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domingo, 6 de julho de 2014

Intervenção. Juventude / Adulto. Esperança. «Vida que às costas me levas porque não dás um corpo às tuas trevas? Porque não dás um som àquela voz que quer rasgar o teu silêncio em nós? Porque não dás à pálpebra que pede aquele olhar que em ti se perde? Porque não dás vestidos à nudez que só tu vês?»

jdact e cortesia de roquegameiro


«Pássaro breve
rompendo a chuva caída
na minha melancolia.
Ave voando
na chuva que vai caindo
em mim sem cair no dia.
Pássaro leve
cantando o sol que amanhece
Na noite que me entristece».


«Hoje quero com a violência da dádiva interdita.
Sem lírios e sem lagos
e sem gesto vago
desprendido da mão que um sonho agita.
Existe a seiva. Existe o instinto. E existe eu
suspensa de mundos cintilantes pelas veias
metade fêmea metade mar como as sereias».


«Baile de corpos intermédios
com luas mortas nos braços
sem desenlace e sem consequência.
Dança da solidão de mim e de outros
comigo no centro ignorada.
Bailado das palavras
com suportes de morte imediata.
Rio sem águas e sem fundo
com margem numa boca emudecida.
Silvo de serpentes que rastejam
famintas para o vértice da vida
onde me aparto de cansaços inúteis».


JDACT

terça-feira, 17 de junho de 2014

Música. Baladas. América Latina. Victor Jara. «… e o fraterno fogo que acendemos a cada hora, no espaço branco que é estendermos a nossa mão para outra mão apertarmos simplesmente mão pela qual corre o sangue como um rio de fogo»

jdact


«Iluminada inocência do future.
E tudo isto
entre vermes, frutos, flores, rinocerontes, pássaros,
cães fiéis
águas e pedras
e o fraterno fogo que acendemos a cada hora,
no espaço branco que é estendermos a nossa mão
para outra mão apertarmos simplesmente
mão pela qual corre o sangue como um rio de fogo.
Só temos uns tantos anos para lermos este livro
debaixo do Sol,
ou sob o aço da noite
para este fogo tecer.
Chamarás ciência cultura vida dor espada ou espanto a tudo isto».

JDACT

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Poesia. Intervenção. António Macedo. Leonel Neves. «Dentro em meu coração faz dor. Não sei donde essa dor me vem. Auréola de ópio de torpor em torno ao meu falso desdém, e laivos híbridos de horror como estrelas que o céu não tem»

jdact

«Canta canta amigo canta
vem cantar a nossa canção
tu sozinho não és nada
juntos temos o mundo na mão.

Erguer a voz e cantar
é força de quem é novo
viver sempre a esperar
fraqueza de quem é povo.
Viver em casa de tábuas
à espera dum novo dia
enquanto a terra engole
a tua antiga alegria.

Canta canta amigo canta
vem cantar a nossa canção
tu sozinho não és nada
juntos temos o mundo na mão.

O teu corpo é um barco
que não tem leme nem velas
a tua vida é uma casa
sem portas e sem janelas.
Não vás ao sabor do vento
aprende a canção da esperança
vem semear tempestades
se queres colher a bonança».
Poema de António Macedo


Para ti, Leonel Neves, colega e amigo, que estejas em paz!
JDACT

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Homenagem. Adriano Correia de Oliveira. As minhas Barbas. Óscar Lopes. «… um “poeta em acção”, um poeta que tende para o homem responsável e total. A sua canção tem o seu ponto de partida mais reconhecível no fado estudantil coimbrão, lírico, com uma linha melódica apoiada na guitarra e/ou viola»

jdact

«Uma das feições mais salientes da nossa vida artística dos anos 60 é o regresso da poesia de grande publico à sua relação conjugal com a música. Essa reconciliação entre a música e a poesia de intervenção cívica integra-se então numa voga internacional de balada democrática e, entre nós, está em estreita relação com os movimentos estudantis que marcaram o início e o final desse decénio de 60. É certo que a tradição de poetar directamente para o violão vinha já de João de Deus e até do árcade de origem brasiIeira Caldas Barbosa, que se auto-alcunhou de Calda de Açucár. É certo que Augusto Gil e António Nobre escreveram quadras vocacionadas para o canto; e, quer o fado lisboeta, quer o fado coimbrão estão ligados a uma vária autoria poética a que conferem, por vezes, uma espécie de consagração pelo anonimato. Mas a poesia de resistência dos anos 60 deriva mais directamente daquela que, pela mão por exemplo de Carlos de Oliveira e Gomes Ferreira, assinalou o primeiro alento de luta política democrática do final da II Guerra Mundial. Mais tarde, após o 25 de Abril, surgirão realizações de uma poesia não apenas unida à música vocal e instrumental, mas ainda ao teatro, ao espectáculo em geral, e, em suma, àquilo que poderíamos chamar a arte total em acção.
Permita-se-me lembrar que a palavra de étimo grego drama designava, na origem, precisamente isto, poesia em acção, e que a palavra de étimo latino actor equivale originariamente a agente, pois as peças de teatro eram, em latim, concebidas de início como res gerendae, o que também se pode traduzir por poesia em acção. Adriano Correia de Oliveira é um poeta em acção, um poeta que tende para o homem responsável e total. A sua canção tem, sem duvida, o seu ponto de partida mais reconhecível no fado estudantil coimbrão, lírico, predominantemente elegíaco, com uma linha melódica apoiada na harmonização à guitarra e/ou viola, e um páthos tipicamente romântico nos portamentos que prolongam ad libitum as sílabas tónicas das palavras de efeito. Mas os dois grandes temas da juventude académica de então eram as guerras injustas e dementadas contra os povos colonizados e aquele conjunto de aspirações que se exprime pela bela palavra liberdade. O soldado que vai à guerra e volta num caixão de pinho é a projecção de um destino provável para esses jovens que, em termos cantados pelo nosso trovador, fazem da capa negra a bandeira da liberdade. Para alguns, essa liberdade cingia-se às tradições liberais e à oposição a uma guerra que, no nosso tempo, parecia já, evidentemente injusta, por uma razão que os antigos liberais, paradoxalmente, ainda não eram capazes de ver. Mas Adriano Correia de Oliveira esteve desde cedo e até à morte com aqueles para quem a liberdade se concretiza em metas como a abolição da exploração pela mais-valia, como a libertação da terra latifundiária, como a realização programática e até constitucional das melhores virtualidades humanas, individuais e colectivas, e como a autêntica autodeterminação nacional, na economia e também na cultura.
E é para cantar todas estas liberdades, formais e reais, que Adriano mobiliza símbolos que vêm de toda a tradição poética portuguesa: são as barcas que já para a guerra levavam, à amiga, o amigo das cantigas trovadorescas de Martim Codax; são as águas, que constituem o arquétipo das almas apaixonadamente livres da Menína e Moça de Bernardim; e é o vento, símbolo romântico, e, entre nós, herculaniano, da paixão e da revolta. E nos poemas cantados por Adriano são ainda bem legíveis as tradições trágico-marítimas de cinco séculos, são-no traços satíricos populares da Restauração antifilipina, contra a integração de Portugal na grande Europa reaccionária de então dos Habsburgos, são-no legíveis motes dos liberais cercados no Porto em 1832, da insurreição patuleia e da propaganda republicana. E, para além destas vozes históricas, há timbres vocais específicos que assinalam regiões várias da nossa sensibilidade popular». In Óscar Lopes, Homenagem a Adriano Correia de Oliveira, Uma Arte de Música e Outros Ensaios, Oficina Musical, Porto, 1986.

Cortesia de OMusical/JDACT