quinta-feira, 29 de maio de 2014

Povos e Culturas Reflexos do Maio de 68 na Sociedade Portuguesa Artur Matos e Mário Lages. «… certos que da leitura destes artigos, entrevistas e depoimentos nascerá uma opinião mais enriquecida e firme sobre o ‘Maio de 68’ e das suas repercussões na sociedade portuguesa»

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Reflexos do Maio de’68 na Sociedade Portuguesa
Nota Prévia. «Quem viveu os acontecimentos ocorridos em Maio de 68 certamente não esqueceu as notícias que até nós chegavam desses factos, apesar de nem tudo ser convenientemente divulgado. Mas a época era de emigração e de grande procura de França, sobretudo de Paris, à busca de melhores condições de vida, ou para continuar estudos e adquirir as especializações que tardavam em chegar a Portugal, ou tão-somente à cata de algum espaço de maior liberdade de expressão. Também quem por esses ou outros motivos presenciou os episódios de conturbação estudantil, certamente não esqueceu as vivências desses tempos. E, quiçá persuadido da extensão da controvérsia, procurou razões, reteve imagens, guardou documentos, observou consequências que, decorridas algumas décadas será certamente de interesse recordar. Reflectir em todos esses episódios e observar o seu eco na sociedade portuguesa, foram motivos que levaram o CEPCEP, a consagrar-lhe um número da sua revista Povos e Culturas. Mas também, porque atento aos fenómenos de mutação social, com esta reflexão pretendeu assinalar o quarto de século da sua existência, trazendo à lembrança ou ao conhecimento das gerações presentes, acontecimentos que se terão repercutido na sociedade portuguesa do tempo. Temos a noção da complexidade da análise e da controvérsia do tema. Por isso tivemos a preocupação de o trazer ao público, decorridos 40 anos, analisando-o em diversas perspectivas e por autores de diferentes formações académicas e de desiguais universos políticos. Os autores que tiveram a generosidade de colaborar connosco, enriqueceram-nos com perspectivas teóricas, informação sobre comportamentos insurrectos, análises históricas, vivências revolucionárias, quer em França quer depois em Portugal. Muitos deles foram testemunhas oculares do ocorrido durante e após a revolução que marcou a segunda metade do século XX. Estamos certos que da leitura destes artigos, entrevistas e depoimentos nascerá uma opinião mais enriquecida e firme sobre o Maio de 68 e das suas repercussões na sociedade portuguesa». In Mário Lages Artur Teodoro de Matos

Para uma revisitação de ‘one-dimensional man’ de Herbert Marcuse
Um mentor inspirativo?
«Desde muito cedo, praticamente, numa coetaneidade com o desenrolar dos acontecimentos e a sua expressão mediatizada, Herbert Marcuse foi sendo associado à figura tutelar de mentor inspirativo, inspirational mentor, dos movimentos estudantis de protesto dos anos sessenta do século passado. Uma ronda pelas publicações da época poderá sem dificuldade encontrar atestações para o facto, que a memória dos contemporâneos, como impressão, regista. A título anedótico, recordo ainda o entusiasmo com que de Marcuse me falava, confessando embora não o ter lido, um antigo colega de liceu, de naturalidade francesa, recém-chegado de Paris, numa conversa ocasional no Verão de 1968, em plena praia do Estoril. Compete à investigação histórica e ao inquérito sociológico debruçar-se em concreto, e com maior rigor, sobre as vicissitudes e os termos determinados, culturais, ideológicos e, inclusivamente, biográficos, em que essa influência espiritual, reconhecidamente difusa, se terá verificado.
No entanto, é facto que, entre 1964, data da primeira edição, e 1969, One-Dimensional Man conheceu, só nos Estados Unidos da América e na mesma editorial, mais de uma dezena de reimpressões. O êxito do empreendimento teve certamente a ver, não apenas com a real valia intrínseca da obra, mas também com a sua estreita consonância percebida com todo um conjunto de realidades que estavam em gestação e desenvolvimento. Por sua vez, o próprio Marcuse, no prefácio de An Essay on Liberation (1969), depois de assinalar a continuidade temática deste escrito, designadamente, com Eros and Civilization, One-Dimensional Man, e Repressive Tolerance, afirma: Este ensaio foi escrito antes dos acontecimentos de Maio e Junho de 1968 em França. Acrescentei meramente algumas notas de rodapé em jeito de documentação. A coincidência entre algumas das ideias sugeridas no meu ensaio e as formuladas pelos jovens militantes foi para mim surpreendente [striking]. O radical carácter utópico das exigências [demands] deles ultrapassa de longe as hipóteses do meu ensaio; e, todavia, essas exigências foram desenvolvidas e formuladas no decurso da própria acção; são expressões de uma prática política concreta. Para além dos aspectos testemunhais de admiração e de espanto que acompanham todo este pronunciamento, desde logo, dois traços teoréticos me parecem desenhar-se aqui, e ser de reter: a vinculação da produção de pensamento (ou a consciencialização dos actores) à imersão num processo activo (a prática de uma luta em desenvolvimento) e o equacionamento da dimensão utópica». In José Barata Moura, Artur Matos e Mário Lages, Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, Povos e Culturas n.º 12, Reflexos do Maio de ’68 na Sociedade Portuguesa (CEPCEP), Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2008, ISSN 0873-5921.

Cortesia de CEPCEP/JDACT

A Geração de 70 - Uma Revolução Cultural e Literária. Álvaro Manuel Machado. «... os transcendentes recantos aonde o bom Deus se mete, sem fazer caso dos Santos, a conversar com Garrett! Deslumbrado, toquei o cotovelo de um camarada, que murmurou, por entre os lábios abertos de gosto e pasmo: - É o Antero!...»

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Ramalho Ortigão ou o Republicanismo pequeno-burguês
«(…) O melhor testemunho que temos deste primeiro período da influência intelectual de Antero na geração estudantil coimbrã dos anos 60, é talvez o de Eça de Queirós, num texto evocativo do poeta e publicado em 1896. Em Coimbra, uma noite, noite macia de Abril ou Maio, atravessando lentamente com as minhas sebentas na algibeira o Largo da Feira, avistei sobre as escadarias da Sé Nova, romanticamente batidas da lua, que nesses tempos ainda era romântica, um homem, de pé, que improvisava. A sua face, a grenha densa e loura com lampejos fulvos, a barba de um ruivo mais escuro, frisada e aguda, à maneira sírica, reluziam, aureoladas. (...) Parei, seduzido, com a impressão de que não era aquele um repentista picaresco ou amavioso, como os vates do antiquíssimo século XVIII, mas um Bardo, um Bardo dos tempos novos, despertando almas, anunciando verdades. O homem, com efeito, cantava o Céu, o Infinito, os mundos que rolam carregados de humanidade, a luz suprema habitada pela ideia pura, e:

... os transcendentes recantos
aonde o bom Deus se mete,
sem fazer caso dos Santos,
a conversar com Garrett!

Deslumbrado, toquei o cotovelo de um camarada, que murmurou, por entre os lábios abertos de gosto e pasmo: - É o Antero!...

E, mais adiante, Eça evoca o primeiro encontro a sós com Antero, dando-nos dele, com invulgar sentido psicológico, uma imagem verdadeiramente nietzschiana: Intimidade, porém, com aquele que eu depois chamava Santo Antero, só verdadeiramente começou na manhã em que o visitei, com muita curiosidade e muita timidez, na sua casa do Largo de S. João. (...) Fascinado, surdi do vão da janela onde me refugiara, e parando à borda da mesa: - Oh Antero, quanta ordem você tem na destruição! Ele dardejou sobre mim dois olhares devoradores. Depois, considerou, ainda enrugado, a pilha acertada de papéis cortados e, um sorriso, aquele sorriso de Antero que era como um sol nascente, iluminou, fez toda clara e rósea a sua boa face onde havia um não sei quê de filósofo de Alexandria e de piloto do Báltico: - O ritmo, murmurou, é necessário mesmo no delírio. Isto passou-se, como diz ainda Eça, na Coimbra de tão lavados e doces ares, em 1862 ou 1863, essa Coimbra que vivia num grande tumulto mental com a chegada por caminho de ferro, vindos da França e da Alemanha, de torrentes de coisas novas, ideias, sistemas, estéticas, formas, sentimentos, interesses humanitários... Ou seja, pêle-mêle, leituras de Michelet, Hugo, Taine, Vico, Hegel, Proudhon, Heine, Baudelaire e Darwin. Eça descobre mesmo, com deslumbramento, a Bíblia! Mas o que Eça descobre, sobretudo, como o fizera já Antero, é a Humanidade. A geração de Antero e de Eça começa a amar a Humanidade, como há pouco, no ultra-romantismo, se amara Elvira, vestida de cassa branca ao luar.
Na altura em que Eça encontra Antero, já este tinha publicado os primeiros Sonetos (1861) e Béatrice (1863), mais tarde inclusos nos Sonetos Completos. Mas é com as Odes Modernas, livro publicado em 1865 (um ano depois da Visão dos Tempos de Teófilo Braga) que Antero inicia um novo período na literatura portuguesa, período a que António Sérgio, muito justamente, chamou terceiro romantismo. De facto, se as Odes Modernas se separam radicalmente do romantismo de Castilho, designado pelo mesmo António Sérgio o segundo romantismo, elas retomam os grandes temas do primeiro romantismo de Herculano, isto é, as supremas preocupações humanistas, universalistas (em Herculano, mais nacionalistas do que universalistas) e, sobretudo, sociais que já Herculano anunciara e que provinham em linha recta dos primeiros românticos alemães, mais do que dos românticos franceses, embora Vítor Hugo influenciasse nitidamente Antero nesta primeira fase. Romantismo, portanto, predominantemente filosófico, o mesmo que marcou a poesia de Novalis, de Hoelderlin, de Heine, como se pode ver por este soneto das Odes Modernas intitulado Tese e antítese, datado de 1870 e depois incluído nos Sonetos Completos:

Já não sei o que vale a nova ideia,
quando a vejo nas ruas desgrenhada,
torva no aspecto, à luz da barricada,
como bacante após lúbrica ceia!

Sanguinolento o olhar se lhe incendeia...
Respira fumo e fogo embriagada...
A deusa de alma vasta e sossegada
ei-la presa das fúrias de Medeia!

Um século irritado e truculento
chama à epilepsia pensamento,
verbo ao estampido de petouro e obus...

Mas a ideia é num mundo inalterável,
num cristalino céu que vive estável...
Tu, pensamento, não és fogo, és luz!»

In Álvaro Manuel Machado, A Geração de 70 - Uma Revolução Cultural e Literária, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, Instituto Camões, Livraria Bertrand, 1986.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

A Geração de 70 - Uma Revolução Cultural e Literária. Álvaro Manuel Machado. «Antero foi, no entanto, o mestre incontestado e incontestável da Geração de 70, o seu supremo inspirador, o seu trágico símbolo»

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Ramalho Ortigão ou o Republicanismo pequeno-burguês
«(…) São exemplos desse aspecto, entre muitos, as passagens sobre A alimentação e seus efeitos nas ideias, nos sentidos e nos aspectos da sociedade (As Farpas de Fevereiro de 1876) em que Ramalho confunde a pouca eficácia da estatística no que diz respeito à alimentação nacional com a necessidade (extra-nacional e extra-temporal) da metafísica: Porque é que a Estatística nos não disse há mais tempo o que sabia? Ter-nos-ia tirado o trabalho de procurar para tantos fenómenos as suas causas metafísicas.
Uma última fase da obra de Ramalho Ortigão foi a das divagações folclóricas, em que Ramalho evoca sobretudo a vida provincial, com saudosismo (provinciano, contrariamente ao de António Nobre) mas também, por vezes, com um sentido muito pessoal da festa e da magia da luz e das sombras, no Porto: Tamanho era o dia como a romaria. De sorte que só à noite fechada se voltava para casa. E os que tinham ficado na cidade, depois de terem ido ao Senhor Exposto, a Santo António das Taipas ou a S. João Novo, viam do paredão das Fontaínhas deslizar em baixo, no espelho negro do rio angustiado e túmido, as lentas barcas iluminadas de lanternas.

Ou em Lisboa (passagem que nos faz pensar em Cesário Verde): Saio de Lisboa de manhã cedo... Uma destas belas manhãs criadoras, em que as abóboras e os melões abeberados na raiz pela rega da véspera se dilatam regaladamente a um sol de rachar. Aliás, Ramalho deu-nos o melhor de si mesmo na evocação de viagens, como se prova pelo seu livro A Holanda (1883), em que nostalgicamente (e neste sentido o livro não é só um livro de viagens, ele é bem característico de toda a Geração de 70) evoca uma burguesia cosmopolita (não pequena e não republicana), verdadeiramente civilizada, que, para nossa grande desgraça, nunca chegou a existir em Portugal: Na posse plena do seu destino, toda a Holanda pacificada respira largamente a glória, a felicidade, a alegria. Esse pequeno e humilde povo fleumático, trabalhador, económico, inventivo, modesto, provocado pelas mais arrogantes e poderosas nações do mundo, batera e derrotara toda a Espanha, a Inglaterra e a França. A guerra, que arruinara os inimigos, enriquecera a Holanda pelo comércio do mundo. Enquanto combatia no mar, edificava em terra. Levantara diques, abrira canais, dissecara pântanos, saneara cidades, construíra pontes, armara estaleiros, fundara escolas, igrejas, palácios municipais, recolhimentos de velhos e de inválidos, hospícios de órfãos, sedes de assembleias comerciais, de sociedades literárias e científicas, de associações de operários, de irmandades de artistas, de companhias de arcabuzeiros. Tinham-se reacendido os seus lares, agora mais recolhidos e mais meigos; tinham-se enchido de flores os seus jardins; tinham-se coberto de vacas e de ovelhas os seus prados. De resto, se a partir de 1880 fez parte do grupo dos Vencidos da Vida e se nas Últimas Farpas renega o republicanismo e manifesta a sua nostalgia de uma monarquia castiça, à antiga, Ramalho Ortigão, com todas as suas limitações, fica na história da cultura portuguesa como um representante daquilo que, na Geração de 70, foi por vezes mais testemunho de uma época do que profunda análise e verdadeira transformação dela.

Antero de Quental ou o mestre metafísico
A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta. Esta frase de Fernando Pessoa define exemplarmente, ao mesmo tempo, a vida e a obra de Antero de Quental, tão admirado por Pessoa. Mas o grande drama do poeta é que, se para ele a vida não bastava, a literatura ainda menos. Daí a impossibilidade para Antero de a literatura ser apenas uma forma de confissão (como o foi para António Nobre, por exemplo) e, portanto, de total compensação do irrealizável na vida. Longe de ser confissão, a literatura foi para Antero, através das várias fases da sua obra, antes de mais uma forma de revolta e de exigência absoluta do pensamento para lá do relativismo do sentimento. Como diz Oliveira Martins no prefácio aos Sonetos: Antero é um poeta que sente, mas é um raciocínio que pensa. Pensa o que sente; sente o que pensa. Como diria mais tarde Pessoa de si mesmo: O que em mim sente, está pensando.
Mas a Antero faltava a ironia niilista de Pessoa para dar a este drama pensamento-sentimento uma feição essencialmente lúdica. Para Antero, pensar e sentir deveriam conjugar-se para um mesmo fim: agir. E agir como um condutor de povos, como um iluminado. Se não chegou a ser um condutor de povos, Antero foi, no entanto, o mestre incontestado e incontestável da Geração de 70, o seu supremo inspirador, o seu trágico símbolo. E foi-o desde o momento em que, tendo deixado a família fidalga e letrada de proprietários rurais da cidade de Ponta Delgada, ilha de S. Miguel, onde nasceu a 18 de Abril de 1842, partiu para Coimbra e aí começou a impor-se no meio estudantil». In Álvaro Manuel Machado, A Geração de 70 - Uma Revolução Cultural e Literária, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, Instituto Camões, Livraria Bertrand, 1986.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

La Tribuna. Emilia Pardo Barzán. «De qué le había servido tanto romper el cuerpo cuando era joven? De verse ahora tullida. Ay, no se sabe lo que es la salud hasta después de que se pierde!, exclamaba sentenciosamente…»

Cortesia de wikipedia

Barquillos. Padre y madre
«(…) Tres años antes, la imposibilitada estaba sana y robusta y ganaba su vida en la Fábrica de Tabacos. Una noche de invierno fue a jabonar ropa blanca al lavadero público, sudó, volvió desabrigada y despertó tullida de las caderas. - Un aire, señor,decía ella al médico. Quedose reducida la familia a lo que trabajase el señor Rosendo: el real diario que del fondo de Hermanda de la Fábrica recibía la enferma no llegaba a medio diente. Y la chiquilla crecía, y comía pan y rompía zapatos, y no había quien la sujetase a coser ni a otro género de tareas. Mientras su padre no se marchaba, el miedo a un pasagonzalo sacudido con el cargador la tenía quieta ensartando y colocando barquillos; pero apenas el viejo se terciaba la correa del tubo, sentía Amparo en las piernas un hormigueo, un bullir de la sangre, una impaciencia como si le naciesen alas a miles en los talones. La calle era su paraíso. El gentío la enamoraba, los codazos y enviones la halagaban cual si fuesen caricias, la música militar penetraba en todo su ser produciéndole escalofríos de entusiasmo. Pasábase horas y horas correteando sin objeto al través de la ciudad, y volvía a casa con los pies descalzos y manchados de lodo, la saya en jirones, hecha una sopa, mocosa, despeinada, perdida, y rebosando dicha y salud por los poros de su cuerpo. A fuerza de filípicas maternales corría una escoba por el piso, sazonaba el caldo, traía una herrada de agua; en seguida, con rapidez de ave, se evadía de la jaula y tornaba a su libre vagancia por calles y callejones.
De tales instintos erráticos tendría no poca culpa la vida que forzosamente hizo la chiquilla mientras su madre asistió a la Fábrica. Sola en casa con su padre, apenas este salía, ella le imitaba por no quedarse metida entre cuatro paredes: vaya, y que no eran tan alegres para que nadie se embelesase mirándolas. La cocina, oscura y angosta, parecía una espelunca, y encima del fogón relucían siniestramente las últimas brasas de la moribunda hoguera. En el patín, si es verdad que se veía claro, no consolaba mucho los ojos el aspecto de un montón de cal y residuos de albañilería, mezclados con cascos de loza, tarteras rotas, un molinillo inservible, dos o três guiñapos viejos y un innoble zapato que se reía a carcajadas. Casi más lastimoso era el espectáculo de la alcoba matrimonial: la cama en desorden, porque la salida precipitada a la Fábrica no permitía hacerla; los cobertores color de hospital, que no bastaba a encubrir una colcha rabicorta; la vela de sebo, goteando tristemente a lo largo de la palmatoria de latón veteada de cardenillo; la palangana puesta en una silla y henchida de agua jabonosa y grasienta; en resumen, la historia de la pobreza y de la incuria narrada en prosa por una multitud de objetos feos, y que la chiquilla comprendía intuitivamente; pues hay quien sin haber nacido entre sedas y holandas, presume y adivina todas aquellas comodidades y deleites que jamas gozó. Así es que Amparo huía, huía de sus lares camino de la Fábrica, llevando a su madre, en una fiambrera, el bazuqueante caldo; pero, soltando a lo mejor la carga, poníase a jugar al corro, a San Severín, a la viudita, a cualquier cosa, con las damiselas de su edad y pelaje.
Cuando la madre se vio encamada quiso imponer a la hija el trabajo sedentario: era tarde. La planta rústica no se sujetaba ya al espaller. Amparo había ido a la escuela en sus primeros años, años de relativa prosperidade para la familia, sucediéndole lo que a la mayor parte de las niñas pobres, que al poco tiempo se cansan sus padres de enviarlas y ellas de asistir, y se quedan sin más habilidad que la lectura, cuando son listas, y unos rudimentos de escritura. De aguja apenas sabía Amparo nada. La madre se resignó con la esperanza de
colocarla en la Fábrica. Que trabaje, decía, como yo trabajé. Y al murmurar esta sentencia suspiraba, recordando treinta años de incesante afán. Ahora su carne y sus molidos huesos se tendían gustosamente en la cama, donde reposaba tumbada panza arriba ínterin sudaban otros para mantenerla. Que sudasen! Dominada por el terrible egoísmo que suele atacar a los viejos cuya mocedad fue laboriosa, la impedida hizo del potro de dolor quinta de recreo. Lo que es allí ya podían venir penas; lo que es allí a buen seguro que la molestase el calor ni el frío. Que era preciso lavar la ropa? Bueno, ella no tenía que levantarse a jabonarla, le había costado bien caro una vez. Que estaba sucio el piso? Ya lo barrerían, y si no, por ella, aunque en todo el año no se barriese.... De qué le había servido tanto romper el cuerpo cuando era joven? De verse ahora tullida. Ay, no se sabe lo que es la salud hasta después de que se pierde!, exclamaba sentenciosamente, sobre todo los días en que el dolor artrítico le atarazaba las junturas. Otras veces, jactanciosa como todo inválido, decía a su hija: Sácateme de delante, que irrita el verte; de tu edad era yo una loba que daba en un cuarto de hora vuelta a una casa». In Emilia Pardo Barzán, La Tribuna, Alfredo de Carlos, Madrid 1883, The Project Gutenberg eBook, 2006, ISSO 8859-1.

Cortesia de PGeBook/JDACT

terça-feira, 27 de maio de 2014

A Revelação dos Templários. Lynn Picknet e Clive Prince. «De início, tão incrível quanto possa parecer, o Sudário de Turim ‘é uma fotografia’. Em resumo, o Sudário de Turim é, entre outras coisas, uma fotografia de cinco anos de não outro que Leonardo da Vinci»

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«(…) E os outros trabalhos de Leonardo, temos descoberto, ressaltam suas próprias obsessões heréticas embora cuidadosamente aplicadas na formação consistente de imagens, algo que não aconteceria se o artista fosse um ateu meramente engajado em ganhar a sua vida. Estas desnecessárias inclusões e símbolos também são muito, muito mais do que uma resposta céptica satírica a uma tal comissão; eles não são apenas o equivalente de aderir um nariz vermelho a São Pedro, por exemplo. O que estamos olhando na Última Ceia e seus outros trabalhos é o código secreto de Leonardo da Vinci, que acreditamos ter uma surpreendente relevância para o mundo hoje. Pode ser argumentado que seja o que for que Leonardo acreditou ou não acreditou, isto era meramente o ponto fraco de um homem, e um homem notoriamente estranho, um em cuja história encontramos infindáveis paradoxos. Ele pode ter sido um solitário, mas ele era também a vida e alma do grupo; ele desprezava os previsores da fortuna, mas suas narrativas listam dinheiros pagos a astrólogos; ele era um vegetariano a amante de animais mas sua ternura raramente se estendia à humanidade. Ele obcessivamente dissecava cadáveres e observava execuções com os olhos de um anatomista. Ele era um profundo pensador e mestre de enigmas, conjurando truques e farsas. Dado uma tal visão geral complexa, talvez fosse de se esperar que as suas opiniões pessoais sobre religião e filosofia fossem não usuais, até mesmo excêntricas. Apenas por esta razão, pode ser tentador descartar suas crenças heréticas como irrelevantes hoje. Conquanto seja geralmente admitido que Leonardo era enormemente dotado, a tendência moderna ao epoquismo arrogante busca indeterminar as suas obtenções. Afinal, quando ele estava no seu florescimento, até mesmo a técnica da impressão era uma novidade. O que poderia um tal inventor solitário em tal tempo primitivo possivelmente ter a oferecer a um mundo que é infindavelmente informado pela Net, e que pode, numa questão de segundos, se comunicar por telefone ou máquina de fax com pessoas em continentes que nem mesmo foram descobertos nos dias dele?
Há duas respostas a isso. A primeira é a de que Leonardo não foi, para usar um paradoxo, um génio comum. Embora a maioria das pessoas saiba que ele projectou máquinas voadoras e primitivos tanques militares, algumas de suas invenções eram tão improváveis nos seus dias quando aquelas de um virada mental mais caprichosa tem até mesmo sugerido que ele possa realmente ter tido visões do futuro. Seus projectos para uma bicicleta, por exemplo, apenas vieram a luz em 1960. Diferente dos dolorosos estágios de tentativa e erro no desenvolvimento da inicial bicicleta vitoriana, contudo, o traçador de estrada de da Vinci tinha duas rodas e igual tamanho e um mecanismo de cadeia e engrenagem. Mas até mesmo mais fascinante do que o projecto actual, está a possível razão porque ele pode ter inventado uma bicicleta em primeiro lugar. Para um homem que sempre havia querido voar como os pássaros, mas tendo um desejo motor para pedalar ao longo em estradas menos do que perfeitas, precariamente equilibrado em duas rodas, é completamente surpreendente. (e não é, diferente de voar, uma figura em qualquer fábula clássica). Leonardo também previu o telefone, entre muitas outras afirmações futurísticas pela fama. Se Leonardo era algo mais do que um génio, do que os livros de história o permitem, há ainda a questão como o possível conhecimento que ele poderia ter tido, se impingiria de um modo significativo ou disseminado cinco séculos depois que ele viveu.
Conquanto possa ser argumentado que os ensinamentos de um rabino do século I possam ser esperados terem até mesmo menos relevância para nosso tempo e lugar, também é verdade que algumas ideias são universais e eternas, e que a verdade, se ela pode ser encontrada ou definida, nunca é essencialmente indeterminada pela passagem dos séculos. Contudo não foi a filosofia ou a arte de Leonardo que primeiramente nos atraiu até ele. Foi seu trabalho mais paradoxal, aquele que é ao mesmo tempo incrivelmente famoso e menos conhecido, que motivou nossa pesquisa intensiva sobre Leonardo. Como descrito em detalhes no nosso último livro, descobrimos que ele foi o mestre que falsificou o famoso Sudário de Turim, que há muito tinha sido acreditado ter sido impresso com a imagem de Jesus ao tempo de sua morte. Em 1988 a datação por carbono provou ser ele um artefacto do final dos tempos medievais ou início da Renascença, mas para nós, ele permaneceu uma imagem verdadeiramente notável, para dizer o mínimo. Principal em nossas mentes estava a questão da identidade do fraudador, porque seja quem fosse que tenha criado esta relíquia, tinha que ser um génio.
O Sudário de Turim, como toda a literatura reconhece, a favor e contra a sua autenticidade, se comporta como uma fotografia. Ele exibe um curioso efeito negativo o que significa que se parece como uma vaga marca de queimadura ao olho nu, mas pode ser visto em bons detalhes no negativo fotográfico. Porque nenhuma pintura conhecida ou impressão por riscar se comporta desta maneira, o efeito negativo tem sido tomado pelos crentes no Sudário como sendo a prova das qualidades miraculosas da imagem. Contudo, descobrimos que a imagem no Sudário de Turim se comporta como uma fotografia precisamente porque é isso que ela é. De início, tão incrível quanto possa parecer, o Sudário de Turim é uma fotografia. Nós, juntamente com Keith Prince, reconstruimos o que acreditamos ser a técnica original e ao fazer isso se tornou claro que a primeira pessoa até mesmo replicou todas as caracteristicas até então inexplicadas do Sudário. E a despeito das afirmações dos crentes no Sudário que isso era impossível, nós o fizemos usando um equipamento extremamente básico. Usamos uma câmara escura, uma roupa quimicamente coberta, tratada com materiais prontamente disponíveis no século XV, e grandes doses de luz. Contudo, o sujeito experimental de nossa fotografia era um busto de gesso de uma menina, que estava desapontadamente anos luz longe do modelo original. Porque embora a face no Sudário não fosse, como tem sido amplamente afirmado, aquela de Jesus, ela era de facto a face do próprio fraudador. Em resumo, o Sudário de Turim é, entre outras coisas, uma fotografia de cinco anos de não outro que Leonardo da Vinci». In Lynn Picknet e Clive Prince, A Revelação dos Templários, Narrativa, Editora Planeta, 2006, ISBN 857-6651-75-0.

Cortesia de Planeta/JDACT

El Secreto en la Inquisición Española. Eduardo G. Rodriguez. «Del manuscrito consultado parece deducirse que finalmente el monarca asume la consulta y sanciona una instrucción para que los tribunales del Santo Oficio (maldito) arreglen su procedimento a lo expuesto, previendo incluso el derecho transitório»

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El Secreto Inquisitorial.  La regulación normativa
«(…) A pesar de ello, los distintos territorios no dejan de mostrar signos de rechazo a la actividad inquisitorial y a su sigilo. Por ejemplo, en Octubre de 1484, llega a la corte, desde Valencia, una embajada con instrucciones concretas para negociar con el rey. Entre ellas, exige que los testimonios sean publicados, para evitar que la malicia y la ocultación favorezcan falsas acusaciones.

Las Instrucciones de finales del siglo XV
Las Instrucciones del Oficio de la Santa Inquisición (maldita), dadas en Sevilla el 29 de Noviembre de 1484, ofrecen a los inquisidores la posibilidad de ocultar los nombres e identidades de los deponentes, condicionada, en principio, a la existencia de un peligro personal o patrimonial para los testigos. Además, ordenan que, concluida la fase probatoria, se haga publicación de los testimonios, pero callando los nombres y circunstancias por las cuales el reo acusado podría venir en conocimiento de las personas de los testigos. De esta publicación se dará copia al acusado que la solicite. Pero se trata en este caso de una mera posibilidad, cuya aplicación queda a la conciencia y apreciación de los jueces. Frente a este modo de proceder en el Santo Oficio (maldito), dos años después, unos embajadores de Cataluña reciben instrucciones para levantar su voz ante el monarca y negociar que, de perseverar en la idea de la Inquisición (maldita), ésta respete unas bases que incluyen el traslado a los reos de la acusación y el nombre del acusador. En la línea institucionalizadora del sigilo, el mismo Torquemada dicta unas instrucciones en Valladolid, el 27 de Octubre de 1488, conducentes a dos fines principales. En primer lugar, impone el aislamiento de los presos, cuya comunicación sólo podrá autorizarse para que comimiquen con eclesiásticos en orden a su consuelo y liberación de sus conciencias. En segundo lugar, ordena que en las actuaciones del Santo Oficio (maldito) que requieran la guarda del secreto sólo estén presentes las personas estrictamente necesarias. Por otra parte, dispone que los papeles del secreto han de custodiarse bajo llave, en poder de los notarios del secreto, y no extraerse de la sede del tribunal.
Nueve años más tarde, el 15 de Febrero de 1497, el Consejo insiste en que los inquisidores han de facilitar a los reos el contenido de las acusaciones, mas no los nombres de los testigos. Un año después, las Instrucciones de Ávila de 1498 prescriben el castigo con pena pública de los testigos que presten falso testimonio. Además, disponen que en las testificaciones ha de estar presente un inquisidor y en las ratificaciones dos personas honestas que no sean del Oficio (maldito), sin que en estas últimas actuaciones puedan concurrir otros oficiales de la Inquisición (maldita). Por otra parte, estatuyen las cautelas a observar en los supuestos de sentencias recaídas sobre difuntos y señalan que, salvo la persona que tenga a su cargo el alimento de los presos, nadie pueda comunicar con éstos, ni siquiera los familiares del alcaide. En las Instrucciones de Sevilla, dadas el mismo año 1498, Torquemada ordena, básicamente, que los ministros y oficiales de la Inquisición (maldita) presten juramento de fidelidad y secreto en el momento de tomar posesión de sus oficios. Junto a ello, establece que los servidores del Santo Oficio (maldito) que pretendan comunicar con los presos lo habrán de verificar sempre con el concurso de otro oficial.

Las Instrucciones de 1500 y la regulación posterior
En las Instrucciones dadas en Sevilla el 17 de Junio de 1500, el Inquisidor General, Diego Deza, por lo que se refiere a nuestro objeto de conocimiento, se limita a recoger gran parte de lo regulado en anteriores instrucciones. A su lado, en la misnia línea institucionalizadora, mediado el siglo XVI, Pío IV, con el breve Cum sicut, otorga a los inquisidores plena libertad para omitir los nombres de acusadores, denunciantes y testigos. Pero todas las precauciones son pocas para garantir el sigilo y, el 30 de Octubre de 1510, la Suprema determina que sólo tengan acceso a la sala del secreto aquellas personas estrictamente necesarias conforme a derecho, conminando con la pena de excomunión, tanto a los inquisidores, fiscal y notario que permitan la actuación en contrario, como a los oficiales que contravengan lo estatuido. Además, el 15 de Mayo de 1518, la Suprema insiste en la necesidad de guardar secreto en todas las cosas tocantes al Santo Oficio de la Inquisición (maldita), concerniendo dicho deber a todos los oficiales, por ser el fundamento de la buena administración. Sin embargo, el proceder de los tribunales inquisitoriales no es admitido de plano y afronta algunas resistencias en los distintos territorios de la monarquía. Los veinte primeiros años de la centuria asisten a varios ataques contra las especialidades procesales de la Inquisición (maldita). Los tres objetivos básicos a derribar son el secreto del proceso, la arbitrariedad de los tribunales y la confiscación de bienes.
Aparte de diversos intentos procedentes de sectores conversos y orientados a que el monarca acceda a publicar los nombres de los testigos, es de destacar la protesta acontecida con ocasión de las Cortes de Valladolid del año 1518. En ellas los procuradores elevan al monarca una relación de los males padecidos desde la instauración del Santo Oficio (maldito), pidiendo un remedio pronto basado fundamentalmente en un cambio del procedimiento. Estos representantes castellanos consideran que el secreto ha propiciado la concurrencia de falsos testimonios, abusos por parte de ministros y oficiales, indefensión de los acusados y daños a muchos inocentes y a sus familias. Por estos motivos, solicitan que los tribunales de la Inquisición sigan los procedimientos del derecho común y que los jueces sean convenientemente elegidos o que sus competencias las asuman los Ordinarios. Ante tales demandas, el rey dispone que la cuestión sea consultada por algunos de nuestro Consejo y con otras personas doctas... [quienes] hicieron relación que para por el dicho Santo Oficio se administrase enteramente justicia, conforme al servicio de Dios y nuestro y al descargo de nuestras reales conciencias, convenía que en el proceso de la dicha Santa Inquisición (maldita) y de las causas tocantes a ella se guardase la forma de la orden y reglas siguientes. Dichas normas, por lo que atañe al secreto, prevén que los presos sean recluidos en cárceles públicas y con entera comunicación; que puedan elegir letrado y procurador libremente; que la acusación recoja los cargos literales y se les facilite copia de la información completa, incluidos los nombres de los testigos. Sólo podrá permanecer oculta la identidade de los deponentes cuando acusen a algún duque, marqués, o conde, u obispo, o gran prelado, siendo esta decisión apelable ante el Papa con efectos suspensivos. Además, previene que las partes, sus letrados y procuradores estén presentes a la hora de dictarse sentencia.
Del manuscrito consultado parece deducirse que finalmente el monarca asume la consulta y sanciona una instrucción para que los tribunales del Santo Oficio (maldito) arreglen su procedimento a lo expuesto, previendo incluso el derecho transitorio. Sin embargo, se trata de una copia sin firmas y la historiografía coincide al afirmar que no tiene efecto merced a la intervención de Adriano de Utrecht. De ahí que las Cortes de Valladolid de 1523 y las de Toledo de 1525 reiteren las peticiones formuladas años antes. Estos hechos presentan efectos colaterales en el plano internacional. Tres breves del Papa León X, dictados en el año 1519, parecen anunciar el fin del secreto. Pero el pontífice fallece dos años más tarde, y le sucede Adriano de Utrecht, quien ya se había opuesto a la modificación del proceso inquisitorial en España. Por lo que toca a la Corona de Aragón, las Cortes de Monzón de 1510 y 1512, las de Lérida en 1515, o las de Zaragoza de 1518, solicitan reiteradamente la supresión del secreto inquisitorial. Así, los artículos 7 y 8 de estas últimas afirman el derecho de los acusados a conocer los nombres de los deponentes y las fechas de sus declaraciones. Por su parte, el artículo 9 pide la ley del tallón para los falsos testigos, mientras que el 11 reclama el derecho de visita en favor de los parientes de los acusados. Frente a esto, el monarca responde ser su voluntad que en todos y cada uno de los artículos propuestos se observasen los sagrados cánones y las ordenanzas y decretos de la silla apostólica, sin atender nada en contrario. A pesar de lo evanescente de la respuesta, la referencia a las ordenanzas y a las bulas cierra la puerta a la publicidad en los procesos inquisitoriales. Por otro lado, en relación con el reino de Navarra, en torno a 1521 solicita al monarca la implantación de la publicidade de los nombres de los declarantes». In Eduardo Galván Rodríguez, El Secreto en la Inquisición Española, Universidade de Las Palmas de Gran Canaria, Biblioteca Universitária 238793, Campillo Nevado, 2001, ISBN 84-95792-54-0.

Cortesia de ULPGCanaria/JDACT

Simon de Montfort. A figura do Vassalo Perfeito. História Albigeoise. Pierre des Vaux de Cernay. Eduardo L. Medeiros. «Não tardou para que Cluny espalhasse abadias filhas pelo restante da Europa, os mosteiros cluniacenses proliferaram. A sua organização fez com que prosperassem…»

Cortesia de wikipedia

«(…) A Europa apresentou nos séculos XII e XIII, aquilo que os manuais didácticos comumente chamam de As grandes mudanças. Estas mudanças atingiram todos os níveis da sociedade medieval através do crescimento demográfico que segundo Le Goff, duplicou entre o final do século X e o início do XIV. Outro factor que demonstra este progresso medieval foi à intensificação da cunhagem de moedas durante o século XIII: E, por fim, o renascimento monetário do século XIII deslumbrou os historiadores, principalmente, com o regresso à cunhagem de moedas de ouro. Estas mudanças comportam ainda outros elementos tais como o renascimento urbano, o desenvolvimento de técnicas agrícolas e o consequente aumento da produção com a formação de excedentes desta produção que voltou a estimular o comércio. É claro que estes eventos são muito mais complexos que o simples esquema aqui apresentado, porém é possível apresentar um panorama geral que nos instigue a buscar algumas motivações para este contexto favorável. Neste sentido, os especialistas divergem nas suas posições. Maurice Lombard busca a sua explicação no contacto entre o Ocidente e o mundo muçulmano, que gerou a necessidade de produzir matérias-primas para atender cidades como Córdova, Damasco e Bagdade. Para Lynn White, por outro lado, este desenvolvimento se deve aos progressos técnicos desenvolvidos pelos próprios europeus. Independente do motor deste processo económico, o ponto que nos interessa neste trabalho, é o impacto que este fenómeno causou no seio da cristandade e em seu corpo eclesiástico, que até meados do século XII, estava representado pelas ordens monásticas, que experimentaram grande desenvolvimento, em especial, a ordem de cluniasense.

