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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Pablo Neruda. Colectânea. «Tudo estava vazio, morto e mudo, caído, abandonado e decaído, tudo era inalienavelmente alheio, tudo era dos outros e de ninguém, até que tua beleza e tua pobreza…»

Cortesia de wikipedia

«Antes de amar-te, amor, nada era meu:
vacilei pelas ruas e coisas:
nada contava nem tinha nome:
o mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
túneis habitados pela lua,
hangares cruéis que se despediam,
perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
caído, abandonado e decaído,
tudo era inalienavelmente alheio,
tudo era dos outros e de ninguém,
até que tua beleza e tua pobreza
de dádivas encheram o Outono».


«Áspero amor, violeta coroada de espinhos...
Arbusto entre tantas paixões erguidas,
lança das dores, coroa da ira,
por quais caminhos e como te dirigiu a minha alma?
Por que precipitaste teu fogo doloroso,
repentinamente, entre as folhas frias do meu caminho?
Quem te ensinou os passos que te levaram a mim?
Que flor, que pedra, que fumaça mostraram minha casa?
A verdade é que tremeu a noite apavorante,
a aurora encheu todas as taças com seu vinho
e o sol estabeleceu sua presença celeste,
enquanto o amor cruel me cercava sem trégua,
até que padecendo-me com espadas e espinhos,
abriu meu coração um caminho ardente».
Poemas de Pablo Neruda, in ‘Colectânea’

JDACT

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Música. Poesia. Rodrigo Leão. Fernando Pessoa. «O prazer do momento anteponhamos à absurda cura do futuro, cuja certeza única é o mal presente com que o seu bem compramos. E o mesmo útil para nós perdemos connosco, cedo, cedo. Neste instante, que pode o derradeiro ser de quem finjo ser? É o momento, eu só quem existe…»

jdact

Não quero mais que o dado
«Do que quero renego, se o querê-lo
me pesa na vontade. Nada que haja
vale que lhe concedamos
uma atenção que doa.
Meu balde exponho à chuva, por ter água.
Minha vontade, assim, ao mundo exponho,
recebo o que me é dado,
e o que falta não quero.
O que me é dado quero
depois de dado, grato.
Nem quero mais que o dado
ou que o tido desejo».


Guia-me a só a razão
«Guia-me a só a razão.
Não me deram mais guia.
Alumia-me em vão?
Só ela me alumia.

Tivesse quem criou
o mundo desejado
que eu fosse outro que sou,
ter-me-ia outro criado».


«Deu-me olhos para ver.
Olho, vejo, acredito.
Como ousarei dizer:
cego, fora eu bendito?

Como olhar, a razão
Deus me deu, para ver
para além da visão
olhar de conhecer».


«Se ver é enganar-me,
pensar um descaminho,
não sei. Deus os quis dar-me
por verdade e caminho».
Poemas de Fernando Pessoa in ‘Odes / Rícardo Reis e Cancioneiro’


«Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra».
In Alberto Caeiro

JDACT

terça-feira, 30 de setembro de 2014

A Bela Poesia. 1957 1971. Obra Poética. Salette Tavares. «Não, não digas que não, eu empurro-te vai ver, depois, existe e fala. Agora não»

jdact

«Sem palavras
gemidos,
sem palavras
lamentos,
sem palavras
gritos,
sem palavras
hospitais,
sem palavras
gritos, lamentos, gemidos,
sem palavras, nada mais.

A lama é sangue
e o olhar
remoto aceno de vida,
moribúndia dolorida.

Deixa o caminho do céu
abstracta comédia de anarquia.
O corredor vai por aqui
e as estrelas são portas,
brancas.
Vais ver que não trocas
os passos.
Lágrimas, sangue
submissão
ó absurdo espanto deste universo de cristos
ignorado,
ali ao lado.
E tu sem saber, só por ouvir dizer!

Não, não digas que não,
eu empurro-te
vai ver, depois, existe
e fala.
Agora não».
Poema de Salette Tavares, in ‘Espelho Cego’

In Salette Tavares, Obra Poética, 1957-1971, Biblioteca de Autores Portugueses, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1992.

Cortesia de Aportugueses/JDACT

domingo, 28 de setembro de 2014

Oboé. Poesia no Domingo. Fernando Pessoa. «Alma abstrata e visual até aos ossos, atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo, refúgio das saudades de todos os deuses antigos, espírito humano da terra materna, flor acima do dilúvio da inteligência subjectiva…»

jdact e wikipedia

Poesia
«Cessa o teu canto!
Cessa, que, enquanto
o ouvi, ouvia
uma outra voz
como que vindo
nos interstícios
do brando encanto
com que o teu canto
vinha até nós.

Ouvi-te e ouvi-a
no mesmo tempo
e diferentes
juntas cantar.
E a melodia
que não havia,
se agora a lembro,
faz-me chorar.

Foi tua voz
encantamento
que, sem querer,
nesse momento,
vago acordou
um ser qualquer
alheio a nós
que nos falou?


Não sei. Não cantes!
Deixa-me ouvir
qual o silêncio
que há a seguir
a tu cantares!

Ah, nada, nada!
Só os pesares
de ter ouvido,
de ter querido
ouvir para além
do que é o sentido
que uma voz tem.

Que anjo, ao ergueres
a tua voz,
sem o saberes
veio baixar
sobre esta terra
onde a alma erra
e com as asas
soprou as brasas
de ignoto lar?

Não cantes mais!
Quero o silêncio
para dormir
qualquer memória
da voz ouvida,
desentendida,
que foi perdida
por eu a ouvir…»
Poema de Fernando Pessoa, in ‘Poesia’

JDACT

domingo, 7 de setembro de 2014

A Bela Poesia. 1957 1971. Obra Poética. Salette Tavares. «A face ficou-te gume de faca e a lágrima era água de um lado e sal do outro. A cara virou o perfil para o perfil e ficou borrão estampado, tu a contares-me a terra onde fizeram a barragem…»

jdact

Toma o ouro que o poeta dá. In Sallete

Carta a Pedro Sete
Pedro
«É, com alegria que veio surgir sobre o papel os traços da minha caligrafia, há tanto tempo sem escrever, há tanto tempo sem uma pausa na alma para o dentro a dentro que me deixa penetrar no universo mágico que entre meus eus a poesia tece. Escrevo-te hoje pela primeira vez. Em teus poemas referes-te à minha presença, chamas-me a tua companheira, companheira que identificas com a poesia. No acto de reflexão que sou, não fosse o acaso deste agora, não me aconteceria pôr em papel branco com a minha letra nada disto que tantas vezes tem sido núcleo da minha meditação sobre poesia, sobre a juventude necessária que a poesia é, sobre o poeta que o jovem deve ser e, sobretudo, sobre o jovem que o poeta é. Antes do teu chegar já eu te dizia o mistério que te ia procriando, a voz com que te queria marcar poeta, acostumar-te às maçãs amargas, ao sal da lua e às lições diárias da rua.
Vi-te fechar no abrir de um segundo o mar intenso, o fervente febril que te suspendeu rigor de seco quilha entre sinais. Tão sós a sós cantámos a certeza. Tua palavra minha boca a transbordava. Sem nada se dizer um eco me respirou mais pele de flor menina. Então ouvimos: arrasta e leva contigo a lama que rastejas, o saibro que te rasga a carne. Arrasta e que teu ventre rasgue por quantas vezes foi rasgado e ventre. As matinas tocaram a finados. Porque o barro era mole, porque o espírito nos dizia em todas as coisas o seu nome, vimos-te, ó ser único entre tudo o que foi e está para ser. Arrasta, voa teu sonho e cai vertical no abismo limite do que acaba e começa, no agora em trânsito que a aurora anoitece, segundo lince de tempo que não repete, capacho do azul ao entardecer, sempre do nunca adormecido ao colo, fechando o dentro impossível de apanhar, barco escalando a montanha, vale da cordilheira vê, olha, toca, ouve a semente que se despede da folhagem na altura.
A face ficou-te gume de faca e a lágrima era água de um lado e sal do outro. A cara virou o perfil para o perfil e ficou borrão estampado, tu a contares-me a terra onde fizeram a barragem: uma velhinha aos quarenta anos, as casas sem chaminé, sem janelas e a tristeza e a miséria das crianças. Sem pão, sem ar, sem luz. Escuro quadrado a porta é janela e chaminé. Uma electricidade que passa por cima e não se colhe porque não é um jeito que a apanha, é um dinheiro e ali o desconhecem. A lama do caminho é funda, não se pode pousar o pé, enterra-se. E nem a cebola germinou. A fome parou os olhares que murchos meditam. Conheço a fome. Conheço o silêncio, os olhos que ocupam a casa inteira. O pânico perante o movimento. A dor do ligeiro mexer. É a morte pairando a ceifa serena em cada dia que passa. Sem hospital, sem um copo de água quando a chuva acaba de chover. Sem força para levantar os pés, para os arrastar até não se sabe onde, pois o próximo tão próximo é longe». In Salette Tavares, Obra Poética, 1957-1971, Biblioteca de Autores Portugueses, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1992.

Cortesia de Aportugueses/JDACT

domingo, 24 de agosto de 2014

A Bela Poesia. 1957 1971. Obra Poética. Salette Tavares. «Agora guardo! Não deixarei que tornem a matar cada ovo ao frio da noite… O que aqui estava não era o teu jeito de beijar, eram limões abertos nos meus lábios fechados em porta sobre o sono»

jdact

Ao mar onde colhi o sal do meu tormento. In Salette

Soneto Pateta I
(…)
«Entorna,
deita,
verte
na minha orelha uma centelha vermelha.
Palavra,
vinho,
brasa,
procissão,
livre, secreta invasão
sob as nossas mãos em asa.

Agora guardo!
Não deixarei que tornem a matar
cada ovo ao frio da noite…
O que aqui estava não era
o teu jeito de beijar,
eram limões abertos nos meus lábios
fechados em porta sobre o sono,
eram laranjas olorosas passeadas
na branca união agreste de meus dentes.

Sabes porque perdeste
a mão?
Sabes porque guardaste
a luva?
Pássaro ausente,
coração.
Vê aqui a palavra
e o vazio
que lhe demos.
Não podemos.
Não fales,
olha,
bebe
o horizonte horizontal».
Poema de Salette Tavares, in ‘Espelho Cego’

In Salette Tavares, Obra Poética, 1957-1971, Biblioteca de Autores Portugueses, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1992.

Cortesia de Aportugueses/JDACT

sábado, 26 de julho de 2014

A Bela Poesia. 1957 1971. Obra Poética. Salette Tavares. «Quando baixei os olhos sob o vento vi-me estátua na pira arrebatada. Sobre lençóis de angústia pobre vida estrebuchou desvairada correria para plantar agreste em minha fronte e descer-me as pálpebras sobre o Não»

jdact

Ao mar onde colhi o sal do meu tormento. In Salette

Soneto Pateta I
«Quem coroou a palavra de corneta
quem pôs a tormenta na caneta
quem disse poeta?
Lágrima sineta
faz da jumenta cinzenta
esta violeta.

Quando baixei os olhos sob o vento
vi-me estátua na pira arrebatada,
subida na asa do leão, gloriosa aparecida
desabrochei: pureza, fome, braços paralelos.
Pairando, eu era A sem combate,
cabeça de toiro reclinada
para além do limite
dos contrários.
Águia parada, monstro ferido,
barriga do céu aberta,
azul, branco, negro
onde a noite pariu a luz.
Ó grande sorriso dos deuses,
apocalíptica fronteira das estradas
translargada das sendas e caminhos
onde há
acidentes de invenção.
Ó melódica harmonia, ó sentido
sem Um nem Outro,
sem políticas vigias,
nem desastres
nas vias
de Comunicação.

De que serve opor a norma à norma que a nega,
à regra uma nova regra,
verdades contra Verdades
caminhos contra Caminhos?
A Harmonia é dos Contrários
e a escala
a mesma.
Não expliques. Antes o caos sem normas,
braços, pernas, olhos, mãos,
bocejo de criação,
sem rei, sem lei, sem programa.

Presença do escondido
subterra paradoxo,
memória feita futuro
sem gente para lembrar,
ó antes de se tornar.
Círculo coincidindo círculo
esconde-me junto do vento
crisma-me no meio do mar.
Em ambas margens do rio
arranca as nuvens ao sol
e vem vestir a nudez
da minha presença terra».

Poema de Salette Tavares, in ‘Espelho Cego’

In Salette Tavares, Obra Poética, 1957-1971, Biblioteca de Autores Portugueses, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1992.

Cortesia de Aportugueses/JDACT

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Poesia. Pedro Salinas. «Dame tu libertad. No quiero tu fatiga, no, ni tus hojas secas, tu sueño, ojos cerrados. Ven a mí desde ti, no desde tu cansancio de ti. Quiero sentirla»

Cortesia de wikipedia

Confianza
Mientras haya
alguna ventana abierta,
ojos que vuelven del sueño,
otra mañana que empieza.

Mar con olas trajineras
mientras haya—
trajinantes de alegrías,
llevándolas y trayéndolas.

Lino para la hilandera,
árboles que se aventuren,
mientras haya—
y viento para la vela.

Jazmín, clavel, azucena,
donde están, y donde no
en los nombres que los mientan.

Mientras haya
sombras que la sombra niegan,
pruebas de luz, de que es luz
todo el mundo, menos ellas.

Agua como se la quiera
mientras haya—
voluble por el arroyo,
fidelísima en la alberca.

Tanta fronda en la sauceda,
tanto pájaro en las ramas
mientras haya—
tanto canto en la oropéndola.

Un mediodía que acepta
serenamente su sino
que la tarde le revela.

Mientras haya
quien entienda la hoja seca,
falsa elegía, preludio
distante a la primavera.

Colores que a sus ausencias
mientras haya—
siguiendo a la luz se marchan
y siguiéndola regresan.

Diosas que pasan ligeras
pero se dejan un alma
mientras haya—
señalada con sus huellas.

Memoria que le convenza
a esta tarde que se muere
de que nunca estará muerta.

Mientras haya
trasluces en la tiniebla,
claridades en secreto,
noches que lo son apenas.

Susurros de estrella a estrella
mientras haya—
Casiopea que pregunta
y Cisne que la contesta.

Tantas palabras que esperan,
invenciones, clareando
mientras haya—
amanecer de poema.

Mientras haya
lo que hubo ayer, lo que hay hoy,
lo que venga.
Poema de Pedro Salinas, in ‘Confianza’


JDACT

sábado, 12 de abril de 2014

A Bela Poesia. Natália Correia. «Qual bom planeta, qual boa estrela ou sino invocarei? Qual espírito piedoso, que encurte este desterro saudoso, que me faz ser no mundo peregrino? Apenas sei, que hoje, é proibido proibir…»

Cortesia de adalrichmalzbender (cante), jdact

Ode à Paz
«Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
pelas aves que voam no olhar de uma criança,
pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
pela branda melodia do rumor dos regatos.

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
pelos aromas maduros de suaves outonos,
pela futura manhã dos grandes transparentes,
pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
abre as portas da História,
deixa passar a Vida!»


«Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.

Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.

E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida».

JDACT

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Namorados. 1918. Virgínia Victorino. «Qualquer pessoa, seja lá quem for, se a uma outra pessoa se dedica, só com essa ternura será rica e qualquer outra julgará pior... Há dois amores? Qual é o verdadeiro? Se há segundo, que é feito do primeiro? Esta contradição quem foi que fez?»

Cortesia de wikipedia

Namorados
Tristeza
Nos dias de tristeza, quando alguém
nos pergunta, baixinho, o que é que temos,
às vezes, nem sequer nós respondemos:
faz-nos mal a pergunta, em vez de bem.

Nos dias dolorosos e supremos,
sabe-se lá donde a tristeza vem?!...
Calamo-nos. Pedimos que ninguém
pergunte pelo mal de que sofremos...

Mas, quem é livre de contradições?!
Quem pode ler em nossos corações?!...
Ó mistério, que em toda parte existes...

Pois, haverá desgosto mais profundo
do que este de não se ter alguém no mundo
que nos pergunte por que estamos tristes?!

Renúncia
Fui nova, mas fui triste... Só eu sei
como passou por mim a mocidade...
Cantar era o dever da minha idade,
devia ter cantado e não cantei...

Fui bela... Fui amada e desprezei...
Não quis beber o filtro da ansiedade.
Amar era o destino, a claridade...
Devia ter amado e não amei...

Ai de mim!... Nem saudades, nem desejos...
Nem cinzas mortas... Nem calor de beijos...
Eu nada soube, eu nada quis prender...

E o que me resta?! Uma amargura infinda...
Ver que é, para morrer, tão cedo ainda...
E que é tão tarde já, para viver!...

Sonetos de Virgínia Victorino, in ‘Namorados’

JDACT

Namorados. 1918. Virgínia Victorino. «Sei onde vou e a parte que me cabe! E há tanta, tanta gente que nem sabe o que lhe falta para ser feliz! O momento mais triste de uma vida é o momento fatal da despedida, vê como o medo cresce em mim, latente…»

Cortesia de wikipedia

«Virgínia Villa Nova de Sousa Victorino (1898-1967). Poetisa e dramaturga portuguesa do século XX. Esteve no Brasil em 1937. A sua obra mais famosa é Namorados (1918), que teve catorze edições. Outras obras: A Volta, peça teatral em três actos representada, pela primeira vez, no Teatro Nacional de Lisboa, a 13 de Maio de 1931.

Namorados
Despeito
Digo o que noutro tempo não diria:
foi tudo um grande sonho enganador...
Nego o passado, e juro que este amor
só existiu na tua fantasia...

Sinto a volúpia da mentira! A dor
não transparece. Nego... Que alegria!
Fiz crer ao mundo inteiro, por magia,
que és de todos os homens o pior...

Nunca me entonteceu esse sorriso...
E, vê lá tu, se tanto for preciso,
nego também as cartas que escrevi!

Quero humilhar-te, enfim... Mas não entendo
porque me exalto e choro e te defendo,
se alguém, a não ser eu, diz mal de ti...

Orgulho
És orgulhoso e altivo, também eu...
Nem sei bem qual de nós o será mais...
As nossas duas forças são rivais:
se é grande o teu poder, maior é o meu...

Tão alto anda esse orgulho!... Toca o céu.
Nem eu quebro, nem tu. Somos iguais.
Cremo-nos inimigos... Como tais,
nenhum de nós ainda se rendeu...

Ontem, quando nos vimos, frente a frente,
fingiste bem esse ar indiferente,
e eu, desdenhosa, ri sem descorar...

Mas, que lágrimas devo àquele riso,
e quanto, quanto esforço foi preciso,
para, na tua frente, não chorar...

Uma vez
Ama-se uma vez só. Mais de um amor
de nada serve e nada o justifica.
Um só amor absolve, santifica.
Quem ama uma só vez ama melhor.

Qualquer pessoa, seja lá quem for,
se a uma outra pessoa se dedica,
só com essa ternura será rica
e qualquer outra julgará pior...

Há dois amores? Qual é o verdadeiro?
Se há segundo, que é feito do primeiro?
Esta contradição quem foi que fez?

Quem ama assim julga que amou;
mas pode acreditar que se enganou
ou da primeira ou da segunda vez?

Sonetos de Virgínia Victorino, in ‘Namorados’

JDACT