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sábado, 16 de março de 2013

O Maior Tufão de Macau. Pedro Fragoso Matos. «Passado algum tempo duas embarcações chinas abordaram por EB a Amazona e juntas com ela, trazidas pelo vento e pelo mar embravecido, ondeando em amplos balanços, arremeteram com a proa da escuna e num choque tremendo arrebentaram-lhe o fiel da amarração»


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Com a amizade da LC e a memória do amigo APCM

(Continuação)

«A escuridão era completa, apenas a espaço rasgava o negrume o fraco lampejo das luzes da lorcha e do Poyang. À 1 hora (a. m.), aproveitando um recalmão, largou-se para o fundo o ferro de EB, arriou-se até ao chicote o fiel da cabresteira. Os escaleres quebravam-se nos turcos, que dobravam com o peso da rajada, e a canoa de barlavento, suspensa das talhas, oscilava dentro do navio. Nada mais ocorria de notável, o temporal parecia no seu auge, mas o barómetro continuava a baixar e às 2.50 horas (a. m.) o aneróide marcava 0,720 mm (960 mb), limite da escala. A esta hora, já não se viam as luzes do cidade e dos navios, a máquina trabalhava com toda a força a vante, a coluna de ar deslocada com incrível velocidade, silvava no massame de arame da escuna.
Era impossível dor ordens, que ninguém ouvia, arrastadas e confundidas as vibrações sonoras do ingente turbilhão. Pouco depois das 3 horas (a. m.) caiu de través sobre a proa da Camões a lorcha Amazona. Era impossível evitá-la, a canhoneira não obedecia ao leme. O choque foi grande e a proa da escuna batia como ariete em fortíssimos embates o costado da velha lorcha da Polícia. A seu bordo aquartelavam-se talvez uma centena de pessoas que se perderiam sem remédio no caso de a lorcha soçobrar. Mandou-se parar a máquina. Então a Camões  aproava ao SW atravessada à vaga e a Amazona ao NE filando ao vento.
Passado algum tempo duas embarcações chinas abordaram por EB a Amazona e juntas com ela, trazidas pelo vento e pelo mar embravecido, ondeando em amplos balanços, arremeteram com a proa da escuna e num choque tremendo arrebentaram-lhe o fiel da amarração. Largou-se para o fundo o ferro de BB, perdendo-se logo de vista os terríveis agressores. A rastejar pela popa passava um vulto enorme. Era o White Cloud. Rebentados os viradores dados para a ponte, lá ia impelido pela tormenta de Deus e à aventura.
Salva estava a Camões daquela terrível abordagem, quando uma grande lorcha de carga assentou o alteroso castelo de popa dentro do navio e correndo de vante para ré arrombou a amurada de BB, rebentou as enxárcias do traquete e grande, as plumas da chaminé e esmagou a canoa sobre a gaiuta da cozinha. Um grosso pranchão de carga, que trazia saliente do costado, varria como foice roçadora a tolda da escuna. A chaminé inclinava lentamente a sotavento, prestes a desabar. Era urgente retirar o fogo para o incêndio não vir juntar seus danos aos imensos perigos do tufão. De rastos, magoado por uma pancada do madeiro, que o colhera pelo peito, o comandante conseguiu alcançar a escotilha do máquina e bradar para baixo a ordem salvadora, que foi cumprida a tempo, tombando logo em seguida a chaminé.
Era indescritível a violência do vendaval. A bordo a escuridão era medonha. O vento apagara todas as luzes, as agulhas saltaram fora dos fulcros por causa dos balanços desmedidos, o mar desencontrado cobria a tolda, passando de um a outro bordo como uma abóboda de água lamacenta, e o vento rugia como o estrondo de descargas de artilharia, ameaçando arrancar a gente que com valor sobre-humano cavalgara a borda, para talingar o ferro da roça, a última âncora de socorro. Não há palavras para descrever aqueles momentos de angústia (...)» In Pedro Fragoso Matos, O Maior Tufão de Macau, Separata dos Anais do Clube Militar Naval, Lisboa, 1985.

continua
Cortesia de António Pedro (†)
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domingo, 2 de dezembro de 2012

O Maior Tufão de Macau. Pedro Fragoso Matos. «A canhoneira Camões é um navio de ‘molave’, madeira das Filipinas, forrado de teca e de pinho americano, e cavername ligado com pródigos de ferro em diagonal e foi mandada construir, bem como a D. Carlos, em 1866»

canhoeira Camões
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Com a amizade da LC e a memória do amigo APCM

(Continuação)
«No sentido de enriquecer o presente estudo, permito-me apresentar, seguidamente, alguns excertos desse belo documento, por constituir um extraordinário e empolgante relato duma das mais imponentes manifestações das forças naturais, desenvolvidas pela passagem daquele devastador tufão por Macau, terra portuguesa(?), longínquo marco milenário, atestando o valor da gente lusitana (?), sendo de evidenciar que é tanto mais curioso, quanto o seu autor confessa, muito simplesmente, que eu nunca vi a China. Assim, o almirante Braz Oliveira escreveu:
  • (...) O aspecto que oferecia o porto de Macau ao pôr do Sol no dia 22 de Setembro era deveras majestoso. Às 4 horas (p. m.) o Pontão da Polícia, a Lorcha Amazona, deu o tiro de tufão...Para os lados da foz do Rio do Oeste a atmosfera tinha esbraseado, como se a boca de uma enorme fornalha escancarasse as goelas, golfando torrentes de luz de metal fendente, e farrapos de nuvens soltas, cor de sangue, passavam rápidas sobre os picos das ilhas de Lapa e de S. João, sumindo se no negrume, que alastrava para o Sul. O vento NW soprava rijo, a vaga pequena, mas revolta, iluminada pela luz extraordinária, parecia um mar de fogo. Em porfiada regata, dezenas de embarcações chinas, com as velas a meio mastro, bordejavam para agarrar o ancoradouro da margem norte do rio, usual refúgio contra as iras da porcela (...)
    Ia no porto uma faina insana. Os navios preparavam-se para combater o vento.
Reforçavam as amarrações, arriavam as vergas e mastaréus, pregavam toldos sobre o xadrez das escotilhas, atracavam fortemente a artilharia, punham ferros à roça prontos a largar, fumegavam as chaminés dos barcos a vapor, aprontando as máquinas para a luta, dispunha-se a gente a postos de manobra, enquanto os comandantes, olhando a coluna barométrica, sentem mais esmagador o peso das responsabilidades do cargo que exerciam, aguardando as variadíssimas fases da peleja (...)
(...) A Estação Naval da China compunha-se de três canhoneiras:
  • Tejo, o comandante da Canhoneira, o primeiro-tenente Fernando Augusto Cabral exercia e comando da Estação Naval da China; 
  • Camões; 
  • Príncipe D. Carlos, e de algumas lanchas da Polícia. A canhoneira Camões, a Escuna Príncipe D. Carlos e a Lancha a Vapor Andorinha, pertencentes ao Governo da Província(?) de Macau e de Timor, no dia 1 de Setembro de 1874, tinham sido integradas na Estação Naval da China, no sentido de se activar a repressão contra a pirataria (...)
(...) A canhoneira Camões é um navio de molave, madeira das Filipinas, forrado de teca e de pinho americano, e cavername ligado com pródigos de ferro em diagonal e foi mandada construir, bem como a D. Carlos, em 1866, pelo Governador Coelho Amaral (...)
(...) A Camões está amarrada a 300 m no prolongamento da ponte de vapores da carreira de Hong-Kong.
A 100 m a NE avulta o pontão Amazona e ao mesmo rumo, atracado à ponte, um dos vapores de Cantão, o White Cloud, e a 150 m a SSE o vapor Poyang, na sua bóia. A NE, junto à margem E do rio vêem-se centenas de lorchas amarradas e o brigue Concórdia, próximo e ao S da ilha Verde. A W, encostado à ilha da Lapa, demora a barca Santa Sancha e a meia milha ao S da Camões a Tejo e a outra canhoneira nacional.
Às 9.30 (p. m.) refrescaram as rajadas, a escuna portava rijo pelos ferros, a máquina começou a funcionar avante, devagar, parando nos recalmões para não seguir em demasia. À meia-noite a máquina trabalhava avante, a toda a força e o navio conseguia por vezes aprumar a amarra e resistia optimamente. O vento rugia com incrível fúria pelo N; o escarcéu galgava as baixas amuradas.
A escuridão era completa, apenas a espaço rasgava o negrume o fraco lampejo das luzes da lorcha e do Poyang. 

Os amigos António Viseu e Olavo Rasquinho

In Pedro Fragoso Matos, O Maior Tufão de Macau, Separata dos Anais do Clube Militar Naval, Lisboa, 1985.

continua
Cortesia de António Pedro (†)
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domingo, 23 de janeiro de 2011

Navios de Guerra Portugueses. Tufões do Mar da China: «(...) Não havia até, ao meio dia de 31 indício algum dum próximo tufão. Foi só então que o barómetro começou a descer ... e, só à noite, a queda começou a atrair a atenção (...) a rapidez com que se declarou o temporal pouco ou nenhum tempo deu para se prepararem para ele, havendo quase sido tomados de surpresa»

Cortesia de institutoculturaldemacau 

Tufão de 1 de Setembro de 1848
Pressão mínima (atmosférica) 976.5 hPa ou mbs
Do Boletim da Província de Macau e Timor, de 9 de Outubro.
«Na noite de 3l do mês passado (leia-se Agosto) foi esta cidade visitada por uma daquelas calamidades com que apraz a Providência afligir-nos de tempos a tempos; mas que há doze anos se não tem experimentado com tanta violência.
É desde Agosto de 1836, que Macau não tem sofrido um tufâo tão forte, nem tão calamitoso nas suas consequências ...

Um exemplo: o tufão Hagubit em 2008
Cortesia de hojemacau
A sua força, e os estragos que fez, tanto nas propriedades como em vidas não teve procedentes na memória dos mais antigos moradores de Macau; ainda assim, os danos causados foram muito menores, do que era de esperar da furiosa intensidade do vento, em consequência da sua pouca duração, havendo a sua maior força durado apenas quatro horas, isto é, entre a uma e as 5 e meia da manhã do dia l ( ... )

Cortesia de institutoculturaldemacau
( ... ) Não havia até, ao meio dia de 31 indício algum dum próximo tufão Foi só então que o barómetro começou a descer ... e, só à noite, a queda começou a atrair a atenção; e não há dúvida que é esta circunstância, a que se deve atribuir uma grande parte dos estragos sofridos pelos navios e outras embarcações do Rio, por quanto a rapidez com que se declarou o temporal pouco ou nenhum tempo deu para se prepararem para ele, havendo quase sido tomados de surpresa ( ... )

Muitos navios (Escuna do Governo, Brigue «Genoveva», Escuna «Sociedade», Brigue «Luz», Escuna «Alfa», Escuna «Santo António» e três navios estrangeiros) encalharam ou estiveram em risco de naufragar, o mesmo acontecendo a cerca de uma centena de embarcações chinesas. Calculou-se em mais de 300 a perda de vidas. De assinalar que a capitania do Porto de Macau foi criada por Portaria de l7 de Novembro de 1845, substituindo a, então extinta, Patronia-mor». In Instituto Cultural de Macau, Obra Social dos Serviços de Marinha, Serviços Meteorológicos e Geofísicos, Pedro Fragoso de Matos, 1987 (oferta de Luísa Cabrita em Março de 1992).


O colega Olavo Rasquinho, Secretário-Geral do Comité dos Tufões (UNESCAP/WMO), numa visita ao Comissário do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China na RAEM (Lu Shumin)
Cortesia de fmcoprcgov 
Cortesia do Instituto Cultural de Macau/JDACT