sábado, 28 de dezembro de 2013

Jazz. Natal. Diana Krall. «Encontraste com ar cansado numa igreja fria e triste. Ajoelhei-me ao teu lado e nem ao menos me viste... Ficaste a rezar ali, naquela imensa tristeza. Rezei também, mas a ti. Que aos anjos também se reza... Ficaste a rezar até manhã dentro, manhã alta. Como é que tens tanta fé e a caridade te falta?...»

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«Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.
É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...
Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.
Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
– Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...
Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...
E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...
Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...
E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
– e cai no meu coração».


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Um Percurso Humano e Político nas Origens da Modernidade em Portugal. D. João II. Manuela Mendonça. «… parece só poder encontrar-se na qualidade destes portugueses, cujo saber e formação seria idêntica à dos mestres italianos da época. ‘A não ser assim, como explicar que Afonso V tenha privado o filho de melhores mestres?’»

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Educação
«(…) Os cronistas são escassos em informações sobre a educaçáo de João. Contudo podemos imaginar que, órfão de mãe com poucos meses, logo foi entregue aos cuidados de familiares e amigos. Neste número se conta a sua tia, D. Filipa de Lencastre que certamente exerceu uma influência decisiva sobre o seu carácter. Numa corte dividida, onde recentemente Pedro fora reabilitado, o espírito do menino foi com certeza semeado de sonhos de vingança e desejo de recuperação de uma linha de governo, a de seu avô, que certas forças senhoriais tinham impedido de vingar. Pela informação de frei Francisco Brandão ao falar desta Senhora, duas ideias ficam muito claras: a sua latente agressividade contra Castela, e a influëncia que terá exercido no espírito do menino príncipe. Nascida por volta de 1437, passou, pouco depois, a residir na Corte onde seu pai, o infante Pedro, regeu os destinos do reino em substituição de seu sobrinho a partir de 1439. Segundo o autor citado teve esta Senhora a criação em companhia delRey e dos Infantes seus primos ate o anno de 449. Depois disto e afastado seu pai da corte, também D. Filipa a abandonou, mas por pouco tempo já que, depois de Alfarrobeira, a rainha D. Isabel, condoida do desempáro da irmãzinha, e por ter junto asy pessoa de que fiasse suas magoas, a reteve consigo, e criou ate o anno de 455, em que Deos a levou para si na cidade de Evora; D. Filipa teria então 18 anos. Assistiu na corte ao baptizado do príncipe com tudo não a admittirão para madrinha, preferindothe a Marqueza de Villa Real; para esclarecimento, o autor do texto acrescentou não erão bem vistas neste tempo as cousas do Infante Dom Pedro. D. Filipa tinha com certeza muita consciência disso e, no vigor dos seus dezoito anos, não pode ter visto com bons olhos o partido adverso a seu pai testemunhar o baptismo do Príncipe. Será que logo ali jurou vingar-se? Não o sabemos.
Regressou à casa materna depois da morte da Rainha, mas não se sabe ao certo onde se fixou após a morte da mãe em 1459. É provável que tivesse então passado a viver com sua sobrinha D. Joana e, consequentemente, com o Príncipe, que nesta data contava quatro anos, idade propícia a histórias, a sonhos... A ser assim, D. Filipa encontrou o momento favorável para incutir, neste espírito em crescimento, a veneração pela mãe que não conhecera e o entusiasmo pelo ideal político do avô; Filipa teria então ocasião de contar ao menino príncipe a triste história do pai de sua mãe, que morrera porque alguns senhores que agora estavam ali na corte, não gostavam da sua maneira de governar. Filipa contaria ainda ao sobrinho quanto sua mãe sofrera com tudo isso e como os desgostos lhe teriam causado a morte. Então o menino iria percebendo que enquanto sua mãe e seu avô morreram, aqueles Senhores viviam felizes na corte aproveitando-se da bondade de seu pai, o rei, que por eles se deixava influenciar e a todos enchia de privilégios; e começava já a sentir que essas doações exageradas defraudavam-o seu património... Mas foi sobretudo a certeza de que sua mãe fora vítima deste grupo que, em nosso entender, exerceu uma influência determinante no espírito do Príncipe. Nunca na actuação de João se constata a menor sombra de revolta contra sua tia; essa é a melhor prova da influência positiva que sobre si exerceu. Era a ela que comunicava sempre os assuntos mais importantes do Reino e sempre se preocupou com o seu bem estar material. Curiosamente ofereceu-lhe hüa parte da renda da Villa de Alcolea no Principado da Catalunha. Era Alcolea das arras da Raynha Dona Leanor may delRey Dom Afonso V. Interrogamo-nos se a escolha desta renda foi casual ou se João a atribuiu por solidariedade com a neta do vencido duque de Urgel, testemunhando compreensão e vingando assim essa tia querida, lembrança de sua Mãe, que Deos levou para sy no ano de 1493, a onze de Fevereiro, tendo visto no Julho do ano attaz a desastrada morte do Principe Dom Afonso seu sobrinho, o sentimento da qual lhe incortou a vida... E evidente que nada de concreto podemos afirmar, mas fica-nos a convicção de que frei Francisco Brandão estabeleceu um paralelo intencional em todos estes factos.
Dos mestres pedagógicos de João também muito pouco se sabe. Luis Matos, afirma terem sido dois: frei João Rodrigues e o padre bacharel Vasco Tenreiro. Temos dificuldade em aceitar que Afonso V não tivesse chamado mestres estrangeiros, italianos concretamente, para a educação de seu filho. A explicação desta opção parece só poder encontrar-se na qualidade destes portugueses, cujo saber e formação seria idêntica à dos mestres italianos da época. A não ser assim, como explicar que Afonso V tenha privado o filho de melhores mestres? Levantamos uma hipótese: o rei, influenciado pelos da sua corte, receou que os estrangeiros pudessem juntar à corrente humanista as novas doutrinas políticas já em divulgação na época. Certamente de difícil resposta, a questão parece, contudo, pertinente. Tentemos, em primeiro lugar, descortinar quem foram estes mestres. Segundo o autor referido, o primeiro era frade loio e, tal como o segundo, foi mestre não só de João como também da infanta Dona Joana, sua irmã. Quanto à sua formação intelectual, nada se sabe de frei João Rodrigues. De Vasco Tenreiro pensa-se que teria frequentado a Universidadl de Lisboa, onde obteve o grau de bacharel; escassa informação, portanto. A ausência dos seus nomes entre os eruditos da época é também fraca recomendação para os colocarmos como mestres humanistas do futuro Príncipe Perfeito. Como explicar esta despreocupação de Afonso V?» In Manuela Mendonça, D. João II, Um Percurso Humano e Político nas Origens da Modernidade em Portugal, Imprensa Universitária 87, Editorial Estampa, Lisboa, 1991, ISBN 972-33-0789-8.

Cortesia de Estampa/JDACT

Viagem ao Fundo das Consciências. A Escravatura na Época Moderna. Maria do Rosário Pimentel. «Pela carta de 1472, restava aos moradores de Santiago levar para o tráfico ‘suas novidades e colheitas’; os escravos não podiam ser exportados, mas unicamente utilizados ‘para seus serviços e sua melhor vivenda e boa povoação’»

