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sábado, 21 de novembro de 2020

Os Sete Pilares da Sabedoria. T.E. Lawrence. «Nem a esta altura cessava a pressão: a inexorável tendência para o norte prosseguia. As tribos eram obrigadas a sair dos limites das plantações da Síria ou da Mesopotâmia»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Não obstante, o deserto se superpovoava da mesma forma em diferentes oportunidades; e então se verificavam sublevações e assaltos entre as tribos aglomeradas, por se acotovelarem mutuamente, em natural disputa do direito de viver. Não podiam ir para o sul, para as areias inóspitas, nem para o mar. Não podiam dirigir-se para o ocidente; porque as íngremes montanhas do Hedjaz estavam completamente guardadas pelos povos da montanha, que tiravam inteiro proveito da sua posição, para defesa. Por vezes, encaminhavam-se para os oásis centrais de Aridh e Kasim e, se as tribos em busca de novo local fossem fortes e vigorosas, obtinham êxito na ocupação de parte deles. Se, entretanto, o deserto não tivesse esta força, seus povos iam sendo impelidos gradualmente para o norte, entre Medina do Hedjaz e Kasim de Nejd, até se encontrarem na bifurcação de dois destinos. Poderiam, então, irromper para o oriente, através do Wadi Rumh ou de Djebel Shammar, no intuito de seguir, se possível, o Batn, para Shamiya, onde se tornariam árabes ribeirinhos do Baixo Eufrates; ou subiriam, a passos lentos, as escadas dos oásis ocidentais, Henakiya, Kheibar, Teima, Jauf e Sirhan, até que o destino as levasse para perto de Djebel Druse, na Síria, ou a dar água aos seus rebanhos nas redondezas de Tadmor, do deserto norte, a caminho de Aleppo ou da Assíria.

Nem a esta altura cessava a pressão: a inexorável tendência para o norte prosseguia. As tribos eram obrigadas a sair dos limites das plantações da Síria ou da Mesopotâmia. A oportunidade e a fome impunham-lhes a convicção relativa às vantagens de possuírem cabras, e, depois, de possuírem carneiros; e por fim começavam a semear, ainda que fosse apenas um pouco de cevada para os seus animais. Já então deixavam de ser beduínos, e passavam a sofrer, como os habitantes das aldeias, as incursões dos nómades que vinham atrás. Insensivelmente, faziam causa comum com os camponeses já fixados na região, e descobriam que eles também eram gente do campo. É assim que vemos clãs, nascidos nos planaltos do Iémen, impelidos, por clãs mais poderosos, para o deserto, onde involuntariamente se tornaram nómadas, a fim de se manterem vivos.

Vemo-los errando, mudando-se todos os anos um pouco mais além, para o norte, ou um pouco mais além, para o oriente, conforme a sorte os conduzia para uma ou outra linha de poços do deserto, até que, afinal, a pressão constante os levava de novo para longe do areal, a caminho das regiões semeadas, em que manifestavam a mesma ausência de vontade do primeiro retraimento em relação à experiência da vida nómada. Esta foi a circulação que manteve o vigor do corpo semítico. Havia poucos, se é que havia algum, semitas do norte, cujos ancestrais não tivessem em qualquer época obscura atravessado o deserto. A marca do nomadismo, esta profunda e aguda disciplina social, se encontrava em cada um deles, na devida graduação.

Se os homens de tribo e os homens de cidade, na Ásia de língua árabe, não fossem de raças diferentes, mas apenas criaturas de diversos graus de evolução social e económica, qualquer semelhança de família deveria ser vislumbrada no funcionamento da sua mente, e seria, assim, apenas razoável que elementos comuns aparecessem no produto de todos aqueles povos. Bem no começo, ao primeiro encontro com eles, verificou-se haver uma nitidez, ou rigidez de crença, universal e quase matemática nas suas limitações, e impenetrável na sua forma impassível. Os semitas não possuíam meios-tons no registo da sua visão. Compunham povos de cores primárias, ou melhor, povos de branco-e-preto, que viam o mundo sempre de perfil. Eram dogmáticos, e desprezavam a dúvida, esta nossa moderna coroa de espinhos. Não compreendiam as nossas dificuldades metafísicas, nem as interrogações introspectivas. Só conheciam a verdade e a inverdade, a crença e a descrença, sem os nossos matizes subtis de reticências hesitantes.

Estes povos eram preto-e-branco não apenas na visão, mas também na sua constituição mais íntima; preto-e-branco não somente na clareza, mas também na justa-posição. Seus pensamentos ficavam à vontade apenas nos extremos. Aplicavam superlativos por gosto. Às vezes, as incoerências pareciam possuí-los por inteiro, em preponderância simultânea e geral; mas nunca tergiversavam: seguiam a lógica de várias opiniões incompatíveis entre si para atingir absurdos fins, sem perceberem o disparate. Com a cabeça fria e a faculdade de julgamento tranquila, imperturbavelmente inconscientes em face do salto, oscilavam de assíntota para assíntota». In T.E. Lawrence, Os Sete Pilares da Sabedoria, 1922, 1926, Publicações Europa-América, 2004, ISBN 978-972-100-483-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

JDACT, T.E. Lawrence, Literatura, Conhecimento, África,

terça-feira, 7 de julho de 2020

Os Sete Pilares da Sabedoria. T.E. Lawrence. «O deserto que desempenhou esta grande função em torno dos oásis, construindo, assim, o carácter da Arábia, variava de natureza»



Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A primeira dificuldade do movimento árabe foi a de se saber onde os árabes se encontravam. Sendo povo resultante de cruzamentos, seu nome havia mudado de sentido, lentamente, de ano para ano. Em tempos remotos, designava um árabe. Existia um país chamado Arábia; mas isto nada significava para o nosso caso. Conhecia-se uma língua denominada árabe; e era nela que nos devíamos apoiar. Tratava-se do idioma corrente da Síria, da Palestina, da Mesopotâmia e da grande península denominada Arábia, nos mapas. Antes da conquista dos muçulmanos, estas regiões foram habitadas por povos diferentes, falando idiomas da família árabe. Chamávamo-los semíticos, mas incorretamente (dando-se o mesmo com termos mais científicos). Contudo, os idiomas árabe, assírio, babilónio, fenício, hebraico, aramaico e siríaco eram aparentados; os vestígios das influências recíprocas, no passado, e mesmo da origem comum, reforçavam-se pelo nosso conhecimento, segundo o qual o aspecto e os hábitos dos povos de língua árabe da actualidade, na Ásia, embora sendo variados como campo de papoilas, ofereciam semelhanças permanentes e essenciais. Podíamos, pois, com perfeita propriedade, denominá-los primos, e primos certamente, embora tristemente, cônscios do seu próprio parentesco.
As regiões de língua árabe, na Ásia, neste sentido, formavam um tosco paralelogramo. A linha norte corria de Alexandria, no Mediterrâneo, através da Mesopotâmia, a caminho do oriente, até ao Tigre. A linha sul era a margem do oceano Índico, desde Aden até Muscat. A oeste, limitava-se pelo Mediterrâneo, pelo canal de Suez e pelo mar Vermelho, até Aden. A leste, pelo Tigre e pelo golfo pérsico, até Muscat. Este quadrado de terra, tão grande como a Índia, formava a pátria dos nossos semitas, onde nenhuma raça estranha conseguiu manter-se por longo tempo, embora os egípcios, os hititas, os filistinos, os persas, os gregos, os romanos, os turcos e os francos o houvessem tentado, por maneiras várias. Todos, ao fim, se viram derrotados, e os elementos dispersos foram absorvidos pelas fortes características da raça semítica. Os semitas, por vezes, alastraram-se para fora dessa área, sendo assimilados pelo mundo exterior. O Egipto, a Argélia, Marrocos, a ilha de Malta, a Sicília, a Espanha, a Cilícia e a França absorveram e fizeram desaparecer colónias semíticas. Somente em Trípoli, na África, e no perene milagre da Judeia, os remotos semitas conservaram alguma coisa da sua identidade e da sua força.
A origem destes povos foi motivo para debates académicos; mas, para a compreensão da sua revolta, as actuais diferenças sociais e políticas se revestiam de importância, e só podiam ser assinaladas após o exame da sua geografia. O continente por eles habitado continha certas grandes zonas, cujas profundas diversidades físicas impunham costumes diversos aos seus nativos. A ocidente, o paralelogramo se emoldurava, de Alexandria até Aden, numa cadeia de montanhas, chamada (ao norte) Síria, e, progressivamente, em direcção ao sul, denominada Palestina, Média, Hedjaz, e, afinal, Iémen. A cordilheira erguia-se à altura média de novecentos metros, com picos de três a quatro mil metros. Voltava-se para oeste, era bem irrigada pelas chuvas e pelas nuvens que vinham do mar, e, em geral, inteiramente povoada. Outro renque de montanhas habitadas, de face para o oceano Índico, formava o lado sul do paralelogramo. A fronteira oriental constituía-se, a princípio, de uma planície aluvial, denominada Mesopotâmia, mas, ao sul de Basra, não passava de litoral ao nível do mar, chamado Kuwait, e depois Hasa, até Gattar. A maior parte desta planície era povoada. Tais planícies e montanhas habitadas emolduravam uma zona de deserto sem água, em cujo coração se encontrava um arquipélago de oásis povoados e dotados de água, chamados Kasim e Aridh. Neste grupo de oásis, ficava o verdadeiro centro da Arábia, o repositório do seu espírito nativo, e a sua mais cônscia individualidade. O deserto envolvia-o todo, mantendo-o livre de contactos.
O deserto que desempenhou esta grande função em torno dos oásis, construindo, assim, o carácter da Arábia, variava de natureza. Ao sul dos oásis, parecia ser um intransponível mar de areia, estendendo-se até perto do populoso escarpamento da margem do oceano Índico, separando-o, a leste, da história da Arábia, e evitando que exercesse qualquer influência sobre a moral e a política árabe. Hadhramaut, como chamavam a esta costa sul, fazia parte da história das Índias Holandesas; e o seu pensamento se projectava para Java, mais do que na direcção da Arábia. A oeste dos oásis, entre estes e as montanhas do Hedjaz, havia o deserto de Nejd, zona de cascalho e de lava, contendo pouca areia. A leste, entre eles e Kuwait, estendia-se outra zona semelhante, de cascalho, mas com algumas grandes faixas de areia fofa, o que tornava difícil a travessia. Ao norte dos oásis, desdobrava-se uma zona de areia, e, depois, uma imensa planície de cascalho e de lava, tomando conta de tudo, entre a linha oriental da Síria e as margens do Eufrates, onde começava a Mesopotâmia. A viabilidade deste deserto norte, para homens e para automóveis, fez com que a revolta árabe obtivesse êxito imediato». In T.E. Lawrence, Os Sete Pilares da Sabedoria, 1922, 1926, Publicações Europa-América, 2004, ISBN 978-972-100-483-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

domingo, 28 de junho de 2020

Os Sete Pilares da Sabedoria. T.E. Lawrence. «O homem que se entrega à posse de estranhos leva uma vida brutalizada, porque vende a alma a um bruto…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Eu fui enviado a estes árabes como estranho, incapaz de pensar os seus pensamentos, ou de aderir às suas crenças, mas encarregado, pelo dever, de os conduzir à frente, e de desenvolver ao máximo qualquer movimento seu, proveitoso para a Inglaterra, na guerra que se estava travando. Embora eu não pudesse assumir o perfil moral daqueles povos, devia, pelo menos, ocultar o meu, e passar no meio deles sem provocar atritos, nem discórdia, nem crítica, e sim exercendo, tão-somente, despercebida influência. Embora tenha sido companheiro deles, não desejo ser seu apologista, nem defensor. Hoje, envergando as minhas roupas antigas, eu poderia desempenhar o papel de espectador, obediente às sensibilidades do nosso teatro..., mas é mais honesto assinalar que estas ideias e estas acções, então, transcorreram naturalmente. O que agora parece dissoluto ou sádico, parecia, ali, inevitável, ou mera rotina sem importância. Havia sempre sangue em nossas mãos: tínhamos permissão para isto. Ferir e matar pareciam sofrimentos efémeros, tão breve e desaventurada se nos mostrava a vida. Com a tristeza de uma vida tão grandiosa, a tristeza da punição tinha de ser impiedosa.
Vivíamos para o dia, e morríamos por ele. Quando havia razão e desejo de punir, escrevíamos a nossa lição com a carabina, ou vergastávamos imediatamente a carne imunda do sofredor; e o caso pairava acima de qualquer direito a apelo. O deserto não proporcionava as penalidades requintadamente lentas dos tribunais e das masmorras. Como era natural, as nossas recompensas e os nossos prazeres se dissipavam tão rapidamente como os nossos aborrecimentos; mas, para mim, em particular, aqueles se faziam sentir em número muito menor do que estes. O modo de vida dos beduínos era rude, mesmo para os afeitos a ele, sendo, para os estranhos, simplesmente horrível: assemelhava-se à morte em plena vida. Quando se terminava a marcha, ou a operação, eu não tinha mais energia para registar as sensações; nem, durante as mesmas, me sobrava tempo para apreciar o enternecimento espiritual que, por vezes, se apoderava de nós. Nas minhas notas, o cruel, ao invés do belo, encontrava lugar. Gostávamos mais, sem dúvida, dos raros momentos de paz e de esquecimento; mas eu me recordo mais das agonias, dos terrores e dos erros. A nossa vida não se acha condensada no que escrevi (há coisas que não devem ser repetidas a sangue-frio, por muito vergonhosas); mas o que escrevi fez parte da nossa vida. Peço a Deus que os homens, lendo a narrativa, não aspirem, por amor ao brilho das coisas estranhas, a prostituírem-se, a si e aos seus talentos, servindo a outra raça.
O homem que se entrega à posse de estranhos leva uma vida brutalizada, porque vende a alma a um bruto. Ele próprio não pertence aos estranhos. Pode, portanto, permanecer contra eles, persuadindo-se do cumprimento de sua missão, comprando-os e forçando-os a ser alguma coisa que eles, por vontade e acordo próprios, jamais conseguiriam ser. Depois, esse homem se utiliza das forças do seu ambiente natural, fazendo pressão para que os estranhos abandonem o próprio. Ou, de conformidade com o que aconteceu comigo, imita-os tão bem, que eles, espuriamente, passam a imitá-lo por sua vez. A esta altura, tal homem renuncia ao seu ambiente, e pretende integrar-se no deles; e as pretensões são ocas, sem valor. Em nenhum dos casos ele realiza coisas particularmente suas, nem coisa suficientemente limpa para ser sua (sem ideia de conversão), permitindo que os estranhos manifestem a acção ou a reacção que lhes apraz, em face do silencioso exemplo.
No meu caso, o esforço daqueles anos, para viver em trajes árabes, e para imitar a sua feição mental, roubou-me ao meu eu inglês, levando-me a considerar o Ocidente e as suas convenções com novos olhos: e estes destruíram tudo para mim. Ao mesmo tempo, eu não podia vestir, sinceramente, a pele árabe: tratava-se apenas de uma simulação. Com facilidade se torna infiel um homem, mas dificilmente pode ele ser convertido a outra fé. Desvencilhei-me de uma forma, sem adoptar a outra, tornando-se qual ataúde de Mohammed, na nossa lenda, com o resultante sentimento de intensa solidão na vida, e de estranheza, não relativamente aos outros homens, mas a tudo o que eles fazem. Tais alheamentos se verificam, por vezes, no ser exausto em virtude de prolongado esforço físico e de contínuo isolamento. O corpo vagabundeia mecanicamente, enquanto a mente lúcida o abandona e, situando-se do lado de fora, põe-se a olhar para dentro dele mesmo, com espírito crítico, desejando saber o que o fútil traste fez e por quê. Às vezes, estes eus conversam no vácuo; e então, a loucura se encontra muito perto, como creio que deve ter estado junto do homem que pôde ver as coisas, a um só tempo, através dos véus de dois costumes, de duas educações e de dois ambientes». In T.E. Lawrence, Os Sete Pilares da Sabedoria, 1922, 1926, Publicações Europa-América, 2004, ISBN 978-972-100-483-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Os Sete Pilares da Sabedoria. T.E. Lawrence. «Quando a emoção atingia estes píncaros, a mente embotava-se; e a memória fazia-se branca, até que as circunstâncias voltassem a ser vulgares outra vez»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) À medida que passava o tempo, crescia a nossa necessidade de lutar em prol do ideal, a ponto de já não admitir discussão, e de cavalgar de espora e rédea solta sobre as nossas dúvidas. De bom ou de mau grado, transformou-se afinal em fé. Entregamo-nos à sua escravidão, algemamo-nos à sua malta, curvamos o pescoço, para servir a sua santidade com a máxima devoção. A mentalidade dos escravos humanos comuns é terrível, porque eles perderam apenas o mundo, e nós entregamos não somente o corpo, mas também a alma, à voracidade aniquiladora da vitória. Por nossos próprios actos, fomos esvaziados de moralidade, de vontade e de responsabilidade, como folhas mortas ao vento.
O batalhar perene eliminou de nós todo o cuidado com as nossas vidas, e também com a dos outros. Trazíamos cordas ao redor do pescoço, e, sobre nossas cabeças, pesavam preços que bem mostravam que o inimigo premeditava submeter-nos a horripilantes torturas, se fôssemos aprisionados. Todos os dias, um de nós falecia; e os que prosseguiam vivendo sabiam que eram títeres conscientes no palco de Deus: com efeito, nosso fado era impiedoso, absolutamente impiedoso, enquanto os nossos pés feridos pudessem vacilar para a frente, na estrada. Os fracos invejavam os que se haviam cansado o bastante para morrer; porque o êxito parecia remoto, e o fracasso, próximo e certo, senão total, afigurava-se-nos como sendo uma libertação da fadiga. Vivíamos sempre ou em plena tensão, ou em pleno relaxamento de nervos, ora na crista, ora no cavado das vagas do sentimento. Esta impotência era amarga para nós, e fazia-nos viver apenas para o horizonte à vista, indiferentes às contrariedades que infligíamos ou que suportávamos, porque a sensação física se mostrava miseravelmente transitória. Furacões de crueldade, perversões e cobiças passavam de leve pela superfície, sem nos perturbar; porque as leis morais, que pareciam constituir, outrora, barreiras contra tais incidentes disparatados, deviam ser, então, palavras ainda mais débeis do que as sensações. Viemos a saber que havia angústias excessivamente agudas, mágoas demasiadamente profundas, êxtases infinitamente altos para o nosso eu finito, e portanto, impossíveis de serem registados. Quando a emoção atingia estes píncaros, a mente embotava-se; e a memória fazia-se branca, até que as circunstâncias voltassem a ser vulgares outra vez.
Semelhante exaltação do pensamento, enquanto deixava o espírito vaguear, permitindo-lhe pairar por estranhos ares, fazia-o perder o antigo domínio sobre o corpo. O corpo era inferior em demasia para sentir o infinito das nossas tristezas e das nossas alegrias. Portanto, abandonávamo-lo, como a refugo; deixávamo-lo por baixo de nós, a marchar, mero simulacro respirante, no seu nível desamparado, sujeito a influências de que, em tempos normais, o nosso instinto se afastaria. Os homens eram jovens e robustos; a carne e o sangue, quentes, clamavam inconscientemente pelos seus direitos, atormentando-lhes as entranhas com bizarras aspirações. As privações e os perigos empanavam o calor viril, sob um clima tão torturante como se possa conceber. Não tínhamos recinto fechado onde ficar a sós, nem tecidos espessos para ocultar a nossa natureza. O homem vivia candidamente, em todos os sentidos, com o homem.
O árabe era, por índole, continente; e o uso do casamento universal quase que abolira todas as práticas irregulares nas suas tribos. As mulheres públicas dos raros acampamentos, que encontramos nos nossos meses de vida errante, nada seriam para o nosso número, ainda que a sua oferta repugnante fosse saboreável a qualquer homem de organismo sadio. Tomada de horror perante tão sórdido comércio, a nossa juventude começou a saciar mutuamente as suas poucas necessidades nos seus próprios corpos limpos, conveniência fria, que, por via de comparação, se afigurava assexual e até pura. Mais tarde, alguns passaram a justificar este processo estéril, jurando que os amigos, palpitando juntos sobre areias movediças, com órgãos íntimos em supremo arroubo, encontravam, ali, ocultos na escuridão, o coeficiente sensual de paixão mental capaz de soldar as nossas almas e os nossos espíritos num único esforço flamejante. Outros, ansiosos por punir apetites que não podiam evitar de todo, manifestavam orgulho selvagem na degradação do corpo, oferecendo-se a si próprios para todas as práticas que prometessem sofrimentos físicos ou imundície». In T.E. Lawrence, Os Sete Pilares da Sabedoria, 1922, 1926, Publicações Europa-América, 2004, ISBN 978-972-100-483-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

terça-feira, 16 de junho de 2020

Os Sete Pilares da Sabedoria. T.E. Lawrence. «Algumas das falhas da minha narrativa devem ser inerentes às nossas circunstâncias. Por anos e anos consecutivos vivemos de qualquer modo, uns com os outros, no deserto nu, sob o céu indiferente»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Geoffrey Dawson persuadiu o All Souls College a dar-me, entre 1919-1920, tempo disponível suficiente para escrever sobre a revolta árabe. Sir Herbert Baker permitiu-me que morasse e trabalhasse nas suas casas de Westminster. O livro assim produzido passou à prova em 1921, quando foi feliz nos amigos que o criticaram. Deve ele em particular sua gratidão ao sr. e sra. Bernard Shaw, pelas incontáveis sugestões de grande valor e diversidade: e por todos os aperfeiçoamentos presentes. Não pretende ser imparcial. Escrevi-o de próprio punho e por minha própria iniciativa. Queira o leitor aceitá-lo como uma narrativa pessoal extraída de memória. Não me foi possível tomar devidamente os apontamentos: com efeito, seria falta de dever para com os árabes eu colher semelhantes flores enquanto eles combatiam. História idêntica poderiam contar todos os meus oficiais superiores, Wilson, Joyce, […] E havia muitos outros líderes ou combatentes isolados a quem não seria justo este relato. Menos justo ainda, evidentemente, como todas as histórias de guerra, com os que não receberam menção, e perdem, como devem, até que tenham sua bravura reconhecida, a sua quota de crédito». In Cranwell, 15 de Agosto de 1926

«Escrevi os Livros 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 10 em Paris, de Fevereiro a Junho de 1919. A Introdução foi escrita entre Paris e o Egipto, na minha ida ao Cairo, a bordo de um Handley-Page, entre Julho e Agosto de 1919. Mais tarde escrevi, na Inglaterra, o Livro 1. Perdi então tudo, salvo a Introdução e os rascunhos dos Livros 9 e 10, ao fazer baldeação num trem na Reading Station. Isso se passou no Natal de 1919. O texto I teria, caso tivesse sido terminado, cerca de 250.000 palavras, pouco menos que a impressão particular de Os sete pilares, na forma pela qual os receberam os subscritores. Minhas notas redigidas durante a guerra, sobre as quais se baseavam grandemente, foram sendo destruídas à medida que era terminada cada secção. Somente três pessoas leram muita coisa do seu conteúdo, antes de eu os ter perdido.

Texto II
Um mês ou mais, depois, comecei em Londres a rabiscar o que me vinha à memória sobre o texto primeiro. Naturalmente dispunha ainda da Introdução original. Completei os outros dez livros em menos de três meses, escrevendo muitos milhares de palavras a cada vez, em demoradas sessões. Assim, o Livro VI foi inteiramente escrito entre um nascer de sol e outro. O estilo sofreu necessariamente a falta de esmero: e dessa forma o Texto II (se bem que apenas introduzisse poucos episódios novos) ultrapassou 400.000 palavras. Corrigi-o em intervalos no decorrer de 1920, confrontando-o com os arquivos do Arab Bulletin e dois diários, além de alguns apontamentos remanescentes. Conquanto péssimo como texto, tornou-se substancialmente completo e exacto. De todo esse texto somente uma página foi por mim lançada ao fogo em 1922.

Texto III
Com a presença do Texto II sobre a mesa, comecei em Londres o Texto III, continuando-o depois em Jidá e Amã durante o ano de 1921, e novamente em Londres até Fevereiro do ano seguinte. Grande cuidado foi exercido na sua composição. Ainda existe esse manuscrito. Contém quase 330.000 palavras.

Textos Impressos Particularmente. Oxford 1922
Apesar de parecer-me difusa e pouco satisfatória a história, conforme foi completada no Texto III, como medida de prudência foi impressa textualmente em folhas não encadernadas em Oxford, no primeiro trimestre de 1922, sob os auspícios do pessoal do Oxford Times. Visto haver a solicitação de oito exemplares e ser muito grande o livro, preferiu-se a forma impressa à datilografada. Cinco exemplares (encadernados em livro para comodidade dos antigos membros da Força Expedicionária do Hedjaz, que se prontificaram a criticá-lo) não foram ainda (Abril de 1927) destruídos.

«Algumas das falhas da minha narrativa devem ser inerentes às nossas circunstâncias. Por anos e anos consecutivos vivemos de qualquer modo, uns com os outros, no deserto nu, sob o céu indiferente. Durante o dia, castigava-nos o calor; e aturdia-nos o vento fustigante. À noite, éramos molestados pelo orvalho, e reduzidos a insignificâncias pelos inumeráveis silêncios das estrelas. Constituíamos um exército sem gala nem acção, centralizado em si mesmo, devotado à liberdade, que é o segundo credo do homem, finalidade tão voraz que tragava todas as nossas energias, e esperança tão transcendente que as nossas primeiras ambições desmaiaram ao seu fulgor». In T.E. Lawrence, Os Sete Pilares da Sabedoria, 1922, 1926, Publicações Europa-América, 2004, ISBN 978-972-100-483-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT