terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O Infante D. Pedro das “Sete Partidas”. Parte 2. Vida e Obra: «A regência de D. Pedro (1439-48) tem sido objecto de discussão e de interpretações contraditórias pelos historiadores. Ora é vista, maioritariamente, como um período de centralização do poder real, ora, minoritariamente, como um período de afirmação senhorial»

Rainha Isabel, filha do infante D. Pedro
Cortesia de wikipedia 

«Em 1446 D. Afonso V atingiu a maioridade (14 anos) e D. Pedro entregou-lhe o poder. O rei pediu-lhe, no entanto, que continuasse em exercício de funções para o auxiliar nas tarefas da governação. Foi então que elementos da grande nobreza (o conde de Barcelos / duque de Bragança e o conde de Ourém, entre outros), opostos às políticas de D. Pedro, começaram a rodear o novo rei e a pressioná-lo para que governasse sem a influência do Infante.

Em 1448, D. Pedro, desgostado e já num clima de tensão criado pelos inimigos, abandonou o poder, retirou-se da corte e foi para as suas terras de Coimbra. Os seus inimigos continuaram o processo de ajuste de contas, acusando-o de diversos crimes e convencendo disso o rei; este, em 1449, ordenou então a D. Pedro que entregasse as armas guardadas na cidade de Coimbra e que deixasse passar nas suas terras as hostes do duque de Bragança, seu principal inimigo. O Infante recusou e, depois de falhadas as diversas tentativas de reconciliação com o rei, que passou a considerá-lo traidor, dirigiu-se com o seu exército para o sul, encaminhando-se para Lisboa, até Alfarrobeira, onde o exército real o aguardava. Ainda hoje não se consegue interpretar este acto nem saber os seus motivos, já que D. Pedro sabia que o rei estava contra ele e que um exército desproporcionado o esperava. Uma hipótese plausível:
  • a de que buscou deliberadamente a morte, em compromisso mútuo com o seu amigo e apoiante, o conde de Avranches, de que mais valia «morrer grande e honrado do que viver pequeno e desonrado» e de que «quando melhor não pudesse ser, (bom era) de morrer no campo (de batalha)».

Isabel de Portugal, irmã do infante D. Pedro
Cortesia de wikipedia

A batalha com as tropas do rei ocorreu no dia 20 de Maio de 1499, em Alfarrobeira, onde D. Pedro morreu e as suas tropas foram destroçadas. Depois de abandonado no campo durante três dias, o seu corpo foi discretamente enterrado na igreja de Alverca e trasladado mais tarde para Abrantes. A notícia da sua morte e do tratamento indigno do seu corpo foi criticamente recebida tanto pelo ducado da Borgonha (de que sua irmã Isabel era a duquesa) como pelo Papado, o que obrigou o rei a más desculpas e a justificações pouco convincentes. Só em 1455, numa cerimónia de apaziguamento da família real, foi autorizada a sua sepultura no mosteiro da Batalha. Iniciara-se entretanto o processo da maldição da sua memória: a sua morte não bastou aos inimigos, foi-lhes necessário apagar na historiografia oficial (crónicas) a recordação do seu nome e dos seus feitos...

A Batalha de Alfarrobeira e a morte de D. Pedro marcaram uma viragem de retrocesso histórico no país. Durante mais de 30 anos a grande nobreza feudal aumentou o seu poder económico e dominou politicamente o rei e o estado, em desfavor dos interesses e direitos dos povos e dos concelhos. E a expansão orientou-se para uma política de conquistas marroquinas, mais de acordo com os interesses da nobreza, sendo secundarizada a exploração marítima da costa africana: nos 12 anos seguintes ao seu governo não se descobriram mais do que 94 léguas...
Foi preciso esperar pela década de 70 e pela subida ao trono de D. João II, em 1481, para que as políticas de expansão marítima e de centralização do poder real de D. Pedro assumissem de novo um papel determinante e irreversível na história portuguesa.

Imagem Física, moral e social
Não se conhece ao certo nenhum retrato do Infante D. Pedro, ainda que ele esteja representado nos Painéis de S. Vicente, possivelmente na figura que se apresenta, do Painel dos Cavaleiros, dada a congruência com a sua descrição física directa:
  • «Homem de grande corpo, e de seus membros em todo proporcionado, e de poucas carnes; teve o rosto comprido, nariz grosso, olhos um pouco moles, os cabelos da cabeça crespos, e os da barba algo tanto ruivos como inglês...» (Rui de Pina, “Crónica de D. Afonso V”).
Ou indirecta, a partir de um retrato seu, hoje perdido, que existiu no Mosteiro de Odivelas:
  • «... o rosto somente tinha na cabeça uma caraminhola em modo de barrete de veludo carmesim que parece que se usava naquele tempo, o rosto comprido, e o pescoço muito comprido, com um nó muito grande na garganta...». (Anónimo, "Manuscrito do Rio de Janeiro").
Note-se que as características físicas referidas, bem como a figura apresentada dos Painéis, o revelam parecido com a irmã Isabel, duquesa da Borgonha, de quem se conhecessem dois retratos». In José Ermitão Wikipédia.

Continua
Cortesia de Wikipedia/JDACT

Cântico Gregoriano. «Surgiu como elemento primordial de um processo de unificação da Europa que constituiu tanto na reunião de cantos antigos como na criação de cantos novos. Esse processo aconteceu também na liturgia dos ritos europeus a partir do modelo romano proposto por Papa Gregório I (590 - 604) mas foi a partir da ascensão de Carlos Magno (800 d. C) que a Liturgia e o Canto romano foram elevados ao status de Oficial»


Cortesia de roriz e wikipedia

Um momento de saudade num programa da Comunicação Social. Reviver duas religiosas que não via há muito tempo. Uma de Coimbra, a Madre Prioresa MCT  e a outra de Lisboa, a Irmã Hospedeira MRC. Duas irmãs com uma "cultura" fora do comum.
Uma inteligência, que nos transcende. Mesmo que as 'Palestras' sejam em língua inglesa, a criatividade nunca tem fim. Recordo um momento singular em Tibães, onde os visitantes ficaram fascinados com o testemunho de vida, a eloquência, o conhecimento do erudito, a dicção e as realidades que se podem tocar e experimentar.
Obrigado!








JDACT

Companhia Nacional de Bailado. «”Uma coisa em forma de assim” foi o nome, decalcado de um título de Alexandre O'Neill, do programa da CNB para o dia mundial da dança, que consistiu numa inédita junção das linguagens de nove coreógrafos nacionais. Desenham uma façanha conjunta, dançada pelo elenco da companhia e unificada pela composição musical de B S»

Cortesia de caleidoscopiodeartecultura









JDACT

Patrícia Petibon. Música: «Voz com uma pureza de som e uma doçura de verbosidade. Um virtuosismo de efeito ‘belíssimo’»

Cortesia de lastfm










JDACT

Livro da Vertuosa Benfeytoria. Infante D. Pedro e Fr. João Verba: «Houve quem defendesse que o Livro da virtuosa benfeitoria, por "força da coerência, deveria conter em potencial a política da regência" [de D. Pedro], o que não nos parece dever ser função da obra, que, além do mais, é muito anterior à regência e perspectivada num contexto que não incluía a previsão dos acontecimentos subsequentes à morte prematura de D. Duarte»

Cortesia da uc

Introdução
O ‘estado da questão’
«O “Livro da Virtuosa Benfeitoria”é uma obra fundamental no plano da cultura, da literatura e da língua portuguesas do século XV; não se trata, como é já sabido, de uma simples tradução do ‘De beneficiis’ de Lúcio Aneu Séneca, mas de um trabalho de vasta erudição, desenvolvido com base num amplo conhecimento (directo e/ou indirecto) dos textos bíblicos e de autores clássicos e medievais enquadrado por uma importante capacidade de reflexão autónoma. É também uma obra literária pela sua concepção e pela sua expressão formal, e distingue-se como um marco linguístico pela sua posição liminar numa fase crucial do enriquecimento vocabular da língua portuguesa. Produto de uma corte em que toda a vida social foi orientada por princípios morais, religiosos e disciplinares muito rígidos, o “Livro da virtuosa benfeitoria” pode ser definido no seu conteúdo de várias maneiras, conforme o que cada um vê nele de maior interesse.

NOTA: Houve quem defendesse que o Livro da virtuosa benfeitoria, por «força da coerência, deveria conter em potencial a política da regência» [de D. Pedro], o que não nos parece dever ser função da obra, que, além do mais, é muito anterior à regência e perspectivada num contexto que não incluía a previsão dos acontecimentos subsequentes à morte prematura de D. Duarte.

Digamos, com o Prof. Costa Pimpão, que ele é, em termos genéricos, «uma fundamentação filosófica do bem-fazer» e das condições do seu exercício, segundo a natureza, a razão e a autoridade, sem deixar de ser, nos seus objectivos, «um directório da consciência do príncipe de ‘bom talante’ e, como tal, destinado a orientá-lo na justiça da benfeitoria». Não obstante ter sido tardiamente conhecido na íntegra pelos estudiosos (já neste século), e através de edições extremamente deficientes, o “Livro da virtuosa benfeitoria” foi já analisado com bastante profundidade nos aspectos que determinam a sua inserção no contexto da cultura medieval portuguesa, nomeadamente os morais e políticos, que constituem o núcleo do seu ideário filosófico. Ainda, porém, se disse muito pouco dos seus aspectos linguísticos e quase nada dos literários, uns e outros credores de uma atenção mais aplicada.

Folha 5 do manuscrito de Viseu
jdact

O conhecimento de ter existido um “Livro da virtuosa benfeitoria” remonta à época da sua redacção. Um volume precisamente com esse título figuraa no registo dos livros que constituíam a biblioteca do rei D. Duarte, e este refere-se-lhe concretamente no capítulo XXVII do Leal conselheiro:
  • «E o iffante dom Pedro, meu sobre todos prezado e amado irmaão, de cujos feitos e vida muito som contente, compos o livro da virtuosa benfeituria e as oras da confissom»; e no capítulo XXVIII: «E daquesta virtude [liberaleza] no livro da virtuosa benfeitoria, que meu sobre todos prezado e amado irmaão o ifante dom Pedro compos, he bem e largamente trautado».
NOTA: o registo pode ver-se publicado no ‘Livro dos conselhos de el-rei D, Duarte’ (Livro da Cartuxa), ed. diplomática (transcrição de João Alves Dias), Lisboa, Estampa. A referência ao LVB vem na p. 207. Nessa edição dá-se o registo como datável de 1433 a 1438. O título que o encima parece, porém, sugerir a sua atribuição a uma data posterior ao falecimento de D. Duarte em 9 de Setembro de 1438: «Estes são os liuros que ‘tinha’ el rey dom Duarte». De qualquer modo, esse rol só documenta a existência de um exemplar do LVB nessa biblioteca e nada diz sobre a data em que ele lá teria dado entrada nem qual o seu autor.

Zurara não se lhe referiu expressamente, mas conhecia-o tão bem que até copiou dele largos trechos para a sua Crónica da tomada de Ceuta e, em menor escala, para as restantes. Refere-se-lhe também Rui de Pina no capítulo CXXV da Crónica de D. Afonso V, ao tratar das «feiçoões, costumes e virtudes do Yfante Dom Pedro». É uma passagem muito conhecida:
  • «elle tirou de latym em linguagem o Regimento de Pryncepes, que Frey Gil correado compos, e assy tirou o lyvro dos offycios de Tullio, e Vegecio de Re Militari, e compôs o livro que se diz da Virtuosa Bemfeytorya com huma confysam a qualquer cristão muy proveytosa».
Bastante mais tarde, chegou a vez de se lhe referirem os grandes bibliógrafos: primeiro, naturalmente, Barbosa Machado, em 1752, depois Inocêncio, em 1862. O abade de Sever só sabia o que tinha lido em Rui de Pina, única fonte que honestamente cita com exactidão: para ele, o “Livro da virtuosa benfeitoria” era apenas uma obra que se conservava em estado de manuscrito e de que não conhecia o paradeiro.

Folha 1 do manuscrito de Madrid
jdact

Inocêncio vai um pouco mais adiante: conhece um manuscrito existente na Academia Real das Ciências, em Lisboa, de que transcreve integralmente a dedicatória ao infante D. Duarte e o plano da obra, e alerta para a existência de outro manuscrito na Academia Real da História, de Madrid, este do século XV, e que, no seu entender, teria de entrar em linha de conta quando se editasse o texto.
Oliveira Martins, ao publicar “Os filhos de D. João I” em 1891, também sabe apenas o que leu em Inocêncio, o que, pelo menos, lhe permite fazer uma pálida ideia do conteúdo da obra.
Teófilo Braga, no primeiro volume, relativo à Idade Média, da “História da literatura portuguesa (Recapitulação”), publicado em 1909, refere-se a dois manuscritos inéditos do “Livro da virtuosa benfeitoria”, o da Academia das Ciências de Lisboa e o da Biblioteca Pública Municipal do Porto, transcrevendo algumas passagens de um deles (sem especificar qual), e define a obra, superficialmente, como «um tratado moral em forma de compilação» e «uma compilação dos sete tratados de Séneca».
O conhecimento integral do texto só viria a ser facultado aos estudiosos em 1910, quando José Pereira de Sampaio publicou no Porto uma edição baseada em dois manuscritos da Biblioteca Pública Municipal. Esta edição desencadeou uma sucessão de acurados estudos sobre o conteúdo, além de dar ocasião ao conhecimento público de um manuscrito quatrocentista conservado na Biblioteca Pública de Viseu. Desde que o Prof. Manuel Paulo Merêa, em 1919, publicou o seu trabalho, ainda hoje importante, sobre “As teorias políticas medievaes" no «Tratado da Virtuosa Bemfeitoria», a obra do infante D. Pedro foi objecto de numerosas investigações em que se procurou analisar o seu conteúdo e posicioná-la, sobretudo, na perspectiva do pensamento português da época. Contribuíram para isso, de variadas maneiras e com objectivos mais ou menos amplos, nomes que não podem ser esquecidos neste momento, como Joaquim de Carvalho, com elementos dispersos por algumas das suas importantíssimas obras; Alberto Martins de Carvalho, com o primeiro estudo global, datado de 1925 2; Diamantino Martins, com uma série de trabalhos que vão de 1938 a1965; Francisco Elias de Tejada Spínola, em 1943 e 1947, com novos estudos sobre as ideias políticas e filosóficas; Álvaro Júlio da Costa Pimpão, em 1947, com as primeiras observações de carácter literário». In Infante D. Pedro e Fr. João Verba, Livro da Vertuosa Benfeytoria, introdução de Adelino A. Calada, Universidade de Coimbra, 1994, ISBN 972-616-137-1.

Cortesia da U de Coimbra/JDACT

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O Infante D. Pedro das “Sete Partidas”. Parte 1. Vida e Obra: «Em Veneza, o maior centro económico do século XV, visitou os arsenais, informou-se sobre o comércio oriental, adquiriu o livro de Marco Pólo, com notícias da China e das suas riquezas, e provavelmente um mapa-mundi com o traçado das rotas comerciais com o Oriente»

Pranto pelo infante dom Pedro das sete partidas:

Nunca choraremos bastante nem com pranto
Assaz amargo e forte
Aquele que fundou glória e grandeza
E recebeu em paga insulto e morte.
Sophia de Mello Breyner Andresen, 1961.


Cortesia de historiaportugal 

Vida e Obra
«O infante D. Pedro é, para muitos historiadores, uma personalidade axial da história portuguesa. Personalidade axial mas mal tratada: caído em desgraça, a sua memória foi deliberadamente apagada ou distorcida. Não recebeu só «insulto e morte», recebeu também esquecimento. Só nos séculos XIX e XX a sua figura e actuação política foram reavaliadas e historicamente valorizadas, ainda que continue a ser, por vezes, “julgado à luz de sectarismos ineptos”, impossibilitadores de um julgamento justo.

O Infante, quarto filho do rei D. João I e da rainha D. Filipa de Lencastre, nasceu em Lisboa, a 9 de Dezembro de 1392. Da sua educação sabemos que foi muito dedicado ao estudo desde a infância e versado em ciências e letras. Participou nos preparativos para a conquista de Ceuta, tendo presidido ao levantamento das tropas na região de Lisboa e Sul do país, e comandou um dos corpos militares que conquistaram a referida cidade em 1415.
Nesta data foi nomeado Duque de Coimbra, tendo-lhe sido atribuídas terras e povoações na região do Baixo Mondego e a faixa litoral até Aveiro. Entre 1425 e 1428 viajou pela Europa, visitando os grandes centros políticos, económicos e culturais de então (Londres, Bruges, Veneza, Roma), a Alemanha, a Hungria e a Espanha.
Pessoa esclarecida e atenta às necessidades do país, aproveitou o contacto internacional para se actualizar, dinamizar as relações económicas com a Flandres, recolher informações e propor soluções inovadoras para os problemas nacionais. Neste sentido, escreveu ao irmão, o futuro rei D. Duarte, uma notável carta, a carta de Bruges (1526), em que sugere um conjunto de reformas para solucionar os problemas da sociedade portuguesa de então. Em Veneza, o maior centro económico do século XV, visitou os arsenais, informou-se sobre o comércio oriental, adquiriu o livro de Marco Pólo, com notícias da China e das suas riquezas, e provavelmente um mapa-mundi com o traçado das rotas comerciais com o Oriente. Destas suas viagens ficou-lhe o cognome de “Infante das Sete Partidas”.

Entre 1429 e 1439 fixou-se no seu ducado, dedicando-se ao desenvolvimento económico e social das terras e habitantes. Durante este período impulsionou a tradução para português de diversas obras de autores latinos, tendo ele próprio traduzido e adaptado algumas e finalizou, com a colaboração de Frei João Verba, a composição do livro “Da Virtuosa Benfeitoria”. Esta obra é uma importante por dois motivos:
Não se conhece ao certo nenhum retrato do Infante D. Pedro,
ainda que ele esteja representado nos Painéis de S. Vicente,
possivelmente na figura que se apresenta, do Painel dos Cavaleiros,
dada a congruência com a sua descrição física directa.
Cortesia de paineis 

  • O infante foi não só o primeiro autor de prosa doutrinal em língua portuguesa;
  • como também um dos criadores da própria língua, pela maneira como escreve e pelos vocábulos novos que utiliza, de origem latina e grega.
Por exemplo, é o primeiro autor a usar a palavra “poesia”, dando dela uma definição magistral, «poesia é mais sabor do que saber». Como homem de cultura há ainda a mencionar três outros aspectos:
  • o impulso que deu, quando Regente, à continuação das obras do Mosteiro da Batalha,
  • a chamada do primeiros humanistas italianos a Portugal, como Mateus Pisano, para servir de professor ao futuro rei,
  • o apoio à escultura e pintura, com destaque para os pintores Afonso Gonçalves e João Gonçalves (este último, autor das pinturas do claustro da abadia de Florença).
Em 1436, numa intervenção fortemente critica no Conselho Real, bem demonstrativa da sua lucidez e visão política, tentou contrariar a conquista de Tânger e a expansão em Marrocos, considerando-a como ruinosa para os recursos do país. Já antes, na Carta de Bruges, analisara a questão de Ceuta em termos de «muy bom sumidouro de gente da vossa terra e de armas e de dinheiro». Mais tarde, como Regente, não abandonará Ceuta; mas também não dará qualquer seguimento a conquistas em Marrocos.
Na sequência da morte prematura do rei D. Duarte (1438), e sendo menor o futuro rei Afonso V, a rainha D. Leonor assumiu as funções de regente do reino com o apoio da grande nobreza senhorial. Mas esta regência foi contestada particularmente pelos povos dos concelhos, com Lisboa e o Porto à frente do movimento. Gerou-se um clima de tensão política de que resultou o Infante D. Pedro ter sido aclamado Regente do reino nas cortes de Lisboa de 1439 com o apoio expresso dos concelhos e em detrimento dos interesses do partido da grande nobreza que apoiava a rainha viúva.
A regência de D. Pedro (1439-48) tem sido objecto de discussão e de interpretações contraditórias pelos historiadores: ora é vista, maioritariamente, como um período de centralização do poder real, ora, minoritariamente, como um período de afirmação senhorial.

Sem exageros extremados, deve considerar-se que D. Pedro esteve simplesmente entre dois tempos, o da nobreza tradicional e o da emergente burguesia urbana; que tinha consciência da precariedade da sua situação e que procurou manter o equilíbrio possível entre os interesses opostos dos diversos grupos sociais. Globalmente a sua regência pode ser caracterizada pelos seguintes aspectos:
  • Inicialmente, grande atenção à defesa militar do reino, para resistência a possível tentativa de invasão por parte de reino de Castela em apoio a D. Leonor. Defesa militar acompanhada de actuação diplomática no mesmo sentido;
  • Dotação do país com um ordenamento jurídico-administrativo coerente, o que foi concretizado com a finalização e publicação das Ordenações Afonsinas, em 1446, o primeiro código sistemático das leis nacionais;
  • Política de satisfação dos interesses/direitos das classes populares dos concelhos, garantindo a sua independência e liberdade frente à nobreza e abolindo ou limitando o direito de aposentadoria, contrabalançada com algumas concessões pontuais à grande nobreza senhorial para tentar neutralizar a sua oposição;
  • Reforma da Universidade, que dotou com receitas próprias, com o objectivo da formação apropriada do clero e da magistratura, os quadros dirigentes da vida pública do país; inclusivamente, criou em Coimbra uns Estudos Gerais, paralelos aos de Lisboa, projecto gorado após a sua morte;
  • Alteração da política expansionista, orientando-a deliberadamente para a descoberta da costa africana e sua exploração comercial e para a colonização das ilhas atlânticas, em detrimento das conquistas africanas.
Este novo rumo da expansão concretizou-se nomeadamente na exploração de cerca de 198 léguas da costa africana, desde o Rio do Ouro até à Guiné; na concessão ao Infante D. Henrique de direitos monopolistas sobre a navegação e comércio das terras africanas a sul do Cabo Bojador; no desenvolvimento das relações comerciais com a costa africana, fonte de mão-de-obra escrava e de ouro; na construção da feitoria de Arguim e no incentivo à participação de particulares nas actividades expansionistas.
O próprio D. Pedro participou directamente nas descobertas armando navios seus para o efeito e tomando a seu cargo a colonização da maior ilha dos Açores, a de São Miguel (4)». In José Ermitão Wikipédia.

Continua
Cortesia de Wikipedia/JDACT

Tesouros da Literatura e da História. Obras de Jerónimo Corte Real. Introdução: «Foi o fecundo autor de três longos poemas narrativos, dois de tema heróico, e o terceiro de tema dramático, além de composições de outro género insuficientemente conhecidas. Damião de Góis fez dele menção saliente»

Cortesia de bnp

Introdução
«Jerónimo Corte Real, tem sido histórica e tradicionalmente considerado entre os «épicos» portugueses de mais vulto, uma vasta gama de poetas, que a actualidade já não lê ou quase do todo esqueceu. Não lê, porque os tentos são de difícil acesso, e as antologias não lhas concedem lugar favorável, a despertar curiosidade ou moderado conhecimento. Estão relegados na prateleira baixa da história literária. E nesta posição muito secundária, nem tudo como obra de engenho, nem todos como cultores da arte poética, merecem o desagradado olvido, a penumbra densa que os envolve.
Jerónimo Corte Real foi o fecundo autor de três longos poemas narrativos, dois de tema heróico, e o terceiro de tema dramático, além de composições de outro género insuficientemente conhecidas. O poeta, ilustre figura das letras, descendia de uma nobre família com estreitas ligações a velhas estirpes da aristocracia peninsular e portuguesa, os Corte Reais, que em dias do rei, D. Manuel se haviam grandemente ilustrado. O cronista do rei Venturoso fez deles menção saliente.

Com efeito, no período áureo dos descobrimentos marítimos, os Corte Reais notabilizaram-se como audazes buscadores de novas terras. No princípio do verão de 1500, Gaspar Corte Real, filho de João Vaz Corte Real, «...homem aventureiro, esforçado, & desejoso de ganhar honrra…», partiu da Lisboa a descobrir «...perá banda do Norte». Nesta viagem achou uma terra muito fresca e de grandes arvoredos a que pôs nome de Terra Verde, costeando uma boa parte dela. Desejoso de obter melhor conhecimento daquelas partes que visitara, Gaspar Corte Real fez-se de novo ao mar, mas a fortuna não o acompanhou. A falta de qualquer nova do navegador, «tardança e má suspeita da sua viagem», levaram seu irmão Miguel Corte Real, porteiro-mor de el-rei, a empreender uma expedição de busca, partindo de Lisboa a 10 de Maio de 1502, em duas naus. Também este lastimosamente se perdeu.

Cortesia de bnp

O infortúnio dos seus dois devotados servidores foi muito sentido pelo rei, D. Manuel,, mandando à sua custa procurá-los, mas nunca se alcançou qualquer notícia. Suspeitou-se que teriam desaparecido naquela Terra Verde, à qual então se pôs o nome de Terra dos Corte Reais.
Ouçamos agora, expressamente o cronista manuelino:
  • «Tinham estes dous irmãos Gaspar, & Miguel corte Real, outro irmão mais velho qlles, a que chamauão Vasqueanes corte Real, q era veador da casa delRei, do seu conselho, capitam, & gouernador das ilhas de sam George, & terçeira, & alcaide mor da çidade de Tauilla, muito bom caualleiro, bom Christão, home de singular exemplo de vida, & de muitas esmollas publicas, & secretas, cujo filho herdeiro he Emanuel corte Real, também do conselho delRei, & capitã das mesmas ilhas q aho presente viue. Este Vasqueanes corte Real, nã se podedo persuadir q seus irmãos erã mortos, nesta anno de M.D.III, determinou de co nãos à sua própria custa hos ir buscar, mas tendo elRei por excusada sua ida, lho não quis consentir, nem se proçedeo mais neste negocio, por se ter por desnecessária toda há despesa que se nisso mais fezesse».
Apartemos deste excerto de Damião de Góis, os nomes de Vasqueanes Corte Real e de seu filho, Manuel Corte Real, porque o primeiro foi avô, e o segundo foi pai de Jerónimo Corte Real, o poeta. Vasqueanes Corte Real, primogénito do navegador João Vaz Corte Real, sucedeu a seu pai nas capitanias de Angra e da ilha de S. Jorge em 1497, direito que lhe foi confirmado em 1522. Naquele ano de 1497 «...já aparece como Vedor da Fazenda Real» afirma Ernesto doo Canto na importante monografia sobre os Corte Reais, contudo sem expressa anotação documental.


Cortesia de bnp

Que o era de facto no ano seguinte, atesta-o Damião de Góis, relevando o nome de Vasqueanes Corte Real como veador da casa de el-rei entre os principais acompanhantes do rei D. Manuel e da rainha D. Isabel, quando a 29 de Março de 1948 os soberanos portugueses saíram de Lisboa para serem jurados herdeiros dos reinos de Castela e do Leão.
No seu vasto trabalho genealógico, deixou dito Ernesto do Canto, que Vasqueanes Corte Real, «...prestou relevantes serviços em tempo do Conde de Tarouca, Prior do Crato, derribando e captivando em 1495, Ali Barrxno, chefe Mouro». A fonte aduzida pelo erudito investigador açoriano é a Crónica de D. Manuel, Parte I, cap. 12. Que Vasqueanes tenha andado nas «partes dalém» combatendo os mouros não põe forçosa dúvida, porque em seu tempo era essa a condição geral dos cavaleiros fidalgos. Porém, lido e relido aquele capítulo 12 do omponente monumento historiográfico do cronista manuelino, sempre bem informadoi dos sucessos de África, não se nos depara aí o nome de Vasqueanes Corta Real, derribando e cativando o alcaide de Xexuão, Barraxe, «… grão senhor entre hos rnouros» quando estes em 1495 vieram correr ao campo de Arzila. O alcaide Barraxe, Alí ibne Ráxede, levou uma vida inteira de impetuoso combatente contra os portugueses, e um vez foi derribado e cativado «… com cinquo grandes feridas …», mas isto aconteceu em Outubro de 1487, e quem no-lo refere é Rui de Pina. Barraxe viera correr a cidade de Tânger, de queânger, de que era capitão e governador João de Meneses, anos depois, concretamente em 1499, elevado a Conde de Tarouca, mas o cronista não assinala quem pôs a lança ferindo o alcaide mouro (VII)». In Tesouros da Literatura e da História, Obras de Jerónimo Corte Real, introdução de Lopes de Almeida, Lello & Irmão Editores, Porto, 1979.

Cortesia de Lello e Irmão/JDACT

domingo, 25 de dezembro de 2011

Poesia. Fernanda de Castro: «Ai, vou fechar na gaveta a lembrança dolorosa dos teus laços de cetim, dos teus ramos de violeta, do leque de seda rosa com varetas de marfim»

In Memoriam
MLAC, JLT e ATJ

Cortesia de poesiaenlavida

Esta Dor que me Faz Bem
As coisas falam comigo
uma linguagem secreta
que é minha, de mais ninguém.
Quem sente este cheiro antigo,
o cheiro da mala preta,
que era tua, minha mãe?

Este cheiro de além-vida
e de indizível tristeza,
do tempo morto, esquecido...
Tão desbotada e puída
aquela fita escocesa
que enfeitava o teu vestido.

Fala comigo e conversa,
na linguagem que eu entendo,
a tua velha gaveta,
a vida nela dispersa
chega à cama onde me estendo
num perfume de violeta.

Vejo as tuas jóias falsas
que usavas todos os dias,
do princípio ao fim do ano,
e ainda oiço as tuas valsas,
minha mãe, e as melodias
que cantavas ao piano.

Vejo brancos, decotados,
os teus sapatos de baile,
um broche em forma de lira,
saia aos folhos engomados
e sobre o vestido um xaile,
um xaile de Caxemira.

Quantas voltas deu na vida
este álbum de retratos,
de veludo cor de tília?
Gente outrora conhecida,
quem lhe deu tantos maus tratos?
Serão todos da família?

Ai, vou fechar na gaveta
a lembrança dolorosa
dos teus laços de cetim,
dos teus ramos de violeta,
do leque de seda rosa
com varetas de marfim.

As coisas falam comigo
numa linguagem secreta,
que é minha, de mais ninguém.
Quero esquecer, não consigo.
Vou guardar na mala preta
esta dor que me faz bem.
Fernanda de Castro, in «E Eu, Saudosa, Saudosa»


Distância
Não vás para tão longe!
Vem sentar-te
Aqui na chaise-longue, ao pé de mim...
Tenho o desejo doido de contar-te
Estas saudades que não tinham fim.

Não vás para tão longe;
Quero ver
Se ainda sabes olhar-me como d'antes,
E se nas tuas mãos acariciantes,
Inda existe o perfume de que eu gosto.

Não vás para tão longe!
Tenho medo
Do silêncio pesado d'esta sala...
Como soluça o vento no arvoredo!
E a tua voz, amor, como se cala!

Não vás para tão longe!
Antigamente,
Era sempre demais o curto espaço
Que havia entre nós dois...
Agora, um embaraço,
Hesitas e depois,
Com um gesto de tédio e de cansaço,
Achas inconveniente
O meu abraço.

Não vás para tão longe!
Fica. Inda é tão cedo!
O vento continua a fustigar
Os ramos sofredores do arvoredo,
E eu ponho-me a pensar
E tenho medo!

Não vás para tão longe!
Na sombra impenetrada,
Como se agita e se debate o vento!...
Paira nas velhas ruínas do convento

Que além se avista,
A alma melancólica d'um monge
Que a vida arremessou àquela crista...

Céu apagado, negro, pessimista,
E tu sempre mais longe!...
Fernanda de Castro, in «Antemanhã»


Meditação
Às vezes, quando a noite vem caindo,
Tranquilamente, sossegadamente,
Encosto-me à janela e vou seguindo
A curva melancólica do Poente.

Não quero a luz acesa. Na penumbra,
Pensa-se mais e pensa-se melhor.
A luz magoa os olhos e deslumbra,
E eu quero ver em mim, ó meu amor!

Para fazer exame de consciência
Quero silêncio, paz, recolhimento
Pois só assim, durante a tua ausência,
Consigo libertar o pensamento.

Procuro então aniquilar em mim,
A nefasta influência que domina
Os meus nervos cansados; mas por fim,
Reconheço que amar-te é minha sina.

Longe de ti atrevo-me a pensar
Nesse estranho rigor que me acorrenta:
E tenho a sensação do alto mar,
Numa noite selvagem de tormenta.

Tens no olhar magias de profeta
Que sabe ler no céu, no mar, nas brasas...
Adivinhas... Serei a borboleta
Que vendo a luz deixa queimar as asas.

No entanto — vê lá tu!— Eu não lamento
Esta vontade que se impõe à minha...
Nem me revolto... cedo ao encantamento...
— Escrava que não soube ser Rainha!
Fernanda de Castro, in «Antemanhã»

Cortesia de africaempoesia

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O Pensamento e as Interpretações. Agostinho da Silva. «Do êxtase, porém, não alimentamos grandes desejos; o amor que nele descobrimos não pertence à categoria do amor que mais nos interessa, o que eleva o amado acima de si próprio, o que se esforça por esculpir uma alma com entusiasmo e paciência»

In Memoriam
MLAC, JLT e ATJ

Cortesia d engfconsultoria

O Povo Culto
«Os povos serão cultos na medida em que entre eles crescer o número dos que se negam a aceitar qualquer benefício dos que podem; dos que se mantêm sempre vigilantes em defesa dos oprimidos não porque tenham este ou aquele credo político, mas por isso mesmo, porque são oprimidos e neles se quebram as leis da Humanidade e da razão; dos que se levantam, sinceros e corajosos, ante as ordens injustas, não também porque saem de um dos campos em luta, mas por serem injustas; dos que acima de tudo defendem o direito de pensar e de ser digno».

Tolerância às Opiniões
«Para que os homens possam sentir-se felizes com a minha companhia, é necessário antes de tudo que eu tenha a grande força de ver como prováveis as opiniões a que aderiram, desde que as não venham contradizer os factos que posso observar; não devo supor-me infalível; não devo considerar-me a inteligência superior e única entre o bando de pobres seres incapazes de pensar; cumpre-me abafar todo o ímpeto que possa haver dentro de mim para lhes restringir o direito de pensarem e de exprimirem, como souberem e quiserem, os resultados a que puderam chegar; de outro modo, nada mais faria de que contribuir para matar o universo: porque ele só vive da vida que lhe insufla o pensamento poderoso e livre».

Realização e Êxtase
«Conviria distinguir bem um do outro o caminho para o êxtase e o próprio êxtase; o primeiro ainda pode ter algum interesse por todas as lutas interiores, por todas as incertezas, por todo o esforço de pensar amplamente a que em geral dá origem; no entanto já nele mesmo poderíamos ver, além de uma preocupação egoísta, uma alternativa de esperança e desespero, um gosto da revelação e dos auxílios sobrenaturais que não poderão talvez classificar-se como superiores.
Do êxtase, porém, não alimentamos grandes desejos; o amor que nele descobrimos não pertence à categoria do amor que mais nos interessa, o que eleva o amado acima de si próprio, o que se esforça por esculpir uma alma com entusiasmo e paciência; é um amor a que se chega como recompensa de tarefa cumprida; não marca as delícias do caminho difícil, apaga-as da memória; faz desaparecer do peito do homem o seu único motivo de alegria, a sua única fonte de verdadeira glória.
Viver interessa mais que ter vivido; e a vida só é vida real quando sentimos fora de nós alguma coisa de diferente; se a diferença se tornar oposição, se o que era caminho diverso se transformar em muro de rocha, então no duelo que se trava, no instável equilíbrio que a cada momento se pode romper e precipitar-nos das alturas, nesta batalha em que não há um minuto de rancor pelo adversário, encontraremos a grande e forte vida; ora o êxtase consiste realmente no apagar das distinções, na identificação perfeita de dois termos».

