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quinta-feira, 12 de março de 2020

O Pecado e a Honra. Maria João Câmara. «Mas nem todos os nobres assim o fizeram com ânimo e obediência. O duque de Bragança, Fernando, e seus irmãos, houveram esta obrigação por áspera e prejudicial às suas honras…»

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«(…) Ao vergar-se, Lucena pôde ver um pingo de suor escorrer de seu nariz e cair na tábua do soalho. Depois, a um gesto de dom João, endireitou-se tão depressa quanto conseguiu e dirigiu-se para o lugar que lhe competia, atrás do trono, limpando com a manga do gibão o suor que teimava em cair-lhe sobre a testa enrugada. As palavras encomendadas ao letrado eram muito claras. As prerrogativas reais eram para ser mantidas. As suas leis obedecidas. E quem contra elas quisesse tomar peitos haver-se-ia com a sua justiça. O arauto anunciou então a cerimónia que se seguiria: o preito e a menagem. Imediatamente, um dos conselheiros desenrolou um pergaminho que tinha na mão e, curvando-se ao lado do trono e endireitando-se novamente, estendeu-o e virou-o na direcção da assistência, para que cada um pudesse ler as palavras ali escritas quando se ajoelhasse frente a dom João. Se não soubesse ler, que era o caso da maioria, repetiria as palavras ditas pelo conselheiro.
E todos se prepararam para o que consideravam uma grande honra: era a El-Rei de Portugal que prestavam preito e era através dele que defenderiam o reino e, se fosse caso disso, por ele dariam a sua própria vida. Formou-se grande fila ao centro da grande sala. O Rei sentado no trono e cada vassalo de joelhos diante dele, humilde e submisso, as mãos juntas e metidas entre as mãos d’El-Rei, proferindo os termos da menagem, que assim se iniciavam: muito alto, muito excelente e poderoso, meu verdadeiro e natural Rei e Senhor, eu vos faço preito e menagem pelo vosso castelo de que ora me encarregais… Vos faço preito e menagem pela alcaidaria, pelo senhorio. Vos faço preito, meu Rei e meu Senhor, porque sois como um pai, um guia, uma luz de sabedoria e de governo. E ajoelhavam-se os que vinham do Norte e os que vinham do Sul. Os que vinham dos lados do mar e os que vinham dos lados de Castela. Todos, colocando as suas mãos entre as do monarca, lhe prestavam vassalagem: … e nele farei a guerra e manterei a paz segundo por vós Senhor me for ordenado… E mesmo os grandes do reino, que com muitas mercês haviam agraciado os reis anteriores, se ajoelharam frente ao rei João, o segundo de seu nome.
Mas nem todos os nobres assim o fizeram com ânimo e obediência. O duque de Bragança, Fernando, e seus irmãos, houveram esta obrigação por áspera e prejudicial às suas honras, pois nem seus pais nem seus avós haviam feito menagem aos reis anteriores! Tinham recebido o privilégio de não terem de prestar este juramento, uma vez que os seus antepassados, tanto que haviam sido fiéis aos reis antigos, que estes haviam por fiéis aos seus descendentes, já que pelo sangue se herdam as virtudes, a honra e o carácter dos antepassados. O duque, havendo-se por apoucado, sentiu-se muito enfadado: El-Rei o não considerara! Humilhara-o perante os seus pares e perante os seus parentes! Por esta razão, enquanto uns se ajoelhavam na justa obediência, ouviu-se um burburinho. Já os Braganças murmuravam entre si contra aquela afronta à família que descendia do condestável Nun’Alvares e que, por seus feitos, havia livrado o reino das garras de Castela, quase cem anos antes! E por suas mãos, as mãos de um herói, haviam os seus descendentes recebido este privilégio de não deverem prestar menagem por castelo nenhum, por nenhuma justiça, por senhorio algum! E agora, outros grandes do reino que haviam jurado a todos os reis por suas linhagens desde Afonso, o Conquistador, murmuravam também sobre se deveriam eles voltar a fazê-lo a João?» In Maria João Câmara, O Pecado e a Honra, Oficina do Livro, Leya, 2012, ISBN 978-989-555-830-8.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

O Pecado e a Honra. Maria João Câmara. «Outros esfregavam as mãos nervosamente. Outros olhavam o chanceler nos olhos, aguardando as suas palavras. Molhando um pouco os lábios, Vasco Fernandes Lucena prosseguiu…»

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«(…) Silenciadas todas as vozes, El-Rei fez um sinal ao chanceler Vasco Fernandes Lucena. Este avançou um pouco e, diante do Rei, pediu permissão para iniciar o seu discurso. Quase distraído, perscrutando cada movimento, cada olhar, cada nobre, cada procurador, o rei João fez um sinal com a mão direita para que o chanceler avançasse. Vasco Fernandes Lucena era um homem sumamente considerado e inteligente, letrado e embaixador, jurisconsulto tão digno quanto idoso. Magro, os cabelos brancos que lhe faltavam na parte superior do crânio sobravam-lhe dos lados tocando-lhe os ombros. Pigarreando, Lucena começou o discurso que tinha combinado com El-Rei e preparara com todo o cuidado. Costumavam, mui alto mui excelente e mui poderoso Príncipe e mui virtuoso Rei nosso senhor, receber os reis todos os dons dos seus súbditos e, como príncipes liberais e benéficos, retribuíam-lhes em grandes mercês os serviços que recebiam. Sabendo que em vossa aclamação, quando Vossa Alteza tomou título e nome de rei, os três estados do reino vos não deram menagem, vos não deram obediências, vos vêm hoje oferecer seus serviços, vos vêm dar as suas menagens e obedecer em tudo como por direito devem e são obrigados. Lucena alongou-se então, explicando por mor da compreensão de todos o que era a menagem, que todos a deveriam jurar e assim mostrar o quão fiel era cada um ao seu soberano, e prosseguia: o que a seu senhor jura fé e menagem, sempre deve ter na memória estas seis coisas: saúde do corpo de seu senhor, que não lhe descobrirá nenhum segredo, nem lhe fará dano nas coisas, porque seu estado deve ser seguro, que não fará dano em sua justiça, que não fará dano em sua fazenda, que não fará difícil a seu senhor aquilo que possivelmente pode fazer. E aquilo que possivelmente pode fazer-lhe não fará impossível. Depois perorou sobre a obediência que deveriam os súbditos a seu Príncipe e Rei sem excepção alguma. O chanceler parou por momentos. Engoliu a pouca saliva que tinha na boca e olhou em volta, tentando perceber o sentir de todos os que o escutavam. Uns nada entendiam, mas fariam o que os outros fizessem, outros entendiam e acatavam, outros tentavam entender e acatar, e outros ainda duvidavam de tantas e tão abundantes palavras. El-Rei, imóvel no trono, segurando o manto, mantinha-se impenetrável na sua postura erecta, olhando Lucena directamente, os olhos brilhantes e aguardando o final do discurso. Os nobres, alguns imóveis, outros desconfortáveis, olhavam para o chão ou para o tecto, ou mexiam nervosamente as mãos. Todos os que estavam de pé passavam o peso de uma perna à outra, tentando encontrar alívio nas dores que sentiam por estarem sem assento desde manhã cedo.
Outros esfregavam as mãos nervosamente. Outros olhavam o chanceler nos olhos, aguardando as suas palavras. Molhando um pouco os lábios, Vasco Fernandes Lucena prosseguiu, agora com grandes gestos, grande fervor e muito entusiasmo: quem verdadeiramente obedece ao seu Rei faz coisa digna de sua honra e de seu glorioso nome. Dai a vosso Rei vossas obediências, vossos preitos e menagens, jurai-o por vosso verdadeiro Rei e por senhor destes seus reinos e senhorios porque menagens que pelos grandes fidalgos e cavaleiros e outras pessoas se hão-de dar a Sua Alteza pelas fortalezas, vilas e lugares e jurisdições e coisas que tem da coroa, e são obediências que no tempo presente se dão, não se podem tomar! Deferi Sua Alteza para o tempo que vier, que é serviço seu e daquele que eternamente vive e reina na glória por sempre e ámen! Quando Vasco Fernandes Lucena terminou, ouviu-se um murmúrio de aprovação e o chanceler fez uma profunda vénia na direcção do trono. O calor na sala tornara-se insuportável. O cheiro de pouca lavagem e o bafo dos corpos aquecera-a tanto como se ali estivesse acesa uma grande lareira cheia de boa lenha». In Maria João Câmara, O Pecado e a Honra, Oficina do Livro, Leya, 2012, ISBN 978-989-555-830-8.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

terça-feira, 3 de março de 2020

O Pecado e a Honra. Maria João Câmara. «Alguns procuradores emocionaram-se com a vista, primeira, por vezes, do seu Rei, do seu pai, do seu protector. Alguns suavam, já pelo calor da sala, já pelo esforço que tinham de fazer para se manterem em pé…»

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«(…) O início dos trabalhos das Cortes de Évora fora marcado para a manhã do dia 12. Pouco antes das nove horas já findara a missa em S. Francisco e, atravessando o adro da igreja, virando logo ali à esquerda, viam-se gentes vindas de muitas partes do reino. Começavam a chegar ao paço os procuradores das terras que, enchendo a arcaria do piso inferior e subindo uma escada larga e redonda, se iam instalando de pé, logo à entrada da sala do trono, cujas paredes laterais mais não eram do que graciosas janelas em arco de volta perfeita, de vidros pequenos, geometricamente coloridos, deixando ver um gracioso jardim de ambos os lados. As cortinas vermelhas e armoriadas que tapavam as portas conferiam mais cor à sala que, nessa manhã de Novembro, tanto tinha sol como não, tanto se alegrava como entristecia, porque o dia estava intermitente. Ao fundo, do lado oposto à entrada, estava o trono com seu baldaquino adamascado de vermelho e bordejado de cordão de ouro. Os nobres instalavam-se à esquerda do trono e, à direita, os clérigos, numa ordem perfeitamente determinada e respeitada. O burburinho fazia-se ouvir para lá do paço e do convento, mais acima, e só baixou de tom quando os guardas reais içaram as lanças. João saía dos seus aposentos e dirigia-se para o salão. Nesta ocasião solene fez-se preceder pelos arautos, que gritavam a compasso Aqui vem El-Rei de Portugal!, e pelo rei-de-armas que, com grande pompa, levava uma imponente e gigantesca bandeira de seda onde se viam as armas reais: os sete castelos, as quinas, os besantes em aspa, como as chagas de Cristo, nos escudetes já não derribados e as flores-de-lis retiradas.
Atrás, vinham os conselheiros, entre os quais o chanceler Vasco Fernandes Lucena, a quem havia El-Rei encomendado o discurso de abertura. Seguiam-se os desembargadores, os vedores e, finalmente, um grupo numeroso e confuso, que incluía os restantes conselheiros e muitos fidalgos da Casa Real. Entre eles, Henrique, e, a seu lado, Rodrigo, que via pela primeira vez de perto a pessoa real, pelo que era com grande respeito e emoção que ali se encontrava. Recordaria para sempre o momento em que o Rei, ao sair dos seus aposentos para se dirigir a esta sala, cumprimentava alguns dos fidalgos que o aguardavam para o acompanhar, lhes deu a mão a beijar, num gesto de grande favor, e assim fez ao passar por Henrique e depois por ele. Imitando seu pai, Rodrigo ajoelhara imediatamente e, tremendo, tomou a régia mão e beijou-a como se disso dependesse a sua vida. Mantendo a posição de joelhos, os fidalgos ergueram-se apenas quando o Rei prosseguiu o caminho, e incorporaram-se depois no cortejo. No salão, ouvidos os arautos, imediatamente cessou a vozearia. O Rei entrou na sala, atravessou o corredor central que se formou imediatamente na direcção do trono. Foram então gritados Vivas! e as exclamações de júbilo e espanto eram tão mais exuberantes quanto mais distantes os municípios das cidades principais.
Alguns procuradores emocionaram-se com a vista, primeira, por vezes, do seu Rei, do seu pai, do seu protector. Alguns suavam, já pelo calor da sala, já pelo esforço que tinham de fazer para se manterem em pé, por serem velhos, mancos ou doentes... Quanto a El-Rei, alto, enxuto e bem feito, tinha o rosto comprido e barbudo. Os seus cabelos castanhos e corredios mostravam já algumas cãs, que lhe davam grande contentamento pela muita potestade que à sua dignidade real iam acrescentando. O nariz um pouco comprido e derrubado, o seu rosto corado, demonstravam a sua predilecção pelo ar livre e pela caça. Sobre os ombros trazia um manto feito de seda branca, forrado de pele castanha e debruado com rica passamanaria de ouro. Tomou El-Rei assento com elegância e pompa, colocando o manto sobre a perna direita e deixando a descoberto a outra perna. Colocando uma das mangas um pouco acima do pulso, dirigiu o olhar aos procuradores, aos clérigos e aos grandes do reino, a todos e a cada um. Todos eles baixaram a cabeça imediatamente, em sinal de obediência e de submissão. Para seu espanto, o duque de Bragança susteve o olhar por um segundo ficando na impressão d’El-Rei uma sensação de desafio, ainda que ténue. A um gesto seu, tomaram assento os que o podiam tomar, com alívio das cruzes e das pernas: as dignidades eclesiásticas, os duques, os marqueses e os condes. Todos os outros permaneceriam de pé». In Maria João Câmara, O Pecado e a Honra, Oficina do Livro, Leya, 2012, ISBN 978-989-555-830-8.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

O Pecado e a Honra. Maria João Câmara. «… alinhados em sua ordem e pagamento. E o barulho das pedras do ábaco coloria também o som do garatujar e as surdinas conversadas, assim como os ruídos da rua que chegavam aos ouvidos de todos, peneirados por portas e janelas várias»

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«(…) Nos meses seguintes, Rodrigo Figueira pouco modificaria a sua rotina, excepto pelo intuito de cumprir o seu papel de procriador, fazendo visitas regulares ao ventre de sua mulher, onde esta o recebia quase com indiferença. Como desejava, como todo o homem honrado, ter descendência, carne da sua carne, sangue do seu sangue, essas visitas eram regulares mas sem grande exuberância. A Maria bastou-lhe anunciar que estava pejada para ter o seu sossego. Rodrigo não a procurou mais. E cerca de nove meses depois do dia do casamento, nasceu Francisco, matando do parto a sua mãe que, esvaída em sangue, apenas teve tempo para olhar para a criatura que gerara e sorrir levemente, terminando a sua passagem por esta vida e partindo para uma melhor. Rodrigo Figueira ficou, apesar de tudo, desconsolado. Havia sentido uma genuína afeição pela sua mulher. Voltou para sua casa, na rua da Costa do Castelo, a norte da muralha do castelo de S. Jorge e deixou de vez a casa dos Jácome. A criança foi entregue aos cuidados de uma ama. Enquanto não crescesse, roçar-se-ia pelas saias da casa. Seu pai, esse, ficaria para sempre um distante desconhecido.

Rodrigo Figueira obteve a graça do Rei no ofício de escrivão da Fazenda por promessa que Sua Alteza havia feito a seu pai, Henrique Figueira. Foi com este que Rodrigo andou aprendendo as minudências do ofício, e não se tratava apenas de saber escrever, implicava saber contar. Contar os ganhos d’El-Rei, somar-lhe os rendimentos de suas fazendas, do ouro vindo de África, do açúcar das ilhas. E depois havia que saber diminuir destes, os gastos de sua Casa e da corte, do aprovisionamento das naus e das caravelas que partiam rumo ao desconhecido, dos soldos dos seus oficiais e de todos os benefícios que outorgava em tenças e mercês aos fidalgos de sua Casa. Tratava-se ainda de estar familiarizado com os trâmites dos processos, pleitos e acções, contra e a favor do Rei, por assuntos respeitantes às suas terras, rendas e bens. Por vezes, era até necessário ir à Casa dos Contos.
A Casa dos Contos, situada junto à Alfândega, no terreiro central perto do rio Tejo, tinha três grandes salas que comunicavam entre si: uma primeira onde se podiam ver várias mesas lado a lado, com as escrivaninhas, e onde muitos dos escrivães trabalhavam quando não levavam os seus quefazeres para casa; uma segunda onde os vedores da Fazenda despachavam os assuntos com os escrivães que lhes assistiam ali, porque na maior parte das manhãs mandavam-nos chamar a suas casas e ali resolviam os assuntos do Rei; numa terceira estavam guardados todos os livros de registo e despacho. Num dos cantos desta sala era guardado o material de escrita: resmas e cadernos de papel, alguns pergaminhos, frascos de tinta acabada de fazer, tinteiros com rolhas novas, penas por afiar. No Verão, o sol entrava nestas salas pelas janelas abertas, vendo-se o pó que pairava alegremente no ar, por cima da papelada. No Inverno, a luz era coada por telas de pergaminho oleadas que vedavam um pouco o frio e evitavam a chuva, mas que obrigavam a acender as velas dos castiçais colocados em cada mesa antes de terminar o dia. Portanto, na Casa dos Contos escrevia-se e contava-se. Ouvia-se a pena a correr ligeira sobre o papel ou sobre o pergaminho. Ligeira e afiada. O dedo polegar e o indicador, tingidos de tinta, denunciavam o ofício da escrita e de quantos nela perdiam o tempo e ganhavam a vida. E a linha de conta em que entravam os papéis das despesas, furados por uma agulha e assim alinhados em sua ordem e pagamento. E o barulho das pedras do ábaco coloria também o som do garatujar e as surdinas conversadas, assim como os ruídos da rua que chegavam aos ouvidos de todos, peneirados por portas e janelas várias.
Mas este ofício, como muitos, embora tivesse lugar próprio em Lisboa, não se limitava ao espaço da Casa dos Contos. A corte era o Rei e onde o Rei pousava, assentava o governo do reino. Este tinha nos escrivães da Fazenda um dos seus pilares, porque o registo, cada vez mais minucioso, de todas as disposições régias sobre a sua Fazenda era da atribuição do escrivão. E um escrivão de confiança acompanhava o Rei nas suas deslocações e, se fosse hábil, poderia converter-se num homem de seu conselho e aviso, e participar até nas suas acções heróicas. Assim sucedia com Henrique Figueira, que já fora homem de mão de Afonso V (com ele estivera na batalha de Toro) e seria depois de João, o segundo, seu filho, o qual, aclamado no recinto do jogo de futebol de Sintra, em Agosto, imediatamente convocou as Cortes para Novembro desse ano de 1481, em Évora. Henrique, pelo crédito que tinha junto do anterior Rei, converteu-se num dos seus homens de confiança. E Rodrigo pretendia seguir os passos de seu pai: durante a aprendizagem, apresentou-se na Casa dos Contos, dispôs-se a saber sobre todas as propriedades régias, todos os pauis e lezírias, todas as causas e pleitos de justiça, todos os casos de cobranças e penhoras, todos os assuntos que requeriam mais esforço, mais concentração, mais saber, maior argúcia e toda a memória de um homem. Rodrigo Figueira mostrou-se a par das urgências e das pendências e respondeu a todas as perguntas. E viu o seu esforço recompensado quando, pela primeira vez, foi destinado a acompanhar El-Rei a Évora, para as ditas Cortes, nos paços de S. Francisco, onde estaria também seu sabedor pai. Mas Rodrigo, apesar das suas excelentes inclinações, teria ainda de comer muito pão e palmilhar muitos carreiros para atingir o prestígio que o saber ancião confere». In Maria João Câmara, O Pecado e a Honra, Oficina do Livro, Leya, 2012, ISBN 978-989-555-830-8.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

O Pecado e a Honra. Maria João Câmara. «Maria Jácome tremia como varas verdes. Entrava na igreja com o coração desvairado de pavor. Sabia desde cedo, e industriada pela mãe, que o seu destino era o casamento e que nunca poderia escolher o seu noivo»

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«(…) João Lourenço, o pobre, estava ao serviço do Rei, como pajem do livro, benesse que este lhe fizera por mor da estima que tinha a Henrique Figueira. Mas El-Rei aborrecia-se de ter João Lourenço por perto e não via nele senão um empecilho. O mordomo-mor que o ocupasse, o guarda-roupa que o entretivesse, o porteiro que o levasse para longe..., é que João Lourenço era desastrado e bastante distraído. Era raro pedir-se-lhe algo que fizesse de fio a pavio, isto quando se não esquecia por completo da tarefa que deveria desempenhar, levar ou procurar o livro de horas d'El-Rei, ou segurá-lo para que Sua Alteza lesse, e ficava atarantado, levando tabefes e cascudos de várias mãos. Mas agora, longe das trafulhices do paço, no momento do casamento de seu irmão mais velho, estava feliz, saltitava de um pé para ou outro e parecia que a sua vida corria de feição, com vantagem para todos. Cruzando os olhares, os irmãos sorriram. Era uma bonomia que nenhum deles se permitia ter com mais ninguém. Quanto a Henrique, já tomara assento na igreja, perto do noivo e também aguardava serenamente. Rodrigo Figueira apercebeu-se da chegada da nubente pelo burburinho que se começou a ouvir na rua. No adro da igreja o povo aplaudia, gritavam-se votos de felicidade, as crianças em desatino corriam em todas as direcções. Nesse momento, o noivo ergueu-se, esperando que a noiva assomasse à porta do templo. A prometida vinha coberta de um manto de veludo verde-escuro, com capuz debruado a arminho. O vestido num tom de verde-claro, bordado a prata e pérolas miudinhas, brilhava ao sol. No momento em que transpôs a entrada da igreja, esse brilho diluiu-se. O cabelo de Maria, repuxado para trás, estava preso com uma coifa do mesmo tom do vestido, debruada com uma fiada de pérolas. A coifa segurava um enorme tufo de cabelo negro que chegava a meio das costas. O orgulho de sua mãe, Inês, fez com que percorresse o caminho todo, da liteira à porta da igreja, à volta da noiva, com gestos nervosos, endireitando o vestido aqui, repuxando a cauda, compondo aquela madeixa de cabelo. Tudo aquilo surgia aos olhos do noivo como um exagero, porque Maria era enfezada para todas aquelas arrecadas. Parecia muito mais atarracada! Rodrigo Figueira, sorrindo sempre, suspirou, pedindo a Deus que o ajudasse a suportar aquele dia que, no seu entender, já ia longo demais.
Maria Jácome tremia como varas verdes. Entrava na igreja com o coração desvairado de pavor. Sabia desde cedo, e industriada pela mãe, que o seu destino era o casamento e que nunca poderia escolher o seu noivo. Não tinha tido pretensões de o fazer, mas, de qualquer maneira, afigurava-se-lhe difícil dar este passo. Rodrigo Figueira, não sendo um homem belo, de cabelos cor do sol e com os olhos claros como água (como alguns que já vira na corte), era um fidalgo bastante atraente, ou razoavelmente aprazível. O corpo enxuto, mais alto do que o dela, tinha a particularidade de ter umas mãos compridas. Um rosto equilibrado, olhos de um castanho profundo e cabelos da mesma cor, cortados a direito e penteados à força de clara de ovo, para que ficassem junto ao crânio, e com uma franja pequena que lhe chegava apenas até ao meio da testa. O nariz afilado e o queixo um pouco proeminente suportavam uma boca carnuda. Sem querer, era precisamente na boca que, insistentemente, Maria fixava o olhar. Mantendo um sorriso condescendente, onde faltava a lasca de um dente incisivo, Rodrigo Figueira aguardou que a noiva chegasse ao altar, onde frei Bartolomeu iniciou de imediato o ritual e celebrou o sacramento entre os dois resignados noivos.
Seguiu-se um lauto repasto na casa do pai da noiva, animado por jograis e música. O vinho animou as hostes e todos folgaram com os noivos, os quais afinal dançaram e também riram com gosto. Mas olhando com alguma detença para Maria, podia antever-se a sua aflição. O medo do incógnito, o medo de não conseguir suportar este marido quase desconhecido, o medo de ter filhos e de não os ter. Quanto ao noivo, não havia grandes tormentas no seu espírito. Aproveitava o momento de folguedo e deixava que a festa seguisse o seu curso. Amanhã seria outro dia.
Ao final da tarde, os convivas, encharcados em suor, de estômago cheio, como poucas vezes o podiam ter, e inebriados pelo vinho, começaram a exigir que os noivos se recolhessem, batendo ruidosamente com os pés no chão e tocando com os copos uns nos outros. Ouviam-se gargalhadas sôfregas dos homens e risinhos escondidos das mulheres mais jovens. As solteiras olhavam o noivo com curiosidade e os solteiros invejavam-no. O ruído começou a ser ensurdecedor. Inês fez sinal para que sua filha se preparasse e não quis ver a sua cara de aflição. Então, Rodrigo Figueira pegou na mão da noiva com cuidado e, entre caretas e risadas das amigas, momices e gestos obscenos feitos à socapa pelos amigos, os noivos deixaram o salão e dirigiram-se para o quarto nupcial.
A câmara, afastada do bulício da festa, fora limpa e preparada com cuidado pelas criadas. Um candelabro de seis velas foi aceso por uma delas, que imediatamente se retirou. Cheirava a cera. Num leito de dossel de rico brocado veneziano, feito com lençóis de linho, alvos como poucos, um colchão e travesseiros novos e macios, Maria Jácome, filha da alentejana, deixou que os ventos do Atlântico irrompessem no seu ventre e terá sido nesse mesmo dia que concebeu o seu primeiro varão. Passava já da meia-noite e ainda se ouviam os sons de festa: gargalhadas e conversas, música e danças. De vez em quando, um som de vidro partido ou de escudela no chão, e mais gargalhadas. Até que os ruídos do festejo começaram a esmorecer. E, no rescaldo do bródio, apenas os ébrios permaneciam no salão, estendidos nos coxins, como retratos da sua própria miséria, enquanto os criados aproveitavam para sonegar os restos de comida espalhados, podendo fazer, eles próprios, o seu banquete». In Maria João Câmara, O Pecado e a Honra, Oficina do Livro, Leya, 2012, ISBN 978-989-555-830-8.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

sábado, 30 de novembro de 2019

O Pecado e a Honra. Maria João Câmara. «A cerimónia deveria ser por volta do meio-dia e já passava da uma hora da tarde. Teria acontecido alguma coisa? Maria.Jácome, assim se chamava a noiva de dezanove anos, de boa cara…»

