domingo, 26 de fevereiro de 2012

Daqui Nasceu Portugal. Alberto Feio. Braga. «No primeiro decénio do V século, Suevos, Alanos e Vândalos talharam a península, apropriando-se da terra alheia. Em 411 partilharam entre si as províncias, cabendo a Galécia aos Suevos, que fizeram sua capital na nobre “Bracara Augusta”»

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«Neste agrupamento de certa autonomia, vinculando o solo aos homens de tradição comum, não estará a gerar-se o elemento sentimental da independência?
Quando o paganismo luso-romano dominava ainda plenamente, uma nova doutrina, cheia de luz e de esperança, avassalava o mundo latino: - o cristianismo.
Envolta em densas sombras está a origem da propagação da nova crença na Hispânia. No III século, porém, a igreja católica está organizada e no primeiro concílio de Toledo já figura Paterno, como bispo de “Bracara”.
O ideal evangélico, embora perturbado pelo apego a velhas fórmulas, geradoras de heresias como a de Prisciliano, acabou por vencer o paganismo e com a paz constantiniana fundas raízes criou no noroeste peninsular. O desfazer progressivo do Império do Ocidente, as invasões e fixação dos bárbaros do Norte fizeram declinar rapidamente e quase aniquilar a adquirida civilização.

No primeiro decénio do V século, Suevos, Alanos e Vândalos talharam a península, apropriando-se da terra alheia. Em 411 partilharam entre si as províncias, cabendo a Galécia aos Suevos, que fizeram sua capital na nobre “Bracara Augusta”.
Na submissão ao vencedor, os povos interamnenses perderam uma parte grande de seus bens, no território germanizado e tornado bárbaro.

Cortesia de wikipedia

No meio do barbarismo, uma força, todavia, mantinha as ideias e as tradições. Era a força que governava as almas. A igreja conservava suas dioceses nas antigas províncias e os bispos, detentores da inteligência e do saber, dirigiam aqui, como no velho mundo romano, os sentimentos dos homens. Nesse período, a região mantém o seu cristianismo com os Bispos de Braga, ‘Balcónio’, seu primeiro metropolita, ‘Profuturo’, ‘Lucrécio’ e sobretudo com o grande “S. Martinho de Dume”.
Entrados pagãos, os Suevos converteram-se ao cristianismo, que era a religião dos que estavam. Mas o seu catolicismo dura pouco. Remismundo, rei dos Suevos, aceita e propaga o arianismo. Acompanhá-lo-ia a população?
A sueva certamente, a outra, principalmente a que vivia perto dos seus Bispos, quase se pode afirmar que não. Mas um dia, por volta do ano 550, chegou S. Martinho. Por suas luzes e virtudes, de Bispo de Dume é promovido à dignidade metropolita de Braga. Por sua pregação e apostolado, converte à fé católica o rei Chararico e sua gente. Por sua firmeza no combate ao arianismo, a fé católica mais se radica e desenvolve, a ponto de se celebrarem em Braga dois concílios, um em 561, outro em 572.

Cortesia de wikipedia

Neste segundo concílio, a província eclesiástica da “Gallaecia” divide-se em duas:
  • a de Braga, com seis bispados todos da futura terra portuguesa. Dume, Coimbra, Porto, Viseu, Lamego e Egitânia;
  • a de Lugo, com os bispados propriamente galegos.
Quase sempre a divisão eclesiástica acompanhava as tendências políticas. Porque não ver nesta circunstância um novo estrato da tendência separatista ?
Em 415 entram na Hispânia novos bárbaros: os Visigodos do comando de Ataúlfo. Disputam com armas na mão as conquistas dos primeiros invasores, de sorte que a península fica constituída por dois estados: Suevos e Visigodos.
Mas bem depressa os Visigodos procuram também conquistar o ocidente peninsular. Já em 456, Teodorico II assola esta cidade de Braga com terrível sanha – ‘maesta et lacrimabilis... direptio’. Por fim Leovigildo em 585 submete os Suevos e forma a unidade peninsular. À luta política sucedeu a luta religiosa, como nos diz Idácio. O arianismo visigótico acabou por ceder ao catolicismo romano-suevo.
Com a conversão de Recaredo vem o triunfo definitivo da igreja, que celebra vários concílios. Entre estes, um reunido em Mérida, pouco depois de 650, particularmente nos interessa.
Ali se decidiu restaurar uma divisão administrativa, a que se fez corresponder a província eclesiástica de Mérida. Passam para Mérida os bispados católicos de Coimbra, Viseu, Lamego e Egitânia, ao passo que à província bracarense são unidos os de Tui, Orense, Iria, Astorga e Lugo, pela supressão do sínodo lucence.
Com as convenções políticas, porém, não mudam as ideias nem os interesses, e nós sabemos que a união dos bispados galegos a Braga foi alfobre de brigas, de discussões e de lutas». In Alberto Feio, Daqui Nasceu Portugal, Câmara Municipal de Braga, 1964.

Cortesia da CM de Braga/JDACT

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Thesouro de Braga. Descuberto no Campo do Gerêz. Matos Ferreira. «Gallos e Celtas o comercio e conhecimento com que a mayor parte do Universo, aos Romanos pois a conquista de Braga lhes custou quarenta annos, como diz frei Amador Arrais, e ficarão tão inclinados a esta cidade que Augusto Cesar lhe deu o título de “Augusta”, constituindo-a ‘Convento juridico’ com vinte e quatro cidades sojeitas»

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Breve notícia de Braga Primaz
«Não só me considero com uma venturosa jactancia de ter por Pay hum illustre velho, qual he o nobilíssimo Reyno de Portugal, de quem os filhos mais protentosos herdarão a magnanimidade de obrar acções dignas de fama, e memoria como forão os que brilharão nos seculos passados, expulsando aos Mouros do Reyno, com pasmo e admiração de todo o mundo, sem que jamais degenerassem nas conquistas, como cantou o insigne Poeta:

Vós, Portugueses, poucos quanto fortes,
Que o fraco poder vosso não pesais;
Vós, que à custa de vossas varias mortes
A lei da vida eterna dilatais:

E revestidos de esforço e valor entrarão nas terras mais remotas da Índia, excedendo a quantas victorias os mayores Monarchas do mundo e todas suas nações juntas em lhe o presente seculo tem obrado, como refere o mesmo Poeta:

Cessem do sábio grego e do Troiano, etc.

Mas também não he desigual a gloria que tenho de ter por May a minha inclita e Augusta Braga, emula de tropheos e Romanos ,triunfos, quando gentia a mais soberba, a mais rica, e com presunções da mais famosa e fermosa das que então erão do seu tempo em o mundo; tão altiva que nunca admitio sujeição; razão por que ao depois de povoada a mayor parte da Hespanha por Tubal, foi fundada por Brigo quarto Rey de Hespanha (conforme a opinião que sigo, porque mais segura, deixadas outras muytas de varios Autores, o qual começou a reynar nella no anno da Criação do Mundo 2056, antes do Nascimento de Christo 1906; e a primeira jornada que fez este Rey foy a Portugal e nelle fundou muytas cidades, todas do seu nome, como são Lacobriga no Algarve, Cetobriga perto de Setubal, Conimbriga que hoje he Coimbra, Medobriga (Ammaia, junto a Marvão, JDACT) junto a Portalegre, Celiobriga, etc.

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Por cuja razão diz Brito que no tempo deste rey foy com este nome Briga, que quer dizer povoação enfortalecida como em lhe agora Brigancia, que se diz ao presente Bragança; e não he menor a razão que há para dar este fundador a Braga, do que Bragança; porque se esta cidade fica situada no meo da província de Trás-os-Montes, que sem dúvida, por ser fértil he que foy povoada tão cedo; da mesma sorte Braga, primeyra povoação da província do Minho, situada no meyo della no sitio mais fértil de toda a Hespanha, que sem duvida os primeyros habitadores de Hespanha procurarão: por esta razão forão seus reedificadores, que alguns Autores tem por fundadores os Egípciosm Gregos, Troyanos, Carthagineses, Gallos, Celtas, Romanos, Alanos, Suevos, Godos; e só os Sarracenos a destruirão anno de Christo de 719, que todos os mais a amplificarão: os Egípcios com hum templo magnifico à deosa Isis, como se deixa ver ainda em o vestígio de hua pedra que se acha por fora da Sé primacial de Braga, com esta letra:
  • isidi Aug. Sacrum etc.
Os Gregos dotarão os seus habitantes com a viveza do engenho, a habilidade e subtileza natural que tem: os Cartagineses o espaço, a valentia e valor nas armas com que igualarão se já não excederão as mais nações: os Gallos e Celtas o comercio e conhecimento com que a mayor parte do Universo, aos Romanos pois a conquista de Braga lhes custou quarenta annos, como diz frei Amador Arrais, e ficarão tão inclinados a esta cidade que Augusto Cesar lhe deu o título de “Augusta”, constituindo-a ‘Convento juridico’ com vinte e quatro cidades sojeitas, como diz Plinio, e colónia Romana, como refere João Felix». In Micat Brachara inter omnes, Velut inter ignes, Luna Minores, José de Matos Ferreira, Thesouro de Braga, Descuberto no Campo do Gerez, tiradas de notícias e memorias certas indagadas no anno de 1721 e offerecido à Magestade João o Quinto em 1728, Câmara Municipal de Terras de Bouro, Braga, 1982.

Cortesia da CM de Terras de Bouro/JDACT

Preliminares da 1ª Invasão Francesa em Portugal. Baptista Barreiros. «A intenção do imperador era evidente! A França tinha em terra, indisputada, a categoria de ‘primeira potência’ militar da Europa, mas não era senhora duma esquadra suficientemente numerosa e forte para aniquilar a inglesa»

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Separata da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, nº 21
A neutralidade portuguesa
«Depois que em 1 de Outubro de 1801 ficou; finalmente, concertado o Tratado de paz luso-espanhol, a Corte de Portugal, tendo conseguido que a França lhe aceitasse a neutralidade no conflito em que a República se envolvera com as outras ‘potências’ europeias, conflito que, afinal, só veio a terminar em Waterloo, pôs todo o seu empenho em manter essa neutralidade, e o Príncipe Regente fazia o que lhe era possível para, sem quebra de dignidade, manter as melhores relações com a França e Espanha, embora o equilíbrio dos laços de amizade com estes dois países fosse dos mais difíceis em virtude dos tratados de aliança luso-britânicos, velhos de séculos, da posição assumida pelo Gabinete londinense, de inimigo declarado da França, e do considerável predomínio naval da Inglaterra. Em 7 de Junho de 1804, o Ministro dos Estrangeiros e da Guerra, António de Azevedo, pouco tempo antes investido nestas funções, escrevia a Talleyrand a participar-lhe que o Príncipe Regente resolvera enviar um embaixador extraordinário a Paris para felicitar Bonaparte pela sua elevação ao trono imperial, e que a escolha recaíra em Lourenço de Lima ‘que vous avez connu a Paris’ e se fazia recomendável pelo nascimento ilustre e qualidades pessoais, ‘qui ont captivé la bienviellance du Marechal de l’Empire Lannes’; pedia o assentimento de S. M. I.: ‘par delicatesse et par égard pour S. M. l’Emp., souhaite avoir la certitude que ce choix lui est agreable’.
[…]
Em ofício de 21 de Junho, o ministro Araújo comunicava a Cipriano Freire que o Príncipe Regente e sua esposa, querendo dar repetidas provas de filial amor a S. M. a rainha Católica, ‘determinaram mandar-lhe a ordem de S. Isabel e també, à princesa das Astúrias’, sendo as medalhas e respectivas cartas enviadas directamente ao Príncipe da Paz, para que este fosse quem fizesse a entrega, ‘do que é natural fique lisonjeado’. A mesma medalha seria, depois, também enviada à Princesa da Paz.

Cortesia de correiodaguarda  

Esta última parte, embora a participasse o embaixador de Espanha, não deveria contudo, Cipriano declará-la; mas dizer para Lisboa qual seria o momento oportuno de o fazer, ‘para que esta prova de atenção contribua de algum modo a promover os interesses da nossa Corte’. Em 14 de Julho, porém, ainda a partida de Lourenço de Lima estava demorada por causa de Lannes ter desejado fazer viagem, para assistir à coroação, na mesma fragata que o devia levar.

Quanto a Napoleão, era o maior desejo da corte de Lisbia agradar-lhe e conseguir estabelecer com ele um “modus vivendi” baseado em recíproca amizade, o que, contudo, só seria efectivamente realizável e capaz de se manter, se as potências conviessem na paz geral.
Assim, em 18 de Fevereiro de 1805, e logo que Lourenço de Lima lho insinuou, lhe dizia Araújo que o Príncipe Regente, desejando obsequiar o imperador, lhe remetia com a maior satisfação uma medalha das de seu próprio uso com a fita das três cores e um crachá com as três ordens.
[…]
A manutenção da neutralidade, a despeito de todos os atraentes convites, como das pressões sofridas, foi a principal directriz da política externa portuguesa; depois da dura lição do “Tratado de Basileia”das dificultosas negociações de Araújo em Paris para efectuar o Tratado de 10 de Agosto de 1797, frustrado pela oposição inglesa, e da rápida campanha de 1801, compreendera-se em Lisboa quão contrária aos interesses nacionais fora a anterior política, tão declaradamente anglófila que a diplomacia portuguesa nem sequer foi apta para prever a queda de Flórida Branca e a rápida carreira do Príncipe da Paz, isto é, para considerar a possibilidade da radical modificação sofrida pela política interna e externa de Espanha, cuja causa principal residiu nos resultados da campanha do Russilhão.

 
Cortesia de jornaldenisa

De facto, cedo principiaram os convites, a princípio aliciantes, tanto da França como da Espanha, para que Portugal voltasse as costas à Inglaterra, lançando-se nos braços daqueles dois aliados.

  • Em 19 de Fevereiro de 1805, quando Junot foi nomeado embaixador em Lisboa, entregou ao Príncipe Regente uma carta de Napoleão, da qual constava a primeira insinuação directa, embora suasoriamente feita: ‘Je l’ai spécialement chargé de l’assurer (ao príncipe João) de l’intérêt que je porte à la prosperité de la Couronne de Portugal, et de l’espoir que j’ai que nos deux États marcheront d’accord, pour arriver au grand resultat de l’equilibre dês mers que ménacent l’abus de puissance et les vexations que comettent les Anglais non seulement envers l’Espagne, mais même envers toutes les puissances neutres’.
Exprimia ainda Napoleão confiança em que Portugal e a França se entenderiam ‘pour faire le plus grand tort à l’Angleterre, et la porter par la à dês idées plus saines et plus moderées’».
A intenção do imperador era evidente! A França tinha em terra, indisputada, a categoria de ‘primeira potência’ militar da Europa, mas não era senhora duma esquadra suficientemente numerosa e forte para aniquilar a inglesa». In José Baptista Barreiros, Preliminares da 1ª Invasão Francesa em Portugal, Separata da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, nº 21, 1959.

Cortesia de S. H. I. de Portugal/JDACT

A Arte da Voz. Zeca Afonso. Fevereiro, 25 anos. «Ousou mudar as coisas, as pessoas, a sociedade. Agarrou a vida pelos cornos e lidou-a com ardor, recusando desgraças e impossíveis. José Afonso, cidadão, compositor, poeta, cantador, olhou-nos sempre de maneira frontal, convidando-nos a ir em frente, em sobressaltos mas não a medo»

Cortesia de expresso








Cortesia do expresso
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Imagens do Gerês de há Cem Anos. Pires de Oliveira. «Não se limitando ao ensino correu o país e as colónias estudando e recolhendo espécies. Em 28 de Maio de 1918 foi dado o seu nome ao Museu, Laboratório e Jardim Botânico da Universidade de Coimbra»

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Separata de ‘Terras de Bouro. O Homem e a Serra’. Série Cadernos Culturais nº 2

«Este texto ilustrado que hoje apresentamos é mais uma achega que queremos trazer para o conhecimento da gravura de madeira oitocentista portuguesa como fonte imprescindível da iconografia urbana ou rural. E ao mesmo tempo mais um elemento para a luta pela preservação da nossa Memória, do nosso Património Natural e Cultural.
São poucas as gravuras, mas o Gerez é um sítio longínquo de Lisboa, onde tudo se decide. E se hoje é assim, há cem anos era muito, muito, pior. Eu sei que o Gerês é um local mítico deste nosso Portugal; que já no século XVIII se falava das suas antiguidades romanas e que no século seguinte foi visitado por estrangeiros. Mas não nos podemos esquecer que as estradas eram fracas e os transportes ainda piores.

Para encontrarmos este artigo corremos todas as revistas ilustradas, de grande ou pequena tiragem, do século passado. Mas não nos devemos admirar, repito, com tão grande alheamento; se formos a folhear essas revistas descobriremos que os locais que divulgaram são apenas os mais centrais ou algum edifício de características monumentais ou de grande qualidade artística. No Minho podemos dizer que nem sequer afloraram qualquer momento, parcela, paisagem ou monumento de Melgaço, Cerveira, Paredes de Coura, Vila Verde, Esposende, Amares, Celorico etc. !

Serra do Gerês, rio Caldo, junto das Caldas. Foto de Júlio A. Henriques
‘O Ocidente’, 11Mar1886, p. 57
Cortesia da cmdeterrasdebouro

É que para fazer um artigo era preciso que alguém estivesse disposto a correr léguas e incómodos e, ou levasse máquina fotográfica, então coisa só de iniciados, ou fosse acompanhado de um desenhador.
No caso deste texto o autor foi o professor Júlio Augusto Henriques que nascera em Cabeceiras de Basto em 15 de Janeiro de 1838. Em Coimbra, onde faleceu em 7 de Maio de 1928, formou-se em Direito (1860) e doutorou-se em Filosofia (1865); em 10 de Janeiro de 1874 foi catedrático. A sua vocação, porém, era a flora, de tal forma que foi encarregado da regência da cadeira de Botânica e da direcção do Jardim Botânico.
Incansável, escreveu e traduziu manuais, criou colecções didácticas e melhorou substancialmente o laboratório. Foi fundador, em 1879, da Sociedade Broteriana.
Não se limitando ao ensino correu o país e as colónias estudando e recolhendo espécies. Em 28 de Maio de 1918 foi dado o seu nome ao Museu, Laboratório e Jardim Botânico da Universidade de Coimbra.
Como resultado do seu conhecimento do Gerês escreveu:
  • “A Vegetação da Serra do Gerez” (Coimbra, 1885).
Mas algo se deve dizer, também, sobre esta notável arte da Gravura de Madeira. E porque muito a admiramos e dela nos temos socorrido e iremos continuar a utilizar seja-nos permitido expandir-nos um pouco mais. Na História da Arte portuguesa, que tantos e tão belos monumentos já estudou, muitas são as lacunas. Todos conhecem artistas insignes como João de Castilho, Francisco de Holanda, André Soares ou Amadeu de Sousa Cardoso. Todos conhecemos Gil Vicente, ourives, Nuno Gonçalves, pintor, ou Machado de Castro escultor. Mas não conhecemos ainda muitos, diria até, a maior parte, dos inúmeros artistas anónimos que fizeram obras primas em artes ditas menores, mas que, no final, só são menores porque pouco divulgadas ou porque têm pequena dimensão. São as rendas e bordados, são os vidros soprados ou esculpidos, são as obras de latão, são os gravadores...

Serra do Gerês, um curral de Leonte. Foto de Júlio A. Henriques
‘O Ocidente’, 11Mar1886, p. 69
Cortesia da cmdeterrasdebouro

É precisamente desses gravadores que aqui queremos falar um pouco. Não para fazer a sua história, pois ainda não tivemos tempo para, com profundidade a ela nos dedicarmos. Mas apenas para manter a chama viva do interesse por tão bela e tão desprezada arte. E, dentro das diversas técnicas da gravura, vamos apenas falar da xilogravura ou gravura de madeira.
Desde tempos remotos, gregos e romanos, que a arte de gravar já é conhecida. Mas, com maior interesse económico, só desde a Idade Média; e, mais ainda, com a invenção da imprensa, pois que, embora antes se pudesse imprimir, o processo era lento porque só era possível tirar uma cópia de cada vez. Com Gutemberg maior foi a utilização e interesse da gravura pois que com a sua nova técnica rapidamente se poderiam obter várias cópias. Em Portugal, conhece-se em:
  • 1495 uma ‘Vita Christi’ esplendidamente ilustrada com imagens da vida de Jesus Cristo;
  • logo se seguem outras obras interessantes como os ‘Evangelhos e Epístolas’, de 1497;
  • a ‘Crónica do Condestabre’, de 1526;
  • o ‘Breve Memorial dos Pecados e Cousas que Pertencem à Confissão’, de 1545;
  • as ‘Ordenações Manuelinas’ de 1514; etc.
Breve, porém, a gravura de madeira foi utilizada como ilustração nos folhetos de cordel e outras folhas volantes; no século XVIII serviu abundantemente para ilustrar os múltiplos Almanaques, Lunários, e Prognósticos que se editavam em profusão.
A xilogravura deixou então para a gravura de metal os desenhos mais finos, mais aprimorados. Passou a ser usada, essencialmente por artistas sem escola, que tanto mais assumem a Sua intensa «naïveté» quanto mais procuram imitar a arte oficial». In Eduardo Pires de Oliveira, Imagens do Gerês de há Cem Anos, A serra do Gerês do Prof Júlio Henriques, Separata de ‘Terras de Bouro. O Homem e a Serra’. Série Cadernos Culturais nº 2, Câmara Municipal de Terras de Bouro, 1992.

Continua
Cortesia da CM de Terras de Bouro/JDACT

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Crónica Geral de Espanha de 1344. Luís Krus. «Exemplarmente estudada por Luís Lindley Cintra, foi por ele editada a partir da redacção de cerca de 1400, visto não se ter conservado nenhum manuscrito português da primitiva versão. Posteriormente, Diego Catalán e Maria Soledad de Andrés prepararam a edição da tradução castelhana da redacção original de 1344»

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«Também referenciada por “Segunda Crónica Geral de Espanha”, foi elaborada por Pedro Afonso, conde de Barcelos, em 1344 e refundida cerca de 1400, tendo sido traduzida para castelhano, tanto a refundição como a versão original.
Exemplarmente estudada por Luís Lindley Cintra, foi por ele editada a partir da redacção de cerca de 1400, visto não se ter conservado nenhum manuscrito português da primitiva versão. Posteriormente, Diego Catalán e Maria Soledad de Andrés prepararam a edição da tradução castelhana da redacção original de 1344. Na primitiva versão, a “Crónica” abre com um esquema linhagístico de história universal, baseado, no essencial, em Eusébio e em Jerónimo, seguindo-se duas partes da “Crónica do Mouro Rasis” (a descrição geográfica da península e a história dos últimos reis godos, da invasão muçulmana e dos emires do al-Andalus) intercaladas por uma história genealógica dos reis visigóticos (de Atanarico a Vitiza), extraída, para além da obra historiográfica do bispo Pelaio de Oviedo, de uma versão do “Liber Regum” próxima da do “Livro de Gerações” navarro de 1260-1270, fonte essa retomada, após uma lista da onomástica dos reis da “Reconquista” hispânica, para o relato de uma breve história, quase genealógica, dos soberanos das Astúrias, Leão e Castela (de Pelaio a Alfonso XI), se bem que a partir de Fernando I se utilizem dados provenientes, na sua maioria, da “Tradução da Variante Ampliada da Crónica Geral de Espanha” (Cintra), também conhecida como “Versão Galaico-Portuguesa da Crónica Geral de Espanha” (Catalán). Esta última obra, constituída por duas partes de distinta proveniência (de Ramiro I a Bermudo III e de Fernando I a Fernando III, com base, respectivamente, na “Primeira Crónica Geral” de Alfonso X de Leão e Castela e na “Crónica de Castela”), identifica a principal fonte da última e mais extensa secção da “Crónica de 1344”, a que respeita a uma relativamente desenvolvida história dos reis de Espanha, de Ramiro I à Batalha do Salado (1340), no reinado de Alfonso XI de Castela, incluindo, intercalada no reinado de Alfonso VII de Leão e Castela, a história dos reis de Portugal, baseada, em grande parte, na chamada “Crónica Portuguesa de Espanha e Portugal” (Catalán), um texto também transmitido por uma das “Crónicas Breves de Santa Cruz”, a IV.

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No seu conjunto, a “Crónica de 1344” revela-se fortemente influenciada pela cronística castelhana que teve na obra historiográfica de Alfonso X de Leão e Castela o seu modelo, embora dela se distinga, quer pelo conteúdo quer pela forma. Quanto ao conteúdo, se permanece fiel ao ideário de uma história ibérica onde conflui e se dimensiona o passado dos diversos reinos cristãos da “Reconquista”, incluindo o de Portugal, não deixa de manifestar uma ‘sistemática hostilidade’ (Catalán) para com a dinastia real de Castela e uma paralela tendência para exaltar o contributo regional português na construção da história peninsular, acabando, desse modo, por atenuar a tese afonsina do primado castelhano no protagonismo hispânico. Quanto à forma, se imita o processo de compilação das fontes próprio da cronística afonsina, procede de maneira menos sistemática e organizada, repetindo informações oriundas das distintas fontes disponíveis e cometendo vários atropelos cronológicos na apresentação global das notícias compiladas, reflexos, por sua vez, de um pouco trabalhado plano historiográfico prévio. A consciência destes problemas formais esteve, aliás, bem presente nos objectivos de refundição de cerca de 1400, sendo uma das suas características a de procurar aproximar a crónica ao padrão historiográfico castelhano, tornando-a mais devedora da tradição textual afonsina.

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Com efeito, tal refundição suprimiu todo o inicial esquema linhagístico de história universal, trocando-o por um prólogo e por uma narrativa dos primeiros povoadores da península (até ao senhorio dos gregos) com base na “Primeira Crónica Geral” de Alfonso X, fonte que também aproveitou para intercalar no início do texto onde se reproduzia a “Crónica do Mouro Rasis”, um “Louvor da Espanha” e, mais significativo, para substituir e ampliar grande parte das informações baseadas na versão do “Liber Regum” próxima do “Livro das Gerações” (história dos reis godos, antecedida de uma história do senhorio peninsular dos cartagineses e dos romanos; história dos reis das Astúrias de Pelaio a Alfonso I).

Contudo, embora a refundição de cerca de 1400 contribuísse para uma maior uniformização cronística da redacção original, dela afastando grande parte dos textos de pendor genealógico, não sacrificou a perspectiva com que o conde de Barcelos encarou a história peninsular da “Reconquista”. Motivado para o registo da gesta hispânica num momento marcante da afirmação da unidade ibérica, o da vitória cristã do Salado.

Pedro Afonso concebeu o passado peninsular como herança colectiva de proezas e façanhas, sendo nesse quadro que o Portugal nobiliárquico e régio se devia distinguir como valorizada ‘diferença’, mobilizando-se para cumprir um destino libertador e redentor, tal como melhor se define numa outra obra do conde, o “Livro de Linhagens” ou “Nobiliário”». In Luís Krus, Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa, organização e coordenação de Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani, Editorial Caminho, Lisboa, 1993, Fundação C. Gulbenkian, 1997.

Cortesia da FC Gulbenkian/JDACT

Música. RosaNegra. Fado Mutante. «… sugere uma linguagem mais intemporal mas formalmente mais contemporânea, perspectivando o fado como um ser vivo que, pela sua condição, sempre há-de estar em permanente mudança. O resultado final é subtil e arrebatador, apaixonado, ressonância duma diáspora passada e futura»

Cortesia da foriente

Fado Mutante. "RosaNegra". Dia 2 de Março de 2012, 21h30, Auditório

«Depois de um intervalo de cinco anos, o projecto “RosaNegra” reaparece com um novo CD e uma proposta surpreendentemente renovada. E se o primeiro álbum, ‘Fado Ladino’, editado por editora anglo-americana e tão celebrado e premiado pela crítica nacional e internacional, encontrou as estirpes fadistas no nosso passado sefardita e moçárabe, o novo ‘Fado Mutante’ sugere uma linguagem mais intemporal mas formalmente mais contemporânea, perspectivando o fado como um ser vivo que, pela sua condição, sempre há-de estar em permanente mudança.
O resultado final é subtil e arrebatador, apaixonado, ressonância duma diáspora passada e futura.
A banda, dirigida pelo músico/compositor Rui Filipe, transformou-se num colectivo entusiasmante em que a voz de Jonas, tão íntima quanto desgarrada, o violoncelo e o clarinete de Sandra Martins, o violino de Cindy, o acordeão, os teclados e as guitarras de Rui Filipe são os principais protagonistas.




Além deste núcleo duro, outros músicos e convidados colaboraram na feitura destas novas pétalas de “RosaNegra”, duas mãos cheias de canções originais, sugestões de fados que hão-de ser, ora sombrios ora luminosos, mas sempre com luz própria». In Fundação Oriente.

Cortesia de avidaeumpalco

Cortesia de Fundação do Oriente/JDACT

Vulcanologia. Frederico Machado. O Interior da Terra. «A aceleração da gravidade só é conhecida à superfície. A cada profundidade a variação respectiva depende, porém, da densidade das camadas superiores, o que permite resolver a da variação da densidade numa camada por integração numérica, a partir da superfície exterior»

jdact e geologia

Constituição
«A principal fonte de informação sobre o interior da Terra provém do estudo da propagação das ondas elásticas geradas pelos abalos de terra. Demonstra-se na Teoria da Elasticidade que num sólido indefinido se podem propagar dois tipos de ondas, umas longitudinais e outras transversais, com velocidades dadas, respectivamente, pelas expressões:



onde x é o módulo de compressão, µ o módulo de rigidez e ρ a densidade (massa específica). Por serem x e µ positivos, Vl é sempre maior do que Vt.
Quando há um abalo suficientemente forte, o instante de chegada destes dois tipos de onda é registado nas numerosas estações sismográficas distribuídas pela superfície da Terra. A partir desses elementos (acumulados durante mais de meio século), os métodos da Sismologia Matemática permitem calcular as velocidades Vl e Vt, a cada profundidade do interior da Terra.

Nas camadas superficiais que constituem a ‘crusta’ a variação é irregular em consequência de heterogeneidades locais, Vl variando em geral entre 5 e 7 km/s e Vt entre cerca de 3 e 4 km/s. A espessura da ‘crusta’ é da ordem de 30 km sob os continentes e de 5 a 10 km sob os oceanos; por baixo fica o chamado ‘manto’. Na passagem da ‘crusta’ para o ‘manto’ há um aumento brusco nas velocidades sísmicas, “descontinuidade de Mohorovicic” mas daí para baixo a variação torna-se muito mais regular.

