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domingo, 6 de maio de 2018

A Sagrada Família. Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895). «Na realidade há, nas fábricas inglesas, todas as gradações de salário, de um e meio xelim a 40 xelins e inclusive mais; na Crítica paga-se apenas um salário»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Crítica crítica sob a feição do mestre encadernador ou a Crítica crítica conforme o senhor Reichardt. Friedrich Engels
«(…) E a intrepidez estilística do senhor Reichardt anda lado a lado com a intrepidez do raciocínio em si. Ele é capaz de entabular transições como as que seguem: o senhor Brüggemann..., ano de 1843..., teoria do Estado..., todo o probo..., a grande modéstia de nossos socialistas..., milagres naturais..., exigências a serem expostas à Alemanha..., milagres sobrenaturais..., Abraão..., Filadélfia..., maná..., mestre-padeiro..., mas porque nós estamos a falar de milagres, Napoleão logrou etc.
Depois dessas amostras, não é de estranhar, nem um pouco, aliás, que a Crítica crítica sempre ofereça uma explicação à frase que ela mesma considera um modo popular de se exprimir. Pois ela apetrecha os seus olhos com a força orgânica de penetrar o caos. E, sendo assim, resta dizer que nem mesmo o modo popular de se exprimir da Crítica crítica pode restar incompreensível no final. Ela se dá conta de que o caminho dos literatos permanece torto, caso o sujeito que o percorrer não se mostrar forte o suficiente a ponto de conseguir endireitá-lo e, por isso, atribui com naturalidade operações matemáticas ao escritor. Per si se compreende, e a história, que prova tudo o que per si se compreende, prova também isso: que a Crítica não se torna massa a fim de permanecer massa, mas para libertar a massa de sua massificação massiva, ou seja, para elevar o modo popular de se exprimir na linguagem crítica da Crítica crítica. Este é o estágio mais estagiário da humilhação, quando a Crítica aprende a linguagem popular das massas e transcende esse jargão tosco para o cálculo superabundante da dialéctica criticamente crítica.

 A Crítica crítica na condição de moinhotenente. Friedrich Engels
Depois de a Crítica se ter rebaixado até ao absurdo em línguas estrangeiras, de ter prestado à autoconsciência os serviços mais essenciais, e ao mesmo tempo ter libertado o mundo do pauperismo através disso, ela se rebaixa também ao absurdo na práxis e na história. Ela se apossa das questões inglesas do dia e nos oferece um esboço da história da indústria inglesa, que é genuinamente crítico. A Crítica, que se basta a si mesma, que se completa e encerra em si mesma, naturalmente não pode reconhecer a história tal como ela de facto aconteceu, pois isso significaria reconhecer a massa ruim em toda a sua massificação massiva, quando se trata justamente de libertar a massa da massificação. Com isso, a história é libertada de sua massificação, e a Crítica, que adopta uma atitude livre em relação ao seu objecto, grita para a história: tu deves ter ocorrido de tal ou qual modo! As leis da Crítica têm, todas elas, efeito retroactivo; antes dos seus decretos, a história ocorria de modo bem diferente do que passou a ocorrer depois deles. Eis aqui por que a história massiva, a chamada história real, desvia-se da maneira significativa da crítica, que passa a acontecer a partir da página 4 do Caderno VI do Jornal Literário Geral.
Na história massiva não houve nenhuma cidade fabril antes de haver fábricas; mas na história crítica, na qual o filho gera o próprio pai, coisa que já acontecia em Hegel, aliás, Manchester, Bolton e Preston são florescentes cidades fabris, antes mesmo de se ter pensado em fábricas. Na história real, a indústria de algodão foi criada sobretudo graças à Jenny de Hargreaves e à throstle (máquina hidráulica de fiar) de Arkwright, ao passo que a mule de Crompton não foi mais que um aperfeiçoamento da Jenny através do princípio descoberto por Arkwright; mas a história crítica sabe distinguir, despreza a unilateralidade da Jenny e da throstle e dá a coroa à mule, fazendo dela a identidade especulativa do extremo. Na realidade, a invenção da throstle e da mule trouxe consigo de imediato a utilização da força hidráulica para esse tipo de máquinas, mas a Crítica crítica diferencia os princípios amontoados e confusos da história bruta e faz com que a utilização apareça apenas bem mais tarde, como se fosse algo bastante particular. Na realidade a descoberta da máquina a vapor precedeu todas as descobertas acima citadas, mas na Crítica vemos que ela ocorre no final, na condição de coroa para o todo.
Na realidade, a aliança de negócios entre Liverpool e Manchester foi, no seu significado actual, a consequência da exportação de mercadorias inglesas; na Crítica essa aliança de negócios é a causa desse fenómeno e ambas, aliança e exportação, a consequência do facto de aquelas duas cidades serem vizinhas. Na realidade, quase todas as mercadorias saem de Manchester, passam por Hull ao continente; na Crítica elas passam por Liverpool. Na realidade há, nas fábricas inglesas, todas as gradações de salário, de um e meio xelim a 40 xelins e inclusive mais; na Crítica paga-se apenas um salário ao trabalhador: 11 xelins. Na realidade a máquina substitui o trabalho manual; na crítica ela substitui o acto de pensar. Na realidade uma união dos trabalhadores com o objectivo de aumentar o salário é permitida na Inglaterra; mas na Crítica ela é proibida, uma vez que a massa tem, ela mesma, de perguntar à Crítica, se quiser se permitir tomar uma atitude. Na realidade o trabalho na fábrica fatiga de maneira significativa o trabalhador e origina enfermidades típicas, há, inclusive, várias obras medicinais que tratam exclusivamente dessas enfermidades; na crítica o esforço excessivo não impede nem estorva o trabalho, pois a força é empreendida toda ela pela máquina. Na realidade a máquina é uma máquina; na Crítica ela é dotada de vontade, pois, uma vez que ela não descansa, o trabalhador também não pode descansar e torna-se súdito de uma vontade estranha». In Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), A Sagrada Família, A crítica da Crítica crítica contra Bruno Bauer e consortes, 1844, 1965, Boitempo Editorial, 2003, ISBN 978-857-559-032-4.

