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sábado, 21 de março de 2020

A Alma Secreta de Portugal. Paulo A. Loução. «… apontando a necessidade de o salvaguardar e fazendo disso o primeiro imperativo moral da humanidade. Então, Sérgio ou Pascoaes? Decerto, que hoje, ao contrário de ontem, cada vez mais…»

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As três colunas da Cultura Portuguesa
Seara nova, a coluna da esquerda
Choca-me muito nos governos de esquerda a incapacidade que têm para sair do materialismo absurdo. In Maria João Pires

«[…]
ACF - Paulo, já nos conhecemos há algum tempo, lemo-nos mutuamente e, portanto, conhecemos as ideias um do outro. O Paulo certamente sabe que eu me encontro de alma e coração, quase por instinto, muito próximo das ideias do Teixeira de Pascoaes. É necessário observar com muito cuidado essas ideias, ao lado das de Sérgio. O Pascoaes diz que há um génio português; o António Sérgio contrapõe que não há génio nenhum e o que interessa é fazer tábua rasa da História e do passado. É óbvio que cada um deles tinha razão a seu modo e que o diálogo dos dois foi um diálogo de surdos. Se alguma verdade há nisto tudo, tem necessariamente de resultar, como bem viu o Paulo Alexandre Esteves Borges, da fusão dos dois. De qualquer modo, a fusão nunca será completa e cada época se aproximará mais de um ou de outro, consoante as necessidades que se fazem sentir são de ordem estreitamente material ou não. O que interessa para já é perceber como tudo funcionou na época deles e passou depois a funcionar na nossa. Pascoaes viveu muito isolado e foi muito criticado mesmo dentro da Renascença Portuguesa, até por companheiros próximos. 1912 é a data em que efectivamente a Renascença Portuguesa arranca; logo depois dela, em 1913-14, surge a polémica do Sérgio com o Pascoaes, onde o confronto se faz essencialmente em torno da industrialização do país, com Sérgio a apontar a florescente indústria inglesa como exemplo e Pascoaes a defender a conservação do tecido rural português. Pascoaes percebe que está sozinho e que tem muita dificuldade em fazer passar as suas ideias, que dão continuidade ao último Eça e sobretudo ao democratismo republicano de um Sampaio Bruno. Mesmo companheiros com afinidades fortes como Jaime Cortesão começam a ter dúvidas em relação à eficácia do saudosismo. As ideias de Antero, que a própria geração de 70 acabara por abandonar, voltam a conhecer um avanço. Temos de nos introduzir no tempo, que era o deles. Pascoaes, quando faz afirmações como aquela que o Paulo repetiu há pouco, é uma espécie de profeta que tem razão antes do tempo. Na situação do Portugal de 1910, a ideia de fazer tábua rasa do passado era cativante e popular. Para homens como o Cortesão, como o Leonardo, e até como o Bruno, homens que tanto se empenharam na queda da monarquia, a ideia de que era preciso partir do zero, era uma ideia cativante, que perturbava a cabeça das pessoas. Além disso, é preciso pensar que, naquele momento, toda a Europa representava um padrão único de desenvolvimento, que ninguém se atrevia a pôr em causa. O único que o pôs em causa foi o Teixeira de Pascoaes. Por isso, eu digo que este homem está isolado no seu tempo, uma espécie de profeta com razão antes do tempo. A dissidência da Seara, arrastando com ela tantos renascentes de primeira linha (a bem dizer só ficaram Pascoaes e Leonardo), é, neste contexto, fácil de entender. As ideias de Antero quanto ao país pareciam muito mais fáceis de aceitar que as de Bruno. O país parecia era ter falta de pão, como dizia o Sérgio, e não de saudade, como adiantava o Pascoaes. Só hoje, em função daquilo que se passa no mundo, uma delapidação suicida de espécies e de recursos, é que nós entendemos a força das ideias saudosistas, quando elas insistem em olhar para o passado, apontando a necessidade de o salvaguardar e fazendo disso o primeiro imperativo moral da humanidade. Então, Sérgio ou Pascoaes? Decerto, que hoje, ao contrário de ontem, cada vez mais Pascoaes e menos Sérgio, apesar da atenção que as ideias deste merecem. Nós já percebemos que estamos num ponto da civilização em que a falta de atenção pelo passado, e pelo património natural e humano que lá se inclui, se está a tornar numa perda irreparável e suicidária. Logo, quando Pascoaes fala do passado naquele tempo é uma coisa, quando se fala do passado hoje é outra. E aqui, Paulo, entra uma ideia chave, a ideia de progresso, que é por excelência a noção social do António Sérgio da época.
PAL - Sem qualquer dúvida...
ACF - É a ideia que vem da razão iluminista dos séculos XVII e XVIII, a ideia que está na base do desenvolvimento económico da revolução industrial do séculos XVIII e XIX e a ideia que fundamenta a geração de 70, e a crítica que esta geração faz à sociedade portuguesa; é também a ideia de base do pensamento de António Sérgio e dos seareiros em geral. Acrescente-se que na altura era quase impossível questionar o progresso; quem é que se arriscava no início da República a fazer causa contra o progresso? Só mesmo o Pascoaes, com o pano de fundo dialéctico que o Bruno lhe deu. Até o Pessoa escreveu aquelas odes triunfais à electricidade e à mecânica, que são uma coisa hoje mais que datada, se não ridícula. O progresso era para todos eles, à esquerda ou à direita, a panaceia para salvar o mundo; e daí as afinidades de Integralistas e Seareiros, que ainda chegaram a colaborar entre si. Ora, no século XXI, nós não encaramos mais o progresso dessa forma. Temos cada vez mais uma noção exacta das contradições malignas que o progresso encerra.
PAL - Sim, mas de qualquer maneira essa forma mental continua a dominar. Ainda ontem ouvi uma entrevista do Presidente da República, na TV Cabo, parece não despertar audiência nos canais tradicionais, afirmando que a panaceia está na inovação e na produtividade. Ora, não colocando em causas essas necessidades, tem de se salientar que não há cultura nem espírito no seu discurso, nem preservação do património, nada disso existe.
ACF - Aquilo que talvez valha a pena lembrar, é que o Jorge Sampaio é um resultado da Seara Nova e do pensamento de Sérgio, naquilo que ele tem de bom e de mau. Portanto não é uma surpresa que ele exponha essas ideias. Agora também é preciso saber contextualizar um discurso de Jorge Sampaio, enquanto Presidente da República, em função das determinantes da política internacional; e nós sabemos que a política internacional, sobretudo quando orientada pelos Estados Unidos, continua dominada por uma ideia muito ingénua e nociva de progresso. O que fica em causa é a necessidade de mudar de paradigma, de abandonar um modelo de progresso linear e exponencial. Precisamos de um novo paradigma que nos faça olhar para o passado e nos obrigue a preservá-lo. O progresso é o futuro, mas neste momento o que percebemos é que sem passado não podemos ter futuro. Portanto, há aqui um novo modelo social a nascer que põe em causa o progresso simples, de uma só dimensão, tal como Antero e Sérgio ainda o entendiam. Ora o que eu queria dizer há pouco, quando adiantei que o Pascoaes era um dos que teve razão antes do tempo, é que ele, Pascoaes, tem, pela primeira vez, numa altura em que isso parecia prematuro, uma ética da salvaguarda e da conservação da natureza. É importante que se diga que esta ética não exclui, de modo nenhum, no saudosismo, uma ética da liberdade humana». In Paulo Alexandre Loução, A Alma Secreta de Portugal, Ésquilo Edições & Multimédia, 2004, ISBN 972-860-515-3.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

A Alma Secreta de Portugal. Paulo A. Loução. «Pode talvez dizer-se que a Seara dá origem àquilo que é o Partido Socialista de hoje em dia, constituindo assim o elo de ligação entre o Partido acutal, fundado nos anos setenta…»

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As três colunas da Cultura Portuguesa
Da Geração de 70 à Renascença Portuguesa
«[…]
Porém, ao mesmo tempo, isto é inconsequente, porque se há um ideólogo, antes do Salazar, para o Estado Novo é o António Sardinha. Salazar era um monárquico e um monárquico de inspiração integralista, que nunca escondeu as suas leituras e as suas primeiras simpatias. A matriz ideológica e cultural de Salazar é o Integralismo Lusitano. Agora é preciso ter em atenção que os quarenta anos do salazarismo são complexos e muitos dos integralistas vão-se incompatibilizar com Salazar e com o regime, e nem sempre por razões de ordem pessoal.
O Integralismo Lusitano dura até aos anos sessenta ou setenta; não me parece que se possa falar hoje, com propriedade, em pensamento integralista. Falta agora falar da segunda braçada, a da esquerda, a da Seara Nova.

Seara nova, a coluna da esquerda
Choca-me muito nos governos de esquerda a incapacidade que têm para sair do materialismo absurdo. In Maria João Pires

ACF - Esta segunda braçada é hoje muito mais importante; nasceu duma divergência directa da Renascença Portuguesa. O António Sérgio e o Raul Proença, vindos da Renascença, e arrastando com eles o Jaime Cortesão e o Augusto Casimiro, vão fundar, em 1921, a Seara Nova. Surge assim uma corrente de pensamento que, nascendo logo em 1912, dentro da própria Renascença, com os textos de Proença e Sérgio, se vai depois autonomizar como parcela, sobrevivendo ao próprio desaparecimento da sociedade-mãe, a Renascença, em 1932. Ela caracteriza-se, no essencial, por um regresso às teses mais duras da geração de 70, em especial às do Antero das Causas da Decadência, que foi uma das palestras que ele fez no Casino do Chiado, deixando de lado toda a matização ou graduação crítica que a geração de 90 fez dessas teses. Essa corrente engrossará muito, por reacção ao Estado Novo, e sobretudo à sua fachada propagandística, transformando-se na principal corrente oposionista não-comunista. Pode talvez dizer-se que a Seara dá origem àquilo que é o Partido Socialista de hoje em dia, constituindo assim o elo de ligação entre o Partido acutal, fundado nos anos setenta, e o do tempo de Antero e José Fontana. O Mário Soares é (era) um colaborador da revista e o seu mestre é o António Sérgio, não o Agostinho da Silva. Por muito que este tenha gravitado, em certa época, na órbita do racionalismo francês de Sérgio, Agostinho da Silva nunca acreditou piamente nas ideias de industrialização, urbanização e escolarização. Creio que foi num Governo do Partido Socialista que se instituiu a nota de cinco mil escudos com o António Sérgio. O Sérgio transforma-se numa figura popular depois do 25 de Abril. Há bairros, escolas e ruas com o seu nome por todo o país. É pior que o Cândido dos Reis. Mas atenção, também há o risco de eu estar a distorcer alguma coisa, porque o Sérgio tem uma dívida muito grande para com o idealismo puro do Antero. O António Sérgio não tinha o mínimo espírito prático para governar, mas tinha ideias, as ideias que ele bebera em Antero e que ele soubera adaptar muito bem à situação do seu tempo. Sérgio foi assim uma espécie de ideólogo da nova democracia portuguesa. De qualquer modo, não se pode dizer que o Mário Soares quando governa depois do 25 de Abril isso corresponda àquilo que o António Sérgio tenha efectivamente pensado e até desejado para o país. A governação de Soares e a ideação de Sérgio estão porventura muito longe uma da outra.
Repare que o António Sardinha está na mesma posição em relação ao Oliveira Salazar. Aquilo que o integralismo pensa através da cabeça de António Sardinha não é provavelmente aquilo que o Salazar depois vai fazer no Estado Novo. O que eu vejo aqui, nesta história do Sardinha e do Sérgio, são duas colunas triunfantes; isto é que valeria a pena ter em atenção. No meio, impassível e sereno, corre o grande rio, o rio desatendido, que nunca triunfa, mas que ao mesmo tempo está sempre presente, a Renascença Portuguesa.
PAL - O António Sérgio, na sua polémica com Teixeira de Pascoaes, mostra ter muito pouca sensibilidade para a espiritualidade e afirma não existir um génio especificamente português; enquanto Pascoaes sustenta que alguém, se quiser compreender o país, tem que ir à História, para assim captar os seus arquétipos fundamentais. Neste célebre confronto, a seguinte citação do seu artigo parece-me merecedora de reflexão: a coluna central da cultura portuguesa, portanto a renascença do século XX, foi malignamente esmagada pelos violentos encontrões da direita e da esquerda que preferiram disputar entre si a seiva da árvore [portanto existe uma seiva da árvore que seria o passado, a experiência do passado, penso eu] mesmo com o risco de poderem secar as raízes a reconhecerem honestamente o tronco central donde brotaram. A leitura que faço do seu texto, é que existe uma seiva, que no fundo é o património do passado, e que aqueles que negam existir essa seiva são os que se estão a aproveitar da mesma..., seria cómico se não fosse trágico. No seu modo de ver, existe um génio especificamente português?» In Paulo Alexandre Loução, A Alma Secreta de Portugal, Ésquilo Edições & Multimédia, 2004, ISBN 972-860-515-3.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

A Alma Secreta de Portugal. Paulo A. Loução. «António Sardinha morre em 1925, antes da revolução do Estado Novo e, portanto, antes da vitória das suas ideias. É por isso que o António Sardinha permanece numa margem indefinida…»

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«O que diferencia um tronco flutuante
de uma barca feita da mesma madeira
é que esta última tem remos e pode
vogar contra a corrente»

«Conservar a infância é levar dentro de si, desperta e pronta, uma misteriosa lâmpada capaz de conduzir a luz até à alma das coisas». In Leonardo Coimbra

«Toda a luz desenvolve no seu seio um núcleo poderoso de trevas, tal como a sombra desenvolve um ponto de luz». In António Cândido Franco

As três colunas da Cultura Portuguesa
Da Geração de 70 à Renascença Portuguesa
«[…]
PAL - Temos aí o percurso da geração de 70 até à Renascença, onde Teixeira de Pascoaes regressa às tradições.
ACF - Sim. Por essa razão é que eu lhe chamava a atenção para a existência dessa geração intermédia, que é a de 90. Entre um Leonardo Coimbra e um Antero filósofo, há um Sampaio Bruno e entre um Pascoaes e um Eça, há um Raul Brandão, como entre um Junqueira e um Mário Beirão há um António Nobre. Quando nós vemos a prosa de um Eça, sobretudo até aos anos 90, e a prosa de um Pascoaes, sobretudo depois de 1921, nós sentimos que aquilo são dois mundos incomunicáveis. Mas eles têm, ainda assim, um fio de ligação.
PAL - No século XX temos as tais três colunas que expressa no artigo que citei de início. Poderia transmitir em síntese essa sua análise...
ACF - No fundo é tentar organizar com um mínimo de inteligibilidade e de clareza aquilo que foi a vida cultural portuguesa no último século, tentando encontrar famílias de pensamento, de ideias, de estilos. Daí esta ideia de três correntes, três famílias ou três colunas, que dão corpo à cultura portuguesa no século XX. A Renascença parece-me a linha central, porque é aquela que arranca do século anterior, arrancando raízes na geração de 70, melhor, no cruzamento desta geração com a seguinte, a geração de 90, Eça e Bruno, Junqueira e Nobre. São estes casamentos que vão dar origem ao nascimento de uma nova camada geracional que será, no momento re-fundador da República, a da Renascença Portuguesa. Mas, evidentemente, a Renascença Portuguesa não é o único corpo cultural do século passado em Portugal. Há, pelo menos, duas outras famílias que se destacam, a dos integralistas e a dos seareiros. De qualquer modo, ambas deitam raízes na Renascença, funcionando quase como dissidências. Portanto, a Renascença é um tronco, não sendo uma raiz; a raiz são as origens diversificadas de que falámos e que estão lá na parte final do nosso século XIX. De qualquer modo, a Renascença é um tronco suficientemente forte para depois se desmembrar em dois ramos, um à direita e outro à esquerda, e daí as três colunas. O ramo da direita é o Integralismo Lusitano, como o da esquerda é o da Seara Nova. No primeiro, pontifica o António Sardinha, no segundo, o António Sérgio. Comecemos pela ramada da direita. Há afinidades fortes de Sardinha e da Renascença, sobretudo na tentativa de compreender Portugal. Sardinha começa por ser um republicano entusiasta em 1910, depressa se tornando um desiludido. Transforma-se num pensador da portugalidade, que é um conceito criado por ele, e dá origem ao Integralismo Lusitano que vai constituir a raiz cultural e política do Estado Novo. Todo, ou quase todo, o pensamento monárquico se reencontra no Integralismo depois da queda da monarquia. Para os monárquicos, o 5 de Outubro representou uma espécie de apocalipse, um fim de mundo; houve depois dele a necessidade de readequar o pensamento monárquico à nova situação que era a República.
PAL - Tem a raiz nos absolutistas, em parte...
ACF - O Integralismo é curioso. Não sou um especialista do assunto, nem li o Sardinha todo de uma ponta a outra, ou pelo menos não o tenho todo presente, mas mesmo assim dá para perceber o que se passou ali. O ponto de partida dele é o seguinte: uma monarquia que tivesse sido forte nunca justificaria uma república. Logo o único caminho para reabilitar o pensamento monárquico era pôr em causa tudo aquilo que estava na origem da revolução republicana, quer dizer a monarquia que então existia, liberal e constitucional. Daí o integralismo se ter aproximado muito, logo desde a origem, da linhagem política miguelista, afastando-se da tradição liberal. As duas linhagens da monarquia portuguesa eram: a constitucional, de raiz democrática, e a miguelista, de sinal absolutista, que fora vencida pela Convenção de Évoramonte, em Maio de 1834. Logo o Integralismo vai reabilitar não só a monarquia, mas aquilo que a monarquia não tinha sido, ou não pudera ser com a derrota de dom Miguel. Percebe-se bem nesta origem anti-liberal e anti-constitucional do Integralismo a raiz do Estado Novo posterior, com a proibição do pluralismo político e a ditadura de um único homem. O salazarismo acabou por ser, com a paternidade Integralista, o retorno dessa nebulosa recalcada que era o miguelismo derrotado de 1834 e que fora aparentemente arrumado e esquecido, a partir de 1850, com a Regeneração fontista. Não vale a pena, porém, esquematizar demais, porque tudo isto é muito mais complexo, pois implica uma leitura do país, em muitos aspectos, original. É uma leitura com afinidades com Alexandre Herculano e até com certos republicanos, como Henriques Nogueira, sobretudo a partir do municipalismo da Idade Média. É certo que se implica sempre nisso, e de uma forma obsessiva que se torna prioritária, um pensamento reaccionário assumido. É o pensamento da coluna da direita.
PAL - Já se pode falar de extrema-direita?
ACF - Pode. Exactamente nestas franjas da monarquia anti-constitucional que o Integralismo vai começando a criar. O Integralismo Lusitano capta muito rapidamente fatias importantíssimas da população portuguesa, sobretudo intelectuais e jovens. Essas fatias são muito heterogéneas entre si, indo desde os católicos simples e apolíticos aos anti-liberais militantes, de tradição absolutista, que eram residuais, mas continuavam a existir. É nesse caldo que se forma a moderna extrema-direita em Portugal.
PAL - Sobretudo, graças à desordem do país.
ACF - Claro. Há sempre nas situações caóticas um pensamento de reacção. Esse pensamento tem tendência a tornar-se facilmente popular. Ora, o António Sardinha, numa situação de dificuldades crescentes, que se agravam a partir de 1914 com a Grande Guerra, cria um pensamento com o objectivo de demolir a República e daí o seu favor rápido.
PAL - É um propagandista...
ACF - É um propagandista, claramente. É um homem de Partido. Agora, caso curioso, António Sardinha morre em 1925, antes da revolução do Estado Novo e, portanto, antes da vitória das suas ideias. É por isso que o António Sardinha permanece numa margem indefinida. Há muito boa gente que sempre me disse que o Sardinha nunca teria aderido ao Estado Novo». In Paulo Alexandre Loução, A Alma Secreta de Portugal, Ésquilo Edições & Multimédia, 2004, ISBN 972-860-515-3.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

sábado, 7 de dezembro de 2019

Portugal Terra de Mistérios. Paulo Alexandre Loução. «Conta a estoria que, despois que se dom Egas Moniz foy pera Tolledo, que o principe se partyo de Guymarõaes e andou per toda sua terra e requereo todas suas fortellezas e açalmouas de guisa…»

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O Mistério da Cruz Templária
«(…) Na exposição que faremos de seguida, daremos relevo à procura da origem dos cinco escudetes em cruz e aos besantes em aspa que se encontram em cada um deles. Os castelos foram incluídos nas armas nacionais por Afonso III, devido a ser neto de Afonso VIII de Castela, que tinha por brasão precisamente um castelo. Este facto foi devidamente demonstrado por Menéndez-Pidal Navascués. Segundo as regras da heráldica, o conde de Bolonha, ao tornar-se rei de Portugal, devia abdicar dos castelos nas armas, mas não o fez. Segundo os heraldistas modernos, as cores do campo do escudo, prata, dos escudetes, azul, e dos besantes, prata, terão origem na ascendência capetiana (francesa) dos primeiros reis portugueses. O termo quina deriva da palavra latina que designava cinco, no plural neutro; e é citado pela primeira vez no século XV, numa das crónicas breves de Santa Cruz de Coimbra. Veremos mais adiante que o vocábulo besante, também ele tardio, significa moeda de ouro (ou de prata) bizantina.

Segundo uma tradição tardia e, portanto, não conclusiva, as cinco quinas teriam tido origem na célebre Batalha de Ourique, durante a qual teria acontecido a aparição de Jesus Cristo a Dom Afonso Henriques. Faremos uma breve síntese histórica da evolução documental relativa ao milagre de Ourique. Antes, porém, queremos deixar claro mais uma vez que a nossa postura filosófica de procura da verdade (buscamo-la, não a detemos) está naturalmente livre de quaisquer crenças religiosas ou de movimentos historiográficos de cariz político, o que não exclui o nosso respeito pelas convicções de cada indivíduo. Por essa razão, a par com a transmissão do nosso ponto de vista sobre o mito de Ourique e a origem das armas nacionais, procuraremos divulgar, de forma muito sintética, a evolução do mesmo até ao início do século XVII, com o objectivo de o leitor poder tirar as suas próprias conclusões, o que aliás é escopo de todos os nossos ensaios.
Vários documentos coevos (século XII) comprovam a existência da Batalha de Ourique e o seu forte impacto na época. Na Vida de S. Teotónio, redigida por um frade crúzio na segunda metade do século XII, podemos ler:

Da mesma maneira o fes el Rey quando com aiuda do mui alto Sñor e socorro do beauinturado apostolo Santiago, cuia solemnidade emtaõ era, no campo Dourique, desbaratou sinco Reis mouros, com infinita barbara multidaõ dalem, e daquem mar que comsigo confederada traziaõ, pera de todo o destruirem (...).

A batalha terá acontecido no dia 25 de Julho de 1139 (Dia de Santiago), precisamente no ano em que Afonso Henriques passa a designar-se como Rex nos documentos do reino, facto que está sumamente comprovado. Paralelamente a esta versão clerical, é natural que outra fonte narrativa contemporânea, A Gesta de D. Afonso Henriques, divulgasse a versão nobiliárquica. É, no entanto, plausível que Pedro Afonso, conde de Barcelos, tivesse recolhido dessa Gesta os elementos para narrar o episódio de Ourique na sua Crónica Geral de Espanha de 1344, que foi escrita dois séculos após o facto histórico. Vamos citar o episódio da célebre contenda, tendo por base a segunda redacção desta crónica, efectuada em 1400:

Como o principe dom Affomso foy feito rey e venceeo a batalha d'Ourique:
Conta a estoria que, despois que se dom Egas Moniz foy pera Tolledo, que o principe se partyo de Guymarõaes e andou per toda sua terra e requereo todas suas fortellezas e açalmouas de guisa que nuca lhe acontecesse outro tal desavisamento. E, despois que todo esto ouve feito, ajuntou todas suas gentes e foy sobre os mouros e correolhes a terra toda des Coimbra ataa Santaretn e desy passou o Tejo e correo toda a terra ataa campo d’Ourique, honde achou el rey Ismar que a essa razõ era rey da Estremadura cõ cinquo reys que o viinhã buscar, sabendo o grande dãpno que lhes fazia em sua terra. E entrou com elles em batalha no logar que he dito Crasto Verde e venceos e matou e prendeo a mayor parte de todas suas gentes».
[…]
In Paulo Alexandre Loução, Portugal Terra de Mistérios, Edição Ésquilo, 2001, ISBN 972-860-504-8.

Cortesia de EÉsquilo/JDACT

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Portugal Terra de Mistérios. Paulo Alexandre Loução. «… algumas das propriedades geométricas da cruz orbicular. Por agora, cabe-nos recordar que a sua construção geométrica resulta da intersecção de um círculo central com quatro círculos laterais»

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O Mistério da Cruz Templária
«(…) Como é óbvio, ambos se referiam à geometria e matemática sagradas, de síntese e profundamente simbólicas. Como em muitas outras facetas da ciência das coisas divinas, uma parte deste conhecimento foi assimilada pelos cristãos dos primeiros séculos. Isto aconteceu de tal forma que os cristãos da facção mais fanática se viram obrigados a afirmar que a ciência milenar dos mistérios foi uma invenção do Diabo que se quis antecipar a Deus. O Abade Martigny não hesitou em afirmar: não há dúvida de que, nas Santas Escrituras, em razão do duplo sentido que encerram, os números têm frequentemente um significado simbólico. Podemos invocar aqui o testemunho de Filon, o Judeu, assim como o de S. Clemente de Alexandria, a epístola atribuída a São Barnabé, e o do Pastor de Hermas. Quem não sabe que Santo Ambrósio e Santo Agostinho empregavam a cada passo, nas suas homilias, o simbólico sentido dos números? Prova evidente de que tal linguagem era familiar à maior parte dos fiéis, pois, se assim não fosse, as explicações evangélicas dos doutores da Igreja teriam sido carta fechada para eles.
Já focámos, em obras anteriores, algumas das propriedades geométricas da cruz orbicular. Por agora, cabe-nos recordar que a sua construção geométrica resulta da intersecção de um círculo central com quatro círculos laterais.

A Origem das Cinco Quinas e o Milagre de Ourique
No momento em que escrevemos estas linhas, as altas individualidades de Portugal estão empenhadas em distribuir massivamente, nas escolas, um chamado kit patriótico que contém os símbolos da nação: a bandeira e o hino. Estamos de acordo com o director de um dos chamados diários de referência, quando sugere que a esta iniciativa outras se poderiam suceder no sentido de uma mais ampla divulgação da história de Portugal. De facto, só com uma real consciência histórica, a começar pelos líderes, é que acções como esta perderão o seu ar ridículo. E, por exemplo, talvez não se tenha hoje a devida consciência de que, nos nossos dias. Portugal é praticamente o único país da Europa que tem uma bandeira com símbolos multisseculares, um dos quais, as cinco quinas, é utilizado nas armas do reino logo desde o século XII. Cabe perguntar: porquê? Porque tudo aquilo que não tem uma forte carga mítico-espiritual acaba por se diluir no tempo como pó da história.
Outro símbolo importantíssimo que a bandeira actual contém é a esfera armilar, que analisaremos posteriormente. A origem das cinco quinas é um mistério. Existem várias teorias, mas nenhuma delas é conclusiva. Contudo, pelo menos a partir do reinado de Sancho I, jamais as cinco quinas deixaram de ser o símbolo por excelência da nação portuguesa, figurando em todas as bandeiras. Foram esculpidas na grande maioria dos monumentos nacionais e, em conjunto com a Cruz de Cristo, foram levadas pelos portugueses aos quatro cantos do mundo. Este símbolo foi considerado um talismã mágico-religioso pelos portugueses da Idade Média e Renascimento». In Paulo Alexandre Loução, Portugal Terra de Mistérios, Edição Ésquilo, 2001, ISBN 972-860-504-8.

Cortesia de EÉsquilo/JDACT

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Portugal Terra de Mistérios. Paulo Alexandre Loução. «Está hoje mais do que provado que o símbolo da cruz, exoterizado pelo cristianismo, é universal, perdendo-se a sua origem na noite dos tempos. Aparece em documentos da China, do Egipto, da América Pré-Colombiana…»


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O Mistério da Cruz Templária
«(…) Passamos agora à análise do seu simbolismo e antiguidade. Muito poucos saberão que uma cruz muito semelhante com um círculo central já existia e era um símbolo sagrado para os Assírios do século IX antes de Cristo. Mourant Brock, da Universidade de Oxford, divulga, num trabalho sobre as origens do símbolo da cruz, um peitoral pertencente ao rei-sacerdote assírio Samsi-Voul, datado de 835 a. C.! Este académico inglês faz questão de sublinhar:

E não se pense que esta cruz é única; ou que ela seja um ornamento acidental na história assíria e nos seus signos sagrados. Entre vários exemplos, existe outra, do rei da Assíria, Assur-Nazir-Pal, cuja enorme estátua, também talhada em pedra, se encontra no mesmo grupo de peças de Samsi-Voul. As duas cruzes são idênticas.

Nós próprios pudemos verificar a existência destas cruzes no Museu Britânico. O arqueólogo Alexander Wilder tinha razão quando afirmou no século passado que muitos dos ritos e doutrinas incluídos nos outros sistemas. O Zoroastrianismo [doutrina oriunda da Ásia Menor] antecipou muitas mais coisas do que se imagina. A cruz, as vestes sacerdotais e os símbolos, os sacramentos, o sabbath, as festas e os aniversários são milhares de anos anteriores à era cristã. Podemos encontrar esta cruz em templos românicos, como é o caso do Mosteiro de Arnoso. Também a encontramos (embora com os braços mais arredondados) em castelos Templários, como é o caso de Almourol.
É um facto que de modo algum podemos identificar a origem desta cruz com o drama cristão do calvário, devendo antes associá-la à tradição antiquíssima da cruz inscrita no círculo. Por outro lado, não nos podemos esquecer de que a cruz só começou a ser utilizada regularmente pelos cristãos no século V d. C. e o crucifixo só foi vulgarizado a partir do Concílio de Constantinopla, realizado em 692. Antes, um dos símbolos mais utilizados era os peixes, já que as iniciais da frase Iesus Christos, Theou Uios Soter (Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador) conformam a palavra Ichtus, que em grego significa peixe. Porém, a nosso ver, é lógico que a adopção deste símbolo teve o objectivo esotérico de veicular a energia nascente da era astrológica de Peixes, que então se iniciava.
Está hoje mais do que provado que o símbolo da cruz, exoterizado pelo cristianismo, é universal, perdendo-se a sua origem na noite dos tempos. Aparece em documentos da China, do Egipto, da América Pré-Colombiana, etc.; e em Cnossos, na ilha de Creta, foi encontrada uma cruz de mármore datada do século XV a. C.. A cruz de quatro braços iguais, apontando para os quatro pontos cardeais, é um símbolo da totalidade do Cosmos, inspirando por isso as mandalas. Para a ciência hermética, é também um símbolo da harmonização dos quatro elementos (Terra, Água, Ar e Fogo), sendo o centro o motor imóvel, o quinto elemento, raiz do movimento. A cruz orbicular é a cruz inscrita no círculo em movimento (permanecendo sempre o centro [do mundo] imóvel), uma dupla hélice. Para a ciência dos mistérios da antiguidade os números são entidades divinas e as figuras geométricas são a sua expressão. Por essa razão, Platão afirmava que Deus é geómetra e vedava o acesso à sua Academia a quem não entendesse de geometria, fazendo Pitágoras o mesmo a quem não fosse matemático». In Paulo Alexandre Loução, Portugal Terra de Mistérios, Edição Ésquilo, 2001, ISBN 972-860-504-8.

Cortesia de EÉsquilo/JDACT

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Portugal Terra de Mistérios. Paulo Alexandre Loução. «A cruz orbicular já era conhecida em território português, pelo menos desde o século VI. Encontramo-la esculpida numa pedra tumular descoberta em Mértola, datada de 571»

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O Mistério da Cruz Templária
«(…) A cruz orbicular marca essa protecção mágica nos quatro lados do templo, a palavra templo, em latim templum, tem origem precisamente no significado de delimitar e de área consagrada. Por esse motivo, ainda hoje podemos ver em redor de muitos templos egípcios uma muralha feita com tijolos em forma de ondas, representando as águas caóticas que estão para além do espaço sagrado, delimitado. No românico, caracterizado por igrejas que são quase fortalezas de pedra, com janelas diminutas, vislumbramos a necessidade psicológica do homem medieval de se recolher em segurança para meditar sobre as grandes questões da vida e da morte. Essa necessidade de segurança começa hoje a ser mais perceptível, já que estamos a entrar numa nova Idade Média (a civilização actual está esgotada) com a insegurança, física e psicológica, a crescer de ano para ano. Emergem os novos bárbaros e podemos ver nos condomínios fechados o prelúdio de novos castelos, para além dos senhores feudais das multinacionais já começarem a ter mais poder do que os próprios estados.
É uma sensação especial aquela que advém de penetrar no interior desses antigos templos românicos no silêncio solitário das aldeias ou da natureza serrana como, por exemplo, em S. Pedro das Águias. A cruz orbicular já era conhecida em território português, pelo menos desde o século VI. Encontramo-la esculpida numa pedra tumular descoberta em Mértola, datada de 571. Esta cruz tem sido designada por vários nomes, como cruz pátea, de braços curvilíneos. Nós utilizamos a designação de Garrett: cruz orbicular. Segundo Joaquim Gandra, esta cruz tem origem oriental, devendo-se a sua difusão à propagação do cristianismo ao Império Bizantino, bem como ao Médio Oriente e Egipto, onde ganhou expressão o cristianismo sírio, caldaico e copta. Símbolo do reino da Arménia, acabaria por chegar à China e à Mongólia por intermédio dos missionários nestorianos.
O facto de esta cruz ser muito utilizada no período pré-nacional leva-nos a supor que o cristianismo terá chegado ao território pelo Norte de África. Teriam chegado assim, em primeiro lugar, as versões do cristianismo oriental, do Egipto e Ásia Menor, seguindo as antigas rotas fenícias. É interessante reconhecer que os Templários, fora de Portugal, fizeram tanto uso desta cruz como de outras, enquanto no nosso país a utilizaram tão repetidamente que ficou registada no inconsciente colectivo como um símbolo associado à Ordem do Templo. Deste modo, não sendo esta cruz exclusiva dos Templários, a sua existência nos monumentos medievais portugueses dos séculos XII e XIII evoca muitas vezes uma relação directa com estes Cavaleiros do Graal.
Por que razão, especificamente em Portugal, utilizaram os Templários preferencialmente a cruz orbicular? É uma questão que merece ser estudada em pormenor. Em nossa opinião, poderá significar uma ligação com tradições espirituais pré-nacionais, nomeadamente com o gnosticismo prisciliano e o cristianismo-ariano. Mas existe outro facto que também merece destaque: todos os reis portugueses até Sancho II utilizaram a cruz orbicular como seu selo em vários documentos. Não temos notícia da sua utilização como insígnia real durante os reinados de Afonso III e de Dinis I, mas é certo que deixou de ser utilizada para este efeito após a extinção da Ordem do Templo, facto ocorrido na época do Rei-Lavrador». In Paulo Alexandre Loução, Portugal Terra de Mistérios, Edição Ésquilo, 2001, ISBN 972-860-504-8.

Cortesia de EÉsquilo/JDACT

sábado, 9 de maio de 2015

A Alma Secreta de Portugal. A Fonte da Alma Secreta. «… a geração de 70 está de mal com Portugal por ser uma sociedade demasiado ruralizada; as acusações são sempre contra uma urbanização insuficiente. Eis a geração de 70 na sua pureza mais crua»

Cortesia de wikipedia e jdact

As três colunas da Cultura Portuguesa. Entrevista com António Cândido Franco
«(…) Oponhamos ao catolicismo, não a indiferença ou uma fria negação, mas a ardente afirmação da alma nova, a consciência livre, a contemplação directa do divino pelo humano (isto é, a fusão do divino e do humano), a filosofia, a ciência, e a crença no progresso, na renovação incessante da humanidade pelos recursos inesgotáveis do seu pensamento, sempre inspirado. In Antero de Quental

Paulo A. Loução: Conferências do Casino que chegam a ser proibidas...
António C. Franco: Chegam, mas a derrota não vem daí; vem, porque, vinte anos depois, os do Casino olham para trás e percebem que o Portugal de 1890 já não era o de 1870; as ideias da geração de 70, que são as do Antero nas Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, não se aplicam já à situação de 1890. É assim que os vejo vencidos. Há portanto uma desistência daquela geração, ou então o penoso, mas útil, refazer de todo o caminho anterior. Por exemplo, Eça de Queiroz, que acabara de escrever Os Maias em 1888 e que escrevera antes O Crime do Padre Amaro, A Capital, O Primo BasíIio, A Relíquia, livros de uma grande agressividade contra a sociedade portuguesa, passa a escrever livros que são o elogio descarado dessa mesma sociedade, A Cidade e as Serras e A Ilustre Casa de Ramires.
Paulo: Mas A Cidade e as Serras é um livro que tem uma crítica à civilização do Ocidente que se mantém actualíssima. No plano ecológico parece-me quase profético.
António: Tem uma crítica a Paris e tem um elogio à sociedade rural portuguesa, que era então, desde Methuen, a mais característica. A geração de 70, quando aparece, nas Conferências, faz uma critica crua e desapiedada à sociedade portuguesa; com o romance, o verso ou o ensaio eles pretendem atingir as instituições reguladoras do poder social da época; o altar, o trono e a finança. O que vale a pena sublinhar é a infidelidade do último Eça, como de resto do segundo Junqueiro, a este programa de trabalhos, que era o mais típico da geração.
Paulo: A Queda de um Anjo, por exemplo...
António: O Camilo apanha por ricochete.
Paulo: O Conde de Abranhos de Eça de Queiroz…
António: Exactamente, é, a crítica da classe política, são etapas, é uma geração muito agressiva contra as características portuguesas, desde a classe política ao clero, passando pela burguesia da baixa lisboeta e por outros sectores, muitas vezes populares. Quando Eça escreve A Cidade e as Serras e a Civilização, o conto que está na origem de A Cidade e as Serras, o que pretende fazer é o elogio da sociedade portuguesa e das suas características mais marcantes e diferenciadoras. Inverte cento e oitenta graus a teoria que defendia nos anos anteriores! É, por isso, um Vencido da Vida, mesmo com todo o amuo irónico que possa caber na expressão. O Fialho dizia que os Vencidos da Vida nada mais eram que um bando de ratões jantantes. É possível que sim. Aqueles jantares de cartola e fraque não deviam ser muito mais que uma ida ao Grandela. O que importa reter é o seguinte: a geração de 70 está de mal com Portugal por ser uma sociedade demasiado ruralizada; as acusações são sempre contra uma urbanização insuficiente. Eis a geração de 70 na sua pureza mais crua». In Paulo Loução, A Alma Secreta de Portugal, Ésquilo Edições & Multimédia, 2004, ISBN 972-8605-15-3.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Portugal Terra de Mistérios Paulo Alexandre Loução. «… o pequeno templo, que em tempos comportava um mosteiro pertencente aos cónegos regrantes de Santo Agostinho, é marcado por expressiva sobriedade típica da arte românica…»

Cortesia de wikipedia e jdact 

Portugal Mítico
O mistério da cruz templária
«(…) Com a queda do império romano do Ocidente, no século V, a Europa entra numa profunda regressão cultural. O caos é completo, a barbárie e o desespero psíquico deixam os povos num estado de grande depressão, superstição e confusão mental; impera um estilo de vida primitivo e rústico. Por mais teorias que alguns historiadores defendam sobre a Luz na Idade Média, jamais se poderá escamotear a verdadeira idade obscurantista que constituíram, sem dúvida alguma, os séculos da Alta Idade Média, ou seja, as primeiras centúrias a seguir ao descalabro de Roma. Ler e escrever chegou a ser considerado diabólico; acreditava-se na fecundação das raparigas e das religiosas sem a intervenção masculina através de um ar espermático; após o grande ideal de higiene dos romanos, que nas suas majestosas termas cultivavam a máxima grega de mente sã em corpo são, muitas destas termas, como as de Caracala em Roma, não apenas se dedicavam ao corpo como também eram palco de inúmeras actividades artísticas, como exposições de arte e concertos de música, a sujidade chegou a ser um ideal medieval. Só para dar um exemplo do fanatismo medievo citamos a demolição da enorme estátua da deusa Atena do Partenon, de ouro e marfim, obra de Fídias, para aproveitar o ouro fundido com o escopo de fazer pequenos amuletos cruciformes. A preservação da cultura ocidental foi possível graças aos árabes que viviam em áreas limítrofes do império romano; e ao trabalho das primeiras ordens monásticas, entre as quais se destaca a de S. Bento.
Apesar do anátema da Igreja lançado sobre as tradições religiosas da antiguidade, alguma da antiga sabedoria foi assimilada pelos monges e eremitas medievais. Sabe-se hoje que muita da tradição pagã foi assimilada sob formas cristianizadas. O problema é que a chave mistérica já tinha sido perdida, ou perdeu-se, entretanto. Mais do que o clero secular, normalmente demasiado absorvido por questões de ordem política, o clereo regular teve uma acção preponderante no necessário fortalecimento espiritual da Europa, para que esta pudesse de alguma maneira renascer das cinzas. Um estudo de Jeff Sawward mostra a relação dos locais sagrados da Europa pré-cristã com os primeiros mosteiros da Ordem de S. Bento, ou seja, demonstra que estes conheciam a rota telúrica dos lugares sagrados. As ordens monásticas, os eremitas cristãos e todo o ambiente do cristianismo do primeiro milénio deixaram uma marca profunda no Centro e Norte de Portugal. São o alvor do passado mítico que evocamos. Esse cristianismo, ao contrário da exposição da historiografia catolicista, foi plural. Basta lembrar o gnosticismo prisciliano, a ortodoxia de Paulo Osório, discípulo de S. Agostinho, que na sua Cidade de Deus veicula a filosofia mística de Plotino e uma concepção platónica da realidade, assim como a específica espiritualidade moçárabe, para além do cristianismo ariano que durante séculos foi a religião oficial dos Visigodos, Suevos e outros povos germânicos.
Desse tempo ficaram-nos alguns monumentos, poucos, embora preciosos, como documentos de uma época, mas é no período românico dos sé4culos XI e XII que encontramos uma riqueza impressionante de símbolos, vestígios de uma sabedoria arcaica ainda hoje praticamente indecifrável. Rota do românico no Norte de Portugal é algo de absolutamente deslumbrante e riquíssimo como património cultural, não apenas num âmbito nacional como europeu. Nestes templos românicos encontramos também a influência das Ordens de Cister e do Templo. E é na totalidade, frisamos, na totalidade destes templos românicos que encontramos insculpida a cruz orbicular (que tem forma de orbe, globular, esférica), que viria a ficar mais conhecida como cruz templária, visto que a Ordem dos Cavaleiros de Salomão a adoptou como sua insígnia principal no reino português. Por exemplo, no templo românico de S. Cristóvão de rio Mau, perto de Vila do Conde, encontramos esta cruz insculpida ao redor de todo o templo. Este facto revela bem a importância deste símbolo como talismã protector. 

«Situado em Vila do Conde, o pequeno templo, que em tempos comportava um mosteiro pertencente aos cónegos regrantes de Santo Agostinho, é marcado por expressiva sobriedade típica da arte românica. Apesar de se tratar de uma edificação regional, levantada em granito de segunda escolha, nem por isso deixa de revelar certa qualidade construtiva. Nesta edificação facilmente se percebe que o corpo e a cabeceira não foram feitos pela mesma mão, nem os materiais utilizados são da mesma qualidade.A fachada principal, construída em silhares de granito, é dominada por um alçado ressaltado em relação ao resto do frontispício, onde se inscreve um pórtico de três arquivoltas ligeiramente elevadas, arredondadas e molduradas, no contorno externo, por friso de elegantes entrançados. As arquivoltas são sustentadas por seis colunas (três de cada lado) capitelizadas e preenchidas com ornatos de cariz vegetalista. No tímpano encontra-se incipiente baixo-relevo, tendo ao centro uma figura com mitra e báculo, abençoando no meio da representação de duas figuras atarracadas, ostentanto livros abertos. Um pássaro sob um sol e uma sereia, segurando uma lua, ladeiam este conjunto. Remata o alçado empena triangular coroada com cruz inscrita num círculo, semelhante à da Ordem dos Templários. Nas fachadas laterais aparecem-nos duas outras portas, uma delas com o tímpano preenchido por dois dragões a lutar e uma moldura ressaltada suportada por dois modilhões. O interior, de nave única e planta retangular, é realçado por um baixo-relevo representando um Agnus Dei, reminiscência da fase românica inicial. O arco triunfal é composto por três arquivoltas de arestas sustentadas por colunas de diferentes perfis. A capela-mor é construída em bom granito, constituindo o trecho mais valioso desta igreja. Separada em dois setores pelo lançamento de um arco que reforça a cobertura de abóbadas de berço, ela é valorizada pela arcaria cega de colunas capitelizadas nas paredes. Os capitéis são trabalhados numa peculiar iconografia, onde se representam toscas e volumosas figuras humanas, animais fantásticos e aves de grande efeito plástico». In Infopédia. 
 
 
O templo românico é um espaço sagrado onde reina o cosmos, protegendo o homem do caos, da instabilidade e insegurança, que vigora no exterior». In Paulo Alexandre Loução, Portugal, Terra de Mistérios, Edições Ésquilo, 2001, ISBN 972-8605-04-8. 

Cortesia de Ésquilo/JDACT

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A Alma Secreta de Portugal. Portugal Imaginal. A ‘Fonte’ da Alma Secreta. «… análise já efectuada por Antero de Quental, que se queixa de Portugal nos últimos séculos ter sido governado por estrangeirismos, quer dizer ter perdido o seu génio próprio. Inverter essa tendência foi uma necessidade do escol da Renascença?»

Cortesia de wikipedia e jdact

As três colunas da Cultura Portuguesa. Entrevista com António Cândido Franco
«(…)
Oponhamos ao catolicismo, não a indiferença ou uma fria negação, mas a ardente afirmação da alma nova, a consciência livre, a contemplação directa do divino pelo humano (isto é, a fusão do divino e do humano), a filosofia, a ciência, e a crença no progresso, na renovação incessante da humanidade pelos recursos inesgotáveis do seu pensamento, sempre inspirado. In Antero de Quental

Paulo: Li o seu artigo, Oliveira Salazar e a Filosofia Portuguesa, publicado na Teoremas de Filosofia 2, que considero do maior interesse por evidenciar a existência de três colunas da cultura portuguesa do século XX e, tão importante como isso, por assinalar que o seu tronco central, que em grande medida pode ser associado à Renascença Portuguesa, movimento a que pertenceram grandes amantes da portugalidade como Teixeira de Pascoaes e Jaime Cortesão, não pode, em abono da verdade, ser conotada com a filosofia e a política que inspirou o Estado Novo. Se me permite, citarei dois parógrafos desse artigo: a cultura portuguesa do século XX é constituída por três braços ou colunas. A coluna da esquerda é representada pelo magistério de António Sérgio e pelo desejo de progresso social. A coluna da direita aparece orquestrada pela actividade pública de António Sardinha e pela batalha da ordem política. A coluna central da cultura portuguesa do século XX foi malignamente esmagada pelos violentos encontrões da direita e da esquerda, que preferiram disputar entre si a seiva da árvore, mesmo com risco de the secarem as raízes, a reconhecerem o tronco central donde medraram.
Pedia-lhe que, de forma sucinta, transmitisse aos nossos leitores, como surgiu e quais os objectivos do chamado movimento da Renascença Portuguesa...
António: A Renascença Portuguesa tem que ser contextualizada no 5 de Outubro de 1910. A associação é fundada em 1911, em Coimbra, e aparece como um desejo de refundação cultural da Pátria portuguesa: a Renascença Portuguesa, quer dizer o renascer de Portugal. Aí é preciso perceber que, paralelamente, está a haver uma refundação do regime político em Portugal, que representa um novo património de esperanças, numa alteração daquilo que seria o futuro de Portugal, através da República. A Renascença aparece como o escol cultural que visa oferecer um suporte filosófico a essa refundação do regime, oito séculos depois da fundação histórica de Portugal. Teixeira de Pascoaes, Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão, Augusto Casimiro, António Sérgio e Raul Proença são o grupo fundador da Renascença Portuguesa.
Paulo: Portanto, quando eles denominam o seu movimento como Renascença, fazem-no com base na origem de Portugal.
António: É com base na origem em 1140, 1120 ou em 1096, como quisermos. Oito séculos depois, no século XX, a Renascença Portuguesa sente a necessidade de refundar, de recriar de propiciar um segundo parto a Portugal. O objectivo está aqui consagrado.
Paulo: Isso vem um pouco na sequência da análise já efectuada por Antero de Quental, que se queixa de Portugal nos últimos séculos ter sido governado por estrangeirismos, quer dizer ter perdido o seu génio próprio. Inverter essa tendência foi uma necessidade do escol da Renascença?
António: Certo. Apesar de no Antero de Quental não estar a identificar tanto isso. No Antero de Quental que escreveu as Causas da Decadência do Povos Peninsulares, vejo sobretudo a crítica do atraso português em relação à Europa.
Paulo: Antero, mais precisamente, critica de forma mordaz o catolicismo romano pós-tridentino como elemento descaracterizador dos povos peninsulares. Por outro lado, refere-se muito à falta de iniciativa...
António: É a falta de iniciativa, o recuo que Portugal tem em relação à Europa e a necessidade de europeizar Portugal. Isso é o Antero das Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. No entanto, há no Antero todo um desejo de renovação que influenciou muito a geração da Renascença Portuguesa. Saliente-se que entre a geração da Renascença Portuguesa, do Pascoaes ao Raul Proença, e a geração de 70 de que o Antero é uma das grandes estrelas, há uma geração intermédia a que podemos chamar a geração de 90. É, a geração que faz o 31 de Janeiro, a primeira revolução republicana do Porto; é a geração do Sampaio Bruno, do António Nobre, do Alberto de Oliveira, do Basílio Teles, do Raul Brandão e do Justino de Montalvão. Digamos que o Raul Brandão, o Sampaio Bruno e o António Nobre são as três personalidades marcantes, um na prosa, outro no verso e o outro no pensamento. É muito importante ter em atenção que a geração da Renascença vai herdar uma dupla herança, a herança da geração de 70, que é muito europeizante, muito critica, e a herança da geração de 90, que, depois do Ultimatum, apareceu muito recentrada no esforço interno.
Paulo: As pessoas hoje ouvem falar com frequência nos Vencidos da Vida. Ora aí temos um pouco a geração de 70…
António: Os Vencidos da Vida são a geração de 70 apanhada no cruzamento da geração de 90. E, ante ela, o Antero, o Eça e o Oliveira Martins sentem-se vencidos pela vida; vencidos pelas ideias da geração do Sampaio Bruno e do António Nobre e porque nunca conseguiram, no fundo , realizar aquilo a que se tinham proposto nas Conferências do Casino». In Paulo Loução, A Alma Secreta de Portugal, Ésquilo Edições & Multimédia, 2004, ISBN 972-8605-15-3.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A Alma Secreta de Portugal. Portugal Imaginal. A ‘Fonte’ da Alma Secreta. «Como hermeneuta da literatura, aprofunda os grande temas enunciados pelo génio de Amarante, com destaque para o aprofundamento relativo à temática que gira à volta da ‘saudade’»

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A Quinta da Regaleira e o Portugal Imaginal. Entrevista com José Manuel Anes 2ª Parte. Da evidência da Identidade Imaginal Portuguesa à necessária Re-criação da tradição

(…)
José: É imaginativo e corresponde a uma característica desse ar criador grandioso do Carvalho Monteiro e do Luigi Manini, que vão dar uma expressão cristã a um mito pagão numa continuidade absoluta. Não há descontinuidade nenhuma. Ele vai cristianizar, com essa fecundação de Leda por Zets, fecundação por obra e graça do Espírito Santo. Espírito Santo que está representado pela pomba.
Paulo: A pomba do Espírito Santo aqui poderá significar, no pensamento dos seus autores, o advento da era do Espírito Santo...
José: Repare, o Espírito Santo é causa e efeito. Eu penso que eles aqui dão uma grande piscadela de olho ao leitor destes símbolos e deste conjunto do imaginário da Regaleira dizendo: aqui está a concepção da imaculada Leda, concepção divina, por Zeus, por obra e graça do Espírito Santo. Há uma piscadela de olho dizendo: atenção, estas linguagens são universais e, quer o paganismo quer o cristianismo, embora em registos diferentes, dizem a mesma coisa, que é: a fecundação de uma matéria virgem, sempre virgem por mais fecundada que seja, da qual nascem, naturalmente, Pólux ou Cristo. Portanto, o Espírito Santo está na raiz deste processo, mas também pode ser efeito. O Espírito Santo é o mediador e propicia essa união, a fusão do masculino e do feminino, do espírito e da matéria, mas, por outro lado, é também o resultado dessa união. Essa ambiguidade do Espírito Santo tem uma dimensão activa e masculina, mas também tem essa dimensão feminina. É, digamos, a Sekina, é a presença de Deus, como aparece na tradição judaica.
Paulo: O Espírito Santo era feminino segundo o Evangelho dos Hebreus, e para os gnósticos era a Sophia...
José: Mas a Sophia é o equivalente à alma do mundo, a Anima Mundhi. E quando se quer valorizar o imaginário, temos de nos recordar de que o objectivo desses grandes nomes desta espiritualidade, como Corbin, Jung, Durand, etc., era exactamente a valorização da alma do mundo, a recuperação, a reconquista da alma do mundo. Esse é o grande desafio». In Quinta da Regaleira, Sintra, 2002.

As três colunas da Cultura Portuguesa. Entrevista com António Cândido Franco
«António Cândido Franco nasceu em Lisboa. Tem consagrado grande parte da sua investigação ao estudo da obra de Teixeira de Pascoaes. Para além de lhe dedicar o doutoramento, tem dez obras publicadas sobre o grande vate de Amarante. Cândido Franco percorre a obra do génio saudosista, com a mesma intensidade de alma e coração que o bardo da Renascença peregrinava pelas alturas do Marão, em plena comunhão com o espírito da serra, esse mesmo espírito que dois milénios antes foi cultuado pelos povos galaicos com o nome de Reve Marândico. Mas o trabalho hermenêutico de Cândido Franco ultrapassa a obra de Pascoaes no seu sentido estrito. Como hermeneuta da literatura, aprofunda os grande temas enunciados pelo génio de Amarante, com destaque para o aprofundamento relativo à temática que gira à volta da saudade.
António Cândido Franco tem tido, também, ampla actividade no âmbito da crítica literária, com largas dezenas de artigos publicados, nomeadamente no Jornal de Letras. A musa inspiradora da literatura paira sobre a sua escrita, seja na prosa ensaística ou ficcional. As suas palavras cruzam-se harmoniosamente, transportando o sentido do seu pensamento com a mesma naturalidade que o rio encontra as águas profundas do oceano. O seu estilo recorda-nos, inevitavelmente, o padre António Vieira; a sua abordagem filosófica, o pensamento de António Telmo.
Por coincidência, publicamos esta entrevista no cinquentenário da morte física de Teixeira de Pascoaes (1877-1952), razão pela qual não podemos deixar de prestar sentida homenagem ao grande bardo lusitano, autêntico Midas da literatura, pois tudo o que tocava com a sua escrita transformava na harmonia dourada da beleza poética. De tal modo por ele fluía a água cristalina das Musas que, por vezes, nas suas poesias, ele próprio parecia transformar-se nessa água abençoada pelos espíritos da natureza. Para ti, Teixeira, que hoje vives livre no teu Marão imaginal, um forte abraço em espírito... Sabemos que estás aí, sabemos que o teu Marão é mais verdadeiro do que todas as luzes fugazes e efémeras, nascidas no seio de Maya para alimentar as ilusões dos humanos.

In Paulo Loução, A Alma Secreta de Portugal, Ésquilo Edições & Multimédia, 2004, ISBN 972-8605-15-3.

Cortesia de Ésquilo/JDACT