Velocidades sísmicas no interior da Terra
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À profundidade de cerca de 3 000 km há, porém, uma nova descontinuidade. A velocidade das ondas longitudinais, que tinha aumentado até cerca de 14 km/s, baixa bruscamente para cerca de 8 km/s; e as ondas transversais deixam de se propagar. Atendendo à equação de Vt, este último facto implica a anulação do módulo de rigidez, o que é uma característica dos fluidos.
Admite-se por isso que abaixo dos 3 000 km haja um núcleo em estado de fusão.
A variação de densidade numa camada homogénea do interior da Terra pode determinar-se pela equação


Onde r é o raio ao nível considerado e g a aceleração da gravidade; x/ρ obtém-se das expressões Vl e Vt.
A aceleração da gravidade só é conhecida à superfície. A cada profundidade a variação respectiva depende, porém, da densidade das camadas superiores, o que permite resolver a da variação da densidade numa camada por integração numérica, a partir da superfície exterior.
Com hipóteses plausíveis para a densidade da ‘crusta’ e da parte superior de cada camada considerada homogénea é possível determinar as densidades aos vários níveis; os resultados terão de ser ajustados aos valores conhecidos da densidade média (5,52 g/cm3) e do momento de inércia (8,10x1044 g/cm2) do planeta.
Estes cálculos, evidentemente trabalhosos, foram efectuados por Bullen, que obteve os resultados representados na figura:

Densidade di interior da Terra, segundo Bullen
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Conhecidas as densidades, as equações Vl e Vt permitem determinar x e µ.

Se admitirmos que os meteoritos que tombam dos espaços siderais representam ‘amostras’ do material que constituía o interior de planetas semelhantes à Terra, o estudo desses pequenos corpos celestes será outra importante fonte de informação.
Os meteoritos que têm sido estudados pertencem, geralmente, a um dos seguintes tipos:
  • - meteoritos metálicos (ou siderófilos), compostos duma liga de ferro com cerca de 10% de níquel (além de outras substâncias);
  • - meteoritos felsíticos (ou litófilos), de composição próxima dos peridotitos, mas contendo frequentemente certa quantidade de ferro-níquel (semelhante ao dos meteoritos metálicos).
As densidades de Bullen para o material do núcleo correspondem razoavelmente às que deverá apresentar o ferro, ou a liga ferro-níquel, nas condições ali existentes: a pressão é da ordem dos 2 ou 3 megabares; e a temperatura, visto o material dever estar fundido, será talvez superior a 5 000ºC.
Um núcleo formado por ferro-níquel meteorítico é admitido, com pequenas variantes, pela maioria dos autores. Quanto ao manto superior, tanto a densidade como as propriedades elásticas são apropriadas para uma rocha peridotítica. A constituição do manto inferior é mais incerta. Ringwood descobriu que a olivina e, portanto, as rochas peridotíticas, sofre um aumento de densidade de cerca de 11%, por transformação polimórfica, a uma pressão da ordem de 0,13 megabares, equivalente à profundidade de 400 km. Este aumento é, porém, insuficiente para se atingirem as densidades de Bullen do manto inferior. Talvez seja razoável admitir uma constituição olivínica, na fase de alta pressão, com adição de certa percentagem de ferro-níquel metálico, hipótese que foi sugerida, em 1943, por Buddington.

Finalmente, a ‘crusta’ na parte acessível (por baixo dos sedimentos) tem composição granítica. A presença de intrusões doutras rochas (especialmente basaltos) leva porém a admitir que a composição média se deve aproximar da de uma rocha diorítica.
O modelo aqui indicado para o interior da Terra (que tem evidentemente carácter hipotético) está resumido na figura.

Esquema da constituição provável do interior da Terra
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In Frederico Machado, Elementos de Vulcanologia, Bertand, Irmãos, Lisboa, 1965.

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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Joana, “a Louca”. Rainha Joana I de Espanha. «Sabia por que motivo a rainha sua mãe a mandara chamar. É claro que sabia. Desde a assinatura do contrato, havia ainda pouco tempo que ansiava e receava simultaneamente a chegada daquele momento, ainda na esperança vã de que não se concretizasse nos anos mais próximos»

A Península Ibérica, no tempo de Fernando e Isabel
Cortesia de editorialpresenca

Uma história de amor obsessivo e paixão incontrolável... e de traição cruel e cínica
«A rainha Joana era filha de Fernando e Isabel e irmã de Catarina de Aragão. Foi fundamental na criação das poderosas casas de Habsburgo de Espanha e da Áustria, que perdurariam durante séculos.
Ao longo da sua vida, Joana viu ser-lhe cruelmente negado o acesso ao poder pela parte de três homens:
  • o seu marido, Filipe,
  • o pai, Fernando,
  • o filho, Carlos.
Enfrentou a crueldade implacável de todos, tanto física como mental, com coragem e determinação, e a sua resistência incansável mereceu-lhe o injusto cognome pelo qual é recordada:
  • Joana, “a Louca”
Enquadramento histórico
A história de Joana decorre entre 1496 e 1555, sobretudo em Espanha, mas também nos Países Baixos e brevemente em França e em Inglaterra.
Passa-se no período em que o rei Fernando de Aragão e a rainha Isabel de Castela, os Reis Católicos, tentam fortalecer o recém-formado reino de Espanha. Com este objectivo em mente, tentam proteger o seu país de ameaças externas e estender a sua influência ao estrangeiro por meio de casamentos reais estratégicos, celebrados nas pessoas dos seus filhos. O mais conhecido da história inglesa foi o da filha Catarina de Aragão com Henrique VIII. As mortes inesperadas dos filhos mais velhos dos reis teve como consequência o facto de Joana, a menos adequada a um casamento político e à sucessão ao trono, se ver obrigada a carregar ambos esses fardos.

Casamento
A cabeça de Joana era uma amálgama de esperança e de medo, próprios de uma jovem que ainda não fizera dezasseis anos. O aperto que sentia na garganta, quase a impedia de respirar.
Saiu dos seus aposentos e apressou-se ao longo da galeria do primeiro andar, seguida pelas aias e pela escrava Zayda. Os seus pensamentos estavam concentrados na Sala do Conselho e mal reparou nos cortesãos e nos guardas, que trocavam olhares e abanavam a cabeça, compreensivos. O agradável perfume da lavanda, o seu preferido, que se erguia do soalho de carvalho e dos pesados baús, recentemente encerados, não a cativou.
Sabia por que motivo a rainha sua mãe a mandara chamar. É claro que sabia. Desde a assinatura do contrato, havia ainda pouco tempo que ansiava e receava simultaneamente a chegada daquele momento, ainda na esperança vã de que não se concretizasse nos anos mais próximos.

Todavia, naquela fria manhã de Janeiro de 1496, uma data que iria certamente ficar gravada para sempre no seu coração, fora convocada para uma audiência formal. Não havia dúvidas quanto ao seu propósito: não podia ser mais nada senão informá-la de que se haviam concluído as negociações do casamento e de que se marcara a data da sua partida.
Uma pressão dolorosa esmagava-lhe o peito. Era como se tivesse recebido uma sentença de morte que desfizera os sonhos maravilhosos que alimentara, sonhos sobre um príncipe triste e infeliz que recuperaria a felicidade perante a visão do seu belo rosto.
- Zayda, vou ser exilada de Espanha... banida. - As palavras saíam-lhe estranguladas por entre arquejos. - Como poderei viver num país tão longínquo? A viagem de barco é tão longa e perigosa!

Filipe, arquiduque da Áustria, duque da Borgonha, Brabant […] Artois e …
Cortesia da editorialpresença

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Sei que me vão separar de tudo o que amo. Nunca mais verei a minha família, tenho a certeza. Ficarei perdida, esquecida para sempre. Deteve-se na esquina, onde a escadaria se erguia do pátio, lá em baixo, e inspirou o ar invernoso e gelado que subia furtivamente. Nervosa, sacudiu a saia de veludo verde com dedos agitados. Zayda envolveu-lhe as mãos para as acalmar - Coragem, minha Senhora, coragem - pediu à sua bela menina. É que Joana era bela em todos os sentidos:
  • fisicamente,
  • na graciosidade dos seus movimentos,
  • na musicalidade da voz.
Era de altura mediana, magra e muito bem proporcionada. Grossas tranças de um cobre dourado coroavam-lhe o rosto oval, mas, naquele momento, as lágrimas ameaçavam saltar-lhe dos olhos cor de avelã, sempre prontos a cintilar de inteligência, alegria, calor e amor. Os lábios, acostumados a sorrir e a rir, apertavam-se de medo.
As aias esperavam a uma curta distância.
- Que devo fazer? - perguntava-lhes Joana. – Estou tão assustada. Podeis prometer-me que serei feliz na Flandres e, se sim, por quanto tempo? E, se não, que será de mim?
- Minha Senhora, ninguém pode saber. Temos de confiar em Deus.
- Espero que Ele tenha piedade de mim. A minha irmã Isabel diz que se quer retirar para um convento. Achais que devo dizer à minha mãe que tenciono igualmente ser freira? Impossível! Essa vida não é para mim. Digo as minhas orações, vou à confissão e à missa, e é mais do que suficiente.
Exclamações chocadas das aias interromperam-na.
- Só disse isso pelo facto de a Flandres ser tão longe. Se estivésseis no meu lugar, diríeis exactamente o mesmo! Mas como me atrevo a demorar-me aqui? Os meus pais tratarão logo de me acusar de relutância e desobediência.
Joana ergueu as pesadas saias do traje, fez uma vénia, benzeu-se apressadamente defronte do tríptico anichado na esquina e dirigiu-se à Sala do Conselho para ser informada do seu destino, seguida pelas aias, que se detiveram brevemente para também se benzerem.
Sabia há já um ano da proposta de união e das diversas negociações que rodeavam o seu casamento com o arquiduque Filipe, filho do sacro imperador romano. Ingénua, pensara que se passariam vários anos antes da realização do casamento, mas em breve se tornou evidente que não seria assim. Durante todo o ano haviam tido lugar constantes idas e vindas de embaixadores e o casamento por procuração, no início do mês, e a sua assinatura, declarando-a ligada a todas as cláusulas do contrato de casamento, gritavam a iminência da partida». In Linda Carlino, “That Other Joana”, 2007, Joana, a Louca, Editorial Presença, Lisboa, 2009, tradução de Isabel Nunes, ISBN 978-972-23-4231-5.

Cortesia de E. Presença/JDACT

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O Pensamento e as Interpretações. Fernando Pessoa. «Por isso o humanitarismo e o internacionalismo são conceitos de morte, só cérebros saudosos do inorgânico o podem agradavelmente conceber. Todo o internacionalista devia ser fuzilado para que obtenha o que quer, a integração verdadeira no meio a que tende a pertencer»


Cortesia de puraessencia e sedlpk

Só Existem Nações, não Existe Humanidade
«A humanidade não existe sociologicamente, não existe perante a civilização. Considerar a humanidade como um todo é, virtualmente, considerá-la como nação; mas uma nação que deixe de ser nação passa a ser absolutamente o seu próprio meio. Ora um corpo que passa a ser absolutamente do meio onde vive é um corpo morto. A morte é isso - a absoluta entrega de si próprio ao exterior, a absoluta absorção no que cerca. Por isso o humanitarismo e o internacionalismo são conceitos de morte, só cérebros saudosos do inorgânico o podem agradavelmente conceber. Todo o internacionalista devia ser fuzilado para que obtenha o que quer, a integração verdadeira no meio a que tende a pertencer. Só existem nações, não existe humanidade». In Fernando Pessoa, «Textos Filosóficos e Esotéricos, pág. 101»


Cortesia de espacod e sedlpk 

A Sociedade é Baseada no Instinto Individual
A vida de uma sociedade é, fundamentalmente, uma vida de acção. As relações dos indivíduos adentro dela, são, fundamentalmente, relações entre as actividades, entre as acções, deles. As relações dessa sociedade com outras sociedades - sejam essas relações de que espécie forem - são relações de qualquer espécie de actividade, são relações de acção. É, portanto, pelas faculdades que conduzem à acção que o indivíduo é directamente social. Ora, como a ciência constata que são os instintos, os hábitos, os sentimentos - tudo quanto em nós constitui o inconsciente, ou o subconsciente - que levam à acção, segue que é pelos seus instintos, pelos seus hábitos, pelos seus sentimentos - e não pela sua inteligência - que o indivíduo é directamente social.
Por que espécie de instintos, porém, é que o indivíduo é directamente social? Alguns dos seus instintos, como o instinto de conservação e o instinto sexual, são sociais apenas indirectamente. Servindo-os, o indivíduo serve, em último resultado, a sociedade a que pertence, porque, mantendo a sua vida, mantém a vida de um elemento componente da sociedade a que pertence, e, propagando a espécie, contribui para a continuidade de vida dessa sociedade; mas nem um, nem outro, desses instintos tem um fim directamente social. O serviço desses instintos envolve, ao contrário, um grau maior ou menor de concorrência, de luta, com outros indivíduos. Esses instintos, portanto, embora necessários à sociedade, são de ordem individual e não social». In Fernando Pessoa, «Ensaio: A Opinião Pública, pág. 101/102»

Cortesia Casa das Letras/JDACT

O Dominó Preto. Florbela Espanca. Leituras. «Mas que lindo riso o dela! Muito aberto, muito sonoro, enchia a casa de trilos de pássaros, mostrava-lhe os dentes todos muito sãos, muito brancos, e toda a boca por dentro, muito cor-de-rosa como a polpa carnuda e sumarenta dum morango acabado de colher numa manhã de Primavera»

jdact

«Havia já mais de oito anos que andava atrás dela. E só agora conseguira que ela se resolvesse a ouvi-lo. Há tantos anos, santo Deus! Ainda ele estava moço na mercearia da Rua dos Olivais, ainda nem sonhava em que lhe haviam de dar sociedade na casa, nem tinha amealhado os seis contos de réis que tinha agora na Caixa Geral dos Depósitos, já gostava dela, já gostava de a ver passar, pisando no seu passinho grácil e desenvolto a calçada de pedras pontiagudas. Os gritinhos que ela dava quando punha o pé em falso, o pé de boneca calçado de sapatinhos de verniz com saltos de palmo e meio! E quando entrava na loja! O cubículo escuro, sujo, feio, era de repente um grande salão feérico todo cheio de luzes, deslumbrante de asseio, bonito como nenhum. O pobre caixeirito, de mãos deformadas pelas frieiras, de larga cara bonacheirona e ingénua, ridículo no seu fato de cotim de mangas demasiado curtas, de cabeleira encrespada e sobrancelhas hirsutas, ficava a olhar para ela, esquecido do que lhe tinham pedido, vendo apenas na sua frente a boca fresca e os olhos gaiatos da rapariguinha risonha que, sem piedade, troçava dele constantemente.

Cortesia de florbelaespancalali

Mas que lindo riso o dela! Muito aberto, muito sonoro, enchia a casa de trilos de pássaros, mostrava-lhe os dentes todos muito sãos, muito brancos, e toda a boca por dentro, muito cor-de-rosa como a polpa carnuda e sumarenta dum morango acabado de colher numa manhã de Primavera.
No banco da avenida, sob a acácia já cheiinha de folhas, noite escura, o Joaquim entretinha-se a passar religiosamente as contas do seu rosário de recordações, doces e amargas recordações dos longos anos que passara atrás dela, inutilmente, mendigando sem se cansar um bocadinho de amor que matasse a fome e a sede ao seu corpo de adolescente casto que nunca se atrevera a seguir uma mulher pelas ruas escusas, pelos cantos misteriosos, quando a cidade cúmplice fecha os olhos e finge que dorme.
Sempre gostara daquela, daquela só, e um dia – já lá iam dois anos! - enchera-se de coragem e dissera-lho. A gargalhada que ela lhe dera na cara! Tinha-a ainda nos ouvidos, aquela divertida e escarnecedora gargalhada que lhe fizera chegar as lágrimas aos olhos.

Ele era um pobre diabo, mas queria-a, queria-a como sabem querer os rústicos das suas montanhas, queria-a com todo o ardor dos seus vinte anos, cheios de seiva como um chaparro novo, queria ganhá-la custasse o que custasse, embora tivesse de andar de rastos atrás dela a vida inteira. Tinha tempo! E assim fez: trabalhou sem descanso e sem desalento meses e meses, todos os dias do ano, quer de Inverno quer de Verão, mal luzia o Sol no alto até noite fechada, sem domingos nem dias santos. Mal pago e mal alimentado, mourejou e fez vontades, foi servo de toda a gente, com a tenaz ideia fixa encasquetada a martelo no estúpido bestunto, sem querer saber de mais nada, não dando conta do que ia pelo mundo, do que se passava para além do encardido balcão de pinho, onde lhe ia correndo a mocidade, agrilhoado ao trabalho corno um escravo.

Cortesia de florbelaespancalali

O patrão, com o andar dos tempos, deu finalmente por ele, observou-o, e um belo dia, deitando contas ao lucro que podia tirar duma boa acção, mandou-o ensinar a ler. À noite, depois da loja varrida e tudo arrumado, que o patrão não se ensaiava para lhe pregar dois murros bem puxados, a rapazito descia os dois degraus que faziam comunicar a lojeca com a húmida toca onde dormia. Ah, se as paredes pudessem falar! Um coto de vela a arder sobre a única cadeira de pau e, sentado na cama de tábuas, as mãos crispadas nos cabelos rijos, cabelos de fome, a cabeça tonta, doido de sono, o pobre lá ia decifrando as letras, soletrando, juntando as sílabas, estudando a lição para o outro dia, à custa de esforços desesperados e duma força de vontade que nenhuma força poderia vencer. Quando compreendia, a larga cara bonacheirona iluminava-se-lhe num sorriso que entre aquelas quatro paredes, onde as aranhas teciam tranquilamente as suas teias de seda e prata fosca, era por si só um belo milagre de amor! É nestas almas simples que o amor é mais puro e mais forte. O manancial de águas claras que na planície vai matar sedes e reverdecer os campos, jorra do seio das duras pedras das montanhas em sítios agrestes, longe e alto!». In Florbela Espanca, O Dominó Preto, Livraria Bertrand, 1982.

Cortesia da L. Bertrand/JDACT

Fernando Pessoa. Livro do Desassossego. «A ti são oferecidos os dias e os seres; os astros são votos no teu templo, e o cansaço dos deuses volta ao teu regaço como a ave ao ninho que não sabe como fez»

Cortesia de pasunautre

In Memoriam de MLAC

«A inspiração chega de formas imprevisíveis, Uma imagem entrevista, uma frase entreouvida, um cheiro que desperta uma lembrança, uma conversação, uma notícia no jornal, uma repentina ideia surgida na cabeça, coisas tão simples podem dar origem a um poema, um quadro, uma sinfonia, ou até a um complexo sistema filosófico. Acontece que a mais deslumbrante obra em prosa de Fernando Pessoa, uma obra que perdurará como um dos monumentos literários do século XX, nasceu de uma só palavra: “desassossego”, que agitou a alma de Pessoa em 1913, mais precisamente em 20 de Janeiro.

Nesse dia redigiu, numa folha solta, o poema ‘Dobre’ que reza assim:

Peguei no meu coração
e pu-lo na minha mão.
Olhei-o como quem olha
grãos de areia ou uma folha.
Olhei-o pávido e absorto
como quem sabe estar morto;
Com a alma só comovida
do sonho e pouco da vida.

Ao lado do poema, pondo a folha na horizontal, rabiscou, em letras grandes, «O título “Desassocego”, sublinhando» o vocábulo em grafia antiga com um traço bem vincado. Trata-se de uma palavra simultaneamente comum e misteriosa, rica em matizes significativos e sem um bom equivalente noutras línguas, pois nem o ‘desasosiego’ do espanhol consegue ser tão «desassossegado». Todo o “Livro do Desassossego” é, em grande medida, uma exploração do vasto e variado território que ela designa». In Livro do Desassossego, Fernando Pessoa, Assírio & Alvim, 2008, ISBN 978-972-37-1121-9.

JDACT

Cantigas de Amigo. Que o mui nobre Denis Rei de Portugal fez. «Amamos as nossas mães quase sem o saber e só nos damos conta da profundidade das raízes desse amor no momento da derradeira separação»

Cortesia de wikipedia

In Memoriam de MLAC

Cantigas de Amigo
Cantigas de refrão
1
Bem entendi, meu amigo,
que mui gram pesar houvestes
quando falar nom podestes
vós noutro dia comigo,
mais certo seed'amigo
que nom fui o vosso pesar
que s’ao meu podess'iguar.

Mui hem soub'eu por verdade
que érades tam coitado
que nom havia recado,
mais amigo acá' tornade;
sabede bem por verdade
que nom fui o vosso pesar
que s'ao meu podess'iguar.

Bem soub', amigo, por certo,
que o pesar daquel dia
vosso, que par nom havia,
mais pero foi encoberto,
e por em seede certo
que nom fui o vosso pesar
que s’ao meu podess'iguar.

Ca o meu nom se pod'osmar,
nem eu nom o pudi negar.

2
Amiga, muit'há gram sazom
que se foi daqui com el-rei
meu amigo; mais já cuidei
mil vezes no meu coraçom
que algur morreu com pesar
pois nom tornou migo falar

Porque tarda tam muito lá
e nunca me tornou veer,
amiga, s'i veja prazer,
mais de mil vezes cuidei já
que algur rnorreu com pesar,
pois nom tornoa migo falar.

Amiga, o coraçom seu
era de tornar ced'aqui,
u visse os meus olhos em mi,
e por em mil vezes cuid'eu
que algur morreu com pesar,
pois nom tornou migo falar.

Rei Dinis, in ‘Cantigas de Amigo’. Cantigas de refrão. Cancioneiro da Biblioteca Nacional.

JDACT

Poesia. A Rosa, a Minha Rosa, Perfume da Rosa. Lírica de Garrett. «A resposta negativa da rosa namorada e mãe. Esse espírito não é apenas inteligente, mas também criador, parece conter uma força prodigiosa, uma centelha divina. Talento de grande incontestável grandeza»

Cortesia de estoriadeler

In Memoriam de MLAC

Quem bebe, rosa, o perfume
que de teu seio respira?
Um anjo, um silfo? Ou que nume
com esse aroma delira?

Qual é o deus que, namorado,
de seu trono te ajoelha,
e esse néctar encantado
bebe oculto, humilde abelha?

- Ninguém? - Mentiste [...1
Origem de “A Cor da Rosa”vermelha, encarnada na rosa outrora branca.

Baixo voava Amor sem tento um dia,
e na rama espinhosa
de sua flor virgínea se feria.
Do sangue divinal gota amorosa
a ligeira ferida lhe corria,
e as flores da roseira onde caía
tomavam do encarnado a cor lustrosa.
Agora formosa
a rúbida flor
recorda de Amor
a chaga ditosa.
Origem do “Anjo És” da anunciação do ‘inferno de amar?.

Anjo és tu, que esse poder
jamais o teve mulher,
jamais o há-de ter em mim.
Anjo és que me domina
teu ser o meu ser sem fim;
Minha razão insolente
ao teu capricho se inclina,
[…]
Anjo és tu. Mas que anjo és tu?
Em tua frente anuviada
não vejo a c'roa nevada
das alvas rosas do céu.
[…]
A chama é vivaz e é bela,
Mas luz não tem. - Que anjo és tu?
Em nome de quem vieste?
[…]
Em que mistério se esconde
teu fatal, estranho ser!
Anjo és tu ou és mulher?

JDACT

Ferreira Lima, estudioso de Almeida Garrett: Trabalhos Esquecidos. Luís Farinha Franco. «o que aquele antigo soldado voluntário escreveu, e publicou, acerca do tempo começado em Évora Monte, com novos Brenos a berrar, pilhar, assassinar e enriquecer; era o “regabofe”, como dirá Oliveira Martins»


Cortesia de bnp

In Memoriam de MLAC

«No percurso, já longo, dos estudos garrenianos, cuja historiografia e periodização importa estabelecer, tem lugar especial Henrique Ferreira Lima (1882-l949).Era um daqueles espíritos inquietos a quem a curiosidade impõe uma multiplicidade de interesses que prejudica, ou inviabiliza, até, a obra de tomo. Deixou, entretanto, obra vasta, vasta e vária, e de modo algum restrita a Almeida Garrett. Pouca conhecida é, porém, no seu conjunto:
  • porque sepultada (quase diríamos perdida), na sua maior parte, em periódicos e publicações avulsas, com separatas, quando as houve, de reduzida tiragem;
  • porque os arrolamentos de seus escritos, com propósito total ou parcial, também não circulam.
De facto, afora alguns, poucos títulos, e passamos a ater-nos à matéria em objecto, são ‘trabalhos esquecidos’, seguindo a sugestão adequada de Braz de Oliveira para esta nótula.
Muito jovem ainda assistiu e viveu as comemorações do centenário (1899), e assim começou o interesse que, pela vida fora, se constituiu em verdadeiro cultos: obtendo manuscritos, libretos, traduções, iconografia e mais objectos relacionados com o primeiro romântico, ‘rica e valiosa Colecção Garrettiano’, de que a Câmara de Lisboa expôs ‘a melhor parte’ por ocasião do centenário da morte do homenageado. À mesma razão, ao mesmo culto, se devem os trabalhos, bastas dezenas, que foi produzindo. Escreveu sobre "A sobrinha do marquês”, sobre “Inês de Castro”, sobre “Frei Luís de Sousa”, “O Tio Simplício”, as “Viagens”; e sobre Garrett estudante nos tempos de Coimbra, Garrett enquanto actor, colonialista e jornalista; suas moradas na capital, seus inéditos e traduções, Garrett soldado; da sua influência e recepção no estrangeiro, suas andanças literárias e políticas, aspectos da sua versatilidade sentimental... - de tudo publicou escritos de valia.
São contributos que permitem enriquecer, e rever, a figura do ‘artista’, como o viu Moniz Barreto, em síntese vigorosa e arguta, contrapondo-o a Herculano, ‘um, poeta’, e a Castilho, ‘um literato’, e assim rever também um tanto da História Portuguesa. Havia nele, Garrett, algo de Chateaubriand, algo de naturalmente grande, no uso do sonho e também no desencanto; faceta esta, aliás, pouco lembrada (ou que o não é como devia) mas que interessa, e muito, a uma visão integral:
  • o que aquele antigo soldado voluntário escreveu, e publicou, acerca do tempo começado em Évora Monte, com novos Brenos a berrar, pilhar, assassinar e enriquecer; era o “regabofe”, como dirá Oliveira Martins. Levedavam já Gouvarinhos e Abranhos...
Trabalhos esquecidos, repita-se, que bem vale segmentar e reunir, respondendo a uma ideia já antigas. Úteis seriam também para dois instrumentos de trabalho que entendemos prioritários: uma bibliografia passiva de Garrett; e um dicionário, no modelo dos que recentemente servem os estudiosos de Eça e de Camilo.

Dos arrolamentos apontados vem o indículo que se segue, conferido e completado quanto possível, mas não quanto baste. Não se considera a forma primitiva dos trabalhos, quando posteriormente desenvolvidos, nem os materiais inéditos que sobre o tema deixou». In Leituras, Revista da Biblioteca Nacional, Ferreira Lima, estudioso de Almeida Garrett, Trabalhos Esquecidos, Luís Farinha Franco, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 1999.

Cortesia da BNP/JDACT

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Registos Mineiros na região de Portalegre no Período Fontista. Manuel Inácio Pestana. «Estrangeiros, dos que já se encontravam instalados por aqui ligados por outros interesses económicos, caso conhecido dos Robinson, Reynolds e Larcher, poderiam ter avançado com programas mais concretos, mas não temos conhecimento de projectos consecutivos»

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«Foi durante o período dito da “Regeneração”, designação histórica por que ficou conhecido o esforço do eminente estadista Fontes Pereira de Melo para arrancar o país da degradada situação em que o mergulharam os erros cabralistas, que se desenvolveu a exploração mineira em Portugal. Diz Veríssimo Serrão que a “Regeneração”, um terceiro liberalismo, prosseguiu a política de fomento mineiro, porque, entretanto, essa preocupação era já anterior do tempo em que, sendo Intendente Geral das Minas e Metais do reino (1801-1819) José Andrade Silva se procedeu ao registo geral das minas e se incrementou a exploração do carvão de pedra.
Determinados os governos nesse sentido, todo o país despertou activamente para as pesquisas do subsolo à procura de riquezas ocultas, valorizando terrenos, proporcionando oportunidades de investimento quer a nacionais quer a estrangeiros. Pretendia-se industrializar um país em atraso que desejava, segundo as expectativas dos seus governantes, acompanhar a Europa.
A Lei de 30 de Abril de 1849 e a criação de uma Comissão de Minas em Julho do ano seguinte demonstram claramente tais objectivos. Se não se atingiram inteiramente resultados previstos, o certo é que o espírito renovador da politica fontista animou vivamente a país de Norte a Sul, tornando-se esse período de quase décadas um sinal expressivo do desenvolvimento económico e de progresso que aconteceu.

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O Alentejo não ficou indiferente, atingido também por essa autêntica ‘febre mineira’. Carlos Ribeiro, figura relevante, geólogo e arqueólogo de reconhecida competência, dirigiu nessa época a Comissão Geológica de Minas e a ele se ficaram devendo os pareceres sobre as explorações que profundamente se requereram a partir dos manifestos registados, por força da lei, nas câmaras municipais.
Em dois tomos do Senado Portalegrense fomos encontrar, precisamente correspondendo ao período da “Regeneração Fontista”, uma série de registos que, pelo seu inegável interesse para a história económica da região, entendemos trazer ao conhecimento geral.

Citam-se os produtos localizados, evidência da riqueza do subsolo do concelho de Portalegre, classificados uns, ainda que às vezes, cremos, de modo empírico, desconhecidos outros; identificam-se os requerentes das minas, com suas origens de naturalidade e residência, às vezes, com indicação de idade, profissão e estado civil, assim como também se referem em muitos casos os proprietários dos terrenos, e demarcação destes e outros eventuais dados, todos eles muito úteis para se avaliar a perspectiva do panorama mineiro do concelho e da subsequente exploração e animação industrial da região que viesse a acontecer. Não passaram de intenções; apenas se pretendeu assegurar o direito às minas e se fizeram alguns eventuais ensaios. Estrangeiros, dos que já se encontravam instalados por aqui ligados por outros interesses económicos, caso conhecido dos Robinson, Reynolds e Larcher, poderiam ter avançado com programas mais concretos, mas não temos conhecimento de projectos consecutivos.

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Nem no concelho nem na região se instalaram indústrias extractivas ou transformadoras de aproveitamento dos minérios detectados no subsolo agora devassado. O levantamento da capacidade produtiva foi feito e ficou registado e isso, sem dúvida, é um facto importante da história económica local.
As descrições dos manifestos que adiante se desenvolvem mostram como os proprietários das minas e dos terrenos correspondem a gente de reconhecida capacidade económica, alguns com evidentes provas dadas, como os já referidos estrangeiros que tinham investido nos lanifícios e nas cortiças, que poderiam prosseguir novas experiências, outros eram pessoas ligadas à vida agrícola ou com peso social e político.

Os registos são, de qualquer forma, importantes ainda e também, no ponto de vista documental, pela informação que trazem à toponímica local, nomeadamente em relação a alguns microtopónimas, assim como à distribuição da propriedade. No ponto de vista geológico naturalmente os geógrafos especialistas se terão pronunciado de modo científico apreciando as qualidades do material descoberto e sobre as razões certas da sua localização, mais perto e mais longe das linhas de água, mais nas zonas áridas da montanha, mais perto ou mais longe da raia fronteiriça, do que no interior. De qualquer modo, por este levantamento se pode ficar a conhecer uma boa mancha mineira e se pode traçar um mapa da distribuição e da qualidade e quantidade do produto existente no concelho de Portalegre». In Manuel Inácio Pestana, Registos Mineiros na região de Portalegre no Período Fontista, Ibn Maruán, Revista Cultural do Concelho de Marvão, Coordenação de Jorge Oliveira, nº 2, 1992.

Cortesia da CM de Marvão/JDACT