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quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Obra de Eugénio de Andrade. Antologia Breve. Eugénio de Andrade. «Abril anda à solta nos pinhais coroado de rosas e de cio, e num salto brusco, sem deixar sinais, rasga o céu azul num assobio»

Cortesia de wikipedia e jdact

Nocturnos
«Coaxar de rãs é toda a melodia
que a noite tem no seio,
versos dos charcos
e dos juncos podres,
casualmente, com luar no meio».

Espera
«Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça».

Os Amantes sem dinheiro
«Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos,

mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços».

Abril
«Brinca a manhã feliz e descuidada,
como só a manhã pode brincar,
nas curvas longas desta estrada
onde os ciganos passam a cantar.

Abril anda à solta nos pinhais
coroado de rosas e de cio,
e num salto brusco, sem deixar sinais,
rasga o céu azul num assobio.

Surge uma criança de olhos vegetais,
carregados de espanto e de alegria,
e atira pedras às curvas mais distantes
onde a voz dos ciganos se perdia».
Poemas de Eugénio de Andrade, in ‘Antologia Breve’

In Eugénio de Andrade, Antologia Breve, Obra de Eugénio de Andrade nº 25, Fundação Eugénio de Andrade.

Cortesia de FEAndrade/JDACT

Obra de Eugénio de Andrade. Antologia Breve. Eugénio de Andrade. «De mim podia falar-te, mas não sei que dizer-te desta história de maneira que te pareça natural a minha voz»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Eugénio de Andrade é, a par de Pessanha, o poeta português mais próximo de uma poesia-música, numa linguagem maximamente cerrada sobre si, ou inesgotável a qualquer paráfrase...» In Óscar Lopes

«Trata-se de um dos maiores líricos da literatura portuguesa, que é também o grande poeta do amor no nosso século XX». In António José Saraiva

(…)
«Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.

Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.

Tenho o nome duma flor
quando me chamas.
Quando me tocas,
nem eu sei
se sou água, rapariga,
ou algum pomar que atravessei.

Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto».

A uma cerejeira em flor
«Acordar, ser na, manhã de abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz ou o quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração duma cereja.

Shelley sem anjos e sem pureza,
aqui estou à tua espera nesta praça,
onde não há pombos mansos mas tristeza
e uma fonte por onde a água já não passa.

Das árvores não te falo pois estão nuas;
das casas não vale a pena porque estão
gastas pelo relógio e pelas luas
e pelos olhos de quem espera em vão.

De mim podia falar-te, mas não sei
que dizer-te desta história de maneira
que te pareça natural a minha voz.

Só sei que passo aqui a tarde inteira
tecendo estes versos e a noite
que te há-de trazer e nos há-de deixar sós».
Poemas de Eugénio de Andrade, in ‘Antologia Breve’

In Eugénio de Andrade, Antologia Breve, Obra de Eugénio de Andrade nº 25, Fundação Eugénio de Andrade.

Cortesia de FEAndrade/JDACT

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Os Passos em Volta. Herberto Helder. «Annemarie despiu-se e deitou-se nua sobre o cobertor enquanto eu tentava aquecer um pouco de água. Falamos longamente da chuva, do amor e das leis»

Cortesia de wikipedia e jdact

Polícia
«(…) Nessa manhã de Dezembro em que chovia (eu falaria depois a Annemarie da chuva lenta, longa), M. Maurice começou a duvidar da sua influência e da influência do partido comunista. Disse-me que já nada poderia fazer por mim. Seria melhor eu partir para a Alemanha ou a França, ou arranjar então lugar num barco que saísse de Antuérpia. Considerava as palavras do meu amigo enquanto bebia cerveja num bar perto da estação. No calor do bar a roupa fumegava. Gotas de água à volta. Calma solidão sem dor. Havia música. Meu Deus! A minha alma conhecia os seus caminhos. A terra era grande. Tudo quanto eu fizesse, cada coisa que me acontecesse, não me tomariam maior ou menor que a fé ou o desespero. Pois o desespero era antigo: uma delgada, tenacíssima raiz. Era uma experiência, um pensamento, um destino, algo que eu aceitava, que me induzia talvez a amar a vida. Estava só no meio da chuva tranquila. Podemos sempre beber uma cerveja como se fosse a última. Em cada instante a terra ainda consegue ser completa: é a única, e isso mesmo a renova. Annemarie sentou-se à minha mesa. Vi logo o tamanho da sua solidão: tinha o tamanho do mundo. Ela era a criatura mais só do mundo. E a sua história apareceu, simples, tenebrosa, entre as nossas duas cervejas. Todas as histórias pessoais são simples e tenebrosas. Não me comovi. Comovido já eu estava: com as coisas, comigo, com a chuva sobre a cidade. Talvez houvesse uma irónica alegoria em nós dois ali sentados diante dos belos copos frios, compreendendo ambos tão facilmente o que nos acontecia e iria acontecer que não tínhamos pressa. Poderíamos morrer ali mesmo. Esperávamos.
Annemarie era francesa, de Lyon. Abandonara um filho de dois anos. O marido combatia na Argélia, talvez estivesse morto. (Ela dizia que o amava, e por que não? O amor e o desespero e a desordem, isso é a nossa parte do jogo). Annemarie não queria regressar à França. Mas vivia na Bélgica sem documentos. Fora já posta na fronteira duas vezes: voltara, voltaria sempre. Que pode fazer uma pessoa senão voltar, estar fora, ser completamente estrangeira, não ter papéis? A terra é enorme. Paramos num sítio. E agora estamos sentados e procuramos, com a nossa história simples e desesperada, atrair o cuidado, o fervor alheio. É assim. Renovamos a espera inútil; o milagre onde não há milagres; a luz ao fundo, sempre ao fundo. Somos ilegais, em cada dia criamos uma rápida, brevíssima beleza surpreendente contra a face do pavor. M. Maurice perdera a última esperança de me salvar. O partido comunista, a viagem de ida e volta em comboio até Clabeck, a chuva, uma impossível salvação (que salvação?), embrulhavam-se dentro de mim, e eu sentia-me embriagado, feliz, irresponsável: sentia-me como se estivesse perto de morrer.
Agora uma mulher bebia cerveja na minha solidão, falava do filho que abandonara, do marido que estava na guerra. (Pronunciava as palavras devagar, arrancava-as inexoravelmente a esse sempre vivo e sempre secreto vocabulário do medo e do empenhamento.) Dizia sorrindo que estava perdida. Gostava da cerveja belga, achava Bruxelas insuportável. Sim, queria morrer. Queria morrer anonimamente, no fim do deserto. Eu percebia. Os chuis farejavam à volta da Gare du Nord, farejavam-nos a todos: pu…, chulos, vadios, indocumentados, ilegais. Sabiam que ela voltara: seria presa? Já o fora algumas vezes: não era o pior. Seria mesmo a única forma agora possível de pensar nas coisas, de avaliar o mundo. Mas aí acabava o jogo. Não se podia dizer: sou livre. Não se podia arriscar a liberdade. (E perguntar: que liberdade?) Eu também seria preso, repatriado: andaria depois por Lisboa a dormir em quartos de amigos, em camaratas públicas. À caça de um almoço, uma sopa, um copo de leite. Todos os lugares são no estrangeiro. E eu passaria junto ao rio, olhando a crespa e lívida massa das águas, a outra margem com o fumo vermelho das refinarias a sufocar a branca luz a prumo. E imaginava já a prisão em Bruxelas. Era preciso enganar a polícia. Rebentar de fome, sim, estrangeiramente, mas não perder nunca a liberdade. (E a pergunta: que liberdade?)
Annemarie tinha o dom da poesia subversiva. Subvertia tudo. A seu lado senti que a minha vida era importante. Que a arriscaria, sempre e sempre, que perderia, mas nada cedendo de mim próprio. O amor do perigo embebedava-me. Começávamos então a lutar contra a polícia do mundo inteiro. Quando anoiteceu saímos do bar e fomos a pé, vigilantes, protegidos, até ao meu quarto de Laeken. Contornamos o que nos parecia suspeito: um carro parado, um vulto vagaroso, as sombras, as vozes. Foi ainda preciso subir furtivamente as escadas do prédio, pois a senhoria já me mandara embora, porque 1º eu não lhe pagava a renda, porque 2º não queria complicações com a polícia. Mas depois o quarto foi nosso. Annemarie despiu-se e deitou-se nua sobre o cobertor enquanto eu tentava aquecer um pouco de água. Falamos longamente da chuva, do amor e das leis». In Herberto Helder, Os Passos em Volta, 1994, 2004, Assírio & Alvim, 2009, ISBN 978-972-370-119-7.

Cortesia de AAlvim/JDACT

Os Passos em Volta. Herberto Helder. «Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Holanda
«(…) Não penso na minha alma, diria ele, nem na carne. Não me ponho a perguntar se ganharei a salvação. Eu preciso de amor. Preciso aprender. Mas parece que na comunidade já tudo se aprendera, estava tudo ensinado e sabido desde sempre. E os homens pensavam unicamente em preservar-se do sofrimento; desejavam que a linguagem ficasse intacta, sem mácula. Ele olhava o sol verde entre as patas das vacas e supunha poder envenenar-se legando o cadáver à confusão holandesa. E como se alimentaria essa confusão, como seria divertido o pequeno quadro holandês! Senhor, que lhe aconteceu? Salva-lhe a alma se puderes. Ele era um estrangeiro: envenenou-se. Nada mais sabemos. Que mal te fez a Holanda para a castigares assim? Muito lentamente, o seu amor desenvolveu-se. Era um amor que se aprendia a si próprio, cheio de medo e dúvida. O nosso amor pode atingir tudo?, perguntava. Ou perguntava então: até onde vão os direitos de um... homem? Ou de um poeta? Na Holanda não se fazem fogueiras ao ar livre: nada se percebe do fogo. A Holanda é um país cada vez maior. O mar rouba-lhe meio metro, e logo os holandeses roubam dois metros de terra ao seio fervente das águas. Não compreendo a justiça cósmica. E murmura para si: nada conhecem das coisas do fogo. Os dons mais profundos do homem estiolam dentro deles. Deverei amá-los? Amar o quê, quem?, pergunta a visita. Referes-te aos homens holandeses ou aos dons que esqueceram? E ele não sabe realmente aquilo a que desejava referir-se, o que lhe inspirava o desespero. Sentado na Holanda, pensa: piedade. Para ele? Para os homens holandeses? Em que jogos se enreda uma inocência!

Teoria das Cores
Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe. O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor, sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor. Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose. Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.

Polícia
Le petit monsieur Leclair falhou mais uma vez. Nesse dia (Dezembro, chovia) eu fora à sede do partido comunista, recomendado pelo pequeno senhor Maurice Leclair, e recebera uma carta para as forjas de Clabeck. Em Bruxelas o meu trabalho era muito irregular. Só acidentalmente é que dispunha de algum dinheiro. Fazia um pouco de tudo: cortava legumes na Sobela, enfardava aparas de papel na Nouvel Maison Vermeiren ou ajudava Chez Lemaire, uma friture. Não tinha os documentos em ordem. Não havia quem me desse trabalho certo e suficientemente prolongado. Maurice pretendia meter-me em Clabeck, nas forjas (trabalho violento), e que por aí fosse solicitada ao ministério a carta de trabalho. Contava com a influência de alguém do partido comunista. Eu divertia-me sobretudo quando pensava que M. Maurice era antigo colaboracionista e gozava de direitos civis e políticos. A Bélgica era um país confuso, cómico. Por exemplo: o maior amigo do meu protector, um flamengo que amava a cerveja forte, pertencera à resistência.
Eu desejava trabalho, apenas isso. Também um pouco de calor. Pensava em raparigas com quem pudesse dormir ou ir, nas noites de sábado, aos bares da Chaussée d’Anvers. Eu tinha um quarto triste, sem aquecimento. Uma das janelas caía sobre a igreja e o cemitério burguês de Laeken. A outra dava para umas luzes distantes. Sob uma ponte próxima passavam comboios de mercadorias. Às vezes eu fazia com estes elementos estrangeiros um lirismo vagabundo e inocente. Também me sentia entusiasmado com a solidão. Encontrava-me fora dos quadros, vagueava pela cidade. Era já perigosamente conhecido Au Nord, perto da estação, onde as pu… e os chuis eram mais que as mães. De vez em quando perdia por ali uma tarde inteira, arranjava dinheiro para duas cervejas, um pacote de batatas». In Herberto Helder, Os Passos em Volta, 1994, 2004, Assírio & Alvim, 2009, ISBN 978-972-370-119-7.

Cortesia de AAlvim/JDACT

sábado, 12 de agosto de 2017

A Trança de Inês. Rosa Lobato Faria. «Lisboa pouco ultrapassa o Lumiar, Benfica, Monsanto, o Porto fica-se pela Foz, Campanhã e São Mamede. Tudo o resto tem sido sistematicamente demolido»

Cortesia de wikipedia

«Um não sei quê que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porquê». In Luís de Camões

«(…) Talvez que, depois daqueles milhares de anos longos em que o tempo era o seu próprio embrião, o primeiro milénio da nossa era fosse a infância do tempo. Naquele século catorze que tantas vezes se me torna presente, encontro a demora da adolescência da história, o tempo detendo-se na penumbra dos castelos de pedra. No final do século vinte, que me trouxe a este cativeiro, descubro um ritmo diferente, mais vivo, mais rápido. Mas no princípio do século vinte e dois que agora frequentemente me aparece, tudo se passa em clarões velocíssimos numa sucessão de imagens iluminadas a azul-gelo, azul-inquietação, azul-miragem, como se o tempo tivesse envelhecido e estivesse com pressa de morrer. Estou louco, dirão. Sim, estou louco, já que chamam loucura a qualquer comportamento menos convencional ou sempre que a nossa mente tem acesso a um pouco mais do que à trivialidade estabelecida. Anda, vadio. Hoje vais comer ao refeitório. Já sabes que à mais pequena confusão...
Mas eu estou calmo. Estou a pensar nisto do tempo, estou a viajar dentro da minha cabeça e, excepcionalmente, estou com fome. Sinto falta de comer sentado à mesa, o prato na mão corta-me o apetite. Há caldo, a que eles chamam verde, mas onde as couves são castanhas. Há batatas guisadas com toucinho que uma vez por outra traz um pouco de carne entremeada e é bom. Tem molho e deram-me uma boa fatia de pão. E quando estou a limpar o prato como se tivesse que devolvê-lo lavado, vem-me tudo à ideia. A primeira imagem é a do oficial de ligação entre o SPP e os serviços prisionais, a dizer, levem-no, levem-no, não me façam perder tempo com o que já está decidido. Porque eu errei. Pequei contra o Planeta.
Este é um tempo em que os Governos da Terra decidiram que todos os males do mundo advêm do excesso de população. Refiro-me aos Governos Continentais donde emanam decisões que globalizam toda a legislação relativa à protecção do Planeta Terra. As crianças aprendem na escola que é preciso escolher entre o Homem e a Natureza, e ao escolhermos a Natureza estamos a salvar o Homem. Por mais cruel que isso seja para o indivíduo, acabaram-se os tempos bárbaros em que os interesses pessoais se sobrepunham à salvação da Terra. Esta doutrina intitula-se Salvismo. Agora o Planeta é o deus a quem todos devemos sacrificar. Por isso as leis são inexoráveis. Pena de morte para quem poluir as águas, derrubar árvores, incendiar florestas, matar animais ou os mutilar. Pena de morte para quem lançar qualquer espécie de substância poluente na atmosfera. Pena de morte para quem se reproduzir fora do sistema. Há, evidentemente, regras muito estritas para a criação e abate de espécies para alimentação dos humanos. Cedências no que se refere a bens de primeira necessidade. A vida tornou-se simples, próxima da natureza: estimula-se o artesanato, encoraja-se o despojamento. Mas isso só é possível com a redução drástica da população, para que se possa acabar com o abate de árvores, a industrialização, a construção desenfreada, o exaurimento dos recursos naturais.
Os Governos Nacionais orgulham-se das suas estatísticas que revelam diminuição progressiva da população que, com o tempo irá atingir a quota proposta de 20%. As medidas foram implementadas nos meados do século XXI, nem sequer passaram os cem anos das previsões, apenas cerca de setenta, pois estamos ainda no primeiro quartel do século XXII. Eu nasci em Dezembro de 2084, sou adulto na minha rememoração dos acontecimentos. Chamo-me Pedro Rey e negoceio em madeiras. É uma profissão trabalhosa, mas que me proporciona um nível de vida razoável. Dada a proibição de abater uma árvore que seja, a madeira tornou-se preciosa e atinge por vezes preços muito interessantes. Mas há que recuperá-la das demolições das cidades grandes. Isto é. As cidades periféricas, as zonas-dormitório, deixaram de existir porque a população diminui cada vez mais. E muitos dos habitantes das cidades, entusiasmados com os vantajosos apoios que lhes são propostos, optaram por ir viver em pequenas comunidades nos campos, aldeias verdejantes espalhadas por todo o país. Lisboa pouco ultrapassa o Lumiar, Benfica, Monsanto, o Porto fica-se pela Foz, Campanhã e São Mamede. Tudo o resto tem sido sistematicamente demolido para que, uma vez os terrenos limpos e tratados, se possam plantar florestas e jardins. Respeitam-se os edifícios que pela sua arquitectura ou valor histórico mereçam ser preservados e que passam a erguer-se entre frondosas matas em vez de continuarem a ombrear com dependências de bancos e lojas de quinquilharias. Portugal tornou-se mais bonito. E a Natureza, apaziguada, fez uma trégua na sua profusão de catástrofes e epidemias. Mas não. Ainda não é o paraíso». In Rosa Lobato Faria, A Trança de Inês, Círculo de Leitores, cortesia de ASA Editores, 2005, ISBN 978-989-660-034-1.

Cortesia CL/JDACT

sábado, 17 de junho de 2017

Terra Sonâmbula. Mia Couto. «Chorando assim você vai chamar os espíritos. Ou se cala ou lhe rebento a tristeza à pancada»

jdact

«(…) Muidinga vai avançando, pisando com mil cautelas. Aquele recinto está contaminado pela morte. Seriam precisas mil cerimónias para purificar o autocarro. Não faça essa cara, miúdo. Os falecidos ofendem- se lhes mostramos nojo. Muidinga arruma o saco num banco. Senta-se e observa o recanto conservado. Há tecto, assentos, encostos. O velho, impávido, já se deitou a repousar. De olhos fechados, espreguiça a voz: sabe bem uma sombrinha assim. Não descanso desde que fugimos do campo. Não quer apanhar sombra? Tuahir, vamos tirar esses corpos daqui. E porquê? Cheiram-lhe mal? O miúdo não responde logo. Está virado para a janela quebrada. O velho insiste que descanse. Desde que saíram do campo de deslocados eles não tinham tido pausa. Muidinga permanece de costas viradas. Escuta-se apenas o seu respirar, quase resvalando em soluço. Então, ele repete a sussurrante súplica: que se limpe aquele refúgio. Peço-lhe, tio Tuahir. É que estou farto de viver entre mortos. O velho apressa-se a emendar: não sou seu tio! E ameaça: o moço que não abuse das familiaridades. Mas aquele tratamento é só a maneira da tradição, argumenta Muidinga. 
Em você não gosto. Não lhe chamo nunca mais. E me diga: quer encontrar os seus pais porquê? Já expliquei tantas vezes. Não consigo entender. Vou-lhe contar uma coisa: os seus pais não lhe vão querer ver nem vivo. Porquê? Em tempos de guerra, filhos são um peso que atrapalha. Saem a enterrar os cadáveres. Não vão longe. Abrem uma única campa para poupar esforço. No caminho do regresso encontram mais um corpo. Jazia junto à berma, virado de costas. Não estava queimado. Tinha sido morto a tiro. A camisa estava empapada em sangue, nem se notava a cor original. Junto dele estava uma mala, fechada, intacta. Tuahir sacode o morto com o pé. Revista-lhe os bolsos, em vão: alguém já os tinha vazado. Eh pá, este gajo não cheira. Atacaram o machimbombo há pouco tempo. O miúdo estremece. A tragédia, afinal, é mais recente do que ele pensava. Os espíritos dos falecidos ainda por ali pairavam. Mas Tuahir parece alheio à vizinhança. Enterram o último cadáver. O rosto dele nunca chega a ser visto: arrastaram-no assim mesmo, os dentes charruaram a terra. Depois de fecharem o buraco, o velho puxa a mala para dentro do autocarro. Tuahir tenta abrir o achado, não é capaz. Convoca a ajuda de Muidinga: abre, vamos ver o que está dentro. Forçam o fecho, apressados. No interior da mala estão roupas, uma caixa com comidas. Por cima de tudo estão espalhados cadernos escolares, gatafunhados com letras incertas. O velho carrega a caixa com mantimentos. Muidinga inspecciona os papéis. Veja, Tuahir. São cartas. Quero saber é das comidas. O miúdo remexe no resto. As mãos curiosas viajam pelos cantos da mala. O velho chama a atenção: ele que deixasse tudo como estava, fechasse a tampa. Tira só essa papelada. Serve para acendermos a fogueira. O jovem retira os caderninhos. Guarda-os por baixo do seu banco. Não parece pretender sacrificar aqueles papéis para iniciar o fogo. Fica sentado, alheio. No enquanto, lá fora, tudo vai ficando noite. Reina um negro silvestre, cego. Muidinga olha o escuro e estremece. É um desses negros que nem os corvos comem. Parece todas as sombras desceram à terra. O medo passeia os seus chifres no peito do menino que se deita, enroscado como um congolote. O machimbombo rende-se à quietude, tudo é silêncio taciturno. Mais tarde, começa-se a escutar um pranto, num fio quase inaudível. É Muidinga que chora. O velho levanta-se e ralha: pára de chorar! É que me dói uma tristeza... Chorando assim você vai chamar os espíritos. Ou se cala ou lhe rebento a tristeza à pancada. Nós nunca mais vamos sair daqui. Vamos, com certeza. Qualquer coisa vai acontecer qualquer dia. E essa guerra vai acabar. A estrada já se vai encher de gente, camiões. Como no tempo de antigamente. Mais sereno, o velho passa um braço sobre os ombros trementes do rapaz e lhe pergunta: tens medo da noite? Muidinga acena afirmativamente. Então vai acender uma fogueira lá fora. O miúdo levanta-se e escolhe entre os papéis, receando rasgar uma folha escrita. Acaba por arrancar a capa de um dos cadernos. Para fazer fogo usa esse papel. Depois senta-se ao lado da fogueira, ajeita os cadernos e começa a ler. Balbucia letra a letra, percorrendo o lento desenho de cada uma. Sorri com a satisfação de uma conquista. Vai-se habituando, ganhando despacho. Que estás a fazer, rapaz? Estou a ler. É verdade, já me esquecia, você é capaz de ler. Então leia em voz alta que é para me adormecer». In Mia Couto, Terra Sonâmbula, Editorial Caminho, Lisboa, 1992, ISBN 972-21-0790-9.

Cortesia de Caminho/JDACT

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Diário VIII. Miguel Torga. «Tudo, menos trânsfuga da minha classe. Nasci povo, povo continuo, e povo quero morrer. A burguesia compra-me algum suor e alguns livros»

jdact

Pinhel, 21 de Outubro de 1955
«(…) Ah, sim, lá conhecer Portugal conheço-o eu! Não houve aceno de monte ou de planície a que não respondesse. Subi a todas as serras e calcurreei todos os vales desta pátria. Por isso, quando chegar a hora da grande jogada, tenho um trunfo a meu favor que há-de desconcertar a morte: a íntima certeza de que não vou estranhar a cama, seja qual for o sítio onde me enterrem.

Souro Pires, 22 de Outubro de 1955
Às vezes chego a pensar se não será a nossa vocação de arqueólogos que vai sistematicamente reduzindo Portugal a ruinas.

S. Martinho de Anta, 29 de Outubro de 1955
O solar da família, térreo, de telha vã, encimado pelo seu brasão de armas esquartelado, com enxadões em todos os campos… Foi desta realidade que parti, e é a esta realidade que regresso sempre, por mais voltas que dê nos caminhos da vida. É uma certeza de marco com testemunhas, que nunca me deixa desorientado quando quero avivar as estremas da alma. Basta escavar um pouco a crosta da aparência, e aí estou eu na matriz, confrontado. Há tempos, em Lovios, no Gerês espanhol, depois de conversar com vários habitantes da povoação, interessei-me por um tumor a despontar no pescoço de uma velhota. É doutor…, informou o meu companheiro. Que doutor! Ele é como nós!... E sou. Tudo, menos trânsfuga da minha classe. Nasci povo, povo continuo, e povo quero morrer. A burguesia compra-me algum suor e alguns livros, mas é confiado na subversão do seu poder que vivo. Aliás, quer profissionalmente, quer literariamente, ainda é quando ponho as mãos e molho a pena nas chagas e no sangue dos meus que dou o melhor de mim. Foi na clínica rural que me senti médico a sério, e cuido que as coisas mais válidas que escrevi sabem à terra nativa que trago agarrada aos pés. Envergonhado de representar o ingrato papel de cronista dum mundo que nem me pode ler, como um dia confessei, é nele que acredito, é ele que me inspira e é por ele que luto. Conheço-lhe os defeitos, sei que são falsíssimos os quadros bucólicos das moleirinhas líricas e dos pastores de avena, e nem me quero lembrar dos torcegões que é capaz de dar à verdade a manha dum honrado cavador… Mas, além de ser uma tolice esperar que a condição humana faça distinções, procuro compreender a causa de certas dessas mazelas. Melhor fora que milénios de servidão, de fome, de ignorância e de logro não criassem desconfiança, inveja, mesquinhez e aviltamento! Resta saber se, iluminado por outro sol, o panorama seria o mesmo, e se, apesar de tudo, não é o único que dá esperanças... Pelo que me diz respeito, apenas a olhá-lo consigo descortinar sentido e futuro à vida. E quando aqui chego, embrulhado na cultura e no diploma, que, de resto, só me ajudaram a consciencializar o meu caso, é o bilhete de identidade passado pela tal camponesa galega que me deixa bater sem constrangimento à porta do ninho. Nem o dono que me manda entrar, nem os vizinhos que, curiosos, espreitam dos seus buracos, me podem estranhar. Sou como eles…

S. Martinho de Anta, 30 de Outubro de 1955
Tatuagem
Um verso apenas, mas que fique impresso
na morena epiderme
do teu corpo maciço;
um verso agradecido
à universal beleza
do teu rosto redondo,
infatigavelmente variado;
um verso branco e puro
de rendido louvor
à serena ironia
com que deixas brincar no teu regaço
a inquietação,
e devolves o eco
de cada grito
à boca enfurecida,
Terra, pátria da vida!
Eva que o sol, fecunda do infinito!»

In Miguel Torga, Diário VIII, Coimbra, 1959, 1999, Publicações Dom Quixote.

Cortesia DQuixote/JDACT

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Fogos. 1935. Prosas Líricas. Marguerite Yourcenar. «Confiou o punho à mão dessa amiga fatal, acertou o passo pelo daquela rapariga à vontade nas trevas, sem saber se Misandre obedecia ao rancor ou a uma gratidão sombria»

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«Solidão... Não creio como os outros crêem, não vivo como os outros vivem, não amo como os outros amam... Mas morrerei como todos morrem». In Marguerite Yourcenar

«(…) Patrodo, corando, rechaçou aquele abraço de mulher: Aquiles recuou, deixou que lhe agarrassem os braços, verteu lágrimas que mais não faziam do que tornar ainda mais perfeito o seu disfarce de rapariguinha, mas davam a Deidamia uma nova razão para preferir Patrodo. Olhadelas, sorrisos interceptados como uma correspondência amorosa, a perturbação do jovem, tabuleta meio naufragada sob essa vaga de rendas, transformaram a perturbação de Aquiles em ciúmes furiosos. Aquele rapaz vestido de bronze eclipsava as imagens nocturnas que Deidamia conservava de Aquiles, da mesma forma que um uniforme primava aos seus olhos de mulher sobre o pálido brilho de um corpo nu. Aquiles agarrou desajeitadamente um gládio que largou imediatamente, e serviu-se, para apertar o pescoço de Deidamia, das suas mãos de rapariga, invejosa do sucesso de uma companheira. Os olhos da mulher estrangulada saltaram como duas longas lágrimas; os escravos intervieram; as portas que se fecharam com um barulho de milhares de suspiros abafaram os últimos estertores de Deidamia: os reis desconcertados reencontraram-se do outro lado do sobrado. O quarto das Damas encheu-se de uma obscuridade sufocante, interna, que nada tinha a ver com a noite. Aquiles, de joelhos, ouvia a vida de Deidamia escapar-se-lhe da garganta, como a água no gargalo demasiado estreito de uma garrafa. Sentia-se mais separado do que nunca daquela mulher que ele tinha tentado não apenas possuir mas ser: tornando-se cada vez menos próximo à medida que estreitava o aperto, o enigma de ser uma morta tinha-se acrescentado nela ao de ser uma mulher. Apalpava com horror os seus seios, os seus flancos, os seus cabelos nus. Levantou-se, tacteando as paredes onde já não se abria qualquer saída, envergonhado por não ter reconhecido nos reis os emissários secretos da sua própria coragem, certo de ter deixado fugir a sua única oportunidade de ser um deus. Os astros, a vingança de Misandre, à indignação do pai de Deidamia, uniram-se para o manter fechado naquele palácio sem fachada para a glória: os seus mil passos em redor daquele cadáver comporiam a partir de agora a imobilidade de Aquiles. Umas mãos quase tão frias como as de Deidamia pousaram-se sobre o seu ombro: estupefacto ouviu Misandre propor-lhe fugir antes de que caísse sobre ele a cólera daquele pai todo-poderoso. Confiou o punho à mão dessa amiga fatal, acertou o passo pelo daquela rapariga à vontade nas trevas, sem saber se Misandre obedecia ao rancor ou a uma gratidão sombria, se tinha como guia uma mulher que se vingava ou uma mulher que ele tinha vingado. Batentes cediam, depois voltavam a fechar-se: os ladrilhos gastos baixavam docemente debaixo dos seus pés, como a curva mole de uma vaga; Aquiles e Misandre continuavam cada vez mais depressa a sua descida em espiral, como se a sua vertigem fosse uma gravidade. Misandre contava os degraus, desfiava em voz alta uma espécie de terço de pedra. uma porta abriu-se finalmente sobre as falésias, os diques, as escadas do farol: o ar salgado como o sangue e as lágrimas brotou diante do estranho par atordoado por essa maré de frescura. Com um riso duro, Misandre deteve o belo ser apanhando as suas saias, já prestes a cair, estendeu-lhe um espelho onde a aurora lhe permitia encontrar o seu rosto, como se ela não tivesse consentido em o trazer para o ar livre senão para lhe infligir, num reflexo mais aterrorizador do que o vazio, a prova nua e crua da sua não existência de deus. Mas a sua palidez de mármore, os cabelos ondulantes como as crinas de um capacete, a pintura misturada de choro, que se lhe colava às faces como o sangue de um ferido, reuniam pelo contrário, neste quadro estreito, todos os posteriores aspectos de Aquiles, como se aquele estreito pedaço de vidro tivesse aprisionado o futuro. O belo ser solar arrancou o cinto, desmanchou a écharpe, quis desembaraçar-se das musselinas asfixiantes, mas teve medo de se expor mais ao fogo das sentinelas, se tivesse a imprudência de se deixar ver nu». In Marguerite Yourcenar, Feux, 1935, Éditions Galimard, 1974, Difel, Lisboa, 1995, ISBN 972-29-0315-2.