Cortesia de BoitempoEditorial/JDACT

A Sagrada Família. Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895). «A natureza de nosso objecto justifica, portanto, o facto de aqui não avaliarmos esse mesmo desenvolvimento»

Cortesia de wikipedia e jdact

A crítica da Crítica crítica contra Bruno Bauer e consortes
«O humanismo real não tem, na Alemanha, inimigo mais perigoso do que o espiritualismo, ou idealismo especulativo, que, no lugar do ser humano individual e verdadeiro, coloca a autoconsciência ou o espírito e ensina, conforme o evangelista: o espírito é quem vivifica, a carne não presta. Resta dizer que esse espírito desencarnado só tem espírito em sua própria imaginação. O que nós combatemos na Crítica baueriana é justamente a especulação que se reproduz à maneira de caricatura. Ela representa, para nós, a expressão mais acabada do princípio cristão-germânico, que faz sua derradeira tentativa ao transformar a crítica em si numa força transcendental. Nossa exposição se atém principalmente ao Jornal Literário Geral de Bruno Bauer, e seus oito primeiros cadernos estavam a nosso dispor, porque é ali que a Crítica baueriana, e com ela o despropósito da especulação alemã como um todo, alcançam o ápice. A Crítica crítica (ou seja, a crítica do Jornal Literário) torna-se tanto mais instrutiva quanto mais converte a inversão da realidade, empreendida através da filosofia, na mais plástica das comédias. Veja-se, por exemplo, Faucher e Szeliga. O Jornal Literário oferece um material à luz do qual também o grande público poderá ser informado a respeito das ilusões da filosofia especulativa. E é essa a finalidade de nosso trabalho. A nossa exposição naturalmente é condicionada por seu objecto. Em regra, a Crítica crítica se encontra abaixo das alturas alcançadas pelo desenvolvimento teórico alemão. A natureza de nosso objecto justifica, portanto, o facto de aqui não avaliarmos esse mesmo desenvolvimento. Crítica crítica obriga, muito antes, a mostrar a validade dos resultados já disponíveis como tais, opondo-os aos resultados que ela alcançou. É por isso que antepomos essa polémica aos escritos propriamente ditos, nos quais nós, cada um por si, entenda-se, haveremos de expor nossa visão positiva, e com ela nossa atitude positiva ante as novas doutrinas filosóficas e sociais». In Engels – Marx. Paris, Setembro de 1844.

A Crítica crítica sob a feição do mestre encadernador ou a Crítica crítica conforme o senhor Reichardt. Friedrich Engels
A Crítica crítica, por mais que se considere acima da massa, sente uma compaixão infinita pela mesma massa. Foi tão grande o amor da Crítica pela massa que ela enviou o seu próprio filho unigénito a fim de que todos os que crerem nele se salvem e gozem as venturas da vida crítica. E eis que a Crítica se torna massa e habita entre nós, e nós vemos na sua magnificência a magnificência do filho unigénito do pai. Quer dizer, a Crítica torna-se socialista e fala de escritos sobre o pauperismo. Ela não vê um assalto no facto de querer ser igual a Deus, mas apenas renuncia a si mesma e assume a feição de mestre encadernador, rebaixando-se ao nível mais absurdo, sim, ao absurdo crítico em línguas estrangeiras. Ela, que em sua pureza virginal e celeste, retrocedia assustada diante do contato com a massa pecadora e leprosa, dominou-se a ponto de dar importância a Bodz (pseudónimo que Reichardt inventou para Charles Dickens, Boz, na verdade) e todos os escritores-fonte do pauperismo, marchando há anos passo a passo com o mal de nossa época; ela desdenha escrever aos eruditos especializados e escreve para o grande público, afasta todas as expressões de carácter estranho, todo o cálculo latino, todo o jargão corporativo, tudo isso ela afasta dos escritos de outros, pois seria querer pedir demais desejar que a Crítica se submetesse, ela mesma, a este regulamento da administração. Todavia até mesmo isso ela chega a fazer, em parte, pelo menos, desembaraçando-se com admirável facilidade, se não das palavras em si, pelo menos do seu conteúdo; e quem haverá de acusá-la de fazer uso da grande pilha de palavras estrangeiras ininteligíveis, se ela mesma nos obriga a chegar a essa conclusão através de manifestações sistemáticas que dão conta de que essas palavras permaneceram ininteligíveis também para ela? Algumas provas dessa manifestação sistemática:

Por isso lhes são abomináveis as instituições do pauperismo.
Uma lição de responsabilidade, na qual toda emoção do pensamento humano se converte na imagem da mulher de Ló.
Sobre a pedra que coroa este edifício artístico, de facto rico em convicções.
Este é o conteúdo fundamental do testamento político de Stein, que o grande estadista entregou antes mesmo de se despedir do serviço activo do governo e de todos seus escritos.
Este povo não possuía ainda nenhumas dimensões para uma liberdade tão ampla.
Porquanto ele, no fim de seu escrito publicista, parlamentou com relativa certeza, assegurando que falta apenas confiança.
Ao juízo varonil que levanta o Estado, que sabe elevar-se acima da rotina e do temor pusilânime, que se forjou na história e se nutriu com viva intuição nas instituições públicas estrangeiras.
[…]
Ao povo, ao qual também o senhor Brüggemann distribui a certidão de baptismo da sua emancipação.
Uma contradição bastante vivaz contra as demais determinações, proclamadas na obra com respeito aos dotes vocacionais do povo.
O egoísmo enfadonho dissolve todas as quimeras da vontade nacional com rapidez.
A paixão de adquirir muito etc., esse era o espírito que permeou toda a época da Restauração e que se integrou aos novos tempos com uma quantidade bastante significativa de indiferença (as construções bizarras do senhor Reichardt são um dos pontos criticados com dureza por Engels).
O obscuro conceito de significação política, passível de ser encontrado na nacionalidade prussiana de carácter rural, descansa sobre a lembrança de uma grande história.
[…]
In Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), A Sagrada Família, A crítica da Crítica crítica contra Bruno Bauer e consortes, 1844, 1965, Boitempo Editorial, 2003, ISBN 978-857-559-032-4.

