sexta-feira, 24 de junho de 2011

Festival de Sintra começa sob o signo de Liszt e Mahler: «O festival abre hoje no Centro Cultural Olga Cadaval com uma apresentação com o musicólogo Rui Vieira Nery. Figuras cimeiras do Romantismo musical do século XIX, Liszt e Mahler foram também, em grande medida, os pioneiros da música do século XX e das suas novas correntes estéticas»

Cortesia de repertoriosinfonico

Festival de Sintra começa hoje sob o signo de Liszt e Mahler
«A obra dos compositores Franz Liszt e Gustav Mahler vai ser interpretada nos próximos dias nos cenários românticos e históricos da vila de Sintra, «a capital do Romantismo» no âmbito do 46.ª Festival de Sintra, que hoje começa.
O festival, que se prolonga até ao pf dia 19 de Julho, acontece sob o signo de duas efemérides às quais a organização se quis associar:
  • os duzentos anos do nascimento de Franz Liszt, pianista virtuoso com fortes ligações a Portugal,
  • o centenário da morte de Gustav Mahler.
O festival abre hoje no Centro Cultural Olga Cadaval com uma apresentação com o musicólogo Rui Vieira Nery. Figuras cimeiras do Romantismo musical do século XIX, Liszt e Mahler foram também, em grande medida, os pioneiros da música do século XX e das suas novas correntes estéticas. Ambos foram permeáveis à ideia oitocentista de uma «música do futuro», capaz de contribuir para a evolução da humanidade numa linha contínua de progresso. Liszt e Mahler representaram, além disso, dois elos importantes na linhagem dos compositores que desenvolveram o ideal da «música programática», isto é, música com um programa literário subjacente, cujos géneros de eleição vão desde o Lied e o poema sinfónico até à ópera. Procurou-se também assinalar, de um modo geral, a herança estética e a influência irradiada por estes grandes vultos, designadamente a escola pianística criada por Liszt e os seus seguidores. Uma escola pianística que, sendo tão fértil em discípulos, incluiu também um ilustre músico português, José Vianna da Motta (1868-1948).
  • 24 Junho, 21h30, Centro Cultural Olga de Cadaval, Conferência de abertura Rui Vieira Nery (musicólogo), Liszt e Mahler, os construtores da «música do futuro».
Grande parte da programação girará em torno de Liszt e Mahler com a presença de convidados internacionais, como o pianista australiano Leslie Howard, o único que até hoje gravou a obra integral do compositor Franz Liszt.


Cortesia de estudoeestetica

Leslie Howard dará sete recitais dedicados ao compositor húngaro, sendo no último, no dia 29 no Palácio Nacional de Queluz, acompanhado do Coro Gulbenkian. A integral da obra de Liszt está editada em quase uma centena de discos pela Hyperon Records, num projecto que lhe tomou 14 anos de vida. O festival convidou o pianista Sequeira Costa, discípulo do compositor português Vianna da Motta (que por sua vez foi discípulo de Liszt), a atuar no encerramento, a 10 de Julho, no Palácio Nacional de Queluz.
Do programa dedicado a Gustav Mahler, destaca-se a presença do Octeto de Leipzig, com o tenor Markus Petsch e o barítono Stephan Genz, e o Quarteto Erlenbusch, que interpretará com o jovem pianista israelita Matan Porat a escassa obra que Mahler compôs para piano. A Orquestra Sinfónica Portuguesa, sob a direção da maestrina Julia Jones, e com a pianista Lilian Akopova (vencedora do prémio Vianna da Motta 2010), recordarão a primeira sinfonia de Mahler.

Apesar da música ser o atractivo do Festival de Sintra, a singularidade do evento reside nos locais onde decorre, como a Quinta da Regaleira, o Palácio Nacional de Sintra e as igrejas de São Martinho e da Ulgueira». In CM de Sintra, Agência Lusa.






Cortesia de Agência Lusa/CM de Sintra/JDACT

João Oliveira e Costa. O Império dos Pardais: «No entanto, D. Manuel acabara por agregar um grupo de companheiros, rapazes que pela sua condição não aspiravam a ser favoritos de um rei ou que, simplesmente, se haviam apegado àquele jovem mais discreto. Os romances de cavalaria seduziam-nos e as lendas do rei Artur eram suas favoritas»

Cortesia de temasedebates

A Irmandade de Moura
«D. Beatriz juntara outras crianças no castelo de Moura para entretenimento dos príncipes e de seu filho mais novo. Alguns deles brincavam preferencialmente com D. Manuel. Afável, o jovem olhava de longe a prima D. Isabel, prometida a D. Afonso, seu sobrinho, e divertia-se como podia, no intervalo das lições. A rapaziada olhava para o futuro como um livro aberto onde todos esperavam vir a inscrever seus nomes em letras de ouro.
Outros rapazes de maior qualidade acompanhavam normalmente o príncipe D. Afonso, o futuro rei. Caber-lhe-ia o trono quando seu pai, o rei D. João II, falecesse. Empertigados, mesmo petulantes, preferiam juntar-se ao pequeno Afonso, que ia em seus sete anos, e não ligavam ao jovem Manuel, que já ia nos treze. Este, ao contrário do príncipe, era um aristocrata com um futuro incerto. Beneficiava de uma tença anual de quinhentos mil reais, quantia avultadíssima para a maioria, mas uma ninharia para quem era bisneto d'el-rei D. João I, o da batalha real, e neto do eloquente rei D. Duarte. Deles descendia por linha legítima e varonil, ao contrário dos todo-poderosos Braganças, que tinham ducados, marquesados e condados. Era verdade que, por enquanto, D. Manuel era também o herdeiro do ducado de Viseu, cujo titular era seu irmão, D. Diogo, mas essa situação terminaria no dia em que D. Diogo casasse e gerasse seus próprios herdeiros. Por isso, enquanto tutelava os reféns das terçarias, D. Beatriz pedia insistentemente ao rei que concedesse o governo do mestrado de Avis a seu filho mais novo, mas el-rei D. João evitava dar uma resposta definitiva, apesar de sua esposa, a rainha D. Leonor, também interceder pelo pequeno, que era seu irmão. Assim, os fidalgotes comentavam que talvez D. Manuel um dia viesse a ter um senhorio e um título, mas nada que se comparasse à glória e ao poder que estavam prometidos a D. Afonso.