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«(…) Nesse dia, Rodrigo Figueira entrou na igreja, trajando o seu melhor fato. O excelente veludo de seda da sua capa brilhava, mesmo com a luz fosca das velas que iluminavam o templo. Vislumbrou ao fundo o padre Bartolomeu. O sacerdote, de estatura baixa e rosto muito redondo e avermelhado, abria os braços, como que a recebê-lo. Bom dia! Como está vossa mercê? De boa disposição?, e acompanhava as perguntas com gestos um tanto teatrais. O cumprimento foi retribuído pelo fidalgo como uma obrigação de cortesia, sem convicção. Oh, sim, sim..., de mui boa disposição, disse sem grande entusiasmo, quase distraído, mais concentrado no passo que ia dar nesse dia, nessa cerimónia. Tomai assento, pois que uma noiva nunca, e insistiu, mas nunca, chega no tempo marcado. Sabeis como são complicados os toucados e os fatos, e sabe Deus que mais!..., afirmou, imitando os gestos femininos com meneios das mãos, fingindo ter sobre a sua careca um elaborado penteado.
Rodrigo Figueira sorriu e aceitou a sugestão, aguardando serenamente a chegada da noiva. Os seus sapatos, de um negro impecavelmente brilhante, revirados na ponta, começavam a incomodar as frieiras que tinha desde que os primeiros ventos haviam trazido o frio do Norte. Estava-se em Fevereiro e o sol espreitava, destemido e transparente, de um céu azul-turquesa. Um bom dia para o seu casamento! Entretanto, celebravam-se alguns ofícios de defuntos nas capelas laterais. As suas ladainhas ouviam-se, ininterruptas e constantes, como zumbidos de abelhas em volta das flores na Primavera. Fazia-se tarde. Rodrigo tentava distrair-se com o povo que entrava na igreja, gente que se benzia, baixava e levantava a cabeça em largos gestos repetidos, bichanava orações frente às imagens de sua devoção, percorria o perímetro da nave da igreja e saía do mesmo modo, mas já com a certeza de que os santos a quem pedira teriam ouvido as suas preces.
A cerimónia deveria ser por volta do meio-dia e já passava da uma hora da tarde. Teria acontecido alguma coisa? Maria.Jácome, assim se chamava a noiva de dezanove anos, de boa cara, um pouco sofrida e pesada para a sua idade, tinha um sorriso simpático e era bastante calada, segundo Rodrigo se apercebera nas poucas vezes que estivera com ela. Mas, além de alguns sinais salientes que marcavam a maçã do rosto do lado direito, não havia na sua aparência nada que a tornasse verdadeiramente feia, embora nada a fizesse especialmente bonita. Era aquele tipo de mulher que geralmente passava despercebido. Todavia, debaixo de uma aparente bonomia, Maria tinha os seus quereres. Devia ser o seu sangue herdado de Inês Sousa, sua mãe, um sangue alentejano, moldado por planuras sem fim, crestadas pelo calor abrasador e seco ou vergastadas pelo vento gélido e solitário. O pai da noiva, Pedro Jácome, era fidalgo estimado da casa do infante Fernando, pai do futuro rei Manuel I, homem da sua guarda pessoal.
Quanto a Rodrigo Figueira, o noivo expectante, era filho de Brites Alves, herdeira da enorme fortuna de seu pai, consubstanciada numa vastidão de terras ao redor da cidade de Santarém, e de Henrique Figueira, escrivão da Fazenda de Afonso V e muito seu privado. Brites falecera havia alguns anos, deixando os filhos ricos o bastante. Os irmãos de Rodrigo, Aires e João Lourenço, aguardavam calmamente no adro da igreja onde uma chusma de curiosos começava a ajuntar-se. Talvez por causa do hábito da Ordem Militar de Malta, branco e negro com a cruz de oito pontas que Aires envergava... Os olhares desviavam-se quando ele passava e uma aura de respeito e admiração rodeava-o desde que chegara a Lisboa. Aires viera do mosteiro Flor da Rosa. onde professara. Pedira licença ao mestre para ir para um local onde pudesse ter mais acção como cavaleiro militar sendo então designado para ir para Rodes, onde ficava a sede da Ordem. Estava. Pois, prestes a partir para esta ilha onde eram necessários cavaleiros dispostos ao sacrifício, uma vez que era constantemente atacada pelo Turco. Ainda no ano anterior, Maomé II, imperador otomano, a havia assediado, tendo sido então rechaçado. A derrota foi tão afrontosa para aquele imperador que, quando morreu. mandou que se escrevesse na sua sepultura o seguinte epitáfio: desejo conquistar Rodes e a Itália. Sonhos vãos, os dos defuntos! Quanto a Aires, levaria com ele a coragem dos cavaleiros portugueses e contribuiria para a salvação da cristandade!» In Maria João Câmara, O Pecado e a Honra, Oficina do Livro, Leya, 2012, ISBN 978-989-555-830-8.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

O Pecado e a Honra. Maria João Câmara. «Quando Teresa começou a botar corpo, crescendo e desenvolvendo-se, mandava-a para a Quinta do Lagar, no termo da cidade, para que fugisse do ar pestilento…»

