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sexta-feira, 18 de março de 2022

O Último Papa. Luís Miguel Rocha. «Nesse caso, a mulher é personificada por um musical que está ávido por ver há algum tempo, embora, por razões pessoais, só hoje tal oportunidade se tenha apresentado. Não lhe passa pela cabeça que todos os seus movimentos estejam sendo monitorados, a pouca distância, por um homem de casaco que fala ao telefone»

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Conclave

26 de Agosto de 1978

«(…) Continuam o caminho para sul, pela Sétima Avenida, o homem de casaco sempre no rasto do outro, mais velho, a uma distância segura. Tem experiência no assunto, já que o movimento de trânsito e pessoas, ruídos e milhares de hipotéticos pontos de desconcentração não parecem afectar de forma alguma a perseguição. De qualquer maneira, nem precisa segui-lo, pois sabe perfeitamente qual o destino do idoso. Um toque de telemóvel, auxiliado pelo efeito vibratório, chama a atenção do homem. Alguém está ligando. Sim, atende com voz firme e decidida enquanto atravessa o cruzamento da Sétima Avenida com a 43. A magnitude dos arranha-céus não o impressiona de maneira nenhuma, o que demonstra que não é a primeira vez que visita a cidade. Correu tudo bem? Um esgar de impaciência. O quê? Limpem a porcaria que fizeram! Não deixem vestígios! Vira à direita na 42, visivelmente irritado. Se as coisas não correrem como planeado, nem vale a pena dizer o que lhes vai acontecer. Quero a mulher prestando contas a São Pedro ainda, hoje! Espero um telefonema de vocês com essa notícia. Assim que desliga abruptamente o telemóvel, marca outro número, controlando os passos do seu alvo. Apesar de idoso, na casa dos setenta, caminha vigorosamente, como um adolescente que vai a alguma festa onde sabe haver mulheres. Nesse caso, a mulher é personificada por um musical que está ávido por ver há algum tempo, embora, por razões pessoais, só hoje tal oportunidade se tenha apresentado. Não lhe passa pela cabeça que todos os seus movimentos estejam sendo monitorados, a pouca distância, por um homem de casaco que fala ao telefone.

Hello. Vamos ao teatro... Tudo calmo por enquanto... Ainda não deu nenhum passo em falso... Aguarda uns instantes, inspira fundo e fecha os olhos. Senhor, as coisas não estão correndo bem em Londres... O alvo escapou e tivemos uma baixa... Sim, eu sei, a baixa é o de menos... Já mandei limpar o local. Escuta atentamente as recomendações ordenadas pelo interlocutor. Não sei se eles vão conseguir dar conta do recado..., talvez  seja melhor o Mestre activar a Guarda... Pára no número 214, o Hilton Theatre, antes o Ford Center for the Performing Arts. O teatro é recente, remodelado em 1997, mas a fachada faz lembrar os teatros do final do século XIX, início do século XX. Talvez porque pertença mesmo a essa época. Na realidade, o Hilton Theatre, com entrada pela rua 43 e também pela 42, era dois teatros até 1997, o Lyric e o Apollo. A remodelação os juntou, transformando-o num dos maiores da Broadway. Contudo, quem estivesse à espera de um interior completamente adaptado aos tempos modernos sairia desiludido, pois o Hilton, apesar das exigências subtis de conforto com que foi beneficiado, mantém todo o peso da sua história de cem anos nas peças aproveitadas dos dois teatros. O homem, ainda com o telefone colado ao ouvido, entra no átrio e entrega o bilhete a um jovem, que o rasga. Procedimentos rotineiros, habituais em todos os teatros do mundo. O jovem indica-lhe seu lugar na plateia.

Se desejar, pode deixar o casaco na chapelaria, senhor. Muito obrigado. Pode dizer-me onde fica o banheiro? Claro. Primeira à esquerda, senhor. O homem prossegue o caminho em direcção ao banheiro, pelo menos até sair da vista do jovem rasga-bilhetes. Confirme-me assim que a Guarda neutralizar o alvo em Londres... Sei que posso considerá-lo neutralizado, mas... Okay, senhor... Quanto a este, mantenho as coisas como estão até que ele se revele. Muito bem. Adeus. Passa os banheiros e sobe pelas escadas até ao primeiro balcão. A sala está praticamente lotada, mas depois de uma observação atenta descobre um lugar vazio na fila da frente, do lado direito. Excelente lugar. Não que esteja interessado em assistir ao musical dirigido por Adrian Noble, baseado no livro do famigerado Ian Fleming, o sumo criador do célebre Bond, James Bond. Sorri só de pensar na ironia. Agentes secretos, actividades confidenciais como a dele, Ian Fleming, James Bond..., e Chitty Chitty Bang Bang, apesar do título sugestivo, nada tem de secreto ou confidencial. São duas horas e meia de puro entretenimento musical e humorístico; mas para esse homem, como para os actores da peça, é apenas um trabalho que se faz com satisfação. As luzes da sala diminuem de intensidade até que se apagam. O instrumental providenciado pela orquestra instalada no palco entra em cena, preparando o público para o que virá. O homem tira um pequeno binóculo do bolso para apreciar melhor o que se passa no palco e na plateia. Dois minutos bastam para que se fixe na pessoa que procura: o indivíduo com certa idade, sentado numa das cadeiras da ponta direita da ala central da sala. Um sorriso invade a boca do homem, que se recosta confortavelmente na cadeira do primeiro balcão. Aponta a mão como se fosse uma arma, indicador e polegar retesados, para o idoso lá em baixo. Bang. Bang». In Luís Miguel Rocha, O Último Papa, Saída de Emergência, 2006, ISBN 978-972-883-969-7.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

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quinta-feira, 17 de março de 2022

O Último Papa. Luís Miguel Rocha. «A melhor palavra para caracterizar o que se passou nos últimos segundos com Sarah Monteiro é milagre. Não um daqueles reconhecidos pela Santa Madre Igreja, com todos os exames físicos, documentais, testemunhais e ficcionais…»

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Conclave

26 de Agosto de 1978

«(…) Contudo, o homem não ia lhe fazer as vontades. Muito pelo contrário. A ideia era acabar com todas. E tudo terminou muito rápido. Viu a arma, segura por um punho envolvido numa luva de couro, atravessar a névoa. Assim que divisou o restante do corpo, agarrou o extintor com toda a força e impulsionou-o contra a cabeça do homem. Este esquivou-se, aninhando-se e avançando adiante, meneando o corpo até acabar de frente para Sarah Monteiro, de arma apontada. Em nenhum momento perdeu o equilíbrio. Movimentos precisos de quem conta com o imponderável. Sua massa corporal tapa quase toda a luz exterior que entra pela janela e impede que Sarah consiga ver o seu rosto. Apenas uma silhueta grande que lhe aponta uma arma. Uma peça letal que lhe dará uma morte rápida. Dois disparos. Sarah dá um grito abafado e deixa-se cair ao longo da parede. É isso que se sente quando se leva dois tiros? Nada? Será que a morte foi tão rápida que passou instantaneamente para o lugar para onde se vai quando se morre? O estrondo do homem caindo pesadamente de barriga para baixo no soalho retira-a dos desvarios espirituais. A cabeça dele ficou em cima das suas pernas. Os olhos apáticos, vazios, esbugalhados na direcção dela, numa espécie de manifestação derradeira de incompreensão do que sucedera.

A melhor palavra para caracterizar o que se passou nos últimos segundos com Sarah Monteiro é milagre. Não um daqueles reconhecidos pela Santa Madre Igreja, com todos os exames físicos, documentais, testemunhais e ficcionais, mas um providencial, personificado na decisão engenhosa de Sarah, combinado com a sorte que o Além, lança sobre os humanos em certas ocasiões, e que pode ser aproveitada ou não. Nem Sarah compreendeu de imediato. Só instantes depois reparou em dois pequenos buracos no vidro da janela. Com medo, coloca um dedo nas costas do homem e sente a humidade do sobretudo. Sangue. Alguém desempenhara o papel de seu anjo da guarda. Mas quem? Senhor Raul, tem muito que me explicar. Agora é hora de fugir.

Times Square. Um dos centros do mundo civilizado, comparável a Trafalgar Square, Champs Élysées, Alexanderplatz, Praça de São Pedro e por aí afora. Na praça do tempo, onde o relógio digital marca as horas, os minutos e os segundos que faltam para o novo ano, o barulho nocturno é idêntico ao diurno. Nessa cidade de Nova York, e ainda mais nessa praça mítica do coração nova-iorquino, norte-americano e também de alguns europeus, a publicidade luminosa enche os olhos dos turistas, a luz ofuscante do apelo ao consumismo, estímulo primeiro do mundo capitalista. O volume de trânsito é igualmente digno de nota: transportes públicos, automóveis, táxis amarelos, caminhões de carga, tudo a convergir para a Broadway e para a Sétima Avenida, onde estas se cruzam e se afastam para outros destinos no imenso emaranhado de ruas e avenidas, túneis e pontes de Manhattan. Milhares de pessoas ocupam as ruas nessa parte da cidade. A que nos interessa: todo o quarteirão que circunda a Times Square até à Rua 42. Não que o lugar importe mais do que o homem que nele anda, com passos muito seguros e resolutos, o casaco aberto esvoaçando para trás como uma capa ao vento, tamanha a velocidade que imprime ao andar. De onde vem não é relevante informar, já que a lista é extensa -muitos lugares por esse mundo afora; tudo para que se cumpra o objectivo, o Grande Plano traçado por uma mente mais brilhante que a dele. Passa indiferente à indiferença dos milhares de transeuntes que com ele partilham o passeio largo. Na enorme bilheteira da TKTS incrustada na 47, mesmo entre a Broadway e a Sétima Avenida, o mais famoso cruzamento do mundo, coloca-se na fila e apura os ouvidos.

