sábado, 28 de setembro de 2013

A Inquisição de Évora. Jornal Alentejo Popular. António Borges Coelho. «Numa sociedade mortificada por escrúpulos de consciência, sempre desconfiada dos seus pensamentos e dos pensamentos e das práticas dos vizinhos, o tribunal alimentava-se quase exclusivamente da denúncia»

jdact

«(…) No dia 13 de Janeiro de 1729, o monarca João V visitou incógnito, em companhia do físico-mor, os cárceres da Inquisição (maldita) de Évora. Entrou pela porta secreta do alcaide dos cárceres, assistiu ao interrogatório de um feiticeiro, examinou os cárceres de vigia, entrou na sala do despacho, olhou das janelas o palácio do arcebispo e penetrou depois, à luz das velas, na sala do secreto. A 6 de Fevereiro, no seu regresso da fronteira, o rei visitou de novo os cárceres e na sala da tortura um dos guardas sujeitou-se simuladamente aos tratos de polé e às correias do potro. Não faltaram conflitos a minar o entendimento entre as quatro grandes instituições que marcavam a vida da cidade: a Sé, a Universidade, a Inquisição (maldita) e o Concelho. A Inquisição (maldita) e a Sé estavam frente a frente. O Concelho tinha a sua sede num dos extremos da Praça Grande ou Praça do Giraldo onde se desenrolavam os autos da fé. A Universidade marcava um espaço junto da antiga alcáçova.
Na coexistência nem sempre pacífica dos poderes, os arcebispos furtavam-se a ir ao auto da fé por questões de preeminência. Queriam uma cadeira especial que os inquisidores, administradores do acto, negavam. Mas a ligação à Sé era orgânica: quase todos os inquisidores acumulavam o seu cargo com os de cónego da Sé e muitos deles subiram às mitras, designadamente à mitra de Évora, considerada nos meados do século XVIII mais rendosa que a Sé de Braga e a segunda das Hespanhas. Também não faltaram questões com a Universidade que disponibilizava os seus doutores para a pregação nos autos da fé e para o acompanhamento final dos presos. As questões eram ainda de preeminência. Quem devia abastecer-se primeiro de carne no mercado: os criados dos inquisidores ou os da Universidade? Num conflito célebre entre a Universidade e a Inquisição (maldita), deflagrado em 1643, João IV decidiu contra a Universidade, possuidora de antigos privilégios e partidária da Restauração, e a favor da Inquisição (maldita) que contra ele conspirava e prendera o padre jesuíta Francisco Pinheiro, lente de Teologia.
A tensão entre a Inquisição (maldita) e a cidade explodiu algumas vezes em violência. Um dos momentos de maior tensão viveu-se na última década do século XVI quando os inquisidores prenderam boa parte dos mercadores eborenses da Praça Grande. Para escárnio das famílias, penduravam-se na igreja de S. Antão as efígies dos condenados à morte. Mas os inquisidores queixavam-se que alguém as destruía pela calada ao mesmo tempo que os cristãos-novos se recusavam a ser fregueses de S. Antão. Numa sociedade mortificada por escrúpulos de consciência, sempre desconfiada dos seus pensamentos e dos pensamentos e das práticas dos vizinhos, o tribunal alimentava-se quase exclusivamente da denúncia. E toda a sua actividade interna consistia em fabricar denúncias, verdadeiras e falsas, usando as longas prisões sem culpa formada, as ciladas, a coacção psicológica, a tortura. O momento mais alto era o do auto da fé anual, a Testa que por vezes se prolongava pelo dia inteiro e onde eram reconciliados ou garrotados e queimados os hereges relapsos e negativos, quase sempre cristãos-novos.
O lugar de deputado e de inquisidor abria as portas do verdadeiro cursus honorum que desembocava nas mais altas prebendas da Igreja e do Estado: conezias, mitras, reitorados da Universidade, Conselho de Estado (por inerência, o membro do Conselho Geral tornava-se membro do Conselho de Estado), Mesa da Consciência e Ordens. Pelos quadros da Inquisição (maldita) de Évora passaram doutores e mestres em teologia, doutores, licenciados e bacharéis em direito canónico ou em ambos os direitos. Entre eles, o teólogo dominicano frei Jerónimo Azambuja que participou no Concílio de Trento, e Marcos Teixeira, cónego doutoral da Sé de Évora, futuro bispo do Brasil que comandou a reconquista da Baía tomada pelos holandeses em 1624.
O chamado distrito onde a Inquisição (maldita) de Évora exercia a sua actividade abarcava todo o sul do Tejo com excepção da península do Setúbal. Nos seus primórdios recebeu presos de Trás-os-Montes e da Beira. As cidades e vilas mais castigadas foram Beja, Évora, Elvas, Montemor-o-Novo, Campo Maior, Arraiolos, Viçosa, Estremoz, Serpa, Faro. Os períodos de maior rigor ocorreram nos governos de Filipe II e IV e após a morte de João IV. E só depois do governo do marquês de Pombal, o pedreiro livre substitui o cristão-novo. Entre as vítimas conta-se o desembargador e humanista Gil Vaz Bugalho, cristão-velho, amigo de linguistas de origem hebraica, doutos no latim, no hebraico e no caldeu, tradutor para linguagem dalguns livros do Velho Testamento e queimado em 1551. Frei António Abrunhosa, franciscano natural de Serpa, parte de cristão-novo e cristão no coração, assistiu à prisão da mãe, das irmãs e sofreu ele próprio a perseguição dos seus conventuais e do Santo Oficio (maldito).