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«(…) Apesar de tudo, o filho mais novo de dona Beatriz, Manuel, recebeu a notícia com naturalidade. Fora também com naturalidade que deixara de se deslocar a Odivelas. Isabel escrevera-lhe mil cartas, mandou recados e mensagens, recordando-lhe os encontros apaixonados, as palavras trocadas, os momentos de puro êxtase. Porque não vinha ele? Porque não lhe respondia? Porque desaparecera da sua vida assim, tão de repente e tão absolutamente? Mas apenas obteve o silêncio. Tentou sair do convento disfarçada de criada, para encontrar o pai do seu filho, para lhe suplicar que a acolhesse, que não a abandonasse, mas não pôde sequer passar a porta da clausura porque a abadessa a tinha tão vigiada como presa de milhafre antes de ser caçada. Finalmente, Isabel, desperta perante a dura realidade de um amor perdido, do abandono e da sua prenhez, chorava convulsivamente, pedindo a Deus que a levasse na hora de parir, como fazia a tantas mulheres. Fosse Ele servido fazê-lo, que ela Lho agradeceria para todo o sempre. Assim nasceria Teresa.
E depressa, antes que a mãe pudesse ver o rosto do rechonchudo bebé, um criado levando na albarda de um burro uma alcofa tapada, o entregou nas casas de morada do infante Manuel. Abandonada e separada de uma filha que lhe nascera de tão grande amor, Isabel fechou-se no seu desgosto. Nunca a esqueceu, nunca abandonou as recordações do seu grande amor e nunca transpôs os muros do convento, como tinha prometido à abadessa. Para criar esta criança, o infante Manuel entregou-a, com a medalha de São Dinis presa numa fita verde, a um seu criado, Brás Correia, desembargador e seu muito leal servidor. Brás Correia, sem filhos que dessem continuidade ao seu sengue, a tomou e dela fez o seu bem mais precioso, a sua jóia, o seu arrebatamento. Afinal, era a filha de seu senhor. Imediatamente mandou vir duas amas do Bombarral, não faltasse o leite àquela criança abençoada que o retiraria da solidão em que sempre vivera. E para que crescesse em saúde e em graça, fez visitas ao boticário, mandou preparar xaropes para que nenhuma tosse a consumisse, mandou que a untassem de pomadas e que lhe fizessem abluções constantes, apesar das ligaduras que a enfaixavam. Encheu o seu peito de bentinhos e orações escritas em panos de linho fino. Quando Teresa começou a botar corpo, crescendo e desenvolvendo-se, mandava-a para a Quinta do Lagar, no termo da cidade, para que fugisse do ar pestilento que invadia Lisboa no estio, para que bebesse a água fresca das nascentes, para que comesse a fruta mais madura, a alface mais tenra, a galinha mais gorda. A criança medrava, de facto, e respondia ao amor de Brás Correia com enorme ternura. Enchia a casa com o seu riso e a sua tagarelice (chegada a idade da comoção, Brás Correia não recordaria estes tempos sem que uma lágrima lhe caísse e sem que a voz se lhe embargasse), encantava todos com a sua alegria. Cresceu saudável e bela como uma maçã orvalhada.
Quanto aos seus olhos azuis, estes faziam as pessoas embasbacarem a olhar para ela... E ao tomar formas de mulher, Teresa começou a perguntar-se sobre a vida. E quando uma pessoa se pergunta pela vida, quer respostas. E Brás Correia, sem ter a certeza do que dizia, não pôde evitar dizer-lhe mentiras: sua mãe morrera quando ainda era pequena. E como se chamava ela? Isabel». In Maria João Câmara, O Pecado e a Honra, Oficina do Livro, Leya, 2012, ISBN 978-989-555-830-8.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

quinta-feira, 8 de junho de 2017

O Pecado e a Honra. Maria João Câmara. «Passearia apenas nos claustros, pouco, e, quando parisse a criança, se esta tivesse a sorte de sobreviver, entregá-la-ia a Manuel»  

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«(…) A criada veio com a candeia e levou outra vez o distinto senhor pelo estreito e escuro corredor até à portinhola que ele abriu lentamente, passando para o jardim. E, depois, bastou o isolamento do sicómoro e o desejo abafado para desencadear um fogo de grandes e fortes labaredas. As mãos em sofreguidão, as bocas unidas num beijo longo, parecendo que nada nem ninguém poderia afastar os dois do caminho que trilhavam com paixão e prazer incontidos. Ai, senhor! Onde me levais? E encontravam-se nos campos de cevada onde Isabel colhia a hortelã e a erva azeitoneira. Onde a sombra da laranjeira cobria todos os desvarios e a flor enchia o ar com o seu perfume.
Não sei, meu amor. Nem eu sei! E encontravam-se no meio do pequeno bosque de sobreiros e azinheiras, onde o funcho e o tomilho escondiam os seus segredos. E, depois, mais um e outro encontro escondido e um desejo contínuo, e um roçagar de panos e fatos, a bela capa de veludo escarlate estendida no chão, o leve tecido de seda esvoaçando sobre a erva fresca na brisa quente do Verão. O prazer roubado à quietude do tempo, parado na marmelada branca e no toucinho-do-céu, no esmagar das amêndoas e no partir dos ovos. E novamente o esbofamento, a urgência e as fugas para os arvoredos próximos e para os esconderijos que os havia com fartura por entre as paredes do convento.
Isabel, meu deleite, meu prazer, minha adorada dama com olhos da cor do mar e do céu! Beleza eterna! Minha razão de viver! Manuel, nome tão doce de pronunciar, nome pelo qual me perco e me acho, nome que me fala de amor profundo e eterno, nome pelo qual sou indigna de pisar o chão da casa que me acolheu. Minha perdição!
A novidade não seria estranha. Isabel ficou prenhe e, depois dos primeiros enjoos que muito afligiram por desconhecimento da causa, a abadessa logo compreendeu o que se passava e manteve-a fechada na sua cela, protegendo-a das murmurações das outras mulheres. Não assistiria sequer aos ofícios. Passearia apenas nos claustros, pouco, e, quando parisse a criança, se esta tivesse a sorte de sobreviver, entregá-la-ia a Manuel, afinal seria seu o filho, e este mais não faria que a sua obrigação. Ele que o criasse ou mandasse criar! Que tivessem andado os dois a ruflar, que Deus Nosso Senhor os perdoasse ou castigasse, se assim fosse o caso. Sob a sua autoridade e dentro do seu convento não haveria vergonhas e muito menos crianças, a afligir e a acrescentar despesas e trabalhos que eram já volumosos». In Maria João Câmara, O Pecado e a Honra, Oficina do Livro, Leya, 2012, ISBN 978-989-555-830-8.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

O Pecado e a Honra. Maria João Câmara. «Que bonita! Muito vos agradeço!, e colocou-a na sua abotoadura, bem à vista. Depois, insinuou-se junto dela»

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«(…) Numa das portas laterais do convento, a criada esperava escondidamente. Manuel entrou e percorreu um dos muitos corredores estreitos e escuros que comunicavam com o exterior. Passaram algumas portas grandes, fechadas com trancas grossas que foi preciso erguer, passaram um celeiro e um palheiro. O corredor era percorrido com cuidado, uma camada de pó fino e alguma palha acumulava-se nas orlas, no caminho menos percorrido. Algumas teias de aranha pendiam dos cantos do tecto alto. Com uma candeia na mão, a dita criada parou e deixou-o perto de uma porta mais baixa onde, pelas frestas da madeira, a semiobscuridade se cruzava com a luz do dia. Puxou o gonzo que chiou um pouco, fez sinal para que avançasse, e Manuel passou a dita portinhola. Encontrou-se então num jardim pequeno, mesmo debaixo de um sicómoro farfalhudo. Isabel estava encostada à parede caiada, mesmo ao lado da dita porta e quase saltou quando ouviu a porta a abrir.
Sou eu! Manuel! Perdoai-me, senhora, não vos queria assustar..., a voz dele era baixa e quente, transpirava volúpia. Não tem importância, respondeu Isabel, ainda arquejando. Empurrava nervosamente o cabelo para dentro do véu branco e ralo. Podemos falar um pouco? Sim. Aqui podemos. Pedi à criada para que me avisasse, caso visse alguém por perto.... Isabel retirou a mão de baixo da parte dianteira do hábito e estendeu-lha aberta, dizendo muito nervosa: trouxe-vos isto. Uma recordação... Manuel viu uma pequena medalha de São Dinis em cuja argola estava atada, em forma de laço, uma fita de linho verde. Recebeu-a com um sorriso aberto.
Que bonita! Muito vos agradeço!, e colocou-a na sua abotoadura, bem à vista. Depois, insinuou-se junto dela. Apenas um repassar de roupagens. Um leve toque nos seus dedos. Não pretendia grandes falas. Isabel não era, de resto, mulher de grandes discursos. Os olhares encontraram-se e ali ficaram. Quedos. Silenciosos. Os olhos azuis dela com a luz do sol ficavam como água, tão inebriantes que Manuel não podia apartar-se deles. Não olhou sequer para a sua face perfeita e frágil, para a boca estreita e as maçãs do rosto salientes, ou para a sua pele tão alva como a manhã. Quanto a ela, olhava-lhe o negro dos olhos e a barba aparada e a forma do seu rosto, forte e másculo, de maxilares salientes. E assim permaneceram por longos momentos, espantados um com o outro, até que Manuel pegou na sua mão pequena e a levou à boca muito suavemente. Ela pôde então sentir a suavidade dos seus lábios nas costas da mão e depois, lentamente, na palma dela, e o seu olhar sempre pousado no olhar dele, e os sentimentos em turbilhão, como se tudo fosse razão para estarem ali. A tentação da carne!, cogitava ela. O apelo da carne!, discorria ele. E, de repente, como se saísse de um sonho de que não queria acordar, Isabel caiu em si. Arrependida, como sabia que iria ficar, desesperada por gostar sumamente do que estava a sentir, a noviça desatou a correr pelo jardim na direcção do claustro onde desapareceu. Manuel, pregado ao chão, não sabia se havia de extravasar a sua fúria pelo malogro, se ficar contente pela batalha invulgar que deveria travar. Afinal, esta era uma luta que poucas mulheres lhe davam». In Maria João Câmara, O Pecado e a Honra, Oficina do Livro, Leya, 2012, ISBN 978-989-555-830-8.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

sexta-feira, 2 de junho de 2017

O Pecado e a Honra. Maria João Câmara. «Tinha intenção de o rechaçar, de lhe pedir que não mais ali assistisse aos ofícios, que não olhasse para ela, que não enviasse recados…»

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«(…) E enquanto se comeu, pouco se falou. Uma coisa impedia, em parte, a outra, que um homem perante os alimentos deve dedicar-lhes todo o respeito. Saciar a fome é a tarefa primordial de quem se senta a uma mesa. Por isso, tudo se disse ali, naquela refeição, sem ser proferida uma única palavra: foram cumprimentos, promessas de doações, rezas. Finalmente, a abadessa chamou Manuel e teve com ele um particular, rondando pelos jardins do claustro enquanto os companheiros aguardavam entediados, jâ do lado de fora dos muros do convento. Durante os dias seguintes, Manuel assistiu aos ofícios matinais naquela igreja, olvidado da caça e da montaria. Depois, lá partia de encontro aos seus companheiros, meio estonteado. A abadessa sentia-se honrada com a ilustre presença e Manuel não tirava os olhos de Isabel.
Madre, dizia ela à abadessa, notais o olhar deste senhor sobre mim? Qual!, respondia-lhe esta, talvez fugindo das suas perguntas. Nada vos fez! Gosta apenas de vossos lindos olhos azuis! Nada mais. Mas tomai tento, tomai todo o tento que puderes para não cairdes na tentação! A abadessa não queria hostilizar o rico senhor. Não cuidava que a pequena Isabel tivesse a coragem de lhe desobedecer, a ela e à regra conventual. Ela que tanto fizera para a acolher, afastando-a da família arruinada, de uma mãe viúva e de dois irmãos sem préstimo... Que vida teria fora daqueles muros? Nem dote tinha. Mas, nunca fiando, a abadessa retirou-a da fila da frente e certificou-se de que os olhares de ambos não se voltavam a encontrar durante a missa.
Para Manuel, era com um gosto desmedido que vivia esses dias de esconde, busca, segue e escapa, como se estivesse perseguindo sem descanso um gamo selvagem. Sentia que a noviça lhe fugia e, por isso, esta caça dava-lhe ainda mais prazer. E ela fugia-lhe por compreender que não lhe resistiria. E assim andaram durante alguns dias. Duas semanas, porventura menos, que lhes perderam a conta. Três moedas postas por Manuel na mão de uma criada bastaram. Talvez tantas nem fossem necessárias... Recado dado, recado trocado, foi marcado o encontro na tarde de um dia, o décimo desde que a vira pela primeira vez. Isabel aceitou. Tinha intenção de o rechaçar, de lhe pedir que não mais ali assistisse aos ofícios, que não olhasse para ela, que não enviasse recados, porque não lhe responderia. A intenção era terminar com algo que nunca começara.
Mas não foi assim». In Maria João Câmara, O Pecado e a Honra, Oficina do Livro, Leya, 2012, ISBN 978-989-555-830-8.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

quinta-feira, 1 de junho de 2017

O Pecado e a Honra. Maria João Câmara. «Era dura a vida no convento, mas era melhor para qualquer mulher morrer ali do que enrolada em mil trapos viscosos»  

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«(…) Delas, Isabel recordava-se agora, que via como o diabo a tentava naquele homem! Porque aquele que nela fixava os olhos tinha um brilho especial. O cabelo de um castanho acobreado cortado a direito pela altura do ombro, uma franja que deixava ver os olhos negros mas grandes e atentos, o queixo quadrado, o nariz pequeno e um pouco curvado, o corpo forte e jovem, era um homem que emanava um frémito a que a noviça não conseguia ficar indiferente. Que podia ela fazer se o garboso nobre não desviava o olhar? Tentava rezar com fervor, pedia à Virgem e aos santos que viessem em seu auxílio, mas como poderia ela afastar o ardor, a agitação e a veemência que sentia?
No final do ofício, e por ser domingo, a abadessa convidou o grupo de ilustres para a mesa conventual na porfia de que, com o estômago cheio e satisfeito, viessem as doações, que bem precisava delas pois entrariam umas poucas noviças pobres e sem dote no mês seguinte. A abadessa era uma mulher prática e desejava recolher tantas raparigas quantas pudesse, uma vez que, na pobreza das suas vidas, nos campos ou na cidade, muitas perder-se-iam sem retorno. Ali, pelo menos, teriam o alimento espiritual que as faria fortes e destemidas, teriam a instrução mínima, um tecto, comida na mesa e assistência na velhice. Era dura a vida no convento, mas era melhor para qualquer mulher morrer ali do que enrolada em mil trapos viscosos, coberta de piolhos e de pulgas, devorada pelas dores e pelas chagas, deitada na valeta de um descaminho...
Para toda a sua obra e actividade, a abadessa necessitava de rendimentos, doações, benesses e da preferência dos poderosos deste mundo, os quais compensavam com largas somas as guerras que travavam e as injustiças que praticavam, transformando-as em bens espirituais e atenuando assim as penas dos seus pecados. E eis que o infante Manuel se via atravessando o claustro, pelo único passilho permitido a leigos e entrando depois numa sala comprida, abobadada, caiada de branco e onde uma grande mesa, posta com uma toalha imaculada, parecia esperar desde sempre a chegada de convidados. Sentados que foram os nobres no banco corrido, quatro de um lado e três do outro (que a abadessa se sentou à cabeceira), da grande cozinha do mosteiro começaram a chegar alguns pratos de rigor: caldo de carne, galinha de cabidela e feijão branco, sem grande sabor, viandas de leite e chourições postos em grandes fatias de pão. Os doces, esses sim, eram divinais: a marmelada branca e o toucinho-do-céu converteram o jantar num ganho de paladar e de delícia terrena.
Acrescentava-se a este o sabor de algo ainda não provado, algo que se desenhava no horizonte de Manuel: enquanto levava a colher à boca, olhava para Isabel e saboreava cada pedacinho de toucinho-do-céu com duplo gozo. O doce amendoado tomou mesmo foros de êxtase antecipado. Entretanto, a lisonja da abadessa e de várias freiras mais velhas, que intentavam servi-lo a ele, Manuel, desveladamente, fazia-o sorrir, e sempre que o fazia mirava Isabel, acompanhando com o olhar todos os gestos do seu serviço. Sorria quando ela passava com as escudelas e aviava a água ou o vinho à sua frente, podendo sentir o seu cheiro fresco enquanto ela se debruçava sobre si e o atendia, trémula, vertendo o precioso líquido de um enorme jarro de boa prata que saía à mesa nas melhores ocasiões. Sorria Manuel». In Maria João Câmara, O Pecado e a Honra, Oficina do Livro, Leya, 2012, ISBN 978-989-555-830-8.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

O Pecado e a Honra. Maria João Câmara. «E eram histórias que, na maioria das vezes, haviam sido encovadas, como um morto se enterra no seu sepulcro»

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«O infante Manuel assistia à missa no convento de Odivelas. Sentado num cadeirão de espaldas, mesmo em frente do altar, teimava em mexer o pé direito de encontro ao pé esquerdo. O bico da bota direita batia, pois, compassadamente, no da bota esquerda. Deixara de ouvir o ofício divino, que Deus lhe perdoasse!, pois sentia grande dor nas costas. Havia abusado. A montaria, caça sem tréguas e sem descanso dada a javalis e a cerdos, abatia-se-lhe sobre o corpo e pesava-lhe nos ombros como se neles carregasse um enorme fardo. Olhou para os seus companheiros pelo canto do olho. Ali estavam sete fidalgos das mais distintas linhagens doreino, impassíveis, como se tivessem acabado de dormir uma longa noite. Apesar das dores, o infante Manuel não se mexeu. Sabia que todos os seus gestos eram seguidos com grande atenção.
Atrás dele, os fiéis esforçavam-se por responder aos ritos enquanto o sacerdote, virado para o altar, entoava monocórdico: misereàtur nostri omnipotens Deus et, dimissis peccàtis nostris, perdùcat nos ad vitam aetèrnam. Ouviu-se um Ámen distraído. E logo depois: kyrie eléison; Kyrie eléison; Christe eléison Christe eléison. Era evidente o fascínio que os membros do grupo provocavam entre os populares, porque eram raros os dias em que podiam ver tão ricos e coloridos trajes. Miravam-nos com curiosidade, mas discretamente, ansiando talvez por uma palavra, um sorriso, uma esmola destes senhores que, bem se via, eram nobres pelo trajar, pelo falar pela pose e pela quantidade de cavalos, mulas e criados que os acompanhavam. Ainda no adro, as crianças atreveram-se a chegar mais perto deles, levando por vezes bravos safanões por tal atrevimento. Rapazes novos!, diriam os paroquianos habituais, nos seus trajes de ir ver a Deus, de camisas brancas e fatos de cotim castanhos, os chapéus de feltro cambados nas mãos, a testa branca imaculada e o restante do rosto tisnado pelo sol. Pouca vergonha, é o que é!, diriam as mulheres de lenço atado à cabeça, as saias rodadas e os pés descalços ou metidos em chinelos rasos e rotos, puxando a si os filhos rechaçados, sabendo bem do que falavam. Mas agora, no interior do templo, também elas se distraíam com as capas e os chapéus e as gorras de tecidos finos e cores garridas.
E a ida à missa ao convento de Odivelas não permaneceria inocente, como não haviam permanecido inocentes as idas a Caneças ou a Carnide, meses antes, uma vez que, mal se entoara o Kyrie, e já o infante Manuel se havia fixado numa das noviças que assistia às cerimónias num pequeno varandim, adiante de si, à mão esquerda, e nela se deteve durante a maior parte do tempo que demorou o longo ofício. Era como se uma forte corrente de ar o impelisse para aquele rosto redondo, muito fresco e bonito, os olhos invulgarmente azuis, de um azul profundo, a boca pequena e fina, o cabelo escondido pelo véu de noviça, em hábito de coro castanho e capa branca. À medida que decorria a missa, o infante alternou o seu estado entre o semienfeitiçado e o devoto, cumprindo os gestos rituais, ora ajoelhando, ora erguendo-se, ora rezando, ora fingindo meditar, ora não podendo mesmo concentrar-se, já porque estava enfeitiçado, já porque lhe doíam as malditas costas... Não se pense que não era homem de fé. Era. Mas, por vezes, no seu interior as coisas do mundo sobrepunham-se às do Alto e, as mais das vezes, depois desses momentos de desvio, acabava sempre por confessar contritamente o seu arrependimento.
Quanto à noviça, de seu nome Isabel, encolhia-se no seu lugar, embora se regozijasse perante o interesse do estranho. Sentia as frontes a arder porque não havia maneira de o fidalgo desviar o olhar do seu rosto. Era noviça, a sua vocação não estava determinada, o seu estado podia não ser definitivo. Mas ela sabia de histórias de traições e pecado que corriam por entre as paredes de muitos conventos, tendo algumas delas como resultado alguns filhos de Deus para criar. E eram histórias que, na maioria das vezes, haviam sido encovadas, como um morto se enterra no seu sepulcro, mas que se sabiam por criadas ordinárias ou por velhas freiras mentecaptas que, nos seus delírios de demência, acabavam por revelar das suas vidas o que até então fora oculto com desvelo. E eram histórias de amores e de fugas, de prisões e violências, histórias passadas entre aqueles muros». In Maria João Câmara, O Pecado e a Honra, Oficina do Livro, Leya, 2012, ISBN 978-989-555-830-8.

Cortesia de OdoLivro/JDACT