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segunda-feira, 14 de abril de 2025

O Cavaleiro de Olivença João Paulo Costa. «…  os domínios da coroa portuguesa há duzentos anos, no tempo d’el-rei Dinis I. pelo tratado de Alcanizes, a fronteira fora definida para sempre e Olivença….»

jdact

O pedido da Rainha

«O grupo português trotava calmamente. O Relâmpago estava esgotado e uma montada levava dois cavaleiros. Quando contornaram nova curva, ao fundo surgiu a vila. Olivença, guarda avançada de Portugal além-Guadiana, ostentava poder e riqueza. A vila integrara definitivamente os domínios da coroa portuguesa há duzentos anos, no tempo d’el-rei Dinis I. pelo tratado de Alcanizes, a fronteira fora definida para sempre e Olivença ficara do lado certo. O rei lavrador povoara-a e defendera-a, mas a cerca velha cedo se mostrou insuficiente para proteger todos os oliventinos, pois a vila cresceu depressa, até que el-rei Fernando I ordenara a construção de novas muralhas.

Os cavaleiros aproximavam-se, e aos seus olhos destacava-se a torre de menagem altaneira, reconstruída no tempo de João II. No alto, flutuava a bandeira branca com a esfera armilar e uma outra com o escudo de Portugal. Já havia novos bairros desprotegidos, pelo que a cerca fernandina carecia de acrescentamento. Quando se acercaram, já distinguiam o fosso que contornava a muralha e ouviram o relógio dando as horas. Fora colocado numa esquina da cerca velha, em torre reforçada para o efeito. Ao longe, nas colinas sobranceiras à vila, erguiam-se duas atalaias que vigiavam Castela; uma espreitava para as bandas de Alconchel e a outra na direcção de Badajoz e de Jerez de los Caballeros.

Agora sinto-me mesmo de volta a Portugal, suspirou Francisco. Ainda bem que Vossa Senhoria andava por perto. Estava preocupado com o teu atraso e nossas atalaias avisaram que tinham avistado um cavaleiro a ser perseguido, vindo nesta direcção, e saí logo com estes homens. Estava certo que irias entrar por aquele vau, e ao deixar os castelhanos entrar em nosso reino, ficámos em vantagem. Além disso, eles estavam pior armados do que nós.

O grupo entrou pela Porta de São Sebastião, junto à torre de menagem, e foi saudado pela soldadesca que aguardava notícias. Francisco, vem comigo, ordenou Vasco. Pouco depois estavam na casa do Melo, que se situava na parte velha da vila, próxima da Porta de Alconchel. O que tens para mim? O correio pousou o bornal, despiu as calças e tirou um envelope que estava num bolso por dentro da perna; com uma faca descoseu sua capa e tirou um macinho com vários papéis em letra miudinha; finalmente, acionou o mecanismo que abria a sola se sua bota e retirou saí uma nova missiva. Parece que foste reconhecido, Francisco.

O meu contacto em Mérida estava nervoso. Fostes a Mérida? Não vieste directo de Cáceres? Não, senhor. O nosso amigo de Cáceres disse-me que havia novidades para mim em Mérida. Então o nosso agente de Cáceres bandeou-se e tu estás mesmo identificado. Qual é a carta que te deram em Mérida? É essa com o brasão. Vasco deu um estalo com a língua, ao ver o símbolo dos Pachecos, e sua perna direita escoiceou. Foi uma armadilha para se certificarem que eras um dos nossos correios.

O que diz a carta? Não te interessa, tolo. Temos que te mudar. Dentro de duas semanas partes comigo para a Flandres. Lá faz frio. E aqui cortam-te o pescoço num instante. E Vossa Senhoria não poderia aceitar que eu deixasse este serviço? Se assim o queres, serei eu próprio a cortar-te o pescoço, rosnou Vasco Melo, com o nariz mexendo-se desenfreadamente». In João Paulo Oliveira Costa, Círculo de Leitores, Temas e Debates, 2012, 978-989-644-184-5.

 Cortesia de CL/TDebates/JDACT

 JDACT, Olivença, Conhecimento, Literatura,

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Igreja da Misericórdia de Olivença. Maria do Rosário Cordeiro Carvalho. «Se a cena central do lado do Evangelho ainda pode ser relacionada com a temática superior, constituindo os camponeses uma alusão aqueles a quem se dirigia o profeta Habacuc…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Doutora Rosário Cordeiro Carvalho

Os painéis do sub-coro e nave

«(…) Os rodapés dos dois painéis da nave obedecem à mesma estrutura. As mísulas dividem-nos em três painéis, os dois das extremidades com a figuração de um pelicano a amamentar as suas crias, numa composição assente sobre um mascarão e flanqueada por dois anjos, encostados à base que é uma grinalda de flores e frutos, sobre volutas e acantos. O do centro do lado do Evangelho exibe uma paisagem, um casario, com torre ameada, duas figuras a trabalhar no campo, e outras junto a um rio. Do lado da Epístola, figura um jardim, com edifícios ao fundo, uma fonte à direita e duas figuras nobres à esquerda, a passear.

Se a cena central do lado do Evangelho ainda pode ser relacionada com a temática superior, constituindo os camponeses uma alusão aqueles a quem se dirigia o profeta Habacuc antes de ser desviado para a cova dos leões, do lado oposto essa ligação torna-se muito mais difícil, apesar da representação em causa ser uma fonte, mas monumental e de aparato. Este género de representações da natureza bucólica referem-se à vida civilizada, à acção do Homem de fé, sendo entendidas como um contraponto à vida selvagem daqueles que não cumprem os preceitos religiosos. Neste caso, surgem enquanto símbolos das próprias obras de misericórdia que podem ser entendidas como instrumentos de acção que, através da ajuda ao próximo, transformam o mundo num lugar melhor. Quanto ao pelicano, ele é entendido como símbolo de Cristo e da misericórdia, pois alimenta os seus filhos com o próprio sangue.