Um para o Chitty Chitty Bang Bang, por favor. Para a sessão das sete, pede o idoso que está sendo atendido, duas pessoas à sua frente. Chitty Chitty Bang Bang. Os lábios do homem do casaco abrem-se num sorriso. Bastante apropriado. Assim que chega a sua vez na fila, compra um bilhete para a mesma sessão da mesma peça, em cena no Hilton Theatre, na Rua 42. Perambula alguns minutos pelas lojas e toma um cappuccino no Charley Co's. Poderia pensar-se que está apenas gastando tempo até o início da peça, mas um olhar mais atento, algo impossível de pedir às pessoas que por ali andam, imersas na sua vida, revela que esse homem não anda ao sabor da sua vontade. Segue os devaneios de caminhante de um outro, o idoso que comprou, apenas há minutos, um bilhete no posto de venda da TKTS». In Luís Miguel Rocha, O Último Papa, Saída de Emergência, 2006, ISBN 978-972-883-969-7.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

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sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Luís Miguel Rocha. A Mentira Sagrada. «A agenda mental normalmente assinalava sempre qualquer coisa, uma reunião, um telefonema, um almoço, comprar um presente, uma flor para Myriam…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Vaticano. 19 de Abril de 2005

«(…) Diz-se que a noite é sempre boa conselheira, mas é também a coberto dela que se perpetram crimes, que se contam segredos, que se perpetuam mistérios. Jantaram na mesa número 205 do deck 14. Myriam quis que fossem ver a peça que estava em cartaz. Na verdade era mais do que uma, pois chamava-se Musicais da Broadway, um resumo das principais cenas e músicas de Cats, West Side Story, O Fantasma da Ópera e outros clássicos renomados, da batuta de Andrew Lloyd Webber. Não era obra que ficasse na retina, mas foi agradável. Uma espécie de pastiche de digestão fácil porque afinal em férias não há porque se desgastar com dramas ou obras de profundidade dramática excessiva. Recolheram ao quarto já passava das onze da noite. Myriam estava feliz e era esse o objectivo. Estás bem, meu querido?, perguntou-lhe. Pareces muito desligado hoje. Andas bem? Estou bem, Myr. Não te preocupes. Falaste com o Ben esta noite? Falei, mentiu. Vou-lhe ligar novamente à meia-noite, se não te importas. Hoje foi um dia importante para ele. Tão tarde? E ainda mais em Jerusalém, censurou franzindo o cenho. É. Ele pediu. Está bem. Mas não fiques uma hora ao telefone. Já sabes que tenho frio de noite.

Está descansada, querida. Será rápido. A voz sumia-se cada vez mais. Não conseguira falar com o Ben Júnior. O telefone estivera sempre desligado. O assistente não conseguira localizá-lo em lado nenhum. Não estava na propriedade que os Isaac possuíam em Telavive, tão-pouco apareceu na sede da empresa . Temia que o bilhete que recebera ao pequeno-almoço estivesse relacionado com o desaparecimento do filho. Não fazia ideia de quem o enviara, nem quem poderia estar ao corrente do Statu Quo. Fosse como fosse em breve o saberia. Passou o dia a desconfiar de tudo e de todos. Dos empregados sorridentes, dos restantes turistas, independentemente do género; só Myriam escapava à suspeita. Perguntou-se centenas de vezes se o emissor da mensagem estaria no barco, se estaria a observá-lo, se, se, se. Isto num homem que sempre evitou os ses. No dia anterior aportaram em Livorno e visitaram Florença e poderia muito bem ter sido aí que o interlocutor entrara, muito a tempo de sair no dia seguinte, em Nápoles, aproveitando o corre-corre do navio, de porto em porto na costa ocidental italiana. Era uma agulha num palheiro no meio de três mil pessoas. Beijou Myriam carinhosamente na testa e saiu para a piscina.

Não demores, advertiu Myriam antes de ele bater gentilmente à porta. Não sabia que outra resposta dar se não um Será rápido, mas a verdade é que não sabia para o que ia. A agenda mental normalmente assinalava sempre qualquer coisa, uma reunião, um telefonema, um almoço, comprar um presente, uma flor para Myriam, mas, neste ponto, a nove minutos da meia-noite, estava em branco. Caminhou pelo corredor do deck 14 em direcção ao elevador. Subiria um lanço e dali à piscina não levaria mais de dois ou três minutos no seu passo lento e nervoso. As pernas tremiam-lhe como se pressentissem um abismo. Passou por alguns turistas que cambaleavam à procura do equilíbrio no regresso ao quarto que não lembravam onde ficava. Os empregados arrumavam a desordem do dia, o lixo que os impudicos lançavam ao chão sem culpa, beatas de cigarro, copos de plástico, pedaços de comida.

Perto da piscina o movimento era menor, estranhamente, ou talvez não. Bem Isaac deu por si ofegante. Não fora grande caminhada, nem havia subidas ou descidas íngremes. Não estava ninguém. A água ondulava ao sabor do gigantesco navio. Iluminação submersa pintalgava a água de um azul-vivo, cujo movimento ondeante a transformava num organismo com vida. Não viu vivalma. Estranho. Mas nada naquele dia fora normal. Consultou o relógio. Onze e cinquenta e sete. Os segundos matutavam na cabeça dele ou seria o coração a latejar nas veias que marcava o ritmo da inquietação. Os três minutos pareceram seis e depois doze, até que chegou a meia-noite e..., nada aconteceu. Verdade que era apenas a hora do seu relógio, talvez ainda não fosse meia-noite no relógio do outro interveniente, fosse ele ou ela quem fosse. Olhou ao seu redor e não sentiu qualquer movimento. A noite estava fria, desagradável. O navio deslizava lentamente para sul, abrindo caminho pelas águas do Tirreno. Dois minutos depois da hora, segundo o seu relógio, ouviu um disparo oco. Não saberia apontar a proveniência dele mas é certo que o que quer que fosse não passou nem perto de si. De qualquer forma sentia-se demasiado exposto. Momentos após o disparo e as dúvidas viu algo a descer no céu, lentamente. Estava a cerca de 50 metros de altura e descia em direcção à piscina. Ao princípio não conseguiu descortinar o que era. Um objecto voador não identificado. Aos trinta metros conseguiu dar um nome ao objecto. Chamava-se paraquedas. Imune à observação atenta de Ben Isaac, o paraquedas manteve a sua descida serena». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

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Luís Miguel Rocha. A Mentira Sagrada. «Aqui, senhor inspector, proferiu o assistente, estendendo a mão e acendendo o isqueiro junto à ponta da cigarrilha. Depois entregou um telemóvel a Rafael»

Cortesia de wikipedia e jdact

Vaticano. 19 de Abril de 2005

«(…) Desculpe? Que raio de pergunta era aquela? Mera curiosidade, acrescentou. Deixou-o sem palavras. Ou melhor, teria de responder com cuidado para não ser mal interpretado. Acredito que há um mundo para além da morte onde estaremos em comunhão com Deus e... O Céu? Sim. E o Inferno? Para quem não salvou a alma, explicou Rafael. Não estava a ver onde aquilo ia dar. Acha que o turco e o alemão foram para o Céu ou para o Inferno? Gavache tinha o dom de o deixar sem palavras. Huh..., diria que para o Céu. Que homem tão estranho. Então acredita que levaram uma vida digna que lhes abriu as portas do Céu?, insistiu Gavache. Sem dúvida. Então, a seu ver, o que é que eles terão feito para que alguém tivesse planeado tão meticulosamente as suas mortes? O que fizeram… Ou o que sabiam? Gavache deixou a pergunta no ar. Rafael percebeu onde o inspector queria chegar. Não havia porque ocupava aquele posto. Era arguto. E há ainda outra coisa, prosseguiu Gavache. Rafael aguardou. Disse-me que veio por razões pessoais e não em nome do Papa, confirma? Correcto, afirmou Rafael apreensivo.

