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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O Processo de Damião de Goes na Inquisição. Raul Rêgo. «Em o primeiro dia do mês de Agosto de mil e quinhentos e setenta e um anos, .m Évora, na ermida dos Reis Magos da dita cidade, o senhor licenciado Jerónimo Sousa, comigo, notário abaixo nomeado, por virtude de um precatório dos senhores inquisidores da cidade de Lisboa»

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Testemunho de Helena Jorge
«(…) E assim disse mais que era lembrada dizer-lhe, por ume vez, haverá três anos, pouco mais ou menos, Sebastião Macedo, seu marido, por o dito Damião de Goes mandar naquele tempo um filho para Flandres, que não tinha paciência mandar o dito Damião de Goes seu filho a Flandres, estando lá, a terra tão arruinada nas coisas da fé, a seu parecer. E que assim lhe parece que ouviu também dizer ao dito seu marido, assim agastado do dito Damião de Goes mandar seus filhos a Flandres, que não era mais cristão o dito Damião de Goes que essas paredes ou pedras ou paus. E que outra coisa não sabe do dito referimento, nem ouviu dizer nem fazer coisas ao dito Damião de Goes que lhe parecesse de mau cristão. E al não disse. E lhe foi mandado, sob cargo do juramento, ter segredo no caso. O que tudo disse estando presentes, por religiosas e honestas pessoas, que tudo viram e ouviram, os reverendos padres frei Francisco Santana, guardião do dito mosteiro, e frei Filipe S. José, morador no dito mosteiro, que juraram ter segredo no caso, e assinaram aqui. E ao costume disse a dita testemunha nada mais, que somente ser o dito Damião de Goes tio do dito seu marido. Pedro Álvares, notário do Santo Ofício (maldito), o escrevi, e a assinou ela aqui, juntamente com ele muito reverendo Domingos Simões. Pedro Álvares o escrevi. Helena Jorge. Domingos Simões. Frei Francisco Santana. Frei Filipe S. José.
E ida a dita testemunha, o muito reverendo Domingos Simões fez pergunta aos ditos reverendos padres que era o que lhes parecia acerca do crédito da dita testemunha e se lhes parecia que falava verdade. E por eles foi dito que lhes parecia que a falava, segundo a maneira de seu testemunhar e pola terem por muito católica cristã e por pessoa que falara verdade e tornaram assinar. Pedro Álvares, notário do Santo Ofício (maldito), escrevi. Domingos Simões, frei Francisco Santana, frei Filipe S. José.

Em Évora. Precatório
Os Inquisidores Apostólicos contra a herética pravidade e apostasia, em este arcebispado de Lisboa e sua comarca, etc., fazemos saber ao muito magnífico e muito reverendíssimo senhor doutor Diogo Mendes Vasconcelos, fidalgo da Casa de el-rei Nosso Senhor e do seu Desembargo, cónego da sé da cidade de Évora e Inquisidor Apostólico na mesma cidade e arcebispado e seu distrito, etc. Que, neste Santo Ofício (maldito), está preso Damião de Goes, cristão velho, e porque para despacho de seu processo é necessário o testemunho de sua filha dona Catarina, mulher de Luís Castro, que vive nessa cidade. Se é verdade que o dito Damião de Goes, em um dia de sábado, comeu carne, com dona Briolanja, sua sobrinha, andando ela prenhe, e depois na mesma mesa tornara a comer peixe; e sendo-lhe dito que como comia ele carne no dia de sábado, ele Damião de Goes respondera e dissera que o que entrava pela boca não sujava a alma; e que a isto estava presente ela dona Catarina. Pelo que requeremos a Vossa Mercê, da parte da Santa Sé Apostólica, e da nossa pedimos por mercê, que sendo-lhe este presentado, mande vir perante si a dita dona Catarina, ou ao lugar onde lhe parecer conveniente, e aí a perguntará, conforme ao estilo do Santo Ofício (maldito), pelo conteúdo na pergunta atrás, por ser testemunha referida no sobredito. E virá logo ratificada em forma; e o dito testemunho nos enviará cerrado e selado, por próprio sem suspeita. E isto se diz passar de catorze anos a esta parte. Dado em Lisboa, sob nossos sinais e selo do Santo Ofício (maldito), aos onze dias do mês de Julho, João Velho, notário da Santa Inquisição (maldita) o fez, de 1571. Jorge Gonçalves Ribeiro, Simão Sá Pereira.

Testemunho de dona Catarina Goes
Em o primeiro dia do mês de Agosto de mil e quinhentos e setenta e um anos, .m Évora, na ermida dos Reis Magos da dita cidade, o senhor licenciado Jerónimo Sousa, comigo, notário abaixo nomeado, por virtude de um precatório dos senhores inquisidores da cidade de Lisboa, perguntou dona Catarina, filha de Damião de Goes, preso no cárcere do Santo Oficio da Inquisição (maldito+maldita) da dita cidade de Lisboa, pelo conteúdo do dito precatório e, para em todo dizer verdade, lhe foi dado juramento dos Santos Evangelhos, em que ela pôs sua mão, e prometeu de a dizer. E sendo perguntada se seu pai, Damião de Goes, tinha uma sobrinha que se chamava dona Briolanja, disse que sim tinha; e que muitas vezes vinha a casa do dito seu pai. E, como eram parentes, a dita dona Briolanja se criara com ela testemunha, em casa do dito seu pai. Perguntada se a dita dona Briolanja comia muitas vezes em sua casa, disse que sim e que o mesmo fazia ela testemunha, em casa da dita dona Briolanja». In Raul Rêgo, O Processo de Damião de Goes na Inquisição, Assírio & Alvim, 2007, ISBN978-972-37-0769-4, Peninsulares/57.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

FCG. Damião de Góis. Elisabeth Feist Hirsch. «O retrato irradia brandura e sinceridade; na reprodução do queixo forte e dos lábios estreitamente cerrados evoca a bem conhecida força de convicção de Góis. Como a honestidade intelectual e a bondade…»

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«(…) Como Góis tinha a noção de que a sua habilidade linguística estava bem pouco à altura do que ambicionava, apreciava sobremodo o auxílio do amigo e recompensava-o com liberalidade. É possível que Góis sustentasse Grapheus financeiramente, e é certo que lhe mandava muitas iguarias importadas do vasto imperio português. Grapheus não podia retribuir em dinheiro a generosidade do seu patrono mas, ciente do desejo que Góis tinha de uma fama imorredoura, prometeu imortalizar-lhe o nome através do poema citado. De acordo com a prática humanística corrente Grapheus incluiu um retrato à pena de Góis, traçado com as pinceladas linguísticas de um verdadeiro artista. Grapheus empregou epítetos altamente lisonjeiros como sincero, franco, honesto, alegre, leal e alheio à tristeza na descrição do carácter do retratado, mas não exagerou indevidamente e exprimiu o que foi muitas vezes ecoado pelos amigos de Góis. Um desenho, o único retrato que há de Góis, possivelmente executado por Dürer, confirma a caracterização feita por Grapheus. O retrato irradia brandura e sinceridade; na reprodução do queixo forte e dos lábios estreitamente cerrados evoca a bem conhecida força de convicção de Góis. Como a honestidade intelectual e a bondade eram os traços da personalidade de Góis especialmente notados por Grapheus e por outros amigos, não se pode imaginar, como afirmam alguns autores, que os contemporâneos se iludissem ao aceitarem como uma imagem fiel o retrato que exprime tais qualidades. De facto, a veracidade de Góis muitas vezes chegava à temeridade e causava-lhe grandes sofrimentos e dificuldades.
Em contraste com o estudo da língua e literatura clássicas, em que o auxílio de Grapheus era precioso para um principiante, o pendor de Góis para a história, cedo estimulado pelos interesses do próprio rei Manuel I, era bem definido e aliava-se à atracção e curiosidade pelos feitos de além-mar dos portugueses. As viagens diplomáticas ofereciam-lhe uma oportunidade ideal para alargar o conhecimento geral e a perspectiva da historia, mas sempre que possível tentava também aprofundar e aumentar o conhecimento das terras distantes que tinham sido abertas ao estudo dos ocidentais pela exploração marítima. Como já foi dito atrás, os dois países que mais lhe excitavam a imaginação eram a Etiópia e a Índia; enquanto que aquela actuava nele como um estímulo para o pensamento religioso, esta atraía-o do ponto de vista histórico e parece ter sido um interesse constante. Assim, por exemplo, nas várias visitas que fez a Augsburgo, Góis examinou a famosa biblioteca de Peutinger e leu parcialmente um livro importante para um projecto que tinha de escrever, no futuro, uma historia da Índia. Mais tarde, quando estava bastante embrenhado nesse plano, Gois pediu a Johann Jacob Fugger que lhe adquirisse a obra, pois Peutinger não era um amigo pessoal a quem pudesse pedir semelhante favor.
O conhecido mercador de Augsburgo fez o que pôde mas Peutinger recusou, não querendo desfazer-se das suas preciosidades. Fugger aconselhou Góis a aguardar até à morte de Peutinger, assegurando-lhe que ele já tinha um pé na cova. Os motivos patrióticos subjacentes à escolha de assuntos históricos representavam uma força central da estrutura intelectual de Góis e reflectiam-se nas relações que tinha com os seus numerosos amigos pela Europa fora. Por exemplo, Johann Jacob Fugger era um dos seus excelentes amigos na Alemanha, mas cerca de 1540 as relações entre ambos tornaram-se muito tensas devido a um desacordo sobre as observações feitas por Sebastião Münster a respeito da nação espanhola na sua edição da Geografia de Ptolomeu. Góis, identificando-se com a Espanha como nação irmã, refutou vivamente as afirmações ofensivas de Münster (baseadas em informações dadas por Servetus) num panfleto intitulado Hispania. Como a Península Ibérica representava para ele uma unidade nacional, Góis tratou tanto da Espanha como de Portugal no seu panfleto.
Fugger melindrou-se perante a dureza com que Góis tratou o seu compatriota, famoso professor de Hebreu na Universidade de Basileia, e escreveu-lhe uma carta em que lhe manifestava o desagrado que sentia. O português, embaraçado, respondeu a Fugger com protestos de estima pela Alemanha, país que ele tinha sempre honrado como qual-
quer coisa de divino, e afirmando que na realidade tinha sido bastante brando com Münster pelo facto de ele ser alemão». In Elisabeth Feist Hirsch, Damião de Góis, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1967.

Cortesia da FC Gulbenkian/JDACT

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O Processo de Damião de Goes na Inquisição. Raul Rêgo. «… em um dia de sexta-feira ou sábado e que, à ceia ou jantar, se trouxera à mesa carne para a dita sua mulher, e que, comendo ela da dita carne, comera também o dito Damião de Goes dela e dissera que o que ia para dentro não fazia nojo senão o que saía para fora»

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Testemunho de Dona Briolanja
«(…) O que tudo disse, estando presentes, por honestas e religiosas pessoas que tudo viram e ouviram, os padres mestres Manuel da Câmara, o prior da Igreja de S. Pedro da dita vila, e Pedro Esteves, sacerdote de missa, ecónomo na dita igreja, que juraram ter segredo no caso. E assinaram aqui juntamente com ele, rev. Domingos Simões, e eu Pedro Álvares, notário do Santo Ofício, que o escrevi e assinei a rogo da dita Dona Briolanja. Pedro Álvares de Soto Maior - Domingos Simões Manuel da Câmara - Pedro Esteves.
Ida a testemunha o muito rev. Domingos Simões fez pergunta aos ditos reverendos padres se lhes pareciam que a dita testemunha falava verdade no que disse, segundo a ordem e maneira do seu testemunho. E por eles foi dito que lhes parecia que falava verdade, segundo a maneira com que testemunhou e segundo sua qualidade e segundo opinião que tem de sua cristandade e consciência. E tornaram assinar. Pedro Álrarrr, notário do Santo Ofício, o escrevi. Manuel da Câmara - Domingos Simões - Pedro Esteves.

Testemunho de António Gomes
E logo aí pareceu o senhor António Gomes de Carvalho, fidalgo da Casa de El-Rei Nosso Senhor marido da dita senhora Dona Briolanja, testemunha referida, e o muito reverendo Domingos Simões lhe deu juramento dos Santos Evangelhos, em que pôs sua mão, prometendo dizer verdade. E lhe fez pergunta pelo referimento atrás nele feito; e por ele foi dito que verdade era que ele ouviu dizer à dita senhora Dona Briolanja, sua mulher, que estando um dia, haverá treze ou catorze anos, pouco mais ou menos, em Lisboa, em casa de Damião de Goes, desejara sendo prenhe de auditu, comer carne de porco. E que lhe parece que lhe disse que era isto em um dia de sexta-feira ou sábado e que, à ceia ou jantar, se trouxera à mesa carne para a dita sua mulher, e que, comendo ela da dita carne, comera também o dito Damião de Goes dela e dissera que o que ia para dentro não fazia nojo senão o que saía para fora.
E que isto lhe disse a dita senhora sua mulher, agora que ouviu dizer que o dito Damião de Goes era preso. E que não é lembrado dizer-lhe a que propósito o dito Damião de Goes dissera que o que ia para dentro não fazia nojo senão o que saía para fora. E que a ele testemunha lhe parece que o dito Damião de Goes comeria a dita carne, sendo em dia proibido, por festejar a dita sua mulher, por então estar mal disposta e prenhe; e que ele o tem por muito bom cristão e que nunca lhe viu fazer nem dizer coisa que fosse contra nossa santa fé católica. O que tudo disse estando presentes, por honestas e religiosas pessoas, o padre mestre Manuel Câmara, prior da igreja de S. Pedro da dita vila de Alenquer e o padre Pedro Esteves, ecónomo da dita igreja, que juraram ter segredo no caso e assinaram aqui, juntamente com ele Domingos Simões e testemunha, e eu Pedro Álvares, notário do Santo Ofício (maldito), que o escrevi. E lhe foi mandado ter segredo no caso, sob cargo do dito juramento e ele assim prometeu. E ao costume disse que o dito Damião de Goes é tio da dita sua mulher. Ido ele dito António Gomes, testemunha, o muito reverendo Domingos Simões fez pergunta aos ditos reverendos padres se lhes parecia que falava verdade no que testemunhou. E por eles foi dito que lhes parecia que falava verdade, segundo o que disse e por ser mui temente a Deus e homem fidalgo e honrado. E tornarem a assinar - Pedro Álvares, notário do Santo Ofício (maldito), que este escrevi. - Domingos Simões - Manuel Câmara - Pedro Esteves.

Testemunho de Helena Jorge
Ao primeiro dia do mês de Julho de mil quinhentos e setenta e um anos, no mosteiro de Santa Catarina da Carnota, estando aí o muito reverendo Domingos Simões, capelão do cardeal infante nosso senhor, e secretário do Conselho Geral da Inquisição (maldito), comigo notário perguntou a senhora Helena Jorge, mulher que foi de Sebastião Macedo, que Deus tem, testemunha referida, e lhe deu juramento dos Santos Evangelhos, em que pôs a mão, e prometeu dizer verdade. E lhe fez pergunta pelo referimento feito nela. Disse que é verdade que, depois de ser agora preso Damião de Goes, lhe disse Dona Briolanja, sua filha, tratando da tal prisão, que achando-se um dia em casa do dito Damião de Goes, em Lisboa, e desejando uma pequena de carne de porco, por estar prenhe, se trouxe à mesa, sendo dia de pescado e em que se proibia pela Santa Madre Igreja comer carne. E que começando ela a comer da dita carne, lhe dissera o dito Damião de Goes: - Sobrinha, não hás-de vós de comer essa carne só. E que lhe parece a ela testemunha que lhe disse também a dita sua filha que o dito Damião de Goes comera da dita carne. E que outra coisa lhe não lembra acerca disto».

