Mostrar mensagens com a etiqueta Fernando Gil. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fernando Gil. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Fernando Gil: Fez parte de um vasto contingente de «estrangeirados» da cultura portuguesa que marcou decisivamente a história intelectual e institucional, política do século XX em Portugal

(1937-2006)
Moçambique
Cortesia de rangeodente

«Fernando Gil, um dos nomes maiores do pensamento e do ensino filosófico português no século XX. Poucos podem ser considerados autores de uma obra comparável à sua, pelo que não será tanto na relação com o meio português como na sua singularidade que se deve procurar o esclarecimento da sua influência e da relevância que adquiriu no espaço público português.

Formado em Direito, não abdicou da sua vocação filosófica. Estreou-se como autor em 1961 com Aproximação Antropológica (Guimarães Editores, Lisboa,) tendo rapidamente partido para Paris, onde concluiu uma segunda licenciatura, em Filosofia, e se doutorou em Lógica (La Logique du Nom, até hoje inédito em Português). Aí continuou a traduzir, como já fizera em Lisboa: ficção (sobretudo ligado à editora Portugália) e ensaio (Merleau-Ponty, Jaspers, entre outros) mas, sobretudo, deu início ao seu trabalho universitário, continuado no imediato pós-25 de Abril de 1974 na Universidade de Lisboa.

Na segunda metade da década de 1970 e inícios da de 1980, a sua evolução intelectual já o afastara da procura de uma teoria da subjectividade como aquela com que se estreara em 1961. Nos trabalhos publicados em revistas como Análise Social, Raiz e Utopia, Cultura, Prelo, entre outras, bem como na coordenação da Enciclopédia Einaudi e ainda na direcção do Grupo de Investigação de Filosofia e Epistemologia, o seu percurso estava cada vez mais norteado pela questão da objectividade.

Cortesia de alfafctmctes  
Embora a publicação dos seus trabalhos tenha habitualmente sido feita primeiro em Francês, já que viveu em Paris até à sua morte, tendo ensinado e investigado na École des Hautes Études en Sciences Sociales, as suas obras estão todas disponíveis em Português, quase todas publicadas na Imprensa Nacional – Casa da Moeda. Uma elaboração constante e cada vez mais sofisticada do problema da objectividade do conhecimento, que conhecerá o seu momento decisivo com a publicação em França, em 1993, de Tratado da Evidência (INCM, 1996). A compreensão do que entendemos como «evidente» e as relações do que é «evidente» com o sujeito particular em que se produz a evidência são a versão adulta do projecto inicial de Aproximação Antropológica.
Como foi notado por Miguel Real na revista Prelo (3ª série, nº 1, INCM, 2006), a sua relação com a cultura filosófica e científica portuguesa. Fernando Gil fez parte de um vasto contingente de «estrangeirados» da cultura portuguesa que marcou decisivamente a história intelectual e institucional, política do século XX em Portugal.

Cortesia de zam
Fernando Gil recebeu o Prémio Pessoa em 1993 e o Prémio PEN por Mimésis e Negação. Em simultâneo, coordenava a Rede Interdisciplinar de Centros de Investigação da UNL e continuava a sua vida académica intensa, sendo Professor Convidado de universidades de vários continentes». In Instituto Camões, Carlos Leone.
Cortesia do Instituto Camões/JDACT

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Bernardim Ribeiro: Vozes e disfarces de «Menina e Moça». Parte II


Uma das inovações mais atractivas de «Menina e Moça» de Bernardim Ribeiro é o uso de uma, ou mais, narradora feminina. Essa inovação rompe com a tradição das narrativas em voz masculina estabelecidas desde a primeira novela sentimental escrita em castelhano, Siervo libre de amor, de Juan Rodriguez del Padron, embora pelo menos duas das obras que influenciaram o desenvolvimento do género sentimental na Península Ibérica (de Boccaccio e de Ovídio) sejam já narrativas em voz de mulheres.
Naturalmente, há antecedentes peninsulares: na lírica medieval, tnto as cantigas de amigo, que se tornaram populares no século XV, género, que segundo Helder Ribeiro era sensível em Bernardim.
As vozes de mulheres que dominam a narrativa não constituem uma categoria estável e Menina e Moça. Deste modo, Bernardim mostra-se consciente das limitações convencionais, isto é, de género, desse procedimento e tematiza-as no curso da narrativa.
A Menina, que dá o título à narrativa, está sozinha junto a um rio, observando como um rochedo no meio da corrente interrompe o fluxo do rio, separando as águas. O mesmo episódio do Rouxinol (em português é um substantivo do género masculino) é depois repetido enquanto acontecimento narrado a uma outra outra personagem. Esta, é uma mulher mais velha, a Dona do tempo Antigo, que vem ter com a Menina pouco depois do acontecido, e é dessa dupla narrativa que o texto se ocupa a seguir.
Descobrimos que existe uma dualidade no uso do género gramatical, e por isso na marca do sexo: a passagem começa com o Rouxinol, marcado como masculino, e logo depois muda para o feminino, com a substituição de «rouxinol»  por «avezinha» um substantivo feminino e também um diminuitivo.
Enquanto que o rouxinol masculino revela uma sensibilidade no feminino, a voz feminina reinscreve mais do que uma voz masculina, a mais importante das quais é a de Avalor.
In Isabel de Sena, Journal of Institute of Romance Studies (3) 1994-95.
O amor e as tristezas não se deixam explicar. A Menina não conhece a causa da sua levada, a fadiga de Aónia e de Bimarder aparece-lhes injustificada no momento em que se dão um ao outro e vão morrer. O amor não traz consigo um princípio de razão, mas tão-só infindos e múltiplos desvairos. Viver pelo amor é o único sentido da vida, como as mulheres o sabem.
Nesta ontologia negativa reside o enigma da Menina e Moça. O amor permanece um enigma que ninguém pode desvelar. A Menina e Moça são várias maneiras de o dizer. Os arvoredos espessos, as sombras, as aparições misteriosas, o mar sem limites (na história de Avalor) repetem o retiro do amor.
As coisas sofrem, a mágoa da rola a quem o caçador mata o companheiro e cujos filhos morrem imediatamente não é menor qua a da criatura humana (é o mistério desta ave). É para guardarem o amor que as mulheres desejam ouvir tristezas e por isso também já entre os homens todos os caminhos vão dar a contos de mulheres porque também os homens são apanhados pelo amor.
A frase-chave da Menina e Moça, enunciando o enigma, é e será:

Trazem-nos os nossos fados com não sei que antolhos, que temos as coisas diante e não nas vemos.

É o que ilustra a história do Cavaleiro da Ponte, morto por amor oito dias antes de expirar o prazo de três anos de espera e de esforço que por amor havia aceite.
In Fernando Gil e Helder Macedo, Viagens do Olhar: Retrospecção, Visão e Profecia no Renascimento Português.