Mas estes crimes não foram ainda tornados públicos, senhor padre. Não há um jornalista que tenha conhecimento disto. Informámos a Santa Sé por razões muito especiais, o que torna a sua presença aqui muito estranha, concorda? Gavache não esperou pela resposta. Olhou-o directamente. Compreendo que seja amigo de uma das vítimas, mas terá de me responder porque razão apanhou o último avião do dia para vir, em nome pessoal, ajudar na investigação de um crime que ninguém sabe que aconteceu. O corpo do seu amigo ainda nem esfriou. Feita a pergunta e a observação virou-lhe as costas. Devia ser habito fazê-lo. Leve o seu tempo a preparar a resposta. Por…, foi o primeiro pensamento que lhe assomou à mente. Também o segundo e o terceiro. O quarto já foi uma variação menos lesiva. Grande mer… Jacopo acercou-se dele nesse momento, como se nada fosse. Então? O que queria o gajo? Rafael agarrou-o pelos colarinhos e ergueu-o alguns centímetros no ar à falta de parede onde encostá-lo. Meu grande cabr… praguejou. Jacopo agarrava as mãos de Rafael na ânsia de se libertar mas eram como garras possantes cravadas. Que foi?, conseguiu perguntar. Quem te deu a informação da morte do Zafer? Ainda não conseguia ligar aquele nome ao grupo dos mortos. Parecia irreal. Quem? A Secretária de Estado, respondeu a custo o outro. Rafael pousou-o. Digerira tudo mal desde o início. Não era o que se esperava dele. Os olhos abertos raiavam sangue. Estava furioso consigo mesmo. Tu disseste que tinha sido a Irene.

Que me tinha dito que ele apanhara o avião para Paris para ir ver um pergaminho. Não disse que foi a Irene quem me deu a noticia, completou Jacopo. O que é que se passa?, quis saber compondo-se. Quem te mandou dar-me a informação? Estava de costas voltadas a pensar. O Trevor, a pedido do secretário, explicou Jacopo. As ordens eram para virmos para Paris no primeiro voo. Não foi por isso que vieste? Rafael não respondeu. És completamente doido, acusou Jacopo. Eu não quero estar aqui. Vim porque me pagam para isso. Estava muito bem em Roma a moer o juízo à minha mulher. Rafael permaneceu calado, imóvel. Tu vieste mesmo por amizade, não foi? Pensaste que te fui dar a notícia e que a Irene te pediu para vires ver o que se passava? Eles não estavam juntos há anos. Pensaste que eu estava aqui por gostar da tua companhia?

Rafael tornou a olhar para as fotografias do corpo de Sigfried. Gavache chegou nesse preciso momento Chegamos a alguma conclusão?, inquiriu roufenhamente. O inspector disse que informou o Vaticano por razões muito especiais. Quais são? Seja bem-vindo, padre Rafael, saudou Gavache com um meio sorriso. Abriu uma cigarreira em tons prata e tirou outra cigarrilha do interior. Levou-a à boca e procurou o isqueiro para incendiar o prazer. Apalpou os bolsos. Jean Paul, gritou. Aqui, senhor inspector, proferiu o assistente, estendendo a mão e acendendo o isqueiro junto à ponta da cigarrilha. Depois entregou um telemóvel a Rafael. Por isto, limitou-se a dizer. Rafael pegou no telemóvel e olhou para ele, depois desviou o olhar para Gavache com uma expressão inquisitiva. O seu amigo teve uma grande presença de espírito, diga-se. Conseguiu ligar o gravador do telemóvel e gravou uma parte do que aconteceu. Talvez porque o aparelho tem um botão dedicado. O seu amigo usava-o recorrentemente para registar ideias e pensamentos. A parte que nos interessa não se percebe muito bem, mas o laboratório já está a trabalhar na gravação. De qualquer forma, há algo aqui bastante explícito. Tirou o aparelho das mãos de Rafael e procurou a gravação que pretendia. O som invadiu a sala.

Qual é o código que (ruído estático) te deu?, perguntava uma voz. Sei que o Vaticano mandou dar os códigos. HT, respondeu aquele que Rafael reconheceu como o amigo. Em que ordem? Não faço ideia. Zafer aparentava estar em grande sofrimento. Isso já vai passar. Foi de grande ajuda, Yaman Zafer. Que o Senhor tenha piedade de ti. O Papa rezará pela tua alma, disse o outro. O resto foram sons desconexos, que podia ser qualquer coisa, mas Rafael sabia. Era Zafer a morrer. Sentia o estertor da morte que acontecera naquele mesmo local. Por fim silêncio. Ouviram-se uns passos e uma frase de despedida. Ad maiorem Dei Glóriam. Gavache desligou o aparelho e encarou Rafael. Esta mer… diz-lhe alguma coisa? Rafael mirou-o com frieza e uma expressão mortífera. O demónio está nos pormenores. O assassino é jesuíta». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

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quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

A Mentira Sagrada. Luís Miguel Rocha. «Duas mortes seguidas de duas pessoas que conhecia. Está a dizer-me que sou suspeito? Claro. Todos somos. Só eles, apontou para as fotos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Vaticano. 19 de Abril de 2005

«(…) Jacopo Sebastiani, intrometeu-se o outro. Qual é a sua função?, questionou Gavache a Jacopo, cumprimentando-o com renitência. Somos amigos da vítima, adiantou-se Rafael antes que Jacopo respondesse. Gavache fitou os dois com displicência. Não queria disfarçar que os estava a avaliar. Diga-me, disse por fim para Rafael, era óbvio quem era o líder, quem é Yaman Zafer? Meteu a cigarrilha à boca e puxou um pouco mais de tabaco. As noites eram o pior do dia. Não há qualquer interesse do Vaticano. Estamos aqui em nome pessoal, como amigos do falecido. Gavache tornou a fitá-los. Ora um, ora outro, fazendo jus à sua função de inspector. Pois, acabou por dizer. O fumo da cigarrilha formava uma nuvem sobre os três homens. A amizade é uma coisa bonita. Conheciam-no há muito tempo? Há 20 anos. Era um conceituado arqueólogo na Universidade de Londres. Talvez conheça algumas das suas publicações, informou Rafael. Precisava de lhe dar alguma coisa. Gavache não era idiota. Não gosto de ler, respondeu o inspector francês de rajada. A vida já é um livro demasiado grande para andar a perder tempo com isso. Ele é arqueólogo e encontrou alguma coisa para o Vaticano? Fez alguns trabalhos sob patrocínio do Santo Padre, sim, confirmou Rafael. Algumas escavações em Roma e Orvieto. Não podia contar tudo. Podemos ajudar em alguma coisa?, ofereceu-se Rafael. Sentia que estava a perdê-lo. Não. Se quer que lhe diga, os amigos só atrapalham nestes casos, confidenciou com desdém. Jean Paul, gritou para alguém que se apresentou por detrás dele, a menos de um metro. Franzino e alto, com as veias do pescoço a sobressaírem. Quem o não conhecesse diria que passava fome.

Aqui, inspector. Escolta estes senhores à cidade. Não precisamos deles. Merci beaucoup. E virou-lhes as costas, levando novamente a cigarrilha à boca. Sigam-me, s'il vous plait, pediu o tal Jean Paul. Naquele momento Rafael olhou para Gavache que brandia umas fotografias que algum técnico lhe havia passado para a mão. Era este o teu plano?, reclamou Jacopo que enfiara as mãos no bolso para combater o frio. Perda de tempo. O demónio está nos pormenores, limitou-se a dizer Rafael que continuava a fitar Gavache. Entretanto, saíram para o exterior, em direcção à viatura de Jean Paul. Já têm os resultados da autópsia, inspector?, perguntou Rafael. Precisava de informações. Sim e não. Sim, temos, não, não sou inspector. Levou uma grande tareia o seu amigo e injectaram-no com cianeto. Morte rápida. Antes assim. Desceram umas escadas de ferro. Os sapatos pesados faziam-no tilintar a cada passo. Algum suspeito? Não, nenhum. Tudo limpo. Nem um fio de cabelo. Quer dizer, o que há mais ali é mer… Quem fez isto escolheu bem o sítio. Não vão encontrar nada, disse Rafael.

Padre Rafael, ouviu-se uma voz chamar. Era uma mulher à porta do armazém. Rafael olhou. O inspector Gavache quer dar-lhe uma palavra, se não se importa. Rafael galgou três degraus de cada vez e tornou a entrar no espaço que, outrora, seria o escritório do armazém. Gavache estava empenhado a discutir com dois dos seus homens. A voz roufenha a sobressair perante todos os outros. Avistou o italiano. Ah, senhor padre. Importa-se que o trate assim? De todo, respondeu Rafael aproximando-se. Passou-lhe umas fotografias para a mão. Conhece?, perguntou o francês com um tom inquisitivo. Rafael olhou as fotografias. Eram três. Em todas um corpo masculino caído num chão que não era aquele. Era mais escuro, sujo também. Uma cadeira de madeira caída ao seu lado. Não conseguia ver o rosto. Este não é o Zafer, proferiu com certeza. Até aí estamos de acordo. Deu-lhe outra foto. O corpo já estava em cima da maca, dentro do saco mortuário. Rafael viu o rosto e reconheceu. Não tinha qualquer identificação com ele. Que nome lhe vamos dar?, perquiriu Gavache na expectativa. Rafael desconhecia como é que o francês relacionou ambos os crimes, mas não ia omitir. Precisava dele para ter acesso ao caso…, aos casos. Sigfried Hammal. Professor de Teologia. Isto foi quando? Hoje. Aqui em Paris?