Manuel Casco Farelais, aluno da Universidade e fidalgo cristão-novo, enviou da prisão um Padre Nosso em verso antes de ser queimado em 1629. Em 1613 um cristão-novo denunciava alentejanos que judaizavam em Hamburgo e Amesterdão. Entre eles contavam-se o licenciado Francisco Rosa, dos Rosas de Beja, Manuel Gomes de Évora (Jacob Abenatar), Álvaro de Castro, dos Namias de Beja, Melchior Mendes de Elvas (Abraão Franco), Nuno Bocarro (Jacob Pardo), dos Bocarros de Beja, e outros. Os fugitivos diminuíam as forças de Portugal e alimentavam as da Holanda e doutros países do Norte. António Costa Lobo, um dos cidadãos mais ricos de Beja, onze anos preso sem culpa formada e queimado em 1629, afirmava que o Santo Ofício (maldito) era um tribunal do diabo. Que os inquisidores vinham da Beira julgar as consciências alheias e, em vez de as salvarem, as metiam no inferno.
Durante quase três séculos muitos dos homens mais poderosos das cidades e das vilas a Sul do Tejo passaram pelos cárceres e sofreram o confisco dos seus bens. De tal modo que, já em 1630, o inquisidor-geral Fernando Castro escrevia que se o reino estava menos rico em compensação estava mais católico. Mas no fim das contas, sem somar o sofrimento e a humilhação, sem contar a desonra das gerações, nas palavras de frei António Abrunhosa, podemos afirmar que o Alentejo e o Algarve ficaram menos católicos e mais pobres». In António Borges Coelho, A Inquisição de Évora, Jornal Alentejo Popular, Beja, Outubro, 2006.

Cortesia de JAlentejo Popular/JDACT

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Rito Escocês Antigo e Aceito. Loja de Perfeição. Rizzardo da Camino. «Ademais, o assunto “Maçonaria” não encontra maior interesse entre os não maçons e assim o ‘vulgo profano’ não tem acesso aos ‘sigilos’, às partes preservadas e aos ‘segredos’»

jdact

Apresentação
«A Maçonaria deixou de ser uma sociedade secreta para apresentar-se como uma Instituição Civil devidamente registada nos Livros do Cartório competente, obtendo, assim, uma personalidade jurídica, sujeita às leis do país onde funciona. Apesar da evolução em todos os sentidos, observada na Instituição, ela conserva os princípios fundamentais promulgados nas sucessivas Constituições, a partir de 1717, compiladas em 1723 por James Anderson, personagem que viveu entre 1680 a 1739; essas Constituições foram publicadas em 1723 e 1738 e precederam os Manuscritos. Esses, eram compilados como manuscritos, apesar de já existir a tipografia e foram em grande número a partir do Poema Regius de 1390.
Os Manuscritos são conhecidos como as Old Charges e constituem a base moderna da Maçonaria. O escritor Assis de Carvalho relacionou a maioria deles, o que nos dá uma ideia da riqueza dessa literatura, infelizmente, desconhecida pela maioria dos maçons não tanto pelo desinteresse individual, mas pela escassez de literatura; Assis refere a existência de mais de 140, o que constitui uma verdadeira biblioteca. As Constituições de Anderson surgiram após os Manuscritos de Papwort, Roberts, Macnab e Hardon (entre 1714 a 1723) e tiveram grande divulgação; até hoje, é fácil encontrá-las, vez que são traduzidas por muitos Autores e inseridas em Manuais e Constituições de cada Grande Loja.
O curioso desses Manuscritos e das Constituições é a ausência de uma definição sobre o que seja a Maçonaria. Dizem respeito, mais, sobre o comportamento maçónico, moral e social dos Adeptos. Paralelamente a esses Manuscritos e sucessivas Constituições, surgiram os Ritos. Dentre mais de 200 Ritos, posto em uso, apenas alguns, no Brasil o Rito Escocês Antigo e Aceito, teve a preferência. Face a isso, julgamos apropriado, apresentar um trabalho que envolvesse todos os 33 Graus do referido Rito. Poucos são os autores que nos brindaram com comentários ritualísticos completos; desconhecemos a existência de algum livro que apresentasse todo o Rito. Somos os que escreverem já, sobre todos os Graus do Rito Escocês Antigo e Aceito, porém fizemo-lo em oito partes separadas, sem a continuidade necessária para uma observação genérica e panorâmica de todo o Rito.
Resultou um trabalho restrito e conciso; como o fizemos, cada Grau presta-se a uma longa dissertação, o que resulta cansativo; num só volume resulta cómodo e de fácil manuseio; procuramos registar os pontos fundamentais, com a preocupação de evitar comentar a respeito das palavras de passe e dos elementos sigilosos.
Nada impediria explanarmos com toda amplitude, os mínimos detalhes; no entanto, certos elementos são privativos de cada Grau e esse privacidade tem o escopo de evitar profanação. A Maçonaria, Usos e Costumes e Ritos e Rituais de Francisco Assis Carvalho. Certa reserva é conveniente para manter uma unidade preservada aos adeptos, posto, sendo as palavras em hebraico de difícil interpretação, poucos consigam memorizá-las. Ademais, o assunto Maçonaria não encontra maior interesse entre os não maçons e assim o vulgo profano não tem acesso aos sigilos, às partes preservadas e aos segredos. Contudo, nem todos apresentam o mesmo escrúpulo e, com extrema facilidade, atiram as pérolas aos que possivelmente, as possam pisotear.
A nossa preocupação é manter os princípios e filamentos filosóficos que podem resumirem-se na crença a Deus e no amor fraterno. Esse binómio conduz à conquista de uma série de virtudes. A crença em Deus, instituído por nós como Grande Arquiteto do Universo, não significa o surgimento de uma religião. Sabemos, perfeitamente, o que seja religião: a religação entre Deus o a criatura humana; porém, através de um caminho pleno de dogmas e revelações particulares de pessoas predestinadas que se arvoram em Mensageiros directos causando uma avalanche de expressões que diferem entre si, embora com a proclamação de exclusiva verdade. A profissão de fé do maçom é simples: crer na existência de Deus, como divindade, sem a preocupação de detalhar essa crença e sem o afã de um contacto directo, de um diálogo (oração) ou submissão total.
Essa fé é raciocinada; a bondade que emana da Divindade deve ser imitada e assim, o maçom, ama o seu próximo, antes mesmo de amar-se a si próprio. Duas são as partes essenciais: a espiritual que respeita a Deus e a material que se traduz no culto ao amor fraterno. A Maçonaria não apresenta um culto a Deus; ela o tem presente através dos símbolos, sendo o Livro Sagrado, um deles. O amor fraterno, esse, sim, é cultivado, exercitado e positivado». In Rizzardo da Camino, Rito Escocês Antigo e Aceito, Loja de Perfeição (graus 1º ao 33º), Madras Editora, Brasil, ISBN 85-85505-65-6.

A amizade de AM e JCL
Cortesia de Madras/JDACT

Simbologia. Esoterismo em “Iniciação”. Fernando Pessoa. Gisele Cardoso Lemos. «A nudez é símbolo da pureza física, moral, intelectual e espiritual; é uma espécie de retorno ao estado primordial, é a abolição dos limites entre o homem e o mundo que o cerca…»

Cortesia de wikipedia

«(…) O corpo é a sombra das vestes que encobrem o teu ser profundo. As vestes são símbolo exterior da actividade espiritual, a forma visível do homem interior. Muitas ordens secretas têm as vestes como um dos utensílios ritualísticos, como é o caso da maçonaria. Fernando Pessoa escreveu em um documento que se encontra no seu espólio as palavras Throne Robe Sword, ou seja, trono, veste, espada: elementos rituais, simbólicos, de uma iniciação maçónica repleta de cabalismo e alquimia.
Vem a noite, que é símbolo da morte, aquela que toda noite engole o Sol para o gerar no dia seguinte. E a sombra acabou sem ser porque na noite a sombra não existe, ela só existe enquanto se tem luz, à noite ela morre. Seguido o percurso do iniciante, chega este à Estalagem do Assombro, o lugar onde ocorrerá o primeiro passo da iniciação. Nesse local sagrado os anjos tiram a sua capa e com esse gesto ele doa a si mesmo e, segue com o pouco que tapa seu corpo e sem capa no ombro. Então na estrada, aquela que leva ao lugar sagrado, os arcanjos deixam-no completamente nu, sem vestes, somente com o seu corpo que é ele.
A nudez é símbolo da pureza física, moral, intelectual e espiritual; é uma espécie de retorno ao estado primordial, é a abolição dos limites entre o homem e o mundo que o cerca, em função do qual energias naturais passam de um a outro sem barreiras, daí a nudez ritual dos guerreiros celtas no combate, de certas dançarinas sagradas e da linha jainísta que denomina-se vestir-se de céu. Por fim, ele chega à funda caverna, e são os Deuses que o despem; tiram seu corpo e externalizam sua alma tornando-o igual aos Deuses, são sutis e etéreos. O eu interior ficou entre os Deuses, não está morto entre os ciprestes porque para o neófito não há morte espiritual, a morte somente atinge o corpo, jamais a alma; há iniciação, o reinício de outra etapa da vida, geralmente mais elevada.
E todo esse processo ocorre à noite, mais um símbolo juntamente com o fim na caverna de que a iniciação ou morte simbólica é um retorno ao ventre da terra pois é no escuro que todo mistério é realizado, tudo é gerado e tudo é findado; é no ventre escuro que somos gerados e é no interior escuro da terra que somos enterrados. Interessante perceber que nesse poema há a presença do número 3 de três diferentes formas. Há 3 ambientes em que ocorre um passo no percurso iniciático: o primeiro é a Estalagem do Assombro, o segundo a Estrada e o terceiro a caverna. Há três potências postas em ordem crescente de poder espiritual: a primeira são os anjos, a segunda são os arcanjos e a terceira os Deuses.
E há três estágios da iniciação ou três mortes simbólicas que fazem um caminho partindo do exterior para o interior do ser humano: primeiro se retiram as vestes (o mais externo possível), depois o pouco que o tapa deixando-o nu, bem próximo da natureza e por último tira-se o corpo e permanece apenas a alma, a parte mais oculta e profunda do ser humano. O homem aqui é visto como o microcosmo que é um reflexo do macrocosmo, o universo. O que está em cima está em baixo. Todos os mistérios do universo estão guardados na alma do ser humano, então, para descobrir os mistérios do cosmo há que se descobrir os mistérios da alma. O poema Eros e Psyche de Fernando Pessoa traz uma citação dizendo que o Grau do Neófito compõe a Ordem Templária da qual ele fez parte, porém essa informação não invalida uma análise dos três graus através da perspectiva maçónica visto que a Ordo Templi Orientis possui carácter maçónico e iniciático.
Na maçonaria há três graus de iniciação; o primeiro grau representa o ser humano individual e o lugar que ocupa nos Mundos, é chamado de Aprendiz e possui três instrumentos para sua arte de ofício na loja; o segundo grau é chamado de Companheiro e possui a simbologia da escada, uma escada interior que o indivíduo deve subir quando conseguir retirar sua atenção do mundo físico para examinar a natureza da sua alma e as tarefas para o seu próprio progresso psicológico; possui outras três diferentes ferramentas de trabalho; o terceiro grau é o do Mestre Maçom e indica que o conceito habitual da vida humana é como a morte comparada com a capacidade do potencial humano. Muito interessante é que o quadro que simboliza o terceiro grau possui o desenho de um caixão encimado por uma caveira. Centeno tem uma teoria de que a iniciação para Fernando Pessoa é a escrita, por essa perspectiva o grau do Neófito seria a aquisição dos elementos culturais com que o poeta terá de lidar ao escrever, o grau de Adepto será o de escrever simples poesia lírica, o grau de Mestre será o de escrever poesia épica, poesia dramática, e a fusão de toda a poesia, lírica, épica e dramática, em algo de superior que as transcenda. Sua proposta é a sacralização da escrita ao designar cada grau correspondendo a um tipo de domínio da escrita. Como é visto em Magus, de Francis Barret, o número três é um número sagrado, o número da perfeição pois gealmente os antigos deuses são trifásicos. Os elementos corpóreos e as espirituais consistem em três partes, isto é, começo, meio e fim. O mundo completa-se pelo três, como disse Trismegistus: harmonia, necessidade e ordem; o ciclo do tempo se fecha em três: passado, presente e futuro. O triângulo é a primeira figura geométrica produzido por linhas rectas e este é um dos símbolos do divino, do sagrado. Ele representa as três esferas cósmicas: planos inferiores, plano material e planos superiores e, as três dimensões humanas: corpo, mente e espírito». .In Gisele Cardoso Lemos, Simbologia e Esoterismo em “Iniciação” de Fernando Pessoa, Wikipédia.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

Simbologia. Esoterismo em “Iniciação”. Fernando Pessoa. Gisele Cardoso Lemos. «O cipreste é uma árvore símbolo da vida por causa da sua longevidade e sua verdura persistente; representa as virtudes espirituais porque tem muito bom odor e é considerado símbolo de santidade»

Cortesia de wikipedia

«Fernando Pessoa participou de várias ordens ocultas como a Ordo Templi Orientis, fundada na Alemanha em 1902, estudou astrologia, cabala e alquimia como pode ser observado em inúmeros escritos de seu espólio; trocou correspondências com Aliester Crowley, ex-membro da Aurora Dourada, sociedade secreta fundada em 1888 na Inglaterra e criador da doutrina Thelema. Sendo assim, introduzirei o assunto através de uma citação do próprio Fernando Pessoa, que merece destaque e uma pequena explicação: há três caminhos para o oculto. O caminho mágico (incluindo práticas como as do espiritismo, intelectualmente ao nível da bruxaria, que é magia também), caminho esse extremamente perigoso, em todos os sentidos; o caminho místico, que não tem propriamente perigos, mas é incerto e lento; e o que se chama o caminho alquímico, o mais difícil e o mais perfeito de todos, porque envolve uma transmutação da própria personalidade que a prepara, sem grandes riscos, antes com defesas que os outros caminhos não têm.
O primeiro caminho citado por Fernando é o da magia, incluindo tanto o espiritismo quanto a bruxaria. O espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, consiste nas relações que se podem estabelecer com os espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que decorrem dessas relações. Já á bruxaria é a arte de se harmonizar e interferir na natureza, considerada a manifestação suprema dos antigos deuses, inclui tanto as cerimónias sazonais, quanto os ritos em honra aos deuses. Os bruxos também se dedicam aos oráculos, feitiços, sortilégios, encantamentos e à fabricação de amuletos.
O segundo caminho para o citado oculto é o místico, ou seja, o da contemplação e crença no sobrenatural. E em terceiro, o alquímico que é o mais refinado pois trabalha no plano real para ter efeito no plano etéreo; a transmutação dos elementos químicos é apenas o intermediário para a transmutação e elevação da alma, como se lê em Iniciação à alquimia de Alberto Magno: a principal finalidade do trabalho dos alquimistas era a regeneração, o renascimento da alma humana natural e sua directa aliança com a força vital da Natureza.
Após este esclarecimento e devido ao carácter plural e multifacetado tanto da Ordo Templi Orientis (O.T.O.) quanto da Thelema, justifica-se a utilização de exemplos e explicações retiradas de diversas culturas e doutrinas para fundamentar a presente análise do poema.

Iniciação
Não dormes sob os cyprestes
pois não há somno no mundo.
................................................
O corpo é a sombra das vestes
que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte,
e a sombra acabou sem ser,
vaes na noite só recorte,
egual a ti sem querer.

Mas na Estalagem do Assombro
tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no hombro,
com o pouco que te tapa.

Então Archanjos da Estrada
despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada;
tens só teu corpo, que és tu.

Por fim, na funda caverna,
os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
mas vês que são teus eguaes.
...............................................
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não ‘stás morto, entre cyprestes.
...................................................
Neophyto, não há morte.

Este poema é, como o título indica, um caminho iniciático. O narrador fala sobre o não dormir de um iniciante sob o cipreste pois no mundo não há sono, o mundo não dorme, ele está eternamente em constante modificação e movimento, e ele como parte integrante desse mundo dinâmico também possui sua essência e não deve dormir pois o sono é uma espécie de morte. O cipreste é uma árvore símbolo da vida por causa da sua longevidade e sua verdura persistente; representa as virtudes espirituais porque tem muito bom odor e é considerado símbolo de santidade. Por representar a vida, ela foi considerada uma árvore funerária em todo o mediterrâneo pois evoca a imortalidade e a ressurreição. Assim, o iniciante não pode dormir (morte simbólica) sob o símbolo da vida». In Gisele Cardoso Lemos, Simbologia e Esoterismo em “Iniciação” de Fernando Pessoa, Wikipédia.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

Transmissão de Más Notícias. José Carlos Luís. «A escuta activa é um acto terapêutico que permite identificar as necessidades do interlocutor e eleva a sua auto-estima; reduz a tensão do momento e permite-lhe verbalizar todos os seus sentimentos. No fundo ajuda o doente a enfrentar a doença…»


Cortesia de jcl e jdact

Empatia
«(…) É um processo pelo qual uma pessoa é capaz de um modo imaginário de se colocar no papel e na situação de uma outra pessoa afim de apreender os seus sentimentos, pontos de vista, atitudes e tendências próprias do outro numa dada situação. O profissional de saúde deve reconhecer, valorizar e aceitar a condição da pessoa que sofre. Deve dar sinais de que é capaz de se colocar no lugar do doente e compreender os seus sentimentos, (Entendo que seja difícil…Compreendo que tenha razões para se sentir assim…). Mesmo quando o doente se apresenta agressivo, zangado, irritado ou nervoso, é sempre útil começar por demonstrar a nossa empatia para com aquilo que ele sente. O uso da empatia é, assim, a melhor forma para se começar uma relação. A compreensão empática tem como objectivos: permitir ao profissional de saúde compreender o que o doente / família vive; fazer compreender ao doente / família que o profissional se interessa por ele; encorajar o doente e família a conhecerem-se intimamente e a explorar o que lhe acontece. A empatia deve ser reforçada com uma atitude de consideração positiva e respeito incondicional pelo doente, e com uma atitude de autenticidade e congruência por parte do profissional de saúde.