Regressando ao sub-coro, cobrir os nus inspira-se no Génesis, quando Adão e Eva, Cobrir os nus depois do pecado original ficam nus e Deus lhes ofereceu túnicas de peles. A cartela indica esta mesma passagem, ainda que com a referência errada, pois trata-se do versículo 21: FECIT QVO QVE DOMINVS DEVS ADAE ET UXORIAJVS TVNICAS PE LLICEAS ET INDVIT EOS Gen. Cap. 3º O Senhor Deus fez a Adão e à sua mulher túnicas de peles e vestiuos. Numa vasta paisagem, com árvores diversas (até uma muito alta palmeira), arbustos, vales e montanhas ao fundo, e curiosamente, um leão, dois elefantes e dois bois (?),surgem Adão e Eva, cobertos por folhas de figueira, a levantar-se do seu esconderijo atrás de um arbusto. De entre uma nuvem, Deus Pai estende as vestes, que não são de pele de animais, e é Adão quem se estica para as alcançar. Apesar da preocupação com a nudez, é notório um dos seios de Eva. Deus é representado como um homem de barbas, com um raio de luz a envolve-lo, e Adão e Eva são dois estranhos personagens, principalmente Adão, com as costelas demasiado vincadas a sugerir uma magreza absoluta. O pintor parece ter respeitado o texto bíblico, caracterizando o paraíso como a savana, com leões e elefantes. Só as túnicas não parecem ser de peles de animais sacrificados». In Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Igreja da Misericórdia de Olivença, Caso de Estudo, Wikipédia.

Cortesia de wikipedia

JDACT, Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Caso de Estudo, Castelo de Vide, Património, Conhecimento, Olivença, 

domingo, 25 de setembro de 2022

Igreja da Misericórdia de Olivença. Maria do Rosário Cordeiro Carvalho. «Duas crianças e um cão fazem a ligação entre este grupo e o que está junto à água. Atrás, uma figura feminina ajoelhada e uma série de homens e mulheres»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Doutora Rosário Cordeiro Carvalho

 Os painéis do sub-coro e nave

«(…) Em seu redor, e nas mais variadas posições, encontram-se oito leões, o que respeita o número par habitual, mas é mais do que o normal. Ossos, esqueletos e caveiras pretendem acentuar a voracidade dos animais. Do céu, surge um anjo que transporta o profeta pelos cabelos, enquanto este faz tensão de dar a Daniel uma cabaça fechada e segura no outro braço um cesto. Atrás deste primeiro plano, há mais paisagens, que enquadram o púlpito, observando-se pessoas em movimento. Parecem ser os trabalhadores que ceifavam no campo. Do outro lado do púlpito, o painel continua com uma paisagem e árvores que dominam toda a área. É possível que o púlpito já existisse neste mesmo local pois, apesar de interromper a composição, a cena de Daniel está concentrada numa parte do pano murário, o que se justifica pela presença deste elemento arquitectónico.

Para além da obra de misericórdia que representa, este episódio de Daniel pode ser entendido como um testemunho de protecção divina, como uma prefiguração de Cristo que sai do sepulcro ou da Imaculada Conceição de Maria, pois Habacucu entrou sem quebrar os selos. Do lado oposto, Moisés faz brotar água da rocha, numa imagem que é entendida como dar de beber aos que têm sede. A cartela alude ao exacto momento em que Moisés realizou o milagre: EGRESSAE SUNTI AQUAE LARGI SSIMAE ITA VT POPULUS BIBE RET ET IUMENTA Numer. Cap. X, Moisés levantou a mão e bateu com a sua vara duas vezes no rochedo. Jorrou, então, tanta água que a assembleia e seus rebanhos puderam beber.

Uma vez mais, as referências bíblicas foram mal copiadas, pelo que o capítulo é o 20º e não o 10º.

Ao duvidar de Deus, por não ter o que beber, o povo revoltou-se contra Moisés, que se reuniu com Aarão para tentar resolver a questão. Foi quando surgiu o Senhor que os mandou reunir a assembleia e deu a vara a Moisés com a qual ele fez brotar a água. Num nível superior ao plano onde se encontram dois grupos de ovelhas, a composição é dominada pelo rochedo que toma a forma de um arco. Sob este, dois homens encostados a uma pedra observam outros dois a recolher a água numa bilha. É do lado esquerdo que se concentram as figuras, com Moisés em primeiro plano, com a varinha que faz brotar água do rochedo. Duas crianças e um cão fazem a ligação entre este grupo e o que está junto à água. Atrás, uma figura feminina ajoelhada e uma série de homens e mulheres». In Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Igreja da Misericórdia de Olivença, Caso de Estudo, Wikipédia.

Cortesia de wikipedia

JDACT, Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Caso de Estudo, Castelo de Vide, Património, Conhecimento, Olivença, 

sábado, 24 de setembro de 2022

Igreja da Misericórdia de Olivença. Maria do Rosário Cordeiro Carvalho. «Se esta zona foi pintada com pinceladas mais ténues, para dar a ilusão de perspectiva, a cena em primeiro plano ganha maior destaque pelo enquadramento do pórtico, que enquadra a figura de Jesus»

Cortesia de wikipedia e jdact

 Com a devida vénia à Doutora Rosário Cordeiro Carvalho

 Os painéis do sub-coro e nave

«(…) À esquerda encontra-se um grupo de figuras, onde se inclui o paralítico, sentado, que olha para Jesus, cuja mão se eleva num gesto de benção, encontrando-se um homem atrás a observar a cena e um outro à frente, em contraponto. O homem parece estar deitado na sua cama, ou seja, a enxerga de que fala São João. Atrás ergue-se uma espécie de pórtico, formado por duas pilastras a que se adoçam duas esculturas, suportando as primeiras o entablamento, onde assentam as urnas laterais e os querubins que se apoiam no brasão central, sem representação de armas e com uma curiosa cabeça de pato a rematá-lo. É um dos cinco pórticos referidos no Evangelho, onde o paralítico jaze há já trinta e oito anos. Na paisagem fundeira, distingue-se uma piscina, e três figuras junto dela, tal como um anjo. Se esta zona foi pintada com pinceladas mais ténues, para dar a ilusão de perspectiva, a cena em primeiro plano ganha maior destaque pelo enquadramento do pórtico, que enquadra a figura de Jesus.