In Raul Rêgo, O Processo de Damião de Goes na Inquisição, Assírio & Alvim, 2007, ISBN978-972-37-0769-4, Peninsulares/57.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

sexta-feira, 3 de maio de 2013

O Processo de Damião de Goes na Inquisição. Raul Rêgo. «E do costume não disse nada, mas somente que o que dito tem do dito Damião de Goes ser tio do dito seu pai. E lhe foi mandado, sob cargo de juramento, que recebeu, que tivesse segredo no caso e assim o prometeu»


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Testemunho de Dona Briolanja
«(…) Disse, por ser também perguntada pelo referimento nela feito, que não era lembrada ouvir nem ver fazer, nem dizer e pessoa alguma coisa alguma que fosse contra nossa santa fé católica; mais somente que, haverá seis anos, que estando ela testemunha em Lisboa, em casa do dito Damião de Goes, tio do pai dela testemunha, em um sábado, desejando ela testemunha, por ao tal tempo andar prenhe, comer carne de porco por ver levar umas laranjas para a cozinha do dito Damião de Goes, e dizendo os desejos que tinha de comer a dita carne e que logo à ceia se pôs na mesa em que ela testemunha estava, e assim o dito Damião de Goes e sua mulher Dona Joana, já defunta, entrecosto de porco e linguiça. E posto tudo na mesa, junto a ela testemunha, disse o dito Damião de Goes: - Sobrinha, não haveis vós de comer isso só; que havemos de comer todos. E ela testemunha, por ser dia de sábado, disse: - Vossa Mercê também há-de comer?
Por lhe não parecer bem o que ele assim dizia; e ele lhe respondeu: - Sobrinha, o que vai para dentro não faz nojo. E que comeu o dito Damião de Goes da dita carne e linguiça, com ela testemunha; e assim a dita dona Joana, sua mulher, e lhe parece que comeram até se acabar a dita carne e linguiça e que a dita dona Joana era mal disposta e que o dito Damião de Goes estava são. E, acabada a dita carne, se pôs a comer do pescado que havia na mesa e assim a dita sua mulher, sem parecer que tinham pejo de comer a dita carne no dia de sábado, por andarem servindo à mesa criados seus que o viam comer. Que lhe não lembra agora quem eram, por haver treze ou catorze anos, pouco mais ou menos, que isto foi (posto que atrás diga que haveria seis anos) e que lhe parece que estava à dita mesa, e devia ver e ouvir o sobredito, sua filha Dona Catarina, que então era solteira, e ora é casada com Luís de Castro. E que ela testemunha ficou escandalizada do que assim viu fazer e ouviu, posto que o dito Damião de Goes lhe não falou mais sobre isso palavra alguma, mas que, pelo escândalo que isso teve, por ser sábado, lhe parece que logo o disse a António Gomes, seu marido. E lhe contou todo o sobredito.
E que, ao tempo que ela testemunha soube como o dito Damião de Goes era preso pelo Santo Ofício (maldito), o tornou a dizer ao dito seu marido, dizendo: - Não sei porque o prendessem pela Santa Inquisição (maldita), porque nunca lhe vi fazer nem dizer coisa de mau cristão, mais que somente ver-lhe comer aquela carne em dia de sábado. E que, falando ao mesmo propósito com seu irmão Sebastião de Macedo, e assim com sua cunhada Dona Guiomar, mulher do dito seu irmão Sebastião de Macedo, lhes disse que não sabia porque o prendessem porque não sabia mais dele que ver-lhe comer carne de porco e linguiça em dia de sábado, e dizer-lhe que o que ia para dentro não fazia nojo, senão o que vinha para fora.
E que lhe parece que o mesmo disse ela testemunha a Helena Jorge, sua mãe; e que lhe parece que lhe disse isto pela dita prisão e assim por lhe dizer a dita sua mãe, algumas vezes, estando em prática: - Não tinha vosso pai paciência de Damião de Goes mandar seus filhos moços a Flandres, nem sabia que proveito esperava tirar disso. E assim lhe parece que lhe disse também a dita sua mãe que dizia o dito seu pai algumas vezes: - Não crê mais Damião de Goes em Deus que nessa parede.
Não declarando o porque. E que doutra coisa não é lembrada ao presente. Nem que o dissesse a outras pessoas. E que ela testemunha comeu da dita carne por sua indisposição e por razão do perigo que corria, por causa dos ditos desejos; e que todavia o confessou a seus confessores e que não confessou a seus confessores o que assim ouviu fazer ao dito Damião de Goes, por não cair bem na obrigação que a isso tinha, posto que lhe pareceu muito mal por ser contra o que manda a Santa Madre Igreja. E que, se nisso teve alguma culpa, pede disso perdão porque não deixou de o fazer por respeito nenhum senão por não cair nisso. E al não disse. E do costume não disse nada, mas somente que o que dito tem do dito Damião de Goes ser tio do dito seu pai. E lhe foi mandado, sob cargo de juramento, que recebeu, que tivesse segredo no caso e assim o prometeu. E eu Pedro Álvares, notário do Santo Ofício (maldito), que o escrevi e assinei aqui, com o Rev. Domingos Simões, por ela a seu rogo». In Raul Rêgo, O Processo de Damião de Goes na Inquisição, Assírio & Alvim, 2007, ISBN978-972-37-0769-4, Peninsulares/57.

continua
Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

domingo, 28 de abril de 2013

O Processo de Damião de Goes na Inquisição. Raul Rêgo. «Os Inquisidores apostólicos contra a herética pravidade e apostasia em este arcebispado de Lisboa e sua comarca, etc. Pelo teor da presente, cometemos nossas vezes ao muito reverendo senhor Domingos Simões, capelão do Cardeal Infante»

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Testemunho de Manuel Correia
«Aos vinte e cinco dias do mês de Maio de mil quinhentos e setenta e um anos, em Lisboa, nos Estaus, na Casa do Despacho da Santa Inquisição (maldita), estando aí os senhores Inquisidores, perante eles pareceu, sendo chamado, o senhor Manuel Correia, fidalgo da Casa de El-Rei Nosso Senhor, e lhe deram juramento dos Santos Evangelhos, em que pôs sua mão, e prometeu dizer verdade. E, perguntado pelo referimento nele feito, disse que há vinte dias, pouco mais ou menos, que praticando ele testemunha com Bastião de Macedo, veador da Casa do Cardeal Infante Nosso Senhor, no termo de Alenquer, sobre as coisas de Damião de Goes, o dito Bastião de Macedo lhe disse que indo um dia dona Briolanja, sua irmã, a jantar a casa do dito Damião de Goes, em um dia de sexta-feira, segundo sua lembrança, e estando jantando a dita Briolanja disse que desejava carne de porco. E logo lhe foram buscar um pedaço de lombo de porco, e lho assaram, e trouxeram à mesa; e lho cortaram e lhe deitaram sumo de laranja. E ela começou de comer dele. E que o dito Damião de Goes começou também a comer do dito lombo. E dizendo-lhe a dita dona Briolanja: - Também vós desejais? E o dito Damião de Goes lhe respondeu e disse: - Sobrinha, o que entra pela boca não faz nojo.
E não lhe disse mais o dito Bastião de Macedo. Somente eles dois ficaram mordendo este negócio, dizendo agora, depois de o ver preso, que lhe não parecera bem aquela linguagem. E não é lembrado dizer a mais pessoas que a um seu irmão e a Henrique de Castro; e bem pode ser que o dissesse a outras pessoas. E não é lembrado se lhe disse o dito Bastião de Macedo que se achara presente a estas práticas, nem quem estava presente. E al não disse. E do costume: que o conhece e não lhe quer mal. E lhe foi mandado por segredo no caso; e ele o prometeu. E assinou com eles Senhores, e eu João Velho, notário apostólico, o escrevi. - Manuel Correia de Martins Baarem - Jorge Gonçalves Ribeiro - Simão de Sá Pereira.

