quinta-feira, 28 de março de 2013

Destroços. O gibão de Mestre Gil e Outros Ensaios. Eduardo Lourenço. «Não está, de resto, ao alcance de ninguém o poder furtar-se a uma forma de projecção que é final a que justamente constitui ‘o passado’ ao mesmo tempo como ‘passado’ e ‘passado nosso’»

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«Não há uma só linha neste texto que não seja discutível. Estou quase certo que o António José Saraiva de 1965 teria engulhos em o subscrever. A facilidade moderna que a todos nos é concedida de imputar a autores antigos ideias, atitudes, opções que o futuro desmonetizou e passam a nossos olhos como etiquetas relativizadas pela História, esconde-nos esta coisa simples e óbvia: é que tais atitudes, se tivessem existido, eram para os seus autores caso de vida e de morte. Eram até mais do que isso e pouco importa que autores modernos já não conheçam nem o preço nem o sabor, nem a gravidade do que está em causa. Se Gil Vicente tivesse sido, no meio de uma corte piedosa a quem jamais alguém se lembrou de contestar a ortodoxia, esse incrível adepto de não sei que Deus sem transcendência nem personalidade (posto, ainda por cima, na conta do beato Raimundo Lúlio...) não era apenas a sua situação civil privilegiada, nem a sua fantasiosa cabeça que corriam riscos que o autor de um ensaio sobre a Inquisição (maldita) facilmente adivinhará, mas igualmente a totalidade do seu destino, ou para usar a linguagem de Mestre Gil, a sua salvação. Na perspectiva de António José Saraiva não caberia, a menos de julgar a sociedade do seu tempo imbecil e estúpida, outra solução que a de supor Gil Vicente ou refinado hipócrita ou bobo inofensivo e inconsciente. Mas nem A. J. Saraiva aceitaria esta conclusão, que todavia é a única adequada às suas premissas.
De onde procede uma tão arriscada formulação das intenções espirituais (deixo de lado as ideológicas que também dariam pano para mangas e A. J. Saraiva mete no mesmo saco) de Gil Vicente? António José Saraiva não é um publicista qualquer, é um escolar responsável, capaz, formado ou sabedor das boas regras metodológicas, apostado mesmo na tarefa grandiosa, acaso desmedida, de refazer de alto a baixo uma historiografia literária tradicional. É necessário apreciá-lo na linha da exigência, da claridade, do respeito pela verdade que publicamente norteiam o seu labor, como norteiam o de outros que lhe são ou foram próximos, Óscar Lopes, Mário Sacramento, o mais jovem Costa Dias.
A única resposta que permite salvar afirmações tão abusivas, tão solidamente infundadas, mas pelas quais se não pode ter a indulgência do deslize por serem filhas de um sistema e sistematicamente renovadas a propósito de muitos, para não dizer de todos os autores tratados (João de Barros, Camões, etc.) é a de admitir, por um lado, a sinceridade da convicção que as dita, o que não ponho em dúvida, e por outro, a de que essa convicção é inadequada à compreensão do nosso passado. A tendência a interpretar o passado projectando sobre ele evidências ou descobertas modernas não é, em si, uma fonte de abuso. Não está, de resto, ao alcance de ninguém o poder furtar-se a uma forma de projecção que é final a que justamente constitui o passado ao mesmo tempo como passado e passado nosso. Mas a esta fatalidade convém não acrescentar as que nós fabricamos por inatenção, desrespeito ou falta de prudência metodológicas que sem eliminar o risco de erro, o podem atenuar e com alguma humildade aproximar-nos do plausível». In Eduardo Lourenço, Destroços, O Gibão de Mestre Gil e Outros Ensaios, Gradiva, 2004, ISBN 972-662-945-4.

Cortesia Gradiva/JDACT

Música. Actualidade. «A vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem e/ou mulher. A vida é o que eu estou a ver: uma noite majestosa e nua sobre estes montes cobertos de neve...»

Cortesia de wikipedia


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Narração da Inquisição de Goa. Charles Dellon. «A imprensa publicou já as máximas da inaudita jurisprudência deste tribunal, a análise dessas máximas e as consequências que têm resultado delas em muitos casos; mas ninguém, tem ousado revelar o que se passa no secreto dessa casa»

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Motivos que me moveram a dar a público a presente narração
«Todos sabem o que é a Inquisição (maldita) em geral; que ela fora estabelecida em certos reinos como a Itália, Espanha, Portugal e na maior parte das suas possessões do ultramar; que os juízes, que presidem esse tribunal, usam de nímia severidade nas suas decisões.

NOTA: A Inquisição (maldita), posto que nascida em França, não pôde ali conservar-se, apesar de ser organizada em 1255 por Alexandre III de acordo com S. Luís. Em 1221 foi introduzida por Inocêncio IV por toda a Itália, menos Nápoles, onde existiram trinta e dois tribunais da sua jurisdição, e pouco depois se estendeu pela Alemanha, mas não foi ali mais feliz que em França. Já no princípio do século XIII penetrara a Inquisição (maldita) a pouco e pouco na Espanha, mas desde 1478 foi organizada com estatutos regulares em Sevilha pelo zelo do cardeal Pedro Gonsalves de Mendonça, arcebispo daquela diocese. Porém, no reinado de Fernando e Isabel é que o primeiro inquisidor Torquemada lhe deu uma forma tão ampla e enérgica como feroz e sanguinária. Durante os dezoito anos do ministério daquele terrível inquisidor foram processadas 105 294 pessoas, das quais 8800 foram queimadas em pessoa e 6500 o foram em efígie. O abade Bergier acha que é exagerado este número. O contágio da Espanha não podia deixar de se comunicar a Portugal, mas vários motivos lhe obstaram, até que o rei João III, possuído de grande zelo da religião e vencendo muitas dificuldades, obteve do papa Paulo III a bula de 23 de Março de 1536, facultando o efectivo estabelecimento da Inquisição (maldita) no seu reino. Esta bula determinava que nos primeiros três anos seriam os réus processados nos termos regulares, à maneira do que se praticava nos crimes de homicídio e furto, e que só passados dez anos se poderia aplicar a pena de confisco. Também vulgarmente se atribui a introdução da Inquisição (maldita) ao espanhol Juan Perez de Saavedra, natural de Córdova, insigne falsificador de documentos, o qual, com o suposto carácter de núncio apostólico e uma bula também falsa, se apresentara na corte de João III, onde fora recebido com a consideração devida a eminente personagem, que afectara. Visitara uma parte do reino e com o pretexto de absolvições, indulgências e dispensas sacara avultadas somas, até que descoberta a impostura, no fim de seis meses, fora preso em Moura e processado pela Inquisição (maldita) de Espanha, que o condenara às galés. Passados dezanove anos de castigo, fora posto em liberdade por Filipe II, a instâncias do papa Paulo IV, que o desculpara como um instrumento de que Deus se servira para fazer grandes benefícios à Igreja. E assim, apesar deste desfecho, continuou a Inquisição (maldita) a exercer as suas funções como se fora legalmente criada. O Alexandre Herculano dá por falsa esta tradição. O frade de S. Francisco da província da Piedade, frei Diogo da Silva, que antes de ser religioso fora desembargador da casa de suplicação, e depois bispo de Ceuta, confessor de el-rei e finalmente arcebispo de Braga até o tempo de sua morte, obteve o cargo de primeiro inquisidor em Portugal. Foi no século XVII que a Inquisição (maldita) fez neste reino o mais terrível uso do seu poder. Desde o seu estabelecimento e durante o domínio dos Filipes, obtivera o maior favor das leis e o aumento da sua jurisdição, e só porque João IV se lembrara de a reformar e privar da pena de confisco, o seu cadáver teve de passar por uma absolvição solene para obter sepultura eclesiástica. Os autos-de-fé eram frequentes e até ao ano de 1792 apareceram nos cadafalsos em hábitos de infâmia penitenciados por este tribunal 22 058 réus e foram condenados ao fogo 1454. O marquês de Pombal, apesar de abrir aos cristãos-novos a caneira das honras e de fazer tantas reformas, não se atreveu contudo a extinguir a Inquisição de Portugal e contentou-se em reformá-la, convertendo-a em tribunal régio e tirando-lhe o carácter eclesiástico e a influência pontifícia. O jesuíta Malagrida, que não passava de um visionário, foi a última vítima condenada à morte por este tribunal. Desde então, o Santo Ofício (maldito), combatido pela opinião pública, caiu em descrédito; ainda perseguia, mas já não se atrevia a fazer alardo público da sua intolerância e sanguinárias sentenças, até que pela revolução de 1820 foi abolido com aplauso geral.

É igualmente certo que o rigor da Inquisição (maldita) não é uniforme em todos os países onde ela existe, porque a inquisição da Espanha é mais severa que a da Itália e menos que a de Portugal e suas possessões.

NOTA: Mas pior que a Inquisição de Portugal é a de Goa reputada por alguns autores; e entre outros pelo francês François Pyrard, que ali residiu desde Junho de 1608 até Janeiro de 1610, o qual na sua Viagem, 1858 diz que a Inquisição de Goa era mais severa que a de Portugal porque mui frequentemente queimava os judeus, a quem os portugueses chamam cristãos-novos, etc. O João Félix Pereira é outro autor que modernamente corrobora a opinião de Pyrard: A Inquisição de Goa se distinguiu por maiores rigores que todos os tribunais da metrópole; milhares de vítimas pereceram nas chamas; e quando estas sanguinolentas execuções faziam temer algum movimento sedicioso, os vice-reis e governadores, já não gozando a força aberta, empregavam o ferro dos assassinos e o veneno. É por estas e outras atrocidades que o sábio jurisconsulto Coelho da Rocha, pintando vivamente a intolerância com que Portugal pela sua Inquisição (maldita) tratava os estrangeiros, sujeitando seus navios à visita dos seus esbirros, e fazendo desaparecer o grande comércio a que a natureza destinara aquele reino, lamenta a Inquisição de Goa nestas sentenciosas frases: Nada há porém que iguale o desacordo de estabelecer o Santo Ofício em Goa, onde todas as considerações mandavam evitar a severidade religiosa para com homens ignorantes convertidos de pouco; e em uma praça onde mercadejavam nações tão variadas em crenças como em cor e origem. Após estes vultos europeus, citaremos, pela coincidência das mesmas ideias, os Quadros Históricos de Goa, de J. C. Barreto Miranda, que é um dos ornamentos da mocidade goana aplicada às letras, o qual, discorrendo sobre a Inquisição de Goa, diz (seguindo a Ferdinand Denis, no seu Portugal) o seguinte: As crueldades que em nome da religião da paz e amor praticava este tribunal na Europa, subiam a maiores excessos na Índia, onde os inquisidores, cercados dum luxo severo que não cedia em nada à magnificência real dos maiores potentados da Ásia, via com orgulho submetido ao seu poder tanto o arcebispo como o vice-rei. E por último, bastará para se fazer ideia da omnipotência da Inquisição de Goa o seu edital de 14 de Abril de 1736, que é um verdadeiro manifesto contra os usos e costumes religiosos dos indianos, documento importantíssimo, tirado pela primeira vez à luz do dia do arquivo da secretaria do governo pelo literato português que temos entre nós, o conselheiro Rivara, que tanto tem publicado sobre as coisas de Goa (Ensaio Históríco da Língua Concani, 1858.

A imprensa publicou já as máximas da inaudita jurisprudência deste tribunal, a análise dessas máximas e as consequências que têm resultado delas em muitos casos; mas ninguém, que me conste, tem até, agora ousado revelar o que se passa no secreto dessa casa, porque os inquisidores, empenhados em manterem ilesa a sua jurisdição, são os primeiros que ocultam ou não descobrem o triste sudário dos segredos da instituição». In Charles Dellon (1649-1709?), Relation de L’Inquisition de Goa, 1687, Leyden, Holanda, Narração da Inquisição de Goa, tradução e notas de Miguel Vicente Abreu (1827-1883), Nova Goa, 1866, Edições Antígona, Lisboa, 1996, ISBN 972-608-075-4.

A saudade do Álvaro José (onde quer que estejas!)
Cortesia de E. Antígona/JDACT

Henrique VI. Rei Enfermo que sofreu Dramático Destino. «Dos três membros, de tão atribulada existência, da família de Henrique VI, unicamente a pundonorosa rainha Margarida de Anjou logrou morrer de morte natural»

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«Faltavam, somente, para que a situação se consolidasse, uns ‘pequenos pormenores’, que ele não tardaria a arrumar. Por sua ordem, cruel sem dúvida, mas amplamente justificada pela necessidade de ser liquidada a questão do trono de maneira duradoira, o pequeno príncipe de Gares, filho de Henrique VI e de Margarida de Anjou, é arrebatado dos braços da angustiada mãe e massacrado na prisão nesse decorrente ano de 1471. Henrique VI, o inofensivo rei, que parece ter vindo ao mundo apenas para ser joguete inconsciente de dramático destino, manejado ao sabor das ambições da época e das individualidades que o rodeavam, esse doentio monarca que, não poucas vezes, sofreu o enxovalho do aprisionamento, deixou, também, de viver, alguns dias depois.
Tudo leva a crer que a sua morte, obscura e não determinada nas causas, haja sido consequência de um crime, pois não é crível que o seu voluntarioso e inescrupuloso rival no trono inglês tenha deixado o pai com vida, quando não hesitou em sacrificar, barbaramente, a inflexíveis razões de Estado, o inocente filho daquele. Dos três membros, de tão atribulada existência, da família de Henrique VI, unicamente a pundonorosa rainha Margarida de Anjou logrou morrer de morte natural. Encerrada, igualmente, na tenebrosa prisão política de Londres, ali se conservou durante quatro longos e martirizantes anos, vivendo as agruras do terrível cativeiro junto à angústia maior do seu flagelado coração de mãe, a chorar a funda saudade do filhinho massacrado.
A admirável mulher, exemplo nobilíssimo de mãe e de esposa, tão causticada pelas provações, esse vulto feminino de tão bela grandeza que almejava a morte como uma libertação para a alma amarfanhada de sofrimento, foi, afinal, por cruel partida do destino, a que viveu mais tempo. Graças à mediação de Luís XI, ela pôde recobrar a liberdade em 1475, indo acabar os seus dias em França, em 1482, onze anos após o selvático assassínio do príncipe de Gales, seu filho. Sobreviveu ao implacável inimigo. A união das duas casas rivais inglesas, a de Lancastre e a de York, só viria a ser celebrada, terminando de vez com as dissidências rancorosas entre ambas, no reinado de Henrique VII, o Tudor, descendente dos Lancastres. Com efeito, este monarca, depois de derrotar e matar, por suas próprias mãos, o odioso Ricardo III, em 1485, contraiu núpcias com Isabel de York, filha de Eduardo IV. A união dos direitos das duas casas punha fim à extenuante Guerra das Duas Rosas». In Américo Faria, Dez Monarcas Infelizes, Livraria Clássica Editora, colecção 10, Lisboa, s/d.

Cortesia de L. Clássica Editora/JDACT

quarta-feira, 27 de março de 2013

O Prior do Crato. 1902. Prelúdios de Amor. J. Oliveira Mascarenhas. «Não é apto para se apaixonar por Egérias imaginárias, - não é assim João?... Pois apaixonei-me eu. João de Castro escutava atentamente. Fazia-lhe estranheza aquela linguagem do jovem príncipe, que não compreendia bem. Luiz deu-se pressa em desfazer-lhe a ostensiva confusão»

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D. Luiz e a Pelicana
« - Dizei-me senhor - prosseguiu ele: como é que os sentidos versos que fizestes e ocultais, têm artes de nos arrebatar docemente, e de pôr-nos no ânimo sensações desconhecidas?... Já amaste alguma vez como Dom-Duardos?... Já no vosso caminho topastes alguma linda Flérida?... Não! – Respondeu sentidamente o infante. Flérida é o vago… É o desconhecido... É um capricho… É um desejo... João de Castro confessou-se intimamente vencido por este singular arranco metafísico, e ficou mudo como os môrros revestidos de aveludada relva, que os seus possantes solípedes impiedosamente calcavam. Luiz fitou-o a furto, e notou a confusão em que o havia deixado a resposta que lhe dera.
 - Dizei-me - perguntou-lhe o moço príncipe. Nunca ouvistes falar na Egéria da antiga Roma?  - Era uma célebre ninfa que inspirava o velho Numa. - Pois eu, como Numa Pompílio, sinto-me preso às seduções de uma outra ideal Egéria. – Ah!... Ah!... Ah!... deixai-me rir,senhor. - Será motivo para chufa, um afecto tão inocente?! – Perdão. Eu não sei rir de escárnio, e muito menos quando se trata de afectos vossos… que são sempre imaculados! Mas quem vai rejeitado, dia a dia, princesas e rainhas tão belas como poderosas…

NOTA: O infante Luiz rejeitou a mão de Maria Tudor, rainha de Inglaterra, e a da princesa Edwiges, mais tarde rainha da Polónia.

 - Não é apto para se apaixonar por Egérias imaginárias, - não é assim João?... Pois apaixonei-me eu. João de Castro escutava atentamente. Fazia-lhe estranheza aquela linguagem do jovem príncipe, que não compreendia bem. Luiz deu-se pressa em desfazer-lhe a ostensiva confusão. – Vejo que vos embaraçaram as minhas revelações... Pois bem. Ides saber por completo o meu mais íntimo sigilo. – Como poderei corresponder a tamanha honra, senhor? - É muito fácil, e difícil. Fácil, se guardardes o meu segredo, como se guardam as sagradas fórmulas no interior de um sacrário; e difícil, se me ajudardes a realizar o meu sonho... meu desejo.
 - Como?!... - É que ainda não vi, nem ouvi, aquela por quem me apaixonei. João de Castro fitou suspeitosamente o interlocutor. Custava-lhe a crer que estivesse ali aquele príncipe de espírito esclarecido… aquele príncipe que fora o orgulho de um grande mestre… aquele príncipe de vinte e três ridentes primaveras, tão respeitado por velhos e rapazes… aquele príncipe, enfim, que era um dos mais suaves trovadores da corte. - Ainda me não compreendestes, João? - Senhor, não! - Amo, e não sou amado! - Será possível?! Desenhou-me o cérebro no coração a imagem de um ente peregrino, que não vi ainda personificado. E amo a quimera… o vago... o desconhecido!...
E jornadeio na esperança de encontrar a realização deste sonho febril, que não é um pesadelo, mas que me deixa em luta com essa visão querida, cujos dedos vaporosos me apertam e torturam. - Mas... o que desejais de mim, senhor? - Que me ajudeis a procurar a realização desse ideal, percorrendo comigo o mundo até a encontrarmos. - Percorrerei!... - Está pactuado». In J. A. Oliveira Mascarenhas, P Prior do Crato, romance histórico, ilustrações de Bemvindo Ceia, Typ. Lusitana-Edirora de Arthur Brandão, Lisboa, 1902.

continua
Cortesia de Typ. Lusitana/JDACT

O Prior do Crato. 1902. Prelúdios de Amor. J. Oliveira Mascarenhas. «Ides ouvir. E João, dando à voz e ao rosto másculo uma expressão menos viril, começou a recitar o “Dom-Duardos” ao som pouco eufónico do choutar dos marroquinos. A seu turno, o infante, embevecido pelo ritmo dos próprios versos e pela profunda filosofia…»

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D. Luiz e a Pelicana
«Numa fagueira madrugada de um dos dias do mês de Agosto de mil quinhentos e vinte e nove sua alteza o senhor infante Luiz, irmão de el-rei João III, e o sei dilecto amigo e condiscípulo João de Castro, futuro vice-rei da Índia, acompanhados de um grupo de escudeiros e lacaios, eram vistos a atravessar a ponte de barcas, que naquele tempo, existia cerca da foz do rio Coa. Encaminhava-se a comitiva para as terras de Bragança, onde, para fins venatórios, o respectivo duque Jayme a esperava. O infante Luiz caminhava triste e pensativo, a despeito do bom humor do seu amigo, humor temperado pelo sadio ar puro e balsâmico das campinas e matagais. No que pensaria?
 - Grande labor de espírito vos interessa hoje senhor! Disse João de Castro, dirigindo-se-lhe e fazendo ladear um pouco o seu valente corcel. - -Ah!... Desculpai-me João. Vinha a pensar... a pensar... nem eu sei em quê. Dizei-me: gostais desta feracíssima vegetação?... É magnífica, não é ?... - Soberba, meu senhor. - E um castelinho aqui… rodeado de árvores frondosas… e uns muros muito altos?... - Devia ser uma encantadora vivenda para milhafres… - Bem se vê que sois um gélido matemático.
  • E se dentro desse castelinho existisse uma deliciosa rapariga, cujos lábios carminados vos inundassem de beijos... cujo farto seio arfasse junto ao vosso… e cujos olhos negros vos mergulhassem numa doce noite escura?
 - Ah!... ah!... ah!... gargalhou o moço Castro. Vê-se, meu senhor, que trazeis novo romance na mente. - Ah! E como é melodioso e sentido o vosso Dom-Duardos!... - Onde vistes o Dom-Duardos? !... - Na mão de Gil Vicente. Mas, se o velho mestre foi indiscreto, perdoai-lhe, senhor, pelo muito que vos quer e pelo apreço em que vos tem. O único culpado na inconfidência, fui eu, pois quase o obriguei a deixar-me decorar os vossos versos… - Decoraste o meu romance?... - Com mais prazer do que decorava convosco as lições de Pedro Nunes.

NOTA: Pedro Nunes, o glande matemático, nasceu na vila de Alcácer do Sal, em 1492, segundo alguns autores; falecendo, no dizer de Bayle, em 1577. Fez os seus estudos em Lisboa e Salamanca, foi lente de filosofia na Universidade de Lisboa, e cosmógrafo-mór do reino. Deixou muitas obras de valor. Os seus mais laureados discípulos em matemática foram o infante Luiz e João de Castro.

Ides ouvir. E João, dando à voz e ao rosto másculo uma expressão menos viril, começou a recitar o Dom-Duardos ao som pouco eufónico do choutar dos marroquinos. A seu turno, o infante, embevecido pelo ritmo dos próprios versos e pela profunda filosofia que eles continham, repetia com um mal disfarçado tremor na voz:

Saibam quantos são nascidos,
sentença que não varia:
contra a morte e contra amor
que ninguém não tem valia.

 - Grande verdade é essa, senhor. Que poder terão os homens, que resistir possa a um amor veemente?... O moço duque de Beja não respondeu logo. E o futuro vice-rei da Índia, que, além da sua fina e ilustrada observação, o conhecia tão bem como se fora ele próprio, entrou a convencer-se de que o infante estava ferido, mas muito ferido no mais íntimo do coração. Aquele mutismo profundo e raras vezes interrompido… Aquela ascética meditação de tantas léguas de caminho… Aquele estranho respirar ofegante… Aqueles pueris devaneios de castelinho… Aquele quadro pitoresco da donzela de olhos negros… Tudo isto, concatenado e meditado, dava enfim ao moço Castro, a prova moral que o firmava em semelhante presunpção. Ah! Que se ele pudesse dar-lhe alívios?!» In J. A. Oliveira Mascarenhas, P Prior do Crato, romance histórico, ilustrações de Bemvindo Ceia, Typ. Lusitana-Edirora de Arthur Brandão, Lisboa, 1902.

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Cortesia de Typ. Lusitana/JDACT

terça-feira, 26 de março de 2013

Poesia. Écloga de Jano e Franco (fragmentos). Bernardim Ribeiro. «Dizem que, naqueste meio, se esteve Joana olhando; e, descobrindo o seu seio, olhou-se, e disse, um ai dando: ‘Eu guardo patas, coitada, não sei onde isto há-de ir ter, mais era eu para guardada»

Cortesia de wikipedia e jdact

(Continuação)

Écloga de Jano e Franco
Joana, como assentou
a capela, foi com a mão
à cabeça, e atentou
se estava em boa feição.
Não ficando satisfeita
do que da mão presumia,
partiu-se dali direita
para onde o rio fazia
de água uma mansa colheita.

Chegando à beira do rio,
as patas logo vieram
todas uma e uma, em fio,
que toda a água moveram.
De quanto ela já folgou
com aquestes agasalhos,
tanto entonces lhe pesou,
e com pedras e com brados
dali longe as enxotou.

Depois que elas foram idas
e que a água assossegou,
Joana, as abas erguidas,
entrar pela água ordenou:
e assentando-se, então,
as sapatas descalçou,
e, pondo-as sobre o chão,
por dentro da água entrou
e a Jano pelo coração.

Enquanto, com passos quedos,
Joana pela água ia,
entre uns desejos e medos,
Jano, onde estava, ardia;
não sabia se falasse,
se saísse, se estivesse,
que o amor mandava que ousasse,
e, por que a não perdesse,
fazia que arreceasse.

Dizem que, naqueste meio,
se esteve Joana olhando;
e, descobrindo o seu seio,
olhou-se, e disse, um ai dando:
‘Eu guardo patas, coitada,
não sei onde isto há-de ir ter,
mais era eu para guardada.
Que concerto foi este: ser
fermosa e mal empregada!’

Em aquisto Jano ouvindo,
não se pôde em si sofrer,
que, de entre as ervas saindo,
se não lançasse a correr.
Joana, quando sentiu
os estrompidos de Jano,
e que se virou e o viu,
temor do presente dano
lhe deu pés com que fugiu.

[...]

Fragmento do Poema de Bernardim Ribeiro

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Herculano e a Geração de 70. João Medina. «A sua boa amizade quer relevar-me de uma responsabilidade que é minha e como tal quero toda. A frase é do Herculano, eu perfilhando-a tornei-a minha»

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Teófilo contesta Herculano
«Achou a porta do abstruso sintético e simbólico engrinaldada de maravalhas francesas: meteu-se por ela; e, em resultado, aí temos, não direi a Visão, as Tempestades e a Ondina, porque não quero que V. S.ª fique mal comigo, mas direi a História da Poesia Popular e os Forais que V. S.ª trata desapiedadamente. E depois destas linhas tão certeiras, pergunta Herculano porque não dá ao mesmo Teófilo certo conselho que acabava de endereçar ao jovem Oliveira Martins:
  • Dir-me-á porque não o dou a Teófilo Braga? Porque não o aceita. Aquele, ou já se não cura, ou há-de curar-se a si mesmo. É o que, sem lho dizer, eu do coração desejo.
Esta carta do ilustre aldeão data de 1869 e foi, aliás, reproduzida pelo próprio Teófilo no seu livro de correspondência e autobiografia mental. Quarenta Anos de Vida Literária, 1860-1900 (Lisboa, 1903), em nota às missivas trocadas com Oliveira Martins. Numa carta a Teófilo, de Janeiro de 1870, Oliveira Martins ocupa-se precisamente da frase de Herculano e tenta explicá-la ao amigo, uma vez que a referida epístola de Vale de Lobos já tinha sido dada à estampa pelo destinatário. Magoou-o, diz-me, escreve o autor de Phoebus Moniz,
  • a frase de Herculano que eu trouxe para a imprensa. A sua boa amizade quer relevar-me de uma responsabilidade que é minha e como tal quero toda. A frase é do Herculano, eu perfilhando-a tornei-a minha. É bom sempre que a amizade não nos faça indulgentes. (carta de 25 de Janeiro de 1870).
Mais adiante, depois de ter procurado atenuar o que podia haver de desagradável para Teófilo na missiva herculaniana, Oliveira Martins conclui:
  • Parece-me também um tanto errado o juízo que faz do Herculano. Creio que há um erro geral no carácter legendário que lhe tem sido feito. Herculano não é injusto. Rude de natural, tem feito um estudo para se embrutecer cada dia mais. É verdade que ele se dá por vezes seus ares, mas no fundo é um espírito são, cândido até. Eu, pelo menos, creio-o assim e respeito-o.
Vemos já desenhar-se a divergência profunda que irá separar a argúcia crítica e humana de um Oliveira Martins, admirador exigente de Herculano, e a ojeriza ressentida, vesga, sectária e perfeitamente desprovida de fundamentos críticos de um Teófilo. Não será sequer inexacto ou exagerado acrescentar que o primeiro, o autor do Portugal Contemporâneo, soube ver e saudar a verdadeira estatura titânica e fundamente prestante do solitário de Vale de Lobos, enquanto o poeta frustíssimo da Visão dos Tempos, toldado pelo despeito e por irracional animadversão que lhe desfocou todo o sentido crítico e a noção mais elementar dos valores e das proporções, se entregou com inflexível rancor às delícias de abocanhar a memória e a figura de Herculano, pelo menos desde 1873, o ano em que publica na Bibliografia Crítica de História e de Literatura, de Adolfo Coelho, uma catilinária que seria, aliás, retomada quase que ipsis verbis cerca de duas décadas depois, no volume de As Modernas Ideias na Literatura Portuguesa, em 1892. Uma pequena amostra dessa óptica de rancor acusatório transparece já, por exemplo, nesta passagem da sua pequena História das Ideias Republicanas em Portugal, de 1880:
  • O despeito político de Herculano, que precedeu a sua abstenção da actividade literária, foi um terrível exemplo para a geração nova, que entendeu que a literatura era incompatível com a participação dos interesses sociais do momento.
Razão tinha o antigo soldado raso que desembarcara entre os 7500 do Mindelo, para implantar em Portugal a Liberdade: Teófilo ou se curaria a si mesmo ou então ficaria para sempre enquistado nos seus preconceitos, fobias, tinetas e tiques mentais». In João Medina, Herculano e a Geração de 70, Edições Terra Livre, Lisboa, ano IV da Liberdade, 1977.

continua
Cortesia de Terra Livre/JDACT

Os Portugueses em Marrocos. António Dias Farinha. «Na foz do Cebu, o rio mais caudaloso de Marrocos, os portugueses pretenderam construir, em 1515, a fortaleza de Mamora. A expedição saldou-se por um grave desastre, porque os Mouros atacaram na maré baixa…»

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O Interesse pelo Norte de África
«A tomada de Ceuta integra-se no desejo cristão de reconquista da África do Norte e de colonização portuguesa da parte ocidental desse território. O fracasso final dessa política revela o ponto de equilíbrio entre as forças cristãs e muçulmanas, a islamização e arabização a que a Berberia fora submetida e, talvez, a sintonia com que o Islão árabe soube viver com os Berberes e outros habitantes dessa particular região do mundo então chamada Jazirat al-Magrib, a ilha do Magrebe. No território de Marrocos distinguem-se três faces distintas que lhe conferem uma vigorosa personalidade. Em contacto com o mar situa-se uma zona de planícies atlânticas, regadas por numerosos rios que correm das montanhas do Atlas, férteis em cereais e pastagens e habitadas, sobretudo, por nómadas arabizadas.
A zona de montanhas divide-se em dois sistemas principais: o Rife e o Atlas. O Rife bordeja o Estreito de Gibraltar, incluindo a cidade de Ceuta, e a fachada norte, virada ao Mediterrâneo; o Atlas, formado pelo Médio, Alto e Antiatlas, orientado no sentido nordeste-sudoeste e paralelo à linha da costa; separa as planícies atlânticas do deserto que se estende a oriente e a sul. Este, o Sara, o maior dos desertos, merece bem a designação de Mediterrâneo sariano, pelo carácter de insularidade que confere ao Magrebe. As duas últimas regiões são predominantemente habitadas por Berberes, sedentários nas montanhas e nómadas no deserto. Os portos magrebinos eram de difícil acesso, por factores vários: a costa tem um recorte pouco pronunciado, com raras enseadas, e é exposta aos ventos de norte e do oeste. Os estuários dos rios são de medíocre valor para a navegação de alto mar, devido às areias que as torrentes arrastam no momento das cheias ou ao recorte rochoso com que a natureza os dotou. Só pequenos barcos podem fundear no interior desses estuários, como acontece com o rio que desagua junto do Alcácer Ceguer ou com o Lucos, rio de Larache, na margem do qual se ergueu a cidade antiga de Lixus, já abandonada quando das conquistas portuguesas.
Na foz do Cebu, o rio mais caudaloso de Marrocos, os portugueses pretenderam construir, em 1515, a fortaleza de Mamora. A expedição saldou-se por um grave desastre, porque os Mouros atacaram na maré baixa e os navios portugueses não puderam manobrar nem receber reforços dos barcos de maior tonelagem que haviam permanecido fora do estuário. Mais para sul, a foz do Bu Regregue, ou rio de Salé, e o Umm al-Rabi, o Morbeia dos textos portugueses, junto a Azamor, não permitem tão pouco o acesso aos navios oceânicos. As enseadas de Safim e Agadir serviam de portos a regiões ricas pela indústria de tecidos e de escoadouro aos produtos do Sus. No extremo sul a costa torna-se baixa, povoada de recifes, e a ressaca afasta os barcos da costa. O rico comércio do interior obrigava os mercadores a fundear em Meça, na foz do rio do mesmo nome, já próximo do cabo Não, limite meridional na navegação atlântica anterior aos descobrimentos portugueses.
As fronteiras de Marrocos coincidem com limites geográficos naturais que contribuem para lhe conferir uma individualidade marcada e para um relativo isolamento: ao Norte, o mar Mediterrâneo; a Ocidente, o oceano Atlântico, e a Sul e Oriente, o grande deserto do Sara. As ligações com o exterior limitavam-se, assim, à via marítima, com as deficiências já apontadas, ao estreito corredor de Taza, tradicional caminho das invasões orientais, situado entre os sistemas montanhosos do Rife e do Atlas, e às cáfilas de camelos que atravessavam o deserto para ir buscar o ouro, os escravos e outros produtos à terra dos negros». In António Dias Farinha, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Colecção Lazúli, IAG, Artes Gráficas, ISBN 972-566-206-7.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT

Poesia. Cenas Vivas. Fiama Pais Brandão. «Deste meu lado, dois olhos que vigiam os fenómenos naturais, incluindo a celeste mecânica e as sociedades humanas, sedentárias e transumantes»

Cortesia de wikipedia

A Porta Branca
Por detrás desta porta,
uma de todas as portas que para mim se abrem e se fecham,
estou eu ou o universo que eu penso.
Deste meu lado, dois olhos que vigiam
os fenómenos naturais, incluindo a celeste mecânica
e as sociedades humanas, sedentárias e transumantes.

Mas podem os olhos fazer a sua enumeração,
e pode o pensado universo infindamente ir-se,
que para mim o que hoje importa
é aquela olhada vaga porta.

Que ela seja só como a vejo, a porta branca,
com duas almofadas em recorte,
lançada devagar sobre o vão do jardim,
onde o gato, por uma fenda aberta
pela sua pata, tenta ver-me,
tão alheio a versos e a universos.

Poema de Fiama Pais Brandão, in ‘Cenas Vivas’

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Prosa. Os Passos em Volta. Herberto Helder. «Conhece com certeza essa coisa tão simples, tão harmoniosa e definitiva que é um sistema de três equações a três incógnitas. Primário, rudimentar. Resolvi milhares de equações. Depois ouvia Bach»

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Estilo
« - Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe? Acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... A nossa vida, a vida inteira, está ali como... Como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos:
  • o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação.
Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é? A calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?
Uma vez fui a um médico. - Doutor, estou louco - disse. – Devo estar louco. - Tem loucos na família? - perguntou o médico. - Alcoólicos, sifilíticos? - Sim, senhor. O pior. Loucos, alcoólicos, sifilíticos, místicos, prostitutas… Estarei louco? O médico tinha sentido de humor, e receitou-me barbitúricos. - Não preciso de remédios - disse eu. - Sei histórias tenebrosas acerca da vida. De que me servem barbitúricos? A verdade é que eu ainda não havia encontrado o estilo. Mas ouça, meu amigo: conheço por exemplo a história de um homem velho. Conheço também a de um homem novo. A do velho é melhor pois era muito velho, e que poderia ele esperar? Mas veja, preste bem atenção. Esse homem velhíssimo não se resignaria nunca a prescindir do amor. Amava as flores. No meio da sua solidão tinha vasos de orquídeas.
O mundo é assim, que quer? É forçoso encontrar um estilo. Seria bom colocar grandes cartazes nas ruas, fazer avisos na televisão e nos cinemas. Procure o seu estilo, se não quer dar em pantanas. Arranjei o meu estilo estudando matemática e ouvindo um pouco de música. – João Sebastião Bach. Conhece o Concerto Brandeburguês n.º 5? Conhece com certeza essa coisa tão simples, tão harmoniosa e definitiva que é um sistema de três equações a três incógnitas. Primário, rudimentar. Resolvi milhares de equações. Depois ouvia Bach. Consegui um estilo. Aplico-o à noite, quando acordo às quatro da madrugada. É simples:
  • quando acordo aterrorizado, vendo as grandes sombras incompreensíveis erguerem-se no meio do quarto, quando a pequena luz se faz na ponta dos dedos, e toda a imensa melancolia do mundo parece subir do sangue com a sua voz obscura... Começo a fazer o meu estilo.
Admirável exercício, este. Às vezes uso o processo de esvaziar as palavras. Sabe como é? Pego numa palavra fundamental. Palavras fundamentais, curioso... Pego numa palavra fundamental: Amor, Doença, Medo, Morte, Metamorfose. Digo-a baixo vinte vezes. Já, nada significa. É um modo de alcançar o estilo. Veja agora esta artimanha:

As crianças enlouquecem em coisas de poesia.
Escutai um instante como ficam presas
no alto desse grito, como a eternidade as acolhe
enquanto gritam e gritam.
(...)
 - E nada mais somos do que o Poema onde as crianças
se distanciam loucamente.

Trata-se do excerto de uma poesia. Gosta de poesia? Sabe o que é poesia? Tem medo da poesia? Têm o demoníaco júbilo da poesia? Pois veja. É também um estilo. O poeta não morre da morte da poesia. É o estilo. Está a ouvir como essas enormes crianças gritam e gritam, entrando na eternidade? Note: somos o Poema onde elas se distanciam. Como? Loucamente. Quem suportaria esses gritos magníficos? Mas o poeta faz o estilo.
Perdão, seja um pouco mais honesto. Seja ao menos mais inteligente. Vê-se bem que não estou louco. Eu, não. As crianças é que enlouquecem, e isso porque lhes falta um estilo. Sabe de que lhe estive afalar? Da vida? Da maneira de se desembaraçar dela? Bem, o senhor não é estúpido, mas também não é muito inteligente. Conheço. Conheço o género. Talvez eu já, tivesse sido assim. Pratica as artes com parcimónia: não a poesia, mas as poesias. Cultiva-se, evidentemente. Se calhar está demasiado na posse de um estilo. Mas, escute cá, a loucura, a tenebrosa e maravilhosa loucura... Enfim, não seria isso mais nobre, digamos, mais conforme ao grande segredo da nossa humanidade? Talvez o senhor seja mais inteligente do que eu». In Herberto Helder, Os Passos em Volta, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009, ISBN 978-972-37-0119-7.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT