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domingo, 5 de abril de 2020

Conferência. Descobrimentos dos Portugueses (anteriores a Colon). Oliveira Martins. «Por los datos conocidos del tiempo del rey Fernando, el tráfico marítimo de Lisboa no debía bajar de 250 á 300 mil toneladas. Era ya un gran puerto comercial»

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Ateneo de Madrid. Navegaciones. 24 de Fevereiro de 1892
Señores:
«(…) Y entre las varias empresas navales de estos tiempos hay una que muy especialmente llama nuestra atención. Es la que por dos veces, en los tiempos del rey Alfonso IV, se extendió en el mar hacia el Sur en demanda de las Canarias. Es este el primer viaje de descubrimiento, si es que acaso el conocimiento de la existencia de las Canarias alguna vez se llegó á obscurecer del todo. Sabemos de esa expedición, ó por lo menos de su proyecto, por la carta del Rey de Portugal á Clemente VI. Y para concluir esta primera parte de nuestro discurso, ya que asistimos al desenvolvimiento embrionario de la marina portuguesa, réstanos ver ahora lo que era Portugal marítimo en la época inmediatamente anterior al período de las navegaciones.
Por los datos conocidos del tiempo del rey Fernando, el tráfico marítimo de Lisboa no debía bajar de 250 á 300 mil toneladas. Era ya un gran puerto comercial. Era ya una gran ciudad de muchas y desvariadas gentes, como dice Fernán Lopes. Había allí estantes y residentes de varias tierras y casas comerciales de multiplicadas naciones: genoveses, lombardos, aragoneses, mallorquines, milaneses, corsos, vizcaínos, disfrutando privilegios y exenciones de que los reyes no eran avaros. Los navios iban y venían de Lisboa á Inglaterra, á Italia, cruzando por el mar del Norte y por el Mediterráneo, llevando los productos agrícolas nacionales y trayendo tejidos y manufacturas. Ahora bien; cuando nosotros pensamos, señores, en los horizontes nuevos que, por un lado las Cruzadas, por otro y principalmente el contacto íntimo con los moros, en la larga epopeya de la reconquista, abrieron al instinto del comercio; cuando sabemos cómo los árabes habían llenado la España de ricos productos del Oriente, y que el lujo de las cortes moriscas de Sevilla y Granada era imitado en las cristianas; cuando observamos el pensamiento definido de fomentar el comercio marítimo, y cuando asistimos á la creación de la marina nacional, no podemos dejar de ver en todo esto los impulsos aun indefinidos, aun inconscientes, para un destino que está próximo á florecer nítidamente en el espíritu heroico del infante Enrique, encarnación del alma portuguesa.
Es de fines del siglo XIV la legislación naval del rey. Fernando, cuerpo en el que encontramos punto por punto instituciones á que hoy vuelven las naciones que están al frente de la marina del mundo: tanto es verdadero el dicho salomónico, al que es menester aumentar que la razón crítica nada descubre que la espontaneidad plástica del instinto no tuviese anteriormente adivinado.
La legislación del rey Fernando incluye la franquicia del abanderamiento, para sustituir, á los textos de las viejas crónicas, los términos de los presentes días. Instituye los premios de construcción y navegación, siempre que los navios obedezcan á ciertas reglas que permitan armarlos en guerra, evitando así al Tesoro el onus v á la nación el peligro de los fletes de navios extranjeros. Crea la estadística naval y la inspección técnica, para evitar las averías y naufragios. Establece, por último, en Lisboa y Oporto, dos Bolsas marítimas, ó asociaciones de armadores, que funcionan como sociedades de seguros mutuos.
Yo querría, señores, exponer al detalle los rasgos particulares de esta legislación fernandina, ya porque su influencia en los destinos ulteriores de la nación es indudablemente enorme; ya porque, exponiéndolos, se vería cuánto la Historia se repite y cómo las instituciones á las que los pueblos marítimos de hoy van á buscar amparo y protección, son exactamente idênticas á las que en el siglo XIV dieron á la marina portuguesa el vigor necesario para emprender sus grandes hazañas. No me permite, no obstante, el tiempo, ni el lugar, entrar en los pormenores de leyes de las que apenas expuse el pensamiento sumario. Sí, los Reyes eran banqueros y legisladores fecundos en sentido proteccionista; eran más todavía. Eran, á la manera de los príncipes italianos, comerciantes, reservando para sí propios la exclusiva de ciertos géneros». In Oliveira Martins, Conferência, Descobrimentos dos Portugueses (anteriores a Colon), Navegaciones, 1892, Ateneo de Madrid, Establecimiento tipográfico Sucesores de Rivadexeyra, Impresores de la Real Casa, 1892.

Cortesia de ETSRivadexeyra/JDACT

sábado, 24 de setembro de 2016

Contemporâneo. Oliveira Martins. «Pinta com cores verdadeiras, prossegue o meu critico, esta dissolução do regimen monarchico parlamentar, mas é injusto lançando á conta do organismo da nação o que é produzido pelo corpo estranho da realeza e dos políticos vendidos»

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«Eu bem affirmava que este livro não satisfaria a ninguém!... Acoimado de miguelismo, Portugal condemnado como espirito azedo e pessimista, tive a sorte que esperava, e os motivos d’esta minha espectativa provaram fundados. Levou-se a mal, como era de suppor, que eu procurasse deslindar da teia de lendas absurdas ou risíveis o caracter pessoal do infante Miguel: chamou-se a isso uma apologia. Nem um facto, nem uma inducção legitima, foram, todavia, contestados, o que me leva a não alterar o retrato d’esse príncipe, sympathico para mim na sua infelicidade. E tenho até a vaidade de acreditar na perspicácia d’este sentimento, parecendo-me que, se de futuro a historia voltar a occupar-se de Miguel, ha de concordar mais commigo do que com os auctores do retrato do monstro. Esses auctores escreviam com a penna molhada no fel amargo do ódio. Disse-se-me também que eu reduzia a muito pouco o alcance ou o valor da Carta de 20; e sem concordar com a critica, achando todavia útil desenvolver mais certos pontos, retoquei essa parte da obra. Mas quando se allega ser erro o notar eu a exclusão dos morgados do pariato, pois, sendo livre do rei a nomeação dos pares, a Carta ninguém exclue, devo responder que a Carta, com effeito, não os excluia (nem eu jamais o disse), mas excluia-os o monarca Pedro não os nomeando, e até a própria força das cousas impedindo a entrada de uns milhares de nobres menores na camara alta. Eram em numero demasiado. Outros reparos, a que não alludo para não ser extenso, vão ou não vão attendidos no texto, conforme se me affiguraram fundados ou mal cabidos.
Não me surprehenderam as censuras dos nossos jacobinos mais do que as dos liberaes: prevía-as egualmente. O meu livro, disseram, é um quadro pittoresco, mas falta-lhe o principio orgânico, a linha lógica, porque eu anão soube ou não quiz vêr na tradição revolucionaria de 20, esse movimento em que pela primeira vez se revelou a classe média de advogados, jurisconsultos e coronéis. Pinta com cores verdadeiras, prosegue o meu critico, esta dissolução do regimen monarchico parlamentar, mas é injusto lançando á conta do organismo da nação o que é produzido pelo corpo estranho da realeza e dos políticos vendidos. Ora eu, não sendo individualista, nem até politicamente liberal, não podia achar na tradição de 20 a linha lógica; e pensando que as nações teem sempre aquelle governo que querem ou que merecem, não podia tampouco ter na conta de corpo estranho a realeza nem os políticos. Ella e elles e o povo e todos pareceram-me antes efeitos do que causas. Se pretendi mostrar por quanta entrava nas misérias da nossa historia contemporânea a fraqueza dos caracteres, a apathia ou a loucura das populações, o desvairamento dos chefes: patenteei, parece me, quanto esses males sociaes provinham, não só dos legados da historia, como da influencia deprimente e desorganizadora das theorias do naturalismo individualista, herdado da philosophia do século XVIII e popularizado pela revolução franceza. Sob o nome indefinível de liberalismo, essas doutrinas, nos seus aspectos successivos, vieram terminar afinal no materialismo pratico, fazendo dos melhoramentos materiaes o pensamento exclusivo do povo, e do governo uma agencia de caminhos de ferro. Como se nós valêssemos absolutamente mais por andarmos em doze horas, em vez de trinta ou trinta e seis, a distancia de Lisboa ao Porto! Mas o que offendeu sobretudo liberaes e jacobinos foi o tora pessimista, ao que dizem, da obra. Eu tinha-a por justiceira apenas, e até ás vezes caridosa. Fica- se com a cara a uma banda.
Pois fique-se. Concordo que a attitude é desagradável, mas, na rainha missão de critico, não posso alterar a significação dos factos, sem poder também acreditar que tamanhos males venham apenas da circumstancia de haver sobre um estrado de alguns degraus um homem de manto e coroa com as mãos atadas pelos políticos de espadim e farda. Elles governarão o rei, mas quem os escolhe a elles é o povo: se são maus, porque os prefere? Não. A culpa é portanto nossa, de todos nós, que não valemos grande cousa, fique se embora com a cara a uma banda!» In J. Oliveira Martins, Portugal Contemporâneo, Livraria António Pereira, Lisboa, 1895, University of Toronto, 2000.

Cortesia de LAPereira/UToronto/JDACT

domingo, 11 de setembro de 2016

História de Portugal. Oliveira Martins. «Que valor merece a inovação? Nenhum; e por vários motivos: Tudo falta: a conveniência de limites territoriais, a identidade da raça…»

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«(…) Pesada esta consideração, que não podemos agora desenvolver de um modo cabal, ver-se-á como na história de uma civilização os caracteres particulares das acções dos homens, fundindo-se no sistema geral de princípios e leis que os determinam, perdem individualidade, e não valem senão como elementos componentes de um todo superior: que sejam humanamente bons ou maus, importa nada, porque só nos cumpre atender ao destino que os determina, e a moral é um critério incompetente para a esfera ou categoria colectiva de que se trata. Na esfera dos movimentos de instituições e ideias na categoria da vida social, as acções dos homens são sempre absolutamente excelentes; porque a supremacia da sociedade sobre o indivíduo consiste no facto da existência de uma consciência superior da Ideia, no organismo que se diz sociedade. Os poetas épicos, seres privilegiados cuja voz não é própria, senão colectiva, são os órgãos vivos da consciência de uma civilização; assim Camões sente e exprime a grandeza histórica do império das Índias, que na própria opinião particular do poeta são uma Babilónia, um poço de ignomínias. Esclarecido este lado do problema, embora de um modo incompleto e rápido, resta-nos dizer que na segunda metade da história, na que trata dos indivíduos e dos episódios, na que pinta os costumes e os pensamentos, o critério é outro: por isso afirmámos que a história é uma lição moral. Nos vícios e nas virtudes, nos erros e nos acertos, na perversidade e na nobreza dos indivíduos que foram, há um exemplo excelente. Na sabedoria ou na loucura dos actos políticos e administrativos passados há um meio de prevenir e encaminhar a direcção dos actos futuros. A história é, nesse sentido, a grande mestra da vida. Se os vícios, os erros, o crime e a loucura predominam, iremos por isso condenar a história por perniciosa? Não, decerto. Apresentar crua e realmente a verdade é o melhor modo de educar, se reconhecemos no homem uma fibra íntima de aspirações ideais e justas, sempre viva, embora mais ou menos obliterada. Conhecer-se a si próprio foi, desde a mais remota Antiguidade, a principal condição da virtude.

Discrição de Portugal
Os Lusitanos
O povo desde o qual os historiadores têm tecido a genealogia portuguesa está achado: é o dos lusitanos. Na opinião desses escritores, através de todas as fases políticas e sociais da Espanha durante mais de três mil anos, aquela raça de celtas soube sempre, como Anteu, erguer-se viva e forte; reproduzir-se, imortal na sua essência; e nós os portugueses do século XIX temos a honra de ser os seus legítimos herdeiros e representantes. Com esta ironia encoberta mas grave, fustigava Alexandre Herculano os seus predecessores, historiógrafos nacionais, e, segurando com valor a férula magistral, castigava o povo culpado de acreditar numa tradição que tem para o erudito, além de outros defeitos, o de ser recente. Só desde o fim do XV século o nome de lusitani começa a substituir o de portucalenses, nos livros; mas essa inovação, perpetuando-se entre os eruditos, torna-se por fim uma crença nacional e quase popular. Que valor merece a inovação? Nenhum; e por vários motivos: Tudo falta: a conveniência de limites territoriais, a identidade da raça, a filiação da língua, para estabelecermos uma transição natural entre os povos bárbaros e nós. Ora estes argumentos, decisivos para o sábio historiador, não nos parece a nós, perdoe-se-nos o atrevimento, que o sejam. Outro tanto sucede com todas as nações ou quase todas, desde que procuramos estabelecer a árvore genealógica, indo aos arcanos de um passado ignoto reconhecer a fisionomia dos mortos de muitos séculos e determinar de entre eles os primeiros avós de uma nação. Seria absurdo exigir conveniência de limites territoriais, ou por outra, identidade de fronteiras, entre a localização de uma tribo primitiva, e a de uma nação moderna nem aos povos que hoje mais indiscutivelmente representam, pura, uma raça, poderia fazer-se tal exigência. Se há ou não identidade de raça, é exactamente o problema que deveria agitar-se; e, sem isso, negá-lo é proceder dogmática e não cientificamente». In J. Oliveira Martins, História de Portugal, 1879, Edições Vercial, Guimarães Editores, Edição/reimpressão 2004, ISBN 978-972-665-490-2.

Cortesia de EVercial/GuimarãesE/JDACT

sábado, 10 de setembro de 2016

História de Portugal. Oliveira Martins. «O íntimo e essencial consiste no sistema das instituições e no sistema das ideias colectivas, que são para a sociedade como os órgãos e os sentimentos são para o indivíduo…»

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«Antigamente foi costume fazerem memoria das cousas que se fazião, assi erradas, como dos valentes & nobres feytos. Dos erros porque se delles soubessem guardar: & dos valentes & nobres feytos, aos bõos fezessem cobiça auer pera as semelhantes cousas fazerem. Coronica do Condestabre, a história é sobretudo uma lição moral; eis a conclusão que, a nosso ver, sai de todos os eminentes progressos ultimamente realizados no foro das ciências sociais. A realidade é a melhor mestra dos costumes, a crítica a melhor bússola da inteligência: por isso a história exige sobretudo observação directa das fontes primordiais, pintura verdadeira dos sentimentos, descrição fiel dos acontecimentos, e, ao lado disto, a frieza impassível do crítico, para coordenar, comparar, de um modo impessoal ou objectivo, o sistema dos sentimentos geradores e dos actos positivos. O desenvolvimento do critério racional e o predomínio crescente dos processos próprios das ciências baniram os modelos antigos e fizeram da história um género novo. Nem os discursos morais ou literários sobre a história, à maneira do XVII século, nem o doutrinarismo seco do XVIII, que sobre factos e instituições mal conhecidos construía sistemas gerais quiméricos, nem a opinião, muito seguida em nossos dias, de considerar a história unicamente nos seus fenómenos exteriores, averiguando eruditamente as épocas e as condições dos sucessos, merecem, a nosso ver, imitação. Todos estes sistemas, porém, ensaios sucessivos para determinar o género de um modo definitivo, têm um lado de verdade aproveitável. Os modelos clássicos fizeram sentir o carácter moral da história; os modelos abstractos, a necessidade de compreender os fenómenos num sistema de leis gerais; os modelos eruditos, finalmente, a condição imprescritível de um conhecimento real e positivo da cronologia e dos elementos que compõem o meio externo ou físico das sociedades. Nada disto, porém, é ainda realmente a história, embora todas essas condições sejam indispensáveis para a sua compreensão. O íntimo e essencial consiste no sistema das instituições e no sistema das ideias colectivas, que são para a sociedade como os órgãos e os sentimentos são para o indivíduo, consistindo, por outro lado, no desenho real dos costumes e dos caracteres, na pintura animada dos lugares e acessórios que forma o cenário do teatro histórico. Estes dois aspectos são igualmente essenciais: porque a coexistência independente dos motivos colectivos e naturais, e dos actos individuais, é um facto incontestável na vida das sociedades. Na História da Civilização Ibérica tratámos de estudar o sistema de instituições e de ideias da sociedade peninsular, para expôr a sua vida colectiva orgânica e moral. Tomámos aí a sociedade como um indivíduo, e procurámos retratá-lo física e moralmente. Agora o nosso propósito é diverso. Tratando da história particular portuguesa, somos levados a encarar principalmente o segundo dos aspectos essenciais da história geral. A sociedade portuguesa, como molécula que é do organismo social ibérico, peninsular, ou espanhol, estas três expressões têm aqui um alcance equivalente, obedeceu, nos seus movimentos colectivos, ao sistema de causas e condições próprias da história geral da península hispânica. Por isso procurámos sempre, na obra referida, indicar o modo pelo qual as leis gerais se realizavam simultaneamente nas duas nações espanholas: duas, porque a história assim constitui politicamente a Península. Metade da história portuguesa está, portanto, escrita na História da Civilização Ibérica: a metade que trata da vida da sociedade, como um ser orgânico. Compreender-se-á, pois, que nos abstenhamos agora de repetir o que está dito, e que nos limitemos a enviar o leitor para esse livro; indicando, quando for necessário, o lugar onde poderá encontrar a explicação das causas gerais a que no texto se tem de aludir. Resta fazer a segunda metade: resta caracterizar o que há de particular na história portuguesa; resta fazer viver os seus homens, e representar de um modo real a cena em que se agitam: tal é o programa deste livro, cujas dificuldades de execução excedem em muito as do anterior. Nesse, bastavam o conhecimento e o pensamento: um para nos dizer como foram as coisas, outro para nos indicar o princípio e o sistema da civilização. Agora carece-se do faro especial da intuição histórica, e dum estilo que traduza a animação própria das coisas vivas. Toda a longanimidade do leitor será, pois, necessária para desculpar as imperfeições da obra. É mister indicar ainda outro assunto e prevenir uma impressão, natural em quem ler sucessivamente as duas obras. A História de Portugal consiste numa série de quadros, em que, na máxima parte das vezes, os caracteres dos homens, os seus actos, os motivos imediatos que os determinam e as condições e modo por que se realizam, merecem antes a nossa reprovação do que o nosso aplauso. Crimes brutais, paixões vis, abjecções e misérias compõem, por via de regra, a existência humana; e por isso mais de um moralista tem condenado o estudo da história, como pernicioso para a educação. Por outro lado, a História da Civilização Ibérica respira um entusiasmo optimista que, ao primeiro exame, pareceria contraditório com o péssimo e mesquinho carácter que as acções dos homens apresentam. Um exemplo bastará para demonstrar este antagonismo: além considerámos as conquistas americanas e asiáticas uma obra heróica, e agora veremos que montanha de ignomínias foi o império português do Oriente. Esta contradição, real para o critério abstracto, não existe, porém, para o critério histórico. Toda a boa filosofia nos diz que o homem real é a imagem rude de um homem ideal, que essa imagem vive no mundo inconscientemente, e que todas as Esta contradição, real para o critério abstrato, não existe, porém, para o critério histórico. Toda a boa filosofia nos diz que o homem real é a imagem rude de um homem ideal, que essa imagem vive no mundo inconscientemente, e que todas as acções dos homens, maculadas de defeitos e vícios, obedecem a um sistema de leis, idealmente sublimes. É esta verdade que o povo consagrou quando formulou o adágio: Deus escreve direito por linhas tortas». In J. Oliveira Martins, História de Portugal, 1879, Edições Vercial, Guimarães Editores, Edição/reimpressão 2004, ISBN 978-972-665-490-2.

Cortesia de EVercial/GuimarãesE/JDACT

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A Vida de Nun’Alvares. Oliveira Martins. «E não sei no mundo que hoje me podesse confortar mais, como ver tão santo cavalleiro, como tu has de ser. E como tu verás maravilhas que excederás; porque Deus, que te fez nascer em tal pecado…»

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Conforme o original

O prior do Hospital
«(…) O logar de Tristão achava-se vago na Mesa redonda dos cavalleiros: foi esse logar que Nun’Alvares, ou Galaaz, preencheu. Era um sólio perigoso, uma cadeira de morte, que acabava com todos os que nella se sentavam. Quando o heroe appareceu na sala, cerraram-se todas as portas e janellas por encanto; mas um raio de sol, entrando milagrosamente, illuminou em cheio a figura do heroe que aparecia armado de loriga e bravoneiras, com dois signaes vermelhos sobre o braço. Por onde entrara? Ninguém o vira. Com elle vinha um ermitão, que assim disse para o rei Arthur: eu te trago o cavalleiro desejado que vem d’el-rei David e de José d’Arimathea, por quem as maravilhas d’esta terra e das outras haverão acima. E Galaaz sentou-se na cadeira terrível, dizendo todos compassadamente: Galaaz, sêde o bem-vindo! Era aquelle o bastardo de Lançarote do Lago, sobrinho do rei Marte da Cornualha: o cavalleiro de quem Merlim e os prophetas haviam fallado como o que descobriria o Santo Graal, terminando assim as aventuras do reino de Logres. Era elle que havia de descobrir o sacrario da pátria, dando a commungar aos seus filhos a hóstia santa do sacrifício; era elle quem terminaria, também, as aventuras do reino de Portugal, com façanhas que gradualmente iam avultando na sua imaginação, á medida que os annos cresciam, e, com o crescer, o sol da vida, subindo, ia desmanchando as névoas da flor da terra. Em torno da Mesa sentavam-se, confundidos em admiração, os cento e cincoenta cavalleiros presididos pelo rei Arthur. Eram Booz de Gaunes, o velho pae do presidente e do imperador Alaino de Constantinopla, nascido de uma filha do rei da Gran-Borgonha, que o seduzira por encantamento, obrigando-o a mentir aos votos de castidade; era Percival, de Galles, e Eric, o filho d’el-rei Lot; eram Ganet e Garriet, Leonel e Brandinor, Ocursus-o-negro, Orinides-o-branco, e Sagramor, e Gardamontanha, mais Arnal-o-formoso, com Martel-do-grande-escudo, e os outros em cujo gremio entrava Galaaz, como Nun’Alvares, quando o pae o levou á corte d’el-rei Fernando I, em 1373.
A idéa da partida para Santarem, á corte, apparecia-lhe como a do seu heroe para a sala dos cavalleiros: ia sentar-se ahi na cadeira vasia e terrível, para vencer o Fado n’uma successão de aventuras e façanhas inauditas. Também levava uma armadura forjada com o lume da virtude; e mais de uma vez simulara com os ermitões do Bomjardim a scena do cemitério, quando Galaaz quis ver a campa do cavalleiro desleal sobre que os demonios dançavam em permanencia. O defunto gemia agonias no seu tumulo, ensombrado por uma velha arvore, e, soluçando, pedia a Galaaz que se afastasse; mas o cavalleiro impavido levantou a campa, d’onde sahiu um fumo negro como pez, depois chammas, depois o próprio demónio em pé : ai, Galaaz, santa coisa vejo em ti… Vejo-te cercado d’anjos, que não posso durar contra ti. E porém te deixo o meu logar, em que longo tempo folguei… E foi-se o diabo. No fundo do tumulo estava o defunto armado. E a historia termina dizendo que a campa do moimento demonstra a dureza dos corações que Nosso Senhor achou no mundo, quando aqui veio. porque na terra nom achou el se nom duros corações: e bem parecia, porque o filho não amava o pae. nem o pae o filho, e por isto iam todos ao inferno.
Já as historias tinham um symbolismo moral; e esse momento novo da educação entrava no espirito do nosso heroe, apresentando-lhe a vida como um exercício de virtude, ensinando-lhe que o mérito das acções não está no que são, mas sim no que significam; dizendo-lhe que o supremo destino da existência é converter os homens ao bem, levantando de sobre elles a campa dos pecados da carne, em corações endurecidos pela vida bravia dos tempos. Por isso o ermitão acompanhara sempre Galaaz, para lhe mostrar a significação e o alcance dos lances da sua vida aventurosa, como os coros da tragedia antiga, commentando as acções dos heroes. E Nun’Alvares relia a falla do ermitão, onde se faz a apotheose da bastardia, considerando-se necessário o peccado de origem para a consummação das façanhas: filho! Coisa santa e honrada, flor e louvor de todos os mancebos, outorga-me, se te praz, que te faça companhia em toda a minha vida, emquanto te puder seguir... E não sei no mundo que hoje me podesse confortar mais, como ver tão santo cavalleiro, como tu has de ser. E como tu verás maravilhas que excederás; porque Deus, que te fez nascer em tal peccado, como tu sabes, por mostrar seu grande poder, essa grande virtude te outorgou por sua piedade e pela boa vida que tu começaste de tua meninice até aqui, que te dará poder, e força, e bondade de armas e de ardimento sobre todos os cavalleiros que nunca trouxeram armas no reino de Logres (ou de Portugal?) assim que tu darás acima a todas as outras maravilhas e aventuras, onde todos falleceram e fallecerem. E quero todos teus feitos saber que acabarás, pois foste feito em tal peccado, onde os outros não poderam vir, que foram feitos em leal casamento…
Assim educado, partia Nun’Alvares para a corte aos treze annos. A própria bastardia que, embora corrente e commum no tempo, podia levantar-lhe pensamentos deprimentes do animo, encontrava sancção e apotheose nos livros da sua paixão. Os bastardos eram eleitos. Deus escolhia os manchados por esse peccado de origem. A virtude do peccador é preferente. Ia disposto a exceder todas as façanhas e prodígios, de valor e de abnegação. Floria-lhe o lyrio da virtude cândida na alma ingénua; pulava-lhe nas veias o sangue com os impulsos da força exuberante». In Oliveira Martins, A Vida de Nun'Alvares, História do estabelecimento da dinastia de Avis, Livraria de António Maria Pereira, Editor, 1893, Makew Parr Collection/Magellan and the Age of Discovery/Presented to Brandies University, 1961.

Cortesia de LAPereira/JDACT

sábado, 21 de março de 2015

Conferência. Descobrimentos dos Portugueses (anteriores a Colon). Oliveira Martins. «Y así como á la sombra de las ya remotas medidas defensivas vimos nacer y crecer la vida del litoral, así ahora vemos esparcirse rápidamente las navegaciones…»

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Ateneo de Madrid. Navegaciones. 24 de Fevereiro de 1892
Señores:
«(…) Á los normandos se unieron los árabes vecinos, desde que, á partir del siglo VIII, la espada victoriosa de Alfonso I expulsó á los moros para el sur del Vouga, y claro es que en tales condiciones, ni la pesca, ni el cabotaje, esos dos primeros rudimentos de la navegación, podían medrar. Es lícito afirmar sin recelo que, tomando este momento como punto de partida, asistimos al primitivo desarrollo del movimiento que nos ha de dar como expansión culminante, los viajes épicos de Colón, de Gama y de Magalhaes. El primer momento de la reacción, la primera simiente, la vemos cuando, reconquistada la Galicia y con ella Oporto, el obispo de Compostela, Diego Gelmires, inicia la organización de fuerzas navales que resistan á la piratería de los moros, assoladora en toda la costa, desde Sevilla hasta Coimbra, ab Hispali usque ad Cohimbriam, como dice la Historia Compostelana. El obispo Gelmires contrató genoveses, porque los italianos ejercían en esas épocas el papel que en la antigüedad los griegos y los fenicios habían tenido. Eran los hombres de mar, conocedores de sus secretos, domadores de sus caprichos. Eran los pilotos que habían, á través del Mediterráneo, llevado á buen puerto la primera cruzada en el año de 1096. Eran, como la crónica dice, optimi navium artífices, nautaeque peritissimi: eran los primeros marineros y constructores navales.
Efectuada la separación de Portugal, consumada la conquista de la línea del Tajo, y después del Sado, con la toma de Lisboa y de Alcacer, la nueva monarquía portuguesa, desde sus primeiros momentos, reconoce que, habiéndola cabido en el reparto la zona litoral del occidente hasta el Algarve, esto es, hasta donde esa zona termina, su fuerza, su destino y la primera urgência era poseer una marina, no para defensa solamente, como la del obispo de Compostela, sino también para consumar la reconquista en la parte meridional del reino. Así el destino necessário del pueblo portugués se acentuaba pronto en las condiciones de su emancipación política, al mismo tiempo que las Cruzadas, restableciendo la navegación internacional de los mares del Norte hacia el Mediterráneo, y viceversa, mostraban la importancia excepcional de los dos grandes puertos de la costa portuguesa: Oporto y Lisboa. Vese, pues, señores, que aunque no hubiese aún marina militar organizada; aunque los cruzados y sus armadas fuesen nuestros auxiliares constantes, ya también por mar se iba repitiendo la lucha duramente peleada en tierra. Y cómo podría suceder esto, si no hubiese ya en las ciudades y villas marítimas una población activa y barcos numerosos? Los había, y ya en frente de la costa lusitana los pescadores singlaban en el mar, y ya las comunicaciones entre los varios puertos eran frecuentes. En Oporto pescaban la ballena, que aun entonces habitaba nuestros mares; en el Algarve pescaban el coral, y el atún en armazones de almadrabas construidas por maestros sicilianos y genoveses. Estas pesquerías de Lagos fueron el principal vivero donde, un siglo después, el infante Enrique reclutó el personal de sus expediciones.
Era natural, por tanto, que los reyes de nuestra primera dinastia quisiesen consolidar en el mar una fuerza que ya entonces, después de consumada la reconquista, era completa en tierra. Habia colonias de pescadores y marineros, había barcos, había mar; pero faltaba quien en ese mar supiese navegar y combatir, y quien supiese construir navios. Para la defensa y colonización de la tierra habían los reyes multiplicado las donaciones á naturales y extranjeros, llamando las órdenes monásticas militares internacionales y repitiendo los señoríos hereditarios. Pero el mar no había quien lo defendiese y explorase; y la idea de repetir sobre él lo que se practicaba sobre la tierra, debía ocurrir obviamente. Había que conceder la frontera del Océano. Fué lo que se hizo, en tiempo del rey Diniz, contratando el almirantazgo, como entonces se decía á la moda árabe, con elgenovés Pessaña. Dos siglos después, el Rey de Portugal, repetia lo que hiciera el obispo de Compostela, Gelmires. Y así como á la sombra de las ya remotas medidas defensivas vimos nacer y crecer la vida del litoral, así ahora vemos esparcirse rápidamente las navegaciones. Hay ya en Oporto un comercio activo con la Flandes; ya se envía sal á Francia. Celébrase el tratado que Lisboa y Oporto pactan, por cincuenta años, con Eduardo III de Inglaterra para la pesca en los mares de los dos países. Se mandan plantar las dunas de la costa, creándose el vasto pinar de Leiria, aun hoy propiedad nacional, para abastecer los arsenales ó taracenas establecidas, tanto en Lisboa, como en Oporto». In Oliveira Martins, Conferência, Descobrimentos dos Portugueses (anteriores a Colon), Navegaciones, 1892, Ateneo de Madrid, Establecimiento tipográfico Sucesores de Rivadexeyra, Impresores de la Real Casa, 1892.

Cortesia de ETSRivadexeyra/JDACT

Conferência. Descobrimentos dos Portugueses (anteriores a Colon). Oliveira Martins. «En los períodos crueles de casi completa anarquía y de un decaimiento universal de las fuerzas y de la riqueza de la España romana, sus costas y sus puertos eran constantemente asolados por los piratas…»

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Ateneo de Madrid. Navegaciones. 24 de Fevereiro de 1892
Señores:
«De todo corazón agradezco la honra que el Ateneo me dispensa eligiéndome para narrar á esta Asamblea ilustre lo que fueron las navegaciones portuguesas anteriores al viaje de Colón. Quiso el destino que Portugal rehusase los ofrecimientos y resistiese á las tentaciones del gran navegante que dio á Castilla las Américas quién sabe?, para que en esas propias Américas, simultáneamente labradas por nosotros, estos dos pueblos hermanos apareciesen también vecinos y también hermanados por los vínculos luminosos que los enlazan sobre los pedestales de la Historia. Cuando se observa, señores, el contorno de la Península hispana delineando un cuadrado casi perfecto, y en ese cuadrado la zona portuguesa que bordea, aunque incompletamente, la faz occidental, desde luego se comprende cómo los pueblos de la España, separados en varios reinos, que al fin vinieron á fijarse en dos, representan en el mundo uno solo é igual pensamiento, una sola y soberana acción.
Ese pensamiento y acción se realizaron en los descubrimientos ultramarinos, que también estaban indicados como destino á las naciones poseedoras de la Península extrema del occidente europeo. Cualquiera que fuese el carácter psicológico de esos pueblos, el hecho físico de su localización litoral, determinaria la naturaleza de su papel histórico. Así es que vemos á los frisios y á los jutes, ramos de la familia germánica, tan diversa por temperamento de la española, concurrir con ella en la exploración ultramarina, por lo mismo que también les fué destinado en Europa un lugar litoral sobre el mar del Norte. Pero si la fuerza de las cosas así impelía á las naciones peninsulares, no por eso cada una dejaba de colaborar en la obra común con sus dotes y cualidades peculiares. Mientras el castellano iniciaba de un golpe su empresa, rasgando de parte á parte el Océano en esa aventura genial de hace cuatro siglos, nosotros los portugueses íbamos pausada y pacientemente á lo largo de las costas africanas ó de isla en isla, en ese propio mar que Colón surcó como un rayo, caminando paso á paso, avanzando siempre, con una audacia tan perseverante como prudente.
Un mismo destino, un mismo norte, una única ambición nos movía, no obstante, á ambos: era la India. Y cuando cada una de las naciones peninsulares halló sus Indias, el carácter del dominio, la naturaleza de la ocupación y las fisonomías de los héroes de ambos países, siempre iguales en el espíritu proselítico, siempre idénticos en la acción dominadora, encuentran, sin embargo, fórmulas diversas con que se acentúan de un modo imposible de confundir. Y todavía, de cualquier forma, con la candidez y con la audacia, con férrea violencia, y con tenacidad de bronce, con el amor y con el imperio; cada cual con sus dotes propios, caminábamos ambos á un destino común, colaborando en una idêntica empresa, coronándonos recíprocamente con una aureola de gloria que marcará en todo y siempre, mientras haya memoria de hombres, nuestros pasos por el teatro infinito de los siglos.

Señores: Ya nadie hoy se atreve á suponer que hechos tan considerables como fueron las navegaciones portuguesas délos siglos XIV y XV pudiesen brotar abruptamente de los planes y del genio de un hombre, aunque ese hombre fuese, como fué. grandemente heroico el infante Enrique. La señal de los héroes es la intuición con que sienten y perciben pulsear el alma de un pueblo, y encarnándola en sí, se vuelven como símbolo nacional. Por tal motivo, mucho tiempo pasaron por creadores. No es así. El viejo aforismo ex nihilo nihil, en punto alguno se demuestra más exacto que en éste; y así es que, antes de acercarnos nosotros á la figura grandiosa del infante Enrique, hemos de estudiar con minuciosa paciencia el desenvolvimento colectivo y obscuro de los elementos con que pudo y supo levantar el edificio de gloria suma de toda la España, porque fué de ese nido de águilas plantado en Sagres que saheron todos, absolutamente todos los navegantes peninsulares.
En los períodos crueles de casi completa anarquía y de un decaimiento universal de las fuerzas y de la riqueza de la España romana, sus costas y sus puertos eran constantemente asolados por los piratas que en el mar repetían los robos de la gente de armas en tierra. Los vikings normandos descendían de los mares del Norte y venían á rodear España, siendo el terror constante de la playa galaico-lusitana. Pasando más allá é internándose por el mar del Calpe en el Mediterráneo, iban hasta la región del Pirineo austral, á establecer allí ese estado efímero, cuya historia Dozy sacó de las crónicas árabes». In Oliveira Martins, Conferência, Descobrimentos dos Portugueses (anteriores a Colon), Navegaciones, 1892, Ateneo de Madrid, Establecimiento tipográfico Sucesores de Rivadexeyra, Impresores de la Real Casa, 1892.

Cortesia de ETSRivadexeyra/JDACT

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Páginas Desconhecidas. A Ditadura de Saldanha. O Golpe Militar de 19 de Maio de 1870. «Dentro deste círculo moral e nesta atmosfera miasmática, que poderá ser um novo partido constitucional? Para ele serão as mesmas exigências duma política de contradição, a que se votará à nascença»

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«(…) Não se suicida, pois, a ditadura. Morre naturalmente de senilidade, duma senilidade, duma senilidade precoce, que se seguiu imediatamente ao nascimento. Obra dum velho, é, como a velhice, impotente e frouxa. Morre de lazeira, nada mais. Que dure uma semana, um mês, isso nada significa. Está moralmente morta. É quanto importa. A questão toda está agora na sucessão do morto. Quem será o herdeiro? Os velhos partidos, naturalmente? Mas os velhos partidos estão julgados e condenados pela opinião, e sobre tudo pelos próprios actos. O que significa qualquer deles no poder, senão a repetição dos mesmos erros, das mesmas tendências e dos mesmos homens? Ora a política é movimento e novidade. Recuar dois anos ou quatro anos atrás não é política: é simples arqueologia. Em Portugal é, sobretudo, paleontologia.
Se os velhos programas foram reprovados, e pateados os velhos homens, será porventura uma solução política levá-los outra vez ao poder? Para quê? Para os reprovar e patear de novo? Em tal caso, fôra então a política um círculo vicioso sem significação, e a História uma sabatina banal e tediosa. Mas a História é movimento e progresso. Assim, pois, a história contemporânea de Portugal, ou se há-de imobilizar, como a da China, ou sair dos velhos partidos, buscando horizontes novos, como convém a um povo que não condescende benevolamente com a morte que o invade.
Um Fonte, um Loulé, um bispo de Viseu, serão sempre, dadas as prisões partidárias que os ligam, a idade que contam, e a incapacidade de renovação intelectual que os caracteriza, serão sempre o mesmo bispo de Viseu, o mesmo Fontes, o mesmo Loulé. Tudo isto está visto e sabido. Não vale a pena recomeçar a Regeneração ou o Movimento de Janeiro. Logo, a crise excede os velhos partidos constitucionais. Vai além do que eles podem e sabem. A política tradicional, reduzida ao absurdo pelos factos, não está à altura das exigências da situação. Mas pergunta-se: não poderão surgir novos partidos dentro do Constitucionalismo? Novos grupos, podem: novos partidos, é impossível. Guerrilhas, certamente: exércitos, de modo algum. E porque não podem?
Porque é exactamente o Constitucionalismo que os torna a eles, a esses velhos partidos, absolutamente impotentes. Porque é a contradição ingénita do sistema que esteriliza e anula os homens. Porque é a organização monárquica, com as suas peias, as suas exigências, as suas despesas, que reduz a nada a inteligência administrativa e a habilidade política da Regeneração, como põe em cheque o patriotismo sincero e a boa vontade popular dos homens de Janeiro. Dentro deste círculo moral e nesta atmosfera miasmática, que poderá ser um novo partido constitucional? Para ele serão as mesmas exigências duma política de contradição, a que se votará à nascença. Encontrará os mesmos prejuízos, que a sua origem o obrigará a respeitar. Será tão incapaz, tão ininteligente e tão corrupto como os seus antecessores». In J. Oliveira Martins, Páginas Desconhecidas, O Golpe Militar de 19 de Maio de 1870 e a Ditadura de Saldanha, Seara Nova 1948, Lisboa.

Páginas Desconhecidas. A Ditadura de Saldanha. O Golpe Militar de 19 de Maio de 1870. «”Morre, porque se suicida?” Não: nem mesmo se suicida. O suicídio é um acto de energia, que requer força, vontade, qualidades activas, embora mal dirigidas, mas reveladoras de vida»

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«(…) Por gora isto é somente um boato, e nós esperamos ansiosamente saber o que nele há de verdade. Se a emboscada de 19 de Maio desse em resultado o preparar o país para a República, como já deu a mostrar a inanidade do Constitucionalismo, devíamos aplaudi-la. Nós republicanos, devíamos aplaudi-la, porque toda a reforma que permita ao povo dizer o seu voto, toda a reforma que lhe dê autonomia que desoprima, é por nós, e para nós. O que porém nem este, nem nenhum ministério constitucional, conseguirão resolver é a questão da Fazenda.
A série de reformas, que correm como prováveis, em quase nada atenuarão o deficit. O marechal, católico como é, não pode cortar o subsídio ao clero, o marechal não pode suprimir o generalato principesco do nosso magro Exército, o marechal não extinguirá o corpo diplomático, pois que nele vai colocando todos os seus; e não fazendo o ministério isto, não preencherá o deficit, e não preenchendo o deficit, não liquidará a dívida, e não liquidando a dívida, a bancarrota é fatal. A questão da Fazenda é a questão insolúvel, aquela que impede a resolução de todas as outras. E a questão da Fazenda chama-se a questão monárquica. É por isso que nós, desejando ardentemente a realização do programa que corre como do ministério, não confiamos em que o governo saído da empresa de 19 de Maio seja capaz de o realizar». In A República, nº 4, 1870.

«A ditadura, depois de dois meses de inépcia, senão de alguma coisa pior, mostrou a sua impotência, como os governos legais tinham já mostrado a sua também. Que resta, pois? A reforma, farol nominal dos nossos políticos contemporâneos, some-se cada vez mais nas profundidades do horizonte. A reforma, depois de se mostrar impossível dentro da legalidade, mostra-se impossível fora dela. A ditadura está evidentemente morta, e morta dum modo estranho. É uma ditadura, criada pela necessidade de medidas capitais e avançadas, que morre porque, depois de dois meses de poder indisputado e quase absoluto, não encontrou uma única medida com que correspondesse ao seu programa e à situação do país, que, segundo ela, exigia actos radicais.
Foi aceita geralmente sem grande hostilidade, por muitos até com esperança. Hoje ninguém crê nela. Não a acham má, propriamente, mas inútil: não é tirânica, é inepta. Quis ser uma revolução social, e alcançou, apenas um ridículo oficial. Morre, porque se suicida? Não: nem mesmo se suicida. O suicídio é um acto de energia, que requer força, vontade, qualidades activas, embora mal dirigidas, mas reveladoras de vida. Ora, a ditadura não tem actos: tem algumas palavras, e essas vulgares, vagas, insignificantes. Se os decretos dos ditadores foram-se revolucionários em alguma coisa, foi apenas na gramática. Ora isto não basta». In J. Oliveira Martins, Páginas Desconhecidas, O Golpe Militar de 19 de Maio de 1870 e a Ditadura de Saldanha, Seara Nova 1948, Lisboa.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Oliveira Martins. As contradições da Geração 70. Óscar Lopes. «… os problemas de Oliveira Martins são para nós os da sua geração; Oliveira Martins é para nós uma consciência que reflecte sobre o que se pensava antes dele e sobre o que fazia com que antes dele se pensasse de uma determinada maneira»

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«(…) É claro que certas pessoas preferiam outra liberdade: a de sonhar, dormir talvez; e essas, contra Oliveira Martins continuarão a explicar, por exemplo, o obscuro da constituição histórica de Portugal por uma coisa ainda mais obscura, a lusitaneidade; e censurarão no historiador aquilo que justamente o torna interessante, que é a radicação no passado nacional dos problemas da sociedade sua contemporânea, a suspeita de que os portugueses se têm batido historicamente, com sorte nem sempre feliz, contra o mesmo desnivelamento social humano de que é preciso resgatá-la agora (agora, em 1885; em 1984, e agora 2012, e agora 2013…). Nós queremos libertar-nos das nossas condições, vendo-as de frente, deixar a outras pessoas aquela espiritualidade do avestruz que evita as realidades molestas enterrando a cabeça na areia. Ora (insistindo), se nos interessa o homem histórico, o homem do seu tempo, o homem sempre diferente, progressivo, o homem que faz experiência, em vez de homem de sempre, o homem-avestruz que põe a cabeça fora do mundo, os problemas de Oliveira Martins são para nós os da sua geração; Oliveira Martins é para nós uma consciência que reflecte sobre o que se pensava antes dele e sobre o que fazia com que antes dele se pensasse de uma determinada maneira. Com Oliveira Mútins libertamo-nos, portanto, de velhas misérias, não pelo sonho nacionalista mas pela consciência inteligentemente patriótica que nos reclama uma acção. E é com este Oliveira Martins que podemos reaprender, não o seu ambíguo cesarismo à Bismark, não o seu sonho ibérico, e o seu antifeminismo, não as soluções inevitavelmente ultrapassadas pela segunda revolução industrial da turbina eléctrica e do motõr de explosão, mas certas verdades mais elementares, como esta, que lhe inspira o projecto de lei do fomento rural, toda a sua obra de economista e o melhor da sua obra de historiador: a Nação não é um substantivo abstracto, mitologicamente maiusculado, com insígnias drapejantes aos ventos passadistas ao gosto de Ramalho, TeóÍilo e do Estado Novo; a Nação só ganha em dignidade se, de substantivo próprio e abstracto, se fizer um substantivo comum e colectivo.

A carreira literária de Oliveira Martins desdobra-se paralelamente à de um grupo, que pode considerar-se intelectualmente emancipado pelo início da década de 1870, e até, podemos precisar melhor: desde 1871. É claro que o grito contra os filisteus fora já erguido em Coimbra seis anos antes, por Antero e Teófilo. Mas em 1865 havia mais uma vontade de revolta do que uma consciência de fins; Antero e Teófilo vieram sobretudo afirmar, em 1865, a galhardia de uma independência mental que fez pela primeira vez escândalo, mas não era nova em Coimbra, nem no Porto, nem da parte deles, nem de outros até já consagrados, como João de Deus; e vieram, sobretudo, decorar com nomes alemães (Hegel, Herder, Heine, Goethe) e de intermediários franceses (Vera, Michelet, Quinet, Proudhon) a mesma metafísica do Progresso Indefinido e da Imanência, o mesmo jacobinismo folclorista, o mesmo socialismo federalista e utópico que tinham emergido, aqui e além, desde meados de 1850, em Soares Passos, Mendes Leal, José Estêvão, Tomás Ribeiro, Henriques Nogueira.
Sim, aqueles que hoje nos parecem românticos retardatários foram, afinal, os iniciadores da grande geração iconoclasta. Com o Firmamento, de Soares de Passos, a poesia lamartineana da emoção cósmica deriva de Herculano para as Odes Modernas de Antero; e o culto pessimista de Camões, como símbolo patriótico e libertário, chegou de Garrett, por intermédio de Passos e Mendes Leal, a Teófilo, que abrirá com o terceiro centenário camoniano o precedente das comemorações pátrias retrospectivas, sucedâneo moderno do sebastianismo. De resto, ideologicamente, Teófilo Braga foi o nosso mais puro romântico. Por outro lado, o republicanismo federal em que são correligionários Teófilo Braga e Antero de Quental, até que este se decide por novos rumos, apontados por Oliveira Martins, tinha feito escola desde 1851 com Henriques Nogueira». In Óscar Lopes, Álbum de Família, Ensaios sobre Autores Portugueses do século XIX, Reflexões sobre Herculano como polemista, Editorial Caminho, Colecção Universitária, Lisboa, 1984.

Cortesia de Caminho/JDACT

quarta-feira, 12 de março de 2014

Oliveira Martins. As contradições da Geração 70. Óscar Lopes. «… a crítica à arte, e, segundo uns, a obra do economista à sanha demolidora, segundo outros, um autêntico pensamento revolucionário ao gosto da acção política imediata»

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«Talvez não seja mau colocar-me de início no ponto de partida modesto de toda a reflexão, mesmo a científica: a opinião corrente, o lugar-comum. Ora, acerca de Oliveira Martins, se me não engano, o lugar-comum reza: autor perigoso, cheio de contradições, nomeadamente as que- nele sacrificaram a crítica à arte, e, segundo uns, a obra do economista à sanha demolidora, segundo outros, um autêntico pensamento revolucionário ao gosto da acção política imediata. Aceitemos esta visão banal; em vez de refutar uma banalidade, vale mais a pena, quase sempre, explicá-la, o que conduz aos mesmos resultados, sem indispor o nosso semelhante. Se o artista bulha com o crítico, em Oliveira Martins, como definir em termos claros e distintos a arte desse artista, a crítica desse crítico? Pois uma arte, uma crítica, exigem caracterização, salvo para os temperamentos ingenuamente devotos e suficientes. E, da mesma maneira, se um utopista, ou um reaccionário, consoante as predilecções, perturbam o historiador ou o político, basta o pressuposto de existir em Oliveira Martins um historiador, um político, estimáveis, para a gente desconfiar das oposições sumárias. Mas, além disto, se- Oliveira Martins, que é sob o aspecto doutrinário o mais interessante espírito da chamada geração realista, se caracteriza por certas contradições, pelo senso das antinomias que António Sérgio dilucidou em vários ensaios, se Oliveira Martins, homem representativo, é contraditório, antinómico, temos de supor que nele se reflecte ou contém eminentemente o que afinal se debatia, se contraditava na sua geração. Pode dizer-se que, de algum modo, os grandes homens são os mais condicionados pela sua época, porque, ou se não têm problemas vividos ou têm-se os da época; os grandes homens são condicionados, mais do que os outros, pela sua época, porque se condicionam a ela, porque fazem história, é fazer história significa o reconhecer de dados positivos e agir produtivamente.
Tem-se dito que o homem é um animal racional, ou um animal religioso ou metafísico, ou social. Mas sociais são-no as abelhas e as térmitas; em pura metafísica pode imaginar-se, como Unamuno, que os caranguejos discutem as raízes das equações do segundo grau, tranquilos e imperscrutáveis, sob a carapaça; razão análoga pode, sempre em virginal metafísica opor-se às outras definições. Só não pode duvidar-se de que o homem seja um animal superiormente histórico; o que significa que a dignidade do homem consiste precisamente na impossibilidade de definir o homem de sempre, porque o homem se refaz à medida que vai tomando consciência das suas condições. Oliveira Martins foi uma personalidade relevante, porque quis ser e soube ser do seu tempo; a sua actualidade não reside nas soluções que achou mas nos dados com que temos de contar para acharmos, nós, hoje, as nossas soluções, e de que ele teve a primeira consciência. Por outrass palavras: Oliveira Martins só pode viver em nós na medida em que se condicionou, e nos condicionou, aos factores de um pensamento activo. A autêntica liberdade do espírito é a consciência activa do que nos determina, do que nos limita, do que nos resiste e do que, por isso, caracteriza a nossa reactividade.
Foi assim que Oliveira Martins nos libertou de certos devaneios delirantes, subalternizando as pseudo-explicações rácicas e vagamente patrioteiras na diferenciação nacional; fazendo suspeitar os factores burgueses (entre outros móbiles sociais) da revolução do Mestre de Avis; sublinhando o anacronismo peninsular do espírito cavaleiresco, medieval, sob o dogmatismo jesuíta dos séculos XVII e XVIII; definindo o vector fundamental do fontismo, a sua hierarquia dos problemas nacionais, que consistiu no fomento agrícola e industrial, pelo barateamento do crédito, pela pauta alfandegária inteligente, pela emancipação dos produtores, pelo apoio técnico, à política vistosa e submissa ao imperialismo das vias-férreas, das estradas, dos empréstimos internos e externos (parecem hoje: 1984 e 2012…)». In Óscar Lopes, Álbum de Família, Ensaios sobre Autores Portugueses do século XIX, Reflexões sobre Herculano como polemista, Editorial Caminho, Colecção Universitária, Lisboa, 1984.

Cortesia de Caminho/JDACT

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Descubrimientos de los Portugueses Anteriores al Viaje de Colon. Conferência. Oliveira Martins. «… navegaciones portuguesas de los siglos XIV y XV pudiesen brotar abruptamente de los planes y del genio de un hombre, aunque ese hombre fuese, como fué, grandemente heroico el infante D. Enrique»

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Señores:
«De todo corazón agradezco la honra que el Ateneo me dispensa eligiéndome para narrar á esta Asamblea ilustre lo que fueron las navegaciones portuguesas anteriores al viaje de Colón. Quiso el destino que Portugal rehusase los ofrecimientos y resistiese á las tentaciones del gran navegante que dio á Castilla las Américas quién sabe? para que en esas propias Américas, simultáneamente labradas por nosotros, estos dos pueblos hermanos apareciesen también vecinos y también hermanados por los vínculos luminosos que los enlazan sobre los pedestales de la Historia. Cuando se observa, señores, el contorno de la Península hispana delineando un cuadrado casi perfecto, y en ese cuadrado la zona portuguesa que bordea, aunque incompletamente, la faz occidental, desde luego se comprende cómo los pueblos de la España, separados en varios reinos, que al fin vinieron á fijarse en dos, representan en el mundo uno solo é igual pensamiento, una sola y soberana acción.
Ese pensamiento y acción se realizaron en los descubrimientos ultramarinos, que también estaban indicados como destino á las naciones poseedoras de la Península extrema del occidente europeo. Cualquiera que fuese el carácter psicológico de esos pueblos, el hecho físico de su localización litoral, determinaria la naturaleza de su papel histórico. Así es que vemos á los frisios y á los jutes, ramos de la familia germánica, tan diversa por temperamento de la española, concurrir con ella en la exploración ultramarina, por lo mismo que también les fué destinado en Europa un lugar litoral sobre el mar del Norte. Pero si la fuerza de las cosas así impelía á las naciones peninsulares, no por eso cada una dejaba de colaborar en la obra común con sus dotes y cualidades peculiares. Mientras el castellano iniciaba de un golpe su empresa, rasgando de parte á parte el Océano en esa aventura genial de hace cuatro siglos, nosotros los portugueses íbamos pausada y pacientemente á lo largo de las costas africanas ó de isla en isla, en ese propio mar que Colón surcó como un rayo, caminando paso á paso, avanzando siempre, con una audacia tan perseverante como prudente.
Un mismo destino, un mismo norte, una única ambición nos movía, no obstante, á ambos: era la India. Y cuando cada una de las naciones peninsulares halló sus Indias, el carácter del dominio, la naturaleza de la ocupación y las fisonomías de los héroes de ambos países, siempre iguales en el espíritu proselítico, siempre idénticos en la acción dominadora, encuentran, sin embargo, fórmulas diversas con que se acentúan de un modo imposible de confundir. Y todavía, de cualquier forma, con la candidez y con la audacia, con férrea violencia, y con tenacidad de bronce, con el amor y con el imperio; cada cual con sus dotes propios, caminábamos ambos á un destino común, colaborando en una idêntica empresa, coronándonos recíprocamente con una aureola de gloria que marcará en todo y siempre, mientras haya memoria de hombres, nuestros pasos por el teatro infinito de los siglos.

Señores:
Ya nadie hoy se atreve á suponer que hechos tan considerables como fueron las navegaciones portuguesas de los siglos XIV y XV pudiesen brotar abruptamente de los planes y del genio de un hombre, aunque ese hombre fuese, como fué, grandemente heroico el infante D. Enrique. La señal de los héroes es la intuición con que sienten y perciben pulsear el alma de un pueblo, y encarnándola en sí, se vuelven como símbolo nacional. Por tal motivo, mucho tiempo pasaron por creadores.
No es así. El viejo aforismo ex nihilo nihil, en punto alguno se demuestra más exacto que en éste; y así es que, antes de acercarnos nosotros á la figura grandiosa del infante D. Enrique, hemos de estudiar con minuciosa paciencia el desenvolvimento colectivo y obscuro de los elementos con que pudo y supo levantar el edificio de gloria suma de toda la España, porque fué de ese nido de águilas plantado en Sagres que saheron todos, absolutamente todos los navegantes peninsulares». In J. P. Oliveira Martins, Navegaciones y Descubrimientos de los Portugueses Anteriores al Viaje de Colon, Conferência, leída el dia 24 de Febrero de 1892, Ateneo de Madrid, Sucesores de Rivadeneyra, Madrid, 1892.

Cortesia de AteneoMadrid/JDACT

sexta-feira, 19 de julho de 2013

A Tertúlia Ocidental. António José Saraiva. «Laços de harmonia, de sentimento, de pensamento como aqueles que nos unem meia dúzia de rapazes que vivem em Portugal, somos os mais fortes de todos. E assinava: Confrade no futuro»

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O Desterrado
«(…) Oliveira Martins também partiu, mais tarde, mas não para uma viagem de recreio. A bem dizer, emigrou em busca de pão. Santa Eufémia é hoje uma aldeia silenciosa e pobre nas faldas da serra Morena. No centro há uma igreja românica de tijolo maciço. O largo da igreja é ladeado por umas casas caiadas de branco sujo cobrindo cantaria de granito e de adobe como na Beira Baixa. Pouca gente passa no largo, homens idosos estão acocorados na soleira das casas. Mas no tempo de Oliveira Martins os mineiros e suas mulheres davam uma certa animação ao lugar. Ele gostava de ouvir os pares que dançavam e cantavam a malagueña, no intervalo do trabalho, debaixo das suas janelas. Olhando para cima, vêem-se penedias ameaçadoras em forma de dentes. Em direcção ao vale, oliveiras e sobreiros. Ao longe, chaminés apagadas atestam uma actividade mineira já extinta.
Santa Eufémia está longe de tudo. A estação de caminho de ferro em Almadén dista 40 km por caminhos da serra e não há aldeia mais perto. Oliveira Martins era obrigado a aceitar este desterro porque tinha de sustentar a mãe e os irmãos, a um dos quais, Guilherme, pagaria mais tarde estudos universitários. Chegara de Lisboa no calor do verão de 1870, acompanhando talvez o patrão, o engenheiro inglês George Ellicot, e trazendo consigo a esposa, D. Maria Vitória. Deixava para trás amigos, tertúlias e salas de redacção, largava o jornal República, que nesse mesmo ano tinha fundado.
Que vinha ele fazer nas minas? Que relações eram as suas com os mineiros? Seu irmão Guilherme é discreto quanto a este ponto. Já depois da sua morte, sugere que Joaquim Pedro desempenhara funções mais humanas que técnicas: Estava sempre pronto para lhes dispensar o seu auxílio, quer curando-lhes as feridas do corpo, quer melhorando-lhes as da alma. Era como se fosse um encarregado de pessoal. Ellicot era seu amigo, e a carta que vinte anos depois lhe escreveu de Paris, num francês impecável, revela-o um homem culto e interessado em doutrinas sociais.
Para combater o isolamento, Oliveira Martins tratou de escrever aos amigos. Correspondia-se com Teófilo Braga desde 1868 e tratava-o no desterro como um irmão de almas, considerando-o como pertencente ao grupo de rapazes de quem dependia o futuro da Pátria: Laços de harmonia, de sentimento, de pensamento como aqueles que nos unem meia dúzia de rapazes que vivem em Portugal - somos os mais fortes de todos. (Sic.) E assinava: Confrade no futuro.
O futuro era tudo quanto possuía este jovem de 25 anos, sem fortuna, sem diploma, sem nome, e que ganhava a vida longe da família, em terra alheia: Para obter o pão de cada dia por cá ando no meio de trabalhos maçadores e estúpidos que levo alegre porque sinto que sem eles que me dão o sossego da minha consciência. E, generosamente, atribuía ao seu destinatário a mesma grandeza de alma que imaginava em si, dizendo na continuação da carta: O seu caracter, meu caro Teophilo, é daqueles que podem entender isto que eu lhe escrevo, porque o pratica. Com efeito há um verdadeiro orgulho, o sentimento de uma personalidade livre, de uma consciência sossegada, nesta nulidade exterior, neste não ser cousa nenhuma que já agora - creio eu – será toda a minha vida!
Oxalá o fora! Oliveira Martins não era, como Antero, um carácter diamantino, embora inconstante, nem, como Teófilo, um pesado bloco de chumbo. Era uma espada de rijo metal com zonas ou betas frágeis por onde facilmente se quebrava. Essas zonas frágeis manifestavam-se nos momentos mais inoportunos. A sua força estava na resistência à fadiga, na continuidade do trabalho, em épocas de rotina. Mas muitas vezes hesitava ou recuava quando era preciso tomar decisões cruciais. Foi o que lhe aconteceu na jogada final da vida, breve jogada preparada de longe, mas em que se perdeu tudo o que até então se preparara. Esse momento, no entanto, ainda vem longe.
Agora o futuro está em gestação: Aqui, no meu deserto, trabalho entretanto, e agora mesmo estou refundindo e coordenando os meus estudos de direito público e economia social: é um meio de fixar ideia donde poderá talvez resultar um livro útil para a futura revolução portugueza; e nos intervallos de leituras que exigem concentração e esforço, vou refundindo o meu theatro. Martins pretendia intervir, como se vê, na futura revolução portuguesa, ele que linhas atrás tinha dito não querer ser cousa nenhuma. E logo a seguir atribui-se o papel de testemunha muda: Toda a minha ambição, meu caro Teophilo, é que no futuro se possa dizer: havia alguém que não era míope. Esta, parece-me, deve ser toda a nossa ambição, e a nossa retribuição também. Deixai-os folgar na saturnal pública! E alem de tudo, dado este movimento de abstenção e sabendo aguentá-lo por uma vida inteira, não é isto só por si, um golpe mortal dado no mundo constituído?»

In Tertúlia Ocidental. Estudos sobre Antero de Quental, Oliveira Martins, Eça de Queiroz e Outros, António José Saraiva, Herdeiros de António José Saraiva e Gradiva Publicações, 1996, ISBN 972-662-475-4.

Cortesia de Gradiva/JDACT

terça-feira, 16 de julho de 2013

A Tertúlia Ocidental. António José Saraiva. «Paris era a terra clássica das revoluções e estava ainda para vir a maior de todas: a Comuna de 1871. Precisava de alguma coisa que fizesse ressurgir o seu coração, ou que os factos dessem razão ao seu cansaço…»

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Pré-história de Antero
«(…) Depois de Bom Senso e Bom Gosto Antero publicou um segundo panfleto com o título A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais, onde insiste em que o seu ponto de vista na polémica é mais moral do que literário. O que o repelia em Castilho era o oportunismo e a adulação do mundo estabelecido (como ele bem sabia instintivamente desde a estada de Castilho em Ponta Delgada). Antero tinha-se formado em Direito em 1863, mas era impensável para ele ser juiz, advogado ou administrador, dando aplicação aa seu diploma. Por isso vagueava entre Coimbra, Porto e Lisboa. O seu temperamento fogoso procurava uma empresa a que se dedicar.
Estava em Lisboa quando escreveu a António Azevedo Castelo Branco incitando-o a alistar-se consigo nas hostes de Garibaldi: era uma bela ocasião para sair do aborrecido sopa-vaca e arroz da vida ordinária; perguntava: Queres ir? Un bel morir tuta la vida onóra. Mas, em vez de embarcar para Itália, voltou para a terra natal, para junto da família, donde veio a Lisboa aprender o ofício de tipógrafo na Imprensa Nacional. Para isto servia o seu diploma universitário? Mas o seu alvo era outro e grande: fazer-se operário e (falando metaforicamente) alistar-se no grande exército do proletariado. Mas não se atreveu a apresentar este pretexto à família. Falou num emprego editorial em Paris.
Paris era a terra clássica das revoluções e estava ainda para vir a maior de todas: a Comuna de 1871. Precisava de alguma coisa que fizesse ressurgir o seu coração, ou que os factos dessem razão ao seu cansaço, esta ideia consta de uma carta que, antes de partir, escreveu a Alberto Sampaio. Chegou a Paris no Inverno de 67. Sofreu com o frio e a solidão. Nas cartas que escreveu a Alberto Sampaio descreveu o Trabalho com os chavões da literatura socialista: triste [...] forçado, partido e dividido. Não há aqui uma única palavra que denote uma experiência vivida. Mas, em vez da fábrica, sabemos que frequentou cursos do Collège de France (que são gratuitos), donde, no meio das aulas, saía para não dar em espectáculo os seus ataques de choro. Olhava as águas turvas do Sena com pensamentos suicidas.
Ao fim de dois meses escreveu a Alberto Sampaio pedindo-lhe abrigo para uma estada incógnita na sua quinta de Santana, perto de Guimarães. Recomendava-lhe o máximo sigilo, pois não queria que os amigos e sobretudo a família soubessem do seu fracasso. Na quinta e na companhia dos Sampaios refez-se um pouco. Voltou a Paris no Verão, desta vez acompanhado por Alberto Sampaio. Queria cumprir uma parte do seu programa inicial: visitar alguns grandes homens mestres da sua geração. Visitou Michelet, apresentando-se como M. de Bettencourt, da dinastia dos reis das
Canárias, para lhe oferecer as Odes Modernas em nome do seu amigo Antero de Quental. Dessa visita ficou-lhe um dito inesquecível do mestre: Je ne puis me passer de Dieu.
Regressou, por fim, a Ponta Delgada sem ter chegado a filiar-se no grande exército do proletariado, como um Quixote que dera um tombo. Escrevia a António Azevedo Castelo Branco: A ti, e aos meus amigos peço me desculpem os ares de forte e altivo combatente que me tenho por mais de uma vez dado, em palavras. Mas eu era sincero.
Esta aventura malograda não curou o seu desassossego. Dois anos antes Antero convidara A. A. Castelo Branco para se alistar nas hostes de Garibaldi, como vimos. Provavelmente, Castelo Branco dissuadira Antero desse projecto. Mas na ilha de S. Miguel que podia fazer Antero senão aborrecer-se? A guerra italiana entre o Papa e Garibaldi continuava e não havia outra; por isso Antero escreveu a outro amigo, Alberto Sampaio, no Verão de 1868, propondo-lhe que ambos assentassem praça, mas agora como voluntários nos Zuavos, que eram uma espécie de brigada internacional ao serviço do Papa contra Garibaldi, que nessa época atacava Roma. Nestas duas atitudes opostas só há de comum o desejo de aventura. Antero queria fugir de si próprio. Manifesta-se aqui o mesmo homem dividido que na Defesa da Carta Encíclica atacava e defendia com igual eloquência a Igreja Católica. Queria fugir, mas para onde? Diz noutra carta a Alberto Sampaio, na mesma época.
Finalmente, a porta da aventura abriu-se com a deposição da rainha Isabel II de Espanha em 1868. Antero, recém-chegado a Lisboa, estava proposto, por intermédio de João de Deus, para redactor em língua portuguesa de um jornal democrático e ibérico que ia ser lançado pelo grupo republicano de Canovas del Castillo. Para valorizar a sua candidatura preparou um panfleto que se intitulava Portugal perante a Revolução de Espanha. O tema era O que vai a Espanha fazer da sua liberdade? E nesse panfleto que figura o célebre dito dirigido aos patriotas portugueses: O único acto possível e lógico do verdadeiro patriotismo consiste em renegar a nacionalidade. Mas em Lisboa, voltando uma vez mais da ilha, Antero encontrou os velhos companheiros de Coimbra, que se tinham dispersado: João de Deus, João Lobo Moura, os irmãos Faria e Maia, Manuel de Arriaga, Eça de Queiroz e o futuro cunhado deste, o conde de Resende. Renasceu em Lisboa a atmosfera que no prefácio das Primaveras Românticas Antero chamará a fantástica e encantada Coimbra. Segundo Eça (no In Memoriam de Antero), Antero), organizou estes moços turbulentos, levando-os a ler disciplinadamente Proudhon. Mas é deste tempo a invenção por Antero, Queiroz e Batalha Reis da poesia satanista de Fradique Mendes. Daqui Eça partiu para o Egipto e Antero embarcou num veleiro para a América do Norte. Quando voltaram, procurou-os Oliveira Martins».

In Tertúlia Ocidental. Estudos sobre Antero de Quental, Oliveira Martins, Eça de Queiroz e Outros, António José Saraiva, Herdeiros de António José Saraiva e Gradiva Publicações, 1996, ISBN 972-662-475-4.

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