Cortesia de pedroalmeidavieira

No entanto, D. Manuel acabara por agregar um grupo de companheiros, rapazes que pela sua condição não aspiravam a ser favoritos de um rei ou que, simplesmente, se haviam apegado àquele jovem mais discreto. Os romances de cavalaria seduziam-nos e as lendas do rei Artur eram suas favoritas.
Um dia, quando o frio começava a apertar nos finais de Novembro, após uma correria atrás de uma bola, estavam todos deitados sobre a erva olhando pachorrentemente para a extensa paisagem dos montados, agitada nalguns pontos pelo enxame de gente que se dedicava à apanha da azeitona. Os cabeços para as bandas de Alqueva escondiam o Guadiana, que corria bravio nesse tempo, depois de duas semanas de fortes chuvadas. Da fortaleza via-se, contudo, o Ardila na sua caminhada para a confluência com o grande curso de água que se preparava para cair com estrondo no «Pulo do Lobo», antes de escorrer até ao oceano depois de refrescar as vilas de Mértola, Alcoutim e Castro Marim. No ar ecoava o som das pancadas certeiras do ferreiro e o mugido das vacas que regressavam lentamente ao estábulo.

Cortesia de temasedebates

A certa altura Rui de Sá assobiara estridentemente e todos começaram a imitar o grunhido dos porcos, ao mesmo tempo que agitavam o nariz fieneticamente. Vasco de Melo olhara para os outros, meio aborrecido, meio divertido, e atirara uma pedra certeira à testa do primeiro provocador. Rui de Sá passara do grunhido ao gemido e depois à perseguição ao Melo, que corria, qual perdigueiro, atrás da caça. Mas na verdade era Vasco a presa e acabara por ser agarrado e levado aos ombros pelo amigo. Depois de uma luta própria da idade tudo terminara com novas gargalhadas. Havia uma semana que o nariz de Vasco de Melo começara a tremer. Não conseguia explicar a razão, mas tinha sempre tiques». In João Oliveira e Costa, O Império dos Pardais, Editora Temas e Debates, 2008, pág. 93-95, ISBN 978-972-759-993-6.

Cortesia Tema e Debates/JDACT

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Navegações Portuguesas: Parte XX. As Navegações e a Universidade. «A reforma da Universidade a expensas do terceiro filho de D. João I tem degenerado, portanto, em equívocos. Ora, depois de uma análise mais cuidada aos factos, verifica-se que ironicamente a Universidade se manteve arredada dos meios náuticos»

Cortesia de  desertosedesertificacao

As Navegações e a Universidade
«Tentar perceber a influência dos centros eruditos, nomeadamente da Universidade, nos Descobrimentos tornou-se um tema recorrente na historiografia. Nem sempre abordado de forma correcta. Nem sempre tratado com a devida isenção científica. E quando se procura dar a entender que a Universidade ofereceu formas e métodos para a resolução dos problemas relacionados com as navegações, que assaltaram os oceanos ao longo dos séculos XV e XVI, está-se a cair numa tentativa, muito pretendida, e assaz sugestiva, de que Universidade e Descobrimentos andaram de mãos dadas. O que não deixa de ser uma conclusão algo precipitada.
A corrente que defende ter existido em Sagres, no tempo do Infante D. Henrique, uma «Escola Náutica» povoada de cartógrafos, cosmógrafos, matemáticos e outros cientistas também afirma, numa toada similar, que o Infante não teve outro propósito senão o de fomentar os estudos universitários, quando doou umas casas à Universidade de Lisboa, em 1431, a troco da reforma dos seus estudos, tendo em vista a formação dos navegadores. A reforma da Universidade a expensas do terceiro filho de D. João I tem degenerado, portanto, em equívocos. Ora, depois de uma análise mais cuidada aos factos, verifica-se que ironicamente a Universidade se manteve arredada dos meios náuticos.

Cortesia de rodriguesccpa

Uma das provas mais incisivas não deixa de ser o aparecimento de um único registo (ano de 1437) na docência da Matemática, durante todo século XV. O que é bem revelador da importância que se dava, dentro das instituições de ensino superior, a matérias susceptíveis de serem utilizadas na náutica. Acrescente-se, que o próprio Infante D. Henrique se interessou pela cadeira de teologia, provendo-a de um rendimento anual, circunstância muitas vezes omitida.
Convém, ainda, sublinhar que as explorações oceânicas portuguesas, num primeiro momento, isto é, durante os primeiros decénios do século XV, importam e adaptam a náutica em uso no Mediterrâneo. Nessa «arte de navegar» não eram necessários grandes apetrechos técnicos. A navegação era feita com recurso à agulha de marear, à carta portulano, à sonda (instrumentos há muito conhecidos) e, sobretudo, à sabedoria prática do piloto. Os centros académicos nada tinham a ditar a este tipo de navegação que, numa fase inicial, prestou excelentes serviços à marinha portuguesa. Quando, no decorrer da segunda metade do século XV, a Astronomia começou a ter um papel preponderante na náutica, para cálculo de posições geográficas através da altura meridiana do sol e de outros astros, foram os astrólogos, na sua grande maioria judeus, que trabalharam afincadamente nas observações astronómicas, na elaboração dos regimentos e na tradução de alguns textos, úteis à marinharia. Mais uma vez, como se constata, a Universidade não interveio. Nem era crível que o fizesse.

Cortesia de fabiopestanaramos 

Com efeito, problemas de vária ordem assolaram as corporações académicas, um pouco por toda a Europa, a partir de finais do século XIV. Um dos aspectos marcantes dessa nova realidade emergente foi o lancinante divórcio, que se verificou, entre a cultura universitária e a sociedade em geral. Os saberes da «periferia», ou seja, os saberes que circulavam entre os grupos sociais mais afectos à pratica das artes mecânicas e da técnica, artesãos, construtores de fortalezas, relojoeiros, construtores navais, pilotos, polidores de lentes..., ganharam preponderância, e reconhecimento da sua utilidade, diante dos saberes do «centro», alojados nas instâncias académicas. Na verdade, as Universidades vão perdendo, aos poucos, o monopólio das discussões «científicas»; ainda que alguns centros como Salamanca, Oxford ou Paris sejam palco de violentas disputas filosóficas e intelectuais. Entretanto, muitos professores e mestres reputados preferem ensinar e trabalhar fora dos seus muros e contestam abertamente o tipo de escoliose em que mergulharam os estudos universitários. No início do «Mundo Moderno», as Universidades adormecem em formas de aprendizagem e ensino já esgotadas. Resistem à novidade, à inovação intelectual, à modernidade filosófica e científica. Podemos, então, equacionar os seus préstimos.
Que contributos poderiam oferecer, às navegações oceânicas, instituições pedagógicas em agonia, que sobreviviam à sombra da autoridade doutrinária dos autores antigos (contra os quais lutarão essas mesmas navegações) e do vazio dialéctico? Que contributos poderiam oferecer sistemas de ensino que se desgarravam da realidade? Que contributo se poderia esperar de «escolas» que se isolavam e resistiam às reformas, permitindo que a iniciativa intelectual lhes fugisse das mãos?

Cortesia de eescola

A inovação intelectual tornou-se menos dramática nos centros académicos mais jovens como Wittenberg (1502), Alcalá (1508) ou Leiden (1508), onde já imperava a força do Humanismo, mas não foi suficiente para impedir que os saberes da «periferia», alicerçados no saber técnico, continuassem a ter maior capacidade de resposta para os novos desafios que a sociedade lançava, por via da modificação do seu modo de produção e da sua própria estrutura. O panorama universitário em Portugal não diferia muito do Europeu. A Universidade possui, aproximadamente, cento e vinte cinco anos de existência quando as viagens dos Descobrimentos têm início. D. Dinis conseguira, no ano de 1290, instituir o «Estudo Geral» em Lisboa. Contudo, nos reinados seguintes assiste-se à diletância, instável, do «Estudo» entre Lisboa e Coimbra, com a sua reforma a ser continuamente adiada. Nos reinados de D. Manuel I e D. João III opta-se claramente pelo sistema de bolsas de estudo, através da formação de quadros noutros países. Duas iniciativas tomadas durante o século XVI são no entanto dignas de registo:
  • a criação, por D. Manuel, de uma cadeira universitária de Astronomia regida primeiro por Mestre Filipe (1513) e depois por Mestre Tomás Torres (1521), ambos médicos sefarditas;
  • a decisão reformadora de D. João III em transferir para Coimbra a Universidade (1536), convidando para o efeito professores estrangeiros.
A cadeira de Astronomia instituída por D. Manuel não era frequentada pelos marinheiros que sulcavam os oceanos, porque através do «Regimento do Cosmógrafo–mor» temos notícia de, em meados do século XVI, funcionar uma «aula de Matemática», ministrada pelo cosmógrafo–mor. A «aula», que era destinada a pilotos, sota-pilotos, cartógrafos e outros homens ligados à empresa marítima, tinha lugar nos «armazéns da Índia». No Colégio jesuíta de Santo Antão, de 1590 a 1759, funcionou, igualmente, uma «aula da Esfera», aberta ao exterior, cujos contornos didácticos também passavam pelos elementos de cosmografia e da arte náutica.

Cortesia de historiabrvestec

De entre os cosmógrafos–mor, que se sucederam no cargo, a não ser Pedro Nunes, nenhum esteve ligado estritamente ao meio universitário. De facto, Pedro Nunes (1502-1578), um matemático de projecção internacional, professor catedrático na Universidade, conviveu de perto com os homens do mar; não querendo isso dizer que comungasse dos seus pontos de vista, pelo contrário, com excepção de D. João de Castro com quem manteve bons contactos, foram inúmeras as vezes em que o matemático e os marinheiros não estiveram de acordo. Sintoma claro do difícil relacionamento entre as entidades académicas e o meio naval. Outros homens com formação universitária também estiveram ligados, por formas diversas, de modo esporádico ou indirecto, às navegações quatrocentistas e quinhentistas. Vale a pena citar alguns nomes:
  • Diego Ortiz de Vilhegas, que fora professor na Universidade de Salamanca, célebre Bispo de Ceuta e Tânger, é conselheiro de D. João II e D. Manuel I para assuntos cosmográficos;
  • Francisco Manuel de Melo (1496? -1536), formado na Universidade de Paris, também intervém em alguns pareceres sobre as navegações;
  • Garcia da Orta (1500-1568), boticário, que com base na nova realidade proporcionada pelas navegações lança nova luz sobre a farmacopeia.
Caso diferente foi o de André de Avelar que, atento ao fenómeno das navegações, dá uma aula de cosmografia na Universidade de Coimbra em fins do século XVI; caso único, pois a verdade é que ninguém lhe seguiu o exemplo.
De uma forma geral, pode-se concluir que navegações e Universidade estiveram em dois campos completamente distintos. A provar essa distância de posições, estão os testemunhos, usualmente denominados de «literatura de viagens», em forma de roteiros, livros de marinharia, descrições antropológicas e geográficas, diários de bordo, guias náuticos e outros documentos, escritos na sua esmagadora maioria por indivíduos que não tinham formação universitária, e onde é bem patente uma visão do Mundo anunciadora dos novos tempos». In Carlos Manuel Valentim, Instituto Camões.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT

BNP adquire manuscrito de Gonçalves Crespo: «Na egreja das Chagas e Trinta annos depois. ...Integrado no ambiente universitário da cidade do Mondego colaborou no jornal dirigido por João Penha, A Folha, divulgador em Portugal do Parnasianismo, estética literária de que Gonçalves Crespo é considerado um dos principais expoentes

Cortesia de bnp 

A BNP adquiriu recentemente em leilão dois sonetos autógrafos do poeta luso-brasileiro de influência parnasiana Gonçalves Crespo – Na egreja das Chagas e Trinta annos depois.
António Cândido Gonçalves Crespo (1846-1883), filho natural de negociante português e de mãe negra, nasceu nos arredores do Rio de Janeiro, na roça de seu pai. Inicia a instrução num colégio da capital carioca e aos 14 anos viaja para Portugal onde passará a residir, primeiro no Porto, depois em Braga, onde se revela como poeta, escreve para várias publicações periódicas e participa nas tertúlias literárias do Café Viana. Em 1872, ingressa na Universidade de Coimbra, formando-se em Direito em 1877. Veio a ser eleito deputado pelo Círculo da Índia (Goa e Nova Goa) nas eleições de 1879 e de 1881.

Cortesia de bnp 
Integrado no ambiente universitário da cidade do Mondego colaborou no jornal dirigido por João Penha, A Folha, divulgador em Portugal do Parnasianismo, estética literária de que Gonçalves Crespo é considerado um dos principais expoentes. Para alguns investigadores a sua poesia reflecte a estética de Lecomte de Lisle, Sully Prudhomme, Paul Verlaine, entre outros, enriquecida pela sua longínqua experiência de infância do universo humano brasileiro.
O seu primeiro livro de poesia, Miniaturas (1870), chamou a atenção de Maria Amália Vaz de Carvalho com quem manteve diálogos literários na forma de correspondência e com quem veio a contrair matrimónio em 1874. Os salões da residência do casal, na Travessa de Santa Catarina, em Lisboa, para onde se mudou por volta de 1878, foram palco de tertúlias literárias onde se reuniam intelectuais e políticos da época, como o Conde de Sabugosa, Pinheiro Chagas, Bulhão Pato, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Bernardino Machado, Guerra Junqueiro ou Sousa Martins.
Em 1882 publica o segundo e último livro de poesia, Nocturnos. Colaborou na imprensa, no Instituto, de Coimbra, tal como no jornal já referido, em Partido Liberal e Republica das Lettras, de Braga, em Harpa e em Renascença, do Porto, em Artes e Letras, Occidente e Jornal do Commercio, de Lisboa. Foi redactor deste último e do Diário da Camara dos Senhores Deputados (1882). Após a sua morte a obra publicada foi reunida em Obras Completas (1897) e no ano seguinte em Poesias foram dados à estampa outros inéditos.

Cortesia de bnp
Mas a bibliografia de Gonçalves Crespo inclui ainda Contos para os Nossos Filhos, Colleccionados e Traduzidos em colaboração com Maria Amália Vaz de Carvalho (1886), que veio a ser oficialmente aprovado para uso nas escolas primárias, Extravagancias Extraordinarias ou As Phantasias do Bandarra (1877), peça em 4 actos preparada para ser representada pelos estudantes de Direito, em Coimbra, e a folha volante A Leitura dos Lusiadas: tricentenário de Camões: sarau litterario (1880?), cuja temática é próxima da dos sonetos agora adquiridos pela BNP». In Biblioteca Nacional de Portugal.

Cortesia de BN de Portugal/JDACT

O Risorgimento. Itália: «O processo de unificação, ao longo do século XIX, dos diversos estados em que a Península Itálica se encontrava dividida. Ressurgimento porque constitiui o despertar da consciência nacional, que relembrou as suas raízes na província da Itália criada pelo imperador romano Augusto, e que quis convergir com o Renascimento»

Cortesia de wikipedia

«Durante o século XIX, estimulada pelos ideais revolucionários que se expandiam pela Europa e pela América, a consciência nacional do povo italiano «ressurgiu», encorajando-o a lutar pela independência contra os poderes estrangeiros e a unir os estados que o dividiam. Em Itália, denomina-se Risorgimento, ressurgimento, o processo de unificação, ao longo do século XIX, dos diversos estados em que a Península Itálica se encontrava dividida. Ressurgimento porque constitiui o despertar da consciência nacional, que relembrou as suas raízes na província da Itália criada pelo imperador romano Augusto, e que quis convergir com o Renascimento.
Este movimento revitalizador da cultura clássica, que se expandiu por toda a Europa durante os séculos XIV e XV, tivera o seu epicentro precisamente nas cidades italianas. No Congresso de Viena, 1815, após a derrota de Napoleão, a Península Itálica foi repartida entre:
  • o Império Austríaco dos Habsburgos; 
  • o Reino de Piemonte-Sardenha da Casa de Sabóia;
  • os Estados Pontifícios do poder papal;
  • o Reino das Duas Sicílias sob a monarquia dos Bourbons.
Restaurado o absolutismo em todos estes estados, os monarcas eixaram de contar com o apoio popular. Os ideais liberais da Revolução Francesa, 1789, os sentimentos nacionalistas estimulados pelo Romantismo, encarnado em escritores como Giocomo Leopardi, ou em músicos como Giuseppe Verdi, e a difusão de ímpetos revolucionários por parte das sociedades secretas, como a Jovem Itália de Giuseppe Mazinni, originaram revoltas populares explosivas que se sucederam pelas décadas de 1820 e 1830, juntamdo-se assi^m às vagas revolucionárias que já abalavam a América Latina e a Europa.


Cortesia de wikipedia 

As Guerras da Independência
Em 1848,  no reino de Piemonte, declarou-se a Primeira Guerra da Independência contra o Império Austríaco. Em 1849, proclamou-se a República Romana, liderada por Mazzinni e defendida um ano depois por Garibaldi dos ataques das tropas de Napoleão III, que venceram e entregaram a cidade mais uma vez ao poder papal. Em 1852, o conde de Cavour tornou-se primeiro-ministro do reino de Piemonte e renovou as ambições expansionistas dos Piemonteses frente à Áustria, através de uma astuta política de alianças com a França e a Grã-Bretanha. Foi com a ajuda de Napoleão III que venceram finalmente a Segunda Guerra da Independência, 1859-1861, que lhes permitiu anexar a Lombardia, Parma, Modena, Emília-Romana e a Toacana, em troca de Nice e da Sabóia para a França.


Cortesia de wikipedia 

Em 1860, Garibaldi empreendeu a «Expedição dos Mil», dominando o reino das Duas Sicílias, um dos estados mais prósperos da Europa naquela época. Garibaldi desejava continuar a luta até à conquista de Roma, com a consequente preocupação de Vítor Emanuel e de Cavour, que temiam que a sua extrema ambição deitasse a perder o já conseguido.
Finalmente, Garibaldi antepôs a unidade aos seus ideais republicanos e entregou o reino das Duas Sicílias a Vítor Emanuel II. Em 1861, concretizou-se a unificação com a criação do reino da Itália sob a monarquia deste soberano.
O processo complementou-se com a anexação de Veneza, na Terceira Guerra da Independência, 1886, e a conquista definitiva de Roma em 1870, com o aproveitamento da guerra austro-prussiana no primeiro caso e da franco-prussiana no segundo caso». In Wikipédia.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

O Diamante de Cambridge. Isaac Newton: O Trinity College. «No centro do Pátio Novo ergue-se uma árvore enorme. Segundo uma lenda muito divulgada, foi desta afortunada árvore que caiu sobre a cabeça de Newton a famosa maçã que inspiraria a Lei da Gravitação Universal, a partir de uma história difundida por Voltaire»


Cortesia de wikipedia 

«Se há uma instituição capaz de representar Isaac Newton, ela é certamente o Trinity College de Cambridge. Este centro universitário orgulha-se de ter acolhido tão insigne figura como aluno e professor.
O Trinity College da Universidade de Cambridge, cujo aluno mais insigne foi Isaac Newton, é o mais prestigioso dos centros universitários do Reino Unido. Também é o mais aristocrático: foi tradicionalmente a instituição académica preferida da família real britânica (o rei Eduardo VII, o rei Jorge VI, o príncipe Henrique de Gloucester e o príncipe Carlos, de entre outros, graduaram-se nesta instituição).
Mesmo que actualmente a proporção entre alunos procedentes das escolas públicas e os oriundos das escolas privadas seja de dois para três, continua a ser o centro universitário que apresenta a taxa mais baixa de alunos originários de escolas públicas (cerca de 40%).


Cortesia de wikipedia 

Admitiram-se pela primeira vez mulheres como estudantes já licenciadas em 1976, como professoras adjuntas em 1977 e como alunas em 1978.
Nomes ilustres
Além de Newton, o Trinity College de Cambridge tem a honra de ter acolhido nas suas aulas 31 alunos que seriam posteriormente galardoados com o Prémio Nobel, entre os quais Bertrand Russell, assim como vários primeiros-ministros como Jawaharla Nehru, da Índia. Mas entre os seus alunos mais notáveis também se encontram figuras relevantes como Francis Bacon ou Ludwig Wittgenstein.
Foi Henrique VIII que fundou este colégio em 1546. A maioria dos seus edifícios data dos séculos XVI e XVII. Thomas Neville reconstruiu e redesenhou grande parte do colégio. A sua obra abrangeu a ampliação e conclusão do Grande Pátio e a construção do Pátio de Neville, que foi acabado quando se construiu a Biblioteca Wren, projectada por Christopher Wren.



Cortesia de wikipedia

A maçã do Trinity
Dos seus edifícios e recintos destacam-se:
  • a Hospedaria do rei, a construção mais antiga;
  • a Grande Porta, entrada principal do colégio;
  • o Grande Pátio;
  • o Pátio de Neville;
  • a Hospedaria do Bispo;
  • a Biblioteca Wren;
  • o Pátio Novo, etc.
No centro do Pátio Novo ergue-se uma árvore enorme. Segundo uma lenda muito divulgada, foi desta afortunada árvore que caiu sobre a cabeça de Newton a famosa maçã que inspiraria a Lei da Gravitação Universal, a partir de uma história difundida por Voltaire.
Outra lenda famosa, mas tão desfasada da realidade, é a que se refere à riqueza económica do colégio, sugerindo que a instituição do Trinity College se estima entre os mais ricos proprietários de terras do Reino Unido, depois da coroa, da fundação Nacional de Parques Naturais e da opulenta igreja de Inglaterra». In Wikipédia.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

Giuseppe Garibaldi: «Insigne «pai da pátria» italiana, este homem de acção, a quem chamaram o «herói dos dois mundos» aplicou os seus dotes de liderança em guerras revolucionárias e de independência, tanto na América Latina como na Itália, onde se converteu num símbolo da Unificação»


(1807-1882)
Nice, França
Cortesia de wikipedia

Insigne «pai da pátria» italiana, este homem de acção, a quem chamaram o «herói dos dois mundos» aplicou os seus dotes de liderança em guerras revolucionárias e de independência, tanto na América Latina como na Itália, onde se converteu num símbolo da Unificação.
A vida de Giuseppe Garibaldi foi tão rica em peripécias que daria um óptimo romance de acção e aventura. Não foi em vão que se deu ao trabalho de escrever as suas Memórias, publicadas em 1860, com a ajuda de Alexandre Dumas Pai. A sua trajectória de vida abarca, desde o seu nascimento até à sua morte, uma boa parte dos acontecimentos tumultuosos e das revoluções que se foram sucedendo ao longo do século XIX.
Sentiu-se atraído por uma vida de acção desde muito jovem, o que o levou a alistar-se como marinheiro. Aoa 16 anos, realizou a sua primeira viagem ao mar Negro e ao mar de Azov, e entre 1828 3e 1832 permaneceu em Istambul por causa da guerra turco-russa. Assim que regressou, tomou conhecimento das teses de Giuseppe Mazzini e da sua Jovem Itália.


Anita e Garibaldi
Cortesia de wikipedia

Seduzido por estas ideias, passou por uma revolução interior que o levou a dedicar o resto da sua vida ao combate pela concretização desse sonho. Assim, em 1834, participou nas insurreições populares de Piemonte e de Sabóia. Depois do fracasso da segunda destas revoltas, e com uma condenação à pena de morte, Garibaldi viveu como um bandido durante algum tempo antes de embarcar rumo à América do Sul, onde permaneceu exilado de 1835 a 1848.
Voltou a Itália em 1848 para se envolver na Primeira Guerra da Independência contra o Império Austríaco, lutando a favor do governo provisório de  Milão. Em 1849, protagonizou a defesa da República Romana opondo-se às tropas francesas e napolitanas que apoiavam os interesses do papa Pio IX. Derrotado, andou fugido por meia Itália até chegar a Veneza, uma evasão dramática que custou a vida à mítica «Anita» (Ana Maria de Jesus Ribeiro da Silva) dos Italianos.
Garibaldi refugiou-se mais uma vez na América, desta feita em Nova Yorque e no Peru, para regressar a Itália em 1854, onde se estabeleceu numa quinta na ilha de Caprera, na costa norte da Sardenha. Cinco anos depois, participou na Segunda Guerra da Independência, e em 1860 organizou uma bem sucedida campanha militar, a «Expedição dos Mil», para conquistar o reino das Duas Sicílias.


Cortesia de wikipedia

Depois da vitória, entregou a Sicília e Nápoles à soberania do rei Vitor Emanuel II. Em 1861, recusou o convite de Abraham Lincoln para combater na Guerra Civil americana em defesa da União. Em vez disso, empreendeu duas expedições para libertar Roma do poder papal, infrutuosas pelo apoio que este recebeu das tropas de Napoleão III.
Finalmente, ainda chegou a participar na Terceira Guerra da Independência, antes de morrer na sua casa de Caprera». In Wikipédia.

Cortesia de Gayban Grafie/JDACT

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Christiane Águas. Aprender a Ser: «A equipa consciência e mental, que está em mim, funciona unida, de acordo, em harmonia, serenidade e eficácia. Passo a passo, descubro a minha criatividade e atrevo-me a expressá-la na realização da minha expansão profissional»

Cortesia de monografias

É primordial, actualmente, não se deixar levar pela agitação e pela agressividade que paira à nossa volta e envolvermo-nos emocionalmente em assuntos alheios, sejam eles individuais ou sociais, achando-os tristes e/ou injustos. Este envolvimento pode ser expresso com revolta, o que destrói o frágil equilíbrio destas vozes interiores que constroem as nossas atitudes mentais, estrutura dos nossos comportamentos próprios. São elas: a voz da consciência ou mente.) e a voz do mental ou racional. Para dosear o equilíbrio interior, que irá reflectir-se sobre o exterior, é necessário identificar cada uma delas e uni-las em diálogo harmonioso.
A equipa consciência/mental, que está em mim, funciona unida, de acordo, em harmonia, serenidade e eficácia.

Cortesia de  anoxpaulox

Não existem momentos de azar, momentos monótonos, de espera ou de perda de energia: são fases de maior desmotivação, que trazem o desânimo. Quando esses momentos surgem, a única coisa a fazer é transformá-los, inverter a nossa óptica sobre os acontecimentos e confiar na criatividade.
Utilizá-la pode simplesmente significar inventar uma nova receita culinária, um arranjo original de flores, uma conversa diferente com o vizinho do lado, mas também pode proporcionar o empreendimento de actividades sociais de carácter benemérito ou de negócios individuais rendosos.
A criatividade é um estímulo que precisa de ser utilizado para a própria expansão. É uma qualidade que existe em cada ser humano e tem a ver com a motivação em participar na vida e sentir-se útil.
É ao começar a introduzir a criatividade nas pequenas coisas da vida que se activa esta função, que se cria o estímulo do mecanismo natural que permite entender até que ponto se pode ir.
Passo a passo, descubro a minha criatividade e atrevo-me a expressá-la na realização da minha expansão profissional». In Christiane Águas, Aprender a Ser, Oficina do Livro 2003, ISBN 972-8579-75-6.

Cortesia de Oficina do Livro/JDACT

José Miguel Wisnik: «Um músico, compositor e ensaísta brasileiro. É professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo e Doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela mesma Universidade»

Cortesia de vejaabril










JDACT

terça-feira, 21 de junho de 2011

Castellfollit de la Roca. Catalunha: «O casario antigo de Castekkfollit de la Roca, de origem medieval, está formado por praças e ruas estreitas e sombrias. As casas, na sua maioria, estão construídas em pedra vulcânica. No extremo da parede basáltica, onde se encontrava o antigo cemitério do povo até ao ano de 1961, ano em que foi trasladado para outra localização. Este facto deu lugar à praça Joseph Pla»

Cortesia de ajuntamentdecastellfollitdelaroca 

Castellfollit de la Roca é uma povoação com 1000 habitantes e uma área com menos de 1 km2, facto que a converte num dos municípios mais pequenos em extensão da Província da Catalunha. A área municipal está limitado pela confluência dos rios Fluviá e Toronell, entre os quais se levanta a espectacular parede basáltica.
O perfil da igreja e das casas sobre a parede basáltica, no bordo do precipício, converteu-se numa das imagens mais fotografadas e pintadas da Catalunha. Mas é também um magnífico miradouro natural donde se pode observar o vale dos dois rios.

A parede de basalto em que assenta a povoação tem mais de 50 m de altura e quase 1 km de comprimento e é a consequência directa da acção erosiva dos rios Fluviá e Toronell sobre os restos das correntes e lava procedentes das erupções vulcânicas que tiveram lugar faz milhões de anos. A lava, ao solidificar, dá lugar ao basalto, rocha de grande dureza, que adopta diferentes formas segundo o processo de arrefecimento e contracção da lava. Concretamente, a parede basáltica é fruto da sobreposição de duas colagens de lava:
  • A primeira, com uma antiguidade de 217 000 anos, provém da zona de Batet e está formada por losas;
  • A segunda, mais jovem, é originária dos vulcões de Begudá e tem uns 192 000 anos e adopta a forma prismática.


Cortesia de ajuntamentdecastellfollitdelaroca


O casario antigo de Castellfollit de la Roca, de origem medieval, está formado por praças e ruas estreitas e sombrias. As casas, na sua maioria, estão construídas em pedra vulcânica. No extremo da parede basáltica, onde se encontrava o antigo cemitério do povo até ao ano de 1961, ano em que foi trasladado para outra localização. Este facto deu lugar à praça Joseph Pla. Este «balcão» oferece uma espectacular panorâmica e permite compreender a posição estratégica da povoação e as sua qualidades naturais para a defesa.
Num lado da parede basáltica encontra-se a antiga igreja de São Salvador que já existia no século XIII. O edifício actual, remodelado em épocas anteriores, é de estilo renascentista tardio, com um campanário de planta quadrada com aberturas laterais e coroada por uma cúpula adornada.
 





Cortesia de ajuntamentdecastellfollitdelaroca


Cortesia de Ajuntamento de Castellfollit de la Roca/JDACT

Elena Bonner: A coragem na luta pelas liberdades fundamentais e a dignidade humana. «Conheceu Andrei Sakharov em 1970 e os dois casaram em 1972. A sua morte é uma grande perda, e não só para o movimento de defesa dos direitos humanos»


(1923-2011)
Moscovo
Cortesia de rakeshbera e aterceiranoite

«Elena (Yelena) Georgievna Bonner foi médica, activista dos direitos humanos e proeminente dissidente da época da União Soviética. Foi casada com o físico Andrei Sakharov.


Quando Andrei Sakharov foi distinguido com o Nobel da Paz, em 1975, foi Elena Bonner quem o representou na cerimónia a que o regime soviético não o deixou comparecer. Mas para além de ser a mulher do dissidente russo, que acabou por dar nome a um prémio do Parlamento Europeu que todos os anos é entregue a um activista pela liberdade de expressão, ela era também uma lutadora pela defesa dos direitos humanos, fundadora da organização Grupo Helsinki, em Moscovo.

«Anunciamos com grande tristeza que morreu a nossa mãe Elena Georguievna Bonner», confirmou em comunicado a filha da activista, Tatiana Iakelevitch. Bonner viveu nos últimos anos em Boston, onde será realizada uma cerimónia de homenagem antes de o corpo ser transferido para o cemitério Vostriakovo de Moscovo, onde também está sepultado Sakharov.
Nascida na república soviética do Turquemenistão, em 1923, Bonner, enfermeira que chegou a ser condecorada pelos seus serviços de apoio ao Exército Vermelho durante a II Guerra Mundial, era uma crítica do regime desde finais dos anos 60. Nessa altura deixou as fileiras do Partido Comunista, depois de ver, durante a Primavera de Praga, a repressão das forças soviéticas na principal cidade da então Checoslováquia.

Cortesia de politicalstew

Conheceu Andrei Sakharov em 1970 e os dois casaram em 1972. Ele foi físico nuclear, chegou a participar na criação da bomba de hidrogénio soviética mas depressa se juntou à contestação ao regime, por isso foi perseguido, submetido a um exílio interno na cidade de Gorki, a cerca de 400 quilómetros de Moscovo. Ela tornar-se-ia a sua voz no exterior, mas acabou por também ser expulsa para Gorki em 1984 por «agitação anti-soviética».
Um ano depois acabou por ser autorizada a deixar o país, partiu para Itália e mais tarde para Boston, onde vivia a sua mãe e a sua filha. Aí foi submetida à primeira intervenção cirúrgica ao coração. Até que, em 1986, foi autorizada a regressar a Moscovo, já Mikhail Gorbatchov procurava levar a cabo diversas reformas no regime. Sakharov também voltou, viria a morrer dois anos depois. E Bonner continuou envolvida na defesa dos direitos humanos e a ser uma das vozes mais críticas do regime.

Críticas à guerra na Tchetchénia e a Putin
Condenou com firmeza a intervenção militar russa na Tchetchénia, em 1994, guerra que qualificou como «genocídio do povo tchetcheno». E como protesto renunciou ao cargo que ocupava na comissão de direitos humanos russa, era já Boris Ieltsin quem estava na presidência do país.
Ieltsin, aliás, voltaria a ser alvo das suas críticas por ter promovido a ascensão de Vladimir Putin a seu sucessor. Putin foi Presidente, é agora primeiro-ministro, e ainda no ano passado Bonner assinou uma petição na Internet contra ele, a condenar as violações de direitos humanos na Rússia.


Cortesia de alexeypichugin e newyorker 

«A sua morte é uma grande perda, e não só para o movimento de defesa dos direitos humanos», disse à agência Interfax a sua amiga e presidente do Grupo Helsinki, Lioudmila Alexeeva. O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, prestou homenagem «à coragem de Bonner na sua luta pelas liberdades fundamentais e a dignidade humana». In Público.

Cortesia de Jornal Público/JDACT

Paulo A. Loução: Portugal, Terra de Mistérios. «O homem arcaico sente muito especialmente a Terra, que é a "mater" e, através dos seus cultos às inúmeras formas da Deusa-Mãe, que foram cristianizadas através das não menos diversas "Nossas Senhoras", recebe dela os seus favores e protecção»

Cortesia de wikipedia

Como chegámos aqui?
«Em nosso entender, o povo português é fortemente religioso e portador de uma alma arcaica. Este último conceito merece ser aprofundado, pretendendo este capítulo introdutório confrontar, sob diversos ângulos, a cosmovisão do homem arcaico e a visão do mundo do homem racionalista «moderno». Esta confrontação afigura-se-nos imprescindível para sentirmos melhor a nossa essência e para nos compreendermos melhor a nós próprios; e também para tomarmos consciência da riqueza espiritual, natural, humana e patrimonial que o mundo português arcaico encerra, objectivo deste ensaio. Como é óbvio, este tipo de riqueza, não é exclusivo de Portugal, mas a nós compete-nos, «des-cobrir» os arquétipos nacionais, o que facilitará o reconhecimento - pela via «interna», espiritual, dos arquétipos e mitos de outras culturas, o que, considerando as idiossincrasias do português, proporcionará naturalmente verdadeiros encontros de culturas.

Cortesia de esquilo

O termo arcaico, na acepção que lhe damos, é um vocábulo mais simbólico do que racional. É necessário senti-lo, encontrando primeiramente dentro de nós a presença do homem arcaico. Este vive dentro de um círculo que é o cosmos, estando o caos fora dele. Isto explica a necessidade que sentem aqueles que vão viver para a cidade de voltarem ciclicamente à aldeia ou lugar «mítico» da origem, estando essa necessidade relacionada com a saudade. Esse círculo é composto tanto pela Natureza visível como pela Natureza invisível, as quais se interpenetram numa totalidade. O homem arcaico sente muito especialmente a Terra, que é a «mater» e, através dos seus cultos às inúmeras formas da Deusa-Mãe, que foram cristianizadas através das não menos diversas «Nossas Senhoras», recebe dela os seus favores e protecção. Ao ligarem-se com os seres que incorporam a sua mitologia (na actualidade: heróis, santos, santas, Nossas Senhoras, Cristo, Deus...), os objectos e lugares vinculados a uma teofania são «pontes» privilegiadas de comunicação, surgindo assim as pedras sagradas, as árvores divinizadas, os locais sagrados, todos eles cultuados e respeitados com zelo, por vezes durante muitos séculos.

Cortesia de esquilo

O psicólogo Jung (1875-1961) exerceu a sua profissão durante décadas, conhecendo milhares de pacientes. Além disso, viajou por diversas zonas do planeta com o objectivo de conhecer homens de diferentes culturas e desenvolveu, com base na sua ampla experiência, uma extensa obra que merece a atenção dos investigadores e amantes das ciências humanas. Freud deu um grande passo científico ao mostrar que a natureza psíquica do homem é muito mais complexa do que se pensava, trazendo à tona a dinâmica entre a consciência e o inconsciente, a líbido e os recalcamentos, e outros novos elementos. Apesar disso, não conseguiu escapar a uma psicologia redutora ao privilegiar o factor sexual como determinante na auto-realização humana. Adler, por sua vez, privilegiou o prestígio social, o que é interessante se pensarmos que Freud e Adler revelaram a cara e a coroa das grandes motivações do homem-exterior, da «persona», que significa «máscara» em latim, termo que , por sua vez, tem origem no étimo grego «prosopon», a máscara utilizada na tragédia grega. O homem-externo, o ego-inferior ou o Eu-animal, quando não disciplinado pelo homem-interior, é o carcereiro da alma e foge da experiência religiosa interna, verdadeira como o «Diabo foge da cruz», sendo o intelecto mecânico o seu grande aliado. Na sua interioridade vazia procura a satisfação sexual, na sua vida externa busca o prestígio-dinheiro-poder». In Paulo Alexandre Loução, Portugal, Terra de Mistérios, Abril de 2001, Editora Ésquilo 6ª edição, 2005, ISBN 972-8605-04-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT