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sexta-feira, 13 de outubro de 2023

O Poema Herberto Herder: Caos e Contínuo. João P. Rodrigues Carvalho. «Porque a infância é a libertação do leite maternal, a liberdade da imaginação, o caos e a guerra perdida contra este, a dor do crescimento dos dentes para a criança se alimentar sozinha, rasgando o mundo»

jdact e cortesia de wikipedia

As Fontes Secas. Hauridas. Queimadas

«O narrador prossegue descrevendo a formação do seu estilo, a história da resolução de inúmeras equações de terceiro grau, obtendo sempre uma solução inegável, só pelo próprio esforço intelectual, como se resolvesse a si mesmo perfeitamente, equacionado no papel; o método completa-se com a audição do Concerto Brandeburguês nº 5 de Bach, um único concerto, ouvido uma e outra vez, afinando o estilo do indivíduo na repetição, expurgando o caos sonoro que alterna loucamente ruídos e silêncios, depois de expurgado o caos epistemológico usando a matemática. Então, de repente, o argumento vira-se para a poesia, autocitando-se um excerto da parte VI do poema Elegia múltipla: As crianças enlouquecem em coisas de poesia. / Escutai um instante como ficam presas / no alto desse grito, como a eternidade as acolhe / enquanto gritam e gritam. / (...) / E nada mais somos do que o Poema onde as crianças / se distanciam loucamente. (Helder, 2015b: 9), opondo as crianças, a loucura e a poesia, dum lado, ao estilo, do outro; empubescer seria assim, simplesmente, o começo da procura dum estilo, duma memória, a renúncia à imaginação violenta das crianças, que desejam absolutamente algo a todos os instantes, sem o compararem com qualquer dos desejos anteriores, esquecendo-os.

A sua loucura, a sua relação ilógica com o mundo, permite-lhes transformá-lo incessantemente, aceitá-lo sempre como completamente novo, verdadeira surpresa. E é nesta loucura que a infância é infeliz, rompendo por todos os lados, fazendo a criança duvidar da sua própria existência, do próprio mundo, demente, demasiado forte, torturando-a até ceder, até ter de criar um estilo para se poder travar, apaziguada; por isso, a infância é tão vertiginosa, recriando-se a todos instantes, excedendo-se sempre com uma nova loucura totalmente diferente da anterior: bruxaria, astronáutica, pirataria, policiamento, ladroagem, medicina, infantaria. E, por sua vez, o poeta reproduz a infância, ou é inventado nesta, porque não pode ser adulto, simples, idiomático, tem de explodir sempre como uma criança: loucamente.

Como as crianças inventam o Poema que contém os adultos, estilos abandonados que duram meio-vivos, o poema deve capturar apenas um instante, um grito, um estilo momentâneo, logo afastado, exilado para sempre: eterno porque singular, irrepetível; permitindo ao poeta reformar-se de seguida, dolorosamente, para criar algo novo outra vez. Uma verdade que parece resistir no mais estilizado dos homens, finalizando o conto esperançosamente: Mas, escute cá, a loucura, a tenebrosa e maravilhosa loucura... Enfim, não seria isso mais nobre, digamos, mais conforme ao grande segredo da nossa humanidade? [...] Talvez o senhor seja mais inteligente do que eu, ou finalizando-se cruelmente, pois o conflito mantém-se (Talvez), entre a loucura e o estilo, entre o caos e o contínuo, mantendo o Segredo longe e perto, duplamente doloroso: ora como uma paixão apartada, ora como uma faca espetada.

Nota: A escolha de Bach não deixa de ser significativa: pela sua evocação do Barroco, fundamentalmente antitético (no contraponto, neste caso), excessivo, e pela obsessão deste compositor, em particular, por fugas: variações sobre uma frase musical inicial, ritmo esse diversas vezes utilizado pelo poeta, como, por exemplo, no poema (escrita pouco inocente).

Esta tensão com a origem, este perpétuo movimento pendular, será explorado numa imagem recorrente: a mãe, a fonte: Ela é a fonte. Eu posso saber que é / a grande fonte / em que todos pensaram. (Helder, 2014: 45); estranho uso do pronome, sem antecedente gramatical (iniciando o poema Fonte, como este fosse universal: pois o sujeito poético sabe que a mãe é a fonte, mas não a nomeia nesta parte I do poema (com seis partes), mesmo descrevendo as irmãs e o pai, evita essa palavra, sublinhando-a na ausência, recusando a possibilidade de conseguir nomeá-la, de conseguir descrevê-la: Ninguém falava dela, porque / era imensa, deixando a mãe como um silêncio debaixo do discurso, como um lençol de água subterrâneo fertilizando o terreno visível, fertilizando todos em cima, como mãe geral:

Mãe, como uma cadela alimentando uma ninhada, com o número apropriado de mamilos, sem necessidade de disputas fraternais: Era um manar / secreto e pacífico, uma mãe muda, calando os seus filhos por amamentação, ocupando suas bocas, apaziguadas; na imagem oposta à ruidosa violência infantil. Porque a infância é a libertação do leite maternal, a liberdade da imaginação, o caos e a guerra perdida contra este, a dor do crescimento dos dentes para a criança se alimentar sozinha, rasgando o mundo». In João P. Rodrigues Carvalho, O Poema Herberto Herder: Caos e Contínuo, Caso de Estudo, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, FCSH, 2018.

Cortesia de FCSH/JDACT

JDACT, João P. Rodrigues Carvalho, Caso de Estudo, Cultura e Conhecimento, Herberto Helder,

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

O Poema Herberto Herder: Caos e Contínuo. João P. Rodrigues Carvalho. «Um lento desprazer, uma solidão verde, ou azul, esgota por dentro e para cima, como um silêncio, o antigo de minha voz…»

jdact e Cortesia de wikipedia

«(…)

Transforma-se o amador na coisa amada com seu

feroz sorriso, os dentes,

as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído

e silêncio [...].

O amador transforma-se de instante para instante,

e sente-se o espírito imortal do amor

criando a carne em extremas atmosferas, acima

de todas as coisas mortas. (HELDER, 2004)

Um lento prazer esgota a minha voz. Quem

canta empobrece nas frementes cidades

revividas. Empobrece com a alegria

por onde se conduz, e então é doce

e mortal. (Ibid.)

Um lento desprazer, uma

solidão verde, ou azul, esgota por dentro e para cima,

como um silêncio, o antigo

de minha voz. (Ibid.)

Sei de um poeta que passou os anos mais próximos do seu

suicídio

a bater com os nós dos dedos pelas paredes [...]

e foi-se vendo pelo seu rosto que não era fácil tomar a cargo

a coruscante caligrafia do mundo

mas ele tomou-a até onde pôde e o corpo era já

o outro lado da agonia um texto monstruoso que se decifrava

apenas a si próprio (Ibid.)

Eu poderia contar  gemeamente duas histórias: uma  afro-carnívora,  simbólica, a outra silenciosa, subtil, japonesa. De cada uma delas acabariam por decorrer um tom e um tema. A história carnívora foi colhida algures, de leitura, e respeita uma tribo que sepultava os seus mortos no côncavo de grandes árvores. As árvores, a que tinham dado o nome do povo: baobab,  devoravam os cadáveres,  deles iam urdindo a sua própria carne natural. Pelo nome tirado de si e posto na alquimia, a tribo investia-se  nas  transmutações  gerais: a  morte  levava  o  nome, e  o  nome, activo e tangível, crescia na terra. Emocionam-me a fome botânica e o triunfo das copas, o empenho tribalmente mágico, regrado pelo insondável entendimento das metamorfoses da carne no esquema orgânico da matéria. (HELDER, 1985)». In João P. Rodrigues Carvalho, O Poema Herberto Herder: Caos e Contínuo, Caso de Estudo, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, FCSH, 2018.

Cortesia de FCSH/JDACT

JDACT, João P. Rodrigues Carvalho, Caso de Estudo, Cultura e Conhecimento, Herberto Helder,

O Poema Herberto Herder: Caos e Contínuo. João P. Rodrigues Carvalho. «… assumindo o poeta o preço altíssimo desta alteração: o assassínio do Outro (e do Eu (suicida), tornado Outro), o crime inerente à poesia (como a lei é inerente à polícia), o seu posicionamento anticultural, antissocial, irónico…»

jdact e Cortesia de wikipedia

«(…) Além desta tensão, desta intensíssima incoerência dentro do texto, a reescrita apresenta uma outra grande vantagem para o crítico (além, ainda, da concentração de bibliografia activa): como todos os poemas estiveram vulneráveis a potenciais alterações ao longo da vida do autor, eles acabaram por ser publicados na mesma data, na data da morte deste. Assim, rejeita-se a leitura cronológica, sequencial, abrindo-se um único poema (e talvez, também, um segundo poema-sombra, a tal raio de luz, apócrifo, incluindo os textos excluídos), o poema contínuo (um poema equivalente ao próprio nome autoral: o poema Herberto Helder), para ser lido livremente, como um mosaico, podendo ser visto (e percorrido com o corpo, como braille) a partir de qualquer um dos seus ladrilhos. Apesar da expressão poema contínuo ser abandonada no título das antologias seguintes (Ofício Cantante e Poemas Completos), a noção dum poema único, duma tensão única, permanecerá: por exemplo, na contínua insistência em vocábulos como língua, idioma e sintaxe, pressentindo uma única linha secreta que una todos os poemas num, uma fricção violenta (entre estes) criando uma única corrente eléctrica, harmonizada por uma lei absurda, incompreensível para nós, finitos leitores.

Fora dos Poemas Completos, aparecem ainda os livros de poemas estrangeiros mudados para português (não-traduzidos): O Bebedor Nocturno e Doze Nós numa Corda; poemas que definitivamente pertencem à autoria de Herberto Helder (não-tradutor), que os lê em francês, inglês, castelhano, italiano ou até português, e os transforma pela razão secreta do seu poema (compreendendo-os no poema contínuo), tal como faz à sua própria biografia: rouba a sua singularidade, o seu segredo, e torna-os singularmente seus: tensos, Diferentes. Quanto à estrutura deste ensaio, ele começará por pensar o papel da memória no poema, a sua transformação (o fingimento, no idioma pessoano) em imemorialidade; assumindo o poeta o preço altíssimo desta alteração: o assassínio do Outro (e do Eu (suicida), tornado Outro), o crime inerente à poesia (como a lei é inerente à polícia), o seu posicionamento anticultural, antissocial, irónico, subvertendo as leis morais. A ironia, por sua vez, invocará a questão do humor (onde um excerto do romance 2666 de Roberto Bolaño é chamado, pela sua terrível fusão de humor negro com a mais explícita violência), duplicando o significado de tudo (a expectativa e a sua quebra, como lei fundamental da comicidade), ironicamente: dizendo uma coisa e significando o seu contrário, partindo o mundo ao meio, espelhando-o, tenso, lutando contra si mesmo, imagem-contra-imagem. Esta leitura violentamente polar obscurecerá o poema, tornando a sua leitura impossível, paradoxal, quebrando a nossa razão (por força da sua), fechando-se sobre si mesmo, isolado, independente, um ponto concreto no espaço, liberto do Homem. E este encerramento, por sua vez, trará o silêncio (sendo a linguagem uma marca humana), como possível fundo do poema, o indizível, marcado na concretude, no tacto (o mais concreto dos sentidos), no poeta tornado puro corpo.