Escuta Activa
A escuta activa é uma escuta centrada no doente. Implica estar atento a todas as mensagens transmitidas pelo doente, verbais e não verbais. Ouvir não é a mesma coisa que escutar. Ouvir é um acto passivo, automático, enquanto que escutar implica uma atenção desperta activa, que formula perguntas e sugere respostas. Escutar activamente permite-nos conhecer aquilo que é mais importante para o doente. Não consiste apenas em captar e compreender as palavras que se dizem, mas também em prestar atenção aos sentimentos da pessoa. O profissional de saúde deve escutar o que o doente diz, como diz e o que é que implicam as palavras que profere. Muitas vezes a comunicação não verbal fala mais forte que as próprias palavras e pode até indicar uma mensagem diferente. Escutar activamente consiste em: não interromper; olhar nos olhos; adoptar uma atitude e postura de disponibilidade, sem dar a impressão de ter pressa; sentar-se ao lado do doente; dar sinais de que se está a escutar aquilo que o outro diz; não fazer juízos de valor; respeitar os silêncios do doente; estar com atenção à tonalidade da voz, ao ritmo do enunciado, à postura corporal, aos temas que evita, às desculpas, gestos, hesitações e repetições do doente; reformular junto do doente, utilizando as suas próprias palavras (Quando o Sr. diz que… quer dizer que…). A escuta activa é um acto terapêutico que permite identificar as necessidades do interlocutor e eleva a sua auto-estima; reduz a tensão do momento e permite-lhe verbalizar todos os seus sentimentos. No fundo ajuda o doente a enfrentar a doença e estimula a sua cooperação no cumprimento do tratamento

Fazer Perguntas
Não é possível ajudar o doente se não lhe fizermos perguntas. Estas têm como objectivo identificar as suas necessidades e descobrir aquilo que o poderá fazer sentir-se melhor. A dificuldade principal consiste em saber formular as perguntas. Devem colocar-se com naturalidade, delicadeza, de forma gradual, adaptando a linguagem à capacidade de compreensão do doente e expressando de forma activa o nosso interesse em clarificar e responder a tudo o que o doente pergunta durante a realização de uma entrevista (O que...? Como…? Quando…? Quem…? Porquê…?). A maioria das perguntas devem ser abertas para que seja possível ao doente reflectir e exprimir os seus sentimentos e preocupações. Por vezes é necessário sermos específicos e ajudar a que o doente também o seja (Como se sente hoje? Disse-me que se encontrava um pouco nervoso…porquê?). Durante o diálogo o doente deve ser incentivado a comunicar (Continue…) e os seus aspectos psicológicos deverão ser explorados (O que é que o preocupa mais na sua situação?). Por outro lado, é útil evitar o uso de perguntas fechadas ou perguntas que já sugiram uma resposta (Está melhor, não está?)» In José Carlos Pereira Luís, Transmissão de Más Notícias, Curso de Mestrado em Gestão de Unidades de Saúde, IPP, ESSP, Portalegre, 2010.

A amizade de AM e JCL

Cortesia de IPP/ESSEP/JDACT

Transmissão de Más Notícias. José Carlos Luís. «A informação ‘obtida’ através de uma boa comunicação é uma ferramenta de alta eficácia, dado que reduz o medo e a incerteza, permite ao doente tomar decisões e fortalece a relação ‘profissional de saúde / doente’»

Cortesia de jcl e jdact

Introdução
«A comunicação em Cuidados Paliativos não é uma tarefa fácil. É um acto que requer a aprendizagem e treino de várias habilidades e perícias comunicacionais, entre as quais se encontram a empatia, a escuta activa, a capacidade de fazer perguntas e a capacidade de transmitir informação / dar más notícias. Apesar de muitos profissionais considerarem que sabem e entendem o que os doentes querem, vários estudos demonstram que a sua compreensão das preferências necessita de ser melhorada, mesmo após um diálogo cara-a-cara com o doente / família. Os investigadores do SUPPORT (Study to Understand Prognoses and Preferences for Outcomes and Risks of Treatments) concluíram que a capacidade para dirigir uma discussão de alta qualidade sobre assuntos complexos relativos à fase terminal da vida com os doentes e as suas famílias é uma capacidade que deve ser aprendida e praticada, não se desenvolve por si própria. Este estudo vem assim contradizer e desmistificar os vários mitos que existem sobre a comunicação: A. Os profissionais de saúde já nascem (ou não) com a capacidade de transmitir informação de forma adequada. É uma capacidade natural que não pode ser ensinada. B. A maioria dos profissionais de saúde tem uma boa capacidade de comunicação. C. Para dar informação de qualidade é necessário muito tempo. D. O impacto da informação no doente é sempre o mesmo, independentemente do modo como é transmitida.
A chave dos cuidados terminais de qualidade é a comunicação eficaz, o que não diminui a importância do controlo adequado da dor ou o tratamento dos outros sintomas na última fase da vida. A boa comunicação é fundamental, pois facilita e melhora todos os outros aspectos dos cuidados. Se houver capacidade para estabelecer e manter relações abertas, comunicativas e de confiança com os doentes, os profissionais de saúde irão ter uma maior capacidade para compreender e prever as necessidades e os desejos dos doentes. Para estes será então mais fácil a expressão dos seus sentimentos e pensamentos, bem como a aceitação dos conselhos e apoio dos profissionais de saúde.

Objectivos e benefícios da boa comunicação
Segundo Robert Twycross, os objectivos da boa comunicação são os seguintes: reduzir a incerteza do doente e família; melhorar os relacionamentos entre profissionais de saúde e doente / família, bem como dentro da própria equipa de saúde; indicar ao doente e à sua família uma direcção. O reconhecimento destes objectivos é de vital importância pois facilita a mobilização e a escolha dos recursos mais adequados para a satisfação das necessidades do doente. Ao estabelecer uma relação empática e de confiança com o doente é possível atenuar o impacto psicológico da doença na sua vida e na vida dos seus familiares. Este tipo de relação permite ao doente verbalizar as suas angústias e os seus receios, o que contribui para diminuir a ansiedade e a incerteza que tornam estes doentes tão vulneráveis. Ao tomar conhecimento sobre o seu estado de saúde de uma forma gradual e adaptada às suas características individuais, sociais e culturais, o doente pode retomar o controlo sobre a sua vida e decidir quais as suas prioridades no tempo de vida que lhe resta (esclarecer situações familiares / sociais; resolver conflitos; terminar projectos; ditar vontades; fazer despedidas).
A informação obtida através de uma boa comunicação é uma ferramenta de alta eficácia, dado que reduz o medo e a incerteza, permite ao doente tomar decisões e fortalece a relação profissional de saúde / doente. Sem informação não é possível participar na tomada de decisões, nem obter uma boa adaptação à extraordinária mudança que ocorre quando se tem de conviver com uma doença grave e enfrentar a própria morte. Resumindo, ao melhorar a comunicação com o doente estamos a favorecer a adaptação do doente/família à situação; a aumentar a sua adesão aos cuidados; a favorecer a relação terapêutica; a aumentar o grau de satisfação do doente/família e a favorecer a aplicação do consentimento informado.

Estratégias básicas de comunicação
Ao interagir com o doente / família o profissional de saúde tem como objectivo ajudar a reconhecer as necessidades sentidas e os mecanismos interiores para suprir essas necessidades. Para atingir este objectivo é necessário comunicar de forma terapêutica. Existem vários factores que influenciam o estabelecimento de uma comunicação eficaz: factores relacionados com o profissional (treino em comunicação, personalidade, maturidade pessoal / profissional, diferença de prioridades em relação ao doente); factores relacionados com o ambiente de interacção (privacidade, conforto); e factores relacionados com o doente (personalidade, nível social e cultural, capacidade de comunicação, experiências prévias, presença de sintomas físicos e psicológicos, percepção da doença). Cada doente/família vive o processo de doença de forma distinta, o que implica que os profissionais de saúde atendam e suprimam as suas necessidades de forma personalizada.
Segundo Maria Pilar Albarroz, durante o processo de formação dos profissionais de saúde dá-se muita enfâse à dimensão técnica do ensino, revertendo-se os conhecimentos e habilidades necessárias e suficientes para o estabelecimento de uma comunicação eficaz com os doentes e suas famílias, para um plano secundário. Este facto contribui para o aparecimento de barreiras comunicacionais entre o profissional de saúde e o doente (1). As barreiras de comunicação podem ser evitadas se o profissional aprender e treinar várias atitudes facilitadoras da comunicação, tais como: empatia, escuta activa, fazer perguntas / dar respostas e transmitir informação / dar más notícias». In José Carlos Pereira Luís, Transmissão de Más Notícias, Curso de Mestrado em Gestão de Unidades de Saúde, IPP, ESSP, Portalegre, 2010.

A amizade de AM e JCL
Cortesia de IPP/ESSEP/JDACT

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Os Ciganos de Portugal com um Estudo sobre o Calão. Adolpho Coelho. «O rumanho, a julgar pelos documentos que publico, perdeu quasi todas as particulas e pronomes (vid. no vocabulário apalé, amangue, mangue, mindai, se), e outras formas grammaticaes que ainda conserva o gitano; representa pois um estádio…»

jdact

Considerações Gerais
«(…) Os ciganos do Alemtejo, segundo os dados precedentes e os que me communicou o sr. Pires, fallam o português, o hispanhol, e esse fallar a que elles chamam rumaño, romanó ou ainda romano, de que pode fazer-se ideia pelos textos e vocabulário acima impressos. Como se vê, o rumanho não é mais do que o hispanhol influenciado pelo português e semeado de palavras particulares, a maior parte das quaes se encontram também no gitano ou linguagem dos ciganos de Hispanha. Noutros paizes da Europa os tsiganos fallam verdadeiros dialectos ou antes sub-dialectos particulares aparentados com os dialectos neo-hindus, saidos da mesma base popular de que o sanskrito se elevou á categoria de lingua litteraria. Esses dialectos tsiganos apresentam algumas peculiaridades phoneticas archaicas que os approximam especialmente de linguas ainda pouco conhecidas do noroeste da Índia, do Kafiristão e do Dardistão.
Miklosich enumera treze dialectos ou fallas tsiganas na Europa: grego, na Turquia da Europa; rumeno, na Rumenia, Siebenbürgen, Bucovina, Serbia e Rússia ; húngaro, na Hungria e Sirmia; bohemio, na Bohemia e Moravia; allemão, na Allemanha; polaco, na Polónia e Lituânia; russo, na Rússia septentrional; finno, na Finlândia; escandinavo, italiano, basco, inglez e hispanhol. Miklosich não teve conhecimento do importante dialecto tsigano do paiz de Galles (tsigano welsh), o qual, nesse meio de língua céltica, conserva muitas particularidades perdidas noutros seus co-irmãos.
O gitano conserva ainda partículas, pronomes, numeraes, a moção, certos processos de derivação e outras formas grammaticaes da lingua tsigana, representada por os mencionados dialectos ou sub-dialectos extra-hispanicos; mas doutro lado perdeu quasi por completo a antiga declinação, adoptou a conjugação hispanhola em ar, conservando algumas formas tsiganas do verbo sinar ser (sis, sisle, sin sou, es, é). Alguns numeraes gitanos mostram já influencia das formas hispanholas (jobenta sessenta, otorenta oitenta, junto de otordé; comp. ostardí quarenta, panchardi cincoenta, esterdí setenta). Ao lado de amaró, nosso, de origem tsigana, apresenta o gitano nonrió derivado do hisp. no(s).
O rumanho, a julgar pelos documentos que publico, perdeu quasi todas as particulas e pronomes (vid. no vocabulário apalé, amangue, mangue, mindai, se), e outras formas grammaticaes que ainda conserva o gitano; representa pois um estádio mais adeantado na ruina da lingua tsigana primitiva que o gitano, e offerece por esse lado interesse particular para o estudo de um dos processos de substituição da lingua de um povo por outra. Nos dialectos tsiganos europeus extra-hispanicos conserva-se em geral a base indica primitiva do vocabulário e da grammatica; no gitano os elementos tsiganos da grammatica reduzem-se consideravelmente, perdendo-se quasi por completo a antiga declinação e conjugação, apenas representada por ténues vestígios; no rumanho os vestigios tsiganos reduzem-se quasi unicamente a vocábulos feitos e alguns processos de derivação: o hispanhol e ainda o português occupam o logar abandonado pela grammatica tsigana. Assim por misturas successivas o elemento românico foi eliminando o tsigano. Se tivessemos documentos da linguagem dos gitanos provenientes dos séculos XVI e XVII, ainda mais de perto poderíamos seguir esse processo, que, como mostrarei noutra parte, está longe de ser o único pelo qual um povo perde a sua própria lingua para adoptar a alheia». In Adolpho Coelho, Os Ciganos de Portugal, Com um Estudo sobre o Calão, Sociedade de Geografia de Lisboa, Congresso Internacional dos Orientalistas, SSGL, Imprensa Nacional, Lisboa, 1892.

Cortesia de IN/JDACT

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Jazz. Natalie Cole. «Tendes a liberdade de fazer quando tendes o poder de fazer. Mas, todos os livros que li sobre a liberdade de indiferença... São tolices: não existe liberdade de indiferença; é um termo destituído de senso, inventado por pessoas que o não possuem»

Cortesia de wikipedia


«Daqueles que comandaram batalhões e esquadrões só resta o nome. O género humano nada tem para mostrar duma centena de batalhas travadas. Mas os grandes homens de que vos falo prepararam puros e perenes prazeres para os homens que ainda hão-de nascer. Uma eclusa a ligar dois mares, um quadro de Poussin, uma bela tragédia, uma nova verdade, são coisas mil vezes mais preciosas do que todos os anais da corte ou todos os relatos de campanhas militares. Sabeis que, comigo, os grandes homens são os primeiros e os heróis os últimos. Chamo grandes homens a todos aqueles que se distinguiram na criação daquilo que é útil ou agradável. Os saqueadores de províncias e de haveres mais rudimentares, como o pão quotidiano e meios de subsistência (dinheiro), são meros cobardes».



JDACT