Mostrar mensagens com a etiqueta Júlio Dinis. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Júlio Dinis. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Júlio Dinis. Poesias. Júlio Dinis (Joaquim Guilherme Gomes Coelho). «E tu, o mundo, o vês quase indiferente! Curva a cabeça ante essa campa aberta, ajoelha-te, e a fronte descoberta…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A meu irmão
[…]
«Mas não; os homens vêem pasmar o féretro,
Vêem do sepulcro alevantar-se a lousa,
E, olhando a nobre fronte que repousa,
Quem é?, perguntam com cruel frieza.
É um poeta, lhes respondem poucos.
Um poeta!, palavra incompreensível!
Por ele a multidão passa insensível,
E a campa desampara com presteza.

E um poeta morreu!, listas palavras
Nada vos dizem, povos, que as ouvistes?
Não as há mais solenes nem mais tristes.
Oh!, nelas reflecti um só momento!
Não sabeis o que diz a morte do homem
Que se encaminha à campa que lhe ergueram
Seguido apenas dos que ainda veneram
O culto da poesia e pensamento?

Não ouvis esse dobre, que o lamenta?
É como a voz do século, que brada:
Chorai, ó multidões, que na cruzada
Da civilização vos alistastes,
Chorai, um dos soldados que há caído,
Deus lhe dera a bandeira que vos guia,
O estandarte da ideia, a poesia;
Mas vós na heróica empresa o abandonastes!

Lamenta, ó liberdade, o teu apóstolo!
Amor, o coração que te entendia!
Tu, Pátria, o filho que melhor podia
Entre as nações da terra engrandecer-te!
Religião, ai!, chora o sacerdote,
Que, entoando no templo os sacros hinos,
Chamara os povos aos altares divinos
E cultos sem iguais pudera erguer-te!

E tu, o mundo, o vês quase indiferente!
Curva a cabeça ante essa campa aberta,
Ajoelha-te, e a fronte descoberta,
Venera as cinzas que deixou na Terra;
Os restos são da mais violenta chama,
Que o fogo do Céu no mundo ateia;
A chama ardente de inspirada ideia,
Fogo que a mente do poeta encerra!
[…]
In Júlio Dinis (Joaquim Guilherme Gomes Coelho), Poesias, 1859, Publicações Europa-América, 2010, ISBN 978-972-104-585-9.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

domingo, 14 de julho de 2019

Júlio Dinis. Poesias. Júlio Dinis (Joaquim Guilherme Gomes Coelho). «O poeta morreu! E o Sol e os astros que ele cantou, e a abóbada celeste de lutuosas trevas se não veste…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A meu irmão
[…]
«E então, ó Senhor, com a fé mais pura
Eu ansiarei pelo supremo instante
Em que, livre da humana desventura,
Demandar tua estância radiante.

Deixa que o amigo ao amigo só revele
Os segredos que a morte lhe confia,
Esta incerteza..., em vão a fé repele,
A dúvida cruel continuo a cria.

Porque negas, Senhor, ao peregrino
Que vai cumprindo só esta romagem,
Um raio ao menos do saber divino,
Que lhe brade na dúvida: Coragem!?

Porque não há de a lousa funerária
Erguer-se à voz saudosa da amizade,
Para falar à alma solitária
Que anela por saber toda a verdade?

Porquê?...Mas, Deus, perdoa!, eu creio!, eu creio!
No seu leito de morte o conheci:
Sim, nesse instante de tormentos cheio,
No peito a voz da crença bem ouvi!

E por isso prostrei-me de joelhos,
E os lábios murmuravam a oração,
E cri então no Deus dos Evangelhos,
E a dúvida deixou-me o coração.

Repousa, irmão, à sombra do cipreste;
Não repousar na terra é desventura.
Dorme no mundo e acorda à luz celeste,
Cruzando o limiar da sepultura».

A morte do poeta
«Calou-se a lira! E a criação nos coros
De menos uma voz aos céus revoa!
Na imensa harpa, em que o universo entoa
Seus cânticos, de menos uma corda!
Que foi?, que nota falta às harmonias?
Que foi?, que mão deixou quebrar a lira?
O poeta morreu, o canto expira,
Cessam seus hinos do sepulcro à borda!

Morreu o teu cantor, ó Armamento!
Teu sacerdote ardente, ó poesia!
Ó Deus, ó Pátria, a última agonia
Gelou a voz que hosanas vos sagrara!
Crente inspirado, os brados do entusiasmo
Não lhe esfriou dos homens a indiferença,
E a venenosa taça da descrença
Dos generosos lábios arrojara!

O poeta morreu! E o Sol e os astros
Que ele cantou, e a abóbada celeste
De lutuosas trevas se não veste;
E tu, ó Pátria, que ele amava tanto,
Tu dormes inda esse gelado sono?!
Não te acorda o seu último gemido?
Sente-lhe a morte, se não hás sentido
De animação e glória o eterno canto».
[…]
In Júlio Dinis (Joaquim Guilherme Gomes Coelho), Poesias, 1859, Publicações Europa-América, 2010, ISBN 978-972-104-585-9.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Júlio Dinis. Poesias. Júlio Dinis (Joaquim Guilherme Gomes Coelho). «Aprendemos da mãe é verdadeira; há outra vida, há uma outra estância, tão feliz, quanto esta é passageira»

Cortesia de wikipedia e jdact

A meu irmão
[…]
«Em ambiente de amor desabrocharam
Na infância as flores da existência minha.
Amor de pai, de mãe, de irmãos, douraram
A amena senda, que ante mim eu tinha.

E depois...ai, irmão!Que acerbas dores
Juntos sofremos! Murchas, ressequidas,
Desfolharam-se as mais viçosas flores,
Ceifou a dura morte aquelas vidas.

O belo céu, que nos sorriu na infância,
Em breve se mostrou turbado e triste;
A terna mãe pedira a outra estância
A paz, que neste mundo não existe.

E ai daquele, que no alvor da vida
Perdeu p’ra sempre maternais afagos,
Ai, que bem cedo a vê ser consumida
Por mil anelos, mil desejos vagos.

Ai, bem cedo o sentimos! Separados
Do sol que a infância em luz nos envolvia,
Quais estioladas plantas, assombrados,
A fronte inda infantil, já nos pendia.

E assim viveste! E quando a idade ardente
De mil aspirações te enchia o peito,
Olhaste, e vendo a isolação somente,
Cansado, te deitaste em frio leito.

E eu, em vão no ataúde me curvava,
Em vão hei procurado a tua campa;
A morte de mistérios te falava,
Mas nos lábios do morto o dedo estampa.

Em vão te perguntei: nessa morada
Outros fúlgidos sonhos imaginas?
Ao sair da vida deparaste o nada?
Ou acordaste em regiões divinas?

Mudo ficaste. Os ventos perpassaram,
Soltando queixas no volver das folhas,
E teus lábios imóveis não falaram,
Nem sequer o irmão saudoso olhas.

Meu Deus! Permite que através da lousa
Possa ele ouvir a minha voz ainda,
E desse leito, onde afinal repousa,
Me diga: a vida neste pó não finda;

Me diga: A crença que na leda infância
Aprendemos da mãe é verdadeira;
Há outra vida, há uma outra estância,
Tão feliz, quanto esta é passageira;

Que se encontram os entes mais queridos,
E em eterno amplexo a Deus se humilham;
Que os prazeres em sonhos concebidos
Só há no espaço onde as estrelas brilham».
[…]
In Júlio Dinis (Joaquim Guilherme Gomes Coelho), Poesias, 1859, Publicações Europa-América, 2010, ISBN 978-972-104-585-9.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Júlio Dinis. Poesias. Júlio Dinis (Joaquim Guilherme Gomes Coelho). «Tudo isso era ilusão, simples quimera, que aos vinte anos sonhamos acordados; curta página a sorte te escrevera…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A meu irmão
«Também tu, meu irmão, inda aos vinte anos,
Dizes ao mundo teu extremo adeus!
Deixas-me só e partes!, os arcanos
Vais da vida sondar aos pés de Deus?
Inda há bem pouco aspirações ridentes,
Despertadas ao sol da juventude,
Te apontavam futuros resplendentes
De mil glórias, de amor e de virtude.
Há pouco em devaneios tão risonhos,
Cantavas em sentida poesia
As meigas ilusões, dourados sonhos
Que te adejavam sempre à fantasia.
Há pouco tu julgavas do horizonte
Ver dum belo porvir sorrir-te a aurora,
Bem como a áurea luz c’roando o monte,
Do Sol precede a chama animadora.

Tudo isso era ilusão, simples quimera,
Que aos vinte anos sonhamos acordados;
Curta página a sorte te escrevera
No grande livro incógnito dos fados
E enquanto descuidado te entregavas
Aos sonhos da exaltada fantasia,
Sob a flores vereda que trilhavas
A morte, a fria morte, se escondia!
Tu viste uma por uma emurchecerem
As mais viçosas flores da tua vida;
E as esperanças seu verdor perderem
Com a aridez da existência desflorida.
E a vida te pareceu áspero deserto,
Assim desguarnecida de ilusões,
De laços materiais cedo liberto
Remontaste às celestes regiões.

Não te lamento, irmão; a tua sorte,
Ao que padece, inveja só produz;
Porque às trevas finais da hora da morte
Seguem-se anos sem fim de imensa luz.
Eras justo, no Céu gozas a palma,
Que ao mundo, aqui debalde pedirias,
E os anjos acolheram a tua alma
Num coro de suaves harmonias.
Mas eu, que te amei, p’ra quem tu eras
Mais que irmão, mais que pai, mais que amigo,
Eu, a quem desde infante ofereceras,
P’ra suprir o de mãe fraterno abrigo.

Mais infeliz fui eu; junto a meu lado
Vago está o lugar que abandonaste.
Vivo só, com as saudades do passado,
Do tempo que de encantos povoaste.
Nesta acerba aridez do meu presente
Recordo-me da vida que passou,
E bem vejo que a sorte fatalmente
Na vida do infortúnio me lançou.
Como a do nauta desditosa sorte,
Que o mar arrosta em tormentosa viagem,
E viu nas ondas que enfurece a morte
Sucumbir todo o resto da equipagem;
Tal o destino meu; entrei no mundo
E saudei-o com hinos de alegria;
Nos êxtases dum júbilo profundo,
O dom da vida a Deus agradecia.
[…]
In Júlio Dinis (Joaquim Guilherme Gomes Coelho), Poesias, 1859, Publicações Europa-América, 2010, ISBN 978-972-104-585-9
.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A Morgadinha dos Canaviais. Júlio Dinis. «Quando se adquire esse hábito, também nos achamos já com a sensibilidade mais embotada para as comoções do belo. Examina-se com mais minuciosidade»  

jdact e wikipedia

«Ao cair de uma tarde de Dezembro, de sincero e genuíno Dezembro, chuvoso, frio, açoitado do sul e sem contrafeitos sorrisos de Primavera, subiam dois viandantes a encosta de um monte por a estreita e sinuosa vereda que pretensiosamente gozava das honras de estrada, à falta de competidora, em que melhor coubessem. Era nos extremos do Minho e onde esta risonha e feracíssima província começa já a ressentir-se, se não ainda nos vales e planuras, nos visos dos outeiros pelo menos, da vizinhança da sua irmã, a alpestre e severa Trás-os-Montes. O sítio, naquele ponto, tinha o aspecto solitário, melancólico e, nessa tarde, quase sinistro. Dali a qualquer povoação importante, e com nome em carta corográfica, estendiam-se milhas de pouco transitáveis caminhos. Vestígios de existência humana, raro se encontravam. Só de longe em longe, a choça do pegureiro ou a cabana do rachador, mas estas tão ermas e desamparadas, que mais entristeciam do que a absoluta solidão. Não se moviam em perfeita igualdade de condições os dois viandantes, que dissemos. Um, o mais novo e pela aparência o de mais grada posição social, era transportado num pouco escultural, mas possante muar, de inquietas orelhas, músculos de mármore e articulações fiéis; o outro seguia a pé, ao lado dele, competindo, nas grandes passadas que devoravam o caminho, com a quadrupedante alimária, cujos brios, além disso, excitava por estímulos menos brandos do que os da simples e nobre emulação. Contra o que seria plausível esperar deste desigual processo de transporte, dos dois o menos extenuado e impaciente com as lonjuras e fadigas da jornada não se pode dizer que fosse o cavaleiro. A postura de abatimento que lhe tomara o corpo, o olhar melancólico, fito nas orelhas do macho, a indiferença, a taciturnidade ou o manifesto mau humor, que nem as belezas e acidentes da paisagem natural conseguiam já desvanecer, o obstinado silêncio que apenas de vez em quando interrompia com uma frase curta mas enérgica, com uma pergunta impaciente sobre o termo da jornada, contrastavam com a viveza de gestos e desempenado jogo de membros do pedestre, com a sua torrencial verbosidade, a que não opunha diques, e com as joviais cantigas e minuciosas informações a respeito de tudo, por meio das quais se encarregava de entreter e, ao mesmo tempo, instruir o seu sorumbático companheiro.
Explica-se bem esta diferença, dizendo que o cavaleiro era um elegante rapaz de Lisboa, que fazia então a sua primeira jornada, e o outro um almocreve de profissão.
O leitor provavelmente há de ter viajado alguma vez; sabe, portanto, que o grato e quase voluptuoso alvoroço, com que se concebe e planeia qualquer projecto de viagem, assim como a suave recordação que dela guardamos depois, são coisas de incomparavelmente muito maiores delícias do que as impressões experimentadas no próprio momento de nos vermos errantes em plena estrada ou pernoitando nas estalagens, e mormente nas clássicas estalagens das nossas províncias. As pequenas impertinências, em que se não pensa antes, que se esquecem depois, ou que a saudade consegue até dourar e poetizar ao seu modo; esses microscópicos martírios, que de longe não avultam, actuam-nos, na ocasião, a ponto de nos inabilitar para o gozo do que é realmente belo. A dureza do colchão em que se dorme, do albardão ou selim sobre que se monta, o tempero ou destempero do heteróclito cozinhado com que se enche o estômago, a lama que nos encrusta até os cabelos, o pó que se nos insinua até os pulmões, o frio que nos inteiriça os membros, o sol que nos congestiona o cérebro, tudo então nos desafina o espírito, que trazíamos na tensão necessária para vibrar perante as maravilhas da natureza ou da arte. Só pelo preço de muitas jornadas se compra o hábito de ficar impassível no meio dos episódios destas pequenas odisseias, que atormentam e exaurem o ânimo dos Ulisses novatos; mas ai! Quando se adquire esse hábito, também nos achamos já com a sensibilidade mais embotada para as comoções do belo. Examina-se com mais minuciosidade, mas com menos entusiasmo; analisa-se mais e melhor; porém a própria análise é a prova de que se sente menos. Onde domina o sentimento e a imaginação, mal têm cabida a paciência e fleuma, necessárias aos processos analíticos. O homem positivo e frio recolhe de qualquer excursão à pátria com a carteira cheia de apontamentos; o entusiasta e poeta nem uma data regista. Viu menos, sentiu mais. Mas Henrique de Souselas, que era este o nome do cavaleiro, fora educado e passado da infância à plena juventude, em Lisboa, levantando-se por avançada manhã, frequentando o teatro, o Grémio, as Câmaras, parolando no Chiado ou no Rossio, e indo alguns dias do ano a Sintra, ou a qualquer praia de banhos, desenfadar-se da monotonia da capital. Desde que fazia perfeito e consciente uso da razão, fora esta jornada, em que o encontramos, a primeira levada a efeito, e logo sob tão maus auspícios, que era para sufocar-lhe à nascença os instintos de turista, se porventura quisessem despertar nele. Há dois dias que cavalgava aquele rocinante, único veículo acomodado aos caminhos porque passara. E então que dois dias! Daqueles, durante os quais o céu, uniformemente pálido, parece desfazer-se em água, e a chuva cai sem interrupção e com uma teimosia e constância impacientadoras; daqueles em que a terra saciada rejeita já a água que recebe, a qual escorre nos declives, transborda dos algares, e encharca-se nos terrenos baixos, transformando em brejos as lezírias; em que as lufadas do sul vergam e torcem os ramos melancolicamente despidos, dos álamos e sobreiros, e emprestam aos pinheirais a voz dos mares; em que os campos se mostram desertos, a noite se antecipa, e tão densas nuvens cobrem o firmamento, que parece tomar-nos a persuasão de que nunca mais o veremos com as suas formosas vestes de azul». In Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais, 1868, Moderna Editorial Lavores, 2009, ISBN 978-989-635-061-1.

Cortesia de MELavores/JDACT

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A Crítica Inintencional em Júlio Dinis. Palestra. Cifras do Tempo. Óscar Lopes. «… qualquer ideia, qualquer desejo, qualquer memória, qualquer história ou mito, e qualquer crítica também, visam sempre um objecto intencional que se constitui a partir de outros objectos previamente aceites ou concebidos»

jdact e wikipedia

«O título desta palestra A Crítica Inintencional em Júlio Dinis é um chamariz que se destina a provocar a atenção para uma dada ordem de problemas, mas que não deve ser tomado demasiadamente à letra. E isto por duas razões importantes: uma razão genérica respeitante a assuntos de psicologia da expressão, nomeadamente de expressão literária, e uma razão específica que diz respeito a um dos traços mais inovadores de Júlio Dinis como romancista. A razão genérica para encarar com reserva esta designação de crítica inintencional prende-se com o facto de que toda a vida psíquica, social e literária se tece de intenções que se cruzam, chocam ou conexionam entre si e que, dinamicamente, se hierarquizam em cada momento, numa ou em várias gamas de intenções mais ou menos principais ou secundárias, e mais ou menos manifestas ou inaparentes. Como evidenciou a filosofia fenomenologista, com precursores escolásticos medievais, mas retomada e desenvolvida por Franz Brentano, Edmundo Husserl e inspiradora de aspectos do existencialismo e da corrente hermenêutica de Gadamer, qualquer ideia, qualquer desejo, qualquer memória, qualquer história ou mito, e qualquer crítica também, visam sempre um objecto intencional que se constitui a partir de outros objectos previamente aceites ou concebidos. Uma crítica pretende proceder à revisão de qualquer coisa, obedece a uma intenção que se apoia em dado grau e forma de consciência, tem um objectivo que, mesmo visto de fora desse grau e forma de consciência, se patenteia por uma certa regularidade de comportamento prático ou verbal. Portanto, rigorosamente, esta palestra não se destina a desvendar quaisquer intenções absolutamente inconscientes na ficção de Júlio Dinis. Uma obra de literatura, de arte, e mesmo qualquer obra humana em geral, resulta da síntese possível de muitos dados e de muitas intenções que brigaram entre si até atingirem um certo equilíbrio dinâmico e complexo, e a briga de intenções prossegue a cada leitura ou uso que se faz dessa obra, e em cada obra que é por ela influída. Cada leitor é responsável pelas sínteses que faz a propósito de um romance de Júlio Dinis, sínteses sempre várias e desgarradas, se não coludentes entre si, e que, dentro de outros pontos de vista, continuam aquele esforço que o autor fez por chegar à sua síntese, que nunca nos é de todo transparente, porque ninguém, nem mesmo o próprio autor ao acabar de escrever esse romance, poderia reconstituir todo o complicado e cambiante processo dessa escrita.
Mas, e é esta a razão específica para aqui encarar com reservas a noção de crítica inintencional, acontece que estas mesmas reflexões que acabamos de exprimir (ou outras análogas) estão bem implícitas a vários textos do próprio Júlio Dinis, nomeadamente no romance Uma Família Inglesa, onde o ficcionista insiste nos diversos graus e formas de subconsciência contraditória do comportamento mais aparentemente consciente dos seus heróis, a tal ponto que o Nobel Egas Moniz apresenta Júlio Dinis como um precursor das teorias da dinâmica do consciente/inconsciente da psicanálise. E provável que todos os leitores atentos de Uma Família Inglesa se lembrem da célebre cena em que Carlos Whitestone desenha distraidamente, num papel, um lampião da rua e uma máscara que, de modo despercebido, presenciara no momento da despedida de Cecília à saída do teatro, entre outros esboços de desenhos ou de pensamentos subconscientemente verbalizados, como as designações de Papa e de Calvino, a assinalar a preocupação com a diferença religiosa que o separa da amada. Noutra passagem, o romancista explica certas distracções pelo facto de que, conforme diz, no homem mais grave e sisudo, há sempre escondida a criança de outros tempos, e acrescenta: Os jogos foram também inventados por este motivo. Fingiu-se acreditar que era uma coisa grave o whist, o voltarete, o boston, etc., etc., para qualquer pessoa poder, em público, entregar-se a eles, sem ofensa da sisudez convencional: porque, se se não fizessem estas concessões à criança humana que às vezes tem impertinências, corria-se o risco de mais escandalosas rebeliões por parte dela.
Esta passagem é importante porque lembra que em actividades tão aparentemente gratuitas como as actividades lúdicas existe um certo grau de intencionalidade. Mas, evidentemente, não podemos supor que Júlio Dinis elaborasse um conceito tecnicamente psicanalítico de inconsciente, como o de Freud ou o de Jung. Assim, os diversos sonhos a que nos faz assistir reportam-se sempre a acontecimentos ou objectos relativamente próximos das preocupações correntes das personagens. A psicologia júlio-dionisíaca não concebe que nos comportamentos e nas representações de uma pessoa exista um salto fundo, e só muito genericamente concebível, entre o grau de consciência quotidiana, ou racional, e umas forças estruturantes inapreensíveis e de todo inconscientes». In Óscar Lopes, A Crítica Inintencional em Júlio Dinis, Cifras do Tempo, Palestra realizada em Novembro de 1989, Editorial Caminho, Lisboa, 1990, ISBN 972-21-0535-3.

Cortesia Caminho/JDACT

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Júlio Dinis: Um romancista de afectos puros, de paixões simples. Uma prosa limpa

(1839-1871)
Cortesia de temposantigos
Joaquim Guilherme Gomes Coelho foi um médico e escritor português, tendo ficado conhecido na História de Portugal e no meio literário com o pseudónimo de Júlio Dinis. 
Júlio Dinis nasceu na cidade do Porto, a Invicta e encontra-se sepultado no cemitério da Ordem Terceira de S. Francisco, em Agramonte.

Júlio Dinis foi um dos mais «suaves e ternos romancistas portugueses», cronista de afectos puros, paixões simples, prosa limpa.
O romance «As Pupilas do Senhor Reitor» (1869), foi uma obra representada em teatro e foi produzido um filme com o mesmo nome. Um ano antes, veio a público «Uma Família Inglesa» e «Serões da Província» (1870).
Homenagem da cidade do Porto
No ano do seu falecimento, 1871, publicou o romance «Os Fidalgos da Casa Mourisca». Só depois da sua morte se publicaram «Inéditos» e «Esparsos», em dois volumes, assim como as suas «Poesias», (1873 e 1874).

Júlio Dinis foi o criador do romance campesino e as suas personagens são pessoas com quem conviveu ou contactou na vida real. São personagens que estão «possuídas» de naturalidade, que muitas delas nos são familiares ainda nos dias de hoje. Como exemplo, a tia Doroteia de «A Morgadinha dos Canaviais», inspirada por sua tia, em casa de quem viveu, quando se refugiou em Ovar, ou de Jenny, para a qual recebeu inspiração da sua prima e madrinha.

Actual vista da Casa de Júlio Dinis, onde se vê o portão marcado com um X e substitui naquele lugar a janela em crivo, dentro da qual o escritor ouvira a conversa de sua prima com a beata.
Cortesia de prof2000
Júlio Dinis viu sempre o mundo pelo prisma da fraternidade, do optimismo, dos sentimentos sadios do amor e da esperança. Quanto à forma, é considerado um escritor de transição entre o romantismo e o realismo.
Além deste pseudónimo, Júlio Dinis usou também o de Diana de Aveleda, com que assinou pequenas narrativas ingénuas como «Os Novelos da Tia Filomena» e o «Espólio do Senhor Cipriano», publicados em 1862 e 1863, respectivamente.


O busto de Júlio Dinis, homenagem da CM de Ovar
Cortesia de prof2000
Obras de Júlio Dinis:
  • As Pupilas do Senhor Reitor (1867);
  • A Morgadinha dos Canaviais (1868);
  • Uma Família Inglesa (1868);
  • Serões da Província (1870);
  • Os Fidalgos da Casa Mourisca (1871);
  • Poesias (1873);
  • Inéditos e Dispersos (1910);
  • Teatro Inédito (1946-1947)
 Morre com 31 anos de idade. A doença já tinha vitimado a mãe e foi a causa da morte de todos os seus oito irmãos.


História de Portugal/wikipédia/JDACT