Cortesia Difel/JDACT

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O Carteiro de Fernando Pessoa. Fernando E. Pinto. «Tudo isto é um combate implacável com o qual o poeta já estava familiarizado. Foi então que, sentado à secretária, Fernando Pessoa abriu a carta…»

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Não há melhor fragata do que um livro para nos levar a terras distantes. In E. Dickinson

«(…) É bom de ver: Alberto Reis tinha orgulho na antiga profissão. Mesmo assim, havia momentos em que o seu esforço saía espezinhado e enfraquecia perante a difícil tarefa de detectar matéria atractiva e comprometedora que o conduzisse a um trabalho de pesquisa. Podemos estar a falar de um homem obsessivo, cuja entrega e experiência nestes assuntos que perspectivavam acontecimentos objectivos e reais lhe conferiam o certificado de tomar de assalto a vida privada dos outros. No entanto, a eficácia das suas conclusões não deixava de ser surpreendente e impressionava pela precisão dos métodos que utilizava. Decerto classificava esta atitude da mesma maneira que alguém se dedica à leitura de livros policiais, hábito que enraizara com especial dedicação para não se sentir um ponteiro inutilizado no tempo. Mas agora que pensava no carteiro num entendimento algo misterioso com a senhora Ofélia, Alberto Reis sentia-se esbofeteado pelo desconforto do desconhecido. Não se podia enganar. Se existia inquietação no seu espírito, é porque havia algo de suspeito na matéria de facto. A dúvida era agora muito ténue. Ele próprio sabia que qualquer passo que desse no sentido de interferir com o imaginário alheio a sua visão dos acontecimentos informá-lo-ia sobre todas as causas, ainda que determinadas situações revelassem consequências estranhas e manifestassem distúrbios e efeitos obscuros que contribuíam para adensar o mistério. Das duas cartas que Fernando Pessoa recebeu, uma delas era aguardada com alguma ansiedade. Não se tratando de uma carta de amor, assunto íntimo e fecundo em perturbações e subtilezas da alma, a mensagem não andava muito longe da natureza das paixões, sendo que o conteúdo da missiva abordava questões de interesses culturais e missões de privacidade e absoluto sigilo. Por isso, o nome do remetente fê-lo adiar o passeio matinal pelo Chiado, com paragem na Brasileira do Rossio para o habitual contacto com alguns amigos com quem bebia, gloriosamente, uma aguardente Águia-Real; uma de1ícia estimulante que, em apenas alguns minutos de interioridade e admirável reflexão, lhe permitia lançar-se pelos trilhos do universo sob o efeito duma profunda filosofia. Assim, contentou-se com uma chávena de café feito em casa e uns vapores etílicos que tinha reservado para certas ocasiões, quando a inspiração perdia o fôlego necessário para as grandes criações e as sensações lhe reclamavam ardente desempenho reflexivo.
Fernando Pessoa estava num desses dias em que a escrita não lhe exigia completa ambição no tratamento da palavra e entregar-se de forma branda e anémica aos pensamentos só poderia trazer resultados insignificantes e de expressão deplorável. Neste momento, segurando a carta do seu amigo Francisco Fernandes Lopes, o mais importante era sentir por entre linhas as palavras do seu correspondente. Se o nosso pensamento tem as suas próprias exigências e reclama de nós implícita vontade de expressão, não é menos verdade que o pensamento dos outros, escrito que seja, se disponha a revelar semelhante objectivo na prodigiosa capacidade de nos entendermos. E, embora este amigo respeitado, médico e sábio, não se cruzasse frequentemente com ele, de facto, Francisco Fernandes Lopes apenas permaneceu na capital quando era estudante na Faculdade de Medicina de Lisboa, onde se licenciou em 1911, a carência de proximidade física nunca fora impeditiva de uma relação leal, convicta e de comum admiração criadora. De tal modo que a cumplicidade dos dois homens se consolidou no cumprimento de interesses intelectuais, a que não eram alheias as confidências políticas e a missão crítica para alcançar novos conhecimentos. No entanto, a correspondência entre os dois amigos cumpria os seus objectivos e fazia movimentar a roda do tempo. Normalmente a solidão está associada ao tempo que um homem permanece só. Na realidade, um homem solitário nem a si mesmo se entende como pessoa. O tempo nunca servirá para medir uma inquietação emocional, ou, melhor ainda, nunca nos dará a percepção exacta da solidão e suas intensidades. E solitário aquele que não se movimenta dentro de si próprio.
Transformar a pessoa que se é no sentido de acrescentar mais alguém à parte que lhe faz falta não é assim tão invulgar que o tempo não consinta. Por íntima necessidade pessoal o tempo cede à sua imaterialidade e, para humanizar a questão, a solidão cessa as suas funções demoníacas. Tudo isto é um combate implacável com o qual o poeta já estava familiarizado. Foi então que, sentado à secretária, Fernando Pessoa abriu a carta». In Fernando Esteves Pinto, O Carteiro de Fernando Pessoa, Baía dasPalavras, Edições Parsifal, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-98521-0-5.

Cortesia de Parsifal/JDACT

sábado, 9 de janeiro de 2016

O Hipopótamo de Deus. José Tolentino Mendonça. «Na história dramática de Caim e Abel é-nos dito que o projecto ético, o projecto fraterno, não é uma imposição do sangue, pois o próprio sangue se pode voltar contra o seu sangue»

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«Quando as perguntas que trazemos valem mais do que as respostas provisórias que encontramos»
  
A Leste do Paraíso
«(…) Em relação à história de Abel e Caim, o primeiro fratricídio, convém verificar a origem etimológica dos nomes dos personagens. Abel provém do hebraico hebel, que significa sopro ou vapor; Caim deriva de qenar, que quer dizer comprar. Abel é o nómada, o transumante, o pastor; Caim é o sedentário, o agricultor, o que compra e vende, o dono da terra. Nesta história, com uma evidente configuração etiológica, temos a memória de uma transição violenta entre as sociedades transumantes e as sociedades de tipo agrário. E temos, sobretudo, a narrativa da fraternidade descrita como um imperativo ético (mesmo que violável), e não simplesmente como um dado da natureza. Na história dramática de Caim e Abel é-nos dito que o projecto ético, o projecto fraterno, não é uma imposição do sangue, pois o próprio sangue se pode voltar contra o seu sangue. Os irmãos podem até matar-se. Mas a fraternidade é uma decisão e um projecto ao alcance do Homem. É curioso o diálogo que Deus tem com Caim, no capítulo 4 do Livro do Génesis: … ao fim de algum tempo, Caim apresentou ao Senhor uma oferta dos frutos da terra; por seu lado, Abel ofereceu primogénitos do seu rebanho e as suas gorduras; o Senhor olhou com agrado para Abel e para a sua oferta, mas não olhou com agrado para Caim nem para a sua oferta; Caim ficou muito irritado e o rosto transtornou-se. O Senhor disse a Caim: … porque estás zangado e de rosto abatido? Se procederes bem, certamente voltarás a erguer o rosto; se procederes mal, o pecado deitar-se-á à tua porta e andará a espreitar-te; cuidado, pois ele tem muita inclinação para ti, mas tu deves / podes (timshel) dominá-lo.
O belíssimo romance de John Steinbeck, A Leste do Paraíso, pega nesta palavra que l)eus dirige a Caim: … timshel, tu deves / podes. O final da primeira parte do romance desenvolve uma pesquisa talmúdica sobre o sentido desta expressão. O verbo hebraico timshel é traduzido, nas Bíblias mais correntes, por tu deves, mas John Steinbeck, partindo da argumentação rabínica, propõe que se leia tu podes. E desenvolve esta ideia em algumas páginas extraordinárias. Ao Homem em confronto com o Mal, transtornado a ponto de eliminar o seu próprio irmão, Deus não diz: vou retirar-te a liberdade, vou condicionar-te para que isso não mais aconteça. Antes afirma: tu podes vencer o Mal. O Mal aparece como um desafio e, quando se leem estes textos bíblicos, nomeadamente os das origens, percebemos que há complexidade. Não somos colocados perante uma moral codificada, mas no interior dinâmico de uma moral narrativa. O Bem e o Mal não são uma inevitabilidade, mas constituem decisões éticas. E perguntamo-nos: como pode o desgostado Caim não matar Abel, se lhe dedica uma inveja mortífera, se sente o despeito, se todos os seus direitos de filho mais velho acabam por ser relativizados por uma preferência aparentemente caprichosa de Deus? Tudo lhe dá razão, é verdade, mas a razão de Caim não constitui um direito de eliminar o irmão, porque Deus lhe diz uma palavra inesperada: tu podes (timshel) dominar o mal». In José Tolentino Mendonça, O Hipopótamo de Deus, Paulinas Editora, Prior O Hipopótamo de Deus. José Tolentino Mendonça. Prior Velho, 2013, ISBN 978-989-673-325-4.

Cortesia PEditoras/JDACT