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quinta-feira, 27 de setembro de 2018

A Fonte das Bicas. Centro de Estudos Documentais do Alentejo. João Miguel Simões. «Além dos vereadores da Câmara e do ouvidor da comarca de Vila Viçosa, estiveram também presentes nesta reunião os procuradores do povo e o sargento-mor engenheiro José Álvares Barros…»

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A amizade de AMG e MM

A construção da monumental Fonte das Bicas
«(…) A 12 de Junho de l781, reuniram-se os vereadores da Câmara com o Doutor José Matos Pereira Godinho, juiz de fora de Sousel, que na altura servia como ouvidor da comarca de Vila Viçosa, para resolver a situação da nova fonte do Rossio:

por elle (ouvidor) foi apresentada huma ordem passada pello tribunal da Junta da Sereníssima Casa de Bargança expedida em exclusão do que Sua Magestade tomou na comsulta que se lhe avia feito sobre as comtrovécias que tem avido do estado em que se axão as águas da Fonte dos Finados no Rexio de Baxo desta villa, mamdando que se registace com a cópia do Alvará de mil setecentos e oito que e por cópia vem junto à mesma ordem para que assim se pudesse dar a sua execução tudo o que a mesma ordem detremina.

Além dos vereadores da Câmara e do ouvidor da comarca de Vila Viçosa, estiveram também presentes nesta reunião os procuradores do povo e o sargento-mor engenheiro José Álvares Barros, autor do projecto da Fonte das Bicas. A sua função aqui era dar um parecer técnico sobre a melhor decisão a recair na obra da nova fonte:

E llogo pellos Vereadores actuais com asistência dos Procuradores do povo que para este fìm se avião comvocado; como também sendo mais prezente o Sargento Mor Emgenheiro José Álvares Barros chamado para dar o seu parecer sobre o plano que se devia seguir na execussão da referida obra.

Decidiram os representantes do povo que, tendo em conta a decisão do rei de conceder livre uso das águas, se devia construir uma nova fonte no Rossio de Baixo, já que a antiga era desproporcionada e tecnicamente defeituosa, havendo a necessidade de rebaixar a canalização para permitir um melhor escoamento:

Por huns e outros foi dito ao dito Menistro gue, vista a determinação de Sua Magestade e feculdade que nella se lhe dá para o livre uso das águas da dita fonte, avião acentado que, em utilidade do bem público, se devia por em prática a obra seguinte: primeiramente que, como a arca que prezentemente existe hé disforme na grandeza e na fundura com o grande peso de sete palmos de água, que se fazia necessário rebaxar o cano da antgua saída na altura de três palmos que hé o que premite o declívio do terreno aonde se ade formar a nova fonte, xafaris e logo comtemplado na ordem que dista da arca antígua duzentos e vinte palmos, em cujo sítio se pos huma baliza na prezença do dito Ministro e dos oficiais da Câmara e procuradores do Povo que todos, na manham do prezente dia se instruirão e capacitarão do terreno e plano que devião seguir na asistência do dito sargento-mor Engenheiro que praticando sobre o mesmo terreno o calcusso e medição nescessária se acentou no referido rebaxo dos três palmos da água para fazer o declívio no sítio da Baliza, em que se ade fazer a fonte, xafaris.

Contudo, segundo o sargento-mor engenheiro José Álvares Barros, a obra de rebaixamento das canalizações não era possível de se executar na antiga fonte:

E logo, regulada esta obra pello risco que o dito sargento-mor fica pondo em limpo em beneplácito e aprovação dos ditos oficiais a Câmara e procuradores do Povo, e por acentar segundo lhe menistrava a sua arte não se poder executar no referido cítio a mencionada obra com utilidade do público sem o rebate ao menos dos ditos três palmos.

Assim, fechou-se a antiga fonte e fez-se um chafariz provisório que servisse a população. Pelo que nos revelam os documentos, a antiga fonte era perigosa, tendo ocorrido aí imfelicidades, muito provavelmente afogamentos, devido à profundidade do tanque. A água que brotava da fonte também não vinha nas melhores condições, tendo-se feito uma nova canalização:

E para se dar providência imterina ao uso da água da dita fonte em benefício do Público, se detreminou se abrice o alicerce por onde se deve formar o cano em direitura no cítio da baliza na A, digo, da baliza e se puzece água a correr na altura em que ade ficar para que pendurada por huma bica se possa utilizar a Povo, tapando-ce a arca antígua afim de se evitarem os perigos e imfelicidades que tem acomtecido e se utilize o Público da dita água durante a obra pella grande nescessidade que della tem pura e não com a immundice com que se axa, e que as sobras se regalarão, comcluída a dita obra.