Agostinho da Silva, in «Diário de Alcestes».

Cortesia de psicoliberdade

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Poesia. Fernando Pessoa. José Régio. Francisco Bugalho: «O que choro é diferente. Entra mais na alma da alma. Mas como, no céu sem gente, a nuvem flutua calma»

In Memoriam
MLAC, JLT e ATJ

Cortesia de youimages

Vaga, no Azul Amplo Solta
Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.

O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma.

E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.

Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.

Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.
Fernando Pessoa, in «Cancioneiro»


Ícaro
A minha Dor, vesti-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.

Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multidões desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia...

Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor...
E eu levantei a face, a tremer todo:

Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.
José Régio, in «Poemas de Deus e do Diabo»


Dor
Passa-se um dia e outro dia
À espera que passe a Dor,
E a Dor não passa, e porfia,
Porque trás dia, outro dia
Que traz Dor inda maior;

Porque embora a Dor aflita
Calasse há muito seus ais,
Ainda, fundo, palpita
Uma outra Dor que não grita:
A Dor do que não dói mais.
Francisco Bugalho, in «Dispersos e Inéditos»

Cortesia de joelderv


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O Pensamento e as Interpretações. Matias Aires. Friedrich Nietzsche. Fernando Pessoa: «Que as coisas mais momentosas se concretizem, que um dia os homens venham todos a ser felizes, que se encontre uma solução para os males da sociedade, mesmo na sua concepção, enfurece-me. E, contudo, não sou mau nem cruel; sou louco, e isso duma forma difícil de conceber»

In Memoriam
MLAC, JLT e ATJ

Cortesia de dark

O Que Esconde o Admirável 
«São raras as acções, que sejam ilustres por si mesmas; dificilmente haverá algumas, que não deixem conhecer que vêm do homem. As mais das cousas admiram-se, porque se não conhecem; e juntamente porque nelas há um rico véu, que as cobre: vemos um exterior brilhante, que muitas vezes serve de esconder um abismo horrendo; a mesma luz arma-se de raios, para que não possa examinar-se de onde lhe vêm os resplandores; a formusura em tudo nos atrai; a nossa admiração não pode passar além; donde a encontra, aí fica suspensa, e cega.  
Isto sucede nas acções dos homens; as mais sublimes, parece que nos cegam, e suspendem; e talvez seriam detestáveis, se lhes não ignorássemos as causas. Tudo o que tem ar de grande prende a nossa imaginação de sorte, que não fica livre para discorrer na cousa, senão no estado de grandeza em que a vê, e não para indagar de onde veio, nem como veio» Matias Aires, in «Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna». 


Dar Estilo ao Seu Carácter  
«Dar estilo» ao seu carácter... é uma arte deveras considerável que raramente se encontra! Para a exercer é necessário que o nosso olhar possa abranger tudo o que há de forças e de fraquezas na nossa natureza, e que as adaptemos em seguida a um plano concebido com gosto, até que cada uma apareça na sua razão e na sua beleza e que as próprias fraquezas seduzam os olhos. Aqui ter-se-á acrescentado uma grande massa de segunda natureza, nos pontos onde se terá tirado um pedaço da primeira, à custa, nos dois casos, de um paciente exercício e de um trabalho de todos os dias. Neste lugar disfarçou-se uma fealdade que se não podia fazer desaparecer, noutro ela foi transmudada, fez-se dela uma beleza sublime. Grande número de elementos, que se recusavam a tomar forma, foram reservados para ser utilizados nos efeitos de perspectiva: darão os longes, o apelo do infinito. Foi a unidade, a pressão de um mesmo gosto que dominou e afeiçoou no grande e no pequeno: a que ponto, vemo-lo por fim, uma vez terminada a obra; que esse gosto seja bom ou mau, importa menos do que se pensa, basta que tenha havido um. 
Serão as naturezas fortes e dominadoras que apreciarão as alegrias mais subtis nesta opressão, nesta escravatura, nesta perfeição ditadas pela lei pessoal; o aspecto de qualquer natureza estilizada, de qualquer natureza, enfim, vencida e submetida, alivia a paixão da sua forte vontade; se têm de construir palácios, se têm de plantar jardins repugna-lhes também deixar a natureza livre. Pelo contrário, os carácteres fracos, aqueles que não se dominam, odeiam a servidão do estilo: sentem que se tornariam inevitavelmente vulgares se esta amarga opressão lhes fosse imposta: não saberiam servir sem se tornar escravos, por isso detestam fazê-lo. Semelhantes espíritos - e podem ser de primeira ordem - empenham-se sempre em se dar a si próprios e em dar ao seu meio o ritmo de naturezas livras - selvagens, arbitrárias, fantasistas, desordenadas e surpreendentes - ou em interpretar-se como tais: e fazem bem, porque é só assim que se satisfazem! Uma única coisa é, com efeito, necessária: que o homem chegue a estar contente consigo, qualquer que seja a arte ou a ficção de que se serve para esse fim: é somente então que ganha uma fisionomia suportável! Os que estão descontentes consigo próprios estão sempre prontos a vingar-se: como nós que seremos as suas vítimas, quanto mais não seja tendo de suportar sempre o seu desagradável espectáculo. Porque o espectáculo da fealdade torna as pessoas más e sombrias». Friedrich Nietzsche, in «A Gaia Ciência».

Cortesia de obuscar

O Meu Carácter 
«Cumpre-me agora dizer que espécie de homem sou. Não importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito. É acerca do meu carácter que se impõe dizer algo. Toda a constituição do meu espírito é de hesitação e dúvida. Para mim, nada é nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim próprio. Tudo para mim é incoerência e mutação. Tudo é mistério, e tudo é prenhe de significado. Todas as coisas são «desconhecidas», símbolos do Desconhecido. O resultado é horror, mistério, um medo por de mais inteligente. Pelas minhas tendências naturais, pelas circunstâncias que rodearam o alvor da minha vida, pela influência dos estudos feitos sob o seu impulso (estas mesmas tendências) - por tudo isto o meu carácter é do género interior, autocêntrico, mudo, não auto-suficiente mas perdido em si próprio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, física e mentalmente, para actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decisão nascida do autodomínio, jamais traí externamente uma vontade consciente. Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinárias, inexpulsáveis associações de ideias cujo termo era o infinito.  
Não posso evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for; uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil interassociações, e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância mas a eles associados. Perpassam dentro de mim; não são pensamentos meus, mas sim pensamentos que passam através de mim. Não pondero, sonho; não estou inspirado, deliro. Sei pintar mas nunca pintei, sei compor música, mas nunca compus. Estranhas concepções em três artes, belos voos de imaginação acariciam-me o cérebro; mas deixo-os ali dormitar até que morrem, pois falta-me poder para lhes dar corpo, para os converter em coisas do mundo externo.  
O meu carácter é tal que detesto o começo e o fim das coisas, pois são pontos definidos. Aflige-me a ideia de se encontrar uma solução para os mais altos, mais nobres, problemas da ciência, da filosofia; a ideia que algo possa ser determinado por Deus ou pelo mundo enche-me de horror. Que as coisas mais momentosas se concretizem, que um dia os homens venham todos a ser felizes, que se encontre uma solução para os males da sociedade, mesmo na sua concepção, enfurece-me. E, contudo, não sou mau nem cruel; sou louco, e isso duma forma difícil de conceber. Embora tenha sido leitor voraz e ardente, não me lembro de qualquer livro que haja lido, em tal grau eram as minhas leituras estados do meu próprio espírito, sonhos meus - mais, provocações de sonhos. A minha própria recordação de acontecimentos, de coisas externas, é vaga, mais do que incoerente. Estremeço ao pensar quão pouco resta no meu espírito do que foi a minha vida passada. Eu, um homem convicto de que hoje é um sonho, sou menos do que uma coisa de hoje». Fernando Pessoa, in «Notas Autobiográficas e de Autognose».

Cortesia de O Citador/JDACT

A Bela Poesia. Luís de Camões. Sonetos: «O duro desfavor, que me condena, quando pela memória se reparte, endurece os sentidos de tal arte, que a dor da ausência fica mais pequena»

In Memoriam
MLAC, JLT e ATJ

Cortesia de mundopessoa

A Dor da Ausência Fica Mais Pequena
Quando vejo que meu destino ordena
Que, por me experimentar, de vós me aparte,
Deixando de meu bem tão grande parte,
Que a mesma culpa fica grave pena,

O duro desfavor, que me condena,
Quando pela memória se reparte,
Endurece os sentidos de tal arte
Que a dor da ausência fica mais pequena.

Mas como pode ser que na mudança
Daquilo que mais quero, este tão fora
De me não apartar também da vida?

Eu refrearei tão áspera esquivança,
Porque mais sentirei partir, Senhora,
Sem sentir muito a pena da partida.


Doces Despojos de meu Bem Passado
Amor, co'a esperança já perdida
Teu soberano templo visitei;
Por sinal do naufrágio que passei,
Em lugar dos vestidos, pus a vida.

Que mais queres de mim, pois destruída
Me tens a glória toda que alcancei?
Não cuides de render-me, que não sei
Tornar a entrar onde não há saída.

Vês aqui vida, alma e esperança,
Doces despojos de meu bem passado,
Enquanto o quis aquela que eu adoro.

Nelas podes tomar de mim vingança;
E se te queres ainda mais vingado,
Contenta-te co'as lágrimas que choro.

Luís Vaz de Camões, in «Sonetos»

Cortesia de revistacontemporartes

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sábado, 24 de dezembro de 2011

Cantares. Natal. As Vozes, parte 4: «Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir - é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida… O verdadeiro sábio é aquele que assim se dispõe que os acontecimentos exteriores o alterem minimamente»

Cortesia de denataljamoseh

Quando é que visitas alguém? Quem é que visitas?
Aquelas pessoas por quem te interessas, que aprecias.
Aquelas pessoas cujo bem-estar não te é indiferente.
FELIZ NATAL, para todos.









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Afonso VI. Um Monarca Infeliz. Espoliado da mulher, do trono e da liberdade. «Em 23 de Novembro de 1667, Afonso VI assinava, ou alguém o fazia abusivamente por si (note-se que nunca foi verificada a autenticidade da assinatura real) a proclamação em que declarava a desistência do trono em favor do irmão»

Cortesia de historiadeportugal 

«A essa data, já o pobre rei não podia sair do palácio, que se encontrava cercado por guardas da confiança do príncipe Pedro. Este dominava inteiramente a situação e era informado de tudo o que se passava no paço, incluindo as ordens dadas pelo monarca, mas não cumpridas. Os que, de algum modo tomavam o partido do rei legítimo ou o manifestavam abertamente, apiedados pela sua deplorável posição, sofriam vexames, perseguições e opressões, não raras vezes. Estes eram, porém, um número escasso.
Um dia, o desgraçado soberano, com um raio de consciência das circunstâncias em que se encontrava, concebeu o projecto de fugir para o Alentejo e dali, com topas que se lhe conservavam fiéis, vir depois a Lisboa pôr as coisas nos devidos lugares. Um fidalgo, em quem ele confiava e a quem entregara para o efeito avultada soma, traindo-o miseravelmente, apressou-se a dar conta da trama a D. Pedro.
Agarrando a oportunidade única pelos cabelos, o príncipe deve ter esfregado as mãos de satisfação pelo magnífico ensejo que se lhe proporcionava de levar a termo o seu bem maduro plano de um golpe de Estado. Aquilo era o pretexto para a sua activa actuação e subsequente aniquilamento do irmão e rei. Já antes ele tinha simulado que o Castelo Melhor quisera atentar contra a sua vida, para o aniquilar.
Agora convocou imediatamente o conselho do Estado, constituído por partidários seus, e, com maquiavélico espírito, fez-lhes a sensacional revelação de que o rei Afonso «se preparava passar a Espanha com as suas tropas e oferecer o reino aos castelhanos». É de supor que os do conselho, embora não acreditassem na fantasiosa versão e compreendessem o príncipe no seu ardiloso plano lhe tivessem dado carta branca para agir.

Cortesia de historiadeportugal

D. Pedro, mal a reunião terminara, não perdeu tempo: assaltou o palácio real, à frente dos seus homens, e mandou que o Marquês de Cascais o fosse acordar da sesta. Este palaciano tê-lo-ia censurado por estar sempre a dormir e aconselhou-o a abdicar em seu irmão, o príncipe D. Pedro:
  • « -Senhor, a linguagem do Marquês de Cascais era desprovida de grandeza e de respeito, muito rude o que comprovava ter ali acabado o reinado de D. Afonso VI, vós nascestes tolo e o achaque que depois tivestes vos fez mais incapaz; sois doente e cheio de enfermidades...».
O monarca, abandonado por todos, ao reconhecer a traição pegou num bacamarte que sempre conservava junto de si, com o qual bateu violentamente no chão, fazendo ao mesmo tempo grande alarido para que lhe acudissem, clamando em trovões de cólera. A nova correu, célere. De tal maneira que o povinho, alvoroçado, juntando-se em frente do palácio, reclamava em altos gritos que libertassem o seu rei. Valeu, em tal conjuntura, o Juiz do povo, homem da confiança do príncipe, que de uma janela falou aos amotinados, garantindo-lhes, aleivosamente, que não havia desacato na pessoa do soberano e que fora este quem chamara D. Pedro ao paço, a fim de se reconciliarem. Acrescentou que, nessa amigável entrevista, o rei resolvera entregar o governo do reino ao príncipe.
O orador retirou-se da janela onde voltou pouco depois, após um curto conciliábulo com o príncipe, para acrescentar novas mentiras:
  • « - Que Sua Majestade, por imposição de consciência, lhe ,pedira que, em seu nome, declarasse ao povo que, de facto, não tinha chegado a consumar o matrimónio com a rainha... e que ela, para que o reino não ficasse sem sucessão, devia tratar de casar-se de novo... ‘estando indicado que o fizesse com o príncipe Pedro, dado o defeito dele, rei...».
Tão categóricas afirmações em nome do monarca fizeram aquietar o povo, que debandou apiedado mas satisfeito por saber da paz entre os dois irmãos, com o que o reino viria a lucrar. Aos seus ouvidos não chegava a gritaria feita pelo infeliz soberano nos inúteis protestos contra a violência de que era vítima.
Nesse mesmo dia, 23 de Novembro de 1667, Afonso VI assinava, ou alguém o fazia abusivamente por si (note-se que nunca foi verificada a autenticidade da assinatura real) a proclamação em que declarava a desistência do trono em favor do irmão». In Américo Faria, Dez Monarcas Infelizes, Livraria Clássica Editora, colecção 10, Lisboa, s/d.

Cortesia de Livraria Clássica Editora/JDACT

Cantares. Natal. As Vozes, parte 3: «É bom que esteja em permanente vigilância sobre os seus defeitos e quase nunca preocupado em vigiar os defeitos alheios. A maioria pensa com a sensibilidade, eu sinto com o pensamento. Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar»

Cortesia de mensagensromantica












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O Humanismo de António Ferreira. T. F. Earle. Século XVI: «Nos dois livros de cartas Ferreira voltou ao exemplo de Horácio, e no pequeno grupo dos epitáfios ao de Ausónio, poeta romano da época tardia. A fonte principal de Castro são as tragédias de Séneca»

Cortesia de cokalipedia

«É impossível pensar na obra de António Ferreira sem tomar o humanismo em consideração. Graças, provavelmente, à protecção da família poderosa dos Lencastre, o poeta, que nasceu em Lisboa em 1528, teve a sorte de fazer os seus estudos em Coimbra durante o período de maior esplendor da universidade portuguesa renascentista. Muito mais que qualquer outro poeta importante da época, Ferreira foi o produto do novo programa de estudos humanísticos decretado por D. João III, com ênfase na aquisição de um bom conhecimento da literatura greco-romana e dos valores estéticos e espirituais associados à civilização clássica. [...]
Ferreira entrou na Universidade talvez em 1543, com a idade de 15 anos apenas, e saiu depois de se ter doutorado em 14 de Julho de 1555. Foi o período mais feliz da sua vida, a que nos anos a seguir se referia sempre com saudade. Numa carta de 1557 ou 1558, escrita de Lisboa ao amigo universitário Manuel de Sampaio, que tinha em Coimbra, revela esse sentimento desde o início:

Das brandas Musas dessa doce terra
pera sempre apartado, choro, e gemo,
em vãos cuidados posto, em dura guerra.
[...]

O renascimento da literatura clássica
[...]. Na Universidade Ferreira aprendeu o latim e nessa língua leu a literatura romana e também a grega, que em meados do século XVI tinha sido em grande parte traduzida para latim. Ferreira tinha uma admiração sem limites pelos grandes mestres da literatura clássica, de forma que, para ele, Horácio, Virgílio, Séneca e poucos mais constituíam a totalidade da poesia lírica e dramática. [...] Ferreira também aceitou como clássicos vários escritores italianos, principalmente Petrarca, e alguns outros que viveram depois dele e que se exprimiam em latim, como Iacopo Sannazaro e Girolamo Angeriano. Fora deste âmbito greco-romano e italiano não havia literatura, porque Ferreira a concebia exclusivamente em termos livrescos. É notório, por exemplo, o seu desprezo pela literatura popular, que condena na carta a D. Simão da Silveira. Na sua opinião a literatura moderna, portuguesa, não podia ser mais que uma recriação da literatura antiga porque, na sua concepção altamente humanística, a Beleza era una e derivava de uma única fonte greco-romana. A tarefa que ele assumiu, com toda a solenidade, era a de recriar essa beleza para o Portugal de quinhentos.

Cortesia de eltripodedehelena

A esta recriação, comum a muitos autores humanísticos, dá-se normalmente o nome de imitação. Ferreira era, sem dúvida nenhuma, um poeta imitativo: todos os géneros literários que tentou existiam já, ou na época greco-romana ou na Itália de Petrarca, e quase não há poesia nos Poemas Lusitanos que não se reporte, por minimamente que seja, a uma fonte clássica. Assim, os sonetos de Ferreira derivam dos de Petrarca, e os epigramas das supostas odes do poeta grego Anacreonte ou do poeta novilatino Angeriano. As odes são todas horacianas, com a excepção de uma, inspirada num poema de Catulo. Não se associava a elegia, género mais fluído, com um único escritor clássico, mas algumas das de Ferreira baseiam-se nos ‘Anacreóntica’. Virgílio, inevitavelmente, é a divindade titular das éclogas, enquanto as duas longas poesias que as seguem nos ‘Poemas Lusitanos’, dedicados a Santa Comba dos Vales e ao casamento da Princesa D. Maria de Bragança com Alessandro Farnese, são, respectivamente, um ‘epyllion’ e um epitalâmio, ambos eles géneros muito bem conhecidos dos antigos.
Nos dois livros de cartas Ferreira voltou ao exemplo de Horácio, e no pequeno grupo dos epitáfios ao de Ausónio, poeta romano da época tardia. A fonte principal de Castro são as tragédias de Séneca.
[...]
Cortesia de historiadaarte

Contudo, o classicismo de Ferreira tinha limites bem marcados. Era humanista, mas um humanista cristão que nunca teria permitido que a filosofia pagã maculasse a sua pureza doutrinal. Ao contrário de Camões, e até do Sá de Miranda das éclogas ‘Fábula do Mondego e Encantamento’, não narra histórias derivadas da mitologia greco-romana, que muitas vezes rejeita como «fábulas vãs». Nas cartas ao irmão, Gracia Fróis Ferreira, e ao amigo universitário Diogo de Betancor falava até com um certo desprezo dos «escuros meios» com que os filósofos antigos tentavam penetrar a verdade religiosa sem terem a ajuda necessária da revelação cristã. E é sobretudo hostil à concepção clássica da fortuna que, segundo ele, os romanos consideravam erroneamente uma deusa poderosa.
Ferreira, como muitos outros da sua geração, estava fascinado pela astrologia e acreditava no poder das estrelas para influenciar os acontecimentos terrestres. Mas, como bom católico, sabia que a consciência humana é livre para escolher entre o bem e o mal. Esta ê a temática da ode a D. João de Lencastre, filho ilegítimo do Duque de Aveiro, a quem afirma que a «consciência pura» nada podia temer da fortuna, «falsa deosa..., falso poder, e falsa divindade». Idêntica mensagem é a da tragédia ‘Castro’, escrita, como a ode, enquanto estudava em Coimbra. Apesar de o Infante D. Pedro, por exemplo, falar muito no efeito determinante da fortuna, ele podia ter controlado os seus impulsos, como lhe disse repetidas vezes o seu Secretário. Mas, em vez disso, o Infante prefere deixar-se dominar pelos próprios desejos, como o pai D. Afonso IV e outros membros da família real, assim criando uma situação de conflito que nem a morte de Inês resolve, já que a ela se segue uma guerra civil. [...]». In T. F. Earle, O Humanismo de António Ferreira, História e Antologia da Literatura Portuguesa, Século XVI, Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.

Cortesia da FCG/JDACT