Gavache negou com a cabeça. Em Marselha. Olhou para os subordinados. Não necessitou dizer uma palavra para eles dispersarem e deixarem-nos a sós. O francês fitava o italiano com um olhar perscrutador O que é que se está a passar aqui?, perguntou de rompante. Um arqueólogo, um teólogo. Duas pessoas ligadas à Igreja mortas da mesma maneira, no mesmo país. Não faço ideia, respondeu Rafael. Não podia baixar o olhar, caso contrário denotaria fraqueza. Tretas. Também era amigo do alemão? Vi-o apenas uma vez. Por que motivo? Já não me recordo. Foi há muito tempo. Há quanto? Talvez há 20 anos. E o arqueólogo era inglês? Turco, mas vivia em Londres quase desde que nasceu. Não considera curioso que você conheça os dois? O que quer dizer com isso? Duas mortes seguidas de duas pessoas que conhecia. Está a dizer-me que sou suspeito? Claro. Todos somos. Só eles, apontou para as fotos, é que não são suspeitos de rigorosamente nada. A morte livrava de toda a culpa e sofrimento. Era a verdadeira salvação. Acredita na vida para além da morte?, perguntou o francês». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

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quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Roma. Steven Saylor. «Fascinus não era como os génios que animavam árvores, pedras ou rios. Aqueles numes existiam sem nomes»

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«(…) A refeição terminara. Os mercadores de metais, depois de muitos gestos de agradecimento pela carne de veado, retiraram-se para o seu acampamento do outro lado da ilha. Antes de desaparecer nas sombras, Tarquécio olhou por cima do ombro e dirigiu a Lara um sorriso de despedida. Enquanto os outros se acomodavam para dormir, Larth ficou acordado mais um pouco, como de hábito. Ele gostava de observar a fogueira. Como todas as outras coisas, o fogo possuía um génio que às vezes se comunicava com Larth, mostrando-lhe visões. Enquanto as últimas brasas desapareciam na escuridão, Larth adormeceu. Larth piscou. As chamas, que se tinham reduzido a quase nada, de repente voltaram a jorrar. Ar quente espalhou-se pelo rosto dele. Os olhos ficaram ressequidos por chamas brancas que brilhavam mais do que o sol. No meio do brilho estonteante, ele percebeu uma coisa que levitava acima das chamas. Era um membro masculino, desincorporado, mas, mesmo assim, exuberante e erguido. Tinha asas, como um pássaro, e pairava a meia altura. Apesar de parecer feito de carne, era impérvio às chamas. Larth já tinha visto o falo alado antes, sempre em circunstâncias como aquela, quando olhava fixo para uma fogueira e entrava num estado de devaneio. Chegara até a dar um nome a ele, ou mais precisamente, a coisa havia plantado o seu nome na mente dele: Fascinus.

Fascinus não era como os génios que animavam árvores, pedras ou rios. Aqueles numes existiam sem nomes. Cada qual era preso ao objecto no qual residia, e havia pouco a diferenciar um do outro. Quando aqueles génios falavam, nem sempre se podia confiar neles. Às vezes eram amigáveis, mas em outras ocasiões eram travessos ou até mesmo hostis. Fascinus era diferente. Era ímpar. Existia completo, sem começo nem fim. Era evidente que, pela sua forma, tinha algo a ver com a vida e a origem da vida e, no entanto, parecia vir de um lugar fora deste mundo, esgueirando-se, por alguns momentos, por uma brecha aberta pelo calor das chamas dançantes. Uma aparição de Fascinus era sempre importante. O falo alado nunca aparecia sem dar a Larth uma resposta a um dilema que o estivesse perturbando ou sem plantar um importante novo pensamento na sua cabeça. A orientação dada a ele por Fascinus jamais o transviara. Em outras partes, em terras distantes, Grécia, Israel, Egipto, homens e mulheres veneravam deuses e deusas. Aqueles povos faziam imagens dos seus deuses, contavam histórias sobre eles e os adoravam em templos. Larth jamais conhecera aqueles povos. Ele nem mesmo ouvira falar das terras onde eles moravam e nunca encontrara ou imaginara um deus. O próprio conceito de uma divindade como aquelas que outros homens adoravam era desconhecido para Larth, mas na sua imaginação e experiência, a coisa que mais se aproximava de um deus era Fascinus.

Com um sobressalto, ele tornou a piscar.

As chamas tinham morrido. Em vez do brilho intolerável, só havia a escuridão de uma quente noite de verão iluminada pela menor fatia de lua possível. O ar que batia no seu rosto já não estava quente, mas fresco e frio. Fascinus tinha desaparecido, mas não sem meter uma ideia na mente de Larth. Ele correu para o abrigo feito de folhagem ao lado do rio, onde Lara gostava de dormir, pensando consigo mesmo: Tem que ser assim, porque Fascinus diz que tem!

Ele se ajoelhou ao lado dela, mas não foi preciso despertá-la. Ela já estava acordada. Pai? O que é? Vá ter com ele! Ela não precisou pedir uma explicação. Era o que ela ansiava por fazer, deitada inquieta e ansiosa no escuro. Tem a certeza, pai? Fascinus..., ele não terminou o raciocínio, mas ela compreendeu. Ela nunca vira Fascinus, mas o pai lhe falara sobre ele. Muitas vezes no passado, Fascinus orientara seu pai. Agora, uma vez mais, Fascinus declarara a sua vontade. A escuridão não a deteve. Ela conhecia cada desvio e curva de cada trilha da pequena ilha. Quando chegou ao acampamento do comerciante de metais, encontrou Tarquécio deitado num recesso coberto de folhagem, isolado dos outros; ela o reconheceu pela silhueta musculosa. Ele estava acordado e esperando, tal como Lara estivera deitada, acordada, aguardando, quando o pai se aproximara. Com a aproximação dela, Tarquécio ergueu-se sobre os cotovelos. Disse o nome dela num sussurro. Na sua voz havia um tremor de algo parecido com desespero; a necessidade que ele sentia fez com que ela sorrisse. Ela suspirou e abaixou-se ao lado dele. À fraca luz da lua, viu que ele usava uma espécie de amuleto, preso por uma tira de couro passada pelo pescoço. Aconchegado no meio aos cabelos do peito dele, o pedaço de metal disforme parecia captar e concentrar o fraco luar, reflectindo um brilho mais forte do que a própria lua.

Os braços dele, os braços que ela tanto admirara antes, estenderam-se e se fecharam em torno dela num abraço surpreendentemente delicado. O corpo dele estava tão quente e nu quanto o dela, mas muito maior e mais duro. Ela se perguntou se Fascinus estava com eles no escuro, porque pareceu sentir o bater de asas entre as pernas deles enquanto era penetrada por aquilo que dava origem à vida». In Steven Saylor, 2007, Bertrand Editora, 2008, ISBN 978-972-251-645-7.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Roma, Steven Saylor, Literatura, 

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Destino de Amor. Roma 40 D. C. Adele Vieri Castellano. «Lívia apertou com força o cilindro de chumbo que levava nos braços. O tempo estava a mudar. Uma rajada de vento levantou o pó da estrada e agitou a túnica do tribuno»


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(Odeio, mas não consigo deixar de desejar o que odeio). In Ovídio, Amores

Roma, 793 a.u.c., oitavo dia antes das calendas de Iulius

(40 d.C., 24 de Junho)

«(…) Nas ruas estreitas, repletas de gente e fétidas da Suburra, duas mulheres caminhavam em passo apressado, com a cabeça tapada pela palla e inclinada sobre as sandálias de couro. Saltitavam de um lado para o outro da estrada, onde poças de resíduos, objectos abandonados e mendigos se acumulavam. Domina, tem cuidado…, presta atenção!, gritou uma delas. A outra, que tinha mais um palmo de altura e levava na mão um objecto cilíndrico bastante pesado, voltou-se olhando de soslaio para ela. Ancilla! Não me chateies! Já falta pouco. Tenho assuntos mais importantes em que pensar do que numa poça. Virando-se, Lívia tropeçou num homem corpulento de rosto suado, olhos raiados de sangue e dentes podres. Sentiu-se agarrada por dedos fortes como um alicate e foi abanada duas ou três vezes com violência. Vê por onde andas, sua estúpida. Ancilla foi em seu auxílio, mas não conseguiu cuspir no rosto do desconhecido. Larga já a domina!, exclamou, por fim, cravando-lhe as unhas no braço. O homem não largou a sua presa e deu uma rápida e inevitável bofetada à jovem escrava, fazendo-a cair numa das poças que tivera tanto cuidado em evitar. Alguns transeuntes abrandaram o passo.

Num dos lados do local onde se encontravam havia uma casa barulhenta de vários andares, e, no outro, um lupanar, em cuja entrada estavam duas prostitutas. Olha só que belo pedaço de mulher, suspirou o homem com um hálito horrível. Não tinha mau gosto. A jovem donzela tinha uns olhos de esmeralda que sobressaíam de um rosto rosado perfeito. Aonde vais, minha bela? Vamos até ao lupanar para me falares de ti. Lívia pontapeou o pó, atirando-lho ao rosto. Ancilla lançou-se para as costas do homem, segurando-o pelo pescoço como se fosse um touro. O homem tentou livrar-se dela sem, contudo, largar Lívia. A confusão aumentou, as duas prostitutas torciam pela escrava e alguns transeuntes riam-se alarvemente. A mão imunda arrancou a palla da cabeça de Lívia, levando consigo os ganchos de madeira e os laços de couro que lhe seguravam o penteado. Os cabelos castanho-escuros da jovem caíram-lhe, soltos, pelas costas. Os espectadores estavam deliciados e incitaram o homem. Com um sorriso idiota, enquanto os punhos de Ancilla lhe martelavam a cabeça, o miserável tentou rasgar a túnica imaculada de Lívia, mas naquele momento uma voz autoritária ressoou atrás deles.

O que se passa, Aulo Pláucio? Não quiseste pagar a diversão? As pessoas afastaram-se, e fez-se um silêncio sepulcral. Aulo Pláucio ficou sozinho no meio da rua. O homem que falara deu alguns passos. A sua cabeça descoberta elevava-se acima dos presentes, e o corpo musculado e bronzeado colocava-o numa categoria à parte. Por cima da sua lorica musculata de couro estava o laticlavo de púrpura que indicava o seu estatuto. O tribuno laticlávio que salvou a vida ao imperador! O homem que Calígula trouxe da Germânia para Roma. Marco Quinto Rufo! O nome foi recebido pela multidão com um clamor, e muitos curiosos esticaram o pescoço. Rufo, não fiz nada. Estas desavergonhadas estão a tentar matar-me! Quando ao lado do tribuno apareceram quatro guardas pretorianos, a multidão começou a dispersar. Ancilla saltou das costas do gorducho e deu-lhe um valente pontapé nas canelas. Lívia, já livre, virou-se. Quem era aquele indivíduo que silenciara a multidão?

Deparou-se-lhe um tronco enorme com dois braços nus até aos bíceps musculados. No braço esquerdo, uma comprida cicatriz desenhava uma serpente de carne que se estendia até ao pulso, escondido por uma bracelete de ferro. Era tão alto que teve de levantar a cabeça para ver o seu rosto. Foi tomada por um sentimento indefinido. Uma sensação que há meses não sentia e que lhe atravessou o corpo como uma chama ardente, como quando, depois de um grande susto, o coração bate com força e o sangue parece crepitar. Assustada, olhou-o fixamente. Ficou contente por não ter de lhe dirigir a palavra. No seu rosto duro, os olhos cruéis brilhavam sob as sobrancelhas encrespadas. Ele avaliou-a como se fosse mercadoria e, depois de a observar com grande frieza, voltou-se para os curiosos que haviam ficado. Vão-se embora daqui, disse; apesar de ter falado em voz baixa, as pessoas obedeceram prontamente. Até as duas prostitutas desapareceram no lupanar, baixando o cortinado que tapava a entrada.

Lívia apertou com força o cilindro de chumbo que levava nos braços. O tempo estava a mudar. Uma rajada de vento levantou o pó da estrada e agitou a túnica do tribuno. Bastou-lhes um gesto, e dois dos quatro pretorianos levantaram do chão o canalha que a tinha agarrado. Ou tinha sido ela que o agarrara? Lívia já não se lembrava de como começara a rixa. Marco Quinto Rufo aproximou-se delas. Uma subtil cicatriz atravessava-lhe o rosto barbeado. Tinha lábios carnudos, bem definidos, mas cerrados. Mulher, disse-lhe em tom severo. O que estás aqui a fazer? E ele, tribuno laticlávio, não devia estar a combater os inimigos de Roma? Lívia endireitou-se para parecer mais alta e fitou-o nos olhos. Sabia que não tinha feito nada de mal». In Adele Vieri Castellano, Roma 40 D. C. Destino de Amor, 2012, Quinta Essência, Oficina do Livro, LeYa, 2014, ISBN 978-989-726-128-2.

Cortesia de QEssência/OdoLivro/LeYa/JDACT

JDACT, Adele Vieri Castellano, Literatura, Roma, A Arte,

terça-feira, 1 de junho de 2021

Roma 40 D. C. Destino de Amor. Adele Vieri Castellano. «Para trás…, mais para trás, porcos! Vão para casa! Mulheres belas como esta não se veem todos os dias!, protestou alguém. Deixem-me tocar-lhe!»

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(Odeio, mas não consigo deixar de desejar o que odeio). In Ovídio, Amores

Roma, 786 a.u.c, oitavo dia antes das calendas de Iulius

(33 d.C., 24 de Junho)

«A sombra das árvores alongou-se pela rua pavimentada ao longo do Célio e atingiu a multidão, oferecendo-lhe um pouco de alívio. Alguns já estavam ali há muito tempo, não querendo renunciar à bela vista. Outros, acabados de chegar, empurrados por cotoveladas nas costas, calos pisados e togas rasgadas pela fúria, iam ocupando um lugar na primeira fila. Mentula! Tem cuidado! Então, vê lá onde pões os pés! Eram maioritariamente homens, de cabelo branco, crânio brilhante e bronzeado. Algumas cabeças, de farto cabelo preto untado de óleo e despenteadas cabeleiras, encontravam-se ali para admirar um espectáculo que para muitos era uma revelação. No entanto, não faltavam elaborados penteados de matronas, que balançavam a cabeça acelerando o passo ou que, ao terem de andar mais devagar, cerravam os lábios, desconsoladas. Algumas, paradas em frente do majestoso portão guarnecido de espigões, arregalavam os olhos e depois desfaziam-se em lágrimas. Era um espectáculo inigualável. De boca em boca, a notícia espalhara-se rapidamente, atraindo dezenas, centenas de curiosos.

Todos sabiam a quem pertencia aquela domus e quem era a adolescente nua, amarrada ao portão de madeira. Braços levantados para o céu, olhos fechados, pernas com músculos contraídos na vã tentativa de as fechar para se libertar das tiras de couro que lhe prendiam os tornozelos. O que estás a fazer, seu porco imundo? A voz aguda sobressaltou muitos espectadores. Pertencia a uma das matronas que ali estavam com os olhos brilhantes. Ai, ai… Tem vergonha! Sai já daqui! A mão atingiu o cabelo despenteado, e o rapazinho, ruborizado, fugiu por entre pontapés e ofensas. Naquele momento, a multidão moveu-se como uma onda do Tibre, e os que estavam na primeira fila ficaram a dez, quinze passos da estátua de carne, cujos seios hirtos se levantavam e baixavam numa respiração curta de angústia e vergonha.

A distância era mantida por receio dos três pretorianos armados com o gládio, de pernas musculadas apoiadas com firmeza no chão, as bocas numa expressão severa e os olhos semicerrados fulminando os espectadores. Quero ver como nos vão manter afastados esta noite!, gritou uma voz das últimas filas. Ninguém me deterá…, apalpo-lhe as tetas e faço-a gritar! De quê? De prazer, claro, de que haveria de ser? Eu enfio-o pela garganta abaixo, pelos deuses! O meu é maior que o teu! As gargalhadas foram tão fortes que três ou quatro corvos levantaram voo de um cipreste existente na avenida. Como se convocados por aquela gritaria, ouviram-se passos cadenciados, acompanhados por um tilintar metálico. A multidão recuou em bloco, e logo depois apareceu uma coluna de reforço aos três pretorianos solitários. Os recém-chegados mantiveram-se impassíveis perante a visão da vítima sacrificial, como se lhes fosse indiferente.

Para trás…, mais para trás, porcos! Vão para casa! Mulheres belas como esta não se veem todos os dias!, protestou alguém. Deixem-me tocar-lhe! Um dos pretorianos recém-chegados dirigiu-se ao local de onde surgiram os gritos, com expressão carrancuda. Experimenta tocar-me, seu excremento, gritou, dirigindo-se à multidão. Ninguém se atreveu a replicar. Após o pôr do Sol, sob a luz das tochas, a jovem nua ficou menos exposta. As costas robustas, os elmos e as armas em riste impediam a visão daquele corpo palpitante e perfeito. Iam defendê-la dos ataques dos depravados durante a noite e no dia seguinte, embora a rapariguinha de doze anos, que, até àquele dia, fora considerada filha de Tibério Cláudio Druso, tivesse de permanecer exposta ao ludíbrio do público. Era a punição por ser fruto de uma traição feminina.

Quando os pretorianos a soltaram à hora estabelecida, ao pôr-do-Sol do dia seguinte, deixou-se cair nos braços de um deles. Os transeuntes apressados das primeiras luzes do amanhecer e os últimos espectadores lascivos esticaram o pescoço quando um punho fechado bateu decidido ao portão. Passou algum tempo. Depois, através da abertura do portão, dois braços receberam o corpo prostrado, tornando-o invisível. Um murmúrio de desapontamento levantou-se entre os presentes. Os pretorianos dispersaram-nos, embora já nada houvesse para ver da rapariga». In Adele Vieri Castellano, Roma 40 D. C. Destino de Amor, 2012, Quinta Essência, Oficina do Livro, LeYa, 2014, ISBN 978-989-726-128-2.

Cortesia de QEssência/OdoLivro/LeYa/JDACT

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quinta-feira, 26 de novembro de 2020

O Último Papa. Luís Miguel Rocha. «O que fazer? Há sempre solução para tudo. Não pode sair por um lado, saia por outro, dizia a avó. Saia por outro... Saia por outro... Na casa da avó era possível sair pela janela…»

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Conclave

26 de Agosto de 1978

«(…) Tão logo chega ao primeiro andar, escuta o movimento das dobradiças da porta de baixo. Um estrépito grave que incomoda os ouvidos, ainda mais no meio da escuridão da casa. Havia muito tinha a intenção de mandar lubrificá-las, mas protelara sempre, por uma ou outra razão. Ficara na intenção; mas não pensa nisso Sarah Monteiro. O que a incomoda nesse momento é a porta que se abriu e os passos intrusos no interior da própria casa. Caminha em direcção ao quarto, sempre de ouvidos atentos, os sentidos da sobrevivência totalmente despertos, assim como o medo aterrador. O intruso passeia pelo andar inferior, calmamente, sem se incomodar em disfarçar sua presença. O peso do calçado faz estalar o soalho muito devagar. Sarah imagina-o passando o local a pente-fino, à cata de algo que nem mesmo ela sabe o que é. Uma sensação frustrante de impotência toma conta do seu corpo e lança-a num torpor de imagens desconexas do quarto onde acaba de entrar, o seu, mergulhado na escuridão. Uma cortina vermelha, igual às do piso inferior, filtra a luz externa, arroxeando a divisão e emprestando-lhe um ar soturno arrepiante. Afasta-a sem fazer barulho, o carro negro continua lá em baixo, no mesmo local onde o viu pela primeira vez. A impávida serenidade do veículo a destoar do seu próprio estado de espírito. Não, é necessário manter a lucidez. Não se deixe abater, pensa. Vamos, coloque essa cabeça para funcionar. O que tem de fazer? Os passos em baixo continuam a fazerem-se ouvir, como um martelo batendo em madeira. Rudes, fortes, desregrados, como a dizerem em voz alta: estou aqui!

O que fazer? Há sempre solução para tudo. Não pode sair por um lado, saia por outro, dizia a avó. Saia por outro... Saia por outro... Na casa da avó era possível sair pela janela do primeiro andar porque estava construída na encosta do monte, literalmente. Mas adaptar a realidade àquela casa, àquela cidade inglesa, absolutamente plana, não é a mesma coisa. No entanto, há sempre que se contar com a famosa circunspecção britânica. Tudo tem saídas de emergência, mesmo as casas. O perigo de incêndio em Londres é iminente, dadas as construções dos interiores feitas em madeira e a idade dos edifícios. De grande incêndio, bastou o de 2 de Setembro de 1666. Até essa casa tem uma saída de emergência. Mas onde? Não existem portas nesse andar. As janelas abrem muito pouco. A não ser..., a do banheiro. É isso! A janela do banheiro abre totalmente. E, ao lado, fixas na parede, há escadas de ferro para saída de emergência. A solução. Obrigada, avó!

Uma solução, um plano, um intruso. Sarah Monteiro respira fundo. O banheiro fica logo em frente. É só passar a porta, atravessar a extensão do corredor e entrar. Segundos, meros segundos, separam-na do exterior. Um... dois... três... Inicia a corrida, para tropeçar e cair logo na carpete do corredor. O intruso, que ouviu os passos de Sarah, lança-se para as escadas. Ela se levanta e corre para o banheiro. Pancadas fortes sobre os degraus. Sarah, dentro do banheiro, sobe para cima da banheira e tenta abrir a janela. A falta de uso emperrou o corrediço de tal maneira que nenhuma força a abrirá. Prova disso é a expressão de esforço no rosto de Sarah, que, não fosse a escuridão, mostraria o rubor declarado que lhe provoca o afogueamento da respiração. Os passos ultrapassaram as escadas e são audíveis no corredor. A pessoa em questão já não corre: caminha lentamente pelo corredor, espreitando cada divisão por onde passa.

Sarah faz uma última tentativa para abrir a maldita janela..., nada feito. Aquilo não levaria a nada. No corredor, um homem, envergando um sobretudo negro, enrosca o silenciador na Beretta. Sarah esmaga-se contra a parede do banheiro. Talvez ainda dê tempo de fazer alguma coisa. Se conseguisse quebrar o vidro todo de uma vez... De quantos segundos necessitaria para quebrá-lo e sair? Cinco? Dez? De quantos segundos precisará o assassino para percorrer os poucos metros que faltam assim que escutar os estilhaços? Dois? Três? Talvez menos. Provavelmente morreria com um pé para fora da janela, se tivesse tempo para tanto. Provavelmente... Mais um passo, outro... O ranger da madeira, o ranger dos dentes de Sarah, reflexos inconscientes do corpo alerta. O medo paralisa seus movimentos. Só consegue ouvir o ruído do soalho a cada passo, a respiração muito calma do intruso bem dentro da sua cabeça. Está acostumado àquilo, com certeza. Um profissional. Para ele, Sarah não passa de mais uma vida descontinuada, consegue ainda pensar a jovem. Uma vida sem nenhum interesse nem relevância para quem vem tirá-la. Um corpo em breve inerte, sem sonhos, sem projectos, sem nada. Um corpo não passa de um corpo. É então que a voz do pai e da avó substituem todos os outros pensamentos. Lembra-se do que dizia a avó? Há sempre solução para tudo. Só não há para a morte.

De súbito, exacerbada por uma sensação de urgência, Sarah sai da banheira o mais silenciosamente possível. As meias e o seu diminuto peso ajudam nesse efeito. Procura algo, os olhos há muito habituados à pouca iluminação. O secador? Não. O spray de cabelo? Também não. Toalhas, perfumes, cremes, toalhas, vassoura..., não, não, não. Encosta-se na parede junto à pia, impotente. Ao seu lado, à altura da cabeça, o extintor. Isso sim! Se julga que não vai ter luta, está muito enganado, balbucia em surdina, com o extintor nas mãos, sentindo-lhe o peso. Comprime-se contra a parede, junto à abertura para o corredor. Segura o extintor com as duas mãos e mantém-se à escuta. Três metros..., uma passada..., dois metros..., uma passada..., um metro... Primeiro foi a nuvem de pó espumante com que Sarah pulverizou toda a entrada, aliando uma névoa densa à luz fraca. O intruso não deu sinais de vida durante alguns segundos, na tentativa de deixar pousar o produto liberado pelo extintor, mas logo Sarah voltou à carga, esvaziando o conteúdo. A segunda utilidade seria o de arma de arremesso, mas o silêncio do desconhecido tomou-se desesperador. Onde está?, geme em voz baixa». In Luís Miguel Rocha, O Último Papa, Saída de Emergência, 2006, ISBN 978-972-883-969-7.

Cortesia SEmergência/JDACT

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A Mentira Sagrada. Luís Miguel Rocha. «4 de Janeiro de 2003, disse Rafael. Descoberta de um bloco de pedra calcária com inscrições em fenício antigo com um plano pormenorizado para a recuperação do primeiro templo judeu…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Vaticano. 19 de Abril de 2005

«(…) Rafael olhou para ele pela primeira vez. Dispensava a aula de História. Conhecia aquele argumento há décadas. Pagam-te para ensinar isso?, provocou com menosprezo. Depois de décadas de escavações, de sorrisos, de ilusões, de ansiedade, o que é que eles encontraram?, deixou a pergunta no ar, ignorando a ironia de Rafael. Jacopo fez , um círculo com o indicador e o polegar. Zero, proclamou triunfante. Nada. Nada?, questionou Rafael. Nada de nada, reiterou Jacopo. Não encontraram absolutamente nada que comprovasse um só facto narrado no Antigo e no Novo Testamento. E chegaram a outra conclusão: aparecem nomes de personagens e de locais na Bíblia de que nem gregos nem romanos alguma vez ouviram falar. Só são mencionados naquele livro e em mais lado nenhum.

4 de Janeiro de 2003, disse Rafael. Descoberta de um bloco de pedra calcária com inscrições em fenício antigo com um plano pormenorizado para a recuperação do primeiro templo judeu, o do rei Salomão. Foi encontrada no Monte do Templo, na cidade velha de Jerusalém. Ou Haram al Sharif, como lhe chamam os muçulmanos, acrescentou Jacopo visivelmente agradado. O fragmento datava da época do rei bíblico Joás, que reinou há mais de 2500 anos. Se és tão versado na Bíblia então deves recordar-te do capítulo 12, dos versículos 4, 5 e 6, mais especificamente, do Segundo Livro dos Reis, onde se relata que Joás, rei de Judá, ordenou que juntassem todo o dinheiro recolhido no templo para ser utilizado na sua reparação. Alegadamente, proferiu Jacopo com um sorriso. Nunca me deixaram ver tal descoberta. Nem houve mais notícias.

1961, prosseguiu Rafael. A escavação de um anfiteatro antigo, mandado erigir por Herodes, o Grande, em Cesareia, no ano 30 antes de Cristo Nosso Senhor, revela um bloco de calcário, aceite como autêntico. Nele encontra-se uma inscrição parcial. Jacopo e Rafael citam-na ao mesmo tempo.

DIS AUGUSTIS TIBERIEUM

PONTIUS PILATUS

PRAEFECTUS IUDAEAE

FECIT DEDICAVIT.

Jacopo aplaude a sorrir. A Pedra de Pilatos. Um aplauso, caro senhor. Só comprova a existência de Tibério e Pilatos, que nunca esteve em dúvida, e confirma que o posto de Pôncio Pilatos era de prefeito, ou seja, governador e não procurador, argumentou Jacopo. Tens mais? É um trabalho em evolução. Não esqueças que estamos a falar de milénios de história em cima de história em curso. Mas nunca se sabe quando poderão aparecer novos elementos e tu, melhor que ninguém, sabes como é um trabalho moroso. Jacopo levantou os braços e abriu as mãos. Voltem sofistas. Estão perdoados.

Uma chuva miudinha acolheu-os assim que puseram o pé no exterior do terminal, limpando-lhes o rosto e agarrando-se à roupa. Que raio de tempo, protestou Jacopo. A Sûreté enviara um carro para os levar ao local onde Zafer fora encontrado por um drogado que procurava um local privado para subir às alturas. Em vez disso encontrou um velho estendido no chão, inerte, de barriga para baixo, sem vida. O armazém ficava a norte da cidade, longe do bulício turista, das luzes que lhe davam o epíteto. Um conjunto de projectores, alimentados por um gerador que fazia um ruído monumental, iluminava o exterior e interior do armazém. O cadáver já tinha sido recolhido durante a tarde. A perícia recolhera todos os elementos que pudessem revelar mais sobre o criminoso, porque o resto fora bastante claro. Zafer fora atraído ao local de livre e espontânea vontade, levara uma tareia e, por fim, uma injecção de prussiato acabara com o seu sofrimento. Algumas pessoas, vestidas à civil, vagueavam pelo local em algum afazer descontextualizado para quem estava de fora. Outras apenas conversavam sobre o jogo da selecção gaulesa, antevendo o final do longo dia de trabalho.

Rafael Santini?, chamou um homem de gabardina creme e cigarrilha na boca. Rafael foi retirado do mundo de probabilidades e especulações onde estava e levantou-se. O próprio. O senhor é o inspector Gavache? Efectivamente. Estendeu a mão a selar o conhecimento entre dois desconhecidos». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

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domingo, 8 de novembro de 2020

Dan Brown. Anjos e Demónios. «As prateleiras estavam cheias de artefactos religiosos de todo o mundo, um akuaba de Gana, uma cruz dourada da Espanha, um ídolo cicladense do Egeu e um ainda mais raro boccus de Bornéu, o símbolo da perpétua juventude de um jovem guerreiro»

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«Do alto da pirâmide de Gizé, a jovem riu e voltou-se para ele, lá em baixo, chamando-o. Ande, Robert! Devia ter-me casado com um homem mais moço! O sorriso dela era mágico. Ele tentou acompanhá-la, mas suas pernas pesavam como se fossem feitas de pedra. Espere, pediu. Por favor... Enquanto subia, sua vista começou a turvar-se. Seus ouvidos latejavam. Preciso alcançá-la! Mas, quando olhou de novo para cima, a mulher desaparecera. No seu lugar havia um velho de dentes estragados. O homem encarou-o, os lábios torcendo-se numa careta melancólica. E ele deixou escapar um grito de angústia que ressoou pelo deserto. Robert Langdon acordou sobressaltado do pesadelo. O telefone ao lado da sua cama estava tocando. Tonto, levou-o ao ouvido. Alô? Gostaria de falar com Robert Langdon, disse uma voz masculina. Langdon sentou-se na cama e tentou clarear sua mente. Aqui..., é Robert Langdon, e apertou os olhos para o mostrador do relógio digital. Eram 5h18 da madrugada. Preciso encontrá-lo imediatamente. Quem está falando? Meu nome é Maximilian Kohler. Sou um físico de Partículas Discretas. Um o quê? Langdon mal conseguia concentrar-se. Tem certeza de que procurou o Langdon certo? O senhor é professor de Simbologia Religiosa na Universidade de Harvard. Escreveu três livros sobre simbologia e... Sabe que horas são?

Peço desculpas. Há uma coisa que precisa ver. Não posso explicar pelo telefone. Um resmungo conformado escapou dos lábios de Langdon. Aquilo já acontecera antes. Um dos perigos de se escrever livros sobre simbologia religiosa era o chamado de fanáticos querendo que ele confirmasse o último sinal que haviam recebido de Deus. No mês anterior, uma stripper de Oklahoma prometera a Langdon a melhor sessão de sexo da sua vida se ele pegasse um avião até há cidade dela para verificar a autenticidade de uma figura cruciforme que parecera magicamente nos lençóis da sua cama. O sudário de Tulsa, como Langdon a chamara.

Como conseguiu o número do meu telefone? Langdon tentou ser amável, apesar da hora. Na Internet. No sítio do seu livro. Langdon franziu a testa. Tinha certeza de que o número do telefone de sua casa não constava do sítio do seu livro. O homem obviamente estava mentindo. Preciso vê-lo, a voz do outro lado insistiu. Vou pagar bem. Agora Langdon estava ficando furioso. Sinto muito, mas eu... Se sair agora, pode estar aqui por volta de... Não vou a lugar nenhum! São cinco horas da manhã! Langdon desligou e caiu de volta na cama. Fechou os olhos e tentou adormecer novamente. Não adiantou. O sonho estava entranhado na sua mente. Relutante, vestiu um roupão e desceu. Robert Langdon perambulou descalço pela sua casa deserta, uma construção Vitoriana em Massachusetts, segurando o seu remédio habitual contra a insónia: uma caneca de chocolate instantâneo fumegante. O luar de Abril filtrava-se pelas janelas da sacada e formava desenhos nos tapetes orientais. Os colegas de Langdon sempre brincavam que o lugar parecia mais um museu de antropologia do que uma casa. As prateleiras estavam cheias de artefactos religiosos de todo o mundo, um akuaba de Gana, uma cruz dourada da Espanha, um ídolo cicladense do Egeu e um ainda mais raro boccus de Bornéu, o símbolo da perpétua juventude de um jovem guerreiro.

Sentado numa arca de latão maharishi e saboreando o chocolate quente, deu com o seu reflexo nas vidraças das janelas. A imagem estava distorcida e pálida, como a de um fantasma. Um fantasma envelhecido, pensou, sendo cruelmente lembrado de que o seu espírito da mocidade vivia dentro de um invólucro mortal. Apesar de não ser propriamente bonito no sentido clássico, Langdon, com os seus quarenta e cinco anos, possuía o que as colegas do sexo feminino classificavam de um encanto erudito, mechas grisalhas misturadas ao espesso cabelo castanho, perspicazes olhos azuis, uma voz grave atraente e o sorriso forte e despreocupado de um atleta universitário. Membro da equipa de mergulho da faculdade, Langdon ainda tinha um corpo de nadador, um metro e oitenta de boa forma, que ele mantinha cuidadosamente com 2.500 metros diários de exercício na piscina da universidade». In Dan Brown, Anjos e Demónios, 2003, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-252-050-8.

Cortesia de BertrandE/JDACT

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domingo, 19 de julho de 2020

O Último Papa. Luís Miguel Rocha. «Mais um passo, outro... O ranger da madeira, o ranger dos dentes de Sarah, reflexos inconscientes do corpo alerta»

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Conclave
26 de Agosto de 1978
«(…) Tão logo chega ao primeiro andar, escuta o movimento das dobradiças da porta de baixo. Um estrépito grave que incomoda os ouvidos, ainda mais no meio da escuridão da casa. Havia muito tinha a intenção de mandar lubrificá-las, mas protelara sempre, por uma ou outra razão. Ficara na intenção; mas não pensa nisso Sarah Monteiro. O que a incomoda nesse momento é a porta que se abriu e os passos intrusos no interior da própria casa. Caminha em direção ao quarto, sempre de ouvidos atentos, os sentidos da sobrevivência totalmente despertos, assim como o medo aterrador.
O intruso passeia pelo andar inferior, calmamente, sem se incomodar em disfarçar sua presença. O peso do calçado faz estalar o soalho muito devagar. Sarah imagina-o passando o local a pente-fino, à cata de algo que nem mesmo ela sabe o que é. Uma sensação frustrante de impotência toma conta do seu corpo e lança-a num torpor de imagens desconexas do quarto onde acaba de entrar, o seu, mergulhado na escuridão. Uma cortina vermelha, igual às do piso inferior, filtra a luz externa, arroxeando a divisão e emprestando-lhe um ar soturno arrepiante. Afasta-a sem fazer barulho, o carro negro continua lá em baixo, no mesmo local onde o viu pela primeira vez. A impávida serenidade do veículo a destoar do seu próprio estado de espírito. Não, é necessário manter a lucidez. Não se deixe abater, pensa. Vamos, coloque essa cabeça para funcionar. O que tem de fazer? Os passos em baixo continuam a fazerem-se ouvir, como um martelo batendo em madeira. Rudes, fortes, desregrados, como a dizerem em voz alta: estou aqui!
O que fazer? Há sempre solução para tudo. Não pode sair por um lado, saia por outro, dizia a avó. Saia por outro... Saia por outro... Na casa da avó era possível sair pela janela do primeiro andar porque estava construída na encosta do monte, literalmente. Mas adaptar a realidade àquela casa, àquela cidade inglesa, absolutamente plana, não é a mesma coisa. No entanto, há sempre que se contar com a famosa circunspecção britânica. Tudo tem saídas de emergência, mesmo as casas. O perigo de incêndio em Londres é iminente, dadas as construções dos interiores feitas em madeira e a idade dos edifícios. De grande incêndio, bastou o de 2 de Setembro de 1666. Até essa casa tem uma saída de emergência. Mas onde? Não existem portas nesse andar. As janelas abrem muito pouco. A não ser..., a do banheiro. É isso! A janela do banheiro abre totalmente. E, ao lado, fixas na parede, há escadas de ferro para saída de emergência. A solução. Obrigada, avó!
Uma solução, um plano, um intruso. Sarah Monteiro respira fundo. O banheiro fica logo em frente. É só passar a porta, atravessar a extensão do corredor e entrar. Segundos, meros segundos, separam-na do exterior. Um..., dois..., três... Inicia a corrida, para tropeçar e cair logo no carpete do corredor. O intruso, que ouviu os passos de Sarah, lança-se para as escadas. Ela se levanta e corre para o banheiro. Pancadas fortes sobre os degraus. Sarah, dentro do banheiro, sobe para cima da banheira e tenta abrir a janela. A falta de uso emperrou o corrediço de tal maneira que nenhuma força a abrirá. Prova disso é a expressão de esforço no rosto de Sarah, que, não fosse a escuridão, mostraria o rubor declarado que lhe provoca o afogueamento da respiração. Os passos ultrapassaram as escadas e são audíveis no corredor. A pessoa em questão já não corre: caminha lentamente pelo corredor, espreitando cada divisão por onde passa. Sarah faz uma última tentativa para abrir a maldita janela..., nada feito. Aquilo não levaria a nada. No corredor, um homem, envergando um sobretudo negro, enrosca o silenciador na Beretta. Sarah esmaga-se contra a parede do banheiro. Talvez ainda dê tempo de fazer alguma coisa. Se conseguisse quebrar o vidro todo de uma vez... De quantos segundos necessitaria para quebrá-lo e sair? Cinco? Dez? De quantos segundos precisará o assassino para percorrer os poucos metros que faltam assim que escutar os estilhaços? Dois? Três? Talvez menos. Provavelmente morreria com um pé para fora da janela, se tivesse tempo para tanto. Provavelmente...
Mais um passo, outro... O ranger da madeira, o ranger dos dentes de Sarah, reflexos inconscientes do corpo alerta. O medo paralisa seus movimentos. Só consegue ouvir o ruído do soalho a cada passo, a respiração muito calma do intruso bem dentro da sua cabeça. Está acostumado àquilo, com certeza. Um profissional. Para ele, Sarah não passa de mais uma vida descontinuada, consegue ainda pensar a jovem. Uma vida sem nenhum interesse nem relevância para quem vem tirá-la. Um corpo em breve inerte, sem sonhos, sem projectos, sem nada. Um corpo não passa de um corpo. É então que a voz do pai e da avó substituem todos os outros pensamentos. Lembra-se do que dizia a avó? Há sempre solução para tudo. Só não há para a morte. De súbito, exacerbada por uma sensação de urgência, Sarah sai da banheira o mais silenciosamente possível. As meias e o seu diminuto peso ajudam nesse efeito. Procura algo, os olhos há muito habituados à pouca iluminação. O secador? Não. O spray de cabelo? Também não. Toalhas, perfumes, cremes, toalhas, vassoura..., não, não, não. Encosta-se na parede junto à pia, impotente». In Luís Miguel Rocha, O Último Papa, Saída de Emergência, 2006, ISBN 978-972-883-969-7.

Cortesia SEmergência/JDACT

sábado, 20 de junho de 2020

Mistérios Sombrios do Vaticano. Paul Jeffers. «A revista pesquisou os casos notificados nos Estados Unidos em 1988 e 1989 e descobriu 250 casos com acusações envolvendo padres…»

jdact e wikipedia

Os Tesouros do Vaticano
Sacerdotes malcomportados
(…) Segundo um boletim de ocorrência do Departamento de Polícia de Los Angeles, BC307.934, arquivado em 17 de Dezembro de 2003, de 1955 a 2002 pelo menos vinte e oito sacerdotes da arquidiocese de Los Angeles acusados ou condenados por abuso sexual ocupavam as mais altas posições. A queixa registada no boletim afirmava: sacerdotes ocupando boas posições, como os bispos Juan Arzube e G. Patrick Ziemann, usaram sua influência na administração da arquidiocese para encobrir outros sacerdotes. Sacerdotes envolvidos em educação, como Leland Boyer e Geral Fessard, usaram sua autoridade para ter acesso às vítimas e depois encaminhavam as crianças que molestavam para os seminários e o sacerdócio. Esses vinte e oito sacerdotes e provavelmente muitos outros ocupavam posições de bispos auxiliares, vigários paroquiais, vigários-gerais, reitores e professores em seminários locais e como recrutadores para seminários. A elevação de molestadores de crianças a essas posições ajuda a explicar por que tantos molestadores se tornaram sacerdotes, e como tantos seminaristas e sacerdotes se tornaram molestadores de crianças.
Jeffrey Anderson, advogado de Minnesota especializado em acções civis por abuso sexual, sabia da existência de mais de 300 queixas contra padres católicos em quarenta e três estados em 1991, tendo ele próprio tratado de oito casos. O repórter Jason Berry descobriu pelo menos cem acordos civis feitos pela Igreja Católica entre 1984 e 1990, totalizando entre 100 milhões e 300 milhões de dólares. O padre Thomas Doyle, advogado canónico da Igreja Católica Romana, calculou haver cerca de 3 mil sacerdotes molestadores de crianças (uma média de dezasseis padres pedófilos por diocese). A. W. Richard Sipe, psicoterapeuta e ex-sacerdote em Baltimore, autor de A Secret World: Sexuality and the Search for Celibacy, fez um amplo estudo sobre a conduta sexual dos padres e afirmou: a probabilidade de um padre católico nos Estados Unidos ser sexualmente activo é de um em dois. Sipe estudou mil padres e 500 das suas vítimas ou amantes. Descobriu que 20% dos padres estavam envolvidos em relacionamentos sexuais com mulheres; 8% a 10% na exploração heterossexual; 20% eram homossexuais, sendo metade deles activos; 6% eram pedófilos, quase 4% deles visando meninos.
O escritório da revista Freethought Today em Madison, Wisconsin, informou que recebe de três a quatro recortes de jornais por semana de leitores comunicando uma nova acusação criminal ou civil contra um padre ou ministro protestante. A revista pesquisou os casos notificados nos Estados Unidos em 1988 e 1989 e descobriu 250 casos com acusações envolvendo padres, ministros ou funcionários ministeriais nos Estados Unidos e Canadá. Dos clérigos acusados, setenta eram padres católicos (39,5%) e onze eram ministros protestantes (58%). Embora os padres representem aproximadamente 10% do clero norte-americano, compunham 40% dos acusados. Com resultados desconhecidos em cerca de um quinto dos casos, o estudo descobriu que “88% de todos os clérigos acusados foram condenados (81% dos padres foram condenados). (…) E a maioria dos casos não foi a julgamento. (…) Três quartos de todos os clérigos que alegaram inocência foram considerados culpados. Cerca de metade dos padres católicos que alegaram inocência foram condenados.
O estudo revelou que os padres católicos foram inocentados ou tiveram as acusações de abuso sexual infantil rejeitadas em proporção mais elevada do que os ministros protestantes. Da mesma forma, os padres católicos tiveram uma proporção mais elevada de sentenças suspensas quando condenados, e quando sentenciados passaram muito menos tempo na cadeia ou prisão. Angela Bonavoglia, autora do livro Good Catholic Girls: How Women Are Leading the Fight to Change the Church, observou que muitos padres católicos em todo o mundo, México, América Latina, África e Estados Unidos,  mantinham relações consensuais com mulheres. Muitos outros padres estavam envolvidos em relacionamentos consensuais com outros homens adultos. É evidente que a crise da Igreja é muito maior do que a questão da pedofilia ou do abuso sexual de menores, ela escreveu. Envolve crimes e criminosos, sexo e poder, sim. Mas trata-se fundamentalmente de hipocrisia». In Paul Jeffers, Mistérios Sombrios do Vaticano, 2012, tradução de Elvira Serapicos, Editora Jardim dos Livros, 2013, ISBN 978-856-342-018(7)-3(6).

Cortesia de EJLivros/JDACT