Na nave, o painel de grandes dimensões ilustra Daniel na cova dos leões, e é uma alusão a dar de comer aos famintos. A cartela assim o corrobora, ainda que o algarismo final do versículo não esteja pintado: FER PRANDIUM QUOD HA BES, INBABILONEM DANIELI QI EST IN LACU LEONU Daniel Cap. 14 v: Porém, um anjo do Senhor disse-lhe: Levas esta refeição à Babilónia, a Daniel que se encontra na cova dos leões. Tal como no painel anterior, o pintor parece obedecer rigorosamente ao relato bíblico. Ao recusar-se a venerar outro Deus que não o Senhor (Bel que Daniel destruiu, e um dragão que Daniel matou sem armas), Daniel acabou por ir parar à cova dos leões, para ser devorado por estes. Mas Deus enviou-lhe o profeta Habacuc, da Judeia, com a refeição destinada aos ceifeiros que trabalhavam no campo. Transportado por um anjo, alimentou Daniel que escapou incólume aos sete leões, ganhando assim o respeito do Rei, que uma semana depois esperava encontra-lo morto. Num cenário natural, mas com grutas construídas e cavernas, em arcos de volta perfeita, Daniel, enleado nas suas vestes e numa posição estranha, com a perna muito cruzada sobre a outra, estende as mãos para cima, para aceitar a comida do profeta». In Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Igreja da Misericórdia de Olivença, Caso de Estudo, Wikipédia.

Cortesia de wikipedia

JDACT, Maria do Rosário Cordeiro Carvalho, Caso de Estudo, Castelo de Vide, Património, Conhecimento, Olivença,

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Património. Igreja portuguesa de Olivença eleita “melhor recanto de Espanha 2012”. «Uma disputa que desta vez se fez nas redes sociais. Pela Internet, vários foram os movimentos portugueses de apoio e incentivo ao voto na Madalena. Nomeadamente o Café Portugal, portal dedicado à cultura e tradições portuguesas…»



Cortesia de wikipedia

«O passatempo “O Melhor Recanto de Espanha 2012”, promovido pela petrolífera Repsol, e que contou na sua fase final com votações online, elegeu na noite de quarta-feira este monumento do século XVI de estilo manuelino para o top de sítios a visitar. A igreja portuguesa que fica na Extremadura espanhola conseguiu, assim, destronar a Lagoa da Cigana (em Castela-La Mancha), que ficou em segundo lugar, e o Forau de Aiguallut (Aragão), o terceiro mais votado.
Mas a votação reacendeu, sobretudo, uma guerra antiga, com a comunidade portuguesa a mobilizar-se para eleger a igreja portuguesa. Tudo isto porque Olivença é palco de uma disputa, velha de mais de dois séculos, sobre ser portuguesa ou espanhola. Espanha anexou o território em 1801 mas ainda hoje Portugal não reconhece tal anexação desta cidade fronteiriça localizada na Extremadura espanhola, repleta de história e traços da cultura lusa, incluindo monumentos como a Igreja de Santa Maria Madalena (conhecida como Igreja da Madalena).
Uma disputa que desta vez se fez nas redes sociais. Pela Internet, vários foram os movimentos portugueses de apoio e incentivo ao voto na Madalena. Nomeadamente o Café Portugal, portal dedicado à cultura e tradições portuguesas e que mereceu até o apoio de Marcelo Rebelo de Sousa à iniciativa no seu espaço televisivo na TVI. E particularmente, tendo em conta a sua dimensão (quase 550 mil aderentes), o Descobrir Portugal, comunidade do Facebook que se redobrou em incentivos ao voto, justificando que "votar na catedral construída pelos portugueses é dar visibilidade a Olivença". Do lado espanhol, a igreja também recolheu fortes apoios, com direito a divulgação pelo turismo e autarquia locais. Já nesta quinta-feira, num comunicado de reacção à eleição, o Grupo dos Amigos de Olivença alerta que “esta escolha, das quais se desconhecem os critérios, não será certamente inocente e deverá levar todos os portugueses a questionar quais os reais motivos dos organizadores do evento colocando um monumento tipicamente português como representativo de Espanha”. Para este grupo, a escolha representa mesmo uma “indecorosa tentativa de legitimação da ocupação do território de Olivença junto da opinião pública portuguesa”.

“Nem mesmo escamoteando a verdade se pode entender como pode uma catedral portuguesa, na nossa Olivença, ser representativa da Espanha. A igreja da Madalena nada tem de espanhol e ali nada há de estremenho”, lê-se na mesma nota, onde o grupo insiste que “Olivença é um território juridicamente português ocupado ilegalmente por Espanha”. A escolha da igreja da Madalena é certamente vista por muitos portugueses, no mínimo como muito infeliz, no máximo como uma provocação a Portugal patrocinada pela Repsol, conclui o comunicado.


Uma "jóia" do património
Segundo o resumo patrimonial do Turismo de Olivença, a Igreja de Santa Maria Madalena é considerada uma "jóia" oliventina e do património manuelino português. Data da primeira metade do séc. XVI e foi mandada construir para servir como templo do local de residência dos bispos de Ceuta. O bispado de Ceuta iniciou aqui residência em 1512, tendo sido estreada por Frei Henrique de Coimbra, confessor do rei Manuel I e o primeiro a celebrar uma missa no Brasil. Falecido em 1532 e foi sepultado no templo (existe um túmulo de mármore no local).
No exterior, destacam-se falsas ameias, pináculos, gárgulas e a porta principal, com uma portada atribuída a Nicolau de Chanterene, artista que em Portugal, além de outras obras, criou a porta do Mosteiro dos Jerónimos ou um retábulo de mármore do Palácio da Pena. O interior divide-se por três naves com oito colunas que parecem evocar as amarras de um navio. Em grande destaque, os trabalhos em talha dourada do séc. XVIII, retábulos neoclássicos em mármore colorido e azulejaria». In Público e Expresso.

Cortesia de Público e Expresso/JDACT

domingo, 26 de agosto de 2012

Igreja Portuguesa pode ser Maravilha de Espanha. Igreja de Sta Maria Madalena localiza-se em Olivença. «Foi mandada construir por Manuel I no século XVI, tendo dado o nome à paróquia e à freguesia. A sua construção foi impulsionada por frei Henrique de Coimbra, bispo de Ceuta, celebrante da primeira missa no Brasil»


'Há uma igreja portuguesa que pode vir a ser uma das maravilhas de Espanha. A igreja de Sta. Maria Madalena foi mandada construir pelo rei Manuel I e é portuguesa de gema na edificação. Só que está localizada, actualmente, na cidade espanhola (?) de Olivença. E o monumento manuelino é assim concorrente às maravilhas... de Espanha; competição que lidera e cujo vencedor é conhecido no pf dia 26 de Setembro'. In TVI24.

Interior manuelino da igreja de Sta.Maria Madalena
Cortesia de wikipedia

«A igreja de Santa Maria Madalena é um templo situado em Olivença. Foi mandada construir por Manuel I no século XVI, tendo dado o nome à paróquia e à freguesia. A sua construção foi impulsionada por frei Henrique de Coimbra, bispo de Ceuta, celebrante da primeira missa no Brasil, que se encontra sepultado no seu interior. Foi em parte inspirada no convento de Jesus e na Sé de Elvas. Tornou-se sede do bispado de Ceuta, após a inclusão de Olivença no território deste bispado.



É um exemplo da beleza e esplendor do estilo manuelino. A porta principal foi acrescentada posteriormente, durante o período do renascimento. O interior apresenta umas surpreendentes colunas retorcidas, como cordame de um barco, bem como seis retábulos barrocos com azulejos. Na parte exterior, é também possível observar as chamadas falsas ameias, gárgulas e pináculos, entre outros elementos arquitectónicos.
No início do século XVIII, possuía um hospital e um convento franciscano, albergando 25 religiosos. A qualidade das suas águas, captadas no chamado poço de São Francisco, era na altura elogiada, chegando os peregrinos a afirmar que era a melhor do Reino dePortugal». In Wikipédia.


Cortesia de tvi24/Wikipédia/JDACT

sexta-feira, 25 de junho de 2010

O Tratado de Badajoz (de 1801): Paz de Badajoz. A «Questão de Olivença»

Cortesia de dip-badajoz
O Tratado de Badajoz, também conhecido como Paz de Badajoz, foi celebrado na cidade espanhola de Badajoz, em 6 de Junho de 1801, entre Portugal, por uma parte, e a Espanha e a França coligadas, pela outra.
O Tratado colocava fim à chamada Guerra das Laranjas, (a chamada Guerra das Laranjas foi um curto episódio militar ocorrido entre Portugal e a Espanha em 1801, preludiando a Guerra Peninsular, com extensos desdobramentos, quer na Península Ibérica, quer no ultramar português. Episódio traumático na História de Portugal, reveste-se de particular importância por ter iniciado a chamada Questão de Olivença, em aberto na política de Relações Internacionais de ambos os países até aos nossos dias. A parte do conflito travada no Brasil é conhecida como Guerra de 1801 e trouxe uma expansão importante para o Brasil, principalmente para o Rio Grande do Sul, que aumentou seu território em um terço)  embora tenha sido assinado por Portugal sob coacção, já que o país encontrava-se ameaçado pela invasão de tropas francesas estacionadas na fronteira, em Ciudad Rodrigo.
Cortesia de dip-badajoz
Por meio desse tratado, cujos termos eram bastante severos para Portugal, estabelecia-se:
  • Portugal fecharia os portos de todos os seus domínios às embarcações da Grã-Bretanha (art. II);
  • Espanha restituía a Portugal as fortificações e territórios conquistados de Juromenha, Arronches, Portalegre, Castelo de Vide, Barbacena, Campo Maior e Ouguela, com artilharia, espingardas e munições de guerra (art. III);
  • A Espanha conservava, na qualidade de conquista, a praça-forte, território e população de Olivença, mantendo o rio Guadiana como linde daquele território com Portugal;
Eram indemnizados, de imediato, todos os danos e prejuízos causados durante o conflito pelas embarcações da Grã-Bretanha ou pelos súbditos de Portugal, assim como dadas as justas satisfações pelas presas feitas ilegalmente pela Espanha antes do conflito, com infracções do território ou debaixo do tiro de canhão das fortalezas dos domínios portugueses (art. V).
Cortesia de dip-badajoz
Os termos do Tratado foram ratificados pelo Príncipe-Regente de Portugal, D. João, no dia 14, e por Carlos IV de Espanha, a 21 do mesmo mês, mas foram rejeitados pelo primeiro cônsul da França, Napoleão Bonaparte. A manutenção das suas tropas em território espanhol, forçou Portugal a aceitar alterações à redacção do Tratado. Desse modo, a 29 de Setembro desse mesmo ano, era assinado um novo diploma, o chamado Tratado de Madrid (1801) que, se por um lado formulou imposições mais severas a Portugal, por outro, evitou uma nova violação do seu território. Por ele, eram mantidos os termos de Badajoz, mas Portugal, adicionalmente, obrigava-se a pagar à França um montante de 20 milhões de francos.
Cortesia de dip-badajoz
Com relação aos domínios coloniais na América do Sul, por este novo diploma Portugal cedia ainda metade do território do Amapá à França, comprometendo-se a aceitar como fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa, o rio Arawani Araguari até à foz. Estas condições adicionais foram estabelecidas e ditadas por Napoleão.
Após a batalha de Trafalgar (1805), na qual a Royal Navy derrotou as Marinhas da França e da Espanha, Napoleão fracassou na tentativa de invadir a Grã-Bretanha e decretou o Bloqueio Continental (1806). Diante da recusa Portuguesa em acatar os seus termos, foi assinado o Tratado de Fontainebleau (27 de Outubro de 1807), ocorrendo a subsequente invasão franco-espanhola de Portugal, o que deflagrou a chamada Guerra Peninsular. O Princípe-Regente, retirando-se para o Brasil (1807), declarou nulo o tratado de Badajoz em 1 de Maio de 1808, deixando por conseguinte de reconhecer a ocupação espanhola de Olivença que, no entanto, se mantém até aos dias de hoje.
Tratado de Paz, e de Amizade entre as Coroas de Portugal, e de Espanha, assinado em Badajoz pelos Plenipotenciários do Príncipe Regente e de Sua Majestade Católica, em 6 de Junho de 1801, e ratificado por ambos os soberanos DOM JOÃO POR GRAÇA DE DEUS PRÍNCIPE REGENTE de Portugal, e dos Algarves, d'aquém, e d'além Mar, em África de Guiné, e da Conquista, Navegação, e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia, e da Índia, etc. Faço saber a todos os que a presente Carta de Confirmação, Aprovação, e Ratificação virem, que em seis de Junho do presente ano se concluío, e assinou em Badajoz um Tratado de Paz, e de Amizade entre Mim, e o Mui Alto, e Poderoso Príncipe Dom Carlos IV. Rei Católico de Espanha, Meu Bom Irmão, Tio, e Sogro, sendo Plenipotenciários para este efeito, da Minha parte Luís Pinto de Sousa Coutinho, do Meu Conselho de Estado, Grã-Cruz da Ordem de Avis, Cavaleiro da Insigne Ordem do Tosão de Ouro, Comendador, Alcaide-Mor da Vila do Cano, Senhor de Ferreiros, e Tendais, Ministro, e Secretário de Estado dos Negócios do Reino, e Tenente-General dos Meus Exércitos; e por parte de El-Rei Católico Dom Manuel de Godoi Alvares de Faria Rios Sanches e Zarzosa, Príncipe da Paz, Duque de Alcudia, Senhor de Souto de Roma, e do estado de Albalá, e Conde de Évora Monte, Grande de Espanha da Primeira Classe, Regedor Perpétuo da Vila de Madrid, e das Cidades de Santiago, Cádis, Málaga, e Ecija, e vinte e quatro da de Sevilha, Cavaleiro da Insigne Ordem do Tosão de Ouro, Grã-Cruz da Real, e Distinguida Espanhola de Carlos III, Comendador de Valença de Ventoso, Ribeira, e Acenchal na de Santiago, Cavaleiro, e Grã-Cruz da Real Ordem de Cristo, e da Religião de São João, Conselheiro de Estado, Gentil-Homem da Câmara, com exercício, de Generalíssimo, e Capitão-General dos seus Exércitos, e Coronel-General das Tropas Suíças, do qual Tratado o teor é o seguinte.
Alcançado o fim que Sua Majestade Católica se propôs, e considerava necessário para o Bem Geral da Europa, quando declarou a Guerra a Portugal, e combinadas mutuamente as Potências Beligerantes com Sua dita Majestade, Determinaram estabelecer, e renovar os Vínculos de Amizade, e de Boa Correspondência por meio de um Tratado de Paz; e havendo-se concordado entre si os Plenipotenciários das Três Potências Beligerantes, convieram em formar dois Tratados, sem que na parte essencial seja mais do que um, pois que a Garantia é recíproca, e não haverá validade em alguns dos dois, quando venha a verificar-se a infracção em qualquer dos Artigos, que neles se expressam. Para efeito pois de conseguir tão importante objecto, Sua Alteza Real o Príncipe Regente de Portugal, e dos Algarves, e Sua Majestade Católica El-Rei de Espanha, deram, e concederam os seus Plenos poderes para entrar em Negociação; convêm a saber: Sua Alteza Real o Príncipe Regente de Portugal, e dos Algarves ao Excelentíssimo Senhor Luís Pinto de Sousa Coutinho, do seu Conselho de Estado, Grã-Cruz da Ordem de Avis, Cavaleiro da Insigne Ordem do Tosão de Ouro, Comendador, Alcaide-Mor da Vila do Cano, Senhor de Ferreiros, e Tendais, Ministro, e Secretário de Estado dos Negócios do Reino, e Tenente-General dos Seus Exércitos: E Sua Majestade Católica El-Rei de Espanha ao Excelentíssimo Senhor Dom Manuel de Godoi Alvares de Faria Rios Sanches e Zarzosa, Príncipe da Paz, Duque de Alcudia, Senhor de Souto de Roma, e do estado de Albalá, e Conde de Évora Monte, Grande de Espanha da Primeira Classe, Regedor Perpétuo da Vila de Madrid, e das Cidades de Santiago, Cádis, Málaga, e Ecija, e vinte e quatro da de Sevilha, Cavaleiro da Insigne Ordem do Tosão de Ouro, Grã-Cruz da Real, e Distinguida Espanhola de Carlos III, Comendador de Valença de Ventoso, Ribeira, e Acenchal na de Santiago, Cavaleiro, e Grã-Cruz da Real Ordem de Cristo, e da Religião de São João, Conselheiro de Estado, Gentil-Homem da Câmara, com exercício, de Generalíssimo, e Capitão-General dos seus Exércitos, e Coronel-General das Tropas Suíças, etc.
Cortesia de dip-badajoz
Os quais depois de haver-se comunicado os seus Plenos poderes, e de havê-los julgado expedidos em boa, e devida forma, concluíram, e firmaram os Artigos seguintes, regulados pelas Ordens, e Instruções dos seus Soberanos.
  • Artigo I, haverá Paz, Amizade, e Boa Correspondência entre Sua Alteza Real o Príncipe Regente de Portugal, e dos Algarves, e Sua Majestade Católica El-Rei de Espanha, assim por mar, como por terra em toda a extensão dos Seus Reinos, e Domínios; e todas as presas, que se fizerem no mar, depois da Ratificação do presente Tratado, serão restituídas de boa fé, com todas as mercadorias, e efeitos, ou o seu valor respectivo;
  • Artigo II, Sua Alteza Real fechará os Portos de todos os Seus Domínios aos Navios em geral da Grã-Bretanha;
  • Artigo III, Sua Majestade Católica restituirá a Sua Alteza Real as Praças, e Povoações de Jeromenha, Arronches, Portalegre, Castelo de Vide, Barbacena, Campo Maior, e Ouguela, com todos os seus Territórios até agora conquistados pelas suas Armas, ou que se possam vir a conquistar; e toda a Artilharia, Espingardas, e quaisquer outras munições de Guerra, que se achassem nas sobreditas Praças, Cidades, Vilas e Lugares, serão igualmente restituídas, segundo o estado em que estavam no tempo em que foram rendidas; e Sua dita Majestade conservará em qualidade de Conquista para unir perpetuamente aos seus Domínios, e Vassalos, a Praça de Olivença, seu Território, e Povos desde o Guadiana; de sorte que este Rio seja o limite dos respectivos Reinos, naquela parte que unicamente toca ao sobredito Território de Olivença;
  • Artigo IV, Sua Alteza Real o Príncipe Regente de Portugal, e dos Algarves não consentirá que haja nas Fronteiras dos seus Reinos depósitos de efeitos proíbidos, e de Contrabando, que possam prejudicar ao Comércio, e interesses da Coroa de Espanha, mais do que aqueles, que pertencem exclusivamente ás Rendas Reais da Coroa Portuguesa, e que forem necessários para o consumo do Território respectivo, onde se acharem depositados; e se neste, ou outro Artigo, houver infracção, se dará por nulo o Tratado, que agora se estabelece entre as Três Potências, compreendida a mútua Garantia, segundo se expressa nos Artigos do presente;
  • Artigo V, Sua Alteza Real satisfará sem dilação, e reintegrará aos Vassalos de Sua Majestade Católica todos os danos, e prejuízos, que justamente reclamarem, e que tenham sido causados pelas Embarcações da Grã-Bretanha, ou dos Súbditos da Coroa de Portugal, durante a Guerra com aquela, ou esta, Potência: e do mesmo modo se darão as justas satisfações por parte de Sua Majestade Católica a Sua Alteza Real, sobre todas as prezas feitas ilegalmente pelos Espanhóis antes da Guerra actual, com infracção do Território, ou debaixo do tiro de Canhão das Fortalezas dos Domínios Portugueses;
  • Artigo VI, sem que passe o termo de três meses, depois da Ratificação do presente Tratado, reintegrará Sua Alteza Real ao Erário de Sua Majestade Católica os gastos que as suas Tropas deixaram de satisfazer ao tempo de se retirarem da Guerra da França, e que foram causados nela, segundo as Contas apresentadas pelo Embaixador de Sua dita Majestade, ou que se apresentarem agora de novo; salvos porém todos os erros que se possam encontrar nas sobreditas Contas;
  • Artigo VII, logo que se firmar o presente Tratado, cessarão reciprocamente as hostilidades no preciso espaço de vinte horas, sem que depois deste termo se possam exigir Contribuições dos Povos conquistados, nem alguns outros encargos, mais do que aqueles, que se costumam conceder ás Tropas amigas em tempo de paz: E tanto que o mesmo Tratado for ratificado, as Tropas Espanholas evacuarão o Território Português, no preciso espaço de seis dias, principiando a pôr-se em marcha vinte e quatro horas depois da notificação, que lhes for feita; sem que cometam no seu trânsito violência, ou opressão alguma aos Povos, pagando tudo aquilo que necessitarem, pelos preços correntes do País;
  • Artigo VIII, todos os prisioneiros, que se houverem feito, assim no mar, como na terra, serão logo postos em liberdade, e mutuamente restituídos dentro do espaço de quinze dias depois da Ratificação do presente Tratado, pagando contudo as dívidas, que houverem contraído, durante o tempo da sua detenção. Os doentes, e feridos continuarão a ser tratados nos Hospitais respectivos, e serão igualmente restituídos logo que se acharesm em estado de poderem fazer a sua marcha;
  • Artigo IX, Sua Majestade Católica se obriga a Garantir a Sua Alteza Real o Príncipe Regente de Portugal a inteira conservação dos Seus Estados, e Domínios sem a menor excepção, ou reserva;
  • Artigo X, as duas Altas Potências Contratantes se obrigam a renovar desde logo os Tratados de Aliança defensiva, que existiam entre as duas Monarquias, com aquelas cláusulas, e modificações, porém que exigem os Vínculos que actualmente unem a Monarquia Espanhola à República Francesa; e no mesmo Tratado se regularão os socorros que mutuamente deverão prestar-se, logo que a urgência das circunstâncias assim o requeira;
  • Artigo XI, o Presente Tratado será ratificado no preciso termo de dez dias, depois de firmado, ou antes se for possível. Em fé do que Nós outros os infra escritos Ministros Plenipotenciários firmamos com o nosso punho em Nome dos Nossos Augustos Amos, e em virtude dos Plenos poderes, com que para isso nos autorizaram, o presente Tratado, e o fizemos selar com o Selo das nossas Armas.
  • Feito na Cidade de Badajoz em seis de Junho de mil oitocentos e um. Luís Pinto de Sousa. El Principe de la Paz.
E sendo-me presente o mesmo Tratado, cujo teor fica acima inserido, e bem visto, considerado, e examinado por Mim tudo o que nele se contém; o aprovo, ratifico, e confirmo, assim no todo, como em cada uma das suas cláusulas, e estipulações; e pela presente o Dou por firme, e válido para sempre: prometendo em fé, e palavra Real observá-lo, e cumpri-lo inviolavelmente, e fazê-lo cumprir, e observar, sem permitir que se pratique coisa alguma em contrário, por qualquer modo que possa ser. E em testemunho, e firmeza do sobredito, Fiz passar a presente Carta por Mim assinada, selada com o Selo grande das Minhas Armas, e referendada pelo Meu Conselheiro, Ministro, e Secretário de Estado abaixo assinado.
Cortesia de dip-badajoz
Dado no Palácio de Queluz aos catorze de Junho do ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e um.
O PRÍNCIPE, Visconde de Anadia, Lisboa, na Régia Oficina Tipográfica, ano de M.DCCCI (1801).

Cortesia de .dip-badajoz/JDACT

terça-feira, 15 de junho de 2010

Ventura Abrantes: A sua paixão pela famigerada «Questão de Olivença» leva-o à fundação do Grupo dos Amigos de Olivença (15 de Agosto de 1938)

(1883-1956)
Olivença
Cortesia de alemguadiana
Ventura Ledesma Abrantes foi um líder nacionalista português, fundador do irredentista Grupo dos Amigos de Olivença.
Neto de uma portuguesa de Ponte de Sor e de um espanhol de Badajoz, fixados em Olivença, Ventura Abrantes nasceu no seio de uma família oliventina pró-portuguesa. A família acabou por decidir fixar-se em Portugal, segundo os seus biógrafos por ser mal vista pelas autoridades espanholas. Em Portugal, Ventura Abrantes estabeleceu-se como livreiro, representando o país nas exposições livreiras de Sevilha, Barcelona e Florença.

Cortesia do Grupo de Amigos de Olivença
Em 1938 fundou uma organização que daria origem, em 1945, ao Grupo dos Amigos de Olivença. Um de seus feitos mais notáveis na Questão de Olivença foi ter convencido o ministro da Justiça português, Manuel Gonçalves Cavaleiro de Ferreira, a conceder automaticamente a nacionalidade portuguesa a todos os oliventinos que o solicitassem. O seu livro «O Património da Sereníssima Casa de Bragança em Olivença», publicado em Lisboa por Álvaro Pinto em 1954, continua a ser um dos livros mais importantes sobre a história da Olivença portuguesa.

Cortesia do Grupo de Amigos de Olivença
Ventura Ledesma Abrantes foi uma daquelas raras figuras de patriota que a uma causa dedicou toda a sua alma, quiçá, a sua própria vida: a recuperação para Portugal da sua Olivença natal. Seu pai, barbeiro na Vila de Olivença, era filho de uma portuguesa, natural de Torre das Vargens (concelho de Ponte de Sor), que emigrara para Espanha, casando em Barcarrota (Província de Badajoz) e fixando-se mais tarde em Olivença, mas sem nunca abandonar a nostalgia da sua doce terra alentejana. Deste modo, é a avó paterna que instiga o idealismo irredentista no espírito da família Abrantes. Desde muito jovem que Ventura Abrantes se habitua a frequentar as terras alentejanas da raia. Contacta com as suas gentes, nutre amizades.

Cortesia do Grupo de Amigos de Olivença
Pela sua posição pró-portuguesa os Abrantes são malquistos pelas autoridades oliventinas. Não se fazem esperar represálias e a família toma a decisão de se deslocar definitivamente para Lisboa.
A ele, entre outros, se deve a abertura em 1931 da primeira Feira do Livro de Lisboa, para o que, certamente, não seria alheio o facto de ele próprio ser o Presidente da Associação da Classe de Livreiros de Portugal (embrião da actual A. P. E. L.). Ainda na década de 30 é nomeado representante de Portugal nas Exposições Livreiras de Sevilha, Barcelona e Florença.
Abre na Rua do Alecrim, 80-82 a Livraria Oliventina e a Casa Editora Ventura Abrantes, estimulando uma das tertúlias mais animadas do cosmopolita Chiado onde pontificavam Teófilo Braga, António Sardinha e Egas Moniz. Edita obras de grande fôlego como o «In Memoriam» de Camilo Castelo Branco, «A Vida e Obra de Júlio Dinis» e a «Vida Sexual» ambos do seu amigo Prof. Doutor Egas Moniz ou o emblemático «Como Perdemos Olivença» do Prof. Doutor Queiroz Veloso entre outras.
Visto como uma personalidade algo singular, culto e activo, Ventura Abrantes viria ainda a ser admitido na selectiva Sociedade de Geografia de Lisboa, publicando na sua conceituada revista alguns trabalhos científicos sobre Olivença.

Cortesia do Grupo de Amigos de Olivença
Sob a sua égide é fundada nesta Sociedade a Sub-secção de Estudos Históricos de Olivença. Além de publicista de mérito, colaborou assiduamente em jornais e revistas de Lisboa e Porto muitas vezes sob o pseudónimo de João Coelho. Mas, seria, indubitavelmente, a sua paixão pela famigerada «Questão de Olivença» que o levaria à fundação do Grupo dos Amigos de Olivença (15 de Agosto de 1938) juntamente com o então Tenente Humberto Delgado, Amadeu Rodrigues Pires e Francisco de Sousa Lamy.

Cortesia do Grupo de Amigos de Olivença
A personagem de Ventura Ledesma Abrantes ainda hoje sobrevive no espírito e no ideal do Grupo dos Amigos de Olivença. Figura pitoresca dos meios intelectuais da capital, onde se movia com grande desenvoltura e aceitação, consagrou parte da sua fortuna e da sua actividade de livreiro e editor à divulgação e estudo de Olivença num País que se havia desinteressado ou simplesmente resignado à posse daqueles 750 Km² de território legitimamente seu.
Para o efeito leccionou, escreveu e fez publicar uma quantidade invulgar de material bibliográfico abordando as mais variadas temáticas oliventinas. Hoje, esses documentos, alguns deles bastante valiosos para o estudo etnográfico e histórico do burgo oliventino, encontram-se raramente nalguma estante de alfarrabista.
O seu portuguesismo era de tal forma arreigado que, intercedendo junto do Ministro da Justiça de então, Dr. Cavaleiro Ferreira, consegue que seja concedida pelo Estado Português a cidadania portuguesa a todos os Oliventinos que o solicitem, sendo-lhes para isso averbado no respectivo Bilhete de Identidade a menção de "Português de Olivença".
Ventura Ledesma Abrantes morreu aos 73 anos de idade.

