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terça-feira, 27 de setembro de 2022

Igreja da Misericórdia de Olivença. Maria do Rosário Cordeiro Carvalho. «Se a cena central do lado do Evangelho ainda pode ser relacionada com a temática superior, constituindo os camponeses uma alusão aqueles a quem se dirigia o profeta Habacuc…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Doutora Rosário Cordeiro Carvalho

Os painéis do sub-coro e nave

«(…) Os rodapés dos dois painéis da nave obedecem à mesma estrutura. As mísulas dividem-nos em três painéis, os dois das extremidades com a figuração de um pelicano a amamentar as suas crias, numa composição assente sobre um mascarão e flanqueada por dois anjos, encostados à base que é uma grinalda de flores e frutos, sobre volutas e acantos. O do centro do lado do Evangelho exibe uma paisagem, um casario, com torre ameada, duas figuras a trabalhar no campo, e outras junto a um rio. Do lado da Epístola, figura um jardim, com edifícios ao fundo, uma fonte à direita e duas figuras nobres à esquerda, a passear.

Se a cena central do lado do Evangelho ainda pode ser relacionada com a temática superior, constituindo os camponeses uma alusão aqueles a quem se dirigia o profeta Habacuc antes de ser desviado para a cova dos leões, do lado oposto essa ligação torna-se muito mais difícil, apesar da representação em causa ser uma fonte, mas monumental e de aparato. Este género de representações da natureza bucólica referem-se à vida civilizada, à acção do Homem de fé, sendo entendidas como um contraponto à vida selvagem daqueles que não cumprem os preceitos religiosos. Neste caso, surgem enquanto símbolos das próprias obras de misericórdia que podem ser entendidas como instrumentos de acção que, através da ajuda ao próximo, transformam o mundo num lugar melhor. Quanto ao pelicano, ele é entendido como símbolo de Cristo e da misericórdia, pois alimenta os seus filhos com o próprio sangue.

Regressando ao sub-coro, cobrir os nus inspira-se no Génesis, quando Adão e Eva, Cobrir os nus depois do pecado original ficam nus e Deus lhes ofereceu túnicas de peles. A cartela indica esta mesma passagem, ainda que com a referência errada, pois trata-se do versículo 21: FECIT QVO QVE DOMINVS DEVS ADAE ET UXORIAJVS TVNICAS PE LLICEAS ET INDVIT EOS Gen. Cap. 3º O Senhor Deus fez a Adão e à sua mulher túnicas de peles e vestiuos. Numa vasta paisagem, com árvores diversas (até uma muito alta palmeira), arbustos, vales e montanhas ao fundo, e curiosamente, um leão, dois elefantes e dois bois (?),surgem Adão e Eva, cobertos por folhas de figueira, a levantar-se do seu esconderijo atrás de um arbusto. De entre uma nuvem, Deus Pai estende as vestes, que não são de pele de animais, e é Adão quem se estica para as alcançar. Apesar da preocupação com a nudez, é notório um dos seios de Eva. Deus é representado como um homem de barbas, com um raio de luz a envolve-lo, e Adão e Eva são dois estranhos personagens, principalmente Adão, com as costelas demasiado vincadas a sugerir uma magreza absoluta. O pintor parece ter respeitado o texto bíblico, caracterizando o paraíso como a savana, com leões e elefantes. Só as túnicas não parecem ser de peles de animais sacrificados». In Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Igreja da Misericórdia de Olivença, Caso de Estudo, Wikipédia.

Cortesia de wikipedia

JDACT, Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Caso de Estudo, Castelo de Vide, Património, Conhecimento, Olivença, 

domingo, 25 de setembro de 2022

Igreja da Misericórdia de Olivença. Maria do Rosário Cordeiro Carvalho. «Duas crianças e um cão fazem a ligação entre este grupo e o que está junto à água. Atrás, uma figura feminina ajoelhada e uma série de homens e mulheres»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Doutora Rosário Cordeiro Carvalho

 Os painéis do sub-coro e nave

«(…) Em seu redor, e nas mais variadas posições, encontram-se oito leões, o que respeita o número par habitual, mas é mais do que o normal. Ossos, esqueletos e caveiras pretendem acentuar a voracidade dos animais. Do céu, surge um anjo que transporta o profeta pelos cabelos, enquanto este faz tensão de dar a Daniel uma cabaça fechada e segura no outro braço um cesto. Atrás deste primeiro plano, há mais paisagens, que enquadram o púlpito, observando-se pessoas em movimento. Parecem ser os trabalhadores que ceifavam no campo. Do outro lado do púlpito, o painel continua com uma paisagem e árvores que dominam toda a área. É possível que o púlpito já existisse neste mesmo local pois, apesar de interromper a composição, a cena de Daniel está concentrada numa parte do pano murário, o que se justifica pela presença deste elemento arquitectónico.

Para além da obra de misericórdia que representa, este episódio de Daniel pode ser entendido como um testemunho de protecção divina, como uma prefiguração de Cristo que sai do sepulcro ou da Imaculada Conceição de Maria, pois Habacucu entrou sem quebrar os selos. Do lado oposto, Moisés faz brotar água da rocha, numa imagem que é entendida como dar de beber aos que têm sede. A cartela alude ao exacto momento em que Moisés realizou o milagre: EGRESSAE SUNTI AQUAE LARGI SSIMAE ITA VT POPULUS BIBE RET ET IUMENTA Numer. Cap. X, Moisés levantou a mão e bateu com a sua vara duas vezes no rochedo. Jorrou, então, tanta água que a assembleia e seus rebanhos puderam beber.

Uma vez mais, as referências bíblicas foram mal copiadas, pelo que o capítulo é o 20º e não o 10º.

Ao duvidar de Deus, por não ter o que beber, o povo revoltou-se contra Moisés, que se reuniu com Aarão para tentar resolver a questão. Foi quando surgiu o Senhor que os mandou reunir a assembleia e deu a vara a Moisés com a qual ele fez brotar a água. Num nível superior ao plano onde se encontram dois grupos de ovelhas, a composição é dominada pelo rochedo que toma a forma de um arco. Sob este, dois homens encostados a uma pedra observam outros dois a recolher a água numa bilha. É do lado esquerdo que se concentram as figuras, com Moisés em primeiro plano, com a varinha que faz brotar água do rochedo. Duas crianças e um cão fazem a ligação entre este grupo e o que está junto à água. Atrás, uma figura feminina ajoelhada e uma série de homens e mulheres». In Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Igreja da Misericórdia de Olivença, Caso de Estudo, Wikipédia.

Cortesia de wikipedia

JDACT, Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Caso de Estudo, Castelo de Vide, Património, Conhecimento, Olivença, 

sábado, 24 de setembro de 2022

Igreja da Misericórdia de Olivença. Maria do Rosário Cordeiro Carvalho. «Se esta zona foi pintada com pinceladas mais ténues, para dar a ilusão de perspectiva, a cena em primeiro plano ganha maior destaque pelo enquadramento do pórtico, que enquadra a figura de Jesus»

Cortesia de wikipedia e jdact

 Com a devida vénia à Doutora Rosário Cordeiro Carvalho

 Os painéis do sub-coro e nave

«(…) À esquerda encontra-se um grupo de figuras, onde se inclui o paralítico, sentado, que olha para Jesus, cuja mão se eleva num gesto de benção, encontrando-se um homem atrás a observar a cena e um outro à frente, em contraponto. O homem parece estar deitado na sua cama, ou seja, a enxerga de que fala São João. Atrás ergue-se uma espécie de pórtico, formado por duas pilastras a que se adoçam duas esculturas, suportando as primeiras o entablamento, onde assentam as urnas laterais e os querubins que se apoiam no brasão central, sem representação de armas e com uma curiosa cabeça de pato a rematá-lo. É um dos cinco pórticos referidos no Evangelho, onde o paralítico jaze há já trinta e oito anos. Na paisagem fundeira, distingue-se uma piscina, e três figuras junto dela, tal como um anjo. Se esta zona foi pintada com pinceladas mais ténues, para dar a ilusão de perspectiva, a cena em primeiro plano ganha maior destaque pelo enquadramento do pórtico, que enquadra a figura de Jesus.

Na nave, o painel de grandes dimensões ilustra Daniel na cova dos leões, e é uma alusão a dar de comer aos famintos. A cartela assim o corrobora, ainda que o algarismo final do versículo não esteja pintado: FER PRANDIUM QUOD HA BES, INBABILONEM DANIELI QI EST IN LACU LEONU Daniel Cap. 14 v: Porém, um anjo do Senhor disse-lhe: Levas esta refeição à Babilónia, a Daniel que se encontra na cova dos leões. Tal como no painel anterior, o pintor parece obedecer rigorosamente ao relato bíblico. Ao recusar-se a venerar outro Deus que não o Senhor (Bel que Daniel destruiu, e um dragão que Daniel matou sem armas), Daniel acabou por ir parar à cova dos leões, para ser devorado por estes. Mas Deus enviou-lhe o profeta Habacuc, da Judeia, com a refeição destinada aos ceifeiros que trabalhavam no campo. Transportado por um anjo, alimentou Daniel que escapou incólume aos sete leões, ganhando assim o respeito do Rei, que uma semana depois esperava encontra-lo morto. Num cenário natural, mas com grutas construídas e cavernas, em arcos de volta perfeita, Daniel, enleado nas suas vestes e numa posição estranha, com a perna muito cruzada sobre a outra, estende as mãos para cima, para aceitar a comida do profeta». In Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Igreja da Misericórdia de Olivença, Caso de Estudo, Wikipédia.

Cortesia de wikipedia

JDACT, Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Caso de Estudo, Castelo de Vide, Património, Conhecimento, Olivença,

domingo, 15 de maio de 2022

Igreja da Misericórdia de Olivença. Maria do Rosário Cordeiro Carvalho. «Os painéis revestem a totalidade dos panos murários, envoltos por cercaduras rectilíneas decoradas por enrolamentos de acantos…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Doutora Rosário Cordeiro Carvalho

 Os azulejos com representações de obras de misericórdia

«(…) A igreja da Misericórdia de Olivença exibe um conjunto de representações azulejares de obras de misericórdia corporais, com evidentes diferenças de tratamento entre os painéis do sub-coro / nave e da capela-mor. Estas diferenças manifestam-se, também, ao nível iconográfico, pois há temas que se repetem nos dois espaços, indiciando a possibilidade de se estar perante programas distintos, concebidos de forma independente. No sub-coro e nave foram seleccionadas apenas quatro obras, curar os enfermos, dar de comer aos famintos, cobrir os nus e dar de beber aos que têm sede. Na capela-mor, surgem seis obras, com maior ênfase para curar os enfermos, cobrir os nus, dar de comer aos famintos e enterrar os mortos.

Em cartelas inferiores figura dar de beber aos que têm sede e dar pousada aos peregrinos e pobres. A questão dos presos e cativos ficou excluída deste programa.

Os painéis do sub-coro e nave

Os painéis revestem a totalidade dos panos murários, envoltos por cercaduras rectilíneas decoradas por enrolamentos de acantos. Na zona inferior dos painéis do sub-coro, as mísulas nas extremidades, enquadram as cartelas ladeadas por anjos, com a referência bíblica à cena representada. Na nave, as mesmas mísulas definem zonas intermédias onde figuram pelicanos, sendo a tarja inferior da cercadura interrompida por dois anjos e uma cartela com a citação bíblica, em latim. Assim, não há uma identificação directa da obra de misericórdia que figura em cada um dos painéis, mas a alusão à passagem bíblica que a inspirou contribui para tornar mais evidente o sentido da representação. Note-se a preferência clara pelas referências ao Antigo Testamento.

A disposição na igreja deste conjunto de obras parece não obedecer a critérios conhecidos, facto agravado pela inexistência de qualquer indicação sobre o seu número ou enunciado. Em todo o caso, e tomando a preposição dos textos que inspiraram outros programas do género, observa-se que a primeira obra seria a da nave do lado do Evangelho, evoluindo no sentido dos ponteiros do relógio para terminar no sub-coro, do mesmo lado. Por outro lado, existem enunciados em que a primeira obra é curar os enfermos, seguindo a mesma ordem de Olivença, também no sentido dos ponteiros do relógio, começando no sub-coro do lado do Evangelho mas saltando os cativos para dar lugar aos nus. O único texto inventariado que respeita uma leitura circular, com início no sub-coro do lado do Evangelho e término do lado oposto, é a obra de Jerónimo Ripalda, Doctrina Christiana com una exposición breve, escrita em 1591. Enfim, como se verá no final deste texto, a opção que parece ganhar mais força e consistência é a que privilegia a complementaridade entre ambos os panos murários do sub-coro e da nave, mas também do coro alto.

A primeira representação do sub-coro refere-se a curar os enfermos, e tem como mote a cura do paralítico na piscina de Betzatá. A cartela transcreve a passagem do Evangelho de São João, indicando tratar-se do versículo 7 do capítulo 5, embora, na verdade, a citação corresponda ao versículo 6: VIS SANUS FIERE Joan. Cap. 5º v 727 / Jesus, ao vê-lo prostrado e sabendo que já levava muito tempo assim, disse-lhe: Queres ficar são? O painel consegue uma síntese de grande interesse da versão de São João, ilustrando boa parte dos pormenores relatados, que diferem dos textos dos restantes três evangelistas.

A piscina de Betzatá ou Betesdá (Casa da Misericórdia) era um local frequentado por enfermos e aleijados que aí permaneciam na esperança de um milagre: um anjo deveria, de tanto em tanto tempo, agitar a água e o que submergisse primeiro ficaria curado. Estava longe de ser uma tarefa fácil para quem tinha dificuldade de locomoção, sendo sempre ultrapassados pelos mais ágeis, razão pela qual Jesus interveio a favor de um paralítico. A piscina pode estar associada, simultaneamente, ao Baptismo e à ideia de purificação pela água, do nascer de novo, neste caso para uma vida sem problemas físicos mas também espirituais: Não peques mais, para que não te suceda coisa pior (Jo 5, 14). Este episódio marca, ainda, o início da perseguição dos Judeus a Jesus, pois Este curou o paralítico a um sábado, o que era contra a lei». In Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Igreja da Misericórdia de Olivença, Caso de Estudo, Wikipédia.

Cortesia de wikipedia

JDACT, Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Caso de Estudo, Castelo de Vide, Património, Conhecimento,

sábado, 14 de maio de 2022

Igreja da Misericórdia de Olivença. Maria do Rosário Cordeiro Carvalho. «Infelizmente, os Livros de Receitas e Despesas referentes aos anos de 1716 a 1725 desapareceram, razão pela qual é mais difícil documentar…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Doutora Rosário Cordeiro Carvalho

A encomenda e a autoria dos azulejos

«(…) Infelizmente, os Livros de Receitas e Despesas referentes aos anos de 1716 a 1725 desapareceram, razão pela qual é mais difícil documentar quer a campanha retabular quer a azulejar. De qualquer forma, antes de analisar a questão da autoria e da atribuição de alguns dos painéis cerâmicos, importa definir, na medida do possível, as encomendas e as remessas de azulejos que foram chegando a Olivença. Na verdade, há notícia de que, em 1716, a Misericórdia recebeu azulejos para a decoração da capela, mas a falta de documentação não permite perceber se estes foram sendo enviados, terminando a encomenda em 1723, ou se são independentes da campanha assinada por Manuel Santos. De acordo com Miguel Angel Vallecillo Teodoro, esta remessa, que decorreu entre 1716 e 1718, corresponde aos azulejos da capela-mor, remetendo os de Manuel Santos para uma encomenda datada de 1722 e concluída em 1723, mandada executar pelo procurador da Misericórdia, o letrado Manuel Luís Soares. Por esclarecer fica também a possibilidade dos azulejos da primeira campanha terem sido guardados e aplicados apenas em 1723, já que António Roiz pagou a seis homens, que demoraram mês e meio para assentar os azulejos, o valor de 24.879 reis. A inexistência de documentação para este período não permite avançar com mais hipóteses. É precisamente sobre estes painéis da capela-mor que recaem as maiores dificuldades de atribuição e datação, uma vez que a assinatura de Manuel Santos e a data de 1723 não deixa grande margem para dúvidas sobre os azulejos da nave. Os primeiros a escrever sobre o conjunto cerâmico da Misericórdia de Olivença, Matos Sequeira e Rocha Júnior, atribuíram os painéis da capela-mor a Gabriel del Barco. Ao contrário destes e dos investigadores posteriores, Santos Simões não refere qualquer diferença de tratamento entre os dois espaços, apenas isolando o coro alto, que data de cerca de 1735, atribuindo a trabalho anónimo das oficinas do Mocambo. Já no inventário dos Açores e da Madeira, a propósito da Igreja do Livramento, atribui os azulejos da capela-mor de Olivença a P.M.P. Esta é a data que José Meco aponta para a capela-mor, concordando com Rosa Maria del Rincón, e atribuindo as cartelas a Policarpo Oliveira Bernardes. Por sua vez, Joaquim Torrinha defende a autoria do Mestre P.M.P. para a capela-mor e cartelas, enquanto atribui a de Manuel Santos o coro alto, concordando nesta última hipótese com Rosa Maria del Rincón e com Miguel Angel Vallecillo Teodoro». In Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Igreja da Misericórdia de Olivença, Caso de Estudo, Wikipédia.

Cortesia de wikipedia

JDACT, Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Caso de Estudo, Castelo de Vide, Património, Conhecimento,

Igreja da Misericórdia de Olivença. Maria do Rosário Cordeiro Carvalho. «O frontispício beneficiou, então, do portal de mármore e do óculo que ainda hoje se observa, bem como da sineira, no mesmo eixo e sobre a cornija…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Doutora Rosário Cordeiro Carvalho

As grandes campanhas do século XVIII«

«(…) No final do século XVII, a confraria beneficiava de uma situação financeira muito confortável que lhe permitiu iniciar uma série de melhoramentos e actualizações estéticas na igreja. Muito embora este já não exista, há notícia de que em 1689 foi encomendada nova tribuna e trono para o altar-mor, ao entalhador de Vila Viçosa, Bartholomeu Días, cujo montante, de acordo com os pagamentos efectuados, importou em 67.400 reais. Dois anos depois, em 1691, procedeu-se ao seu douramento, executado por Agostinho Mendes, de Elvas. Seguiu-se aquela que pode ser considerada a primeira grande encomenda, onde se percebe a intenção e o desejo de actualização do espaço da igreja. Nela se incluem os azulejos, assinados por Manuel Santos em 1723; o novo retábulo-mor, também de 1723 e, muito possivelmente, os retábulos colaterais. As divergências entre os investigadores quanto  às autorias e datações quer dos azulejos quer da talha, não invalida o facto deste programa ter sido executado sensivelmente na mesma data e constituir o primeiro e mais significativo esforço da confraria no sentido de criar um espaço unificado e apelativo, com uma mensagem directa e precisa, capaz de chegar a todos os que frequentavam a igreja, fossem eles irmãos ou beneficiados das actividades da confraria. A campanha azulejar, à qual se regressará em pormenor, foi responsável pelo revestimento total dos panos murários do sub-coro, nave, capela-mor e coro alto do templo, marcando uma presença muito forte neste interior. Quanto ao retábulo-mor, atribuído por Ayres Carvalho a Claude Laprade, nunca chegou a ser dourada devido aos elevados custos que isso implicava, acabando por ser pintado, em 1777, por Eugenio Mendes e Ignacio José Mendes, de Elvas, por 88 515 reis.

Estudos mais recentes inscrevem este trabalho no contexto e no esquema compositivo dos retábulos contemporâneos das restantes igrejas de Olivença, atribuídos ao entalhador lisboeta Manuel Francisco, caracterizando-se pela profundidade e gradação das colunas, que convergem para a tribuna do sacrário, exibindo, de forma genérica, símbolos eucarísticos e temática mariana. Note-se o facto da sua cornija ter continuidade na própria cornija da igreja, facto que revela o cuidado e a união entre os diversos elementos, decorativos e estruturais.

Os retábulos das capelas laterais são dedicados ao Pentecostes, do lado do Evangelho e à Misericórdia, do lado da Epístola, cujas imagens são representadas num painel central em baixo relevo. O primeiro foi pintado, apenas, em 1777 a expensas do capelão Bernardo Doreguo, e o segundo nunca chegou a ser nem dourado nem pintado. Cerca de uma década mais tarde, a Mesa decidiu intervir ao nível da arquitectura do edifício, contratando, para tal, os mestres de Olivença António Lopes, Manuel Laurenço y Joseph Lopes que, a partir de 1732, intervieram ao nível da fachada e das abóbadas do templo. O frontispício beneficiou, então, do portal de mármore e do óculo que ainda hoje se observa, bem como da sineira, no mesmo eixo e sobre a cornija de remate do alçado. Não é possível determinar com exactidão se os trabalhos foram mais abrangentes, mas o facto das paredes do templo já se encontrarem revestidas por azulejos indicia intervenções pontuais, uma vez que fazia pouco sentido mexer ou intervir sobre uma obra recente, correndo o risco de a destruir parcialmente». In Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Igreja da Misericórdia de Olivença, Caso de Estudo, Wikipédia.

Cortesia de wikipedia

JDACT, Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Caso de Estudo, Castelo de Vide, Património, Conhecimento, 

Igreja da Misericórdia de Olivença. Maria do Rosário Cordeiro Carvalho. «As campanhas de obras na nova sede iniciaram-se, muito possivelmente, em 1548. O plano de trabalhos encomendado a Ayres Quintall…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Doutora Rosário Cordeiro Carvalho

Da fundação da Misericórdia de Olivença à construção da actual igreja

«A data apontada para a fundação da Misericórdia de Olivença é a de 20 de Novembro de 1501, na sequência da carta enviada por dom Manuel I aos municípios a fim de recomendar e encorajar a criação de confrarias à imagem da que havia sido constituída em Lisboa. De acordo com esta memória, existente no arquivo da confraria, esteve presente o escudeiro Álvaro Guarda, enquanto enviado do monarca. A primeira referência a esta Misericórdia na Chancelaria régia, relativa a um privilégio, remonta a 30 de Março de 1515. Desde então, os reis concederam uma atenção particular à confraria, concedendo-lhes vários privilégios e contribuindo para as diversas obras promovidas. Nos primeiros anos da sua existência, a Misericórdia de Olivença conheceu diversas sedes, até se instalar naquela que passou a ser a sua própria igreja, à época extramuros da muralha de dom Dinis. A primeira foi a Casa Consistorial, situada na Praça de Santa Maria do Castelo, erguendo-se, pouco depois, uma capela na igreja de Santa Maria do Castelo, onde os irmãos passaram a reunir-se. A confraria foi ganhando um peso e uma importância progressiva, que encontraram na doação dos bens do padre Fernão Afonso, em 1511, o seu primeiro grande impulso. Na verdade, até aí a Misericórdia vivia de esmolas dos particulares, mas esta doação veio iniciar um processo de dádivas, responsável pela criação de um património considerável.

Todavia, a ameaça de ruína da igreja do Castelo, a inexistência de uma outra que pudesse receber a instituição e o aliciante de unir várias confrarias, com a Misericórdia a absorver as mais reduzidas, conduziu a que, em 1520, o monarca tenha ordenado a sua transferência para a ermida do Espírito Santo. Este templo, de construção anterior ao século XVI, acolhia, para além da confraria do Espírito Santo, a de Nossa Senhora do Sábado. As campanhas de obras na nova sede iniciaram-se, muito possivelmente, em 1548. O plano de trabalhos encomendado a Ayres Quintall previa, ao que tudo indica, a reedificação e engrandecimento da igreja e a construção de um hospital anexo. Estas intervenções, que se prolongaram por todo o século XVI, contaram com o apoio dos diversos monarcas, através de privilégios e concessão de rendas.

De nave única com abóbada de canhão, a igreja dispõe de coro alto apoiado sobre arcada sustentada por colunas de mármore com capitéis jónicos, e capela-mor elevada em relação ao pavimento da nave, da qual se separa através de arco triunfal de volta perfeita.

Após esta primeira grande campanha, a Misericórdia de Olivença voltou a ser objecto de remodelações entre o final do século XVII e a primeira metade do século XVIII: de âmbito mais decorativo que estrutural, esta intervenção alterou por completo a percepção do espaço, transformando-o, através de um programa uno, numa obra de arte total, onde todos os elementos convergem no mesmo sentido iconográfico e sensorial». In Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Igreja da Misericórdia de Olivença, Caso de Estudo, Wikipédia.

Cortesia de wikipedia

JDACT, Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Caso de Estudo, Castelo de Vide, Património, Conhecimento,

domingo, 26 de dezembro de 2021

As Igrejas de Castelo de Vide. Ruy Ventura. «Dar valor a uma igreja, ainda que pequena e humilde, mas histórica, é respeitar um passado que nos mantém de pé, pois faz parte das nossas raízes. Não há futuro sem passado»

Cortesia de ArquivodoNorteAlentejano e jdact

Com a devida vénia a Ruy Ventura e ao jornal Alto Alentejo

As Igrejas de Castelo de Vide fazem falta

«(…) É certo que em Castelo de Vide e no seu concelho nunca existiram igrejas dedicadas a São Martinho ou à Senhora da Saúde (como alguém escreveu), mas o valor memorial e patrimonial de igrejas e capelas como as que existem no concelho alentejano é algo que não pode ser desperdiçado seja por quem for. Desde uma igreja de Santiago (que investigadores internacionais já identificaram como uma antiga mesquita) à do Salvador do Mundo (anterior à nacionalidade e ligada ao cristianismo moçárabe), passando pelo Senhor do Bonfim (com um admirável conjunto de pinturas murais), ao Bom Jesus e à Senhora do Carmo (com retábulos que urge estudar, restaurar e divulgar, no âmbito da comunidade de artistas que existiu em Castelo de Vide nos séculos XVII e XVIII), a Santo Amaro (uma admirável igreja barroca!), às medievais São Roque e Santo Amador e a muitas outras, há um imenso conjunto de oportunidades a explorar, no âmbito de uma religiosidade aberta, de um turismo religioso e cultural e de uma estratégia inteligente de desenvolvimento local. É um erro pensar que as igrejas só merecem estar de pé enquanto lá se celebrar missa todos os domingos. Não foram construídas para isso. A maior parte delas, desde o dia da sua inauguração, só teve eucaristia uma vez por ano (ou no dia da sua festa ou no dia do sufrágio de quem lá estava enterrado, em geral os seus fundadores). A sua manutenção era assegurada por um ermitão, que aí vivia de graça e em troca de habitação gratuita tinha de assegurar a abertura de portas aos fiéis. Hoje em dia serão usadas de outro modo, com fins distintos. Não serão todavia menos dignos.

Dar valor a uma igreja, ainda que pequena e humilde, mas histórica, é respeitar um passado que nos mantém de pé, pois faz parte das nossas raízes. Não há futuro sem passado. É muito urgente dar valor a este e a outros patrimónios, sobretudo num tempo em que motivações espúrias querem purificar a nossa memória, derrubando e vandalizando estátuas e pessoas, levando-nos para a barbárie. Acredito que os negócios sejam sedutores, que a pressa de resolver situações seja má conselheira, que a imaginação nem sempre seja abundante, que pressões várias, nem sempre legítimas, façam esquecer o dever maior. Não é por acaso que o Direito Canónico afirma só ser válida a alienação de ex-votos oferecidos à Igreja, ou de coisas preciosas em razão da arte ou da história com licença expressa da Santa Sé, permitindo todavia que, além do culto, da piedade e da religião, o bispo diocesano permita nas igrejas outros actos ou usos, que não sejam contrários à santidade do lugar. Mesmo que as circunstâncias tenham levado à perda da bênção do local, é sempre possível dar-lhes um uso digno que respeite a sua integridade memorial, arquitectónica e artística. Há exemplos vários disso mesmo no Alentejo e no país, alguns bem perto. Não é preciso reinventar a roda…

Um dos primeiros actos de São Francisco depois da sua conversão foi promover nos arredores de Assis a reparação da igreja de São Damião, que ameaçava ruína e estava abandonada. Para isso, vendeu tudo o que tinha e, segundo contam as suas biografias medievais, chegou a andar pela sua terra a pedir pedras para a reconstrução, prometendo recompensas divinas. Nem todos podemos chegar ao exemplo maior dos santos, mas, como me disse um dia, era eu adolescente, o saudoso cónego Justo, membro do cabido da Sé de Portalegre, se nem todos conseguimos ser santos, todos temos a obrigação de ser nobres e honrados. Haja nobreza de carácter, honra e humildade e a situação das igrejas de Castelo de Vide será resolvida a pouco e pouco pelos castelo-videnses, pelas suas autoridades civis e por quem dirige a sua paróquia. Não me passa pela cabeça que venham a ter uma atitude menos digna. O Paráclito os espicaçará». Ruy Ventura, As Igrejas de Castelo de Vide Fazem Falta, artigo publicado no jornal AltoAlentejo, 17/06/2020, Arquivo do Norte Alentejan.

Cortesia de JALentejo/RuyVentura/JDACT

JDACT, Património, Ruy Ventura, Cultura e Conhecimento, Castelo de Vide,

As Igrejas de Castelo de Vide. Ruy Ventura. «Desde que lhe retiraram as imagens aí veneradas, não mais foi reparada, limpa ou valorizada. Mas não é uma ruína. Não será muito difícil repará-la e dar-lhe nova vida…»

Cortesia de ArquivodoNorteAlentejano e jdact

Com a devida vénia a Ruy Ventura e ao jornal Alto Alentejo

As Igrejas de Castelo de Vide fazem falta

«Castelo de Vide é uma terra afortunada. Ao contrário de outras localidades, que ainda hoje lamentam os desvarios e vandalismos do passado, causadores da destruição de tantos edifícios valiosos, a terra de Salgueiro Maia detém no perímetro do seu concelho um património invejável seja sob que ponto de vista for. É, ainda, uma vila venturosa pelas gentes que nela habitam. Sem os castelo-videnses, teríamos no mesmo lugar do Alto Alentejo uma qualquer feia povoação, sem identidade e sem brilho, abastardada por uma sucessão de atentados urbanísticos e patrimoniais promovidos pelos seus habitantes e autorizados pelos serviços camarários. Felizmente, temos o contrário disso tudo, e essa realidade eleva a urbe aos olhos dos portugueses e dos estrangeiros. Entre as pessoas que dão vida a Castelo de Vide, há cidadãos de corpo inteiro que, ao longo do tempo, têm assumido a defesa do seu património. Se no passado não conseguiram evitar a demolição de uma parte das suas muralhas (e, nelas, da célebre Porta da Aramenha, proveniente da cidade romana de Ammaia), bem como de alguns edifícios religiosos, como a importante igreja do Espírito Santo ou a matriz antiga de Póvoa e Meadas, pode dizer-se que há uma linhagem de gente que não tem deixado destruir peças importantes da sua identidade artística e arquitectónica (popular ou erudita). Uns chegaram à investigação, à escrita e à publicação (César Videira, João António Gordo, Raposo Repenicado, Diamantino Sanches Trindade, Maria Guadalupe Alexandre, Diogo Salema Cordeiro, Jorge Rosa, Rosário Salema Carvalho, etc.); outros, mantendo-se mais ou menos na sombra, trabalharam de outro modo pela salvaguarda, valorização e divulgação do património da comunidade, que é parte integrante, diga-se, do património nacional. Nos últimos anos, merece especial relevo a actividade da associação denominada Grupo de Amigos de Castelo de Vide, que tem aliado a defesa dos interesses locais à edição de livros e à impressão do jornal Notícias de Castelo de Vide, também disponível na internet sob a forma de blogue.

Se alguém pensa, por isto, que Castelo de Vide precisa de mim para liderar a defesa do seu património, decerto tem uma visão desfocada da realidade do concelho. Como investigador, é certo que assinei artigos na Invenire, Revista de Bens Culturais da Igreja (editada pela Conferência Episcopal Portuguesa) em que estudei obras de arte e tradições da vila onde nasceu Garcia de Orta; destaquei a localidade no meu livro Santo António na Região de Portalegre; publiquei artigos sobre as ruínas da ermida de São Paulo e sobre a igreja de Santa Maria da Devesa (com algumas novidades históricas); divulguei uma parte dos textos tradicionais do concelho em vários cadernos editados com a literatura oral da Serra de São Mamede; dei destaque à literatura castelo-vidense na volumosa antologia Poetas e Escritores da Serra de São Mamede; e, sobretudo, investiguei a toponímia, a heráldica, a história e o património do concelho no livro A Vide e o seu Castelo, obra hoje esgotada, a precisar de reedição revista e muito aumentada. Tal trabalho, que tenciono continuar (nomeadamente no doutoramento em História da Arte que me ocupará nos próximos quatro anos), não me transforma no entanto num elemento imprescindível na luta pela defesa do património concelhio, embora não lhe vire a cara, ao não esquecer que uma parte dos meus antepassados nasceu nesse município. Agradeço a honra que me foi concedida em duas publicações vindas a lume no jornal Alto Alentejo, nas quais surjo como líder de um grupo de pessoas de Castelo de Vide, mas não a mereço. Se manifestei o meu repúdio público pelas intenções do pároco viti-castrense e de mais algumas pessoas em vender a abandonada igreja de São Miguel (situada na Serra que já teve o nome do Comandante das Milícias Celestes e principal defensor da Igreja e do povo de Israel), limitei-me a fazer eco de uma notícia criada e difundida pelo Grupo de Amigos de Castelo de Vide no jornal que publica. Partilhei a notícia no facebook e comentei-a, dando o meu apoio aos castelo-videnses, estupefactos perante um incompreensível e pouco claro ataque ao seu património medieval. É certo que difundi a notícia e pus os meus fracos préstimos à disposição dos defensores do património local, mas nada fiz que outros não tivessem feito. O seu a seu dono…

Há quem defenda publicamente que as igrejas de Castelo de Vide não fazem falta. Permito-me discordar. Fazem tanta falta quanto as muralhas de várias épocas que envolvem a vila, quanto o castelo que lhe deu nome, quanto as antas e outros vestígios arqueológicos que povoam o município, quanto o pelourinho que se ergue em frente aos Paços do Concelho, quanto muitas tradições seculares que dão identidade à urbe. Diria mesmo que, dado o seu estatuto, fazem até mais falta. Com o que digo, não estou a estabelecer uma hierarquia, mas apenas a dizer que uma estratégia pastoral imaginativa, dialogante e aberta já lhes teria dado utilidade comunitária além do seu valor patrimonial, pois se não há cultura sem culto, também não há culto sem cultura.

A igreja de São Miguel não está arruinada, como tem sido dito. Está apenas abandonada porque a abandonaram há várias dezenas de anos, entregando-a à sua sorte e às forças da natureza. Aconteceu o mesmo a outras ermidas castelo-videnses, o que se lamenta. Desde que lhe retiraram as imagens aí veneradas, não mais foi reparada, limpa ou valorizada. Mas não é uma ruína. Não será muito difícil repará-la e dar-lhe nova vida, associando-a talvez à ermida de Nossa Senhora da Penha, sua vizinha, que não tem espaço para lá se celebrar a eucaristia, nem no dia da festa, ou instalando aí um agrupamento de escuteiros ou… (os castelo-videnses saberão, e parece que a edilidade já está a dar bons passos no sentido de não se apagar esse património). Essa igreja, já existente no século XV, era local de encontro dos cristãos-novos na centúria de quinhentos, tendo assim um valor memorial inalienável. Com potencial arqueológico importante, ninguém nos garante que por debaixo da sua cal não haja surpresas. Não deve ser vista, todavia, como algo que se possa separar da sua envolvente, tanto próxima, onde avulta um entorno prodigioso do ponto de vista natural e paisagístico, quanto alargada. Pergunto: não seria possível criar uma rota do sagrado que envolvesse todos estes edifícios ainda de pé e mesmo aqueles de que já só sobram ruínas? Ou será melhor defender o que defendiam alguns cidadãos de Guimarães no século XIX, ao quererem demolir o castelo da cidade porque o progresso seria levantar ali um bairro operário?» Ruy Ventura, As Igrejas de Castelo de Vide Fazem Falta, artigo publicado no jornal AltoAlentejo, 17/06/2020, Arquivo do Norte Alentejano.

Cortesia de JALentejo/RuyVentura/JDACT

JDACT, Património, Ruy Ventura, Cultura e Conhecimento, Castelo de Vide,

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, Santarém. Tiago Moita. «Entre o património então transferido encontravam-se os painéis de azulejo setecentistas, que revestem presentemente a nave da igreja, os retábulos colaterais, diversas esculturas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A edificação da Igreja Matriz

«(…) Dos retábulos, e dos seus oragos, encontra-se preciosa descrição, redigida pelo pe. Manuel Ramos, no inquérito nacional das Memórias Paroquiais (ANTT), em 1758: tem três altares, um mor em que preside o Santíssimo Sacramento, e os dois colaterais, um com o título do Senhor Jesus Crucificado, e outro de Nossa Senhora do Rosário. Significativamente, no mesmo inquérito o sacerdote menciona a existência de duas Irmandades dinamizando a vida da paróquia: a Irmandade do Santíssimo Sacramento e a Confraria de São Domingos. Foi especialmente a primeira que se encarregou do contínuo embelezamento do espaço da capela-mor da igreja, de que era a principal responsável, adquirindo, para o efeito, diversos bens móveis e integrados. Entre os bens adquiridos destaca-se o novo altar do retábulo principal da igreja, com nicho aberto no interior da mesa que mandaram fazer para nele porém a Santíssima Imagem do Senhor Morto para melhor culto da Sexta-feira da Semana Santa, para o qual requereram licença do Senhor Patriarca de Lisboa, dom José Manuel da Câmara (1686-1758), para que o pároco o pudesse benzer e dizer missa, licença que foi concedida por provisão eclesiástica de 9 de Março de 1757. Pensamos, por isso, que os azulejos azuis e brancos, de época setecentista, que animam o espaço arquitectónico intestino da capela-mor, com passos da vida de São Domingos, resultam igualmente de encomenda desta importante Irmandade. No anexo contíguo, situado na fachada lateral esquerda da igreja, com corpo elevado, tinha a Irmandade a sua Casa de Despacho, com acesso directo ao camarim do retábulo-mor, e à própria capela principal por escada no lado oposto.

A ruína causada pelo terramoto de 1755 foi extensa, tendo causado sérios danos na abóbada da capela-mor, abrindo um longo período de contenda entre o pároco e os fregueses, de que dá conta o registo da visitação realizada no ano seguinte. A reconstrução do templo ficou adiada por vários anos, estando ainda por resolver em 1758. Em 1766, a torre da igreja testemunha a aquisição de um novo sino, de bronze, enriquecido com inscrição na zona superior: S DOMIN GOS 1.766. O sino encontra-se hoje desactivado e deslocado para o interior do templo.

No final do século XVIII, a igreja deverá ter recebido uma nova campanha de melhoramentos, sobretudo no exterior, com a construção do novo janelão do coro e do nicho com a imagem pétrea. A leitura da pedra fundacional do Convento de Santa Maria de Jesus de Vale de Figueira, da Província da Arrábida, extinto em 1834, que se encontra hoje no anexo da igreja, relatando a trasladação da mesma para o adro deste templo em 30 de Dezembro de 1861, permite-nos supor ser esta a data em que parte significativa dos bens artísticos e cultuais pertencentes ao convento foram deslocadas para a igreja. Entre o património então transferido encontravam-se os painéis de azulejo setecentistas, que revestem presentemente a nave da igreja, os retábulos colaterais, diversas esculturas, pinturas, e alfaias litúrgicas, que os inventários remanescentes permitem aferir. Naquele mesmo ano, também a torre sineira será enriquecida com o mostrador do relógio, em pedra, com data gravada.

Pelo jornal O Século, de 10 de Agosto de 1928, sabemos que naquele ano se havia começado a preparar o terreno para a construção do muro em alvenaria que delimita o adro da igreja, contudo as obras só muito lentamente avançaram, com prejuízo para quem passava. Em 1982-1983, sendo pároco o pe. Diamantino Henriques Marques, foi integralmente substituída a cobertura de madeira do tecto da nave, perdendo-se a anterior, pintada, da qual subsiste o painel central, com heráldica do orago. Do mesmo modo, foram rebocadas e pintadas as paredes da igreja, que eram então revestidas de estuque pintado em fingidos de mármore, num jogo de cores rosa e branco, com molduras azuis». In Tiago Moita, A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, Santarém, 2019, Design Gráfico e Paginação, David Matos Branco, Depósito Legal 453685/19.

Cortesia de DGePaginação/DavidMBranco/JDACT

 JDACT, Tiago Moita, São Domingos de Vale de Figueira, Património, Cultura, Santarém,

sábado, 10 de abril de 2021

A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, Santarém. Tiago Moita. «Depois da criação da paróquia, os moradores de Vale de Figueira não apenas levantaram a pia do baptismo, sinal indelével da sua autonomia, como se começaram a organizar…»

Cortesia de wikipedia e jdact

História e Património

«(…) Neste período, o lugar de Vale de Figueira, e a sua ermida, pertenciam à paróquia e freguesia de São Vicente do Paúl. Entretanto, o crescimento populacional, necessidades de ordem pastoral, e as inspirações do Concílio de Trento, alteraram este quadro.

O nascimento de uma paróquia (1571)

Num manuscrito conservado no Arquivo Histórico do Patriarcado de Lisboa (Expediente 1848, Caixa 1) encontramos um treslado, com a data de 12-04-1848, realizado a partir de um documento antigo, no qual se relata as circunstâncias da criação da paróquia de Vale de Figueira (Anexo I). De acordo com este testemunho, a freguesia de São Domingos de Vale de Figueira foi desmembrada da de São Vicente do Paúl por ocasião da visitação feita pelo licenciado Marcos Teixeira no ano de 1570. Esta alteração administrativa e de fronteiras chocou, naturalmente, com inúmeras resistências, colidindo com privilégios e direitos adquiridos, e hábitos seculares. A decisão do visitador foi por isso contestada por Pêro Costa, Prior de São Vicente do Paúl, no Tribunal da Relação Eclesiástica de Lisboa, que escutou também os moradores de Vale de Figueira. Esgrimindo as partes argumentos contrários, que o treslado documenta, consideremos as razões apresentadas pelos habitantes de Vale de Figueira, naturalmente favoráveis à criação da paróquia. Em primeiro lugar, lamentavam-se estes da distância que tinham de percorrer para poder assistir às celebrações na Matriz de São Vicente, dificultosa sobretudo para as pessoas de mais idade e para as mulheres. Em segundo lugar, deploravam não serem assistidos devidamente pelo Prior de São Vicente, especialmente por ocasião de cheias no rio Alviela, que inundavam a ponte de pedra, ainda hoje existente, impedindo a passagem para a Matriz de São Vicente, e impossibilitando a participação nos sacramentos, com dano para as crianças, que ficavam por baptizar, e para os defuntos, que não tinham enterro condigno. Depois de ouvir as partes, o Tribunal da Relação Eclesiástica de Lisboa confirmou a decisão da visitação por Carta de Sentença dada a favor dos fregueses da Ermida de São Domingos de Vale de Figueira, publicada pelo Doutor João Lorena Homem, Desembargador, em audiência de 16 de Agosto de 1571, e lavrada a 12 de Dezembro do mesmo ano. Em todo o caso, embora podendo levantar pia baptismal na Ermida de Vale de Figueira, a nova paróquia permanecia com estatuto de curato filial da Matriz de São Vicente, ficando responsável o Prior de São Vicente por nomear o cura da paróquia de Vale de Figueira, que dele dependia, situação que se conservou até 1834, conforme o documento que vimos a comentar. Depois da criação da paróquia, os moradores de Vale de Figueira não apenas levantaram a pia do baptismo, sinal indelével da sua autonomia, como se começaram a organizar para ampliar o espaço de culto, erguendo a Igreja Matriz no lugar da ermida.

A edificação da Igreja Matriz

A Igreja Matriz de Vale de Figueira, dedicada a São Domingos de Gusmão, encontra-se edificada em situação altaneira, em plataforma artificial formando um adro fechado por muro em alvenaria, junto ao principal eixo viário da povoação. Desconhece-se a data da sua edificação, mas as características formais do edifício, projectado em estilo-chão, permitem-nos enquadrar a sua construção no decurso do século XVII. A igreja estaria pronta nos começos do século XVIII, quando recebe, em 1708, o retábulo-mor e os retábulos laterais, entalhados e dourados, bem como o cruzeiro paroquial, edificado no centro da escadaria principal de acesso ao adro, conforme as inscrições patentes nestes bens». In Tiago Moita, A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, Santarém, 2019, Design Gráfico e Paginação, David Matos Branco, Depósito Legal 453685/19.

Cortesia de DGePaginação/DavidMBranco/JDACT

JDACT, Tiago Moita, São Domingos de Vale de Figueira, Património, Cultura, Santarém,

A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, Santarém. Tiago Moita. «Permanecendo no terreno da conservação e restauro, sublinhe-se o artigo de Carlos Costa (2017) sobre o restauro da escultura com a imagem do padroeiro, São Domingos Gusmão»

Cortesia de wikipedia e jdact

História e Património

«A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, concelho de Santarém, oferece aos seus visitantes a presença de um património artístico de grande interesse. Para além da arquitectura do seu templo, inclui numerosíssimas peças de vários géneros artísticos, desde imaginária em madeira, terracota, e marfim, pintura a óleo e a fresco, retabulística, azulejaria, paramentaria, mobiliário, pratas e alfaias litúrgicas, entre outras. Significativamente, parte deste património é oriundo do antigo Convento de Santa Maria de Jesus de Vale de Figueira, da Província da Arrábida, fundado no século XVII por Henrique de Portugal, e sua mulher, dona Ana Ataíde, e extinto em 1834, na sequência da revolução liberal.

O património religioso de que aqui falamos tem vindo a ser beneficiado na última década com intervenções de conservação e restauro, quase sempre realizadas por profissionais qualificados e respeitadores das boas práticas, que lhe têm vindo a devolver valor e autenticidade. Estes trabalhos de beneficiação não seriam possíveis sem a sensibilidade da comunidade local, e da sua enorme generosidade, que fazem de Vale de Figueira um caso singular no que respeita à salvaguarda patrimonial. Entendemos que a recém-valorização deste conjunto de obras de arte impõe agora a necessidade de um estudo sistemático e da sua divulgação. Este livro visa cumprir esse objectivo, analisando o património artístico da Igreja de Vale de Figueira sob o ponto de vista da História da Arte, sensibilizando as pessoas para a sua fruição, não apenas enquanto peças ligadas ao culto, mas como autênticas obras de arte que se devem estimar e apreciar. A análise empreendida segue, naturalmente, a metodologia própria da História da Arte, integrando a investigação dos arquivos (em muitos casos, trazendo à luz documentos inéditos), os dados resultantes das intervenções de conservação e restauro, e o estudo estilístico, iconográfico e comparativo das obras de arte.

Importa referir que embora praticamente desconhecido no contexto da historiografia da arte portuguesa, o património de arte sacra da paróquia de São Domingos de Vale de Figueira mereceu referências pontuais em publicações científicas que devemos mencionar. Em primeiro lugar, encontram-se as notícias de Gustavo Matos Sequeira no tomo do Inventário Artístico de Portugal da Academia Nacional de Belas Artes dedicado ao Distrito de Santarém, de 1949, com um recenseamento superficial das existências. Os demais estudos dignos de registo são sobretudo análises sectoriais, referentes ao património azulejar e retabulístico da igreja. No que se refere ao primeiro destacam-se as palavras de João Miguel Santos Simões, na obra pioneira Azulejaria em Portugal no século XVIII, publicada em 1979, sem esquecer o recente contributo de Maria Rosário Salema Carvalho, na sua tese de doutoramento, ainda inédita (Carvalho, 2012, Anexo B: 1260-1267). No campo da retabulística merece referência o estudo colectivo orientado por Irina Crina Anca Sandu (2012), com uma análise multidisciplinar das técnicas e materiais utilizados no douramento do retábulo-mor e dos retábulos laterais.

Permanecendo no terreno da conservação e restauro, sublinhe-se o artigo de Carlos Costa (2017) sobre o restauro da escultura com a imagem do padroeiro, São Domingos Gusmão. Para além destes trabalhos, registe-se a ficha de inventário do património arquitectónico do SIPA/IHRU com o número IPA.00006781, da autoria de Paula Figueiredo, e o inventário dos bens móveis realizado pela Comissão Diocesana para os Bens Culturais da Igreja, da Diocese de Santarém, elaborado por Eva Raquel Neves. Embora apoiado nos estudos destes pesquisadores, o presente livro resulta, sobretudo, de um estudo aturado de novas fontes de informação, em alguns casos virgens de aproveitamento e ricas de informação histórica e artística, e da investigação pessoal.

Embora os primeiros registos de ocupação humana no território que hoje é conhecido como Vale de Figueira, no concelho de Santarém, nos reportem a períodos recuados do Paleolítico, do Calcolítico, da Idade do Bronze, da Idade do Ferro e da época Romana, que se localizam especialmente no campo arqueológico de Chões de Alpompé, é somente nos começos do século XIV que vamos encontrar referências explícitas a um pequeno povoado no lugar de Vale de Figueira, no termo de Santarém. Nascido provavelmente à sombra das numerosas quintas e casais que vieram a existir neste espaço, propriedades das elites urbanas, continuará a crescer ao longo do tempo, quando em 1527 assume estatuto de aldeia, com número populacional ascendendo a mais de duas centenas de habitantes. É possível que os frades dominicanos, residindo em Santarém, onde fundaram convento no século XIII, tenham incrementado a vida religiosa neste lugar, razão pela qual se ergueu ermida, dedicada ao Patriarca São Domingos, no local onde hoje se situa a igreja paroquial. Na recolha que pudemos apurar, a mais antiga referência a esta ermida, e seu orago, remonta ao ano de 1537, numa Mercê de João III aos mordomos de São Domingos do termo de Santarém de uma ração (ANTT, Núcleo Antigo 887)». In Tiago Moita, A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, Santarém, 2019, Design Gráfico e Paginação, David Matos Branco, Depósito Legal 453685/19.

Cortesia de DGePaginação/DavidMBranco/JDACT

JDACT, Tiago Moita, São Domingos de Vale de Figueira, Património, Cultura, Santarém,

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Monacato Feminino e Domínio Rural. O Património do Mosteiro de Santa Maria de Almoster no século XIV. José Manuel H Varandas. «O processo de criação de um mosteiro cisterciense desenvolve-se de forma extremamente complexa»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Mas, importa sublinhá-lo, as nossas fontes assentam essencialmente no espólio do cartório de Almoster. Esta especificidade que, ainda por cima, incide num processo conjuntural de grande crise a nível geral, correspondente a uma época de grande convulsão e de decadência dos padrões tradicionais do modelo medieval, faz com que a nossa visão corra o risco de se tornar unilateral, face à complexidade da sociedade portuguesa dos finais da Idade Média.

A FUNDAÇÃO DE SANTA MARIA DE ALMOSTER
A Ordem
O processo de criação de um mosteiro cisterciense desenvolve-se de forma extremamente complexa. Embora o convento de Almoster seja de constituição tardia, e na sua composição inicial possamos encontrar alterações às regras iniciais, não podia deixar de cumprir algumas disposições fundamentais que, a não serem seguidas, podiam impedir que os agentes fundadores recebessem a autorização necessária. A Ordem de Cister, fundada em 1098, assentava a sua existência e a sua força na conjunção de dois factores: uma forte autonomia e uma ainda mais poderosa centralização. Pedro Gomes Barbosa refere a existência de uma teia de ligações entre todas as casas de monges bernardos que acabavam por entroncar na primitiva casa, onde tudo se tinha iniciado: Cister.
Tal estrutura obrigava a que todos os abades se deslocassem aos Capítulos Gerais da Ordem, local onde eram apresentados e resolvidos casos específicos de cada uma das abadias espalhadas por toda a Europa, e de onde saíam as linhas orientadoras para toda a comunidade cisterciense. Ali se firmavam a força e a independência desta Ordem, expressas através de uma feroz disciplina regrante, que conferia aos abades com responsabilidade regional o direito e o poder de fiscalização sobre outros mosteiros (de criação mais recente que deles dependessem), controlando localmente a vida cenobítica dessas novas casas. Nenhuma nova fundação podia ser sancionada apenas pelo responsável regional. Qualquer nova casa que se pretendesse criar, ou mesmo a filiação de mosteiros já existentes, que seguiam outras regras, não se podia fazer sem o consentimento do Capítulo Geral. Só nesse espaço privilegiado, em reunião periódica das elites da Ordem, poderia ser dada autorização para o aparecimento de novas instituições.
A fundação de uma abadia cisterciense não era algo passível de ser constituído somente a partir de uma forte inspiração do sagrado que, momentaneamente, surgia numa dada região. Cister, embora contaminada e envolvida pelo processo da Reconquista e da luta contra o infiel, não embarca em aventuras de resultado final duvidoso. O Capítulo Geral da Ordem impunha que qualquer fundação reunisse um conjunto mínimo de condições:

Um conjunto de terras doadas que possibilitassem a manutenção e subsistência de um número mínimo de monges;
Condições específicas de habitabilidade que incluíam proximidade de linhas de água, de acesso a vias de escoamento e um isolamento (razoável) em relação a comunidades profanas;
Existência de condições locais que possibilitassem a continuidade, no futuro, do número de irmãos.

Tais eram as condições que os abades inquiridores procuravam levantar no local. Após o relatório apresentado cabia ao Capítulo Geral tomar a decisão final. O outro aspecto relevante desta Ordem monástica que tanto sucesso alcançou na Europa cristã ao longo dos séculos XII e XIII relaciona-se com a autonomia que cada mosteiro tinha. Esta autonomia verifica-se sobretudo numa forte capacidade de organização e auto-gestão económica. Cada comunidade geria os seus próprios bens, procurando aumentá-los constantemente através de fenómenos de aquisição específicos, como compras ou doacções. Esta intencionalidade investidora, no plano económico, era suportada
por um modelo de gestão centralizador. Cada comunidade procurava constantemente expandir o seu património, mas não de forma anárquica». In José Manuel H Varandas, Monacato Feminino e Domínio Rural, O Património do Mosteiro de Santa Maria de Almoster no século XIV, 1995, Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa, Wikipédia.

Cortesia de FLetras/ULisboa/JDACT

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Monacato Feminino e Domínio Rural. O Património do Mosteiro de Santa Maria de Almoster no século XIV. José Manuel H Varandas. «A mancha de terras, arduamente domesticadas ao longo de todo o século XIII, vai sendo paulatinamente consumida pelos matos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) É do senso comum afirmarmos que os séculos finais da Idade Média se caracterizaram por uma profunda e generalizada crise. As sucessivas análises feitas sobre os documentos sugerem, embora não de forma pacífica, que o problema fundamental radica numa grave crise de crescimento, sujeita a constantes reajustamentos demográficos e reordenações do processo produtivo, que arrastam consigo modificações profundas nos vários grupos sociais, muitas vezes desenvolvidas de forma violenta e que desorganizam por completo o tradicional modelo político-económico dos séculos anteriores. O século XIV conhece fortes contracções demográficas que, aliadas à consolidação das estruturas urbanas directamente vocacionadas para um modelo de economia de mercado, condicionam, de forma definitiva, o velho mundo rural. É a aristocracia um dos grupos sociais mais afectados por estes tempos de crise. A constante atracção que os núcleos urbanos exercem sobre os trabalhadores rurais provoca um exaurir de forças no trabalho da terra. Os campos dos nobres vão-se despovoando, abandonando estes a constante luta pelo arroteamento, garantia do aumento da produção. Com toda a indiferença, como só a natureza é capaz, observa-se a vingança do saltus sobre o ager.
A mancha de terras, arduamente domesticadas ao longo de todo o século XIII, vai sendo paulatinamente consumida pelos matos daninhos, afastado que está agora o seu supremo predador: o Homem. Este abandono dos espaços aráveis precipita a queda dos rendimentos, debilitando os senhorios, especialmente os eclesiásticos que, não poucas vezes, procuram o subsídio régio. O que aliás Almoster faz amiúde encontrando quase sempre um apoio do monarca, gerador de desconforto nas duas comunidades vicinais mais próximas: Alenquer e Santarém. O desenvolvimento do senhorialismo e das estruturas municipais precipita, nestes finais do mundo medievo, uma rápida cristalização da organização social do espaço rural. Privilégios e formas de dependência são cada vez mais complexos, condicionando os homens e hierarquizando os espaços. Os homens dos núcleos urbanos, fossem do rei, da nobreza ou do clero, possuem cada vez mais o poder de intervir e condicionar a realidade campesina.
Em Portugal são as décadas de trinta e quarenta que tornam visíveis os sintomas da crise. A grande pestilência que começa em 1348 e se prolonga até aos primeiros meses do ano seguinte, teve o especial condão de acelerar a mortalidade por todo o nosso País. Não é, todavia, o único agente. Deve ser associada a frequentes surtos de peste surgidos regularmente até ao fim do século XIV. As guerras contra Castela e desequilíbrios climáticos e ecológicos, que afectaram de forma traumatizante toda a Europa cristã, são outras variáveis a ter em conta no diagnóstico da crise. O mosteiro de Almoster é um destes senhorios afectados pela crise que durante todo o século XIV se abate sobre Portugal procuram formas e processos de subsistência que lhe permitam lutar contra esta fase de retracção. Visando ser um estudo sobre a propriedade da casa monacal de Almoster, desde o período da sua formação até aos primeiros tempos do reinado de João I, este trabalho não pode, obviamente, ser encarado como uma monografia total sobre a importância daquele mosteiro medieval, nem sequer, como uma aproximação a tal objectivo. Tal facto, contudo, não impede que os resultados obtidos, sirvam como indicadores para um conhecimento, que apesar de relativo, nos pode permitir sondar os aspectos de uma realidade que se prevê mais complexa». In José Manuel H Varandas, Monacato Feminino e Domínio Rural, O Património do Mosteiro de Santa Maria de Almoster no século XIV, 1995, Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa, Wikipédia.

Cortesia de FLetras/ULisboa/JDACT

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Monacato Feminino e Domínio Rural. O Património do Mosteiro de Santa Maria de Almoster no século XIV. José Manuel H Varandas. «É a aristocracia um dos grupos sociais mais afectados por estes tempos de crise. A constante atracção que os núcleos urbanos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) É do senso comum afirmarmos que os séculos finais da Idade Média se caracterizaram por uma profunda e generalizada crise. As sucessivas análises feitas sobre os documentos sugerem, embora não de forma pacífica, que o problema fundamental radica numa grave crise de crescimento, sujeita a constantes reajustamentos demográficos e reordenações do processo produtivo, que arrastam consigo modificações profundas nos vários grupos sociais, muitas vezes desenvolvidas de forma violenta e que desorganizam por completo o tradicional modelo político-económico dos séculos anteriores. O século XIV conhece fortes contracções demográficas que, aliadas à consolidação das estruturas urbanas directamente vocacionadas para um modelo de economia de mercado, condicionam, de forma definitiva, o velho mundo rural. É a aristocracia um dos grupos sociais mais afectados por estes tempos de crise. A constante atracção que os núcleos urbanos exercem sobre os trabalhadores rurais provoca um exaurir de forças no trabalho da terra. Os campos dos nobres vão-se despovoando, abandonando estes a constante luta pelo arroteamento, garantia do aumento da produção. Com toda a indiferença, como só a natureza é capaz, observa-se a vingança do saltus sobre o ager. A mancha de terras, arduamente domesticadas ao longo de todo o século XIII, vai sendo paulatinamente consumida pelos matos daninhos, afastado que está agora o seu supremo predador: o Homem. Este abandono dos espaços aráveis precipita a queda dos rendimentos, debilitando os senhorios, especialmente os eclesiásticos que, não poucas vezes, procuram o subsídio régio. O que aliás Almoster faz amiúde encontrando quase sempre um apoio do monarca, gerador de desconforto nas duas comunidades vicinais mais próximas: Alenquer e Santarém.
O desenvolvimento do senhorialismo e das estruturas municipais precipita, nestes finais do mundo medievo, uma rápida cristalização da organização social do espaço rural. Privilégios e formas de dependência são cada vez mais complexos, condicionando os homens e hierarquizando os espaços. Os homens dos núcleos urbanos, fossem do rei, da nobreza ou do clero, possuem cada vez mais o poder de intervir e condicionar a realidade campesina. Em Portugal são as décadas de trinta e quarenta que tornam visíveis os sintomas da crise. A grande pestilência que começa em 1348 e se prolonga até aos primeiros meses do ano seguinte, teve o especial condão de acelerar a mortalidade por todo o nosso País. Não é, todavia, o único agente. Deve ser associada a frequentes surtos de peste surgidos regularmente até ao fim do século XIV. As guerras contra Castela e desequilíbrios climáticos e ecológicos, que afectaram de forma traumatizante toda a Europa cristã, são outras variáveis a ter em conta no diagnóstico da crise.
O mosteiro de Almoster é um destes senhorios afectados pela crise que durante todo o século XIV se abate sobre Portugal procuram formas e processos de subsistência que lhe permitam lutar contra esta fase de retracção. Visando ser um estudo sobre a propriedade da casa monacal de Almoster, desde o período da sua formação até aos primeiros tempos do reinado de João I, este trabalho não pode, obviamente, ser encarado como uma monografia total sobre a importância daquele mosteiro medieval, nem sequer, como uma aproximação a tal objectivo. Tal facto, contudo, não impede que os resultados obtidos, sirvam como indicadores para um conhecimento, que apesar de relativo, nos pode permitir sondar os aspectos de uma realidade que se prevê mais complexa. Mas, importa sublinhá-lo, as nossas fontes assentam essencialmente no espólio do cartório de Almoster. Esta especificidade que, ainda por cima, incide num processo conjuntural de grande crise a nível geral, correspondente a uma época de grande convulsão e de decadência dos padrões tradicionais do modelo medieval, faz com que a nossa visão corra o risco de se tornar unilateral, face à complexidade da sociedade portuguesa dos finais da Idade Média». In José Manuel H Varandas, Monacato Feminino e Domínio Rural, O Património do Mosteiro de Santa Maria de Almoster no século XIV, 1995, Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa, Wikipédia.

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