Em Alenquer
Os Inquisidores apostólicos contra a herética pravidade e apostasia em este arcebispado de Lisboa e sua comarca, etc. Pelo teor da presente, cometemos nossas vezes ao muito reverendo senhor Domingos Simões, capelão do Cardeal Infante Nosso Senhor e secretário do Conselho Geral da Santa Inquisição (maldito), para que vá à vila e termo de Alenquer, como inquiridor, com Pedro Álvares de Soto Maior, notário deste Santo Ofício (maldito), pergunte as testemunhas que leva em rol sobre a causa processo de Damião de Goes, preso no cárcere deste Santo Ofício (maldito), as quais perguntará, com todas as mais que forem inquiridas, pelo conteúdo nos autos e processo da dita causa e pela mais informação que leva do caso. E serão presentes duas pessoas religiosas para logo serem ratificadas conforme ao estilo deste Santo Ofício (maldito). E para todo o sobredito lhe damos nosso inteiro poder e cometemos nossas vezes e autoridade apostólica. Dada em Lisboa, sob nossos sinais e selo do dito Santo Ofício (maldito), ao primeiro de Junho - João Velho, notário do Santo Ofício (maldito) a fez de 1571. - Simão de Sá Pereira – Jorge Gonçalves Ribeiro.

Testemunho de Dona Briolanja
Aos vinte e nove dias do mês de Junho de mil quinhentos setenta e um anos, na vila de Alenquer na igreja de Nossa Senhora da Conceição, mosteiro das freiras da dita vila, estando aí Domingos Simões, conteúdo em a comissão atrás dos senhores Inquisidores, logo aí pareceu dona Briolanja, mulher de António Gomes de Carvalho, testemunha referida, que para isso teve recado, e por virtude da dita comissão lhe deu juramento dos Santos Evangelhos, em que pôs sua mão, prometendo de dizer verdade.
E lhe fez pergunta, se era lembrada ver, ou ouvir dizer, ou fazer, a alguma pessoa alguma coisa que lhe parecesse contra nossa santa fé católica e contra o que tem e ensina a Santa Madre Igreja, ou de que se escandalizasse». In Raul Rêgo, O Processo de Damião de Goes na Inquisição, Assírio & Alvim, 2007, ISBN978-972-37-0769-4, Peninsulares/57.

continua
Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

O Processo de Damião de Goes na Inquisição. Raul Rêgo. «Os Inquisidores apostólicos contra a herética pravidade e apostasia em este arcebispado de Lisboa e sua comarca, etc. Pelo teor da presente, cometemos nossas vezes ao muito reverendo senhor Domingos Simões, capelão do Cardeal Infante»

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Testemunho de Manuel Correia
«Aos vinte e cinco dias do mês de Maio de mil quinhentos e setenta e um anos, em Lisboa, nos Estaus, na Casa do Despacho da Santa Inquisição (maldita), estando aí os senhores Inquisidores, perante eles pareceu, sendo chamado, o senhor Manuel Correia, fidalgo da Casa de El-Rei Nosso Senhor, e lhe deram juramento dos Santos Evangelhos, em que pôs sua mão, e prometeu dizer verdade. E, perguntado pelo referimento nele feito, disse que há vinte dias, pouco mais ou menos, que praticando ele testemunha com Bastião de Macedo, veador da Casa do Cardeal Infante Nosso Senhor, no termo de Alenquer, sobre as coisas de Damião de Goes, o dito Bastião de Macedo lhe disse que indo um dia dona Briolanja, sua irmã, a jantar a casa do dito Damião de Goes, em um dia de sexta-feira, segundo sua lembrança, e estando jantando a dita Briolanja disse que desejava carne de porco. E logo lhe foram buscar um pedaço de lombo de porco, e lho assaram, e trouxeram à mesa; e lho cortaram e lhe deitaram sumo de laranja. E ela começou de comer dele. E que o dito Damião de Goes começou também a comer do dito lombo. E dizendo-lhe a dita dona Briolanja: - Também vós desejais? E o dito Damião de Goes lhe respondeu e disse: - Sobrinha, o que entra pela boca não faz nojo.
E não lhe disse mais o dito Bastião de Macedo. Somente eles dois ficaram mordendo este negócio, dizendo agora, depois de o ver preso, que lhe não parecera bem aquela linguagem. E não é lembrado dizer a mais pessoas que a um seu irmão e a Henrique de Castro; e bem pode ser que o dissesse a outras pessoas. E não é lembrado se lhe disse o dito Bastião de Macedo que se achara presente a estas práticas, nem quem estava presente. E al não disse. E do costume: que o conhece e não lhe quer mal. E lhe foi mandado por segredo no caso; e ele o prometeu. E assinou com eles Senhores, e eu João Velho, notário apostólico, o escrevi. - Manuel Correia de Martins Baarem - Jorge Gonçalves Ribeiro - Simão de Sá Pereira.

Em Alenquer
Os Inquisidores apostólicos contra a herética pravidade e apostasia em este arcebispado de Lisboa e sua comarca, etc. Pelo teor da presente, cometemos nossas vezes ao muito reverendo senhor Domingos Simões, capelão do Cardeal Infante Nosso Senhor e secretário do Conselho Geral da Santa Inquisição (maldito), para que vá à vila e termo de Alenquer, como inquiridor, com Pedro Álvares de Soto Maior, notário deste Santo Ofício (maldito), pergunte as testemunhas que leva em rol sobre a causa processo de Damião de Goes, preso no cárcere deste Santo Ofício (maldito), as quais perguntará, com todas as mais que forem inquiridas, pelo conteúdo nos autos e processo da dita causa e pela mais informação que leva do caso. E serão presentes duas pessoas religiosas para logo serem ratificadas conforme ao estilo deste Santo Ofício (maldito). E para todo o sobredito lhe damos nosso inteiro poder e cometemos nossas vezes e autoridade apostólica. Dada em Lisboa, sob nossos sinais e selo do dito Santo Ofício (maldito), ao primeiro de Junho - João Velho, notário do Santo Ofício (maldito) a fez de 1571. - Simão de Sá Pereira – Jorge Gonçalves Ribeiro.

Testemunho de Dona Briolanja
Aos vinte e nove dias do mês de Junho de mil quinhentos setenta e um anos, na vila de Alenquer na igreja de Nossa Senhora da Conceição, mosteiro das freiras da dita vila, estando aí Domingos Simões, conteúdo em a comissão atrás dos senhores Inquisidores, logo aí pareceu dona Briolanja, mulher de António Gomes de Carvalho, testemunha referida, que para isso teve recado, e por virtude da dita comissão lhe deu juramento dos Santos Evangelhos, em que pôs sua mão, prometendo de dizer verdade.
E lhe fez pergunta, se era lembrada ver, ou ouvir dizer, ou fazer, a alguma pessoa alguma coisa que lhe parecesse contra nossa santa fé católica e contra o que tem e ensina a Santa Madre Igreja, ou de que se escandalizasse». In Raul Rêgo, O Processo de Damião de Goes na Inquisição, Assírio & Alvim, 2007, ISBN978-972-37-0769-4, Peninsulares/57.

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Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O Processo de Damião de Goes na Inquisição. Raul Rêgo. «- Tá, senhor, que não é dia de carne. E que ele Damião de Goes, lhe respondera: - Calai-vos, senhora sobrinha, que o que entra pela boca não mata a alma»

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Testemunho do duque de Aveiro, João de Alencastre
«(…) E assim, mais era lembrado, contar-lhe o dito Manuel Correia como o dito Bastião de Macedo lhe dissera, vindo pelo mesmo caminho, que achando-se sua mãe dele Bastião de Macedo, que se chama Helena Jorge, e assim sua irmã, dona Briolanja mulher de António Gomes, moradores em Alenquer, em casa do dito Damião de Goes, um dia de sexta-feira ou outro dia em que se não comia carne, e sendo convidados pelo dito Damião de Goes Para o jantar, sendo ainda viva sua mulher, dona Joana, estando bem apercebido de pescado para os agasalhar, disse a sobredita dona Briolanja que não havia de comer pescado porque estava prenha e não lhe tinha vontade para o comer. E que seu tio, Damião de Goes, vendo isto, mandou logo buscar um pedaço de lombo de porco a uma taverna; e o concertaram e puseram em a mesa para ela comer; e estando todos, comendo ela a dita carne e os mais pescado, à mesa, ele Damião de Goes deitou mão ao prato onde a sobrinha comia e tomou uma talhada de carne e pôs-se a comê-la. Ao que a dita sua sobrinha lhe disse, vendo isto: - Tá, senhor, que não é dia de carne.
E que ele Damião de Goes, lhe respondera: - Calai-vos, senhora sobrinha, que o que entra pela boca não mata a alma. E não é lembrada se lhe disse o dito Manuel Correia que lhe contara o Bastião de Macedo que se achara presente a este jantar ou não; ou se fora este jantar, em esta cidade ou na quinta do dito Damião de Goes [riscado - se em a vila de Alenquer]. Que o saibam dele que o dirá. E que o dito Manuel Correia lhe dissera que Bastião de Macedo, quando isto lhe contara, foi parecendo-lhe mal e queixando-se de não ser isto bem feito. E que assim parecera mal às ditas sua mãe e irmã; e por essa mesma razão, quando ela denunciante, o contou a ele, senhor Inquisidor, o contou por lhe parecer mal.
E é mais lembrada, contar-lhe o dito Manuel Correia que lhe dissera o dito Bastião de Macedo, pelo caminho, que ouvira algumas vezes dizer ao dito Damião de Goes, seu tio, que desejava de ir morrer a Flandres. E al não disse. O que tudo dizia por descargo de sua consciência, por lhe ser perguntado, pelo que assim contara a ele senhor Inquisidor. E lhe foi mandado ter segredo no caso, sob cargo do mesmo juramento, e que a nenhuma pessoa desse conta do que fora perguntado. E do costume disse nada. Antes que fora sempre muito amiga da mulher dele dito Damião de Goes, a qual era e ela a tinha por muito boa e católica cristã. E assinou aqui, juntamente com ele, senhor Inquisidor, e eu Manuel Antunes, notário do Santo Ofício (maldito), o escrevi.
E disse, sendo perguntada, que lhe não declararam quanto tempo havia que o dito Damião de Goes dera este jantar em que passara o sobredito. E eu, Manuel Antunes, notário do Santo Ofício (maldito), o escrevi, com as entrelinhas que dizem nem ser perguntada, ou na quinta do dito Damião de Goes, e riscado que dizia se em a vila de Alenquer. Que por verdade fiz. Simão de Sá Pereira - Dona Maria de Távora.

In Raul Rêgo, O Processo de Damião de Goes na Inquisição, Assírio & Alvim, 2007, ISBN978-972-37-0769-4, Peninsulares/57.

continua
Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

domingo, 3 de fevereiro de 2013

FCG. Damião de Góis. Elisabeth Feist Hirsch. «Passaram-se, contudo, quase dez anos antes que Góis fosse aceite como pensador e historiador. Os primeiros anos como secretário da Casa da Índia foram atarefados e não lhe deixavam vagar para ocupações de carácter humanístico»

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«Os anos passados na actividade diplomática foram indubitavelmente significativos para o desenvolvimento pessoal de Góis. Portugal, devido ao seu isolamento geográfico no canto ocidental da Europa, não lhe poderia ter dado uma tão ampla compreensão das forças históricas que iriam produzir um novo mundo europeu. Através da paciente observação e da investigação dos países da Europa que conheceu, aprendeu a apreciar novas perspectivas em muitos campos da actividade humana. Ganhou também uma maior compreensão do cerne da sua própria existência. Não há dúvida de que, sem a experiência diplomática, as realizações intelectuais de Góis teriam assumido um carácter bastante diferente.

Formação Intelectual e Espiritual de Góis
Uma vez em Antuérpia, intensificou-se extraordinariamente, em Góis, o desejo de aprender. Se as actividades comerciais da cidade não reservavam grandes surpresas para o recém-nomeado diplomata da casa real de Lisboa, as oportunidades culturais que ela oferecia excediam, sem sombras de dúvida, tudo quanto ele conhecera no passado. A economia florescente de Antuérpia atraía muitos homens célebres, e a proximidade da Universidade de Lovaina levava a essas paragens acolhedoras os mais distintos humanistas com demoradas estadias. Quando Góis assumiu o seu posto, a memória de Thomas More, de Dürer, e, sobretudo, de Erasmo, que tinha estado em Antuérpia havia pouco tempo, estava bem viva nos círculos que frequentava. Se Góis já tinha em alto apreço o nome de Erasmo quando estava na sua terra natal, a obra e a personalidade do humanista holandês tornaram-se-lhe muito mais reais na Flandres. Ficou a dever o conhecimento íntimo de Erasmo, que então adquirira, à sua associação com Cornelius Grapheus, poeta e conhecido humanista, que foi um dos mais chegados de Góis durante o tempo que ele permaneceu na Flandres.
Grapheus tinha grande estima por Erasmo e Góis passou a nutrir um profundo respeito pelo celebrado humanista. Todavia, passar-se-ia quase uma década antes que Góis fizesse qualquer esforço para conhecer pessoalmente o grande Erasmo. Na qualidade de representante dum poderoso rei português que Erasmo conhecia, e que esperava que viesse a ser seu patrono, Góis poderia ter proposto um encontro, na altura que quisesse. A razão dessa reserva pode ter sido o desejo de se fazer notar por Erasmo, na sua qualidade de humanista, por mais modesto que fosse
Passaram-se, contudo, quase dez anos antes que Góis fosse aceite como pensador e historiador. Os primeiros anos como secretário da Casa da Índia foram atarefados e não lhe deixavam vagar para ocupações de carácter humanístico. Quando se preparava finalmente para começar um estudo intenso da língua e da literatura clássica, Góis pediu a Cornelius Grapheus para ser seu professor. A escolha reflectia o espírito do próprio Góis. A sua chegada a Antuérpia tinha coincidido com o regresso de Grapheus à cidade, depois de um ano na prisão, em Bruxelas, como uma das primeiras vítimas da Inquisição (maldita), estabelecida havia pouco na Flandres. Quando os dois homens se conheceram, já as actividades de Grapheus lhe tinham custado o cargo de secretário de Antuérpia. É pouco provável que Góis desconhecesse a ousada crítica feita por Grapheus à Igreja Católica, ou a sua subsquente aprovação de Lutero, ou ainda as suas relações de amizade com Dürer (suspeito como religioso), durante a visita do artista a Antuérpia. Sendo Góis um diplomata que servia um rei mui católico, a sua amizade por um homem que tinha dado como presente de despedida a Dürer o devastador panfleto O Cativeiro da Bobilónia pode parecer deveras surpreendente; porém isso deve ser interpretado como um sinal da inquietação espiritual de Gois e do carácter perscrutador do seu temperamento religioso.
Embora seja muito possível que no início da associação com Grapheus, Góis se deliciasse com ele especialmente como companheiro de música (ambos dominavam vários instrumentos), passou a interessar-se mais por outros talentos do amigo, à medida que os laços entre eles se tornavam mais fortes. Num longo poema dedicado ao seu patrono Grapheus descrevia com manifesto prazer como tinha guiado [Góis] até ao cume sagrado da alta montanha das musas. Revelava surpresa pelo facto de Góis, que já era conhecido pelo seu talento musical, se tornar um estudante de latim tão aplicado, e comparava os seus esforços com os de Catão em relação ao grego». In Elisabeth Feist Hirsch, Damião de Góis, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1967.

Cortesia da FC Gulbenkian/JDACT

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

FCG. Damião de Góis. Elisabeth Feist Hirsch. «A expedição ao rio Don levou-o por caminhos árduos e pouco frequentados que lhe causaram um considerável desgaste físico, mas teve a compensação de encontrar os Tártaros e de adquirir alguns conhecimentos sobre essas tribos isoladas»

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«Góis voltou à Polónia em 1531, mas uma segunda tentativa para unir os dois países por um laço dinástico também fracassou. Todavia a missão de 1531, iniciada na Dinamarca, deu a Góis a oportunidade de ver terras novas, de adquirir novas dimensões de pensamento, e de ter novas possibilidades para compreender a história. Em primeiro lugar, e tanto quanto se sabe, a tarefa de Góis requeria agora, pela primeira vez, negociações diplomáticas com um governante protestante. O rei Frederico da Dinamarca tinha-se desavindo com Carlos V por este proteger o predecessor destronado de Frederico, que era católico. Góis teria provavelmente tido a delicada incumbência de transmitir as garantias de neutralidade de João III neste conflito. Estas diligências de Gois foram um desafio à sua perícia diplomática e um teste da sua tolerância religiosa, mas parece que teve um encontro amigável com Frederico, que lhe recomendou que visitasse um certo protestante eminente em Schleswig.
A muitos respeitos, a Dinamarca deu o tom necessário à terceira missão de Góis. João III era um governante pragmático, mais guiado por considerações práticas do que por princípios religiosos. Desse modo enviou Góis para travar esse primeiro diálogo oficial com um rei protestante e não levantou objecções aos outros diálogos de Gois, durante a viagem, com protestantes, na sua maioria particulares.
Góis foi a Schleswig, e daí para Luebeck, onde teria tentado diminuir a rivalidade económica entre essa cidade livre e a Dinamarca, que constituía uma ameaça à segurança das vias marítimas do Norte. A seguir fez uma visita particular a Wittenberg e depois viajou para a Rússia através da Prússia e da Polónia. Como a Prússia tinha recentemente feito progressos económicos, é possível que aí o objectivo de João III fosse o estabelecimento de contactos comerciais. Góis foi liberalmente recebido com banquetes e guardou uma viva recordação do caloroso acolhimento que lhe foi feito pelos russos.
Completada a visita oficial à Rússia, Góis organizou uma viagem de exploração ao rio Don, na esperança de conhecer as tribos tártaras. A curiosidade de Góis pelas civilizações desconhecidas, cedo evidenciada, era com certeza mais do que um entusiasmo juvenil. O fruto colhido das lições sociais e culturais dessa última missão e patente nos seus escritos históricos da maturidade dá prova de um interesse sério e duradoiro. A expedição ao rio Don levou-o por caminhos árduos e pouco frequentados que lhe causaram um considerável desgaste físico, mas teve a compensação de encontrar os Tártaros e de adquirir alguns conhecimentos sobre essas tribos isoladas. A viagem de Góis foi um empreendimento ousado, pois poucos homens do seu tempo, de que Sigismundo von Herberstein era uma excepção, se interessavam em conhecer esse povo reputado como brutal.
Os amigos de Góis, Cornelius Grapheus e André de Resende, estudante português de Lovaina, enviaram-lhe poemas celebrando o seu regresso a são e salvo dessa audaciosa viagem. Grapheus pensava que o desejo de Góis de conhecer uma gente tão estúpida, incivilizada e bárbara era simplesmente inacreditável, e Resende classificou de intrepidez o ir viver com uma tribo que não temia a Deus e estava sempre pronta para a carnificina num acesso de paixão. Se Góis tivesse escrito o relato das suas aventuras no rio Don estaríamos em melhor posição para avaliar o que ele próprio sentia a respeito dessa visita.
Fez poucas referências aos Tártaros na sua Chronica do Felicissimo Rei Dom Emanuel; delas pode concluir-se que aceitava sem reservas o seu modo de vida embora possivelmente se ofendesse com a religião muçulmana, que eles praticavam. A atitude generosa de Góis para com os povos estrangeiros reflecte-se claramente no relato duma visita feita alguns anos mais tarde ao país dos Lapões, cujos costumes primitivos avaliou de forma objectiva.
Pouco depois de ter concluído a missão de 1531 Góis abandonou a carreira diplomática. Seria difícil fazer uma apreciação exacta da estatura de Góis como diplomata. Desempenhou um papel necessariamente secundário mas era estimado e considerado no círculo dos seus iguais. Em carta ao cardeal Sadoleto, anos mais tarde, Góis dizia que se sentia deslocado na diplomacia; mas na realidade parecia gozar a vida activa de diplomata, revelou certa habilidade como negociador, e tirou o máximo partido da oportunidade de viajar. Pôde descobrir muitas coisas sobre política e cultura que não teria podido aprender de outro modo». In Elisabeth Feist Hirsch, Damião de Góis, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1967.

Cortesia da FC Gulbenkian/JDACT

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O Processo de Damião de Goes na Inquisição. Raul Rêgo. «… e assim em sua casa, que havia medo que haviam de prender o dito Damião de Goes por luterano e por ser inclinado duas coisas, a saber: a comer e beber muito e às coisas da carne»

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Testemunho do duque de Aveiro, João de Alencastre
«Aos vinte e cinco dias do mês de Maio de mil quinhentos e setenta e um anos, em Lisboa, o senhor Simão Sá Pereira, Inquisidor (maldito), foi às casas e aposento do Ilustríssimo Senhor João, duque de Aveiro, por causa de sua Ilustríssima Senhoria estar mal disposto e não poder ser perguntado em outra parte; e lhe deu juramento dos Santos Evangelhos, em que pôs sua mão, e prometeu dizer verdade.
E lhe fez pergunta se sabia Sua Senhoria de alguma pessoa que fizesse ou dissesse alguma coisa contra nossa Santa Fé Católica; e por ele foi dito que não sabe outra coisa somente que haverá, digo, que de tempo certo se não lembra, somente foi depois que começa a capela em o mosteiro de São Domingos da cidade de Coimbra, na capela-mor, que fez para sua sepultura, veio a falar com Damião de Goes, que ora está preso no Santo Ofício (maldito), sobre a dita capela; e nesta prática lhe disse o dito Damião de Goes que olhasse Sua Ilustríssima se seria mais seguro fundar a dita capela em uma igreja paroquial que em mosteiro; e Sua Senhoria lhe não respondeu coisa que lhe lembre. Somente depois que o viu preso lhe pareceu que dizia o dito Damião de Goes aquilo porque em Alemanha desfaziam alguns mosteiros e que as paróquias ficavam; e por isso lhe disse que seria mais seguro e de mais dura fundar a dita capela na paróquia que em mosteiro.
E assim é mais lembrado dizer-lhe o padre Mestre Simão que, em França ou em Itália, tinham ao dito Damião de Goes por suspeito pela comunicação que tinha com Erasmo, segundo sua lembrança; mas que se afirma dizer-lhe o dito Mestre Simão que se tinha suspeita da cristandade do dito Damião de Goes e que em tudo isto advertiu muito pouco ou nada, senão depois que o viu preso pelo Santo Ofício (maldito) e o contou a Pedro seu filho, o qual avisou o Santo Ofício (maldito) por uma carta. E que de outra coisa não é lembrado.
E ao costume disse nada e lhe foi encomendado o segredo deste caso, e ele o prometeu, e assinou com ele senhor Inquisidor (maldito) e eu João Velho, notário apostólico, o escrevi - o duque… - Simão Sá Pereira.

Testemunho de Dona Maria de Távora
Aos vinte e um dias deste mês de Maio de mil quinhentos e setenta e um anos, em a cidade de Lisboa, nas pousadas da Srª Dona Maria de Távora, dona viúva, mulher que foi de António Teixeira da Silva, estando aí o senhor Simão Sá Pereira, Inquisidor (maldito), por ela dita senhora Maria estar doente em cama e não poder dar seu testemunho, nem poder ser perguntada em outra parte, lhe deu juramento aos Santos Evangelhos, em que ela pôs sua mão, e prometeu dizer verdade.
E lhe foi dito se era lembrada dizer-lhe os dias passados, a ele Inquisidor (maldito), certa coisa que lhe parecesse mal e a escandalizasse por ser contra nossa Santa Fé Católica, que lhe contaram de alguma pessoa. E por ela foi dito que lembrada era contar-lhe como Manuel Correia Meneses, morador na sua quinta do Carregado, termo de Alenquer, no campo da Marinha, casado com dona Joana de Távora, sua sobrinha, haverá quinze dias pouco mais ou menos, lhe disse que vindo ele com Bastião Macedo, veador da casa do cardeal infante Nosso Senhor, vindo ambos das quintas para esta cidade praticando pelo caminho acerca da prisão de Damião de Goes, lhe veio a dizer o dito Bastião Macedo que seu pai, Bastião Macedo, já defunto, dissera muitas vezes a ele seu filho, e assim em sua casa, que havia medo que haviam de prender o dito Damião de Goes por luterano e por ser inclinado duas coisas, a saber: a comer e beber muito e às coisas da carne». In Raul Rêgo, O Processo de Damião de Goes na Inquisição, Assírio & Alvim, 2007, ISBN978-972-37-0769-4, Peninsulares/57.

continua
Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O Processo de Damião de Goes na Inquisição. Raul Rêgo. «… Mestre Simon y siendo perguntado dizo que se acuerdaba haver dicho cierto dicho de cosas tocantes al Santo Oficio de la Inquisición (maldito) muchos años contra un Damião de Goes portugués en la Inquisición (maldita) de la ciudad de Evora»


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Testemunho de António Pinheiro
«Aos nove dias do mês de Maio de mil quinhentos e setenta e um anos, em Lisboa, nos Estaus, na Casa do Despacho da Santa(?) Inquisição (maldita), estando aí os Senhores Inquisidores e o padre frei Manuel da Veiga, deputado, ante eles pareceu, sendo chamado António Pinheiro, tesoureiro das Tapeçarias de El-Rei Nosso Senhor, e lhe deram juramento dos Santos Evangelhos, em que pôs sua mão. E prometeu dizer verdade. E lhe fizeram pergunta se era lembrado dizer alguma pessoa que sabia de outra que não ia à Igreja de onde era freguês ouvir os ofícios divinos, os dias de obrigação da Igreja; e que chegaram a evitá-la por isso. Por ele foi dito que outra coisa não sabe senão que Damião de Goes, que está preso neste cárcere, via ir muito poucas vezes à igreja de Santa Cruz de onde era freguês, todo o tempo que ele testemunha morou pegado com ele, nos Paços da Alcáçova, onde ambos pousavam, que foi por espaço de cinco ou seis anos. E que via cavalgar ao dito Damião de Goes, aos domingos e festas, com sua gente que o acompanhava; e dizia que ia ouvir missa a São Bento, onde tinha dois filhos frades; e que também, no sobredito tempo, via ir à freguesia algumas vezes, mas que eram poucas. E que outra coisa não sabe do que lhe foi perguntado.
Perguntado quem eram os criados de sua casa que levava consigo e como se chamavam, disse que levava um escravo que chamavam Sebastião e assim um pajem que chamavam Jerónimo e assim um homem de esporas a quem não sabe o nome, por lhe não lembrar. E al não disse.
E foi mandado, sob cargo de juramento, que tivesse segredo no caso. E assim o prometeu do costume que é compadre e amigo do dito Damião de Goes; e assinou com eles Senhores Inquisidores (malditos) e eu, Pedro Álvares, notário do Santo Ofïcio, (maldito) que o escrevi. Simão Sá Pereira, frei Manuel Veiga, António Pinheiro.

Precatório
‘O licenciado Jorge Gonçalves Ribeiro e o doutor Simão de Sá Pereira, do Desembargo de El-Rei Nosso Senhor, Inquisidores Apostólicos contra a herética pravidade e apostasia neste arcebispado de Lisboa e sua comarca, etc. Fazemos saber aos muito Magníficos e muito Reverendos Senhores Inquisidores (malditos) da cidade e arcebispado de Toledo e seu distrito que, no cárcere deste Santo Ofício (maldito), está preso um Damião de Goes, cristão velho, português, guarda-mor da Torre do Tombo, contra o qual tem testemunhado o padre Mestre Simão, da Companhia de Jesus e se diz residir no colégio ou casa da dita Companhia dessa cidade ou aí muito perto.
E, para que o processo do dito Damião de Goes posse ir avante e se dê despacho em sua causa, é necessário ratificar-se o dito padre Mestre Simão em seu testemunho. Pelo que requeremos a Vossas Mercês da parte da Santa Sé Apostólica e da nossa pedimos, mandem vir perante si ao dito Mestre Simão e o ratificarão na forma do Direito em o dito seu testemunho cujo treslado vai com este em maneira que faça fé em juízo e fora dele segundo estilo do Santo Ofício (maldito) e posto que no dito testemunho vá outra pessoa nomeada que já é falecida, não vai para mais que para lembrança do dito padre Mestre Simão. E não será ratificado senão no que toca ao dito Damião de Goes somente. E tanto que for ratificado Vossas Mercês pelo portador nos enviarão a dita ratificação junta ao dito testemunho e a este nosso precatório tudo cerrado e selado, com a brevidade possível, por cumprir assim ao serviço de Nosso Senhor e bem do Santo Ofício (maldito) e se dar despacho ao preso.
Dado em Lisboa, sob nossos sinais e selo do dito Santo Ofício (maldito), aos nove dias do mês de Abril, João Velho, notário apostólico e escrivão da Santa Inquisição (maldita), o fez, de 1571, Jorge Gonçalves Ribeiro, Simão Sá Pereira.
[No verso:] frei Francisco de Trianos


Em Toledo
En la muy noble y muy leal ciudad de Toledo, veinte días del mês de abril de mil y quiñienros y serenta y un años, ante el señor licenciado Juan Beltrán de Guevara Inquisidor apostólico en la dicha ciudad y Reyno de Toledo que al presenre preside solo en la dicha Inquisición (maldita), estando dentro de su eposenro que es las casas de la dicha Inquisición (maldita) y presentes por personas honestas y religiosas, los muy Reverendos frey Francisco de Trianos, prior del monasterio de S. Pedro Martir de la Orden de Santo Domingo, y frey Gaspar de los Reyes presentado en la dicha orden y consultor en la dicha Inquisición (maldita), que tienen jurado el secreto, pareceu siendo llamado un clérigo en la Compañía de Jesús de la dicha ciudad del qual fue recebido juramento en forma de verdad decir y prometió decii la verdad y dizo llamarse Mestre Simon y siendo perguntado dizo que se acuerdaba haver dicho cierto dicho de cosas tocantes al Santo Oficio de la Inquisición (maldito) muchos años contra un Damião de Goes portugués en la Inquisición (maldita) de la ciudad de Evora». In Raul Rêgo, O Processo de Damião de Goes na Inquisição, Assírio & Alvim, 2007, ISBN978-972-37-0769-4, Peninsulares/57.

continua
Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

FCG. Damião de Góis. Elisabeth Feist Hirsch. «Góis escreveu a João III que Luís teria boas probabilidades de vir a ser rei da Polónia, ‘a monarquia polaca era electiva’, se se combinasse o casamento. Contudo, por mais útil que a união pudesse vir a ser para Portugal, não foi aprovada por Sigismundo»


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«Pretendia até que Portugal tinha sido escolhido para cumprir a frase bíblica: “Por toda a terra caminha o seu eco, até aos confins do mundo a sua palavra”. Góis relembrava a Giovio que as conquistas além-mar cobriam de glória, não apenas Portugal, mas toda a comunidade cristã, e mereciam o apoio de todas as nações. Que melhor apoio podia haver, exclamava Góis, do que a disposição de pagar o preço pedido pelas especiarias?
É claro que havia muitas razões para que aventureiros se lançassem à conquista, razões essas que incluíam a ambição, associada a uma grande crueldade, assim como simples curiosidade de religião, e um espírito genuíno de pesquisa; essa limitação dos objectivos a razões essencialmente religiosas diz-nos mais sobre Góis do que sobre os factos em si. Escrevendo com fervor patriótico, preferia atribuir os motivos mais elevados às descobertas gloriosas e ao subsequente poderio de Portugal.
João III não podia desejar melhor porta-voz. E, pois que Góis servia tão bem os interesses portugueses, o rei, após cinco anos de serviço em Antuérpia e nas terras circunvizinhas, mandou-o em missões especiais em 1528, 1529 e 1531. A primeira missão de Góis levou-o a Inglaterra numa altura de extrema tensão, quando os planos de divórcio de Henrique VIII eram causa de grande angústia e alarme entre os católicos. O rei português tinha sido sempre um defensor da Igreja Católica mas não desejava fazer perigar a aliança entre o seu país e a Inglaterra, sobretudo por causa da importância do Canal da Mancha para o tráfego marítimo português para Antuérpia e para outros portos europeus. Provavelmente queria que Góis garantisse ao rei inglês as intenções pacíficas de Portugal, a fim de desfazer os boatos que se tinham espalhado, de que o país iria atacar a Inglaterra por mar.

NOTA: Infelizmente não se pode provar nada ao certo sobre as conversações de Góis na Inglaterra. O rei português desaprovava o divórcio de Henrique VIII e é possível que Góis tivesse tratado do assunto particularmente.

A incumbência de Góis deve ter sido difícil, tranquilizar sem ofender os católicos. A única referência que lhe fez foi para prestar tributo a seu amigo John Wallop, que lhe fora muito útil a respeito das [suas] negociações com a Inglaterra. Quando Góis travou conhecimento com Wallop em Portugal, o inglês defendia a causa católica e tinha ido lutar em África lado a lado com os soldados portugueses; mas agora Wallop era íntimo colaborador de Thomas Cromwell, que iria em breve substituir Thomas Wolsey nas boas graças de Henrique VIII. Góis, contudo, não parece ter achado extraordinária essa mudança de lealdades da parte de Wallop.
É possível que Góis tenha conhecido Thomas More em Inglaterra, visto que esse católico devoto e tolerante ainda desempenhava aí um papel de relevo; além disso, esse piedoso humanista tinha sido hóspede frequente da Casa da Índia em Antuérpia, poucos anos antes da ida de Góis para a Flandres. A reacção de Góis à notícia da execução de More e de John Fisher, anos mais tarde, sugere que ele conhecia More pessoalmente. Se assim era, devia ter sofrido ao saber que o seu outro amigo, Wallop, tinha defendido oficialmente, na qualidade de Embaixador em França, a decisão real de mandar executar os dois membros da Igrej. João, filho de Thomas More, movido fosse por algum elo entre More e Góis, fosse simplesmente pela curiosidade que o pai sentia pelos Descobrimentos dos Portugueses, traduziu para inglês o primeiro opúsculo latino de Gois sobre a missão do enviado etíope Mateus a Portugal. A introdução de John fazia eco da tolerância religiosa do pai e de Góis, que advogavam uma fé católica não dogmática.

NOTA: Sobre a tradução do opúsculo de Góis por John More, gostaria de citar alguns passos da introdução de More porque as suas opiniões religiosas eram extraordinariamente semelhantes às de Góis. Rogers: "Este império de Preste João tem a reputação de ser tão poderoso como todas as restantes nações (se não o fôr mais) que estão agora cristianizadas, excepto as terras recentemente descobertas que se tornaram cristãs nos últimos anos. E portanto vós, bons povos cristãos, podeis regozijar-vos grandemente, e é de razão que o façais [...]

Embora Góis encontrasse uma certa efervescência religiosa em muitos dos países que visitou, a situação não era sempre tão confusa como tinha sido em Inglaterra. O rei da Polónia em 1529, Sigismundo, que estava profundamente ligado a religião católica, tinha grandes problemas com os estudantes polacos, muitos dos quais procuravam a sua inspiração em Wittenberg.

NOTA: Oliveira Marques, que estudou em pormenor as rotas da viagem de Góis, deixou em aberto o problema da partida de Góis por mar ou por terra, ao sair de Portugal. Depois de cumprida a missão, Góis regressou via Danzig; parece-nos muito provável que tenha voltado de barco.

Também vários nobres, como Joannes Tarnowski, que Góis tinha conhecido em Portugal e que o festejou na Polónia, eram influenciados pelos protestantes. Contudo, a missão de Góis nesse país consistia em discutir a possibilidade dum laço dinástico entre a Polónia e Portugal, e não envolvia nem questões religiosas nem questões essencialmente políticas. Os interesses económicos de João III no Oriente tornavam altamente desejável o casamento entre o seu irmão Luís e Hedwig, filha do primeiro casamento de Sigismundo. Góis, convidado ao castelo da princesa, pôde ver por si próprio que a proposta noiva era discreta e bem-parecida. Tinha a certeza de que seria bem-sucedido na sua missão. Em conversações com vários cidadãos polacos tinha vindo a saber que a segunda mulher de Sigismundo, Bona, de origem italiana,
não era benquista, e que o único filho que ela tinha do rei era uma figura impopular. Góis escreveu a João III que Luís teria boas probabilidades de vir a ser rei da Polónia, a monarquia polaca era electiva, se se combinasse o casamento. Contudo, por mais útil que a união pudesse vir a ser para Portugal, não foi aprovada por Sigismundo. Góis voltou à Polónia em 1531, mas uma segunda tentativa para unir os dois países por um laço dinástico também fracassou». In Elisabeth Feist Hirsch, Damião de Góis, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1967.

Cortesia da FC Gulbenkian/JDACT

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

FCG. Damião de Góis. Elisabeth Feist Hirsch. « Damião de Gois ripostou ao bispo italiano com um panfleto intitulado “De Rebus et Imperio Lusitanorum”, em que apoiava firmemente o monopólio e defendia com orgulho os êxitos do seu país…»


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«Em matéria de finanças as teorias monetárias propostas por Góis na Casa da Índia, em cartas posteriores e em outros escritos, dirigiam-se directamente contra medidas inflaccionárias. O rei João III, tal como o pai tinha feito antes e como outros governantes em dificuldades financeiras, aumentava, frequentemente com escasso aviso, o valor da moeda ou das taxas sobre mercadorias. Os negociantes que faziam os contratos para a venda das especiarias muito antes de chegarem a receber a mercadoria queixavam-se amargamente dessa política de João III. Além disso, muitos europeus, incluindo o Papa e Erasmo, tinham-se habituado a ter especiarias à mesa no seu dia a dia e não viam com bons olhos o aumento crescente do custo dos condimentos. Embora Góis se opusesse vigorosamente em conversas particulares ou em memorandos ao rei às manipulações financeiras de João III, coibia-se de críticas nos depoimentos públicos. Em resposta às censuras severas feitas por Paolo Giovio ao monopólio português de especiarias, Gois defendeu o rei até mesmo com fervor. Giovio pretendia no ensaio Embaixada Russa que a exclusão de todas as outras nações do negócio das especiarias por João III era causa de grandes males, e criticava duramente o rei em especial por um excesso de ganhos.
Damião de Gois ripostou ao bispo italiano com um panfleto intitulado “De Rebus et Imperio Lusitanorum”, em que apoiava firmemente o monopólio e defendia com orgulho os êxitos do seu país, orgulho esse que estava de harmonia com o espírito patriótico que se manifestava então pela Europa fora. Góis criticava mais ‘os lojistas mercenários e os retalhistas' do que os príncipes e os grandes negociantes pelo custo crescente dos condimentos, mostrando nisso um nítido preconceito a favor das classes sociais superiores. Não cuidava do aspecto monetário da questão, mas defendia João III na sua política de enorme sacrifício de homens e de dinheiro pela causa do programa português de expansão; tal programa, na opinião de Góis, justificava plenamente o controle real do comércio de especiarias, assim como os seus lucros.
É provável que a forte refutação de Gois às acusações feitas por Giovio reflectisse o apoio de poderosos círculos na Alemanha. Os grandes mercadores e banqueiros alemães como Fugger, Welser, e Hochstaetter tinham sofrido ataques semelhantes. Para defenderem os seus interesses nas dietas alemãs tinham escolhido Konrad Peutinger, secretário de Augsburgo, que era um humanista famoso e grande apreciador de antiguidades. Mesmo antes de Gois publicar De Rebus et Imperio Lusitonorum Peutinger tinha escrito uma apreciação da posição dos mercadores alemães na controvérsia e, utilizando o monopólio de especiarias de João III como exemplo, tinha-o defendido com os mesmos argumentos que Góis.
Góis também conhecia a Casa Fugger e os seus enérgicos agentes; a empresa e a iniciativa comerciais de Fugger igualavam as dos rei português. O ‘opúsculo’ de Góis, contudo, era grandemente dedicado àquilo que no fundo era um panegírico das viagens marítimas; para ele era importante sublinhar os pontos que Giovio descurara, e procurava corrigir a impressão criada por este de que o lucro era o móbil primordial das explorações dos portugueses. Gois dizia que o principal motivo dos arriscados empreendimentos do seu país era a difusão do cristianismo. Pretendia até que Portugal tinha sido escolhido para cumprir a frase bíblica: “Por toda a terra caminha o seu eco, até aos confins do mundo a sua palavra”».

In Elisabeth Feist Hirsch, Damião de Góis, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1967.

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