«A origem de Olivença está ligada à reconquista cristã da região fronteira a Elvas pelos Templários idos do Reino de Portugal, cerca do ano de 1230. Nesse território a Ordem criou a comenda de Oliventia, erigindo um templo a Santa Maria e levantando um castelo. No final do século, pelo Tratado de Alcanices, assinado em 1297 entre o Rei D. Dinis e Fernando IV de Castela, Olivença seria formalmente incorporada em Portugal, pera sempre, juntamente com Campo Maior, Ouguela e os territórios de Riba-Côa, em escambo com Aroche e Aracena. De imediato, D. Dinis elevou a antiga povoação à categoria de vila, outorgando-lhe foral em 1298, determinou a reconstrução da fortificação templária e impulsionou o seu povoamento. Os seus sucessores reforçaram sucessivamente a posição estratégica de Olivença, concedendo privilégios e regalias aos moradores e realizando importantes obras defensivas. Em 1488 D. João II levantou a impressionante torre de menagem de 40 m de altura. Em 1509 D. Manuel iniciou a construção de uma soberba ponte fortificada sobre o Guadiana, a Ponte da Ajuda, com 19 arcos e tabuleiro de 450 metros de extensão. Do reinado de D. Manuel, que deu foral novo em 1510, datam também outras notáveis construções como a Igreja da Madalena (por muitos considerada como o expoente, depois do Mosteiro dos Jerónimos, do manuelino), a Santa Casa da Misericórdia ou o portal das Casas Consistoriais. Seguindo-se ao esplendor do século XVI português, dá-se a união dinástica filipina, entre 1580 e 1640. A pertença de Olivença a Portugal não é questionada. No dia 4 de Dezembro de 1640, chegada a notícia da Restauração em Lisboa, a praça aclama com júbilo D. João IV e é envolvida totalmente na guerra que se segue (1640/1668), período em que se inicia o levantamento das suas fortificações abaluartadas, cuja construção se dilataria durante a centúria seguinte. No decurso do conflito, Olivença foi ocupada em 1657 pelo Duque de San Germán e, na circunstância, a totalidade da população abandonou a vila e refugiou-se junto de Elvas, só regressando a suas casas quando foi assinada a paz (1668) e as tropas castelhanas abandonaram a praça e o concelho.
O século XVIII inicia-se com um novo conflito bélico - a Guerra de Sucessão de Espanha -, em cujo transcurso foi destruída a Ponte da Ajuda (1709). A posição de Olivença tornou-se assim especialmente vulnerável. Em 20 de Janeiro de 1801, Espanha, cínica e manhosamente concertada com a França Napoleónica, sem qualquer pretexto ou motivo válido, declara guerra a Portugal e, em 20 de Maio, invade o nosso território, ocupando grande parte do Alto-Alentejo, na torpe e aleivosa «Guerra das Laranjas». Comandadas pelo «Generalíssimo» Manuel Godoy, favorito da rainha, as tropas espanholas cercam e tomam Olivença. Portugal, vencido às exigências de Napoleão e de Carlos IV, entregou a Espanha, «em qualidade de conquista», a «Praça de Olivença, seu território e povos desde o Guadiana», assinando em 6 de Junho o «Tratado de Badajoz», iníqua conclusão de um latrocínio. «Cedeu-se» Olivença, terra entranhadamente portuguesa que participara na formação e consolidação do Reino, no florescimento da cultura nacional, nas glórias e misérias dos Descobrimentos, na tragédia de Alcácer-Quibir, na Restauração!... Findas as Guerras Napoleónicas, reuniu-se, com a participação de Portugal e Espanha, o Congresso de Viena, concluído em 9 de Junho de 1815 com a assinatura da Acta Final pelos plenipotenciários, entre eles Metternich, Talleyrand e D. Pedro de Sousa Holstein, futuro Duque de Palmela.
O Congresso retirou, formalmente, qualquer força jurídica a anteriores tratados que contradissessem a «Nova Carta Europeia». Foi o caso do «Tratado de Badajoz». E consagrou, solenemente, a ilegitimidade da retenção de Olivença por Espanha, reconhecendo os direitos de Portugal. Na Acta Final, apoio jurídico da nova ordem europeia, prescrevia o seu art.º 105.º:

«Les Puissances, reconnaissant la justice des réclamations formées par S. A. R. le prince régent de Portugal e du Brésil, sur la ville d’Olivenza et les autres territoires cédés à Espagne par le traité de Badajoz de 1801, et envisageant la restitution de ces objets, comme une des mesures propres à assurer entre les deux royaumes de la péninsule, cette bonne harmonie complète et stable dont la conservation dans toutes les parties de l’Europe a été le but constant de leurs arrangements, s’engagent formellement à employer dans les voies de conciliation leurs efforts les plus efficaces, afin que la rétrocession desdits territoires en faveur du Portugal soi effectuée ; et les puissances reconnaissent, autant qu’il dépend de chacune d’elles, que cet arrangement doit avoir lieu au plus tôt».

Espanha assinou o tratado, em 7 de Maio de 1807 e assim reconheceu os direitos de Portugal. Volvidos 185 anos, o Estado vizinho não deu, porém, provas do carácter honrado, altivo e nobre que diz ser seu, jamais nos devolvendo Olivença. Mas em terras oliventinas, sofridos dois séculos de brutal, persistente e insidiosa repressão castelhanizante (hoje, falar-se-ia de genocídio e crimes contra a Humanidade...), tudo o que estrutura e molda uma comunidade, a sua História, cultura, tradições, língua, permaneceu e permanece pleno de portugalidade! Separados do povo a que pertencem, da sua cultura, da sua língua, alienados da Pátria que é a sua, em austeros e silenciosos duzentos anos, os oliventinos preservam o espírito português e demonstram, pelo sentir da maior parte, não renunciar às suas raízes». In Grupo dos Amigos de Olivença.

Grupo Amigos de Olivenlça : http://www.olivenca.org/
Cortesia de wikipédia/JDACT

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Olivença: A protecção e promoção do «português oliventino»

Detalhe de um mapa de 1773 do cartógrafo espanhol Tomás López de Vargas Machuca, no qual Olivença aparece como parte do território português.

Olivença  é uma cidade e um município numa zona fronteiriça cuja definição é objecto de litígio entre Portugal e Espanha, reivindicada de jure por ambos os países e administrada de facto como parte integrante da Comunidade Autónoma da Extremadura.
Apesar do desentendimento entre Portugal e Espanha sobre a Questão de Olivença, o tema não tem provocado atrito nas relações entre os dois países ibéricos. Olivença e os municípios raianos espanhóis de La Codosera, Alburquerque e Badajoz e portugueses de Arronches, Campo Maior, Estremoz, Portalegre e Elvas chegaram a um acordo em 2008 com vista à criação de uma euro-região.

O Tratado de Alcanizes, de 1297, estabelecia Olivença como parte de Portugal. Em 1801, através do Tratado de Badajoz, denunciado em 1808 por Portugal, o território foi anexado a Espanha. Em 1817 a Espanha reconheceu a soberania portuguesa subscrevendo o Congresso de Viena de 1815, comprometendo-se à retrocessão do território o mais prontamente possível.
Porém, até aos dias de hoje, tal ainda não aconteceu.

Porta manuelina nos Paços do Concelho de Olivença
(A Questão de Olivença)
(História-Olivença)
JDACT