Cortesia de BoitempoEditorial/JDACT

terça-feira, 25 de novembro de 2014

1895. Friedrich Engels. Vladimir Ilitch Lénine. «… igualmente o desenvolvimento da sociedade humana é condicionado pelo desenvolvimento de forças materiais, as forças produtivas. Do desenvolvimento das forças produtivas dependem as relações que se estabelecem entre os homens no processo de produção…»

Cortesia de wikipedia

Que chama do espírito se apagou. Que coração deixou de bater!
«(…) Retomando a ideia hegeliana de um processo perpétuo de desenvolvimento, Marx e Engels rejeitaram a sua preconcebida concepção idealista; analisando a vida real, viam que não é o desenvolvimento do espírito que explica o da natureza, mas que, pelo contrário, é necessário explicar o espírito a partir da natureza, da matéria... Contrariamente a Hegel e outros hegelianos, Marx e Engels eram materialistas. Partindo de uma concepção materialista do mundo e da humanidade, verificaram que, tal como todos os fenómenos da natureza têm causas materiais, igualmente o desenvolvimento da sociedade humana é condicionado pelo desenvolvimento de forças materiais, as forças produtivas. Do desenvolvimento das forças produtivas dependem as relações que se estabelecem entre os homens no processo de produção dos objectos necessários à satisfação das necessidades humanas. E são estas relações que explicam todos os fenómenos da vida social, as aspirações do homem, as suas ideias e as suas leis. O desenvolvimento das forças produtivas cria relações sociais que se baseiam na propriedade privada; mas vemos hoje esse mesmo desenvolvimento das forças produtivas privar a maioria dos homens de toda a propriedade e concentrar esta nas mãos de uma ínfima minoria; ele destrói a propriedade, base da ordem social contemporânea, e tende ele próprio para o objectivo que se fixaram os socialistas. Estes últimos devem apenas compreender qual é a força social que, pela sua situação na sociedade actual, está interessada na realização do socialismo, e incutir nesta força a consciência dos seus interesses e da sua missão histórica.

Nota: Marx e Engels declararam várias vezes que, em grande medida, o seu desenvolvimento intelectual era devido aos grandes filósofos alemães, e designadamente a Hegel. Sem a filosofia alemã, declara Engels, o socialismo científico nem sequer existiria. In Engels, Prefácio de A Guerra Camponesa na Alemanha.

Esta força é o proletariado. Engels conheceu-o na Inglaterra, em Manchester, centro da indústria inglesa, onde se fixou em 1842 como empregado de uma firma comercial de que seu pai era um dos accionistas. Aí Engels não se limitou a permanecer no escritório da fábrica: percorreu os bairros sórdidos em que viviam os operários e viu com os seus próprios olhos a miséria e os males que os afligiam. Não se limitando à sua observação pessoal, Engels leu tudo o que antes dele se tinha escrito sobre a situação da classe operária inglesa e estudou minuciosamente todos os documentos oficiais que pôde consultar. O resultado dos seus  estudos e observações foi um livro que saiu em 1845: A Situação das Classes Trabalhadoras na Inglaterra. Já atrás assinalámos o principal mérito de Engels como autor dessa obra. É certo que antes dele muitos tinham descrito os sofrimentos do proletariado e indicado a necessidade de lhe prestar ajuda. Engels foi o primeiro a declarar que o proletariado não é só uma classe que sofre mas que a miserável situação económica em que se encontra empurra-o irresistivelmente para a frente e obriga-o a lutar pela sua emancipação definitiva. E o proletariado em luta ajudar-se-á a si mesmo. O movimento político da classe operária levará inevitavelmente os operários à consciência de que não há para eles outra saída senão o socialismo. Por seu lado, o socialismo só será uma força quando se tornar o objectivo da luta política da classe operária. Tais são as ideias fundamentais do livro de Engels sobre a situação da classe operária em Inglaterra, ideias hoje aceites por todo o proletariado que pensa e luta, mas que eram então absolutamente novas. Estas ideias foram expostas numa obra escrita num estilo cativante, onde abundam os quadros mais verídicos e impressionantes da miséria do proletariado inglês. Este livro era uma terrível acusação contra o capitalismo e a burguesia. Produziu uma impressão muito grande. Em breve, por toda a parte começaram a referir-se a ele como o quadro mais fiel da situação do proletariado contemporâneo. E, com efeito, nem antes nem depois de 1845 apareceu uma descrição tão brilhante e tão verdadeira dos males sofridos pela classe operária». In Obras Escolhidas de Vladimir Ilitch Lénine, Friedrich Engels, tradução das Obras Completas de V. I. Lénine, 5ª Edição em russo, Edição da Editorial Avante, 1977.

A amizade de Luís Sá e José Casanova

Cortesia de Wikipédia/JDACT

Friedrich Engels. 1895. Vladimir Ilitch Lénine. «Foi desde o liceu que ele ganhou ódio ao absolutismo e à arbitrariedade da burocracia. Os seus estudos de filosofia levaram-no ainda mais longe. Predominava então na filosofia alemã a doutrina de Hegel, e Engels tornou-se seu discípulo»

Cortesia de wikipedia

Que chama do espírito se apagou. Que coração deixou de bater!
«Friedrich Engels faleceu em Londres a 5 de Agosto (24 de Julho?) de 1895. A seguir ao seu amigo Karl Marx (que morreu em 1883), Engels foi o mais notável sábio e mestre do proletariado contemporâneo em todo o mundo civilizado. Desde o dia em que o destino juntou Karl Marx e Friedrich Engels, a obra a que os dois amigos consagraram toda a sua vida converteu-se numa obra comum. Assim, para compreender o que Friedrich Engels fez pelo proletariado, é necessário ter-se uma ideia precisa do papel desempenhado pela doutrina e actividade de Marx no desenvolvimento do movimento operário contemporâneo. Marx e Engels foram os primeiros a demonstrar que a classe operária e as suas reivindicações são um produto necessário do regime económico actual, que, juntamente com a burguesia, cria e organiza inevitavelmente o proletariado; demonstraram que não são as tentativas bem intencionadas dos homens de coração generoso que libertarão a humanidade dos males que hoje a esmagam, mas a luta de classe do proletariado organizado. Marx e Engels foram os primeiros a explicar, nas suas obras científicas, que o socialismo não é uma invenção de sonhadores mas o objectivo final e o resultado necessário do desenvolvimento das forças produtivas da sociedade actual. Toda a história escrita até aos nossos dias é a história da luta de classes, a sucessão no domínio e nas vitórias de umas classes sociais sobre outras. E este estado de coisas continuará enquanto não tiverem desaparecido as bases da luta de classes e do domínio de classe: a propriedade privada e a produção social anárquica. Os interesses do proletariado exigem a destruição destas bases, contra as quais deve, pois, ser orientada a luta de classe consciente dos operários organizados. E toda a luta de classe é uma luta política. Todo o proletariado que luta pela sua emancipação tornou hoje suas estas concepções de Marx e Engels; mas nos anos 40, quando os dois amigos começaram a colaborar em publicações socialistas e a participar nos movimentos sociais da sua época, eram inteiramente novas. Então, eram numerosos os homens de talento e outros sem talento, honestos ou desonestos, que, no ardor da luta pela liberdade política, contra a arbitrariedade dos reis, da polícia e do clero, não viam a oposição dos interesses da burguesia e do proletariado. Não admitiam sequer a ideia de os operários poderem agir como força social independente. Por outro lado, um bom número de sonhadores, algumas vezes geniais, pensava que seria suficiente convencer os governantes e as classes dominantes da iniquidade da ordem social existente para que se tornasse fácil fazer reinar sobre a terra a paz e a prosperidade universais. Sonhavam com um socialismo sem luta. Finalmente, a maior parte dos socialistas de então e, de um modo geral, os amigos da classe operária, não viam no proletariado senão uma chaga a cujo crescimento assistiam com horror à medida que a indústria se desenvolvia. Por isso todos procuravam o modo de parar o desenvolvimento da indústria e do proletariado, parar a roda da história. Contrariamente ao temor geral ante o desenvolvimento do proletariado, Marx e Engels punham todas as suas esperanças no contínuo crescimento numérico deste. Quanto mais proletários houvesse, e maior fosse a sua força como classe revolucionária, mais próximo e possível estaria o socialismo. Podem exprimir-se em poucas palavras os serviços prestados por Marx e Engels à classe operária dizendo que eles a ensinaram a conhecer-se e a tomar consciência de si mesma, e que substituíram os sonhos pela ciência.
É por isso que o nome e a vida de Engels devem ser conhecidos por todos os operários; é por isso que, na nossa compilação, cujo fim, como o de todas as nossas publicações, é acordar a consciência de classe dos operários, devemos dar um apanhado da vida e da actividade de Friedrich Engels, um dos dois grandes mestres do proletariado contemporâneo. Engels nasceu em 1820 em Barmen, na Província renana do reino da Prússia. O pai era um fabricante. Em 1838, Engels teve de abandonar por motivos familiares os estudos no liceu e de entrar como empregado numa casa de comércio de Bremen. Este trabalho no negócio não o impediu de completar a sua instrução científica e política. Foi desde o liceu que ele ganhou ódio ao absolutismo e à arbitrariedade da burocracia. Os seus estudos de filosofia levaram-no ainda mais longe. Predominava então na filosofia alemã a doutrina de Hegel, e Engels tornou-se seu discípulo. Embora Hegel fosse, por seu lado, um admirador do Estado prussiano absolutista, ao serviço do qual se encontrava na qualidade de professor na Universidade de Berlim, a sua doutrina era revolucionária. A fé de Hegel na razão humana e nos seus direitos e o princípio fundamental da filosofia hegeliana, segundo o qual o mundo é teatro de um processo permanente de mudança e desenvolvimento, conduziram os discípulos do filósofo berlinense, que não queriam acomodar-se à realidade, à ideia de que a luta contra a realidade, a luta contra a iniquidade existente e o mal reinante, também procede da lei universal do desenvolvimento perpétuo. Se tudo se desenvolve, se certas instituições são substituídas por outras, por que é que o absolutismo do rei da Prússia ou do tsar da Rússia, o enriquecimento de uma ínfima minoria à custa da imensa maioria, o domínio da burguesia sobre o povo, hão-de perdurar eternamente? A filosofia de Hegel tratava do desenvolvimento do espírito e das ideias; era idealista. Do desenvolvimento do espírito a filosofia de Hegel deduzia o desenvolvimento da natureza, do homem e das relações entre os homens no seio da sociedade». In Obras Escolhidas de Vladimir Ilitch Lénine, Friedrich Engels, tradução das Obras Completas de V. I. Lénine, 5ª Edição em russo, Edição da Editorial Avante, 1977.

