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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Tratado dos Feitos de Vasco da Gama e de seus filhos na Índia. Diogo do Couto. «Enfim, valeu-lhes fundamentalmente, Deus, mas também o muito tento e a prudência e cautela de Vasco da Gama (segundo a imagem transmitida por Couto), apesar de, por vezes se mostrar homem colerico e apressado nas resoluções»

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Introdução
«(…) Do ponto de vista do proveito, é sabido que a viagem inaugural de Vasco da Gama não suscitou logo grandes efeitos directos. Foram embarcados em 1497 (e estamos a apoiar-nos no Tratado) panos, barretes vermelhos, gorras, cascavéis, facas e outras coisas de pouca monta (mais próprias para as trocas directas da Costa Ocidental Africana, acrescentamos nós), pelo que com tão vulgares e desvalorizadas para-moedas não seria possível intervir comercialmente nas já fortemente monetarizadas economias do Índico. Limitou-se, pois, a primeira expedição do Gama a trazer amostras das especiarias asiáticas, tal como, aliás, à partida, lhe fora solicitado. Apesar de tudo, em Moçambique terá oportunidade de tomar conhecimento do trato do ouro de Sofala, ou antes, do Monomotapa e os mercadores portugueses terão ensejo de, além dos perigos, se aperceberem de como funcionavam os mercados orientais. Assim, conforme alguns diplomas régios registam, o proveito cobyçado de tamtas gentes rrecreçeo a nós [rei] e aos ditos nosos rreinos, a partir da primeira viagem de Vasco da Gama, acrescentando outros que também toda a Cristandade afinal beneficiou. O bem que adveio para o Reino e para o serviço de Deus com a descoberta da Índia e o largo contributo que ela deu para o conhecimento do orbe e dos homens teve, porém, um ónus elevado, quer se considerarmos os enormes gastos suportados pela Coroa/Estado, quer os elevados riscos/perigos inerentes a tal aventura. Dos gastos não falaremos (nem Couto parece preocupar-se muito com eles, pelo menos, no seu Tratado), mas dos perigos procuraremos dar alguns exemplos, até porque será a circunstância de se pôr a vida a risco que, nos séculos XV e XVI, se confirmará como uma das vias que mais concorriam para se obter honra, ou para galardoar quem se dispunha a servir bem o rei e a comunidade. Ora, à nobreza natural (própria do homem que já nasce nobre) Vasco da Gama acrescentou a nobreza civel e politica que os seus feitos (arriscados e conseguidos) lhe granjearam e os reis portugueses reconheceram. Concretamente (e voltamos a seguir o Tratado): durante a primeira viagem, Vasco da Gama e os companheiros foram atacados, às azagaiadas, no rio S. Tiago, tendo o capitão-mor ficado ferido num pé; o piloto que tomaram em Moçambique pretendeu meter as embarcações no saco de Quíloa e deu com a nau S. Rafael em cima de uns baixos; os mouros de Calecute pretenderam incendiar os navios portugueses; a expedição correu o risco de ficar retida na Índia, com a monção desfavorável; no rio de Onor, já no regresso, o corsário Timoja armou um perigoso ardil aos portugueses. De todas estas fortes ameaças para a vida humana os nossos se livraram sob o comando competente e heróico de Vasco da Gama, com o auxílio de Deus Nosso Senhor. Enfim, valeu-lhes fundamentalmente, Deus, mas também o muito tento e a prudência e cautela de Vasco da Gama (segundo a imagem transmitida por Couto), apesar de, por vezes se mostrar homem colerico e apressado nas resoluções. Porém, esta característica, aparentemente desfavorável do valerozo capitão, não sairá depreciada à luz do juízo de Couto, já que, como era rezulluto ao concelho, assim trabalhou sempre pello ser na ezecussaõ.
Era (é) na guerra que as virtudes humanas (valentia, prudência, justiça, temperança...) mais tinham oportunidade de se afirmarem. Por tal e como se explicita noutros Tratados quinhentistas sobre a nobreza civil e cristã, o ofício das armas era o mais nobre/honrado do Mundo, uma vez que por ele era conservada a liberdade, acrescentada a dignidade e multiplicados os reinos e senhorios. Ora, deste ponto de vista, a imagem que Couto nos dá de Vasco da Gama, sobretudo da sua actuação na Índia durante a segunda e a terceira permanências, é não só a de um bom combatente e exigente comandante militar, como a de um empenhado administrador do futuro Estado da Índia». In Diogo do Couto, Tratado dos Feitos de Vasco da Gama e de seus filhos na Índia, organização de José Azevedo Silva e João Marinho Santos, Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras, Edições Cosmos, Porto, 1998, ISBN 972-762-081-7.

Cortesia da FL da UCoimbra/JDACT

Tratado dos Feitos de Vasco da Gama e de seus filhos na Índia. Diogo do Couto. «Ora, deste ponto de vista, conforme Couto registou na Oração / discurso que estava feita para o dia, que se alevantasse [em Goa] a estatua do conde [Vasco da Gama], que não veio a efeito»

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Introdução
«(…) Enfim, por estas e outras razões explícitas, Vasco da Gama, para Couto, fora um predestinado, bem como o monarca que lhe facultou a viagem da descoberta da India, ou seja, Manuel I. Lendo, com efeito, O Soldado Prático, encontramos na parte final da obra, em jeito de resumo, a seguinte proclamação: cotejando os favores que Deus fez aos israelitas e a nós, portugueses, ficámos sem dúvida beneficiados. Porquê ou para quê? Nos os Portugueses não assim [não fomos desfavorecidos], porque como Deus Nosso Senhor tinha determinado mandar dilatar e pregar a sua santa lei por autores de cousa tamanha, que foi o mor mimo e mercê de todos os que fez aos filhos de Israel, abriu-lhe[s] caminho por meio desse Oceano por distância de seis mil léguas e em seis meses de jornada, sem risco, nem perigo; porque as três naus que a isso foram, todas tornaram a este reino. E no Tratado de todas as cousas... volta a afirmar que o negócio da descoberta da Índia foi tamanho ou cousa grande, pelos gastos exigidos, pelo risco de aventura e, sobretudo, por ser serviço de Deus e bem do Reino. Pois, ao dispor-se Vasco da Gama a ser padrinho de baptismo do judeu polaco, emissário do sabaio de Goa, não deu ele continuidade à acção evangélica de um apóstolo? E assim podemos dizer que Vasco da Gama foi o primeiro depois do appostolo S. Thomé que nestas partes [...] comesou a ezercitar este santo salvamento e que abrio esta fonte donde depois manou a amplissima christandade que por todo o Oriente se estende - comentará, Couto.
Enfim, o autor do Tratado é um acérrimo defensor da ideologia que, desde 1415 (leia-se, particularmente o Livro de Arautos, publicado em 1416 ou a Crónica dos Sete Primeiros Reis de Portugal, iniciada em 1419), tradicionalmente ou de uma forma estrutural, sustenta a Expansão Portuguesa e de que uma das linhas de força será a aliança estabelecida entre Deus e os portugueses: eles difundiriam a sua religião e Ele combateria a seu lado. Ora, deste ponto de vista, conforme Couto registou na Oração / discurso que estava feita para o dia, que se alevantasse [em Goa] a estatua do conde [Vasco da Gama], que não veio a efeito, designadamente, se o valeroso capitão não tivesse descoberto o Estado da Índia, não fora a Virgem Maria ali tão venerada. Com efeito, ela andava associada, pelos portugueses, à empresa da Expansão, juntamente com alguns santos (S. Tiago, S. Tomé...) e se, por sua intercessão, (é esta a interpretação de Diogo do Couto), os nossos alcançavam do Céu favores, também eles lhos prestavam. Concretamente, a Virgem tinha particular obrigação para com Vasco da Gama.
A par do proveito espiritual, deveria ser considerado, igualmente, por ser necessário e legítimo (segundo as mentalidades e ideologias da época do Gama) valor material. Ora, do ponto de vista do último destes valores, segundo Couto (e estamos a citar, novamente, a oração referida), Vasco da Gama não descobrio nesta jornada [a primeira] o horto das Espheridas, onde fabullarão haver maçans d'ouro, mas descobrio-nos montes d'ouro, serras de prata, descobrio-nos minas de diamantes, e rubis, pedras d'esmeraldas, e çafiras, descobrio mares, e pescarias de perolas serenissimas, deo noticia ao mundo de todas as especiarias aromatecas com que oje se emrequesse, descobrio-nos emfïm todas as louçainhas lindezas, e riquezas deste Oriente [...]. Em suma, no contexto da economia e da sociedade portuguesa, a descoberta da Índia permitiu aumentar o número e a abastança das casas senhoriais, a ponto de algumas delas suplantarem em majestade as antigas casas reais. Concorreu, enfim, e decididamente, para o crescimento e o desenvolvimento do nosso pequeno Reino». In Diogo do Couto, Tratado dos Feitos de Vasco da Gama e de seus filhos na Índia, organização de José Azevedo Silva e João Marinho Santos, Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras, Edições Cosmos, Porto, 1998, ISBN 972-762-081-7.

Cortesia da FL da UCoimbra/JDACT

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Tratado dos Feitos de Vasco da Gama e de seus filhos na Índia. Diogo do Couto. «… a finalidade do Tratado com o objecto do mesmo, pensamos poder afirmar que o registo dos feitos dos filhos de Vasco da Gama na Índia apenas amplia ou robustece as maravilhosas couzas…»

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Introdução
«(…) O manuscrito que agora se publica coloca, pelo seu mau estado, sérias dificuldades e manifestas impossibilidades de leitura, particularmente quanto aos primeiros 14 capítulos da Segunda Parte. Na transcrição, aproximámo-nos dos critérios apontados por Vitorino Magalhães Godinho para as edições diplomático-críticas (Revista de História Económica e Social). Esclareça-se, contudo, que, na medida do possível, procurámos colmatar essas lacunas com o texto dos capítulos das Décadas. Trabalhámos sobre cópia obtida a partir do microfilme, mas cotejámos as dúvidas que nos surgiram com o próprio microfilme. Procurando favorecer a leitura, sem retirar ao texto o seu sentido cultural e o seu sabor arcaico, adoptaram-se as seguintes opções: desdobraram-se as abreviaturas; suprimiram-se as iniciais maiúsculas nos nomes comuns e em simples elementos, de ligação gramatical, mas mantiveram-se, ou tomaram-se em todos os nomes próprios.
Quanto ao conteúdo, o autor define concretamente no longo título, o objectivo que a si mesmo se propôs tratar os feitos de Vasco da Gama e de seus filhos no Oriente. A primeira parre da obra constitui uma crónica dos sucessos obtidos por Vasco da Gama nas três vezes que passou à Índia e em especial durante a primeira. É que, segundo Couto, talvez pela grandeza e temeridade da viagem do descobrimento, tal feito passou a figurar mais como couza que passou la na outra vida e não tanto como empreendimento realizado há relativamente pouco tempo sob o comando de um mortal, precisamente o bisavô de Francisco Gama. Logo, se louva a diligência deste, não deixa de, frontalmente, como era faceta característica da sua personalidade (leia-se, também, o relato biográfico de couto, da autoria de Manuel Severim Faria) criticar a incúria dos outros descendentes do primeiro conde da Vidigueira e almirante do Mar Indico, por não perpetuarem convenientemente a sua memória. Enfim, sem confundirmos a finalidade do Tratado com o objecto do mesmo, pensamos poder afirmar que o registo dos feitos dos filhos de Vasco da Gama na Índia apenas amplia ou robustece as maravilhosas couzas, e os raros e espantosos socessos que o valeroso capitão realizou.
Repare-se, com efeito, como o espaço da actuação do herói (por ser para os ocidentais, designadamente para os portugueses, um espaço incógnito e tão distante, a última das terras) é elemento decisivo na avaliação dos feitos que realiza no âmbito das descobertas e das conquistas, a ponto de, por sugestão de João de Barros, Diogo do Couto insistir que ao nome de Vasco da Gama se deveria associar o epíteto de o Índico, à semelhança de Cornélio Cipião, o Africano, ou Jacob, o Ismaelita. Justificá-lo-ia a proeza de ter alcançado a incógnita e distante Índia, mas sobretudo o facto de ela não ter ficado isolada no pensamento real e imaginário dos ocidentais, nem o seu interesse por ela se ter circunscrito a uma mera fruição à escala local e regional. O que a indústria e o esforço dos homens (europeus) sobremaneira proporcionaram, através do feito extraordinário da descoberta do Gama, foi tornar comonicaveis o Gange com o Tejo, o Eufrates cõ o Minho, o Nilo cõ o Douro, o Tigre cõ o Gadiana, ajuntando o primeyro ponto do naçimto do sol, cõ o uhimo fin de seu ponte. Eis, pois, o Oriente ligado, por interesses vários e com carácter sistemático, ao Ocidente, precisamente através do pequeno Portugal, situado na parte mais ocidental e, por isso mesmo, no dizer de Camões, cabeça da Europa.
Que sabia esta Europa de matéria de cosmografia? Que (além do mais) a terra já não era plana, mas esférica; que havia antípodas, apesar de parecer ser anti-natural; que estas e outras desmitificações se vinham processando graças ao esforço teórico e experimental dos europeus, mas também (e é esta a nota forte do discurso de Couto), porque no-las manifestou [e voltamos a citar a sua epístola a Francisco da Gama] aclarou e descobrio o nosso valerozo capirão dom Vasco da Gama». In Diogo do Couto, Tratado dos Feitos de Vasco da Gama e de seus filhos na Índia, organização de José Azevedo Silva e João Marinho Santos, Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras, Edições Cosmos, Porto, 1998, ISBN 972-762-081-7.

Cortesia da FL da UCoimbra/JDACT

sábado, 30 de março de 2013

Tratado dos Feitos de Vasco da Gama e de seus filhos na Índia. Diogo do Couto. «… o “Tratado” é sobre o Gama e os seus filhos que passaram à Índia. Exclui, portanto, os netos e os bisnetos. Aliás, António Coimbra Martins, noutro artigo publicado em 1985 desfaz todas as dúvidas a este respeito»

Nau do primeiro quartel do séc. XVI, pormenor do painel do retábulo de Vida e Martírio de Santa Auta
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«Não pode ele ser confundido de modo algum, portanto, por exemplo, com a Vida e feitos de D. Vasco da Gama, descobridor da Índia, e dos mais, fidalgos daquela família que militaram na Índia, da autoria de Francisco de Andrade, embora, como lembrava António Coimbra Martins, em artigo publicado em 1981 (Paris, Fundação Calouste Gulbenkian), nos ‘Arquivos do Centro Cultural Português’, XVI, pp. 283-85, sob o título ‘Quem Na Estirpe Seu Se Chama…’ ‘l'un et l'autre demeurent inédits’. Não integram, igualmente, o plano do Tratado os cinco Livros da Década XII, aparecidos em Paris em 1645, e alusivos ao primeiro governo de Francisco da Gama, como se disse bisneto de Vasco da Gama e vice-rei da Índia por duas vezes (1597-1600 e 1622-28). Insistimos: o Tratado é sobre o Gama e os seus filhos que passaram à Índia. Exclui, portanto, os netos e os bisnetos. Aliás, António Coimbra Martins, noutro artigo publicado em 1985 desfaz todas as dúvidas a este respeito, quando afirma:
  • Em 1601, já Diogo do Couto reserva para si mesmo, ao contrário do que afirmara em 1599, a elaboração e redacção da história do governo de Francisco. Não em crónica à parte, nem como apêndice ao Tratado dos Gama, mas no quadro da sua história da India Portuguesa, melhor ou pior repartida em Décadas.
Haverá uma outra cópia do Tratado ou até o original? Nos vários autores que consultámos não encontrámos qualquer alusão à sua existência. E, na prossecução dessa eventualidade, realizámos aturadas pesquisas na Secção de Reserva dos da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, no catálogo dos Manuscritos da Biblioteca Pública de Évora e no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Nada encontrámos a este respeito, o que mais valoriza o códice da Biblioteca Nacional de Lisboa e mais justifica a sua publicação, uma vez que o seu estado de deterioração e de legibilidade tende a agravar-se. Constatámos, isso sim, que Diogo do Couto utilizou, na elaboração da Segunda Parte do Tratado que ora se publica, alguns capítulos das suas Décadas IV, V e V, nalguns casos de forma bastante aproximada entre os dois textos, noutros procedendo a elaborações originais, a alterações, ajustamentos, cortes, junções ou acrescentos.
O cap. 1.º da Segunda Parte do Tratado afigura-se não ter equivalência nas Décadas, de Diogo do Couto, pelo que deve ter sido composto propositadamente para a primeira destas obras.
O cap. 2.º corresponde em parte ao cap. XI do Liv. VIII da Déc. IV (Parte II). Foi estabelecido o cotejo usando a edição Da Asia de Diogo de Couto, Lisboa, Na Regia Officina Typografica, Anno MDCCLXXVIII. A Primeira Parte deste capítulo coincide muito pouco e até o próprio título tem alterações maiores do que é comum.
O cap. 3.º tem pontos de contacto com o cap. XII do Liv. VIII da Déc. IV (Parte II). Só cerca de metade do título corresponde, sendo mais extenso na Década. A primeira parte apenas apresenta alterações de forma, terminando no Tratado com a referência às viagens de Banda. Na Década, Couto dá notícia das Ilhas de Banda, pelo que no Tratado foi suprimido quase metade do texto.
[…]

In Diogo do Couto, Tratado dos Feitos de Vasco da Gama e de seus filhos na Índia, organização de José Azevedo Silva e João Marinho Santos, Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras, Edições Cosmos, Porto, 1998, ISBN 972-762-081-7.

Cortesia da FL da U. de Coimbra/JDACT

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Década Quarta da Ásia. Diogo do Couto. «Para todos previu embarcações, soldos e mantimentos. Couto bate muito nesta tecla. Soldados contentes são aqueles a quem não faltam soldos nem mantimentos. Nuno da Cunha não consentia que, da fazenda dessa gente, se gastasse coisa alguma»


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Introdução à leitura da Década Quarta de Diogo do Couto
«São diferenças em toda a parte. Nas Molucas entre Garcia Henriques e Jorge Meneses, antigo e novo capitães de Ternate, em tempo em que os castelhanos disputavam connosco a supremacia naquelas ilhas. Jorge Meneses manda prender Garcia Henriques em ferros. Depois Garcia manda prender Jorge. Os sequazes de Jorge ameaçam obter a aliança dos castelhanos contra o antigo capitão.
Jorge Meneses vê-se livre de Garcia. No exercício do poder singulariza-se por vexações e crueldades, que o cronista acha indignas de portugueses. Sucede-lhe Gonçalo Pereira que o manda prender. O novo capitão descontenta os portugueses. Um português chamado Vicente Fonseca faz-se cabeça da conspiração. O capitão é assassinado, sucede-lhe -o conspirador.
É um tempo de revoltas. Não há soldados que queiram ir à Sunda, onde faz falta uma fortaleza nossa. Enganam os soldados. Dizem-lhes que vão às presas. Do que eles gostam é de ir às presas. Descobre-se o segredo. Os soldados amotinam-se e põem fogo à armada.
Couto nutre a maior admiração por Nuno da Cunha, governador que sucede ao usurpador Lopo Vaz. No primeiro Soldado prático aparece aquele como espelho de governadores. E todavia Nuno da Cunha, que parte de Lisboa em Março de 1528, só chega a Goa em Novembro de 1529. Teve uma viagem desastrada, envolveu-se em guerras pelo caminho. Os nossos quiseram submeter Barém, sofreram um desaire colossal. O primeiro objectivo assinalado pelo rei ao novo governador é a tomada de Diu e a construção de uma fortaleza nesta praça. Nuno da Cunha recebe verbas excepcionais, reúne armadas tremendas. Mas antes do seu exercício e durante perdem-se as ocasiões mais propícias. Em vez de Diu toma-se a ilha de Beth (como escreve Couto), onde somos causa directa ou indirecta de um massacre geral. É verdade que se constroem as fortalezas de Chale, de Baçaim, finalmente de Diu, que se obtêm (mas depois se devolvem) os territórios de Salsete e Bardês. E o rei de Cambaia, que, ameaçado pelos Mogores, nos faculta a tão almejada praça, acaba por morrer às nossas mãos. Couto atenua: por precipitação de um português de baixa sorte.
Estes são os factos. A edificação resulta da maneira como são contados. De como são interpretados e comentados, quando se prestam a isso. Em Cochim, Lopo Vaz Sampaio acaba de obter sentença em seu favor. É governador da Índia. Começa a dispor. A Cristóvão Mendonça, que foi seu adversário, fá-lo capitão de Ormuz. Atribui-lhe um galeão, uma caravela e dois bergantins. Nestes navios carregam-se os provimentos necessários àquela fortaleza, e muita fazenda de El-Rei para se lá vender.
Logo o contraste. Lopo Vaz procede como os governadores do tempo da virtude, não como eles vieram mais tarde a praticar: neste tempo [o de Lopo Vaz] não tratavam os governadores, nem tinham o dinheiro de El-Rei debaixo de suas camas, antes o meneavam em proveito da fazenda de El-Rei, e não no seu.
De Nuno da Cunha o ditirambo anuncia-se, logo que ele começa a preparar a conquista de Diu. Para a jornada, o governador mandou ajuntar e negociar mui grandes apercebimentos. Não dá ponto sem nó. Requisita todos os navios que naquele porto [de Cochin] houvesse assim de El-Rei, como de partes. Não havia, quando ele governava, salários em atraso. Ordenou que se pagasse a toda a gente que se pudesse achar, apta para o fim em vista. Para todos previu embarcações, soldos e mantimentos. Couto bate muito nesta tecla. Soldados contentes são aqueles a quem não faltam soldos nem mantimentos. Nuno da Cunha não consentia que, da fazenda dessa gente, se gastasse coisa alguma. Tratava bem os homens, e esse é o dever do bom governador. Fossem eles portugueses, ou da terra. Assim, passou provisões ao Vedor da Fazenda e a todos os oficiais para fazerem estas despesas, encomendando a todos que, à gente de El-Rei de Cochim, se lhes fizesse muitos mimos, e nenhum agravo…

In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Coimbra Martins, Fundação Oriente, 1999, ISBN 972-27-0876-7.

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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Tratado dos Feitos de Vasco da Gama e de seus filhos na Índia. Diogo do Couto. «Não pode ele ser confundido de modo algum com a “Vida e feitos de D. Vasco da Gama, descobridor da Índia, e dos mais, fidalgos daquela família que militaram na Índia”, da autoria de Francisco de Andrade»

Nau do primeiro quartel do séc. XVI, pormenor de Vida e Martírio de Santa Auta
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«Uma introdução à leitura da obra inédita de Diogo do Couto sob o título, repare-se nos elementos principais que o compõem Tratado de todas as cousas socedidas ao valeroso capitão DomVasco da Gama primeiro Conde da Vidigueira: Almirante do mar da India: no descobrimento, e conquistas dos Mares e Terras do Oriente: e de todas as vezes que ha India passou, e das Cousas que Socederão nella a todos seus filhos aconselha que, antes do mais, a submetamos à crítica externa.
Assim, temos conhecimento da mesma haver sido referenciada por Diogo Barbosa Machado, pelo que decidimos inserir nesta publicação a Notícia dos Authores, que Escreveram de Diogo do Couto E Catalogo das Obras que Compos, extrahidas da Bibliottheca de Diogo Barbosa Machado, transcrita, aliás, na Parte Primeira, Década IV, da Asia, de Diogo do Couto, Lisboa, na Regia Officina Typografica, Anno MDCCLXXVIII, pp. XX-XXVI. Concretamente, quer o título, quer o plano da obra (duas Partes, a primeira com 28 capítulos e a segunda com 30), quer ainda a alusão a que o referido Tratado foi feito em Goa a 16 de Novembro de 1599, data de uma carta em que Couto o dirige ou dedica a Francisco da Gama, conde da Vidigueira, vice-rei e bisneto do descobridor da Índia, constituem indicadores, em nosso entender, suficientes para conferir identidade própria ao documento que agora divulgamos.
Por sua vez, Francisco Pereira, ao publicar em 1898 (Lisboa, Imprensa Nacional) o Tratado composto por Miguel de Castanhoso sob o título Dos Feitos de D. Christovam da Gama, uma das contribuições da Sociedade de Geografia de Lisboa para precisamente assinalar e Quarto Centenário do Descobrimento da India, escreve:
  • ‘No Manuscrito B-6-14 da Bibliotheca Nacional de Lisboa, attribuido a Diogo do Couto, referem-se os successos de D. Vasco da Gama e de seus filhos no Oriente. Este manuscripto é um livro de papel de 207 folhas de 0m, 29 x0,21m, encadernado, escripto com tres letras differentes do seculo XVIII. Tem por titulo: Tratado de todas as cousas socedidas ao valeroso capitião Dom Vasco da Gama primeiro conde da Vidigueira: Almirante do Mar da India no descobrimento, e conquistas dos Mares, e Terras do Oriente: e de todas as vezes que ha India passou, e das cousas que socederam nella a todos seus filhos. Dirigido a D. Francisco da Gama conde da Vidigueira Almirante do mar Indico, e visorrei da India. Por Diogo do Couto Cronista e Guarda mor da Torre do Tombo da India. A dedicatória é datada de Goa de 16 de Novembro de 1599. O tratado compõe-se de duas partes; na primeira contam-se os sucessos de D. Vasco da Gama nas suas três viagens á India; na segunda referem-se os feitos de seus filhos D. Estevam, D. Paulo, D. Christovam e D. Pedro da Silva no Oriente. A narração é idêntica á das Decadas da Asia de Barros e de Couto, umas vezes abreviada, e outras reproduzida verbalmente’.
Entre 1898 e 198O, data da publicação da 3.ª edição (Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora) de O Soldado Prático, de Diogo do Couto, com texto restituído, prefácio e notas por M. Rodrigues Lapa, o verbete do Tratado foi alterado e passou a andar deslocado. Mas, é melhor citarmos a Nota da página 13 da referida edição de O Soldado Prático:
  • ‘À última hora encontrámos na Biblioteca Nacional de Lisboa um manuscrito de Couto (nº 462), cujo verbere andava lamentavelmente deslocado do catálogo do Fundo Geral. É o Tratado de todas as cousas sucedidas ao valeroso capitão D. Vasco da Gama… no descobrimento e conquista dos mares e terras do Oriente. É, em suma, a crónica dos feitos de Vasco da Gama e de seus filhos, encomendada a Couto pelo vice-rei Francisco da Gama e terminada em Goa, a 16 de Novembro de 1599’.
Aliás, na folha de rosto do manuscrito que transcrevemos estão insertas ambas as cotas: B-6-14 e n.º 462.
Não pode ele ser confundido de modo algum, portanto, por exemplo, com a Vida e feitos de D. Vasco da Gama, descobridor da Índia, e dos mais, fidalgos daquela família que militaram na Índia, da autoria de Francisco de Andrade, embora, como lembrava António Coimbra Martins, em artigo publicado em 1981 (Paris, Fundação Calouste Gulbenkian), nos ‘Arquivos do Centro Cultural Português’, XVI, pp. 283-85, sob o título ‘Quem Na Estirpe Seu Se Chama…’ ‘l'un et l'autre demeurent inédits’». In Diogo do Couto, Tratado dos Feitos de Vasco da Gama e de seus filhos na Índia, organização de José Azevedo Silva e João Marinho Santos, Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras, Edições Cosmos, Porto, 1998, ISBN 972-762-081-7.


continua
Cortesia da FL da U. de Coimbra/JDACT

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Década Quarta da Ásia. Diogo do Couto. «As naus de Manuel de Lacerda e de Aleixo de Abreu, da carreira da Índia, naufragam à altura da ilha de São Lourenço, os esquifes conseguem arribar, a gente fica por aqueles descampados à espera de outra nau que suja e a recolha. Esperam, quase desesperam. Mas lá vem nova armada…»


jdact

Introdução à leitura da Década Quarta de Diogo do Couto
«Guerra de Heitor da Silveira na costa de Cambaia. Um peão português derriba dois cavaleiros mouros, e, trazendo um dos cavalos à rédea, apresenta-se ao nosso capitão, pedindo-lhe que o arme cavaleiro. Couto dá largas ao seu entusiasmo:
  • ‘Louve agora Lívio o seu Marco Corvino, por-matar um francês em desafio [...]. Engrandeça o seu Torquato pelo colar que tomou a outro, que eu não farei mais que contar singelamente estes e outros feitos semelhantes, mais dignos de estátuas, que os dos seus Romanos’.
Subjacente a estrofe 3 do canto I d’Os Lusíadas:

'Cale-se de Alexandre e de Trajano
a fama das vitórias que tiveram,
que eu canto o peito
ilustre lusitano...’

Não só a ideia é afim, como a estrutura das expressões é a mesma: conjuntivo-exortativo (louve/cesse) conduzindo à proposição causal, justificativa da exortação: que eu não farei mais, que eu canto... Mesma estrutura na estrofe 11: ‘Ouvi, que não vereis com vãs façanhas...’ E ideia afim: ‘As verdadeiras vossas são tamanhas, que excedem as sonhadas, fabulosas’.

As naus de Manuel de Lacerda e de Aleixo de Abreu, da carreira da Índia, naufragam à altura da ilha de São Lourenço, os esquifes conseguem arribar, a gente fica por aqueles descampados à espera de outra nau que suja e a recolha. Esperam, quase desesperam. Mas lá vem nova armada. Nau ao largo, avista a gente, tenta acostar, aproxima-se, afasta-se, desiste, segue viagem. Os náufragos não esperam mais, organizam-se, metem-se pelo sertão... Desaparecem todos, nunca mais se sabe deles. Couto presume que tenham sido mortos pelos da terra.
Então, uma irrupção subjectiva, e já mesmo o estilo e a frequência destas são camonianos. Termos da Década:
  • Vejam agora os reis se há na vida cousa com que se satisfaçam tamanhos trabalhos, como seus vassalos passam nesta conquista da Índia: e que preço há com que se pague um só risco da morte, quanto mais tantos, quantos são os em que cada dia se vêem: no mar, tanta tormenta e perigos; na terra tanto risco entre pelouros e fogo, comendo mal, dormindo pior, pelejando todas as horas por honra de seu Deus e de seu Rei!...’
De novo, a ideia dos serviços mal pagos, ou nem sequer pagos, ou pagos com agravos em vez de mercês. E sobretudo a própria literalidade d’Os Lusíadas à transparência. ‘Vejam agora os reis’ (Década) é novamente aquele ‘Vede, Ninfas...’ da estrofe 82 do canto 7; é aquele ‘vós, ó Rei […] olhai...’ da 146 do canto 10. A expressão da Década ‘tamanhos trabalhos como seus vassalos passam’ lembra o verso 1 da estrofe seguinte do poema: ‘Olhai que ledos vão por várias vias...’
A consideração da Década, ‘no mar tanta tormenta e perigos, na terra tanto risco’, é evidentemente uma recordação dos primeiros heróicos da estrofe 106 do canto I:

‘No mar tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade aborrecida!’

Da Década, a expressão ‘tanto risco entre pelouros e fogo’, decalca o verso 4 da estrofe 147 (outra vez esta!) do último canto: ‘A ferro, a fogo, a setas, a pelouros…’ O ‘comendo mal’ de Couto, neste contexto, é a expressão camoniana, da mesma estrofe,
‘dando os corpos a fomes…’.O ‘dormindo pior’ evoca as ‘vigias’ do mesmo verso do poeta: ‘Dando os corpos a fomes e vigias’. Como dissemos, é um nunca acabar…
Dissemos da vida de Couto, de como se tornou cronista, de quando escreveu a Década 4, que exemplo tinha em mente, quando redigiu a epístola dedicatória… Que autores leu, que textos utilizou, como as recordações da epopeia camoniana persistem e emergem, sem embargo da compilação que as exclui...»

In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Coimbra Martins, Fundação Oriente, 1999, ISBN 972-27-0876-7.

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Cortesia da Fundação Oriente/JDACT

Década Quarta da Ásia. Diogo do Couto. «Quem tinha na ideia Os Lusíadas? Lopo Vaz ou Diogo do Couto? O primeiro não pode ser. A sua apologia teria sido recitada, ainda Luís Vai não completara dez anos. O governador-usurpador morreu, antes de o poeta ter começado o seu poema»


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Introdução à leitura da Década Quarta de Diogo do Couto
[…]
«Lucena volta a marcar distâncias: se é verdade... Couto não duvida do que escreve. Como o sabe? Viu? Lucena, esse leu. Se é verdade, como temos lido... Onde terá lido? Como? Quando? Em que condições?
A epístola dedicatória da sua Década 4, datou-a Couto de 20 de Novembro de 1597, vésperas de dar à vela para o reino a armada da carreira. Terá chegado a Lisboa em meados de 1598. Entretanto Filipe II decidira fazer publicar, primeiro que a continuação de Barros, as quatro Décadas do que tinham feito os próprios castelhanos naquelas partes das Índias. Compreende-se. E, enquanto a de Couto esperava, ao cuidado de Adeodato ou de outro, ou de outros, alguém no segredo dos livros e papéis do Oriente, terá assinalado ao de Trancoso que chegara de Goa um novo manuscrito com muitas coisas interessantes. Não duvidamos de que Lucena, cujo livro saiu em 1600, o tenha tido em mãos. Quando escreve sobre a sede do cravo, à fé do tem lido [se é verdade o que temos lido], o que tinha lido era certamente na Década 4 de Diogo do Couto.
Nenhum outro autor tinha escrito que o dito produto das Molucas secava as adegas e enxugava as casas. Assim se atenua a gravidade dos ‘plágios’ de Couto. Quem escrevia da Ásia inseria-se numa teia. Quem copiava era copiado. É verdade, porém, que, entre os copiadores, o novel cronista não fica atrás de nenhum.
Depois voltaremos à paráfrase d’Os Lusíadas... Planeámos atrás. Chegou o tempo. Apologia de Lopo Vaz, texto que só Diogo do Couto fornece. O apelo do maltratado a que se meçam a injustiça que se lhe faz, a desproporção entre os seus serviços e esses maus tratos não deixa de ter afinidades com os mesmos sentimentos expressos por Camões. Palavras de Lopo Vaz: ‘Veja Vossa Alteza, e ponha diante de si, tamanho agravo como este a um homem de minha qualidade e idade e de tantos e tao grandes serviços’; ‘E ainda, Ninfas minhas, não bastava...’ vem no canto 7; ‘Vede, Ninfas...’ Torna a pedir o poeta... Os que Lopo Vaz servia, maltrataram-no, agravaram-no, prenderam-no... Os que Camões cantava, meteram-no em trabalhos, reduziram-no a um estado imerecido e lamentável. N’Os Lusíadas:...

‘Aqueles que eu cantando andava
tal prémio de meus versos me tornasssem,
a troco dos descansos que esperava,
das capelas de louro que me honrassem,
trabalhos nunca usados me inventaram
com que em tão duro estado me deitaram’.

Lopo Vaz, segundo Couto: ‘Ora, veja Vossa Alteza o que me tem custado seu serviço...’. O que lhe tem custado? Aqui, a afinidade torna-se mais estreita: ‘muitos frios, muitas calmas, muitas fomes e sedes, muitos riscos de minha vida, dando a comer meu sangue aos tubarões no mar...’ No primeiro canto: “Ó grandes e gravíssimos perigos!” No último, a famosa estrofe 147:

‘Dando os corpos a fomes e vigias,
a ferro, a fogo, a setas e pelouros.
A quentes regiões e plagas frias,
[...] A naufrágios, a peixes, ao profundo’.

Frios e calmas, na Década; quentes regiões e plagas frias, no poema. Fomes e sedes, na Década; fomes e vigias, no poema. Dar o sangue aos tubarões, na Década; dar o corpo aos peixes, no poema…
Quem tinha na ideia Os Lusíadas? Lopo Vaz ou Diogo do Couto? O primeiro não pode ser. A sua apologia teria sido recitada, ainda Luís Vai não completara dez anos. O governador-usurpador morreu, antes de o poeta ter começado o seu poema. Donde uma inevitável conclusão:
  • se a influência e até a paráfrase d’Os Lusíadas neste passo não são um sonho, o documento respectivo, apologia de Lopo Vaz, não pode ser integralmente verdadeiro. Na mais favorável das hipóteses, Couto não teria apenas encurtado a fala. Tê-la-ia também rescrito, retocado, enfeitado...
Guerra de Heitor da Silveira na costa de Cambaia. Um peão português derriba dois cavaleiros mouros, e, trazendo um dos cavalos à rédea, apresenta-se ao nosso capitão, pedindo-lhe que o arme cavaleiro». 

In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Coimbra Martins, Fundação Oriente, 1999, ISBN 972-27-0876-7.

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sábado, 17 de março de 2012

Diogo do Couto. Década Quarta da Ásia: «Do nosso ponto de vista os quatro autores que devemos sempre ter presentes, se queremos estudar algum deles, são Gaspar Correia, Castanheda, Barros e, evidentemente, o autor da Década que se publica. Muitas vezes, no decurso da nossa introdução, tentaremos confrontá-los»

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Introdução à leitura da Década Quarta de Diogo do Couto
«O livro mais moderno, que cita, são os “Diálogos de vária história” de Pedro de Mariz. Tinha saído em 1594, e pode observar-se que chegou à Índia depressa, porquanto a “Década 4” se encontra concluída (embora necessitada de alguns retoques) em Novembro de 1597.
Há só mais um autor português, do qual, na presente Década, aparece uma obra citada: o próprio Couto. No capítulo 1 do livro 8 vêm à colação as ‘perdas e crescenças’ dos Portugueses na Índia, onde, como entende Severim, iam ganhar honra e proveito:  
  • ‘estas perdas e crescenças nós alguma hora apontaremos, se nos cair a pelo, posto que muito claramente o temos já feito no nosso “Diálogo do Soldado Prático”.

Este passo confirma que o referido diálogo, forçosamente o primeiro dos dois, foi a primeira obra de Couto concluída. Mas o tema das verdadeiras e falsas crescenças voltará à baila na fala 4 da cena 10 da primeira parte do segundo diálogo. Enumerar é fácil. Analisar menos. Comparar impõe-se. Do nosso ponto de vista os quatro autores que devemos sempre ter presentes, se queremos estudar algum deles, são Gaspar Correia, Castanheda, Barros e, evidentemente, o autor da Década que se publica. Muitas vezes, no decurso da nossa introdução, tentaremos confrontá-los. Desde já não receamos afirmar: aquele a quem mais deve Couto, não só entre os seus predecessores, cronistas da Índia, mas de todos os portugueses e todos os estrangeiros, é Fernão Lopes de Castanheda. Este é tão utilizado que se poderia dizer que a presente Década tem muito de conversão a outra estrutura, com enxertos, desvios, intromissões, cosidos em manta de retalhos, da narração contínua daquele autor. O novo cronista decalca com um à-vontade surpreendente. Feito cronista, chama a si, atribui-se todos os direitos. Inclusivamente o que hoje consideraríamos de plágio. De chapado plágio.

Cortesia de wikipedia

O que não quer dizer que não afecte grande veneração... tanto por Barros como por Castanheda. Aliás Couto não se coíbe de alfinetar, se a ocasião se apresenta, aqueles mesmos a quem respeita ou segue. Tem uma posição oficial e um pendor natural, forte. Vamos ao mais alto, comparando. Apesar dos seus requerimentos e vénias a Filipe II, quando narra querelas entre castelhanos e portugueses, não ‘torce’, menos que Castanheda pelos portugueses, antis pelo contrário. Em matéria delicada, denuncia o erro de Gomara. E, quando croniza de um rei mogor despojado do que conquistara, lança até uma sentença que talvez se pudesse considerar carapuça, mais ou menos à medida do filho de Carlos V: 
  • ‘devem os reis do mundo trabalhar muito para trazerem no seu governo vassalos naturais, porque sempre tratam as coisas com amor e lealdade, estimando mais a vida de seu rei que a sua própria’.
Conclusão: não se pode esperar dos ‘desnaturais’ a mesma lealdade.
Mantenhamo-nos, porém, na comparação dos textos.
A Barros, evidentemente, Couto não decalca como a Castanheda. Não podia ser. Barros parou, referimo-nos à sua obra publicada, onde ele começa. Mas não deixa de tirar daqui ou dali, das três Décadas precedentes, em geral sem declarar que tira. Às vezes até ‘se corta’. E alguma vez dir-se-ia que teve acesso a cópia manuscrita da quarta de Barros. Mas seria difícil sustentá-lo com tão pouco. O que lhe sucede, como veremos, é chegar ao limiar da inconveniência ou insolência, retomando e criticando afirmações do seu predecessor». In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Coimbra Martins, Fundação Oriente, 1999, ISBN 972-27-0876-7.

Cortesia da Fundação Oriente/JDACT

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Diogo do Couto. Década Quarta da Ásia: «Mas é verdade que o cronista não cita ‘muitos’ autores portugueses. Conhece muito mais italianos que portugueses, dir-se-ia. Somente, a presença, na sua Década, dos nossos que cita ou aproveita, é muito mais importante que a dos italianos que nomeia. Sem falar da de Camões, nesta “Década 4”, nunca o cronista escreve o nome do poeta…»

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Introdução à leitura da Década Quarta de Diogo do Couto
«Com que objectivo? Sob que caução? A submissão e destruição das religiões falsas. A expansão da única fé verdadeira. Camões:
Vós, que esperamos jugo e vitupério
Do torpe Ismaelita cavaleiro...

Com o objectivo, diz Couto, ‘de arvorarem as reais bandeiras da milícia de Cristo, e as porem nos mais altos coruchéus da nefanda casa de Mafamede, para que, no lugar das suas torpezas e abominações, ofereçam ao altíssimo Deus muitos sacrifícios de louvor...’. É assim o espírito de cruzada.
“A Década 4” é oferecida ao rei, entrada a noite filipina, numa lembrança inevitável e dominadora da oferta “d'Os Lusíadas a D. Sebastião”, na alvorada de uma glória que abortou. O poeta declara-se ao serviço do rei:
  • ‘Para servir-vos, braço às armas feito, / Para cantar-vos, mente às Musas dada’.Com efeito, Camões habituou-se ao exercício alternado da espada e da pena: ‘Nüa mão sempre a espada e noutra a pena’.

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Para Couto, na altura (1597) em que dedica ao rei a sua “Década 4”, já passaram os tempos da milícia. O soldado prático já disse da sua prática. Agora dividem-se as tarefas: guerra, escritura. Sem embargo desta diferença, a clássica associação (espada/pena) não deixa de ocorrer, ao fim da epístola dedicatória, como se repete no final “d'Os Lusíadas” (para servir-vos/para cantar-vos). Vossa Majestade é outro Pirro; os seus vassalos são outros romanos:
  • ‘eles com a espada, e eu com a pena mostraremos ao mundo...’
Mostraremos ao mundo..., afiança Couto. E a musa de Camões,(afiança o poeta na última oitava “d'Os Lusíadas”, fico que em todo o mundo de vós cante...
Temos terminado com a epístola dedicatória. Com Camões, não. É um nunca acabar. Não. Não seja Camões a árvore que esconda a floresta. Porque se trata de uma verdadeira floresta. Já nesta “Década 4”, Diogo do Couto alardeia um número impressionante de leituras, de autores antigos e modernos, estrangeiros e portugueses, historiadores, claro, mas também viajantes, geógrafos e poetas. Entre os clássicos, Homero e Virgílio, Galeno e Ptolomeu, Arriano e Quinto Cúrcio, Plínio, César, Tito Lívio, Séneca…
Dos italianos aduz sobretudo os que conheceram o Oriente ou trataram do Oriente:
  • Marco Polo e o Sabellico, Nicolau Véneto e Andrea Cambini, geógrafos como Moleto, cosmógrafos como Enea Picolomini, historiadores como Flávio Biondo.
A sua cultura vai, ou aparenta ir, das “Antiguidades” de Flávio José ao ‘Teatro do Mundo’ de Abraão Ortélio, este último contemporâneo ainda do nosso cronista. Refere espanhóis como S. Isidoro de Sevilha, como González de Clavijo, como Gomara, historiador das Índias. Sabe de orientalistas e de orientais como Avicena, o Rásis (al Razi), o arménio Héthoum... Evidentemente não lhe escapam os estrangeiros, que escreveram de coisas portuguesas, como o Maffei.

 
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É impressionante. E ainda mais porque todos estes autores, Couto os trata com aparente à vontade e autoridade. Se faltavam em Goa as Décadas de Barros, já ao tempo do cronista a cidade se tornara certamente uma capital cultural, a julgar pelos livros que lá se encontravam, e pela rapidez com que lá chegavam. O famoso desprezo dos capitães portugueses por escrituras, cantos, letras g ciências não seria tão profundo e chocante, como nalguns passos o deixam crer Camões e Couto.

Mas é verdade que o cronista não cita ‘muitos’ autores portugueses. Conhece muito mais italianos que portugueses, dir-se-ia. Somente, a presença, na sua Década, dos nossos que cita ou aproveita, é muito mais importante que a dos italianos que nomeia. Sem falar da de Camões, que começámos a medir. Registemos só aqui, convidando à estranheza, que, nesta “Década 4”, nunca o cronista escreve o nome do poeta. Aliás não o citará pela primeira vez senão na sua “Década 7”, antes de dizer, na “Década 8”, que encontrou o autor “d'Os Lusíadas” na ilha de Moçambique, e o que ele então lhe encomendou. Há os autores que o cronista nomeia sem ter lido, e os que evidentemente leu, e não nomeia.

Dos nomeados, Barros e Castanheda são os mais utilizados. Garcia de Orta é mais utilizado que nomeado. De António Tenreiro refere-se a jornada, mas não o livro. De Gabriel Rebelo também não os manuscritos, senão uma ou outra anedota. Gaspar Correia, cujas ‘Lendas’ permaneciam manuscritas, não é nomeado, mas transparece aqui e além... Francisco de Andrade, quase perfeito contemporâneo de Couto, que decalcou com imperturbável à-vontade o dito Gaspar Correia, tinha já publicado o seu poema “O Primeiro Cerco de Diu”, mas não é nomeado nunca.
Todavia aparece uma referência, no cap. 8 do livro 6, à “Crónica de D. João III”. A de Francisco de Andrade sairia em 1613. Mas é verdade que tal Crónica fora antes confiada a António Pinheiro, bispo de Miranda e de Leiria, e a António de Castilho que, lançando mãos à obra, teria chegado ‘ao tempo das controvérsias que tiveram na Índia Pero Mascarenhas e Lopo Vaz de Sampaio’. Góis é duas vezes nomeado. Diogo do Couto conhece evidentemente a “Crónica de D. Manuel”, que saíra em 66 e 67. E evoca o autor uma vez pelo que lá não vem, e outra vez por um nome que diz que vem, mas não lhe pareceu o mais apropriado». In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Coimbra Martins, Fundação Oriente, 1999, ISBN 972-27-0876-7.

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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Diogo do Couto. Década Quarta da Ásia: «Felizmente Luís Vaz propõe ao rei Sebastião o livro da epopeia dos Portugueses, que anuncia que o jovem rei, maravilha fatal da nossa idade, não terá que lamentar, como Alexandre lamentou, não ter, como teve Aquiles, um Homero capaz e desejoso de cantá-lo»

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Introdução à leitura da Década Quarta de Diogo do Couto
«Assim, pois, são os homens, incluídos os Portugueses, pelo menos ao tempo, a avaliar por esta anedota do escudo de D. Afonso Henriques. Diogo do Couto:
  • «nenhuma coisa puxa mais por um varão de honra, que estes desejos de glória e fama, por que tantos obraram; e fizeram tantas e tão altas maravilhas, que pareciam passar os termos e limites da natureza humana».
Em suma, “mais do que prometia a força humana” (‘Lusíadas’, I-1). «Passar os termos e limites» (Couto) é próprio, aliás, dos Portugueses. Bem dissera o Adamastor à «gente ousada» que ia com o Gama:
  • «pois os vedados términos quebrantas (V-41)».
Términos do mar, do mundo conhecido, não das «forças humanas», certamente... Mas o que importa é ultrapassar. Ultrapassar-se.
Sem embargo da prontidão de D. Afonso Henriques em pintar o seu escudo, dir-se-ia que os Portugueses, desejosos de honra, capazes de maravilhas, não se importam com o canto (Camões) ou a crónica (Couto). Aos capitães portugueses, não se lhes dá de poemas, de letras, de crónicas, de ciência...

Ter-se-ia passado assim com Alexandre Magno? De maneira nenhuma. Todos sabem que Alexandre tinha sempre Homero à cabeceira.

Camões:
Lia Alexandre a Homero de maneira,
Que sempre se lhe sabe à cabeceira.
(V-96)

Os Portugueses nem se importam com as Décadas de Barros. Grande vergonha, porque hoje em dia todos os grandes (estrangeiros, claro) as trazem “à cabeceira”. Como quem? Como Alexandre, que sempre trazia à cabeceira a “Ilíada” de Homero. Citamos a epístola dedicatória:
  • «E foram tão estimadas [as Décadas de Barros] dele [Guilherme Gonzaga, terceiro duque de Mântua], e o são hoje de todos os grandes, “que as trazem às cabeceiras das camas, como Alexandre trazia a ‘Ilíada’ de Homero»

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Deixemos Barros, por enquanto, e voltemos a Camões:

Enfim, não houve forte capitão,
Que não fosse também douto e ciente,
Da lácia, grega, ou bárbara nação,
Senão da portuguesa tão somente...

Di-lo Camões, não sem vergonha (V-97). E Couto, na epístola dedicatória? Pinturas e esculturas não falavam. Os Atenienses passaram às escrituras. Os Romanos após eles. Enfim, “todas as mais nações do mundo” (lácia, grega ou bárbara nação). Todas excepto uma: a portuguesa tão somente. Na epístola:
  • «Esta glória das estátuas e dos escudos brancos passaram depois os Atenienses às escrituras por verem que as imagens e pinturas eram mudas e não podiam recitar seus feitos. Daqui se estenderam aos Romanos e a todas as mais nações do mundo, tão desejosas todas de uma perpétua fama, que lhe não fica cousa que não seja logo por muitos e vários modos escrita. “Só a esta nossa nação portuguesa faltou esta glória…”
Felizmente Luís Vaz propõe ao rei Sebastião o livro da epopeia dos Portugueses, que anuncia que o jovem rei, maravilha fatal da nossa idade, não terá que lamentar, como Alexandre lamentou, não ter, como teve Aquiles, um Homero capaz e desejoso de cantá-lo. Digne-se o jovem rei atentar nesse livro, que lhe é dedicado:

Os olhos da real benignidade
Ponde no chão. Vereis um novo exemplo
De amor dos pátrios feitos valorosos,
Em versos divulgado numerosos.
(I-9)

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Diogo do Couto a Filipe II (ai de nós!): «este volume [...] ofereço humildemente aos pés de Vossa Majestade. E só com pordes os olhos nele, haverei por bem empregadas todas as despesas e trabalhos»... que verá Vossa Majestade em tal volume?

Camões
Vereis amor da pátria não movido
De prémio vil...
(I-10)

Olhai que ledos vão por várias vias
Quais rompentes leões e bravos touros...
(X-147)

Couto
  • Aí verá Vossa Magestade as muito grandes e admiráveis façanhas, feitas por aqueles antigos governadores [...] verá Vossa Magestade, nos raros e espantosos feitos que estes seus vassalos têm feito e cada dia fazem...
Francamente! Tais vassalos os Portugueses, pode-se perguntar: não será o mesmo, ou melhor, ser rei dos portugueses, que senhor do mundo?

Camões
E julgareis qual é mais excelente
Se ser do mundo rei, se de tal gente.
(I.10)

Couto
  • com quanta mais razão pode dizer por eles [os Portugueses], o que dizia Pirro, que, se tivera os Romanos por soldados, que facilmente fora senhor do Mundo, ou eles, se o tiveram a ele por capitão.
Não é bem o mesmo decerto. Mas é uma maneira afim de preparar o incitamento onde se quer chegar. Já que são assim os Portugueses, força!

Camões
Tomai as rédeas vós do reino vosso:
Dareis matéria a nunca ouvido canto.
Comecem a sentir o peso grosso
- Que pelo mundo todo faça espanto -
De exércitos e feitos singulares,
De África as terras e do Oriente os mares.
(I-15)

Couto
  • Mande-os, porque eles lhe levarão suas colunas mais adiante, e pô-las-ão onde Semíramis e Alexandre não chegaram!
Felizmente, ao «invictíssimo» Filipe II «não falta a humanidade e clemência de Filipo para com os seus», diz Couto. E era o que desejava Camões que não faltasse ao rei Sebastião:

Favorecei-o logo e alegrai-os
Com a presença e leda humanidade;
De rigorosas leis desalizvai-os...
(X-149)

Favorecidos pela humanidade e clemência do rei, os seus vassalos portugueses - afiança Couto - «romperão com um ânimo seguro por todos os perigos da vida»...

Romperão. Quais «rompentes leões e bravos touros», tinha escrito Camões (X-147). Com que ânimo? Ledos, diz Camões. Com um ânimo seguro, diz Couto. «Dando os corpos [...] a perigos incógnitos do mundo», diz Camões. A todos os perigos da vida, generaliza Couto. Romperão com um ânimo seguro por todos os perigos da vida (sic)». In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Coimbra Martins, Fundação Oriente, 1999, ISBN 972-27-0876-7.


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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Diogo do Couto. Década Quarta da Ásia: «É o zelo da conservação do nome, ilustrado por feitos, mais que o apetite de feitos militares. Alexandre não tinha outro Homero, escreve Couto, ‘para lhe acabar de rematar a sua bem-aventurança, para em tudo ser maior que todos’. E por muito maior ‘tinha esta glória de ficar no mundo vivendo por fama, que o império de todo ele’».

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Introdução à leitura da Década Quarta de Diogo do Couto
«Ao que diz, tinha concluído esse trabalho. O texto da Década, completo e passado a limpo, fora mesmo aprovado pelo douto jesuíta Paulo Ferrer e pelo Conselho da Inquisição. E, quando tudo estava pronto para se imprimir, tinha sabido Duarte Nunes que lhe tomara a dianteira uma outra “Década 4, «falsa»” escrita por um tal Couto, guarda-mor do Tombo da Índia.
Duarte Nunes não levou a sua avante. Antes os seus protestos lhe foram perniciosos. O manuscrito de Barros, e os documentos anexos, foram-lhe confiscados. A Década «falsa», teve alvará para impressão, datado de 25 de Março de 1602. E saiu nesse mesmo ano, dos prelos do Colégio de Santo Agostinho, que fizera gemer Pedro Craesbeck. Entretanto tinham começado a publicar-se em Madrid, no ano anterior, as “Décadas da História geral dos feitos dos Castelhanos nas ilhas e terra firme do mar oceano”. Autor António de Herrera y Tordesillas. Como se Couto devesse ter tido de lhe ceder a vez... Como se as Décadas dos Castelhanos, enquanto não se reatava a publicação das dos Portugueses, devessem adiantar-se a estas últimas...

Após o autor, a obra. Ponderá-la, apreciá-la, implica compará-la, o que tentaremos repetidamente com livros muito diversos. Em tais paralelos, como o texto restabelecido segundo normas seguras vai adiante, e como o dos autores aduzidos não foi objecto do mesmo tratamento, harmonizamos, modernizando razoavelmente uns e outros, como temos vindo a fazer.
A epístola dedicatória! Ao redigi-la, muito embora a dirija a Filipe II, é de Camões que se lembra Diogo do Couto. Dos heróicos dedicados a D. Sebastião pelo poeta que «morrera com a Pátria». Da memória eterna que já prometiam “Os Lusíadas” aos Portugueses e seu rei.
Já a ideia-ponto de partida, não é só epocal, mas algo camoniana: mais que pela conservação da espécie os homens forcejam por aquele arremdo de eternidade, que lhes pode valer a conservação do seu nome. Primeiro exemplo, o de Alexandre Magno.

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Ora, Alexandre é o primeiro grande do mundo que “Os Lusíadas” nomeiam:
  • «Cale-se de Alexandre e de Trajano...»
E a associação Alexandre/Aquiles, a que fornece a ideia final do poema: se eu for de vós «aceito», (e o vosso peito empreender o que se espera) a minha musa cantará de vós em todo o mundo:

De sorte que Alexandre em vós se veja,
Sem à dita de Aquiles ter inveja

Justamente Couto quer que Filipe II lhe aceite o livro. E o primeiro exemplo com que abona a ideia de que o homem forceja mais ainda pela conservação do nome, que pela da espécie, mais pela projecção da sua memória no tempo, que pela extensão do seu domínio no mundo, é urdido mediante a associação Alexandre/Aquiles. Sim, já senhor do mundo, Alexandre invejou Aquiles, porque este fora cantado de Homero, e ele, se tinha o mundo, não tinha Homero que o cantasse. Assim Alexandre teve «inveja» à «dita de Aquiles». Na pena de Couto:
  • “Disto temos um muito claro exemplo no grande Alexandre que, sendo já senhor do mundo, quando parecia que a COBIÇA humana estava satisfeita, então lhe entraram novas INVEJAS, vendo o sepulcro de Aquiles, porque não tinha outro Homero para lhe acabar de rematar sua bem-aventurança para em tudo ser maior que todos”.
Da COBIÇA falaremos mais adiante. Por agora, relevamos que AS INVEJAS, nesta acepção favorável, também são, em Camões, motor de relevantes proezas:

AS INVEJAS da ilustre e alheia história
Fazem mil vezes feitos sublimados;

Há, porém, que distinguir, neste caso de Alexandre. O filho do macedónio Filipe «não tinha em tanto os feitos gloriosos de Aquiles [...] «quanto os numerosos versos» do poeta Homero que os cantava:

Não tinha em tanto os feitos gloriosos
De Aquiles, Alexandre, na peleja,
Quanto de quem o canta os numerosos
Versos. Isso só louva, isso deseja.

Cortesia de foriente

É o zelo da conservação do nome, ilustrado por feitos, mais que o apetite de feitos militares. Alexandre não tinha outro Homero, escreve Couto, «para lhe acabar de rematar a sua bem-aventurança, para em tudo ser maior que todos». E por muito maior «tinha esta glória de ficar no mundo vivendo por fama, que o império de todo ele».
Melhor a fama que o feito. Ou, que me presta o feito, sem a fama?
Outro exemplo: Temístocles. As invejas, de Temístocles, despertam-mas que heróis, feitos ou coisas? Os troféus de Milcíades. Mesma afirmação, mesma expressão em Couto e em Camões.
Nos “Lusíadas”:

Os troféus de Mìlcíades famosos
Temístocles despertam só de inveja,

Na epístola dedicatória: «Os troféus de Milcíades o não deixavam quietar». O próprio Temístocles explica o seu sentimento: o que é que me estimula, o que é que me deleita.
Nos “Lusíadas”:

E diz que nada tanto o deleitava
Como a voz que seus feitos celebrava.

Na epístola dedicatória: «muito pensativo dizia que os troféus de Milcíades», etc.
Por um momento deixemos os clássicos. Couto acha maneira de evocar o milagre de Ourique, que significa a aprovação pelo Altíssimo da independência portuguesa. E fá-lo em termos que lembram a introdução de Camões à sua explicação das armas de Portugal. Passo de Couto:
  • “Este valoroso príncipe [D. Afonso Henriques], depois daquela tão famosa e milagrosa vitória do campo de Ourique, em que venceu os cinco reis mouros, LOGO PINTOU EM SEU ESCUDO, que ainda era branco, aquele sinal de nossa redenção, que Nosso Senhor, por muito particular mimo e mercê, lhe quis mostrar no Céu, por lhe dar esperanças da vitória”.
Couto evoca, pois, a decisão de D. Afonso, e como ela é tomada imediatamente: LOGO PINTOU NO SEU ESCUDO... O mesmo em Camões. No próprio campo de Ourique, o «grão rei», procede à pintura:
  • AQUI PINTA NO BRANCO ESCUDO UFANO... (III-53). Outro pormenor significativo neste verso: D. Afonso, ao campo de Ourique, levava ainda o escudo BRANCO. Ainda lá não representara sinal de vitória nenhuma. O mesmo o sublinha Diogo do Couto numa curta proposição temporal: «logo pintou em seu escudo, que ainda era BRANCO... ».
In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Coimbra Martins, Fundação Oriente, 1999, ISBN 972-27-0876-7.


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