Assim, com a construção de uma nova fonte, convenientemente projectada, evitar-se-ia a falta de água, melhorar-se-ia a sua qualidade e inovar-se-ia a canalização, de modo a conciliar os interesses da população com os interesses de Maria Vitória Moraes Monis Melo, que tinha do seu lado a provisão régia e a decisão do tribunal da Casa de Bragança que lhe dava o direito a usufruir dos restos da água da Fonte dos Finados. A Fonte das Bicas surgia, assim, como uma obra de engenharia que necessitaria de um esforço acrescido por parte do município. Desta forma, na vereação de 4 de Julho de 1781, decidiu a Câmara Municipal vender os direitos sobre os pastos dos olivais, águas, vertentes para a serra não só este anno, mas também o vindouro para com o produto melhor se poder fazer a obra que se pertend e fazer». In João Miguel Simões, A Fonte das Bicas, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, Edições Colibri e CEDA, Lisboa, 2002, ISBN 972-772-344-6.

Cortesia de Colibri/JDACT

A Fonte das Bicas. Centro de Estudos Documentais do Alentejo. João Miguel Simões. «Assim que a câmara municipal decidiu construir a nova fonte, deve ter cortado o abastecimento da água da nascente à horta de Diogo Melo, recebendo logo uma petição de Maria Vitória Moraes…»

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A amizade de AMG e MM

A importância da água na vila de Borba e os antecedentes da Fonte das Bicas
«(…) Como a canalização feita por Francisco Morais Barreto levava toda a água para o Rossio, tornando inútil a Fonte dos Finados, construiu-se aí a nova fonte. Contudo, o referido Diogo Melo foi intimado a pagar as despesas da obra, sob pena de lhe serem confiscados os bens em Borba, facto que muito provavelmente acabou por acontecer. A nova fonte, construída no local onde hoje se encontra a Fonte das Bicas, foi construída por Bartolomeu Lopes Cordeiro, pela quantia de 24 800 réis.
A questão em volta da nova fonte, que continuava a chamar-se de Fonte dos Finados, apesar de se ter afastado da igreja Matriz, deve ter suscitado alguma polémica, já que, a l9 de Junho de 1754, a Câmara de Borba recebeu uma ordem do rei para se juntar em assembleia a nobreza e povo do concelho para estes se pronunciarem se a fonte era realmente útil ou não. A resposta seguiu para Lisboa, a 7 de Setembro de 1754, apesar de não sabermos qual o seu conteúdo. Da nova Fonte dos Finados só encontramos notícias em 1772, quando, na vereação de 13 de Maio desse ano, se determinou reparar grande parte das fontes do concelho. No caso desta fonte, decidiu-se acrescentar a sua bacia:

Nesta (vereação) detreminarão se (...) acresentace três quartos (?) na Bacia das Bicas da fonte da igreja.

Foram estes os factos que antecederam a construção da actual Fonte das Bicas. A sua referência torna-se importante porque estes condicionaram a concepção da obra de arte que hoje se admira em Borba. A sua configuração funcional e a sua localização resultaram de todo este conturbado processo, que se arrastou ao longo dos anos, onde os interesses de particulares se sobrepunham aos interesses da Câmara e do povo. Será precisamente esta questão que está subjacente à reedificação monumental da Fonte do Rossio, conhecida como Fonte das Bicas, já que é um símbolo do poder da Câmara Municipal, enquanto defensora do bem comum e dos interesses do povo.

A construção da monumental Fonte das Bicas
O primeiro passo para a edificação da actual Fonte das Bicas foi um pedido da Câmara da vila de Borba ao rei, pedindo a autorização para construir o monumento. Na época, reinava ainda o monarca José I, que mandou, como era tradição, que a Câmara reunisse em assembleia a nobreza e povo de Borba para estes se pronunciarem sobre a real necessidade de se construir a referida fonte. Esta reunião teve lugar a 6 de Agosto de 1775 e:

por todos uniformememte foi dito que esta obra hé munto util pella decencia em que se axão as fontes desta villa e que a sua despeza não duvidão se fassa pellas sobras das Ruas do País e asignarão.

Contudo, o dinheiro destinado às Ruas do País não era suficiente e, a 4 de Janeiro de 1778, em nova assembleia municipal com a nobreza e povo de Borba, decidiu-se vender parte dos bens da Câmara:

Nesta, a voz do porteiro foi chamada a Nobreza e Povo para responderem se convinhão na obra que se pertende fazer da fonte do Rexio desta villa e se consentem que a sua despeza se fassa pellos sobejos dos Bens de Raís visto a pobreza do concelho.

Assim que a câmara municipal decidiu construir a nova fonte, deve ter cortado o abastecimento da água da nascente à horta de Diogo Melo, recebendo logo uma petição de Maria Vitória Moraes Monis Melo em que solicitava que as sobras da fonte lhe fossem restituídas, comprometendo-se a reconstruir a fonte do Rossio. A referida senhora conseguira uma provisão expedida pelo Tribunal da Sereníssima Casa de Bragança que lhe dava razão:

Nesta foi aprezentada huma petição de Donna Maria Vitória Moraes Mello pella qual pertende que em vertude das provizois expedidas pello tribunal do Sereníssimo Estado de Bargança se lhe mamde restituir as sobras da água da Fonte dos Finados obrigando-ce a perparar a fonte como antes hera.

In João Miguel Simões, A Fonte das Bicas, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, Edições Colibri e CEDA, Lisboa, 2002, ISBN 972-772-344-6.

Cortesia de Colibri/JDACT

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

A Fonte das Bicas. Centro de Estudos Documentais do Alentejo. João Miguel Simões. «Visto o referido e ter o sobredito mais utilidade na mudança deste xafaris para as ágoas da dita Fonte dos Finados do que em faze-llo de novo…»

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A amizade de AMG e MM

A importância da água na vila de Borba e os antecedentes da Fonte das Bicas
«(…) Catarina Matilde, a obra feita para restituir a água aos populares:

e assim com o procuradro deste povo e atendendo ao bem comum e a se tre faltado as condisois do dito alvará que em todo se devia cumprir requeria que mandasem notificra Catherina Matilde veuva do mesmo pera que em tremo de trinta dias mande fazre o chafaris e tanque na froma disposto em o dito alvará com cominassão de que não o fazendo de se mandra demolri a dita fonte como justa, digo, fonte pondo-se esta no mesmo estado que de antes estava seu chafaris.

Três anos passaram e Catarina Matilde nada fez para restituir a água ao povo e construir a fonte a que seu marido se havia obrigado. A Câmara fez uma nova notificação, a l2 de Agosto de 1744, tendo esta sido entregue em mão pelo escrivão do município, Diogo Sande Vasconcellos Corte Real. Contudo, a referida senhora não deve ter reagido bem à nova notificação da Câmara, já que se registou nas actas que se lhe tirará o dito ógoa yisto a rebeldia. A obra feita por Francisco Morais Barreto foi demolida para se restituir a água ao povo e entregou-se as contas à referida Catarina Matilde. Quem ficou encarregue de fazer a cobrança da dívida foi o juiz de fora, mais uma vez devido à rebeldia da senhora. Em 1753, a questão da fonte que Francisco Morais Barreto deveria ter construído volta a aparecer nas sessões da Câmara. A consequência de todo o processo foi que o chafariz construído pelo defunto fora demolido e a Fonte dos Finados continuava seca, continuando o povo sem ter a água a que tinha direito, possivelmente por se não ter remodelado as canalizações subterrâneas que levavam a água para as hortas:

consta que o sobredito tenha feito hum xafaris próximo do lagar de Diogo Francisco desta villa (...) o qual de prezente se acha demolido e com a fonte daonde lhe corria a ágoa para o mesmo totalmente seca.

A Câmara entendeu que se devia intimar os actuais proprietários da horta que recebia as águas da Fonte dos Finados a construir o chafariz definido na provisão régia:

hum xafaris com três bicas e hum tanque grande para beberem as bestas e seo lavadouro.

O actual proprietário era Diogo Melo, morador na cidade de Évora, que recebeu uma carta do município intimando-o a construir a fonte, sob pena de lhe serem tiradas as águas que lhe abasteciam a horta. Como, provavelmente, Diogo Melo nunca tinha ouvido falar nesta obrigação, nem respondeu à carta da Câmara de Borba. Os vereadores, perante a falta de água, decidiram aproveitar as canalizações feitas por Francisco Morais Barreto, transferindo a Fonte dos Finados para o Rossio de Baixo, construindo-lhe as três bicas, o tanque e o lavadouro, como estava estipulado pelo alvará régio:

Visto o referido e ter o sobredito mais utilidade na mudança deste xafaris para as ágoas da dita Fonte dos Finados do que em faze-llo de novo, como hé obrigado, acordaram os sobreditos vereadores que na forma da dita provizam e à vista do referido se devia por emposo a obra seguinte: mudouce o dito xafaris que se acha sem água para lugar mais conviniente que pudece receber as ágoas da dita Fonte dos Finados, fazendo-o no mesmo três bicas e juntamente hum tanque e no fim deste outro tanque que posa servir de lavadouro e que deste deve entam ser feito o cano que posa receber as sobras destas ágoas para dellas se utilizar o sobredito para a sua orta.

A Câmara não cortou o abastecimento de água à horta de Diogo Melo, apenas fez cumprir a disposição já antiga que obrigava à construção de uma fonte com mais capacidade e infra-estruturas». In João Miguel Simões, A Fonte das Bicas, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, Edições Colibri e CEDA, Lisboa, 2002, ISBN 972-772-344-6.

Cortesia de Colibri/JDACT

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A Fonte das Bicas. Centro de Estudos Documentais do Alentejo. João Miguel Simões. «… e não fes enquanto viveu só sim fes huma abóbada na fonte e da mesma encaminhou pera a sua orta pro cano fichado ágoa da mesma sem ficra pera os moradores desta villa pesageiros ágoa alguma nem chafariz nem tanque como tinha de obrigasão…»

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A importância da água na vila de Borba e os antecedentes da Fonte das Bicas
«(…) Na verdade, o vereador Agostinho Gusmão Pais pretendia que a fonte se situasse junto à entrada principal da vila, ou seja, sensivelmente onde hoje se situa a Fonte das Bicas, para melhor servir os regimentos do exército que Passassem por Borba:
  • E logo pello dito Agustinho Gusmão Pais foi dito que à vista de ser (sic) ter prensipiado a obra sem o seu pareser, mandou buscar oficiais que bem o entendião para que se não desemcaminhase a fonte pondo-se em lugrar (sic) donde não fica semndo de utillidade assim ao povo como aos pasageiros respeitando respeitando [repetição] o uso da ágo[a] assim par o povo como para a gente millitar em ocazião das ágoas, digo, da pasagem do[s] exzersytos. E visto pellos oficiais diserão a elle por sertidão xurada aos santos Avangelhos por elle o dizer o dito Agostinho Pais Gusmão, a qual mestraria sendo nesesário que no sítio que elle detriminava que à vista da porta principal na continua pasaxem ficava a fonte em milhor sítio de hobra de mais durasão e otillidade do povo e com menos custo.
Assim, constatamos que a localização da fonte não era muito distinta entre os vários pontos de vista, devendo a polémica residir em rivalidades e discórdias pessoais dentro da Câmara. Como os outros membros da Câmara tinham a maioria dos votos, recusaram a argumentação do referido vereador, e a Fonte dos Finados acabou por ser construída em frente à Igreja Matriz. A primeira referência à nova fonte com o nome de Fonte dos Finados surge em 1733, na licença que a 2 de Maio a Câmara Municipal deu a Joana e António Passos para extraírem barro das barreiras das estradas, excepto:
  • na barreira do Rosio entre a muralha e a Fonte dos Finados sem prejuízo da muralha e estrada.
Esta pequena nota documental, além de nos dar a informação de que a muralha ainda existiria no seu alçado Este, hoje desaparecido, dá-nos a toponímia desta fonte, antecessora da Fonte das Bicas. O nome Finados significa mortos, defuntos, e a razão para a aplicação deste nome reside no facto, em nosso entender, de se localizar em frente à Igreja Matriz e ser associada aos inúmeros funerais que se desenrolavam na sua envolvência. Na transição da Fonte dos Finados para a Fonte das Bicas teve papel fundamental o episódio que se passou com Francisco Morais Barreto e com sua mulher, Catarina Matilde. Francisco Morais Barreto conseguiu, em época incerta, um alvará régio que lhe permitia encanar para as suas propriedades as sobras das águas da Fonte dos Finados. Em troca, teria de a reconstruir, tornando-a mais útil à população, já que ficaria com infra-estruturas para os animais poderem beber e para os populares poderem lavar a roupa, actividade que provocava a destruição das outras fontes da vila que não estavam preparadas para esta utilização. Assim, a nova fonte seria constituída por:
  • huma arca de abóbada e seu chafaris com três bicas e hum tanque grande pera beberem as bestas e seu lavadouro tudo na froma (sic) que se isprime na escretura de contrato que juntara.
Note-se que a tipologia definida se assemelha à actual Fonte das Bicas. Tal como o monumento que podemos hoje admirar, esta nova Fonte dos Finados seria constituída por três bicas, na parte destinada ao consumo humano, um tanque para consumo animal e lavadouro. Contudo, o referido Francisco Morais Barreto, enquanto viveu, não construiu uma fonte nova, mas cobriu a antiga com uma abóbada e encaminhou toda a água para as suas propriedades, ficando a fonte seca:
  • e não fes enquanto viveu só sim fes huma abóbada na fonte e da mesma encaminhou pera a sua orta pro cano fichado ágoa da mesma sem ficra pera os moradores desta villa pesageiros ágoa alguma nem chafariz nem tanque como tinha de obrigasão (...) pondo projuízo aos moradores deste povo e pasageiros pera lhe faltarem ágoa.
Perante este facto, a Câmara notificou a viúva do referido Francisco Morais Barreto a construir a nova fonte, como estava contratado. Caso o não fizesse, a Câmara iria demolir, às custas da viúva». In João Miguel Simões, A Fonte das Bicas, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, Edições Colibri e CEDA, Lisboa, 2002, ISBN 972-772-344-6.

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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

A Fonte das Bicas. Centro de Estudos Documentais do Alentejo. João Miguel Simões. «Após se ter decidido fazer a nova fonte, surgiu a questão onde a situar. A localização da Fonte dos Finados esteve envolta em polémica. Ao que parece, alguns membros da Câmara decidiram localizar a Fonte dos Finados em frente à Igreja Matriz»

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A importância da água na vila de Borba e os antecedentes da Fonte das Bicas
«(…) Talvez devido a esta grande utilização, decidiu a Câmara, em 1712, fazer uma grande fonte em frente à Igreja Matriz, aplicando o dinheiro régio destinado a obras públicas: nesta se axustou que das sobras do património rial, dinheiro que ficou para as obras útis do povo se dispendese em huma fonte por não haver nenhuma no povo capas do uso comum e ser a obra mais nesesária para o povo. Contudo, o dinheiro régio não era suficiente para o intento, e, como o povo e nobreza da vila de Borba viam os governantes do concelho a desistirem da referida obra, aprovaram vender bens da Câmara e aplicar esse dinheiro na fonte: e porquanto o dinheiro deputado para as [o]bras públicas e não somente sento e trinta mil réis e como este se não podia fazer a obra ymtentada constando a nobreza e mais povo vendo que o juis e Vereadores e porcurador do Conselho se não detriminaráo a fazer a obra por não terem dinheiro suficiente, vierão à câmara e requereram ao juis e vereadores e porcurador do conselho que pella obra ser a de mais utillidade e ne[se]sidade se mandou fazer a dita fonte por ser notório estarem as mesmas fontes servindo de xafarizes para as cavalgaduras e com o comtínuo alogamento da soldadesca servirem de llavadouros com muito grande dano e perjuizo da saúde e lenpeza do povo. E que visto não terem mais dinheiro por cauza de os vereadores pasados terem gasto sento e des mil réis das sobras do património que estava para obras uteis e somente lhe ficar os ditos sento e trinta mil réis, pouco mais ou menos, requerião se mandase fazer a dita obra gastando o que mais nesesário for dos bens de raís como dinheiro que hé do mesmo povo.

Após se ter decidido fazer a nova fonte, surgiu a questão onde a situar. A localização da Fonte dos Finados esteve envolta em polémica, na época, e originou acesas discussões entre os membros da vereação. Ao que parece, alguns membros da Câmara decidiram localizar a Fonte dos Finados em frente à Igreja Matriz, iniciando a sua construção, sem levar a questão a sessão de Câmara. O vereador Agostinho Gusmão Pais manifestou o seu desagrado por não lhe terem pedido a opinião, afirmando que o lugar escolhido não era o ideal, pois não servia os interesses da população: e pedindo o votto do vereador Agustinho Gusmão Pais dise que por este termo não ser feito antes de se prinsipiar a fonte, tenpo em que se devia fazer, por que se aporveitase com boa diresão os bens do conselho e as couzas pertensentes a elle porquanto se prencipiou a obra e se fes dispendio sem lhe pedirem o seu voto. E porque o povo a não aseita bem por não ser de utillidade no sítio em que se perasepiou (sic) não votava nem aseitava.
De facto, a Igreja Matriz encontrava-se afastada do centro urbano e da área habitacional, mas o objectivo subjacente à escolha do local deveria residir na vontade em servir os viajantes que se deslocavam a Elvas, Vila Viçosa ou Santa Bárbara. Esta localização era defendida pelo juiz de fora, João Silva Carvalho, pelo vereador, Francisco Abreu Sande, e pelo procurador do concelho que afirmavam ser mais conveniente instalar a fonte em frente à igreja. Estes homens intimaram o vereador descontente a, se o desejasse, tomar por sua conta a obra da fonte: requerião e ademostavão a elle vereador Agustinho Gusmão Pais que por ivitrar discórdias que elles não querem que, ou thomase a obra da fonte sobre si e a mandase fazer por oficiais que lhe paresese com o dinheiro que o conselho tem, que são os ditos sento e trinta mil réis declarados no termo atras, buscando no povo quem comcorese para u suplimento, vistos os asinados no termo não estarem pello seu voto nem a mais vereasão.
Contudo, se assim o quisesse, teria de fazer a fonte de acordo com o projecto previamente definido: e que querendo assim a dita obra portestão e de juis e vereador e porcurador do conselho seiya na forma em que elles a querem fazer: xafaris da fonte de pedra mármore, quatro bicas como as da fonte de Villa Visoza, de guros de pedra mármore, lageado da mesma pedra mármore, cano perdurável sem altarar a ágoa da fonte do nasimento adonde está, secando o lago com altura d'ágoa que senper teve, de tal sorte que se lhe não demenua do lago couza alguma da ágoa que senper teve.
Desta forma, obtemos uma descrição do projecto inicial da desaparecida Fonte dos Finados, baseada na fonte concelhia de Vila Viçosa. Há também a referência à existência de um lago nas proximidades, certamente o lago ligado à lenda da fundação de Borba (a lenda da fundação da vila é um conto medieval que tentou explicar a origem da palavra Borba. Segundo esta lenda, os primeiros povoadores encontraram um enorme barbo num lago existente onde hoje se encontra a vila, originando a palavra barbo o nome de Borba). Caso o vereador não assumisse a obra como desejava, obrigavam os restantes membros da câmara a que este se afastasse da referida obra: e portestam outrosim de que não se fazendo na forma declarada lhe não porxidicar a elle juis, vereador e porcurador do conselho ou os deixe fazer a sua obra na forma em que a tem deliniado em pas pasefica sem turbasão alguma». In João Miguel Simões, A Fonte das Bicas, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, Edições Colibri e CEDA, Lisboa, 2002, ISBN 972-772-344-6.

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domingo, 8 de setembro de 2013

A Fonte das Bicas. Centro de Estudos Documentais do Alentejo. João Miguel Simões. «A “Fonte das Bicas” é, com todo o merecimento, o ‘ex-libris de Borba’ e, o monumento mais amado pela população. … datando dos finais do século XVIII, já se teceram várias lendas em torno da fonte»

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Envolvimento e importância sócio-cultural do monumento
«A Fonte das Bicas é, com todo o merecimento, o ex-libris de Borba e, sem dúvida, o monumento mais amado pela população local. Apesar de ser um monumento recente, datando dos finais do século XVIII, já se teceram várias lendas em torno da fonte. Por exemplo, é tradição local que cada uma das bicas da fonte se destina a cada uma das idades da população:
  • a da direita aos solteiros,
  • a do meio aos casados,
  • a da esquerda aos viúvos.
E que quem daquela água beber nunca mais abandona Borba. Assim, a Fonte das Bicas assume um papel de união da população e de vínculo à terra natal. A Fonte das Bicas é utilizada, desde o início do século XX, em inúmeros emblemas e logotipos, sintoma de que é o monumento mais identificativo do concelho. Contudo, a sua importância transcende claramente o nível local ou regional, já que foi classificada como Monumento Nacional logo nas primeiras classificações, pelo decreto de 16 de Junho de 1910. Esta importância excepcional do ponto de vista artístico foi logo, em 1907, referenciada pelo autor da primeira e única monografia exclusivamente dedicada a Borba, o padre António Joaquim Anselmo, ao afirmar: a fonte da praça D. Amélia, vulgarmente Fonte das Bicas, é uma edificação que no seu género não encontra facilmente igual em todo o paiz.
Túlio Espanca, autor do estudo mais aprofundado que existe de momento sobre Borba, afirma que: das várias fontes que abasteceram a vila, antigamente, esta é, sem contestação, a mais importante e sumptuosa de todas, excedendo mesmo, em monumentalidade e traça arquitectónica as suas congéneres, coevas, da província transtagana. A Fonte das Bicas assume, assim, especial importância, tanto para a população local, como para a comunidade científica, merecendo, desta forma, o apreço dos primeiros e o estudo dos segundos.

A importância da água na vila de Borba e os antecedentes da Fonte das Bicas
A vila de Borba situa-se num local rico em água, elemento essencial à vida e à cultura dos alimentos. Esta abundância originava, como nos relata, em 1758, o padre da igreja matriz, Estêvão Matos d'Oliveira Castro, que cada habitação tivesse o seu quintal, com respectivo poço: de excellente ágoa de que uzão os moradores para beberem e regarem suas hortaliças. Além dos poços urbanos, a vila possuía também diversas fontes públicas, das quais se destacava a Fonte dos Finados, construída em frente à igreja matriz de Nossa Senhora do Soveral: digna do melhor mérito e estimação, por que conforme a observação dos médicos, além de serem as suas ágoas muito puras e saborosas, são as mais salutíferas do continente.
A localização desta Fonte dos Finados aparece muito próxima à actual Fonte das Bicas, devendo a sua história ser analisada, para melhor se compreender a génese do actual monumento implantado na Praça da República. Através dos livros de actas das vereações da Câmara Municipal de Borba, é possível reconstituir este percurso. O cuidado do município pelas fontes e pelo abastecimento de água ao núcleo urbano é uma constante na história de Borba. Em 1703, a Câmara Municipal juntou a nobreza e povo de Borba para decidir o que fazer com o dinheiro que revertia para a Câmara com a contratação das sisas, tendo-se decidido aplicar o referido dinheiro na reparação das fontes: e porquanto neste prezente anno de mil e setesentos e três na rematasão que se fes do dito comtrato das Sizas se fes com condisão que tirado o próprio pertensente à Fazenda Real, os mais que sobrase se gastaria em obras utens e nesesárias ao bem commum deste povo e porquanto elles ditos abaixo asinados emtendião que a obra mais comua e nesessária ao bem comum deste povo hera o reedificarem-se as fontes que nelle há thé donde chegar a dita quantia que s'obrigou do próprio, porquanto estas estão imcapases de se poderem usar dellas porque mais sam charcos que fontes de cujo uso as pesoas que dellas usão lhe hé motivo e preiudisial.
Os estragos nas fontes da vila eram originados pela sua grande utilização, pois, além de servirem os populares, saciavam a sede aos forasteiros e às suas cavalgaduras, além de servirem para lavar a roupa e regar as terras: e como outrosim visem que de se fazer a ditta obra rezultava grande comodo e utilidade não somente aos moradores desta villa e pasageiros que por nella fazem caminho mas que também pellas ágoas que se ande descobrir que andáo perdidas rezultava cómodo às fazendas foreiras a Sua Magestade que tem giros como também para os gados da tapada real».

In João Miguel Simões, A Fonte das Bicas, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, Edições Colibri e CEDA, Lisboa, 2002, ISBN 972-772-344-6.

A amizade de AMG

Cortesia de Colibri/JDACT

sábado, 10 de abril de 2010

Vila de Borba: A Feira do Queijo

No início do mês de Abril decorreu na freguesia de Santiago de Rio de Moinhos, concelho de Borba, a 12ª Edição da Feira do Queijo, numa organização conjunta da Câmara Municipal de Borba, da Junta de Freguesia de Rio de Moinhos e da AQUA D’OSSA (Associação para o Mundo Rural e Produtos Tradicionais entre Guadiana e Serra d’Ossa).

A Feira do Queijo tem vindo a evidenciar a qualidade e excelência dos produtos locais e regionais, dando especial realce à produção local de queijo. A 12ª Feira do Queijo apresentou a promoção dos queijos produzidos no Concelho de Borba, de outros produtos regionais considerados de interesse, a dinamização e o desenvolvimento do Município.
Os produtores de Borba estão integrados na região do Queijo de Évora.
CMBorba/JDACT