A amizade de Luís Sá e José Casanova

Cortesia de Wikipédia/JDACT

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Algumas notas sobre Marx e a História. António Borges Coelho. «… a pretexto de perigo ideológico, recuse, afinal, por preconceitos ideológicos, ferramentas conceptuais e expulse do território da teoria contributos de autores considerados malditos…»

jdact

Para as Excelências… (pardas)
«(…) Todos os objectos marcados pela mão e a mente do homem constituem a matéria-prima do discurso histórico. Os textos escritos, os monumentos, as ferramentas no afeiçoar dos campos, na produção industrial e comunicacional, os livros, a música, os quadros, o trem da oficina e da cozinha, os rituais da vida, do lazer, da festa, da guerra e da morte. Parte fundamental dessa matéria-prima guarda-se nos arquivos, nos museus, nas bibliotecas, nas casas, nas aldeias, nas cidades, nas organizações dos homens vivos. O artesão do tempo marca o produto com a sua mente e a sua mão mas é extremamente dependente; dependente das informações, dependente do trabalho dos homens e mulheres que organizam a informação conservada nos arquivos, bibliotecas e museus; dependente das ideias e da carpintaria dos autores que o antecederam; dependente de toda a sociedade no pensar, no comer, no vestir, no milagre diário de existir e amar. A informação nunca é bastante, mas na época contemporânea corremos o grave risco de sufocar pelo excesso. É dessa informação que construímos os factos num trabalho de organizar, estruturar e relacionar. E sempre a fita métrica e o compasso da Cronologia. Ela mede e ordena o que parece sem ordem e permite ver sentidos no que parece não ter sentido. No entender de Marx, para organizar a matéria-prima e lhe dar vida, os autores dos textos têm de viver com intensidade a época que lhes caiu em sorte. Quanto mais se enredarem nos seus dramas e combates, quanto mais se submergirem nos acontecimentos contraditórios, mais fértil a experiência, mais fina a sensibilidade para compreender a linguagem, o esconde-esconde das acções dos homens.
No campo historiográfico não se pode confundir o real e o lógico nem coisificar os modelos anulando a indeterminação do real, indeterminação acrescida nas sociedades humanas pelo factor a que os teólogos e os filósofos chamaram livre arbítrio, sem esquecer o acidente e o que se esconde sob a palavra acaso. O oficial da história também não pode refugiar-se na procura necessária e sempre incompleta de informações novas, esquecendo que conhecer é relacionar. Há ainda quem minimize e desconfie da compreensão e, a pretexto de perigo ideológico, recuse, afinal, por preconceitos ideológicos, ferramentas conceptuais e expulse do território da teoria contributos de autores considerados malditos. Nas últimas décadas a História foi colonizada pela Sociologia. O ponto de partida é o concreto mental e sócio-económico, mas a História é a descrição e compreensão dos movimentos que, no infinito dos possíveis, se materializaram na prática. História acontecimento? Descrição e compreensão dos acontecimentos e da sua relação com as estruturas sociais e mentais ou mentais e sociais que a visão dos homens sobre o universo também determina a sua existência.
Só através dos universais o processo histórico, a história real em movimento pode ser captada e compreendida, tanto quanto é possível compreendê-la. Mas se o discurso paira nos universais, se se move num universo fechado de conceitos, corre o risco de se despenhar contra a montanha oculta pela nuvem de palavras vazias. Não vê o relevo, os rios, as montanhas, os oceanos, as cidades, os particulares, os singulares. Pela própria natureza do conhecimento, o manipulador da Memória tenta alcançar a visão total mas a sua consciência não consegue captar de uma só vez mais que os sinais dos pequenos instantes. Quer alcançar o todo mas só o pode tentar pela parte. Por outro lado, a parte só é possível de ler numa perspectiva do todo. Ao constante movimento e transformação do mundo, a razão responde imobilizando na ideia o que se move. Daí a necessidade de rectificação constante, daí a urgência de encontrar novas relações e mecanismos lógicos que envolvam a prova e a direcção do movimento.
Vivemos um tempo em que o sistema social não só não satisfaz como agrava em estremo todos os problemas e contradições. Políticos e gestores do grande capital actuam como se a riqueza produzida pela sociedade lhes pertencesse e pudessem usá-la a seu bel-prazer. Não respeitam os compromissos, entram no bolso roto dos pobres a quem reservam as sobras. Empurram massas humanas para o desemprego ou subemprego, excluem-nas do sistema, como se não fizessem parte da mesma humanidade. A hora é demudança, a hora pede a união dos excluídos e de todos os homens de boa vontade. Um mundo melhor é possível!» In António Borges Coelho, Algumas notas sobre Marx e a História, Wordpress, Marx em Maio, 2012.

Cortesia de Wordpress/JDACT

Algumas notas sobre Marx e a História. António Borges Coelho. «… como matéria-prima de nova produção, forma-se uma conexão na história dos homens, forma-se uma história da humanidade, que é tanto mais a história da humanidade quanto as forças produtivas dos homens…»

jdact

Para as Excelências… (pardas)
«(…) Hoje, como no dia da sua aparição no mundo, o homem é obrigado a consumir antes de produzir e enquanto produz. Para nós esta tese é uma evidência, mas ela alterou todo o ponto de partida da investigação sobre a essência do homem. Ele não caiu do céu a cavalo num meteorito, levantou-se da terra. Na produção social da sua existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a um determinado grau de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. Assim, os homens fazem a sua própria história mas não a fazem segundo a sua livre vontade, em circunstâncias escolhidas pelos próprios, mas nas circunstâncias imediatamente encontradas, dadas e transmitidas. A tradição de todas as gerações mortas pesa sobre o cérebro dos vivos como um pesadelo.
Na sua análise, Marx lembra-nos que a natureza não produz, de um lado, possessores de dinheiro e de mercadorias e, do outro, possessores tão-só da sua própria força de trabalho. Uma tal relação não tem fundamento natural nem tão pouco constitui uma relação social comum a todos os períodos da história. É o resultado de um desenvolvimento histórico preliminar, o produto de um grande número de revoluções económicas, produto saído da destruição de toda uma série de velhas formas de produção social. Essas revoluções económicas marcaram a história. Pelo simples facto de que toda a geração posterior encontra forças produzidas pela geração anterior que lhe servem como matéria-prima de nova produção, forma-se uma conexão na história dos homens, forma-se uma história da humanidade, que é tanto mais a história da humanidade quanto as forças produtivas dos homens e, por consequência, as suas relações sociais tiverem crescido.
Mas se as mulheres e os homens são produto das circunstâncias e da educação, como é que fazem a história? Como é possível conciliar vontades contraditórias, individuais e colectivas? Em Ludwig Fuerbach e o Fim da Filosofia Alemã, Marx e Engels escrevem: Os homens fazem a sua história, ocorra ela como ocorrer, perseguindo cada um os seus próprios objectivos, queridos conscientes, e o resultado destas várias vontades, que agem em diversas direcções, e da sua influência múltipla sobre o mundo exterior é que é a história. Mais tarde, em 1890, Engels esclarece melhor este ponto numa Carta a Joseph Bloch:

Há inúmeras forças que se entrecruzam, um número infinito de paralelogramas de forças de que provem uma resultante, o resultado histórico, que, por sua vez, pode ele próprio ser encarado como o produto de um poder que, como todo, actua sem consciência e sem vontade. Pois aquilo que cada indivíduo quer é impedido por outro e o que daí sai é algo que  ninguém quis. Assim a história até aqui decorreu à maneira de um processo natural e está também essencialmente submetida às mesmas leis do movimento.

Os homens dependem das circunstâncias estabelecidas pelas gerações que os precederam, mas os educadores natureza e sociedade também têm de ser educados. Esta tese de Marx evoca Demócrito, o filósofo que escolheu para a sua tese de licenciatura: A natureza e a educação, disse Demócrito, estão próximas uma da outra, porque a educação transforma o homem mas, através desta transformação, cria-lhe uma segunda natureza. Há mais de sessenta anos que me dedico à investigação em História. Na minha formação teórica intervieram a vida e as leituras mais contraditórias. Marx? Sem dúvida. Ensinou-me que é necessário partir do concreto, ensinou-me que a história é um espaço e tempo total e contraditório onde cabem todos os homens, incluídos, os excluídos, as minorias, os levantados do chão. Ensinou-me que é possível e necessário inventar um modelo que capte, sempre provisoriamente, o processo da evolução das sociedades humanas. O discurso histórico que intenta prender nas letras o devir das sociedades e das civilizações não pode ficar na enumeração ou exibição de princípios.
A escrita da História mobiliza o trabalho de gerações e gerações de trabalhadores especializados: arqueólogos, linguistas, paleógrafos, geógrafos, antropólogos, economistas, juristas, críticos de arte, de literatura. Serve-se da Filosofia, da Geografia, da Biologia, da Economia, do Direito, da Sociologia, da Antropologia, da Literatura, da Arte, da Linguística. Usa uma vasta panóplia de conceitos: trabalho social, classes, grupos sociais, modo de produção, níveis das forças produtivas, relações de produção, complexo histórico-geográfico, ideologia, tempo curto, longa duração, anacronismo etc». In António Borges Coelho, Algumas notas sobre Marx e a História, Wordpress, Marx em Maio, 2012.

Cortesia de Wordpress/JDACT

Algumas notas sobre Marx e a História. António Borges Coelho. «Li-o em voz alta aos meus amigos, quase como quem lê um poema. E envolvi-me durante anos intensamente na luta pela liberdade e pela construção da nova sociedade que Marx preconizava»

jdact

Para as Excelências... (pardas)
«Toda a vida social é essencialmente prática. É na prática que o homem tem de fazer prova da verdade, isto é da realidade e do poder do seu pensamento, a prova de que ele é deste mundo, mundo material / mental que importa transformar. Marx não está só quando intervém com a teoria na prática social. Desde sempre, mesmo quando o negam, filósofos e teólogos, como Santo Agostinho ou os teólogos da Contra Reforma, teorizaram e intervieram procurando garantir a obediência da sociedade terrestre. Só que para eles a prática social não intervinha na prova da verdade, muito menos da verdade absoluta. Esta fora revelada e estava primeiro. A ela tinham que se inclinar todas as outras verdades. No início da Época Moderna, a s navegações ligaram duradoiramente os continentes e as civilizações. Nessa aventura planetária os pilotos e os cartógrafos tiveram um papel determinante. Provaram pela sua prática que a Terra não era plana mas redonda e que Jerusalém, afinal, não ocupava o centro da Terra. O centro ficava numa linha imaginária da esfera do mundo, a linha equinocial. A Astronomia, a Física, a Química, a Economia Política, a Biologia romperam o primado do crer para entender e, na prova das suas teorias, construíram o método científico que submetia a observação e a hipótese à prova experimental.
Filho da Revolução Francesa e das Revoluções Europeias dos meados do século XIX, Marx marcou profundamente a teoria e a prática no campo das Ciências Sociais e Humanas, particularmente no da Economia Política, no da Filosofia da História, na Filosofia, na Sociologia, na Política. O devir, a mudança alteram, transformam continuamente as teorias e as estruturas mentais, sociais e políticas. Pela própria natureza das coisas, as ciências são afectadas pela História e deixam o rasto da sua própria caminhada. Só há uma ciência, a da História. As ideias de Marx não surgiram em bloco nem ficaram escritas para sempre no mármore. Isso está reservado somente à palavra divina. Ou noutras palavras, o para sempre significaria que o pensamento humano atingira o seu limite e também que as sociedades poderiam estar prestes a chegar à sua última definição. Na infância recebi como prémio escolar as Confissões de Santo Agostinho, e ao longo da vida, li e reli como pude filósofos, discuti com alunos os Pré-Socráticos e Platão, estudei apaixonadamente Leibniz e Espinosa. Mas a Marx devo o trazer-me do céu para a terra, trazer-me para o meio dos homens na sua actividade real e envolver-me no ideal de construir na terra um pouco mais de céu. Expulso, ainda infante, do paraíso, caiu-me, nas mãos de adolescente, o Manifesto do Partido Comunista em tradução espanhola. Li-o em voz alta aos meus amigos, quase como quem lê um poema, lá nas altas fragas do meu pobre Trás-os-Montes. E envolvi-me durante anos intensamente na luta pela liberdade e pela construção da nova sociedade que Marx preconizava. Durante esse tempo as suas ideias chegavam-nos em textos de segunda mão. Não havia edições. Em primeira mão, que eu saiba, só o texto copiografado Trabalho Assalariado e Capital. Na segunda metade da década de sessenta é que apareceram impressas, em edições francesas, a Crítica da Economia Política, A Ideologia Alemã, O Capital, As Lutas de Classes em França, A Guerra Civil em França, a Correspondência. Nos últimos anos, em Portugal, destaco as traduções do Manifesto do Partido Comunista por Magalhães Vilhena e de O Capital por José Barata Moura e Francisco Melo.
As ideias de Marx criaram um novo patamar na abordagem das ciências do homem e estão hoje na consciência colectiva, mesmo na daqueles que se persignam quando ouvem o nome do filósofo. E trouxe a teoria para a praça pública, escreveu para todos dirigindo-se especialmente à gente de baixo anunciando-lhes a alegria de subir à montanha da sabedoria. Muita água correu depois nos rios da História. Em O Capital traçou um fresco impressionante das transformações económicas e sociais operadas ao longo dos dois últimos milénios e deteve-se com particular profundidade na análise das estruturas, das leis e movimentos da sociedade capitalista do século XIX. A sua teoria do valor está hoje na ordem do dia. Políticos e gestores prolongam a jornada de trabalho, criam bancos de horas, aumentam assustadoramente o exército dos desempregados e sub-empregados, baixam os salários para níveis de miséria. Afinal reconhecem que é o trabalho social que cria o valor e intentam reter para si o máximo da mais-valia. Esta guerra conduzida pelo capital, exacerbada pelo capital financeiro ou, na linguagem mediática, pelos mercados, evidencia, por outro lado, a validade operatória do conceito de luta de classes». In António Borges Coelho, Algumas Notas sobre Marx e a História, Wordpress, Marx em Maio, 2012.

Cortesia de Wordpress/JDACT

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O Pensamento e as Interpretações: Florbela Espanca e Karl Marx. «De que vale no mundo ser-se inteligente, ser-se artista, ser-se alguém, quando a felicidade é tão simples!...A linguagem é tão velha quanto a consciência, a linguagem é a consciência real, prática...»

Cortesia de barcosemtemporais

Cortesia de mateusveras

Amar Intensamente
«De que vale no mundo ser-se inteligente, ser-se artista, ser-se alguém, quando a felicidade é tão simples! Ela existe mais nos seres claros, simples, compreensíveis e por isso a tua noiva de dantes, vale talvez bem mais que a tua noiva de agora, apesar dos versos e de tudo o mais. Ela não seria exigente, eu sou-o muitíssimo. Preciso de toda a vida, de toda a alma, de todos os pensamentos do homem que me tiver. Preciso que ele viva mais da minha vida que da vida dele. Preciso que ele me compreenda, que me adivinhe. A não ser assim, sou criatura para esquecer com a maior das friezas, das crueldades. Eu tenho já feito sofrer tanto! Tenho sido tão má! Tenho feito mal sem me importar porque quando não gosto, sou como as estátuas que são de mármore e não sentem». In Florbela Espanca, «Correspondência (1920)».

A Consciência é um Produto Social
«São os homens os produtores das suas representações, das suas ideias, etc.; mas os homens reais agentes, tais como são condicionados por um desenvolvimento determinado das suas forças produtivas e das relações que lhes correspondem. (...) A consciência não pode ser coisa diversa do ser consciente e o ser dos homens é o seu processo de vida real.
(...) Desde o início que pesa uma maldição sobre «o espírito», a de estar «manchado» por uma matéria que se apresenta aqui sob a forma de camadas de ar agitadas, de sons, de linguagem em suma. A linguagem é tão velha quanto a consciência, a linguagem é a consciência real, prática, existente também para outros homens, existente também igualmente para mim mesmo pela primeira vez, e, tal como a consciência, a linguagem só aparece com a necessidade, a necessidade de comunicação com os outros homens. (…) A consciência é portanto, desde início, um produto social, e assim sucederá enquanto existirem homens em geral». In Karl Marx, «A Ideologia Alemã».

Cortesia de O Citador/JDACT

segunda-feira, 14 de março de 2011

Karl Marx: «Marx era, antes de tudo, um revolucionário. A verdadeira missão na vida era contribuir, de um modo ou de outro, para o derrube da sociedade capitalista e das instituições estatais por esta suscitadas. Contribuir para a libertação do proletariado moderno. Como consequência... Marx foi o homem mais odiado e mais caluniado do seu tempo


(1818-1883)
Tréveris, Alemanha
Cortesia de historiaebiblia

Karl Heinrich Marx, um intelectual e revolucionário alemão, fundador da doutrina comunista moderna, que actuou como economista, filósofo, historiador, político e jornalista.
O pensamento de Marx influencia várias áreas, desde a Filosofia e a História, passando pelo Direito, Sociologia, Literatura, Pedagogia, Ciência Política, Antropologia, e terminando de entre outras áreas a Biologia, Psicologia, Teologia e Comunicação. No ano de 2005 a BBC considerou-o como o maior filósofo de todos os tempos.


Economista, filósofo e socialista alemão, Karl Marx estudou na Universidade de Berlim, principalmente a filosofia hegeliana, e formou-se com a tese Sobre as diferenças da filosofia da natureza de Demócrito e de Epicuro. Em 1842 assumiu a chefia da redacção do Jornal Renano e os seus artigos radical-democratas irritaram as autoridades. Viaja para Paris, editando o 1º volume dos Anais Germânico-Franceses, órgão principal dos hegelianos da esquerda.
Em 1844, conhece Friedrich Engels, o começo de uma amizade íntima durante toda a vida. Posteriormente, é expulso de França e fixa residência em Bruxelas. Participa em organizações clandestinas de operários e exilados. Ao mesmo tempo em que na França «rebenta» a revolução, em 24 de Fevereiro de 1848, Marx e Engels publicam o folheto «O Manifesto Comunista», primeiro esboço da teoria revolucionária que, mais tarde, seria chamada marxista.
Cortesia de sill
Depois da derrota de todos os movimentos revolucionários na Europa, Marx foi para Paris e daí expulso, para Londres, onde fixou residência definitiva. Nesta cidade dedicou-se a vastos estudos económicos e históricos, sendo frequentador assíduo da sala de leituras do British Museum. Escrevia artigos para jornais norte-americanos, sobre política externa, mas a sua situação financeira esteve sempre muito precária. Foi generosamente ajudado por Engels, que vivia em Manchester e com boas condições financeiras.
Em 1864, Marx foi co-fundador da Associação Internacional dos Operários, depois chamada I Internacional.
Em 1867 publica o primeiro volume da sua obra principal, «O Capital».
N interior da I Internacional encontrou a oposição tenaz dos anarquistas, liderados por Bakunin, e em 1872, no Congresso de Haia, a associação foi praticamente dissolvida. Em compensação, Marx veio a patrocinar a fundação, em 1875, do Partido Social-Democrático alemão, que pouco depois foi proibido. Não viveu o suficiente para assistir às vitórias eleitorais deste partido e de outros agrupamentos socialistas da Europa.
Marx e Engels escreveram juntos em 1845 «A Sagrada Família» e a «A Ideologia alemã (1845-46)», que por motivo de censura não pôde ser publicada (edição completa só em 1932). É a exposição da filosofia marxista.
Marx escreveu «A Miséria da Filosofia (1847)», a versão polémica contra o anarquista francês Proudhon. A última obra comum de Marx e Engels foi em 1847 «O Manifesto Comunista», breve resumo do materialismo histórico e apelo à revolução.

Cortesia de nosrevista 
Em 1867 publicou Marx o 1º volume de sua obra mais importante:
  • O Capital. É um livro principalmente económico, resultado dos estudos no British Museum, tratando da teoria do valor, da mais-valia, da acumulação do capital etc.
Marx reuniu documentação imensa para continuar esse volume, mas não chegou a publicá-lo. Os volumes II e III de O Capital foram editados por Engels, em 1885 e em 1894. Outros textos foram publicados por Karl Kautsky como volume IV (1904-10).

«Marx era, antes de tudo, um revolucionário. A sua verdadeira missão na vida era contribuir, de um modo ou de outro, para o derrube da sociedade capitalista e das instituições estatais por esta suscitadas, contribuir para a libertação do proletariado moderno, que ele foi o primeiro a tornar consciente de sua posição e de suas necessidades, consciente das condições de sua emancipação. A luta era o seu elemento. E ele lutou com uma tenacidade e um sucesso com quem poucos puderam rivalizar. (…) Como consequência, Marx foi o homem mais odiado e mais caluniado do seu tempo. Governos, tanto absolutistas como republicanos, deportaram-no dos seus territórios». In Friedrich Engels.

Cortesia de Stanford Encyclopedia of Philosophy/JDACT

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O Pensamento e as Interpretações: Parte XX. «... A linguagem é tão velha quanto a consciência - a linguagem é a consciência real, prática, existente também para outros homens... Os ideais que me iluminavam e me encheram incessantemente de alegre coragem de viver foram sempre a bondade, a beleza e a verdade...»

Cortesia de istoepiaui

A Consciência é um Produto Social
«São os homens os produtores das suas representações, das suas ideias, etc.; mas os homens reais agentes, tais como são condicionados por um desenvolvimento determinado das suas forças produtivas e das relações que lhes correspondem. (...) A consciência não pode ser coisa diversa do ser consciente e o ser dos homens é o seu processo de vida real.
(...) Desde o início que pesa uma maldição sobre «o espírito», a de estar «manchado» por uma matéria que se apresenta aqui sob a forma de camadas de ar agitadas, de sons, de linguagem em suma. A linguagem é tão velha quanto a consciência - a linguagem é a consciência real, prática, existente também para outros homens, existente também igualmente para mim mesmo pela primeira vez, e, tal como a consciência, a linguagem só aparece com a necessidade, a necessidade de comunicação com os outros homens. (…) A consciência é portanto, desde início, um produto social, e assim sucederá enquanto existirem homens em geral». In Karl Marx.

Cortesia de mosaicosocial
Uma Vida Exterior Simples e Modesta Só Pode Fazer Bem
«Uma vida exterior simples e modesta só pode fazer bem, tanto ao corpo como ao espírito. Não creio de modo algum na liberdade do ser humano, no sentido filosófico. Cada um age não só sob pressão exterior como também de acordo com a sua necessidade interior. O pensamento de Schopenhauer: «O homem pode, na verdade, fazer o que quiser, mas não pode querer o que quer», impressionou-me vivamente desde a juventude e tem sido para mim um consolo constante e uma fonte inesgotável de tolerância. Esse conhecimento suaviza benéficamente o sentimento de responsabilidade levemente inibitório e faz com que não tomemos demasiado a sério, para nós e para os outros, uma concepção de vida que justifica de modo especial a existência do humor.
Do ponto de vista objectivo, pareceu-me sempre desprovido de senso querer-se indagar sobre o sentido ou a finalidade da própria existência ou da existência da criação. E, no entanto, cada homem tem certos ideais, que o orientam nos seus esforços e juízos. Neste sentido o bem-estar e a felicidade nunca me pareceram um fim em si (chamo a esta base ética o ideal da vara de porcos). Os ideais que me iluminavam e me encheram incessantemente de alegre coragem de viver foram sempre a bondade, a beleza e a verdade. Sem o sentimento de harmonia com aqueles que têm as mesmas convicções, sem a indagação daquilo que é objectivo e eternamente inatingível no campo da arte e da investigação científica, a vida ter-me-ia parecido vazia. Os fins banais do esforço humano: propriedade, êxito exterior e luxo pareceram-me desprezíveis desde jovem». In Albert Einstein.

Cortesia de O Citador/JDACT