Por último, uma ressalva em relação à lacónica bibliografia passiva neste ensaio: por influência excessiva (não havendo outro tipo possível) do poeta estudado, tentou-se libertar a leitura, afastando-a da cultura, não academizando o autor mais do que já terá de ser feito, criminosamente (transgredindo a lei do poema, traindo-o, estudando-o num ambiente universitário); tentando criar-se uma leitura pessoalíssima, o mais perto possível do poema, para poder, depois, expandir-se o máximo possível. A bibliografia partirá, assim, da obra helbertiana, maioritariamente (ao ler os dois livros de crítica literária escolhidos (Tatuagem & Palimpsesto de Manuel Gusmão e Arte de Sublinhar de Gustavo Rubim), infelizmente, o movimento, por vezes, inverte-se: lendo-se da prosa ensaística para o poema), quer directamente (no caso de Borges, Camões, Cesariny, Kierkegaard, Michaux, Nietzsche, Rimbaud; todos nomeados em Herberto Helder), quer indirectamente (especialmente no caso de Emmanuel Levinas, cujo pensamento foi fundamental para a leitura éptica da obra, para a reflexão sobre a natureza do seu crime)». .In João P. Rodrigues Carvalho, O Poema Herberto Herder: Caos e Contínuo, Caso de Estudo, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, FCSH, 2018.

Cortesia de FCSH/JDACT

JDACT, João P. Rodrigues Carvalho, Caso de Estudo, Cultura e Conhecimento, Herberto Helder,

O Poema Herberto Herder: Caos e Contínuo. João P. Rodrigues Carvalho. «Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante. Se toco (e é apaixonante) a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra»

 
jdact e Cortesia de wikipedia

«(…)

Mulher, casa e gato.

Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça

da casa, uma luz violenta.

Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.

A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia

pensa-a, enquanto

o gato imagina a elevada casa.

Eternamente a mulher da mão passa a mão

pelo gato abstracto,

e a casa e o homem que eu vou ser

são minuto a minuto mais concretos.

[...]

Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.

Se toco (e é apaixonante)

a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.

Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.

Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher

com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.

A mulher da palavra. A Palavra.

[...] (HELDER, 2004)»

 

«Pois meus olhos não cansam de chorar

tristezas, que não cansam de cansar-me;

pois não abranda o fogo, em que abrasar-me

pôde quem eu jamais pude abrandar;

não canse o cego Amor de me guiar

a parte donde não saiba tornar-me;

nem deixe o mundo todo de escutar-me,

enquanto me a voz fraca não deixar.

E se em montes, rios, ou em vales,

piedade mora, ou dentro mora Amor

em feras, aves, prantas, pedras, águas,

ouçam a longa história de meus males

e curem sua dor com minha dor;

que grandes mágoas podem curar mágoas.

(CAMÕES, 1980)

.In João P. Rodrigues Carvalho, O Poema Herberto Herder: Caos e Contínuo, Caso de Estudo, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, FCSH, 2018.

Cortesia de FCSH/JDACT

JDACT, João P. Rodrigues Carvalho, Caso de Estudo, Cultura e Conhecimento, Herberto Helder, 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

O Poema Herberto Herder: Caos e Contínuo. João P. Rodrigues Carvalho. «Também pode ser uma ironia, explicitando a perpétua posição irónica do poema em relação à prosa, invertendo-a, atacando-a, ainda que não podendo prescindir dela, para poder marcar a sua própria superioridade…»

jdact e Cortesia de wikipedia

«Análise da obra literária de Herberto Helder, contrapondo a autossuficiência de cada poema à possível existência de um único poema contínuo, uma linha semântica percorrendo todos os poemas da obra. Partindo da arte poética Photomaton & Vox, como possível chave de leitura, é pensada a sua concepção de poema: a criminalidade, como acto antissocial, apocalíptico, atacando e destruindo o mundo, isolando-se no processo. Esta destruição começa na própria memória do poeta, partindo depois para o Outro, alterado, assassinado, e ironizado, como tudo, alvos do negro riso poético. Este tom irónico duplica o significado de todo o símbolo, dualizando o sentido do poema, tornando impossível a sua leitura plena, encerrando-o, dentro de si mesmo, obscuro, ponto inalcançável para o leitor, que simplesmente sofrerá o mesmo destino do poeta e das suas fontes: a morte, a transformação. Este fracasso na leitura do poema aponta-o para o silêncio, como paz final: ausência da palavra criminosa, estado pré-linguístico onde o mal (do poema e do leitor) seria evitado, onde o poeta, demonizado, seria salvo. Assim sendo, esta dissertação falha». In Resumo

Herberto Helder morreu a 23 de Março de 2015, finalizando a sua obra; exceptuando os livros póstumos entretanto publicados (Letra Aberta e Poemas Canhotos, e, possivelmente, outros que ainda se irão publicar), que, de qualquer maneira, apenas se somaram, ou somarão, à obra, sem a rasurar. Este fim biológico torna-se especialmente significativo para o estudo literário dum poeta em constante reescrita, constantemente ameaçando (alterando e eliminando) os seus poemas anteriores (agora salvos), num exercício exclusivista que acabou por culminar nos Poemas Completos. Este exercício vitalício tem um instante peculiar na antologia (de 2001) Ou o poema contínuo, onde o poeta, explicitamente: no título, une os poemas escolhidos numa única tensão, um único poema, um poema contínuo, purificado dos textos menores, reconstruindo a obra. Sendo Herberto Helder essencialmente um poeta, este livro tem, inevitavelmente, uma tendência totalizante, excluindo tudo o resto; no entanto, aqui emerge o caso particular dos livros Os Passos em Volta (um conjunto de contos) e Photomaton & Vox (em parte, uma arte poética, completada por seis poemas, incluídos nos Poemas Completos, criando a secção Dedicatória), dois livros de prosa (ficcional e ensaística, respectivamente), genologicamente à margem do poema contínuo, como fronteiras que marcam o centro: como linhas da circunferência necessárias para marcar o centro do círculo (quer como arte poética, pressupondo um poema, quer como prosa ficcional, recuperando temas e até excertos, no conto O estilo, deste). O próprio Photomaton & Vox expõe ostensivamente esta tensão interna na obra, entre centro e fronteira: Não nos acercamos da prosa, a prosa não existe, a prosa é uma instância degradada do poema, a prosa não presume uma qualidade particular de visão e execução, especula um modo extensivo e extrapolado de desgaste do tempo, do espaço. Apesar do tom hiperbólico, não existem dúvidas sobre a existência dum paradoxo: a prosa é declarada inexistente enquanto se escreve (impossivelmente, autodestruindo-se, ironicamente). Uma segunda divergência surge no autorretrato presente no mesmo livro: Isto pode ser uma arte poética; onde este texto se coloca contra a natureza absurda da poesia, adversa às simplificações da cultura, às explicações, que mortificam o poema, que lhe tiram a sua ambiguidade, o seu potencial, explicar a obra (como uma arte poética, em parte, faz), por muito singular que seja a explicação, equivaleria a excluir todos os seus poemas, já não-poéticos: explicados. Esta contradição exige que o próprio livro de prosa duvide da sua natureza: Também pode ser uma ironia, explicitando a perpétua posição irónica do poema em relação à prosa, invertendo-a, atacando-a, ainda que não podendo prescindir dela, para poder marcar a sua própria superioridade (necessariamente comparativa, necessitando de um segundo termo)» .In João P. Rodrigues Carvalho, O Poema Herberto Herder: Caos e Contínuo, Caso de Estudo, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, FCSH, 2018.

Cortesia de FCSH/JDACT

JDACT, João P. Rodrigues Carvalho, Caso de Estudo, Cultura e Conhecimento, Herberto Helder,

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

A Metáfora do voo em Herberto Helder. Pedro Eiras. «Este ensaio pretende seguir o exemplo herbertiano, abrindo-se a um plural imprevisível. Seja o ensaio o duplo do passeio, adquirindo por sincretismo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Partindo de um texto de Herberto Helder onde se trata de bicicletas e helicópteros, este ensaio propõe a abertura para o imprevisível de um passeio. Entendido como exploração, o passeio confunde-se com a incógnita e só termina quando o explorável se torna conhecido. Como dar conta da fenomenologia do passear, abarcando desde a força das expectativas anteriores até à formação de uma panorâmica, uma assimilação do diverso na percepção simultânea, desde o acto de desocultação até à organização do saber?
Este ensaio pretende seguir o exemplo herbertiano, abrindo-se a um plural imprevisível. Seja o ensaio o duplo do passeio, adquirindo por sincretismo os contornos da fenomenologia do passear/voar herbertiano (pois toda a leitura crítica que não se saiba assim invadida pelo texto apenas pode incorrer na má-fé de mitos positivistas). Além disso, é o texto herbertiano que, lúdico, me convida a escrever um scherzo. Seja o ensaio homenagem a uma metáfora, resposta a um repto, medição do alcance da metáfora. E ainda: um voo sobre outro voo. Parto do texto a paisagem é um ponto de vista, publicado em Photomaton & Vox (para as citações, recorrerei à terceira edição, de 1995). Uma primeira versão daquele texto surgiu em 1976, sem título e sem indicação do nome do autor, como introdução a uma antologia literária: Nova. Magazine de poesia e desenho, Inverno de 1975/1976. O texto terminava com uma descrição entusiasta dos objectivos da antologia; mas esses parágrafos finais desaparecem em Photomaton & Vox. Ora, em 1976, nada prova que este texto (doravante referido como declaram que…, suas primeiras palavras) seja da autoria de Herberto Helder: sendo Nova organizada por António Palouro, António Sena, Herberto Helder, e editada por este último, poderíamos supor que declaram que…, fosse do punho de qualquer dos organizadores. Só com a inclusão do texto em Photomaton & Vox, três anos depois, Helder assume como sua a defesa da visão helicopteriana da poesia. Nada disto, e muito menos o assumir da paternidade, é inocente ou desprovido de consequências.
Na sua primeira versão, o texto de Herberto Helder divide-se pois em duas partes: a primeira é uma teorização metapoética a partir da metáfora do helicóptero como instrumento de leitura da poesia; a segunda, separada por três linhas de intervalo, apresenta objectivos e premissas da antologia. Sugere-se assim que a proposta revolucionária de aplicação da metáfora helicopteriana será resolvida (ou está já resolvida) pelos poetas antologiados (ou pela reunião desses poetas na antologia). No entanto, a ambiguidade predomina. Quem lança a proposta: Herberto Helder ou a comissão organizadora? A favor de quem? Contra quem? O repto dirige-se também/sobretudo aos poetas da antologia? A todos os poetas revolucionários (e em que sentido deve ir esta revolução poética-ideológica?) do Portugal do Inverno de 1975/76? Aos poetas que andam ainda em mala-posta? Ao próprio autor de declaram que…?
Nem todas estas questões serão resolvidas pela (re)publicação de declaram que…, em Photomaton & Vox. Na versão de 1979, declaram que…, constitui o décimo-oitavo texto entre os cinquenta e nove do livro, intitulando-se a paisagem é um ponto de vista, entre parêntesis e em itálico, sublinhando a parergonalidade dos títulos em relação aos textos propriamente ditos de Photomaton & Vox. O estilo é depurado, redundâncias e algumas expressões orais de cortesia irónica apagam-se ou atenuam-se. Além disso, o texto integra-se num livro de Herberto Helder. O projecto de fonte anónima, dirigido a um público ambiguamente lato, passa a ser legível com (ou contra?) outros textos do mesmo autor, incluindo os outros textos do mesmo livro. Constitui-se uma poética pessoal, que giza possibilidades de biografia e estabelece coordenadas idiossincráticas. De declaram que…, a paisagem é um ponto de vista cria-se um pai, isto é, um piloto». In Pedro Eiras, A Metáfora do voo em Herberto Helder, Revista da Faculdade de Letras, Línguas e Literaturas, II Série, vol. XXII, Porto, 2005.

Cortesia de Wikipedia/RFLLeLiteraturas/JDACT

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Os Passos em Volta. Herberto Helder. «Annemarie despiu-se e deitou-se nua sobre o cobertor enquanto eu tentava aquecer um pouco de água. Falamos longamente da chuva, do amor e das leis»

Cortesia de wikipedia e jdact

Polícia
«(…) Nessa manhã de Dezembro em que chovia (eu falaria depois a Annemarie da chuva lenta, longa), M. Maurice começou a duvidar da sua influência e da influência do partido comunista. Disse-me que já nada poderia fazer por mim. Seria melhor eu partir para a Alemanha ou a França, ou arranjar então lugar num barco que saísse de Antuérpia. Considerava as palavras do meu amigo enquanto bebia cerveja num bar perto da estação. No calor do bar a roupa fumegava. Gotas de água à volta. Calma solidão sem dor. Havia música. Meu Deus! A minha alma conhecia os seus caminhos. A terra era grande. Tudo quanto eu fizesse, cada coisa que me acontecesse, não me tomariam maior ou menor que a fé ou o desespero. Pois o desespero era antigo: uma delgada, tenacíssima raiz. Era uma experiência, um pensamento, um destino, algo que eu aceitava, que me induzia talvez a amar a vida. Estava só no meio da chuva tranquila. Podemos sempre beber uma cerveja como se fosse a última. Em cada instante a terra ainda consegue ser completa: é a única, e isso mesmo a renova. Annemarie sentou-se à minha mesa. Vi logo o tamanho da sua solidão: tinha o tamanho do mundo. Ela era a criatura mais só do mundo. E a sua história apareceu, simples, tenebrosa, entre as nossas duas cervejas. Todas as histórias pessoais são simples e tenebrosas. Não me comovi. Comovido já eu estava: com as coisas, comigo, com a chuva sobre a cidade. Talvez houvesse uma irónica alegoria em nós dois ali sentados diante dos belos copos frios, compreendendo ambos tão facilmente o que nos acontecia e iria acontecer que não tínhamos pressa. Poderíamos morrer ali mesmo. Esperávamos.
Annemarie era francesa, de Lyon. Abandonara um filho de dois anos. O marido combatia na Argélia, talvez estivesse morto. (Ela dizia que o amava, e por que não? O amor e o desespero e a desordem, isso é a nossa parte do jogo). Annemarie não queria regressar à França. Mas vivia na Bélgica sem documentos. Fora já posta na fronteira duas vezes: voltara, voltaria sempre. Que pode fazer uma pessoa senão voltar, estar fora, ser completamente estrangeira, não ter papéis? A terra é enorme. Paramos num sítio. E agora estamos sentados e procuramos, com a nossa história simples e desesperada, atrair o cuidado, o fervor alheio. É assim. Renovamos a espera inútil; o milagre onde não há milagres; a luz ao fundo, sempre ao fundo. Somos ilegais, em cada dia criamos uma rápida, brevíssima beleza surpreendente contra a face do pavor. M. Maurice perdera a última esperança de me salvar. O partido comunista, a viagem de ida e volta em comboio até Clabeck, a chuva, uma impossível salvação (que salvação?), embrulhavam-se dentro de mim, e eu sentia-me embriagado, feliz, irresponsável: sentia-me como se estivesse perto de morrer.
Agora uma mulher bebia cerveja na minha solidão, falava do filho que abandonara, do marido que estava na guerra. (Pronunciava as palavras devagar, arrancava-as inexoravelmente a esse sempre vivo e sempre secreto vocabulário do medo e do empenhamento.) Dizia sorrindo que estava perdida. Gostava da cerveja belga, achava Bruxelas insuportável. Sim, queria morrer. Queria morrer anonimamente, no fim do deserto. Eu percebia. Os chuis farejavam à volta da Gare du Nord, farejavam-nos a todos: pu…, chulos, vadios, indocumentados, ilegais. Sabiam que ela voltara: seria presa? Já o fora algumas vezes: não era o pior. Seria mesmo a única forma agora possível de pensar nas coisas, de avaliar o mundo. Mas aí acabava o jogo. Não se podia dizer: sou livre. Não se podia arriscar a liberdade. (E perguntar: que liberdade?) Eu também seria preso, repatriado: andaria depois por Lisboa a dormir em quartos de amigos, em camaratas públicas. À caça de um almoço, uma sopa, um copo de leite. Todos os lugares são no estrangeiro. E eu passaria junto ao rio, olhando a crespa e lívida massa das águas, a outra margem com o fumo vermelho das refinarias a sufocar a branca luz a prumo. E imaginava já a prisão em Bruxelas. Era preciso enganar a polícia. Rebentar de fome, sim, estrangeiramente, mas não perder nunca a liberdade. (E a pergunta: que liberdade?)
Annemarie tinha o dom da poesia subversiva. Subvertia tudo. A seu lado senti que a minha vida era importante. Que a arriscaria, sempre e sempre, que perderia, mas nada cedendo de mim próprio. O amor do perigo embebedava-me. Começávamos então a lutar contra a polícia do mundo inteiro. Quando anoiteceu saímos do bar e fomos a pé, vigilantes, protegidos, até ao meu quarto de Laeken. Contornamos o que nos parecia suspeito: um carro parado, um vulto vagaroso, as sombras, as vozes. Foi ainda preciso subir furtivamente as escadas do prédio, pois a senhoria já me mandara embora, porque 1º eu não lhe pagava a renda, porque 2º não queria complicações com a polícia. Mas depois o quarto foi nosso. Annemarie despiu-se e deitou-se nua sobre o cobertor enquanto eu tentava aquecer um pouco de água. Falamos longamente da chuva, do amor e das leis». In Herberto Helder, Os Passos em Volta, 1994, 2004, Assírio & Alvim, 2009, ISBN 978-972-370-119-7.

Cortesia de AAlvim/JDACT

Os Passos em Volta. Herberto Helder. «Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Holanda
«(…) Não penso na minha alma, diria ele, nem na carne. Não me ponho a perguntar se ganharei a salvação. Eu preciso de amor. Preciso aprender. Mas parece que na comunidade já tudo se aprendera, estava tudo ensinado e sabido desde sempre. E os homens pensavam unicamente em preservar-se do sofrimento; desejavam que a linguagem ficasse intacta, sem mácula. Ele olhava o sol verde entre as patas das vacas e supunha poder envenenar-se legando o cadáver à confusão holandesa. E como se alimentaria essa confusão, como seria divertido o pequeno quadro holandês! Senhor, que lhe aconteceu? Salva-lhe a alma se puderes. Ele era um estrangeiro: envenenou-se. Nada mais sabemos. Que mal te fez a Holanda para a castigares assim? Muito lentamente, o seu amor desenvolveu-se. Era um amor que se aprendia a si próprio, cheio de medo e dúvida. O nosso amor pode atingir tudo?, perguntava. Ou perguntava então: até onde vão os direitos de um... homem? Ou de um poeta? Na Holanda não se fazem fogueiras ao ar livre: nada se percebe do fogo. A Holanda é um país cada vez maior. O mar rouba-lhe meio metro, e logo os holandeses roubam dois metros de terra ao seio fervente das águas. Não compreendo a justiça cósmica. E murmura para si: nada conhecem das coisas do fogo. Os dons mais profundos do homem estiolam dentro deles. Deverei amá-los? Amar o quê, quem?, pergunta a visita. Referes-te aos homens holandeses ou aos dons que esqueceram? E ele não sabe realmente aquilo a que desejava referir-se, o que lhe inspirava o desespero. Sentado na Holanda, pensa: piedade. Para ele? Para os homens holandeses? Em que jogos se enreda uma inocência!

Teoria das Cores
Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe. O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor, sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor. Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose. Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.

Polícia
Le petit monsieur Leclair falhou mais uma vez. Nesse dia (Dezembro, chovia) eu fora à sede do partido comunista, recomendado pelo pequeno senhor Maurice Leclair, e recebera uma carta para as forjas de Clabeck. Em Bruxelas o meu trabalho era muito irregular. Só acidentalmente é que dispunha de algum dinheiro. Fazia um pouco de tudo: cortava legumes na Sobela, enfardava aparas de papel na Nouvel Maison Vermeiren ou ajudava Chez Lemaire, uma friture. Não tinha os documentos em ordem. Não havia quem me desse trabalho certo e suficientemente prolongado. Maurice pretendia meter-me em Clabeck, nas forjas (trabalho violento), e que por aí fosse solicitada ao ministério a carta de trabalho. Contava com a influência de alguém do partido comunista. Eu divertia-me sobretudo quando pensava que M. Maurice era antigo colaboracionista e gozava de direitos civis e políticos. A Bélgica era um país confuso, cómico. Por exemplo: o maior amigo do meu protector, um flamengo que amava a cerveja forte, pertencera à resistência.
Eu desejava trabalho, apenas isso. Também um pouco de calor. Pensava em raparigas com quem pudesse dormir ou ir, nas noites de sábado, aos bares da Chaussée d’Anvers. Eu tinha um quarto triste, sem aquecimento. Uma das janelas caía sobre a igreja e o cemitério burguês de Laeken. A outra dava para umas luzes distantes. Sob uma ponte próxima passavam comboios de mercadorias. Às vezes eu fazia com estes elementos estrangeiros um lirismo vagabundo e inocente. Também me sentia entusiasmado com a solidão. Encontrava-me fora dos quadros, vagueava pela cidade. Era já perigosamente conhecido Au Nord, perto da estação, onde as pu… e os chuis eram mais que as mães. De vez em quando perdia por ali uma tarde inteira, arranjava dinheiro para duas cervejas, um pacote de batatas». In Herberto Helder, Os Passos em Volta, 1994, 2004, Assírio & Alvim, 2009, ISBN 978-972-370-119-7.

Cortesia de AAlvim/JDACT

quarta-feira, 25 de março de 2015

Os Passos em Volta. Herberto Helder. «A Holanda agora é isto: vacas e, no centro, o inferno, a revolucionária inocência de um poeta sentado. Por quem me tomam?, pode ele perguntar…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Holanda
«(…) Um poeta está sentado na Holanda. Pensa na tradição. Diz para si mesmo: eu sou alimentado pelos séculos, vivo afogado na história de outros homens. E a sua alma é atravessada pelo sopro primordial. Mas tem a alma perdida: é um inocente que maneja o fogo dos infernos. Abre-se ao fundo da sua meditação holandesa um grande lago: a solidão, e em volta passeiam vacas. A Holanda agora é isto: vacas e, no centro, o inferno, a revolucionária inocência de um poeta sentado. Por quem me tomam?, pode ele perguntar. O que eu quero é o amor. E sempre assim, sempre: cidades inexplicáveis no meio da terra ou prados imensos onde se tem medo. Prados para vacas, não para um poeta di-la-ce-ra-do por uma tormentosa inocência. Já não escreve poemas nem pergunta às pessoas o seu nome. Ele próprio, visto estar destinado à inteira perdição, vai perdendo o nome pelo país adiante. Agora vigia a paz devoradora dos animais, as coisas, a imobilidade. Vou partir, imagina. As cidades ardem, os campos enlouquecem. Um poeta tem de partir, repartir, repartir-se. Um poeta deve ser uno. O inferno não o deixa. As vezes lamenta-se: Sinto-me como se tivesse percorrido o deserto; não sei nada. A noite falava baixo, conhecendo que não possuía a proteção das coisas e a sua vida estava a ser corroída por uma vocação menos que humilde: degradante. Não servia para nada; essa era a sua mais implacável vocação. Ficava sentado a ver os homens holandeses cuidarem dos animais e da terra e a vigiarem o céu. Os homens holandeses invocavam os poderes que se debruçavam, um pouco como holandeses, sobre o exercício humano.
Na Holanda o Demónio é negativo. O poeta sabia da irremissível solidão do Demónio, e pedia por ele: Piedade para o Demónio, piedade para a solidão demoníaca. Na Holanda é assim. O Demónio está no meio das vacas: não escreve poemas, não pode exercer os dons. Pensa, perde o nome. Quem esperaria dele que trabalhasse a terra ou protegesse as alimárias? Pela noite fora o poeta mantinha-se o mais deitado possível, com o talento voltado para o ar, ouvindo os pequenos ruídos do mundo. E pensava: Como se atreve a terra a tamanha placidez? Ou estarei eu marcado por alguma culpa insondável? De onde descendo, que não sou amado dos holandeses nem me acalmo e participo das tarefas? Mas uma noite recebeu a visitação. O seu espírito iluminou-se: Tu és um homem. Sim, sou um homem, disse mas não sou holandês, Aliás, não se compreendia bem o que fosse aquilo de ser um homem. Para onde pensam que vou ou de onde venho?, perguntaria. Eu aspiro o amor. Percebe-se isto? Holanda, Holanda, país conquistado às águas! (Não é assim que se diz?) Holanda erguida devagar ao concreto. Entretanto o poeta abisma-se no espírito demoníaco e invoca uma protecção obscura, a piedade para o Demónio. Pensa furiosamente na tradição, e toda a sua memória está corrompida por uma ardente e desordenada tristeza. O sangue é negro desde a raiz. Porque ninguém sabe onde a corrupção completa a inocência. O quarto fica sobre uma loja onde se vendem leites, natas, queijos, cremes. Tudo isso é gordo e branco. Ele desce as escadas, pára em frente da leitaria. Que é isto?, pergunta. Refere-se a Deus, devorador de natas. Há uma confusão qualquer, supõe. Sou um inocente. Afastem Deus daqui. Além disso, estou amaldiçoado. O coração já não pode mais. Entre os bichos e as plantas, acontece-lhe dizer: Que fertilidade!, e a vida corrompe-se nos próprios fundamentos. Sente-se como um apóstolo sem fé. Desejaria morrer, arder no fogo apocalíptico das cidades. Ou ser devorado pela inteligência, estiolar de excessiva lucidez no meio da loucura campestre. Tradição, compreende uma: ama-a. Perdeu o nome, essa sabedoria. Beleza, é pouco. Verdade, é muito. Trata-se de um termo subtil que participa de uma e outra, que se tornou inútil, insensato». In Herberto Helder, Os Passos em Volta, 1994, 2004, Assírio & Alvim, 2009, ISBN 978-972-37-0119-7.

Cortesia AAlvim/JDACT

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Brasil em Quinta. Bossa Nova. «Deixei o sol na praia de Quissico. De bruços sobre o verão eu deixei o sol na extensão do tempo. Molhado, quase líquido, o dia afundava nas fundas águas do Índico. A terra se via nua lembrando, distante, seu parto de carne e lua. Não o pássaro: era o céu que voava»

jdact

«Pára, sangue, de correr,
de ressaltar aos borbotões,
de me inundar como torrente,
de me brotar sobre o flanco.
Como contra uma parede,
imóvel como uma sebe,
lírio marinho direito
como espadana na espuma,
como pedra no talude
e o recife na corrente.
Sangue, sangue, se o desejo
te faz correr com tal força,
circula dentro da carne,
abraça-te aos ossos vivos.
Belo, belo que é correr
na obscura pele compacta,
sussurrando nas artérias,
murmurando contra os ossos.
Pára, sangue, de correr
sobre a fria terra morta.
Não corras, leite, no chão,
sangue inocente no vale,
beleza humana entre a erva,
oiro de heróis na colina.
Desce fundo ao coração,
bate surdo nos pulmões,
desce, desce fundamente
aos órgãos vivos do corpo.
Não és rio que se escoe,
nem calmo lago parado,
nem fonte que brote assim,
nem barca velha com rombos»


«Quando eu a cinjo e ela me abre os braços,
sou como um homem que regressa da Arábia,
impregnado de perfumes.
Desço o rio numa barca,
ao ritmo dos remadores.
Com um feixe de canas ao ombro,
vou para Mênfis,
e direi a Ptah, senhor da verdade:
Dá-me esta noite a minha amada.
Este deus é como um rio de vinho,
com seus maciços de canas.
E a deusa Sekhmet é como se fosse a sua moita de
flores.

E a deusa Earit, seu lótus em botão.
E o seu lótus aberto, o deus Nefertum.
E a minha amada será feliz.
Levanta-se a aurora através da sua beleza.
Mênfis é um cesto de tomates
posto frente ao deus de rosto puro.
Bom é mergulhar, bom,
ó deus meu amigo,
é banhar-me diante de ti.
Adivinhas-me quando se molha
minha túnica de fino linho real.
E juntos entramos nas águas,
e à tua frente eu saio das águas,
agarrando entre os dedos
um estupendo peixe encarnado.
Olha para mim.

Tanto se alvoroça meu coração, de puro amor,
que metade da minha cabeleira se desfaz,
quando corro ao teu encontro.
Para que me vejas sempre igual e bela
diante de ti,
eu componho os meus cabelos».
Poemas de Herberto Helder, in ‘Bebedor Nocturno’

JDACT

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Os Passos em Volta. Herberto Helder. «Ouviu? Tenho medo. Ninguém responde, e eu deito-me de novo, vendo a luz amarela sobre o meu próprio corpo e escutando um ralo devasso a coaxar dentro deste terror»

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O Grito
«(…) por favor, dirijo-me a alguém por entre a música, diga que compreende. Diga-me agora, já. Mesmo que não compreenda. O inspector sorri. Como pode este sorrir tanto? O senhor decerto concorda em que somos necessários. Asseguramos uma ordem que permite a criação. Estabelecemos o clima próprio… Claro que nunca mais dormi. Espero os gritos. Espero-os todas as noites. Fico sentado na tarimba, tiritando. Estou vazio. O meu desespero é este vazio total, estranha forma de terror que nunca mais me abandonará. Ouço um ralo, e isso impacienta-me. Um ralo é uma coisa estúpida. Pode até fazer com que eu adormeça. Também ouço todas as noites os gritos que partem de algures na prisão, talvez do piso em cima, de qualquer cela semelhante a esta. São cada vez mais fracos e agora, na quinta noite, esforço-me por destacá-los do silêncio amarelo do corredor. Serei um colecionador de gritos? Não consigo senão ter medo, esta força desordenada e súbita que me arrasta para o pote. Chamo por alguém. Digo nomes ao acaso. Há-de haver algum preso nas celas próximas, alguém a quem dizer: Ouviu? Tenho medo. Ninguém responde, e eu deito-me de novo, vendo a luz amarela sobre o meu próprio corpo e escutando um ralo devasso a coaxar dentro deste terror.
O jacto de fogo sobe do fundo até às estrelas. Sou um bêbado. O poço estremece. É o último grito, a agonia do mundo. Uma coluna de pedra que se parte de repente. Nasceu num homem. Propagou-se. Está em mim. Caio então muito depressa no sono. Durmo. Durmo cada vez mais. Um dia já não não acordarei. Espero nunca mais acordar. Acendo um cigarro, e o espelho mostra que não tremo. Quem sabe se a morte desse homem… Como digo? Não é verdade que o seu sofrimento acabou para sempre? Sim, mas como posso libertar-me desses gritos, esse espantoso grito final, e adormecer, morrer? Bebemos. Digo: bela cerveja.
E meto as mãos pelas coxas de uma das raparigas. Somos três à mesa. As duas mulheres riem continuamente. Um soluço cresce pela cerveja acima, e então bebo dois grandes goles. Enterro-me na música violenta. Pensam acaso que não estive também a gerar esse grito? Que ele não foi do mesmo modo um sofrimento meu, um crime? A névoa afoga-me. Por dentro da névoa as raparigas riem como loucas. Dizem piadas obscenas. Vou cair com a cabeça sobre a mesa fria. Vou dormir mais uma vez. Um bêbado que dorme caído sobre o tampo de uma mesa ressona como um porco. É sempre assim. Ressonamos como porcos, e as mulheres a nosso lado riem loucamente nos seus vestidos de cor. 
 
Os comboios que vão para Antuérpia
Em Janeiro eu estava em Bruxelas, nos subúrbios, numa casa sobre a linha férrea. Os comboios faziam estremecer o meu quarto. Fora-se o Natal. Algo desaparecera, uma coisa ingénua em que se poderia ter confiado. Talvez a esperança. Eu não tinha dinheiro nem livros nem cigarros. Não tinha trabalho nem ócio, porque estava desesperado. Por isso passava o dia e a noite no quarto. Na linha em baixo rangiam e apitavam comboios que talvez fossem para Antuérpia. Eu pensava em Deus quando os comboios trepidavam nos carris e apitavam tão perto de mim. Quando iam possivelmente a caminho de Antuérpia. Pensava nos comboios como quem pensa em Deus: com uma falta de fé desesperada. Pensava também em Deus, um comboio: algo que sem dúvida existe, mas é absurdo, que parte com um destino indefinido: Antuérpia, que possivelmente (evidente) não era. Às vezes vinha à janela e, por detrás dos vidros, olhava para o caminho-de-ferro. Mas antes de lá chegar os meus olhos encontravam uma árvore esquisita, tímida mas tenazmente viva num quintal próximo». In Herberto Helder, Os Passos em Volta, Assírio Alvim, 2009, ISBN 978-972-37-0119-7.
 
Cortesia A Alvim/JDACT