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Os Descobrimentos e o Tráfico de Escravos. Zonas de Resgate
«(…) À medida que o comércio de escravos se tornou uma prática regular, a costa africana foi dividida em sectores, consoante a abundância e a facilidade com que se recolhiam escravos. A área entre Arguim e o rio Senegal, a região da Guiné, a costa da Mina e Angola, foram consideradas as zonas negreiras mais rentáveis da costa ocidental africana. Estes sectores não tiveram simultaneamente a mesma importância e os seus limites nunca corresponderam a áreas territoriais precisas. São designações que tanto se referiam a grandes extensões do continente, como a zonas mais limitadas do território. É o caso do topónimo Guiné que, longe de corresponder a uma zona territorial bem delimitada, tanto se aplicava à vasta porção de costa africana entre o Senegal e o rio Orange, conhecida também por Etiópia Menor, Etiópia Arenosa, Etiópia Ocidental ou Negrícia, como se cingia à região costeira compreendida entre o Senegal e o norte da Serra Leoa.
Facto idêntico se verificava com os limites da costa da Mina, que tanto correspondiam às várias costas banhadas pelo golfo da Guiné (costa dos Dentes, do Marfim, do Ouro e dos Escravos), como a uma pequena área entre o cabo Monte, ou Mozurar e o cabo Lopo Gonçalves, que veio a ter como centro principal do comércio São João Baptista de Ajudá. Esta falta de rigor não só se relacionava com a confusão gerada pelos múltiplos baptismos que a costa africana foi sofrendo, mas também se ficava a dever à pressão de potências inimigas, que iam limitando as zonas de comércio pertencentes à soberania portuguesa. Inicialmente, o lugar de eleição para a obtenção de escravos, foi a área compreendida entre Arguim e a foz do rio Senegal. Após o estabelecimento de relações comerciais pacíficas (1446-1448), Arguim passou a ser o primeiro entreposto comercial da costa africana para resgate de escravos. Aí foi instalada a primeira feitoria de além Bojador. E, em 1449 ou 1450, o Infante fez o arrendamento deste comércio a uma sociedade de mercadores pelo período de dez anos, com o monopólio de todas as transações. Mais tarde, depois de construída a fortaleza em Arguim (segundo Cadamosto, iniciada em 1455), este comércio passou a ser monopólio da coroa. Por volta de 1455, o trato abriu mais para sul, na região dos rios Senegal e Gâmbia. Aqui, no reino dos jalofos, os portugueses obtinham escravos com abundância, a acreditar no testemunho de Duarte Pacheco Pereira. Este autor assinala que só no estuário do Senegal, quando havia bom resgate, os portugueses chegavam a tirar cerca de 400 escravos por ano.
Durante a segunda metade do século XV e sobretudo no século XVI, o tráfico dilatou-se mais para sul. As partes de Guiné, ou as áreas de tratos e resgates de Guiné, passaram então a ter uma importância extraordinária. Ao referir-se a esta região da costa da Guiné, que se situava entre o estuário do Senegal e o extremo sudeste da Serra Leoa, Duarte Pacheco Pereira calculava que, quando o comércio desta terra se encontrava bem organizado, se conseguiam por ano cerca de 3 500 escravos, ou mais, além de muitos dentes de marfim, ouro, panos finos de algodão e muitas outras coisas. Nesta zona, as ilhas de Cabo Verde, sobretudo a ilha de Santiago, situadas num importante ponto de encontro das rotas transatlânticas, transformaram-se num entreposto comercial considerável. A fim de facilitar a tarefa de povoamento da ilha de Santiago, Afonso V concedeu em 12 de Junho de 1466 uma carta de privilégios aos moradores, que lhes permitia navegarem para a costa africana quando entendessem, a fim de resgatarem os escravos de que necessitavam. Poderiam comerciar em qualquer parte da Guiné, excepto na área de Arguim, reservada à coroa. Para o efeito, os moradores de Santiago podiam levar todas as mercadorias que quisessem, excepto armas, ferramentas, navios e seus apetrechos. Em 1468, o rei, prosseguindo com a política de exploração da costa para além dos limites até então atingidos (Serra Leoa), arrendou a Fernão Gomes, por um período de cinco anos, os tratos e resgates da Guiné, com a condição de descobrir cem léguas de costa em cada ano a partir da Serra Leoa. Contudo, ficava-lhe interdito resgatar em Arguim e na zona do continente fronteiriça às ilhas de Cabo Verde, reservadas aos moradores daquelas ilhas. Por sua vez, estes não podiam negociar ou mandar negociar, para além da Serra Leoa.
A desobediência às limitações estabelecidas provocou conflitos entre moradores e contratadores, pelo que os privilégios concedidos aos moradores se tornaram cada vez mais limitados. Pela carta de 1472, apesar da área de resgate permanecer a mesma, restava aos moradores de Santiago levar para o tráfico suas novidades e colheitas; os escravos não podiam ser exportados, mas unicamente utilizados para seus serviços e sua melhor vivenda e boa povoação. Ficou igualmente interdita a parceria com não moradores, quer nacionais quer estrangeiros, assim como o fretamento de navios não registados na ilha». In Maria do Rosário Pimentel, Viagem ao Fundo das Consciências, A Escravatura na Época Moderna, Faculdade de Letras de Lisboa, Edições Colibri, Lisboa, 1995, ISBN 972-8047-75-4.

Cortesia de Colibri/JDACT

Viagem ao Fundo das Consciências. A Escravatura na Época Moderna. Maria do Rosário Pimentel. «… concederam ao rei de Portugal o direito de conquista dos muçulmanos, pagãos e outros infiéis inimigos de Cristo, incluindo os respectivos reinos, senhorios, territórios, possessões e bens (móveis ou imóveis)»

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Os Descobrimentos e o Tráfico de Escravos
«(…) Estas práticas de pirataria e assaltos à mão armada não eram condenáveis. Pelo contrário, estavam em sintonia com as actividades dos nobres, que procuravam enaltecer-se com honra e proveito nos feitos de armas. A acção dos traficantes resumia-se aos ataques à mão armada, a correrias ao sabor do acaso, ferindo, matando, filhando negros, sempre movidos pela cobiça do ganho e por um idealismo cruzadista, à sombra do qual os que morressem seriam absolvidos de culpa e pena. A honra e o heroísmo estavam aqui patentes na luta contra um adversário perigoso e não cristão. O comércio pacífico não era próprio de um nobre, nem lhe dava ocasião de atingir esse ideal de honra e heroísmo, tão enraizado na mentalidade da época. Por cometer um feito heróico desta envergadura, ao fazer os primeiros prisioneiros na costa de África, é que Antão Gonçalves foi armado cavaleiro. Não era com facilidade que se obtinham estes cativos. A precária sedentariedade do litoral saariano levava a uma contínua repetição dos assaltos predatórios, que muitas vezes não tinham qualquer resultado ou acabavam num reduzido número de cativos. O clima de agressividade assim gerado, que não facilitava o contacto com as populações locais, levou a que se procedesse à substituição do método tradicional pela aquisição de escravos através do resgate. Ao longo dos anos de 1444, 1445 e 1446, tanto o regente Pedro, como o infante Henrique, tentaram remediar esta forma não rentável de fazer cativos, substituindo o filhamento pelo comércio.
Gomes Pires foi um dos enviados que, sucessivamente, ao longo daqueles anos tentou impor o trato de mercância no rio do Ouro. Mas os obstáculos encontrados foram inúmeros. Uns resultavam da própria dificuldade em estabelecer trocas pacíficas, outros tinham origem no facto das práticas de pirataria e de roubo estarem muito enraizadas nos mercadores. De tal maneira que Gomes Pires, na última das suas viagens, desiludido com as experiências anteriores, tomou pela força através de vários assaltos, 79 cativos. Só entre 1446 e 1448, esta situação se viria a modificar. A partir daí os escravos passaram a ser obtidos por escambo ou por simples compra e venda. Desde então o tráfico desenvolveu-se com a velocidade de uma praga. As incursões iniciais de Antão Gonçalves, Tristão, Lançarote e tantos outros, tinham cedido lugar a um comércio regular.
Por seu lado, a Igreja Romana dava apoio incondicional às práticas expansionistas dos portugueses. Os papas saudaram sempre com certa efusão as novas vitórias dos navegadores lusitanos, selando nas bulas o percurso das conquistas e a anuência ao domínio efectivo de Portugal naquelas regiões. A Santa Sé não só autorizou os planos de incursão e de conquista das terras dos infiéis, mas também declarou a sua sujeição aos reis de Portugal e sucessores. Ao aprovar esta nova cruzada em 1441, o papa Eugénio IV concedia ainda a todos e a cada um que na dita guerra e batalha forem, por autoridade apostólica e por o teor dai letras [...] comprida perdoança de todos seus pecados, dos quais de coração sejam contritos, e por boca confessados com o fim de que esses fiéis cristãos com maior fervor se movam e animem à dita guerra. Nesses actos da Igreja eram comuns as referências à legitimidade da redução dos infiéis à escravidão, como do seu filhamento ou comércio. As bulas pontifícias Dum Diversus e Divino Amore Communiti, expedidas por Nicolau V em 18 de Junho de 1452, concederam ao rei de Portugal o direito de conquista dos muçulmanos, pagãos e outros infiéis inimigos de Cristo, incluindo os respectivos reinos, senhorios, territórios, possessões e bens (móveis ou imóveis). Autorizavam, além disso, a escravidão perpétua desses mouros, pagãos e demais infiéis. O mesmo papa, na bula Romanus Pontifex, datada de 8 de Janeiro de 1454, reiterou à coroa portuguesa autorização para submeter e converter os povos encontrados, até mesmo aqueles que não tivessem recebido ainda influência da religião muçulmana. Sob este aspecto, não são menos elucidativas outras bulas, como as de Calisto III de 13 de Março de 1455, de Sixto IV de 21 de Junho de 1481 e de Leão X de 3 de Novembro de 1514, nas quais se citam os escravos e o ouro como os principais objectivos do comércio peninsular na costa africana. Este comércio era considerado um meio para a introdução da religião cristã naquelas nações bárbaras ou, pelo menos, a salvação de algumas almas que, caso contrário, para sempre estariam perdidas no meio da gentilidade». In Maria do Rosário Pimentel, Viagem ao Fundo das Consciências, A Escravatura na Época Moderna, Faculdade de Letras de Lisboa, Edições Colibri, Lisboa, 1995, ISBN 972-8047-75-4.

Cortesia de Colibri/JDACT

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Confissões de Uma Freira Pagã. Romance histórico. Kate Horsley. «… mais ninguém me olhava nos olhos nem me reconhecia força. Os outros membros do meu lar acreditavam no terror como método de nos mantermos juntos, e contavam histórias da solidão, da dor e doença e da crueldade dos elementos»

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Declaração
«(…) Quando passávamos uma poça escura, ela conseguia dizer-me qual o espírito que lá vivia, talvez um dos antigos, que estava arrependido de ter perdido a forma humana e procurava agarrar uma criança para a habitar. Também havia espíritos que escutavam os desejos e tentavam realizá-los, dizendo certas palavras nas águas escuras, de tal modo que as palavras subiam como bolhas até, à superfície. Quando seguia a minha mãe a estes lugares, observava sempre atentamente o seu cabelo preto que lhe cobria os ombros e as costas, como uma capa fina a esconder uma veste em trapos. Eu tinha medo de a perder nas profundezas dos bosques, porque, como já disse, eu era pequena e frágil; mas ela tratava-me como se eu fosse forte, andando para a frente sem qualquer preocupação que eu pudesse deixar-me ficar para trás, ou que fosse agarrada por uma entidade mais forte que eu. A minha mãe partia do princípio que eu não era fraca, que os meus ossos eram sólidos e emolduravam o meu espírito. Uma vez ela disse-me, … tu és muito inteligente Gwynneve. Ela disse-me isto como se fosse um segredo maravilhoso e perigoso. Ela aconselhou-me a utilizar a minha inteligência para me livrar das obrigações de uma mulher casada com um homem que cria porcos, ou, pelo menos, para esconder segredos dele. Porque ela fazia uma vida separada do marido, meu pai, que sabia pouco do assunto e se limitava a ouvir elogios daqueles a quem ela curava com as suas ervas. Uma enorme tristeza invadia-a quando me olhava longamente, como se antevesse os acontecimentos que me iriam ferir, sem que ela os pudesse evitar.
Nesses tempos, mais ninguém me olhava nos olhos nem me reconhecia força. Os outros membros do meu lar acreditavam no terror como método de nos mantermos juntos, e contavam histórias de mortes horríveis, da solidão dos cadáveres, da dor e doença e da crueldade dos elementos: ventos que arrancavam os braços a um homem, fomes que faziam as mulheres comer as suas próprias crianças. Referir o sofrimento provocado por este mundo castigador era dar uma lição necessária, e apontar as fraquezas de alguém era uma forma de incitá.lo a ser forte. Por isso, o meu pai e a minha irmã diziam-me que eu vivia demasiado em sonhos e que os meus seios nunca iriam ser suficientemente grandes para agradar a um homem ou para alimentar uma criança. O meu pai acusava aminha mãe de me fazer passar fome, enchendo-me de histórias em vez de comida. Todos na minha túath passavam fome, especialmente durante os meses da geada grossa. Mas eu desejava mais as histórias da minha mãe, que me aliviavam, do que a comida. Eu ouvia-a a entrelaçar palavras e a criar mundos como que se fosse uma deusa. As palavras vinham da boca dela, dissipando a minha solidão, mesmo quando ela não estava comigo. Ela começava todas as histórias com a frase: Foi-me dado que… Quando eu lhe perguntei quem é que lhe tinha dado estas histórias, ela chocalhava o seu cíorbolg, no qual ela tinha umas pequenas pedras lubrificadas que, dizia ela, a entretinham com histórias. Eu comecei então a conhecer as palavras como coisas imortais, que se podiam ver e tocar, cada uma tendo uma cor e uma forma, como uma pedrinha que nunca padece de doença nem morre. Eu sonhei com sacos de pedrinhas polidas, tendo cada saco uma história e contendo uma jóia preciosa de entre as muitas pedrinhas, ou uma pedra preta, que era o olho da morte.
O meu pai e a minha irmã, e outros na túath, tentaram ensinar-me que eu amava as palavras em demasia, mas o que eu amava era a liberdade das palavras. Até o homem que roubou um broche à filha do Chefe e foi posto numa gaiola de ramos de pinho, tinha palavras, uns palavrões que ele lançava às crianças que se punham de cócoras à frente dele para aprender mais sobre a aparência de ladrões. Até um homem numa gaiola pode falar palavras, ou, se a sua língua for cortada, pode ouvi-las, ou se tem os ouvidos cheios de sujidade, ele tem-nas na sua mente. Nas palavras ele é livre, pelo menos até morrer, e eu não sei, nem a minha mãe sabia, se um homem tem palavras depois de morto, a não ser aquelas que tenha deixado escritas, se tiver sido instruído. Eu não vejo que a vida possa ter qualquer interesse se não se puder ser livre. Nesta vida qualquer pessoa está condenada a ter de morrer. Pode desafiar tudo excepto a morte. Se a morte provar que eu não sou livre então eu elogio o Nosso Senhor Jesus Cristo por tê-la ultrapassado, mas continuo sem saber onde o meu avô possa estar e com que dificuldade é que come o festim eterno. Ainda me questiono onde estão aqueles mortos que atraíam para eles o meu amor, como um fio dourado da minha barriga e porque estão tão silenciosos. Ainda os sinto a puxar os meus órgãos. Procuro-os debaixo da superfície das poças, nas profundezas do bosque e daria com agrado o meu corpo para eles habitarem, porque às vezes preferia estar presa à morte do que à solidão e, noutras vezes, pergunto-me se a morte em si não será a maior liberdade de todas». In Kate Horsley, Confessions of a Pagan Nun, Confissões de Uma Freira Pagã, Romance Histórico, Ésquilo, Lisboa, 2002, ISBN 972-8605-18-8.

Cortesia Ésquilo/JDACT

Duas Estratégias Divergentes na Busca das Índias. D. João II vs Colombo. José M. Garcia. «El-rei porque via ser este Christouã Colom homem falador e glorioso em mostrar suas habilidades, e mais fantástico e de imaginações com sua ilha Cipango, que certo no que dizia; dava-lhe pouco crédito. E com este desengano espedido ele del-rei se foi pêra Castela, onde também andou ladrando este requerimento (...)»

Cortesia de wikipedia e jdact

O rei João II em Carnide em 1483
«(…) O assunto da proposta de descobrimento por Colombo poderá ter sido suficientemente importante para que João II tenha feito expressamente essa deslocação de muito curta duração, pois não teria havido outra motivação para então ir precisamente a Carnide. Conjugando todos estes dados podemos deduzir estar bem fundamentada a possibilidade de ter ocorrido em Carnide em Junho de 1483 o encontro entre Colombo e João II durante o qual o primeiro se propôs realizar uma viagem para ocidente visando chegar a terras da Ásia, de que se haviam localizado alegados indícios no mar que ali se encontravam. Terá, sido neste contexto que surgiu a oportunidade do rei permitir que Colombo visse as canas de que já ouvira falar e se guardavam no famoso santuário daquela povoação.

Sobre a negação do apoio de João II ao projecto de Colombo
El-rei porque via ser este Christouã Colom homem falador e glorioso em mostrar suas habilidades, e mais fantástico e de imaginações com sua ilha Cipango, que certo no que dizia; dava-lhe pouco crédito. Contudo à força de suas importunações mandou que estivesse com Dom Diogo Ortiz, bispo de Ceuta, e com mestre Rodrigo e mestre Josope (= José), a quem ele cometia estas cousas da cosmografia e seus descobrimentos; e todos houveram por vaidade as palavras de Christouam Colom, por tudo ser fundado em imaginações e cousas da ilha Cipango de Marco Polo (...). E com este desengano espedido ele del-rei se foi pêra Castela, onde também andou ladrando este requerimento (...).

Esta informação de João de Barros sobre a negação do apoio ao projecto de Colombo é a mais completa que possuímos sobre este assunto e permite-nos sugerir a circunstância de o principal responsável para a negação de apoio a Colombo ter sido Diogo Ortiz Vilhegas, também na altura referenciado por licenciado Calçadilha visto ter nascido nessa povoação castelhana, já que o genovês parece ter mantido boas relações com José Vizinho, pois a ele alude por duas vezes nas suas notas relativamente ao ano de 1485. Diogo Ortiz viera para Portugal em 1475 como confessor de D. Joana, a Excelente Senhora, depois de ter sido regente da cadeira de Astrologia na Universidade de Salamanca entre 1469 e 1475.
O desfecho do caso do pedido de apoio de Colombo a João II poderá ter-se arrastado até 1484, pois o rei teria querido aguardar pelo regresso de Diogo Cão, que acabou por chegar a Portugal pouco antes de 8 de Abril de 1484, data em que recebeu a generosa tença anual de 10 000 reais brancos, a que se seguiu a 14 de Abril de l484 a concessão de uma carta de brasão com as honras de fidalgo. Todas estas recompensas revelam o regozijo do rei perante as notícias dos progressos então alcançados, tendo-o levado à convicção de que as suas caravelas tinham estado próximo do extremo sul da África e da almejada passagem para o oceano Índico. Esta atitude é revelada através da oração de obediência de João II ao papa Inocêncio VIII que foi pronunciada a 11 de Dezembro de 1485 por Vasco Fernandes Lucena, na qual se reflectem as expectativas abertas pela viagem de Diogo Cão, pois nesse documento' então impresso em Roma, pode ler-se em tradução portuguesa recente:

A tudo isto acresce, enfim, a segura esperança de explorar o Golfo Arábico, onde os reinos e nações dos que habitam a Asia, apenas de nós conhecidos por obscuríssima fama cultivaram com a maior devoção a fé santíssima do Salvador, e em relação aos quais, se é verdade o que ensinam os mais autorizados geógrafos, a navegação dos portugueses já está a poucos dias de viagem. De facto, percorrido já na sua maior parte o périplo de África, os nossos homens aportaram o ano passado perto do Promontório Prasso, onde começa o Golfo Arábico; tendo esquadrinhado todos os rios, litorais e portos numa distância de mais de 4500 milhas a contar de Lisboa, segundo a mais rigorosa observação do mar, das terras e das estrelas. Uma vez explorada esta região, já me parece que estou a ver quanto e quão grandes cúmulos de fortuna, honra advirão para todo o povo cristão e especialmente para vós, Santíssimo Padre, para os vossos sucessores e para esta Sé sacratíssima de Pedro.

In José Manuel Garcia, D. João II vs Colombo, Duas Estratégias divergentes na busca das Índias, Quidnovi, 2012, Vila do Conde, ISBN 978-989-554-912-2.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961. Edila Gaitonde. «Uns dias antes de partirmos para a Índia fui recebida por Olivier Messien, que, me aconselhou: ‘Primeiro comece por aprender o sânscrito e alguma coisa da filosofia indiana; a música virá depois. Foi assim que fiz’»

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«(…) Chegámos, finalmente, a Bombaim (actual Mumbai) com pouco dinheiro, sem trabalho em vista, mas cheios de sonhos. Que grande maluquice, diziam-nos. Por que não concorres a um lugar em Goa? Lica só sorria e nada dizia. Como seria possível pedir a um governo estrangeiro um lugar para ele no seu próprio país?! Não te aflijas, vamos sobreviver a isto, dizia ele para me acalmar. Porém, eu própria tinha as minhas dúvidas e a esperança no futuro começava a enfraquecer. Mas, sempre que houvesse uma pequena crise, Lica faria por me confortar, entoando baixinho os versos de Gitah: Tens só o direito ao trabalho. Mas nunca ao fruto desse trabalho. Nos nossos planos de ir para a Índia ou onde iríamos viver quando lá chegássemos tínhamos incluído Paris como uma pausa preliminar no nosso itinerário. Lica queria encontrar-se primeiro com Vijayalaxmi Pandit, embaixador da Índia nas Nações Unidas, que nessa altura operava no Palais de Chaillot, em Paris. Tinha até preparado antecipadamente um detalhado relatório sobre os prisioneiros goeses que se encontravam no Forte de Peniche e insistia em apresentar-lhe este relatório. Pela minha parte, também tinha um grande desejo de visitar o Conservatório de Paris e, se possível, encontrar-me com Olivier Messien, um dos grande compositores contemporâneos da França, que tinha sido grandemente influenciado pela música e filosofia indianas. No segundo dia da nossa jornada chegámos, finalmente, a Paris. Fazia um frio de rachar e os bagageiros estavam em greve, coisa completamente desconhecida para mim porque as greves em Portugal tinham sido proibidas com o advento da ditadura. Com os dedos tolhidos pelo frio mal podia segurar a minha maleta. Quando pusemos a nossa bagagem fora da estação, o meu grande entusiasmo por ter finalmente chegado à cidade-luz já tinha sofrido um temporário set back.
As nossas modestas acomodações tinham sido organizadas por Trimbak, um primo de Lica que estava a trabalhar em Paris. Ficámos num pequeno hotel na Rue de la Victoire, ao Chaussée d'Antin, muito perto da Opera e do Caffé de la Paix, que veio a ser o nosso ponto de encontro preferido. Foi através de Trimbak que viemos a conhecer muitas pessoas de enorme interesse para nós e que nos fizeram sentir o pulso intelectual da vida parisiense. Entre os amigos de Trimbak havia a família Duparc, em cuja residência nos reunimos várias vezes. Madame Duparc era escritora, o marido escultor e o filho organista no último ano do conservatório. Foi nos estúdios da casa Duparc que nos encontrámos com  Bragança Cunha, irmão de Tristão, o nosso amigo recluso no Forte de Peniche. Tinha deixado a Índia ainda jovem, como estudante, e mais tarde casara com uma senhora russa e tinha ido viver para aquele país. Durante esse tempo trabalhara com Lenine. O Bragança Cunha era um homem alto e de longas barbas brancas, que me faziam lembrar a figura de Tolstoi. Adorei estas tertúlias, onde debatíamos diversos problemas da actualidade, bebericando, em pequenas taças elegantes, o café de chicória que a senhora Duparc deixava preparado no samovar sobre a salamandra. Ocasionalmente, a senhora Duparc trazia uma bisnaga de leite condensado que lhe era enviada da Suíça. A guerra tinha terminado três anos antes, mas o leite era ainda muito escasso em Paris. No hotel onde estávamos o nosso pequeno-almoço constava sempre de uma chávena de café de cevada, sem leite, e de um croissant... mais nada.

O relatório sobre os prisioneiros de Peniche foi, finalmente, entregue e ainda pudemos assistir a algumas conferências no Palais de Chaillot. Uns dias antes de partirmos para a Índia fui recebida por Olivier Messien, que, com gentileza e sensatez, me aconselhou: Primeiro comece por aprender o sânscrito e alguma coisa da filosofia indiana; a música virá depois. Foi assim que fiz. No final de Novembro de 1948 tivemos de deixar os nossos novos amigos e aquela maravilhosa vida parisiense. Mas lembrar-me-ei sempre dos concertos, das visitas ao café Deux Magots, onde Sartre ia, e, acima de tudo, da amizade que as pessoas nos ofereceram». In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961, Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.

Cortesia de E. Tágide/JDACT

As Saias de Elvira e Outros Ensaios. Eduardo Lourenço. «É sabido que Ramalho, confrontado com as páginas licenciosas do Primo Basílio, ‘corou’, o que dá pretexto ao seu amigo Eça para o tratar, brincando a sério, como era seu costume, de “Tartuffe”»

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«(…) Numa perspectiva biográfica, de cariz psicanalítico, João Gaspar Simões, como fará mais tarde e, em termos muitos próximos, para Fernando Pessoa, ocupou-se e julgou decifrar o particular mistério de Eros, do homem Eça de Queirós, não por ele mesmo mas pela luz que projecta sobre a sua ficção. Não são irrelevantes as suposições que, romanescamente, mais guiado pelo seu instinto de criador do que por Freud, João Gaspar Simões faz, entrevendo na origem da ficção de Eça de Queirós o trauma da bastardia mais tarde tematizada por Marthe Robert. Não é essa a nossa perspectiva. Importa-nos o erotismo tal como Eça o põe concretamente em cena na sua ficção, pois é essa encenação particular de Eros que confere à sua escrita e ao seu imaginário um lugar à parte na ficção portuguesa. O erotismo queirosiano não é a mera mimesis da realidade ou dos ecos da sensualidade, como dos seus jogos e representação artisticamente recriados. Já seria uma novidade numa literatura que até ele evitava cuidadosamente assumir essa realidade, salvo sob forma poética, ou alusiva. Mas o seu erotismo é estrutura, visão do mundo, que conscientemente orienta, determina e embebe toda a sua escrita. Não por ausência ou sublimação como no nosso romantismo, mesmo em Garrett, mas por sobreexposição, por excesso, quase ofuscação.
Cru ou refinado, é um erotismo plenamente autoconsciente da sua função fantasmal, recebendo e provocando pela evocação da sensualidade ou da imaginação dela uma perturbação que atinge não só o código ético que regula a divisão entre o que é socialmente percebido como decente ou indecente, obsceno no sentido próprio do termo, como a totalidade do ser. Em particular, a de um sujeito simbólica e afectivamente subdeterminado pela vivência dos valores cristãos, como é próprio da cultura ocidental e paradoxalmente no momento em que essa vivência se desloca ou se inverte. À parte Baudelaire que é o seu verdadeiro modelo, ou duplo, em sensibilidade, bem mais que Flaubert, ninguém como Eça viverá tão fundamente e tão ambiguamente o abalo dessa vivência, não de maneira abstracta como Antero, mas no mais inomeável e opaco de si, e de toda a gente, nesse ponto cego que o Desejo manifesta e oculta. E na sua obra, e nela só, que se situa a verdadeira ruptura ou fractura que miticamente atribuímos à Geração de 70. Como o resto do País, e talvez mais, os seus amigos e camaradas de letras e de agitação cultural, velaram a face ou ignoraram essa nova transmutação de valores implícita ou implicada na visão erótica de Eça de Queirós. Até porque ela é precisamente visão do mundo como erótica.
É sabido que Ramalho, confrontado com as páginas licenciosas do Primo Basílio, corou, o que dá pretexto ao seu amigo Eça para o tratar, brincando a sério, como era seu costume, de Tartuffe. Só que o personagem de Molière não cora, faz que cora: Cachez Madame ce sein que je ne saurais voir. Além do mais, Ramalho não era nenhuma vestal, nem miss vitoriana. Ramalho escandaliza-se menos porque, como sugere Gaspar Simões, o seu arcaboiço puritano não se compadecia com uma pintura de tal modo minuciosa dos desregramentos licenciosos de Basílio e Luísa mas porque percebeu e sentiu que se perturbava nele toda a sua sensibilidade de católico tradicional, toda a sua ética fundada precisamente sobre a superação ou contenção do que tradicionalmente a teologia moral chama a concupiscência. Dessa concupiscência ninguém como a teologia, de real ou aparente inspiração pauliniana, conhece melhor o universal e irresistível império. Basta ler o Traité de la Concupiscence de Bossuet para o comprovar, ou os nossos casuístas da escola de Évora, para saber a que grau de curiosidade o fascínio de Eros os levava. O seu significante aparente é o desejo carnal, mas enquanto manifestação sensual relevando do instinto não é propriamente concupiscência. A concupiscência releva do espírito, a sua versão sexual é só uma das suas manifestações, a mais radical, pois está ligada à eclosão da vida, tanto como o alimentoque a conserva. Daí a ligação profunda entre volúpia e gula que os romances de Eça, ilustram». In Eduardo Lourenço, As Saiasde Elvira e Outros Ensaios, Gradiva, Lisboa, 2006, ISBN 989-616-151-8.

Cortesia de Gradiva/JDACT

A Sombra do Templário. Século XIII. Núria Masot. «O IV Concílio de Latrão, por volta de 1215, estabeleceu uma disposição pela qual todos os judeus deviam usar uma marca física que os diferenciasse dos cristãos, para evitar qualquer alegação de ignorância no caso de relações entre judeus e cristãos»

Cortesia de wikipedia

Barcelona
«(…) Camposines ficou a ver como se afastavam. O rapaz transportava Guils às costas, como se fosse uma catga leve e Abraão, a seu lado, indicava-lhe o caminho levando a pequena maleta, Viu-os dirigir-se, quase invisíveis por entre a multidão, para a esquerda, como se o velho judeu procurasse o caminho mais curto para chegar ao Call, a judiaria de Barcelona. Não arredou pé até, perdê-los de vista. Os judeus que integravam as aljamas estavam habituados a viver dentro das cidades onde, por disposição do papado, tinham bairros especiais que na Catalunha se chamaram calls. Naquele espaço viviam em comunidade, possuíam a sua sinagoga que era ponto de reunião e ao mesmo tempo escola, o seu próprio talho, forno, banhos e tudo quanto lhes era necessário. Eram propriedade real e por essa razão não estavam sujeitos ao capricho dos nobres, mas apenas às ordens do rei, Era ao próprio monarca que pagavam os tributos e era este que se encarregava de protege-los, apesar desta protecção não sair nada barata. Aos impostos era preciso somar os constantes empréstimos à coroa, sempre tão necessitada de dinheiro e de aumentar as finanças do tesouro real. Mas a comunidade judia organizava-se para fazer face aos pagamentos e esta era uma das funções práticas do Call, ter tudo pronto para a ocasião em que aparecia o Tesoureiro Real. Em compensação, o bairro judeu e os seus habitantes estavam sob a protecção do rei em relação aos desmandos da nobreza e às inesperadas revoltas populares contra eles.
O IV Concílio de Latrão, por volta de 1215, estabeleceu uma disposição pela qual todos os judeus deviam usar uma marca física que os diferenciasse dos cristãos, e determinou que o motivo desta distinção era evitar qualquer alegação de ignorância no caso de relações entre judeus e cristãos. Na Catalunha, significou a imposição de uma rodela de pano, amarelo e vermelho, que deviam usar cosido no vestuário, tanto homens como mulheres, à frente, no peito. A mistura de raças era uma proibição absoluta. Abraão caminhava depressa em direcção à segurança do seu bairro. Dirigira-se para as duas torres redondas do Portal de Regomir sem entrar na cidade velha, dando uma volta pela caminho de ronda exterior que circundava a muralha romana e seguindo-o até chegar a Castell Nou, que guardava o lado sul da cidade e era, ao mesmo tempo, porta de entrada para o bairro de Call. Pensava nos problemas que lhe traria o que estava a fazer, e não só com os cristãos, mas também com a sua própria comunidade sempre temerosa de infringir qualquer lei. Mas havia tomado uma decisão e a sua condição de médico não lhe permitia diferenças, nem de raça nem de religião. Para um doente, a única coisa importante é a sua doença e poder dispor de alguém com capacidade para o aliviar. Se tudo aquilo viesse a ter consequências, pensaria nisso mais tarde, depois de tratar de Guils. Mas não deixava de sentir-se perturbado e inquieto, se Guils morresse em sua casa ia ter de explicar o que fazia o corpo de um cristão no seio da comunidade judaica, uma coisa nada fácil de justificar.
Fez um esforço para deixar de pensar nas consequências, enquanto ia caminhando, quase correndo atrás do moço. Devia lembrar-se do seu amigo Nahmánides, esse não teria hesitado nem um momento, agiria segundo as sua consciência e não segundo o medo. O moço de fretes deteve-se diante da mole do Castell Nou. Não pensava dar nem mais um passo e muito menos entrar no bairro judeu, aquele trabalho podia ser muitíssimo especial e como tal se fazia pagar, mas ninguém lhe tinha dito que era preciso entrar na judiaria. Não fizera perguntas por respeito pelo patrão, mas não pensava dar nem mais um passo e assim o fez saber ao velho judeu. Abraão não respondeu, tinha avistado o seu amigo Moshe, dono do talho e vizinho seu. Chamou-o discretamente e pediu-lhe que o ajudasse. - São só uns metros, Moshe, sozinho não consigo. Ajuda-me, por favor. - É incrível, Abraão! Desapareces durante mais de um ano sem mandar um simples recado, uma nota a dizer que estás bem, que vens a caminho. Sei lá, uma coisa qualquer! E de repente, apareces carregado com um cristão moribundo. Enlouqueceste?! O homem do talho estava aborrecido, apreciava muito Abraão, era um dos seus amigos e devia-lhe muitos favores, mas pelos vistos tinha uma maneira muito perigosa de cobrá-los, e os tempos não estavam de molde a correr riscos inúteis. Acedeu em ajudá-lo a contragosto, expressando o seu desacordo total e expondo todos os argumentos que lhe passaram pela cabeça, e foram muitos, para que o médico desistisse dos seus propósitos. - Tens toda a razão do mundo - respondeu Abraão, enquanto segurava Guils com as forças que lhe restavam, os teus argumentos são todos acertados, mas trata-se de um homem doente, Moshe, e eu sou médico, a doença não tem religião nem raça, tens de compreender isso». In Núria Masot, A Sombra do Templário, colecção Enigmas da História, Sicidea, 2007, ISBN 978-84-611-4998-8.

Cortesia de Sicidea/JDACT

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Jazz. Jan Garbarek. Egberto Gismondi. Charles Haden. «Meu amigo Camilo Pessanha, como nós entristecemos por razões desiguais na teimosa penumbra dos retratos, ambos feridos pela doença desta distância que de um só golpe nos liberta e nos cativa»

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«[…] O que seria da nossa escrita sem este oriente
que nos deu uma nova alma, feita de tédio
e melancolia, deixando refém essa outra alma
com que nascemos portugueses e do mundo,
amantes inebriados pela tentação do longe?
Estamos lado a lado nos retratos, almas penadas
por longínquas servidões, respondendo
quando nos chamam pelos nomes gentios
que nos foram dados para venerarmos os deuses».

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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O Carteiro de Fernando Pessoa. Leituras. Fernando E. Pinto. «… porque o poeta se incomodasse em negociar cumprimentos e amabilidades com a mesma pessoa todos os dias e a toda a hora, ele que, por não se sentir um ser único, se apresentava diverso na sua forma de existência…»

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Não há melhor fragata do que um livro para nos levar a terras distantes. In E. Dickinson

«O corpo encontrava-se deitado de bruços, nu, sobre a cama. A cabeça estava coberta por um travesseiro. O médico deduziu tratar-se de morte por asfixia, acreditando que a vítima sucumbira naquela mesma posição. Não havia vestígios de deslocação do corpo. Também concluiu não ter havido violência: a pele das costas, das nádegas e das pernas não apresentava qualquer tipo de ferimentos. Os braços encontravam-se debaixo do corpo e, quando foram examinados pelo médico, este confirmou a ausência de lesões de defesa. Ao lado do cadáver encontrava-se um fato de homem, um chapéu e um par de sapatos pretos, irrepreensivelmente em ordem. Após os agentes terem examinado o apartamento, puseram de parte a hipótese de ter havido arrombamento ou pilhagem. O quarto e as outras divisões da casa não indiciavam sinais de o crime ter sido cometido por alguém estranho à vítima...
Alberto Reis estava parado à frente da porta n.º 16 do prédio na rua Coelho da Rocha. Tinha um jornal dobrado debaixo do braço. Era um homem baixo, a forma oval do corpo fazia lembrar uma pipa, como se o tempo fosse polindo as arestas que fizeram dele, em plena actividade profissional, uma pessoa brusca e implacável. Recuou alguns passos a olhar para cima e foi colocar-se no outro lado da rua para ter uma visão mais ampla do prédio onde vivia. O seu olhar minucioso mantinha-se ainda apurado e competente, eficiência acumulada pelo dever do ofício, quando era um jovem empenhado ao serviço da Polícia de Defesa Política e Social. A viuvez acrescentou-lhe acidez e rigor na avaliação da vida. Tinha planos para a última etapa na companhia da esposa, e, não fosse a doença súbita e a morte prematura, a felicidade teria sido cenário perfeito. Mas nem tudo é garantido quando se trata de projectar a vida para além do que nos resta ainda cumprir. De um momento para o outro, estranha realidade ou pesadelo que nos guia até ao isolamento, Alberto Reis viu-se sozinho na vida, situação que lhe trouxe um leque de novas experiências notoriamente solitárias, sensações indesejáveis, insónias e uma propensão para adivinhar através dos ruídos o que os vizinhos do prédio faziam na privacidade das suas casas.
Embora a sua atenção não representasse mais do que um passatempo que preenchia os lugares vazios da sua consciência, mais tarde esses pequenos e insignificantes ruídos traduzir-se-iam em movimentos suspeitos que revelariam pistas e impressões de que alguma coisa anormal se passava à sua volta. Com o pescoço estendido para cima, sentiu o ar frio da manhã num arrepio de lâmina dentro da gola do casaco. O seu olhar fez uma linha recta a partir da janela do primeiro andar esquerdo para a do primeiro andar direito. A janela do quarto do seu vizinho Fernando Pessoa estava entreaberta, e os cortinados estremeciam levemente. Também esta criatura vive em desassossego, pensou Alberto Reis, e aceita a solidão como um medicamento prescrito para remodelar o sentido da vida, os seus tumultos, um medicamento que o alimenta e que o faz sentir-se em delírio, insuportavelmente feliz, protegido, embora dominado pelo sacrifício e pelo tormento, pela criação e ruína. Não simpatizava com o poeta. Quando se cruzavam no vestíbulo do prédio os cumprimentos eram tímidos e profetizavam desavença futura. No princípio, quando Fernando Pessoa se mudou para a Coelho da Rocha, houve no entanto uma aproximação de cortesia e de boa vizinhança, alguns préstimos ao novo inquilino, atenções simples que, pelos vistos, não mereceram nenhuma consideração na contabilidade das boas relações entre ambos. Possivelmente, porque Fernando Pessoa parecia ser um homem reservado e pouco interessado nos contactos com as pessoas reais. Ou, talvez, porque o poeta se incomodasse em negociar cumprimentos e amabilidades com a mesma pessoa todos os dias e a toda a hora, ele que, por não se sentir um ser único, se apresentava diverso na sua forma de existência, integrando em si personagens herdeiras de um pensamento engenhoso e complexo. No entanto, a aversão do polícia reformado por Fernando Pessoa tinha origem noutro facto. Uma questão de honra, se assim se pode designar aquele breve episódio em que Alberto Reis, um estreante na criação de versos, entregou a Fernando Pessoa um manuscrito com um pedido de avaliação. A bem dizer, o ingénuo Alberto Reis estava a confiar ao poeta a sua alma isenta de felicidade, desconhecendo, por certo, que em matéria de almas estava o poeta abastado». In Fernando Esteves Pinto, O Carteiro de Fernando Pessoa, Baía dasPalavras, Edições Parsifal, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-98521-0-5.

Cortesia de Parsifal/JDACT

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Isabel de Portugal. Duquesa de Borgonha. Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval. Daniel Lacerda. «A duquesa Isabel apoiava Filipe, então a ocupar a cadeira do ducado de Brabante na cidade senhorial de Bruxelas, um modo de impressionar o povo desta capital colocada sob a sua protecção»

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A duquesa e Joana d'Arc
«(…) Materialmente, a condessa teria podido visitar Joana durante a sua deslocação à Picardia. Mas, conhecendo o distanciamento que o duque Filipe tomou relativamente ao caso, ficando impassível face às exigências dos dignitários da Igreja e deixando João de Luxemburgo tomar a iniciativa, nenhum outro verdadeiro sinal é conhecido, a não ser a reaproximação ao rei de França que se tornará efectiva dois anos mais tarde, depois da grande reunião de Arras. O historiador contemporâneo Michel Lamy admite que Isabel possa ter visto Joana prisioneira em Noyon, mas não apresenta nenhum documento novo.

NOTA: Sem indicar a sua fonte, M. Lamy escreveu: Ao longo dessa permanência em Beaulieu, que durou uma dezena de dias, Jeanne foi conduzida um dia a Noyon, onde residia o duque de Borgonha e sua mulher, Isabel de Portugal, que a teria encontrado. Uma tradição sugere que Jeanne pernoitou uma noite em Noyon.

O Capítulo do Tosão de Ouro em Lille
A duquesa Isabel apoiava Filipe, então a ocupar a cadeira do ducado de Brabante na cidade senhorial de Bruxelas, uma maneira também de impressionar pelo fausto o povo desta capital recentemente colocada sob a sua protecção. A duquesa e as respectivas damas assistiram às cerimónias, procissões e missas solenes ao lado de embaixadores, outros hóspedes e oficiais da Câmara. No início de Novembro de 1431, fizeram demonstração do seu poder sobre a região no decurso de uma assembleia convocada por Filipe, que sempre desejoso de ilustrar os seus cavaleiros, além da procura de brilho, fez anunciar pelos arautos a celebração do primeiro capítulo (reunião magna) do Tosão de Ouro, previsto para Lille no dia de Santo André. A cerimónia começou nesse mesmo dia. Dezoito cavaleiros do Tosão de Ouro, rejubilando, seguiram com o duque desde o palácio local até, à Igreja de São Pedro. Quatro cavaleiros ausentes, os senhores de Saint-Georges, de Saint-Pol, João de Luxemburgo e
Reignier Pot, fIzeram-se representar. A sessão de entronização teve lugar na presença dos oficiais do capítulo a que presidia o teólogo bispo de Nevers, Jean Germain, acompanhado do escrivão, Jean Imbert, do tesoureiro Guy Guibault, e do novo rei de armas do Tosão de Ouro, Jean Lefèvre de Saint-Remy, que escreveu crónica.
No dia seguinte, na missa, quando decorria o ofertório, correspondendo ao apelo do rei de armas, cada cavaleiro ou procurador, precedido do Grande Mestre, depositou uma moeda de ouro. Estavam presentes os reis de armas de Flandres, Brabante, Artois e Hainaut, arautos e numerosos candidatos de armas do duque e de vários senhores. Mestre Jean Germain, durante uma homilia, explicou então as relações das historietas bíblicas do juiz Gedeão com a lenda mitológica de Jasão que perseguia o Tosão de Ouro. O miraculoso velo de carneiro de Gedeão, beneficiando dos auspícios de Jeová, seria a arma que melhor inspiração traria aos cavaleiros que tomavam o compromisso de defender a cruz, missão que o bispo de Nevers os exortou a cumprir sem descanso para pôr fim ao mundo pagão. Outras cerimónias, marcadas sempre pelo aparato hierárquico, se seguiram, incluindo jantares faustosos. No decurso deste primeiro capítulo da ordem, Simon de Lalaing e o conde Fréderic de Meurs foram armados cavaleiros. Soberano mestre, Filipe fazia-se rodear por cerca de uma trintena de cavaleiros, escolhidos um a um entre os melhores e os mais dedicados, aperfeiçoando assim a organização da imponente guarda de honra cujos estatutos faria promulgar pouco depois.
Filipe, o Bom, não fundava a acção da sua cavalaria somente sobre a Igreja mas queria-se também um protector, um fiel escudo dos papas que não se opunha jamais à sua autoridade. Atribui-se-lhe igualmente uma devoção que o levava a rezar durante horas. A história conta os repetidos esforços e as despesas calculadas pelo duque tendo em vista organizar uma cruzada à Palestina. Certos historiadores explicaram esta obstinação profunda pelo desejo de vingar a derrota de Nicopolis face aos Turcos e a prisão de seu pai. Mas Jean Paviot, que estudou bem o assunto, conclui que no fundo de Filipe, o Bom, há um profundo desejo de defesa da fé cristã em geral, contra os infiéis e os heréticos, e a libertação da Terra Santa». In Daniel Lacerda, Isabelle de Portugal – duchesse de Bourgogne, Éditions Lanore, 2008, Isabel de Portugal, Duquesa de Borgonha, Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval, tradução de Júlio Conrado, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-23-4374-9.

Cortesia de Presença/JDACT

Goa. A Chave de Toda a Índia. Perfil Político de 1505-1570. Catarina M. Santos. «Mas a interferência dos portugueses envolvia igualmente o Egipto e Veneza, que estavam comprometidos no comércio das especiarias, pela via do mar Vermelho. A oposição aos portugueses não vinha apenas da Índia…»

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«(…) A questão do envolvimento das forças locais coloca-se de modo bastante diferente, quando se põe o problema da centralidade comercial da cidade. Na verdade, Goa interferia de forma mais ou menos directa na economia dos vários estados já referenciados. Era uma escápula de comércio fundamental. Os cavalos que vinham de Ormuz entravam na Índia pelas portas de Goa, um dos raros pontos de passagem para o interior. No plano económico, o subcontinente indiano era marcado, grosso modo, pela existência de dois grandes blocos que se podem rotular como estados marítimo-comerciais e estados agrários. Os estados continentais mais poderosos da Índia, quer no caso muçulmano quer no hindu, não se encontravam directamente empenhados nos interesses referentes à actividade comercial marítima. Pelo contrário, baseavam a sua economia no produto das actividades agrícolas. Porém, quando pensamos em Goa, esses estados não podem ser excluídos, uma vez que, embora apartados daqueles interesses, estavam dependentes dos abastecimentos de cavalos árabes para a sustentação dos respectivos exércitos.
Nestes estados marítimos de pequena dimensão o comércio era deixado ao cuidado dos indivíduos islamizados, uma vez que os hindus estavam impossibilitados de o praticar. O islamismo representava uma ideologia muito mais favorável às trocas comerciais do que o hinduísmo. Os islamizados tomavam, assim, a seu cargo, a condução dos negócios comerciais: os Mapilas, filhos oriundos dos casamentos temporários entre marinheiros persas e árabes com mulheres de castas baixas, e que eram educados na religião do pai, dispersavam-se pelos portos do Malabar, sendo embora minoritários em Calecut, e estavam especializados no comércio da Índia em Índia; os Pardexis, ou seja, todos aqueles que não eram naturais do Kerala, incluindo não só turcos, magrebianos e árabes mas também indianos, que estavam situados acima de tudo em Calecut detinham grande influência comercial. Os portugueses começaram por ter conflitos com os Pardexis, mas cedo desenvolveram relações comerciais com os Mapilas de Calecut, Cochim e Cananor. As receitas destes estados marítimos estavam dependentes do comércio aí praticado, na medida em que decorriam da cobrança de taxas alfandegárias. Aquelas que derivavam da terra representavam um valor mais reduzido, se bem que em alguns casos se situassem aí os centros produtores de pimenta e gengibre. Estes reinos eram objectivamente opositores dos portugueses, por causa da competição em torno do controlo do comércio. Porém, foi junto deles que se estabeleceram muitos dos acordos mais duradouros. Cochim é disso exemplo. Essa harmonia tornou-se possível porque nenhum destes estados marítimos procurava influenciar grandes áreas comerciais. As diferentes rotas eram dominadas por determinado povo ou agrupamento político, o que não entrava em choque com a perspectiva e prática portuguesas de controlo mais alargado e tendencialmente globalizante das rotas.
Mas a interferência dos portugueses envolvia igualmente o Egipto e Veneza, que estavam comprometidos no comércio das especiarias, pela via do mar Vermelho. Isto significa que a oposição aos portugueses não vinha apenas da Índia mas também do Mediterrâneo oriental. Não nos esqueçamos que Afonso de Albuquerque e o Conselho dos Capitães decidiram avançar para a cidade de Goa justamente porque foram informados de que os rumes aí se instalavam para proceder à reforma da respectiva armada. Por isso, os interesses do Mediterrâneo oriental projectavam-se no próprio Índico e não deixaram de estar presentes no momento em que foi decidido investir contra Goa. Goa beneficiava, assim, de uma posição estratégica relativamente aos reinos locais. A sua conquista esteve naturalmente relacionada com os próprios equilíbrios entre as forças políticas indianas. A intervenção dos portugueses fora solicitada pelos reis aliados, que lhes haviam pedido ajuda na luta contra inimigos seus que, assim, se tornavam inimigos dos portugueses. A cidade era um ponto potencial de fixação dos rumes que, se a tomassem, garantiriam também um controlo sobre o mar Roxo e a continuidade da interferência do Egipto e de Veneza no comércio das especiarias. Do ponto de vista da estratégia global do Índico, constituía um posto decisivo para que os portugueses pudessem passar a cobrir as redes comerciais». In Catarina Madeira Santos, Goa é a Chave de toda a Índia. Perfil Político de 1505-1570, colecção Outras Margens, 1999, ISBN 972-8325-96-7.

Para a Ofélia e Álvaro José. Que estejam em Paz.
Cortesia de Outras Margens/JDACT

domingo, 22 de dezembro de 2013

Os Venturosos. Leituras. Alexandre Honrado. «Que dizeis, padre?... Pois se parece que até Maria Madalena ou outra do seu grupo deu um clister a um dos apóstolos, por emergência, salvando-o de perecer por sufocação… […] Mas, dizei-me, o hospital é assim tão bom como vai soando? - Que Deus guarde o rei por tê-lo feito! É bom, é, “meu santo”...»

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«(…) Há muito que o cardeal desejava visitar o novo hospital, a cuja abertura falhara por andar em viagem. Da jornada, que o levara até junto dos seus melhores amigos, os seus amigos do Tribunal do Santo Oficio (maldito), reunidos a discutir se pecados mouros eram tão graves quanto pecados de judeus ou de putas desabrigadas e se curandeiras seriam diferentes em seu pecar de bruxas e meretrizes, da jornada trouxera muitas razões de felicidade. Nunca se esqueceria do espectáculo santo daquele auto-de-fé em que participara, nem do cheiro que exalava dos corpos purificados a fogo bento que extraía os demónios de dentro das criaturas perdidas... Apenas os dias que levara enjoado, de barco, penitência estuporada que Deus lhe impusera espantosamente mas que aceitara com a resignação mais piedosa, marcavam com nuvem negra essas felizes memórias. Mas a menos que o homem venha a voar, uma coisa improvável e que Deus não desejaria, nada há mais rápido, seguro e moderno do que uma viagem marítima.
Assim pensando, foi o cardeal encontrar Ysla, o médico espanhol que se preparava para socorrer, por emergência, um chagadinho muito penado que acabara de entrar no hospital. - Como sabeis - declarou Ysla ao cardeal, detendo-se ambos no corredor que dava à enfermaria dos chagados, como sabeis eu aqui só trato da sífilis. E, perdoe-me a expressão, meu santo, graças a Deus cada vez menos me sobra que fazer. - Não meteis Deus nas andanças vis dos homens, meu caro físico. - Perdoai, meu santo. - Como sabeis, as mulheres nasceram para o pecado e os homens, quase todos, para pecar. A tentação... A tentação é que é o desafio. Um desafio que o céu nos impõe para a capacidade da nossa salvação. - Não concordo, e peço perdão. Olhe, padre, tenho aí uma cristaleira que se remiu de erros antigos e eu não quero outra para trabalhar. E isso queria dela, mesmo se aos erros velhos retornasse.
 - Tendes boa companhia de trabalho... - É vero. Para além da citada, rameira sinceramente convertida, tenho ainda dois físicos de ajuda, dois cirurgiões, enfermeiros, dois cristaleiros machos, um barbeiro sangrador e está-me prometido um catareiro novo que o que tenho não chega para aviamento. - Só me parece que não agrade a Deus uma cristaleira e outras mulheres que para aqui tendes em artes tão machas como são as de curar... - Que dizeis, padre?... Pois se parece que até Maria Madalena ou outra do seu grupo deu um clister a um dos apóstolos, por emergência, salvando-o de perecer por sufocação de fezes... - Nunca li tal nas Sagradas Escrituras. - Pois se foi um padre do Santo Oficio (maldito) quem mo contou... - Assim sendo, Deus saberá... - Que sabe, que sabe... Seu filho homem, Cristo, terá testemunhado pois andava perto... - Mas, dizei-me, o hospital é assim tão bom como vai soando? - Que Deus guarde o rei por tê-lo feito! É bom, é, meu santo...
 - Que Deus guarde então seu primo rei, a esse também, por tê-lo pensado e encomendado... Dizei-me: alguém aqui sabe de cirsotomia, dessa boa arte de extirpação de varizes? - Não temos casos desses. As prioridades são outras. Repare, há por aí quem apareça com veias de perna maiores do que cordões de barca, algumas já arrebentadas... Mas quem é que se importa com extirpar varizes? Isso é volatina, em comparação às moléstias que tratamos... Â conversa foi interrompida pela chegada de um homem muito robusto, de longas vestes ensanguentadas, que assomou a uma janela, gritando: - Ysla, Vossa Mercê não tem já de apressar-se; finou-se-nos o chagadinho que ia socorrer... Ysla suspirou e olhou, enviesado, o cardeal: - Labor e atarefações... Não se pára neste hospital... - E este quem é? - quis saber o cardeal. - É Luís, o catareiro. - Que tarefa desenvolve? - Cura hérnias, tira pedras, extirpa lombinhos, trata de chagas e alporcas e até de cancros e corrimentos. E é mestre a endireitar espinhelas. - E à caganeira, faz mister? - Não é sua especialidade, nem a minha, talvez ele se ajeite que eu evito... Porque o perguntais? Acaso... - Não eu, que me seguro, e, baixando a voz, o cardeal confidenciou: - É El-Rei que se rebola numa cagamerdeira imensa». In Alexandre Honrado, Os Venturosos, Círculo de Leitores, Braga, 2000, ISBN 972-42-2392-2.

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Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos. Bento de Jesus Caraça. Alberto Pedroso. «E nessa ponte de passagem chocam-se todas as correntes, coexistem todas as contradições, fazendo dela aparentemente uma feira de desvarios e, na realidade, um formidável laboratório de vida»

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«(…) Se nos recordarmos da afirmação tão firme por si feita um ano atrás, precisamente no dia 11 de Novembro de 1932 e no semanário Liberdade, de que nos momentos então vividos era a hora de falar claro e de cada um escolher a sua posição, sem esforço se verá que ele não só havia escolhido há muito o seu lugar na contenda, como também não perdera tempo a passar das palavras à acção. Certo de que a liberdade, a ciência e a cultura não sobrevivem nem se desenvolvem sob o império da guerra, corajosamente tomou o seu posto na barricada. O Globo surgiu num dos momentos mais dramáticos da História europeia e do nosso país, quando Hitler já chegara ao poder e tinha encenado a grande farsa do incêndio do Reichstag, acelerando a descida aos infernos, de que nos fala Bento Caraça. Na mesma altura, em Portugal, o fascismo salazarista consolidava o seu domínio, plebiscitava fraudulentamente uma nova constituição política e intensificava a repressão sobre o movimento operário e sindical, que a breve trecho iria destroçar com a promulgação do Estatuto do Trabalho Nacional e a fascização dos sindicatos.
É conhecido o texto publicado na última página do primeiro número do jornal, a sua declaração de princípios, a nosso ver saída da pena de Bento Caraça. O que até agora se ignorava é o texto intitulado Linha Geral, encontrado no espólio. Foi certamente o documento original definidor da linha de orientação aprovada pelo colectivo do jornal. Por razões que uma simples leitura torna óbvias, jamais foi divulgado, muito embora a declaração de princípios que foi publicada se tenha inspirado no texto Linha Geral, depois de o expurgar, claro está, das inconveniências que a censura veria com maus olhos e de lhe ter aprimorado a forma. Ao evocar-se a participação de Bento Caraça no amplo movimento internacional contra a guerra e o fascismo na Europa, não é possível deixar no esquecimento a conferência A Cultura Integral do Indivíduo – Problema Central do Nosso Tempo, um dos marcos mais significativos do seu envolvimento nessa luta. Proferida em Maio de 1933, na Universidade Popular Portuguesa, a convite da novel União Cultural Mocidade Livre, a conferência antecedeu em alguns meses o lançamento do Globo, sendo proferida perante uma assistência predominantemente juvenil, perturbada mas ansiosa por compreender o curso inquietante dos acontecimentos políticos, económicos e sociais que sacudiam o mundo dos seus dias. Perante esses jovens, numa análise clara e objectiva, Bento Caraça traçou as linhas gerais da evolução do mundo ocidental nos últimos tempos, a matriz dos problemas e das inquietações então vividas, sublinhando que o que o mundo for amanhã, é o esforço de todos nós que o determinará. Há que resolver os problemas que estão postos à nossa geração. Para tal, era indispensável, antes de tudo, conhecer quais são esses problemas, quais as soluções que importa dar-lhes, saber donde vimos, onde estamos, para onde vamos. E mais adiante alertou: O que estamos actualmente vivendo e sofrendo não é apenas uma borbulhagem fugaz, destinada a passar como tantas coisas passam, sem deixar sinal; é, muito pelo contrário, uma época de transição, uma ponte de passagem entre aquilo que desaparece e o que vai surgir. E nessa ponte de passagem chocam-se todas as correntes, coexistem todas as contradições, fazendo dela aparentemente uma feira de desvarios e, na realidade, um formidável laboratório de vida.
A conferência, uma análise invulgarmente lúcida sobre os dias tormentosos da década de 30, representou para os jovens que então a escutaram uma mensagem de estímulo e de esperança. E não é muita ousadia admitir que essa mensagem permanece viva e actual, em muitas das suas páginas». In Alberto Pedroso, Bento de Jesus Caraça, Semeador de Cultura e Cidadania. Inéditos e dispersos, Campo das Letras Editores, Porto, colecção Cultura Portuguesa, 2007, ISBN 978-989-625-128-4.

Cortesia de Campo das Letras/JDACT