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sábado, 26 de março de 2022

Teresa Medeiros. A Conquistadora. «Quando o Sol nasceu na manhã seguinte, Conn e Silent Thunder seguiam já rumo ao norte. O dia amanhecera com uma brisa quente do sul a afagar-lhe as feições, como se quisesse apagar as rugas de preocupação gravadas na sua testa»

 

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«(…) A chuva caía e a Lua começava a sua lenta descida quando chegou a uma clareira e desmontou. A maçã que trazia na mochila foi parar à boca do cavalo e Conn sorriu pela primeira vez desde que deixou a fortaleza. Silent Thunder atravessara o oceano no porão de um navio de carga para se tornar o seu cavalo de batalha. Passou as mãos pelo negro acetinado da garupa do animal. Nem uma mancha a estragar a solidez da sua beleza. Enrolou as rédeas num arbusto e deixou-o pastar. Sacudindo a chuva do cabelo, vagueou pela floresta recolhendo ramos e folhagem suficientes para proteger a sua pessoa e a fogueira da água que caía obstinada. Estendeu as mãos para as chamas, a fim de aquecê-las, e pensou que seria bom ter ali Nimbus para quebrar o silêncio. Memórias de outras florestas acumularam-se em seu redor; o calor de outras fogueiras aqueceu as suas mãos. Os espíritos dos cinco mortos rodearam-no, rindo e tagarelando, planeando batalhas futuras. Durante uma fracção de segundo, o seu nariz detectou o aroma de carne de veado assado ao ar livre. Pôs-se de pé, amaldiçoando as suas fantasias. Pareceu-lhe que a floresta se agitava à sua volta e voltou a sentar-se perguntando a si mesmo se dormir ia ser difícil ou impossível. Com os dedos tensos esfregou um bocado de queijo num naco de pão. O fogo da sua ira ardia demasiado fundo para dar espaço ao medo. Desmascararia o assassino encapuzado, dar-lhe-ei uma morte impiedosa. Embrulhou-se na capa e preparou-se para dormir. No dia seguinte àquela hora alcançaria a gruta. Tinha de estar em forma. Mergulhou no abismo de um sono felizmente desprovido de sonhos.

Quando o Sol nasceu na manhã seguinte, Conn e Silent Thunder seguiam já rumo ao norte. O dia amanhecera com uma brisa quente do sul a afagar-lhe as feições, como se quisesse apagar as rugas de preocupação gravadas na sua testa. Cotovias e andorinhas cantavam num céu da cor do azul delicado de um ovo de tordo. De vez em quando uma nuvem, branca e felpuda como o ventre de um cordeiro após o nascimento, atravessava devagar a sua tela serena. À medida que avançava para norte, o terreno tornava-se mais montanhoso, e sob os cascos do cavalo o tapete verde-esmeralda dava lugar a pedras e arbustos raquíticos.

O Sol surgiu com a forma de uma gloriosa bola laranja por detrás do horizonte ocidental, tão diferente da despedida mal-humorada da tarde anterior. Tinham chegado às colinas. Os contrafortes eram íngremes, mas seguiam até aos montes e planícies que rodeavam a enevoada montanha de Tara. A escuridão envolveu a paisagem. Conn acendeu uma tocha para iluminar o caminho. Pedras traiçoeiras espalhavam-se pelo chão, dispostas a fazer qualquer cavalo tombar. Os olhos de Conn mal discerniam as reentrâncias obscurecidas nos rochedos onde ele sabia que se escondiam pequenas grutas. Pelos seus cálculos, a gruta maior que procurava devia ficar a menos de uma légua de distância. Um fio de suor escorreu-lhe pela nuca. Parou Silent Thunder, fechou os olhos e entregou-se aos seus pensamentos. Um jovem desesperado por se juntar ao Fianna fizera aquele mesmo percurso para conquistar a criatura que já tinha dado a três membros do grupo mortes sangrentas. Foi o único a voltar. A sua descrição histérica de um gigante envolto numa capa que retirou no último minuto a ponta da espada da sua garganta apavorada e a libertá-lo não tardou a chegar aos ouvidos de Conn. Justamente o que a fera pretendia, pensou com amargura. Ainda de olhos fechados, tentou imaginar o rosto de cada um dos homens que morreu naquela gruta. Cinco valorosos guerreiros desaparecidos, deixando em suas mãos a tarefa de vingar o seu sangue». In Teresa Medeiros, A Conquistadora, 1998, Planeta Manuscrito, Grupo Planeta, 2010, 2014, ISBN 978-989-657-517-5.

Cortesia de PManuscrito/Gplaneta/JDACT

JDACT, Teresa Medeiros, Literatura, Irlanda,

quinta-feira, 24 de março de 2022

A Conquistadora. Teresa Medeiros. «O silêncio do salão transformou-se em tumulto. Protestos em voz alta misturaram-se aos gritos de encorajamento, numa algazarra ensurdecedora»

 

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«(…) Apenas o som do choro acompanhou Conn, que desceu do estrado pasmo com o que via à sua frente. Os seus olhos eram farrapos de gelo azul. Quando se aproximou do cavalo, estendeu as mãos e embalou a cabeça do seu querido amigo. Inclinando-se como para sussurrar qualquer coisa, Conn emitiu um ruído que começou como um urro na sua garganta. Os cabelos da nuca de Nimbus eriçaram-se com o grito de batalha que exteriorizou o desgosto de Conn. O salão espocou numa actividade febril. Dos lábios cerrados dos homens do Fianna que rodearam Conn saltaram pragas negras e sangrentas. Conn virou-se para o soldado mais próximo e murmurou qualquer coisa que tirou toda a cor do rosto do homem. O homem correu e Nimbus seguiu-o de imediato. De braços erguidos, Conn silenciou o salão: Eu próprio vou matar o miserável. Os seus lábios retorceram-se numa careta. Sean O’Finn, foi preparar a minha montaria. Mer-Nod será o regente até ao meu regresso.

O silêncio do salão transformou-se em tumulto. Protestos em voz alta misturaram-se aos gritos de encorajamento, numa algazarra ensurdecedora. Mer-Nod saiu do seu lugar junto à parede e dirigiu-se a Conn, tentando fazer-se ouvir por cima da cacofonia de vozes. Conn, está louco! Não podemos dar-nos ao luxo de te perder! Com os olhos brilhando, Conn replicou: Não me vão perder. Quando regressar a Tara, trarei comigo a cabeça do monstro que assassinou Kevin. Homem ou fera morrerá às minhas mãos. Sean O’Finn regressou. Desviando o olhar, disse a Conn: A sua montaria está pronta. Há mantimentos para cinco dias. Nimbus também reapareceu, arrastando com dificuldade uma espada maior do que o seu corpo. Conn pegou na espada e ergueu-a no ar. A sua voz trovejou pelo salão: Por Kevin, por Fianna, por Erin, a criatura tem de morrer! Embainhando a espada, correu porta fora e saltou para o dorso do enorme garanhão que o aguardava. Incitou o cavalo a galopar e atravessou intempestivo o portão do baluarte.

Nimbus permaneceu no meio da multidão, onde quase não se dava por ele. Uma mão pequena e encardida subiu para abrandar o latejar das suas têmporas. O céu desolado começou a render-se a uma escuridão ainda mais desoladora enquanto Conn se afastava a galope da fortaleza. Farrapos de nuvens deslocavam-se no horizonte, empurradas por impulsos nervosos do vento frio. Sem o calor do Sol, a unidade do dia acentuou-se à medida que a luz foi desaparecendo ao oriente. Nas árvores, as folhas estremeceram anunciando a noite que se avizinhava. O clarão roxo do crepúsculo permeou a paisagem, transformando os campos verdes num veludo escuro. Os únicos sons que cortavam o anoitecer cada vez mais profundo eram as pancadas cadenciadas dos cascos do cavalo de Conn e o grito solitário e distante de uma andorinha-do-mar. Quando Conn saiu da estrada e se meteu por um terreno encharcado, começou a cair um chuvisco. A última claridade do dia desapareceu enquanto ele punha o cavalo em trote e adentrava no arvoredo mais espesso pelo emaranhado de trepadeiras e folhagens. Aconchegou a capa contra si enquanto o cavalo avançava com cuidado por entre a mata. A fúria corria em círculos dentro da sua cabeça. Reagia ao gelo do ar como se outra pessoa estivesse com frio e fosse seu dever agasalhar esse mortal. A imagem de Kevin sem vida parecia gravada no seu cérebro por um ferro em brasa. O Kevin outrora exuberante e irascível, imóvel e a escorrer sangue. O seu corpo teria que ser amortalhado, entregue ao seu clã pelo Fianna como uma triste recordação do juramento feito quando se juntou às suas fileiras: Juraram aceitar a morte ou a incapacitação de Kevin sem pedir satisfações e sem vingança, excepto a que os seus irmãos guerreiros quisessem levar a cabo. A escuridão da raiva borbulhou nas veias de Conn. Mal saiu da floresta e entrou num prado, mandou o cavalo galopar». In Teresa Medeiros, A Conquistadora, 1998, Planeta Manuscrito, Grupo Planeta, 2010, 2014, ISBN 978-989-657-517-5.

Cortesia de PManuscrito/Gplaneta/JDACT

JDACT, Teresa Medeiros, Literatura, Irlanda,

quarta-feira, 23 de março de 2022

A Conquistadora. Teresa Medeiros. «Para que fez aquilo?, perguntou Conn enquanto se sentava no trono. Não gosto de O’Caflin. O olhar dele não me inspira confiança. Já que é tão bom para avaliar pessoas, diga-me, qual é a sua opinião sobre mandarmos Kevin lutar?»

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«(…) Um soldado bem-apanhado de olhos castanhos juntou a sua voz ao coro: Somos ou não o povo que empurrou Eoghan Mogh, o inimigo de Erin, para sul, para uma terra tão negra e árida como a sua alma? Os malabaristas começaram a atirar as suas maçãs douradas ao ar, uma a uma. E os romanos estão ou não receosos de pôr os pés nas nossas praias, com medo que os enviemos de volta, em lágrimas, às suas deusas da guerra?, gritou uma camponesa esquelética. Dois dos poetas começaram a contar em uníssono a história de Macha Mong Ruad, a amazona de cabelos cor de fogo, filha de Red Hugh. A sala alterou-se, os olhos brilharam de esperança. Por todo o salão ergueram-se taças em brindes às proezas de Kevin, à generosidade de Conn e aos sonhos de uma nova nação baseada na honra e no cavalheirismo. Conn esperou que o trapézio parasse de balançar, arrancou dele o pequeno homem e com cuidado colocou-o de pé no chão. Caminharam juntos até ao trono, mas Nimbus parou uma vez para puxar o cabelo de um soldado louro mal-encarado que o seguia com olhos semicerrados enquanto esfregava a cabeça dolorida.

Para que fez aquilo?, perguntou Conn enquanto se sentava no trono. Não gosto de O’Caflin. O olhar dele não me inspira confiança. Já que é tão bom para avaliar pessoas, diga-me, qual é a sua opinião sobre mandarmos Kevin lutar?, perguntou Conn, afagando a barba. Nimbus encarrapitou-se no braço do trono e afagou o queixo numa imitação perfeita do rei. Desviando-se da mão distraída de Conn, respondeu: A criatura é apenas um homem e não um monstro ou um gigante. Um homem capaz de matar sozinho, quatro membros do Fianna? Não me faça rir, Nimbus. Além disso, continuou Nimbus como se ninguém o tivesse interrompido, creio que o homem é aliado de Eoghan Mogh, enviado para antagonizá-lo e nos distrair a todos. Mer-Nod, que tinha ouvido tudo quando avançou para se encostar à parede, disse: Eoghan Mogh fugiu para o Sul como uma criança, para junto dos que o criaram. Não vai dar-nos trabalho durante algum tempo. Conn soltou uma gargalhada de desprezo. Há quem diga que ele construiu um reino no Sul e planea atacar Tara. No estado em que o deixei, não deve conseguir arranjar ouro nem para erguer uma tenda. Nimbus deslizou do trono e, com um ar travesso, começou a arrancar penas do manto de Mer-Nod. Conn fechou os olhos e recostou-se no trono.

Conta-me uma história, Mer-Nod. Estou cansado e preciso ouvir falar em coisas gloriosas. Quando abriu a boca para responder, Mer-Nod sentiu alguém puxar repetidamente pela parte posterior da sua túnica. Virou-se e lançou a Nimbus um olhar furioso quando o viu reaparecer com uma mão-cheia de penas vermelhas e douradas. Que os deuses o amaldiçoem, raquítico. Larga a minha capa! Conn sorriu e Mer-Nod, que se orgulhava da sua aparência digna, começou a correr em volta do trono, atrás de Nimbus que ria à gargalhada. Uma corneta tocou no exterior do baluarte, interrompendo o ímpeto assassino de Mer-Nod, bem como qualquer outra actividade no salão. As mãos de Conn fecharam-se, implacáveis. Nimbus deu meia volta, retomou a sua posição contra a parede e, com esforço, deu ao seu rosto uma expressão indiferente. Várias maçãs douradas caíram ao chão quando um malabarista se virou para a porta. Os poetas calaram-se no meio dos seus versos, com as suas histórias abortadas no meio da batalha. As crianças que por ali corriam foram imobilizadas pelas mãos das suas mães. Conn levantou-se enquanto as duas partes da porta maciça se abriam de rompante. Um véu protector baixou para lhe esconder os olhos. Como um prado soalheiro escurecido por uma grande nuvem de trovoada, o rosto dele fechou-se numa máscara ilegível. À porta estavam um homem e uma mulher cobertos de suor e imundície. Eram corredores, atletas lendários capazes de dar a volta à ilha de Erin num só dia. A mulher saiu e quando reapareceu, após vários minutos depois, a causa da sua demora tornou-se dolorosamente evidente. Voltou conduzindo um cavalo para o meio da sala. No seu dorso malhado, Kevin O’Artagain fizera a sua derradeira cavalgada. Um soluço abafado irrompeu da multidão e uma jovem caiu ao chão num desmaio fatal. O corpo de Kevin jazia perpendicular ao dorso do cavalo com uma espessa camada de sangue colada ao seu cabelo ruivo. As manchas cor de ferrugem contrastavam vivamente com a palidez da morte. A cabeça retorcia-se para um lado; os olhos fitavam o vazio enquanto o cavalo avançava para o centro do salão. Os que estavam mais próximos estremeceram e recuaram um passo, imaginando o que teriam, aqueles olhos aterrorizados, visto pela última vez. A borda esfarrapada de uma ferida abria-lhe as costas no ponto em que a espada tinha deixado o seu coração. Vários membros do Fianna pensaram ter ouvido o eco do riso de Kevin nos corredores das suas memórias. Com as mãos trémulas, um soldado que observava o sinistro desfile esvaziou a sua cerveja de uma só vez». In Teresa Medeiros, A Conquistadora, 1998, Planeta Manuscrito, Grupo Planeta, 2010, 2014, ISBN 978-989-657-517-5.

Cortesia de PManuscrito/Gplaneta/JDACT

JDACT, Teresa Medeiros, Literatura, Irlanda,

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Confissões de Uma Freira Pagã. Romance histórico. Kate Horsley. «O legado da antiga sabedoria dos druidas e a crescente expansão do cristianismo. Ao fim de mil e quinhentos anos, o ‘espectro’ de Gwynneve vem à luz transmitindo-nos a sua história ocultada…»

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Declaração
«(…) Eu não tinha admiração pelo meu próprio pai, o que, pelo que dizem, é um pecado. Eu fazia todo o meu trabalho para lhe agradar porque o olhar da minha mãe se dirigia sempre na sua direcção. Eu nunca recebi elogios do Cleb. Ele desempenhava diversas actividades, com o seu espírito irado, e deslocava-se até ao poço onde os homens falavam e planeavam o cultivo e o gado da túath. O meu pai também tinha negócios com o chefe e os filhos dele, relacionados com o uso da terra e a criação de bons cavalos, apesar de, na nossa túath, o chefe ser o único que possuía cavalos ou gado. Mas eu nunca me consigo lembrar de o meu pai ter qualquer ofício que não o da conversação. Ele era uma pessoa medrosa com antebraços grossos, mas mais fraco em carácter do que a minha mãe. As outras mulheres da túath repreendiam a minha mãe pela sua deferência para com ele e ela disse-lhes para o levarem para a cama delas a ver se ele não lhes dava prazer A minha mãe tinha pernas fortes e muitos homens desejavam ter-se casado com ela.
Como do meu pai não recebia louvores, eu tentei muitos métodos para obter louvores de outros. E então comecei a prática de mostrar os meus seios aos rapazes que vinham usar o barco do meu pai para pescar no lago. Todos na túath sabiam que Cleb não ia utilizar o barco em dia algum, mas pelo facto de o não ter de volta até ao anoitecer caminhava pesadamente até, ao poço para fazer promessas de castigo. Ele discutiu o assunto em termos sombrios com os outros homens que lá estavam, que se apoiavam sobre as pedras, mastigavam palha, e tinham o suor do trabalho a cair-lhes pela cara. Ele era visto como um tolo, mas respeitado em parte porque era o marido da minha mãe. Eu não receava que o meu pai me batesse porque, apesar de me ter tornado numa jovem forte, a minha fama de fracalhota e de estatura pequena livrava-me da pancada que os outros costumavam receber, tanto em zangas como em jogos.
Eu não queria aborrecer o meu pai. Eu queria agradar-lhe para poder ficar bem vista aos olhos da minha mãe. Também acreditava que, se o meu pai estivesse satisfeito, seria como se um feitiço se quebrasse e ele se transformasse numa pessoa nobre. No entanto, eu não queria ser esposa como era a minha mãe. Comecei a pensar, com uma concentração dolorosa, na vida que levaria e dos talentos que tinha. Eu não podia ser guerreira a não ser que os cavalos tivessem sido feitos mais pequenos e as armas fossem mais leves. Apesar de serem bonitos de se ver, os cavalos assustam-me porque são grandes e de mente fraca, o que é uma mistura perigosa em cavalos, homens e deuses. Como já disse antes, eu admirava os aes dána, especialmente aqueles que tinham um grande conhecimento e eram hábeis a usar as palavras. Eu não gostava dos deveres mundanos, os quais não imaginava que os druidas tinham que suportar, tal como dar de comer aos porcos, ou recolher e separar as sementes que comíamos. Um dia de trabalho era muitas vezes consumido numa só refeição, comida por pessoas demasiado cansadas para saber o que tinham nas bocas. Não havia qualquer ligação na minha mente entre os pensamentos que me davam prazer e a lama, constantemente entranhada entre os meus dedos dos pés, ou as pulgas que me picavam tendo-se infiltrado nas minhas roupas. Ao druida privilegiado era-lhe dada comida e abrigo em troca dos seus conhecimentos sobre rituais, leis e magia. Um ollam era apaparicado como se fosse filho de um rei e não tinha qualquer necessidade de lutar com uma espada, ou de domar um garanhão». In Kate Horsley, Confessions of a Pagan Nun, Confissões de Uma Freira Pagã, Romance Histórico, Ésquilo, Lisboa, 2002, ISBN 972-8605-18-8.

Cortesia Ésquilo/JDACT

Confissões de Uma Freira Pagã. Romance histórico. Kate Horsley. «Um envolvente histórico baseado na descoberta de um manuscrito do século V que retrata na primeira pessoa a experiência de Gwynneve, uma freira irlandesa colocada entre dois mundos»

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Declaração
«(…) Perguntei à irmã Luirrenn, a nossa anciã, se podia transcrever a história de Noé para aprender as lições da chuva incessante antes de as ter de viver. Eu disse-lhe que receava afogar-me na poça que se formava à minha porta. A irmã Luirrenn deu uma olhadela ao meu trabalho, notando que não tinha qualquer texto aberto de onde copiar. Ela perguntou se eu já tinha acabado as transcrições das lições de Santo Agostinho. Ela própria costumava confessar que antipatizava com o seu discurso castrante, mas ela agora assumia o papel de mais velha, ainda mais exacerbado desde que, sem a sua irmã, sofria a concorrência do abade, um homem que chegara na época passada com os seus monges para ocupar o nosso convento. Eu digo que ele está a tentar geri-lo, mas a Luirrenn diz: Ele é um irmão instruído que está aqui para compartilhar as bênçãos de Brígida. Mas, desde a chegada dele, a crítica da irmã Luirrenn ao meu trabalho tem sido arguta, e eu amo-a tanto que não quero arreliá-la. Os seus olhos dançam dentro das rugas da sua cara envelhecida, mesmo quando ela faz uma repreensão. Ela disse: É uma benção que o abade tenha demasiados afazeres para olhar para as ranhuras de uma freira envelhecida e não notável. Ela fez-me uma festa na cara, como uma repreensão brincalhona, com os dedos dobrados e inchados que já não fazem transcrições, e disse, Tu és blasfema e desperdiças pergaminho.
Quando a irmã, Luirrenn fala, eu frequentemente ignoro as suas palavras e, em vez disso, ponho-me a especular sobre a aventura que a fez perder os dentes da frente. Muitas das mulheres aqui têm tido camas de espinhos para se deitarem e mágoas misteriosas. Aliviamo-nos, às vezes, ao agarrarmo-nos umas às outras nas noites escuras, ou tirando pão e queijo e culpando o povo de Bebo. A Luirrenn, confesso, é às vezes gozada por uma irmã que escurece os seus próprios dentes para imitar o vácuo da boca da anciã. A irmã Luirrenn esconde a boca com a mão, sobretudo desde que chegou o abade com os seus monges. E a chegada de uma criança recém-nascida danificou ainda mais o seu sorriso. No segundo dia de chuva, uma mulher cinzenta chegou às portas da capela com uma criança recém-nascida e moribunda. Ela queria deixá-la como sacrifício à Santa Brígida. Existe muita confusão entre os leigos sobre os novos rituais e o seu significado. Quando eu lhe disse que aqui não fazíamos sacrifícios, ela deu-me a criança e disse: Eu não consigo ver ninguém morrer. Ela repetiu isto três vezes, para que fosse ouvido em todos os mundos. Depois foi-se embora, escondendo a cara com o cabelo. Desde então, dei a criança ao pastor de cabras para ver se ela seria amamentada por uma das cabras mães. A criança, que é um rapaz, estará sem dúvida morta amanhã ao amanhecer e foi por isso que eu não estive muito tempo a segurá-la contra o meu coração. Na confissão de culpas, amanhã, eu direi que sou uma cobarde. Mas a plenitude do meu amor é, agora, resolutamente só dada ao Nosso Senhor Jesus Cristo, porque aqueles a quem eu amei e que eram mortais, deixaram-me de luto, com o coração a sangrar. Também direi na confissão de culpas que me apetecia dar duas bofetadas à irmã Aillenn, cujos dramas derivados da sua delicadeza cheia de ressentimentos me enraivecem, porque nunca me foi permitido a mim ser fraca, apesar de ser pequena. Não existe nenhuma luz redonda à volta da minha cabeça. Deus me perdoe, mas às vezes a raiva dá-me gozo. Nem tão pouco tenho carácter para mártir porque adoro sítios confortáveis, onde a chuva não é fria e as refeições são abundantes.
Acerca da história da minha família: a minha mãe, Murrynn, casou com o meu pai, Cleb, porque ela tinha terminado com outro marido, que tremeu quando ela se tornou selvagem sem nunca lhe ter dado filhos. Ele ainda vivia na túath e era respeitado pela sua habilidade de curtir e cortar pele de porco. Eu simpatizava com ele e frequentemente desejava que ele fosse o meu pai, porque sorria com facilidade, com dentes grandes, e trabalhava da luz rosácea à luz pardacenta sem se queixar. A minha mãe falava dele com respeito mas não objectava quando o meu pai o ridicularizava pela sua falta de tino e zombava dela por se ter deitado com ele». In Kate Horsley, Confessions of a Pagan Nun, Confissões de Uma Freira Pagã, Romance Histórico, Ésquilo, Lisboa, 2002, ISBN 972-8605-18-8.

Cortesia Ésquilo/JDACT

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Mitos Celtas da Irlanda. Canal História. «… muitos factos e personagens foram preservados também no folclore da Irlanda, da Ilha de Man e da Escócia. ‘A magia’ é uma característica constante: humanos assumem a forma de animais…»

Cortesia de wikipedia

Ciclo Mitológico. O Livro das Invasões da Irlanda
«(…) Conhecido como a Canção de Amergin, esse poema é uma ode à Natureza, tão nobre e inspirador quanto os textos sagrados hindus. Parafraseando Peter Ellis, grande pesquisador dos mitos e lendas celtas, nesta canção Amergin une o universo a seu próprio ser, num pensamento filosófico que remete à declaração de Krishna no Bhagavad Gita hindu. Assim como os textos mitológicos indianos estão repletos de referências históricas e vice-versa, também na Irlanda celta o mesmo se aplica. Por analogia, se Shiva, Sarasvati, Ganesh e outas deidades hindus são ainda hoje cultuadas após a restauração do hinduísmo nos últimos séculos, também os deuses e deusas celtas permanecem vivos nos corações, nas mentes e nas almas dos que procuram restaurar a mitologia/espiritualdiade celta como fonte coerente e válida de inspiração para nossas vidas.

Ciclo do Ulster
A Irlanda celta era dividida em cinco províncias:
  • Leinster, a leste; 
  • Munster, ao Sul; 
  • Mídhe, no centro; 
  • Connacht no oeste; 
  • Ulster ao norte.
Daquela região nos chegam as lendas e feitos de heróis como Cuchulainn, Conchobhar mac Nessa e Fergus mac Róich, poderosas mulheres como Macha, Maedbh e Fedelm, e a trágica história de amor de Deirdre dos Pesares. Menos divino do que o Ciclo Mitológico, o Ciclo do Ulster, também conhecido como Ciclo do Ramo Vermelho tem os seus primeiros registos por escrito datando do século VIII, e muitos factos e personagens foram preservados também no folclore da Irlanda, da Ilha de Man e da Escócia. A magia é uma característica constante: humanos assumem a forma de animais e interagem com os divinos Tuatha de Danann. Os hábitos e costumes relatados fornecem um retrato bastante claro dos valores dos celtas da Irlanda:
  • sociedades guerreiras em busca de prestígio e ascensão, mulheres e homens em paridade, riqueza representada pela posse de gado, heroísmo individual e irmandade tribal.
Alguns dos textos mais importantes do Ciclo do Ulster são: O Banquete de Bricriu; A Destruição da Pousada de Da Derga; A Doença de Cuchulainn e o Único Ciúme de Emer e, principalmente, O Roubo de Gado de Cooley (Táin Bó Cuailgne), onde vemos a saga de Cuchulainn como o guerreiro irlandês por excelência.

Ciclo Feniano
Como diz o próprio nome, este grupo de lendas, poemas e contos apresentam as aventuras dos Fianna Éireann, um mítico grupo de guerreiros liderados pelo herói Fionn mac Cumhaill. Os relatos apresentam diversos factos históricos que retratam a transição da religião celta para o cristianismo, especialmente no Colóquio dos Anciães, em que Oisín, filho de Fionn, argumenta com S. Patício a favor da antiga religião, enaltecendo suas virtudes: a coragem, a generosidade, a hospitalidade e a liberdade da sociedade celta original. Oisín também é o protagonista da bela história de amor A Balada de Oisín em Tír na nog, na qual o nobre guerreiro é atraído para o Outro Mundo pela aparição de Niamh dos Cabelos Dourados, uma donzela de irresistível beleza. Também as lutas entre tribos celtas do sul e do Oeste da Irlanda são retratadas. Assim como no Ciclo do Ulster, as lendas do Ciclo Feniano estão repletas de eventos mágicos e contactos com deuses ancestrais. Além de O Colóquio dos Anciães, dois outros textos significativos são Os Feitos de Fionn na Infância, que relatam como ele se tornaria o grande guerreiro e sábio que é, e a história de amor A Perseguição de Diarmuid e Gráinne, que pode ser identificada como uma das mais remotas raízes para o clássico Romeu e Julieta de Shakespeare». In Canal História, Jean Markale, Wikipédia.

Cortesia de CHistória/JDACT

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Mitos Celtas da Irlanda. Canal História. «Sou o vento que sopra sobre o mar; sou a onda das profundezas; sou o rugido do oceano; sou o Gamo de Sete Batalhas; sou um falcão no penhasco; sou um raio de sol…»

Lugh surge para conduzir os Tuatha de Danann à vitória na Segunda Batalha de Moytura. (Ilustração de Jim Fitzpatrick)
Cortesia de wikipedia

Ciclo Mitológico. O Livro das Invasões da Irlanda
«(…) Lugh, Manannan mac Lír, Brighid, Morríghan, Dagda, Nuada, Ogma, Angus Óg, Bóann, quem se interessa por mitos e lendas celtas certamente já viu ao menos alguns desses nomes antes. São os mais importantes deuses e deusas da mitologia celta irlandesa, seres poderosos, divinos, passionais, carismáticos. Oriundos de quatro cidades míticas, Falias, Findias, Gorias e Murias, de onde trazem quatro tesouros, os Tuatha de Danann chegam à Irlanda vindos do Oeste, a direcção do Outro Mundo, em navios mágicos envoltos por uma bruma que eclipsa o sol por três dias. São eles a introduzir na Irlanda o conhecimento druídico (draíocht), bem como a criação de suínos.
Eles derrotam os Fir Bolg na Primeira Batalha de Moytura, e depois, sob a liderança de Lugh Lamfhóta, finalmente repelem os temíveis Fomorianos de uma vez por todas na Segunda Batalha de Moytura, estabelecendo uma era dourada de paz e prosperidade durante a qual reina a magia e a força desses deuses e deusas. Uma dessas deusas é Ériu, que, ao lado de suas irmãs Banba e Fotla, personifica as terras da Irlanda. A chegada dos Milesianos, um grupo de mortais liderados por Mil Espáine, põe fim ao domínio dos Tuatha de Danann que, dali por diante, passam a habitar as colinas ocas e/ou as ilhas paradisíacas a oeste da Irlanda, entre os nomes para esse Outro Mundo, Emain Ablach, a Fortaleza das Macieiras (associada à Avalon Arthuriana) e a Ilha dos Abençoados, Hy Brasil. Mas tal feito só é alcançado pelos Milesianos quando seu poeta, Amergin, promete eternizar o nome de Ériu como nome da própria Irlanda, com efeito, o nome da República da Irlanda, Éire, até hoje mantém viva a magia e a força dessa deusa.
De forma grosseira, podemos dizer que os Tuatha de Danann deixam de habitar este mundo e passam a viver noutra dimensão, mais súbtil, espiritual, mas ainda em contacto com esta realidade. Prova disso é sua habilidade de transitar entre nós, mortais, graças ao encantamento conhecido como féth fiada (maestria da névoa) ou ceo druídecta, o fog druídico, através do qual o utilizador fica invisível ou assume a forma de um animal, uma habilidade de evidente natureza xamânica, posteriormente associada também a São Patrício. Os Milesianos são a última onda migratória a se assentar na Irlanda. Após derrotarem os poderosos Tuatha de Danann, o povo liderado por Mil Espáine se estabelece nas terras irlandesas e encerra o Livro das Invasões. De todos os factos narrados no texto mitológico, a invasão dos milesianos parece ser a que mais possui equivalência histórica, por sua associação com os Goidels, tribos históricas e ancestrais directos dos modernos irlandeses.
Segundo o Livro das Invasões, os Milesianos vêm da Cítia (área hoje ocupada pela Bulgária, Rússia e Cazaquistão) e se instalam na Península Ibérica, na região onde hoje fica a cidade portuguesa de Bragança (Trás-os-Montes, uma área rica em vestígios da ocupação celta pré-romana). De lá, após avistarem a Irlanda do alto de uma torre, enchem-se de desejo de habitar aquela ilha verdejante. Assim, os milesianos rumo a Irlanda, onde aportam durante Beltaine. Ao lá chegarem, são obviamente desafiados pelos poderosos Tuatha de Danann, então senhores das terras irlandesas. A conquista dos milesianos só se dá após embates físicos e mágicos com os Tuatha de Danann, durante os quais os Milesianos demonstram grande conhecimento da mais poderosa forma da magia: a maestria das palavras. Um dos mais belos exemplos dessa magia é o poema recitado por Amergin, o primeiro bardo da Irlanda, ao desembarcar em solo irlandês:

Sou o vento que sopra sobre o mar;
sou a onda das profundezas;
sou o rugido do oceano;
sou o Gamo de Sete Batalhas;
sou um falcão no penhasco;
sou um raio de sol;
sou a mais verdejante das plantas;
sou um javali em fúria;
sou um salmão no rio;
sou um lago na planície;
sou uma palavra de Sabedoria;
sou a ponta de uma lança;
sou a fascinação para além dos confins da terra;
como os deuses, posso mudar de forma.

In Canal História, Jean Markale, Wikipédia.

Cortesia de CHistória/JDACT

domingo, 15 de junho de 2014

Mitos Celtas da Irlanda. Canal História. «Algumas gerações depois, chegam à Irlanda os ‘Fir Bolg’, literalmente os ‘Homens de Builg’. São uma variação da tribo celta histórica dos ‘Belgae’, que povoaram áreas no sul da Irlanda, na Inglaterra e no continente europeu, no território que hoje recebe o nome, a ‘Bélgica’»

Cortesia de wikipedia

Ciclo Mitológico
«(…) Os compiladores do Lebor Gabála acreditavam estar redigindo um registo confiável dos eventos humanos mas, devido ao seu constante uso de fontes fantásticas o que eles produziram foi algo bem diferente. Autores diferentes em diferentes períodos tentaram sincronizar os mitos, lendas e genealogias da Irlanda antiga com a estrutura da exegese bíblica (Jean Markale).

O Livro das Invasões da Irlanda
A primeira invasão descrita na narrativa é liderada por uma rainha chamada Cesair que, acompanhada por um pequeno contingente, chega a Inis Fáil (Ilha do Destino, outro nome para a Irlanda) e tenta povoá-la, sem muito sucesso. Seguem-se os Partholonianos, assim chamados em homenagem a seu líder, Partholon, e oriundos do leste do Mediterrâneo. Pesquisadores que procuram nos textos evidências de eventos historicamente comprováveis entendem essa alusão geográfica como uma possível referência ao território original das primeiras tribos celtas, nos Balcãs. Os Partholonianos se mostram hábeis colonizadores, introduzem a agricultura e a pecuária, as artes metalúrgicas e outras formas de artesanato, a medicina, desenvolvem leis e introduzem a confecção de cerveja à Irlanda (algo que se tornaria uma tradição). Malaliach, o primeiro a produzir cerveja, é também o primeiro a valer-se de técnicas divinatórias na Irlanda, o que comprova a sacralidade do consumo de bebidas fermentadas como formas de se atingir o êxtase ritual que permite o contato com os deuses ( a palavra divinação deriva do latim divinatio/divinare, falar com os divino). Os Partholonianos são também os primeiros a precisar enfrentar os temíveis Fomoire (ou Fomorianos), um povo de piratas e saqueadores. Segundo o texto, uma praga levou todos à morte no breve período de uma semana.
O Povo de Nemed, ou simplesmente os Nemedianos, são os próximos a aportarem em terras irlandesas, vindos por mar desde a Cítia. Liderados por Nemed, contavam entre eles o druida Míde, o primeiro a acender uma fogueira sagrada na Irlanda na colina de Uisnech, o centro que unia as quatro províncias da Irlanda celta. Uma fogueira acesa no centro cósmico da Irlanda é algo de grande importância espiritual, e as escavações na colina revelaram grandes quantidades de cinzas, de facto, Uisnech era usada pelos celtas como centro dos fogos de Beltaine. Por três vezes na sua história, os Nemedianos conseguem repelir as hostes invasoras dos Fomorianos. Na quarta batalha, contudo, a terrível raça de piratas leva a melhor e obriga os Nemedianos a pagar um pesado tributo anual, durante o período de Samhain. A tentativa de se livrar dessa opressão fracassa, e os Nemedianos são massacrados, os poucos sobreviventes espalham-se pelo continente europeu. Alguns historiadores, como O’Rahilly, identificam nos Nemedianos elementos que os associam aos Érainn, um dos primeiros povos a historicamente colonizar a Irlanda, por volta de 500 a.e.a.. Após a destruição dos Nemedianos, a Irlanda fica sob o controle dos violentos Fomorianos.
Algumas gerações depois, chegam à Irlanda os Fir Bolg, literalmente os Homens de Builg. Os Builg são uma variação da tribo celta histórica dos Belgae, que povoaram áreas no sul da Irlanda, na Inglaterra e no continente europeu, no território que até hoje recebe seu nome, a Bélgica. Mitologicamente, os Fir Bolg descendem de Starn, um dos filhos de Nemed, portanto, não eram desconhecidos na Irlanda, mas sim uma nova leva de invasores Nemedianos, que voltavam para a Irlanda fugindo de opressão nas terras gregas onde originalmente habitavam. O Livro das Invasões explica que são os Fir Bolg a trazer armas de ferro pela primeira vez à Irlanda, e que o reinado de Eochaid mac Eirc é justo e próspero. É o Rei Eochaid que determina que as colheitas serão anuais, uma conexão clara com o desenvolvimento da agricultura. O facto de sua esposa Tailtiu ser uma deusa ctónica é outro ponto que mostra a ligação dos Fir Bolg com o desenvolvimento agrícola. Posteriormente, Tailtiu ressurgirá como a mãe adoptiva de Lugh, um dos principais deuses celtas. Curiosamente, durante o período de ocupação dos Fir Bolg, os sempre terríveis Fomorianos não são mencionados. Quem viria a interromper a dominação Fir Bolg seria os mais formidáveis invasores da Irlanda: os Tuatha de Danann». In Canal História, Jean Markale, Wikipédia.

Cortesia de CHistória/JDACT

Mitos Celtas da Irlanda. Canal História. «… os celtas não costumavam escrever seus mitos, preservando-os vivos através da tradição oral de seus bardos, poetas e druidas. A escrita chega à Irlanda somente por volta do século V»

Trecho de manuscrito conhecido como Livro da Vaca Marrom.
Cortesia de wikipedia

«A contínua história de isolamento da ilha da Irlanda revelou-se a um só tempo uma maldição e uma bênção para a cultura celta naquelas terras. Livre da influência romana e em tempos de cristianismo longe do controle do Vaticano, a Irlanda conseguiu preservar com muito mais riqueza de detalhes os mitos e lendas dos celtas. Conhecida pelos gregos como Ierne e pelos romanos como Hibernia ou Scotia, nome que certamente gera alguma confusão com a moderna nação escocesa, a Irlanda recebeu os primeiros povos celtas no último milénio a.e.a.. Seus antigos habitantes haviam deixado um maravilhoso legado de estruturas megalíticas e complexos como os de Newgrange, Knowth e Dowth, os quais posteriormente foram incorporados às lendas e mitos celtas. Podemos especular que muitas das deidades celtas a povoar sua mitologia também tenham, ainda que apenas parcialmente, origem nos mitos e lendas desses primeiros habitantes, como costuma ocorrer sempre que uma nova cultura se estabelece numa região.
Já sabemos que os celtas não costumavam escrever seus mitos, preservando-os vivos através da tradição oral de seus bardos, poetas e druidas. A escrita chega à Irlanda somente com a cristianização dos irlandeses, por volta do século V. Para muitos estudiosos, os primeiros monges cristãos na Irlanda eram bardos e druidas que se converteram ao cristianismo, tese que, somando-se ao facto de que o cristianismo na Irlanda instalou-se de forma muito mais pacífica e tolerante do que em outras terras, pode ser a razão para que tenham sido justamente esses primeiros monges a registar muitos dos mitos e lendas da Irlanda celta pré-cristã. Foi somente com a chegada do cristianismo à Irlanda que os filidh, convertidos e agora monges, viram-se livres da proibição mágica que lhes impedia de passar para a escrita o que sobrevivera de sua tradição (Jean Markale). Graças aos esforços desses monges e seus belíssimos manuscritos, as gerações futuras puderam conhecer esses mitos, estudá-los e, por que não, restaurá-los como fontes de sabedoria e inspiração espiritual tão válidas quanto quaisquer outros textos sagrados de outras culturas, como o Talmud, o Corão, o Bhaghavad Gita ou o Novo Testamento.
Muitas vezes deparamo-nos com narrativas irlandesas sendo descritas como pseudo-história, como se um mito precisasse do suporte histórico para ser válido. Apesar das poucas, e questionáveis, evidências históricas da existência de um líder espiritual chamado Jesus na Galileia de dois mil anos atrás, ninguém questiona a valia do cristianismo ou trata os relatos do Novo Testamento como pseudo-história. Curiosamente, os textos da Irlanda celta relatam factos e eventos que estudos modernos comprovam estarem fundamentados em factos reais, como a migração de tribos celtas à Irlanda a partir da Península Ibérica, ou no exemplo de Arthur nos mitos celtas da Grã-Bretanha. Seja como for, a mitologia celta irlandesa é vigorosa e oferece uma fonte inesgotável de lendas, poemas e contos inspiradores. Pela abundância de textos, pela riqueza de fontes e pelo carinho que os irlandeses até hoje dedicam aos antigos mitos, a Irlanda é, sem dúvida, o mais importante manancial de informação sobre as crenças, mitos e costumes dos celtas.

Os Ciclos Mitológicos Irlandeses
Para fins de estudo, a mitologia celta irlandesa costuma ser dividida em quatro ciclos:
  • Ciclo Mitológico; 
  • Ciclo do Ulster;
  • Ciclo Feniano; 
  • Ciclo dos Reis.
Ciclo Mitológico
A este grupo pertencem alguns dos mais importantes relatos mitológicos da Irlanda celta, o maior de todos sendo, sem dúvida, o Léabhar Gábhala na hÉireann (literalmente Livro das Tomadas da Irlanda), mais conhecido como Livro das Invasões. Trata-se de uma intricada narrativa, redigida por várias mãos ao longo de várias décadas e que descreve as sucessivas chegadas de povos míticos às terras irlandesas mesclando os mitos nativos celtas a eventos bíblicos». In Canal História, Jean Markale, Wikipédia.

Cortesia de CHistória/JDACT

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Confissões de Uma Freira Pagã. Romance histórico. Kate Horsley. «O cabelo dela, bem penteado, caía a direito em bandas lubrificadas da cor do casco de carvalho. Ela mantém os olhos sempre muito abertos como se estivesse com medo ou chocada, até mesmo quando os seus lábios trementes sorriem»

jdact

Declaração
«(…)Estou aqui sentada há muito tempo com a pena poisada sobre o pergaminho e agora interrompo a minha própria história para descrever os acontecimentos que ocorrem no presente. Uma das irmãs mais antigas, Terrech, que é irmã de sangue da outra anciã, Luirrenn, morreu durante a tarde, quando a chuva caía grossa nas minhas costas estando eu a trabalhar no jardim. Fui chamada para me sentar ao lado dela aquando da seu último suspiro, mas já cheguei tarde demais. Mesmo assim, havia paz na sua expressão e os seus olhos tinham sido fechados pelo seu próprio esforço antes da morte. E então éramos dezoito, e uma nova freira, uma mulher estranha que tinha estado à espera no povoado que se aglomera adjacente ao convento, juntou-se à Ordem de Santa Brígida de modo a fazer-nos, novamente, dezanove. Ela é muito jovem, talvez tenha metade da minha idade, e tem feições sedosas e olhos grandes, da cor de um pano azul deixado muitos dias ao sol. Quando ela veio à porta, livrou-se das suas próprias roupas como se fossem feitas de espinhos e cardos. Nua, ela ajoelhou-se e beijou a mão de cada irmã, deixando os lábios permanecerem muito tempo sobre a nossa pele, que era muito mais grosseira do que a dela, devido ao nosso trabalho nos jardins e à volta das fogueiras. O cabelo dela, bem penteado, caía a direito em bandas lubrificadas da cor do casco de carvalho. Ela mantém os olhos sempre muito abertos como se estivesse com medo ou chocada, até mesmo quando os seus lábios trementes sorriem.
As outras freiras tocam a sua pele como que apalpando linho numa feira. Estávamos todas compelidas a fazermos de mãe dela, mas ela falava pouco e só em sussurros. Ela deixava cair a cabeça, parecendo envergonhada pelas palavras que a língua não deixava passar, ou envergonhada pelo defeito ou feitiço que tinha roubado a plenitude à sua fala. Ela é como um animal de estimação que nos veio de outro mundo. Há até concursos entre as freiras para ver quem é que fica sentada ao lado dela e quem lhe coloca o pão entre os lábios. Especula-se muito sobre esta nova irmã. Eu digo que ela é louca e, noutras circunstâncias, seria tratada como uma pobre tonta. Outros dizem que ela é filha de um chefe ou que ela é santa. Eu já vi os retratos de santos nos manuscritos e tenho observado que existe uma luz redonda que brilha atrás das cabeças deles, que eles efectuaram actos de transformação e que estão mortos. No caso desta nova freira, não existe nenhuma luz redonda à volta da sua cabeça, não ouvi falar de nada que ela tenha transformado e ela não está morta. Mas eu sou uma ignorante pecadora, ainda manchada pelos modos que me foram ensinados por uma túath de criadores de porcos.
Oiço-a agora, como a tenho ouvido todas as noites, segredando lá fora da minha clochan, de tal modo que ao princípio pensava que as próprias pedras me estavam a contar uma mensagem secreta. Depois fui lá fora, para a escuridão fria e, apesar do vento me ter tirado o capuz da cabeça e me ter mascarado a cara com o meu próprio cabelo, eu vi esta nova irmã a correr para dentro da sua clochan, que é vizinha da minha. Ela fala a algo que não consigo ver e acabo de ouvir um gemido vindo desse lugar, tão estranho que parece um berro simultaneamente de êxtase e terror. Questiono-me se deveria ir ver se ela não está magoada, ou tomada por vermes. Mas eu temo desviar-me do meu trabalho e procuro evitar qualquer loucura ou fraqueza que me afaste da minha escrita. Pois não temos nós toda a razão em escolher a fraqueza, e não é o nosso dever resistir-lhe, senão o mundo estaria cheio de almas em pranto, carregando fardos pesados? Já observei muitas vezes que os ricos, apesar de terem mais carne que os pobres, ainda são mais fracos.
Porque os pobres conseguem tecer fio do fuso, da luz rosácea à pardacenta, apesar das mãos lhes sangrarem com cortes, enquanto os ricos gritam logo por um médico. O nome dela é irmã, Aillenn. Eu acho que ela é de uma família nobre e que está habituada às mordomias de servos cativos a servirem travessas de carnes e queijos. Também acho que ela tem sonhos maus causados por corpan fedilfastt que juramos cumprir. De facto, a minha mãe disse que, à noite, num estômago vazio entram espíritos maléficos que levam a alma em aventuras desagradáveis, como se ela tivesse de lutar contra o vento que puxasse a capa de uma criança. Irei aconselhar a irmã Aillenn a desistir do seu sofrimento auto-infligido e arrogante e trazer algum tanagta para manter no clochan dela para a noite, como muitas de nós fazemos, para silenciar o estômago e prender os intestinos. Deus nos perdoe mas nós somos mulheres que gostamos mais de comida do que de fome. Muitas de nós viemos de túaths onde só um louco, ou um moribundo, é que rejeitariam um pedaço de queijo. Deus ajude a irmã Aillenn cujos gritos surgem novamente como um vento lúgubre, soprando através das pedras da minha clochan e fazendo vacilar a chama da minha vela. Estamos todas murchas porque chove há quatro dias e quatro noites». In Kate Horsley, Confessions of a Pagan Nun, Confissões de Uma Freira Pagã, Romance Histórico, Ésquilo, Lisboa, 2002, ISBN 972-8605-18-8.

Cortesia Ésquilo/JDACT

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Confissões de Uma Freira Pagã. Romance histórico. Kate Horsley. «Os olhos, o nariz e a boca dela pareciam juntar-se mais, numa concentração solene. Às vezes uma risada saía dela, como um pássaro que repentinamente voa de um galho»

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Declaração
«(…) Nos últimos anos de vida da minha mãe, ela fazia parte do Conselho de Mulheres da nossa região e portanto viajava uma vez por ano para a feira de Tailltenn. Nesses tempos, havia um Conselho de Mulheres e um Conselho de Homens nos quais eram discutidas as preocupações e segredos das túaths respectivas. Eu só fui com ela duas vezes, antes de os vermes a terem adoentado. Nesses anos, eu era ainda muito nova para assistir ao Conselho e então esperava por ela debaixo da árvore dos druidas. No primeiro ano, a minha mãe começou a treinar-me para ser um membro do Conselho. Quando íamos a pé para casa e passávamos a noite numa albergaria pública, situada no cruzamento onde a estrada do leste se cruza com a do norte, ela fazia-me olhar nos seus olhos. Ela lembrava-me então que os nossos olhos provinham do mesmo poço, de um verde profundo como o do azevinho. Ela falou-me das palavras que as mulheres diziam no início das suas reuniões e a ordem pela qual elas podiam falar. Durante longos períodos do nosso regresso a casa, pela estrada do norte, ela não dizia nada, nem sequer contava uma história. Os olhos, o nariz e a boca dela pareciam juntar-se mais, numa concentração solene. Às vezes uma risada saía dela, como um pássaro que repentinamente voa de um galho. O galho mexia-se mas estava vazio e eu sentia, então, que morreria de fome se a minha mãe não me alimentasse com as suas palavras.
No segundo ano em que a minha mãe me levou à feira de Tailltenn, ela tinha-se tornado selvagem com o cansaço e com a resolução de viver, pelo menos uma parte da sua vida, sem preocupações. Quando ela estava longe do meu pai, que a prendia com os medos dele, ela tornava-se selvagem, como um lobo que foi domesticado somente no pêlo mas não na carne. Ela até uivou uma vez, atirando o seu cabelo para trás e erguendo a cara a um céu sem lua, enquanto eu a olhava toda arrepiada. Na albergaria pública, ela juntava-se aos homens para praticar actividades irreverentes, como quando bebia mead fornecido pelo tá náise. Ela ria-se bem das sátiras cantadas pelos druidas, velhas sátiras sobre homens mortos e sem herdeiros, que não eram perigosas de se ouvir. Ela apertava-me contra ela quando íamos para o canto dormir e segredava-me ao ouvido que as pessoas precisavam de ervas e histórias, e às vezes de cerveja, para vencerem a sua dor. Comecei a ver que a dor e o desejo de conhecimento começaram a tomar lugar nas histórias que me contava. Cedo aprendi que ninguém, nem o chefe mais adorado, está livre dos vermes, de armadilhas traiçoeiras, de animais ferozes ou do peso da mágoa. Os seres humanos mais livres que observei foram os aesdána que iam à feira de Tailltenn e que podiam viajar de túath em túath sem recearem ser atacados ou expulsos. Eles não estavam obrigados a qualquer lealdade. Transcendiam as afiliações políticas e matrimoniais e viam o corte da cabeça na mandíbula de um guerreiro não como uma glória tribal, mas como parte de um mistério eterno, muito maior que a reputação de uma única túath. Dizia-se que os druidas eram capazes de parar a guerra com um nevoeiro negro e de transformar um rei em tolo com as suas sátiras, palavras tão poderosas que são ainda mais cortantes do que as espadas.
Os poemas e as histórias dos druidas remontam a tempos anteriores aos dos antepassados de qualquer um. Eles sabiam histórias e geografias, rituais e profecias tão grandiosas que faziam a vida de um homem mortal parecer uma pequena pena, deixada cair por um pássaro a dormir com a sua cabeça enfiada na asa. O poder do druida era o conhecimento e o conhecimento vinha em palavras. Comecei, então, a desejar o poder dos druidas. Porque se alguém não tem conhecimento sobre o que fazer ou pensar, outro dir-lhe-á o que fazer ou pensar. O meu maior desafio é conseguir obedecer ao que os outros me dizem, que Deus me perdoe. Os dedos da minha mãe a segurar as ervas, sujas pela terra preta donde as desenterrou, e a sua boca alegre, enrolando-se num dos lados, são retratos da liberdade pagã que eu não consigo purgar nem deixar de amar». In Kate Horsley, Confessions of a Pagan Nun, Confissões de Uma Freira Pagã, Romance Histórico, Ésquilo, Lisboa, 2002, ISBN 972-8605-18-8.

Cortesia Ésquilo/JDACT

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Confissões de Uma Freira Pagã. Romance histórico. Kate Horsley. «… mais ninguém me olhava nos olhos nem me reconhecia força. Os outros membros do meu lar acreditavam no terror como método de nos mantermos juntos, e contavam histórias da solidão, da dor e doença e da crueldade dos elementos»

jdact

Declaração
«(…) Quando passávamos uma poça escura, ela conseguia dizer-me qual o espírito que lá vivia, talvez um dos antigos, que estava arrependido de ter perdido a forma humana e procurava agarrar uma criança para a habitar. Também havia espíritos que escutavam os desejos e tentavam realizá-los, dizendo certas palavras nas águas escuras, de tal modo que as palavras subiam como bolhas até, à superfície. Quando seguia a minha mãe a estes lugares, observava sempre atentamente o seu cabelo preto que lhe cobria os ombros e as costas, como uma capa fina a esconder uma veste em trapos. Eu tinha medo de a perder nas profundezas dos bosques, porque, como já disse, eu era pequena e frágil; mas ela tratava-me como se eu fosse forte, andando para a frente sem qualquer preocupação que eu pudesse deixar-me ficar para trás, ou que fosse agarrada por uma entidade mais forte que eu. A minha mãe partia do princípio que eu não era fraca, que os meus ossos eram sólidos e emolduravam o meu espírito. Uma vez ela disse-me, … tu és muito inteligente Gwynneve. Ela disse-me isto como se fosse um segredo maravilhoso e perigoso. Ela aconselhou-me a utilizar a minha inteligência para me livrar das obrigações de uma mulher casada com um homem que cria porcos, ou, pelo menos, para esconder segredos dele. Porque ela fazia uma vida separada do marido, meu pai, que sabia pouco do assunto e se limitava a ouvir elogios daqueles a quem ela curava com as suas ervas. Uma enorme tristeza invadia-a quando me olhava longamente, como se antevesse os acontecimentos que me iriam ferir, sem que ela os pudesse evitar.
Nesses tempos, mais ninguém me olhava nos olhos nem me reconhecia força. Os outros membros do meu lar acreditavam no terror como método de nos mantermos juntos, e contavam histórias de mortes horríveis, da solidão dos cadáveres, da dor e doença e da crueldade dos elementos: ventos que arrancavam os braços a um homem, fomes que faziam as mulheres comer as suas próprias crianças. Referir o sofrimento provocado por este mundo castigador era dar uma lição necessária, e apontar as fraquezas de alguém era uma forma de incitá.lo a ser forte. Por isso, o meu pai e a minha irmã diziam-me que eu vivia demasiado em sonhos e que os meus seios nunca iriam ser suficientemente grandes para agradar a um homem ou para alimentar uma criança. O meu pai acusava aminha mãe de me fazer passar fome, enchendo-me de histórias em vez de comida. Todos na minha túath passavam fome, especialmente durante os meses da geada grossa. Mas eu desejava mais as histórias da minha mãe, que me aliviavam, do que a comida. Eu ouvia-a a entrelaçar palavras e a criar mundos como que se fosse uma deusa. As palavras vinham da boca dela, dissipando a minha solidão, mesmo quando ela não estava comigo. Ela começava todas as histórias com a frase: Foi-me dado que… Quando eu lhe perguntei quem é que lhe tinha dado estas histórias, ela chocalhava o seu cíorbolg, no qual ela tinha umas pequenas pedras lubrificadas que, dizia ela, a entretinham com histórias. Eu comecei então a conhecer as palavras como coisas imortais, que se podiam ver e tocar, cada uma tendo uma cor e uma forma, como uma pedrinha que nunca padece de doença nem morre. Eu sonhei com sacos de pedrinhas polidas, tendo cada saco uma história e contendo uma jóia preciosa de entre as muitas pedrinhas, ou uma pedra preta, que era o olho da morte.
O meu pai e a minha irmã, e outros na túath, tentaram ensinar-me que eu amava as palavras em demasia, mas o que eu amava era a liberdade das palavras. Até o homem que roubou um broche à filha do Chefe e foi posto numa gaiola de ramos de pinho, tinha palavras, uns palavrões que ele lançava às crianças que se punham de cócoras à frente dele para aprender mais sobre a aparência de ladrões. Até um homem numa gaiola pode falar palavras, ou, se a sua língua for cortada, pode ouvi-las, ou se tem os ouvidos cheios de sujidade, ele tem-nas na sua mente. Nas palavras ele é livre, pelo menos até morrer, e eu não sei, nem a minha mãe sabia, se um homem tem palavras depois de morto, a não ser aquelas que tenha deixado escritas, se tiver sido instruído. Eu não vejo que a vida possa ter qualquer interesse se não se puder ser livre. Nesta vida qualquer pessoa está condenada a ter de morrer. Pode desafiar tudo excepto a morte. Se a morte provar que eu não sou livre então eu elogio o Nosso Senhor Jesus Cristo por tê-la ultrapassado, mas continuo sem saber onde o meu avô possa estar e com que dificuldade é que come o festim eterno. Ainda me questiono onde estão aqueles mortos que atraíam para eles o meu amor, como um fio dourado da minha barriga e porque estão tão silenciosos. Ainda os sinto a puxar os meus órgãos. Procuro-os debaixo da superfície das poças, nas profundezas do bosque e daria com agrado o meu corpo para eles habitarem, porque às vezes preferia estar presa à morte do que à solidão e, noutras vezes, pergunto-me se a morte em si não será a maior liberdade de todas». In Kate Horsley, Confessions of a Pagan Nun, Confissões de Uma Freira Pagã, Romance Histórico, Ésquilo, Lisboa, 2002, ISBN 972-8605-18-8.

Cortesia Ésquilo/JDACT

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Confissões de Uma Freira Pagã. Romance histórico. Kate Horsley. «… onde pequenas criaturas que vivem maioritariamente debaixo da terra, despejam o seu despeito em escuros rituais de purificação. Ela disse-me mais do que uma vez: … ‘uma alma não pode viver com muito despeito, tal como um corpo não pode viver só de comida amarga’»

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Confissões de uma freira pagã. Declaração
«(…) Ainda consigo lembrar-me visualmente dos fortes carvalhos e pinheiros que abraçavam a minha túath, e o meu olfacto recorda ainda o aroma da erva macia, ao lado dos campos sulcados. Mas a minha ligação ao povo de Tarafhlaith esvaziou-se lenta e continuamente, como água a sair de um vaso rachado. Muitos festins tornavam-se concursos entre aqueles que bebiam cerveja a mais e acusavam os seus vizinhos de lhes matar ou roubar os porcos, porque a nossa carne e o nosso pão tinham uma enorme valor, ninguém podendo estar certo de ter um sustento diário, apesar de um homem ou uma mulher trabalharem desde a luz rosácea até à luz pardacenta para usufruírem de uma única refeição. Poucos eram como a minha mãe que erguia os olhos da sua tigela de comida para olhar as estrelas, ou ouvir a cotovia a penetrar cada vez mais na floresta. Até hoje sinto a influência da minha mãe. Agora já não posso pegar-lhe na mão quente, por isso falarei do seu carácter. Em todas as escrituras que transcrevi, não existe qualquer relato sobre uma tal mulher. Eu não a chamo uma santa nem uma heroína, mas uma boa mãe que morreu no início das grandes mudanças, deixando-me com uma solidão irredimível. Deixai-me louvá-la aqui, para o caso de não existir outro lugar onde seja louvada, porque ela não morreu com a cabeça cortada numa batalha, nem de nenhuma outra maneira que pudesse levar a que fosse louvada nos salões dos chefes, ou no manuscrito cristão.
Eu confesso aqui que a minha mãe não era cristã, mas no tempo dela eram poucos os que sabiam da substituição dos nossos deuses pelos três deuses em um. Ela não venerava Deus, mas sim o que Ele criou e ela conhecia bem as plantas, mas não tanto quanto um estudioso. Os homens tonsilados ainda não estavam cá para dar os seus nomes em Latim às plantas. A minha mãe conhecia-as pelos seus verdadeiros nomes: fraechoga, crem, birer (frutos silvestres, alho bravo e agrião). Quando alguém ficava doente na túath, muitos ficavam contentes de ver os seus pés esbeltos, andando pelos caminhos de lama entre as cabanas com os seus ramos de ervas. Como eu era uma criança pequena, com membros que pareciam demasiado magros para terem qualquer uso, ia com ela para a floresta enquanto a minha irmã mais velha tomava conta dos porcos. A minha mãe ensinou-me a cheirar a terra que ela segurava na mão e a compreender o cheiro da fertilidade, para o comparar com o da infertilidade. Ela mostrou-me o círculo castanho e infértil na floresta, onde pequenas criaturas que vivem maioritariamente debaixo da terra, despejam o seu despeito em escuros rituais de purificação. Ela disse-me mais do que uma vez: … uma alma não pode viver com muito despeito, tal como um corpo não pode viver só de comida amarga. Às vezes, as criaturas amargas, que nos causam maldades dolorosas, eram os antigos que se tinham tornado pequenos e que eram liderados pela sua rainha, Bebo. Ainda irrompiam lutas, perdidas no tempo e ferozes, entre os súbditos de Bebo e os grandes, que também viviam debaixo da terra com os heróis mortos. Estes ainda discutem por causa do gado roubado, morto há tanto tempo que os vitelos dos seus vitelos já se tornaram pó, mas estas histórias são ainda contadas nos festins e são até traduzidas pelos cristãos, que outorgam o seu poder sobre os povos desta terra. Mas a minha mãe falava das maneiras de tirar partido da vida dura, não de como roubar gado. Ela não se envergonhava da sua beleza, nem de esfregar as mãos com óleo perfumado, nem de abandonar o festim quando as histórias de guerras dos homens se prolongavam demais.
Já em criança, leve como a palha, e quase sem esperança de viver até ser mulher, eu não tinha qualquer interesse nas histórias de razias sobre os diversos reinos, com o objectivo de se possuir mais um outro touro. Em vez disso, eu ocupava o espírito com o mistério dos lugares e com os seres que não podemos ver, como se fossem uma árvore ou um cavalo, uma malga ou um homem. Podia perguntar à minha irmã ou ao meu pai sobre a saúde dos porcos, mas era com a minha mãe que eu ia ter para perguntar se as florestas tinham fim, ou se as estrelas eram olhos de criaturas no céu. Perguntei-lhe se o meu avô estava sentado à mesa de banquete debaixo da terra, com a sua cabeça cortada na mandíbula. O terror coagulava-me o leite no estômago quando pensava que ele seria incapaz de comer as iguarias lá servidas, carnes e queijos a todas as refeições. Desde então, já sonhei com ela e com a minha tia, sentados com o Nosso Senhor Jesus Cristo na Última Ceia. Neste sonho, ele está irado porque a mandíbula não fecha e não lhe permite comer, por isso vira a mesa e entorna toda a comida para o chão. A minha mãe admitia desconhecer a condição do pai no pós-vida, ou se os mortos sofriam ou não sofriam. Ela abanava tristemente a cabeça quando não conseguia responder e, pegando-me nas mãos, apertava-as como que a moldá-1as. Uma vez ela disse: … pára os teus pensamentos! Observa as nuvens a flutuar em formas diferentes. E eu assim fiz, dando-lhe tempo para desenterrar as razes que ela utilizava para dar sabor às nossas tigelas de´comida. Ela era uma mãe muito inteligente, que conseguia dar-se, ao mesmo tempo, a si e à sua filha. Quando uma flor branca surgiu e se manteve corajosamente entre os sulcos lamacentos feitos pelas patas dos porcos nas pocilgas, a minha mãe disse: … aqui está uma mensagem para ti, Gwynn, que nem toda a beleza é esmagada antes de se poder mostrar entre os porcos».

In Kate Horsley, Confessions of a Pagan Nun, Confissões de Uma Freira Pagã, Romance Histórico, Ésquilo, Lisboa, 2002, ISBN 972-8605-18-8.

Cortesia Ésquilo/JDACT