-se por isso suspeitar que Azurara foi daquelas pessoas para quem o respeito ao dinheiro é o principal de todos os respeitos.» A vasta erudição de Azurara patenteia-se nas suas obras; tende a ostentosa e declamatória, mas é vasta, e essas obras só por si bastam a mostrar que Portugal! não foi de todo estranho ao impulso literário de que resultou a Renascença. Era imparcial nos seus juízos e foi escritor sincero; tinha, contudo, o defeito de querer afectar grande talento, que ninguém lhe contestava, o que muitas vezes tornava enfadonhas as suas obras. Damião de Góis dizia: «que ele usava de palavras e termos antigos, corri razoamentos prolixos e cheios de metáforas ou figuras, que no estilo histórico não tem lugar». João de Barros, pelo contrário, afirmava: «que ele bem merecera por sua diligencia o nome do ofício que teve, e que se alguma coisa há bem escrito das crónicas deste reino, é da sua mão». Alexandre Herculano, no artigo do Panorama, diz o seguinte: «Apesar da estimação e respeito que merecera Fernão Lopes aos seus contemporâneos, parece que o seu imediato sucessor lhe levou nisso conhecida vantagem, posto que muito inferior lhe fosse em mérito. Azurara tendo de escrever sobre coisas de África, passou aquelas partes, e lá fez larga demora para conhecer miudamente os lugares e circunstâncias das façanhas que tinha de narrar.Chronica delrei D. João I de Boa memoria, e dos reis de Portugal o decimo; terceira parte, em que se contém a tomada de Ceuta, Lisboa, 1644». Inocêncio da Silva, no Diccinnario bibliographico, vol. III, pág. 147, diz o seguinte: «Ocorre-me um reparo sobre a composição desta crónica (publicada póstuma, e como suplemento ou continuação das partes primeira e segunda, que do mesmo rei deixara Fernão Lopes). Diz Azurara no capítulo 1.º que começara a escrevê-la trinta e quatro anos depois da expugnação daquela praça, que foi como todos sabem (e ele mesmo diz adiante no cap. 86) a 21 de Agosto de 1415. Começou por tanto a composição no ano de 1449; e como declara no fim ter-lhe posto a ultima mão na cidade de Silves a 25 de Março de 1450, segue-se que a compusera dentro de sete meses pouco mais ou menos; o que na realidade parece incrível, quando se atenta na madureza e circunspecção com que naqueles tempos se escrevia». Cortesia de arqnet
  • 1450 - «Chronica del Rei D. Joam I de boa memória. Terceira parte em que se contam a Tomada de Ceuta» (Lisboa, 1644);
  • 1453 - «Chronica do Descobrimento e Conquista da Guiné» (Paris, 1841);
  • 1463 - «Chronica do Conde D. Pedro de Menezes» (in: Inéditos de Historia Portugueza, vol. II. Lisboa, 1792);
  • 1468 - «Chronica do Conde D. Duarte de Menezes» (in: Inéditos de Historia Portugueza, vol. III. Lisboa.
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