As Ordens Monásticas
A organização da ordem de Cluny proporcionou uma rápida proliferação de abadias filhas da casa-mãe. Desta ordem saíram papas conhecidos como Papas Reformadores pela historiografia cristã, entre eles o próprio Gregório VII, que havia sido abade de Cluny. Segundo Tathyana Zimmermann: Não tardou para que Cluny espalhasse abadias filhas pelo restante da Europa, os mosteiros cluniacenses proliferaram. A sua organização fez com que prosperassem. As abadias cluniacenses tornaram-se grandes senhorios monásticos, seus camponeses cultivavam as terras, abriam bosques e matagais, drenavam pântanos e produziam o vinho. Essas abadias eram centros de povoamento, centros produtivos nos quais o excedente era comercializado. Enriqueceram e tornaram-se poderosos. Este enriquecimento levou a uma valorização da liturgia e ornamentação dos mosteiros e na práxis divergente do discurso de grande parte dos monges que levavam vidas de opulência e ociosidade, bastante distante dos princípios expostos pela Regra de São Bento, regra-base para praticamente todas as ordens regulares. Citamos Cluny por ser a abadia com maior e mais rápida ascensão no período, mas é possível ainda citar outras que se enquadrem neste processo como Brogne e Gorze.
Este elemento de ordem económica é o primeiro a ser analisado ao buscar o cerne das heresias do século XII, mas existe ainda outro ponto mais difícil de ser apreendido pelo seu carácter estar incutido na consciência da sociedade medieval. Brenda Bolton chama este fenómeno de Crise religiosa do Século XII. O contexto de efervescência em vários aspectos pelos quais passou a sociedade medieval em fins do século XI impactaram, inevitavelmente, o corpo eclesiástico que precisou actualizar, mesmo que a contragosto, seu discurso, na medida em que a própria concepção de ser cristão modifica-se para um sentimento cada vez mais individual. Segundo Bolton: Os cristãos se tornaram colectivamente cada vez mais conscientes do mundo que os rodeava e procuravam racionalizá-lo. Também do ponto de vista individual se verificava uma nova tomada de consciência do próprio homem, relacionada com a condenação que Cristo fizera do pecado no coração e que conduziu a um despertar da importância da consciência.
Esta mudança na consciência do homem medieval é analisada por Brenda Bolton na sua Reforma da Idade Média, onde sugere seis reacções desencadeadas por esta crise, dentre as quais, duas nos interessam mais de perto pela relação com nossa temática: O monasticismo, ou vita angelica e as heresias. A primeira delas, o monasticismo, foi uma reacção interna às deformações dos princípios da Igreja Primitiva, retomados pela Regra de São Bento durante as Reformas Gregorianas, que grosso modo, poderia ser resumido como a vida em comunidade e a pobreza voluntária. Das vozes que se levantaram para enfatizar esta postura em detrimento da ostentação e opulência que havia se infiltrado por entre as abadias, está Bernardo de Claraval que deixou diversos escritos conclamando seus congéneres a um retorno às origens do Cristianismo. Bernardo foi o representante por excelência da Ordem de Cister e também o abade de Claraval até sua morte em 1153. O diferencial desta ordem estava na ideia que norteava os pensadores, que era a de um retorno genuíno ao monacato beneditino. Cister tornara-se desta forma, uma oposição dogmática a Cluny, resultando em discussões acaloradas entre os líderes de ambas as Ordens». In Eduardo Luís Medeiros, Simon de Montfort, A figura do Vassalo Perfeito, História Albigeoise, Pierre des Vaux de Cernay, Ciências Humanas, Letras e Artes, UF do Paraná, Curitiba, 2006.

Cortesia de wikipedia/JDACT

A História Secreta dos Jesuítas. Edmond Paris. «O fundador da Companhia de Jesus, o basco espanhol Inigo Lopez Recalde, nasceu no castelo de Loyola, na província de Guipuzcoa, em 1491. Foi um tipo de monge-soldado dos mais estranhos já engendrados pelo mundo católico»

Cortesia de wikipedia

«(…) Vejamos agora como o papa João XXIII se expressou ao se referir aos jesuítas: Perseverem, queridos filhos, nas actividades que já vos trouxeram méritos reconhecidos. Assim vós alegrareis a Igreja e crescereis com incansável fervor: o caminho do justo é como a luz da aurora... E que a luz cresça e ilumine a formação dos adolescentes... No seu livro, Le Silence de Pie XII, publicado por du Rocher, Mónaco, 1965, o autor Cario Falconi escreve em especial: A existência de tais monstruosidades, extermínios em massa de minorias étnicas, civis prisioneiros e deportados, ultrapassa de longe qualquer conceito de bem e mal. Desafia a dignidade dos seres individuais e da sociedade em geral de tal forma, que leva a denunciar aqueles que poderiam ter influenciado a opinião pública, sendo eles simples civis ou dirigentes de governos. Para manter o silêncio diante de tamanho ultraje, deve-se levar em conta uma colaboração inequívoca. Esta estimularia a vilania dos criminosos, instigando a sua crueldade e vaidade. Mas se todo o homem tem o dever moral de reagir quando confrontado com tais crimes, as sociedades religiosas e seus dirigentes são duplamente obrigados a isso e, acima de tudo, a Igreja Católica.
Pio XII nunca expressou uma condenação directa e explícita da guerra de agressão, muito menos com respeito aos crimes indescritíveis cometidos pelos alemães ou seus cúmplices durante a guerra. Ele não se manteve em silêncio por não saber o que estava acontecendo; sabia da gravidade da situação desde o começo, talvez até melhor do que qualquer outro chefe de Estado do mundo. O pior ainda está por vir! O Vaticano prestou ajuda na execução desses crimes, alugando alguns de seus prelados para que estes se tornassem agentes pró-nazistas. Também enviou para a Croácia seu próprio representante, R.P Marcone que, auxiliado por Stepinac, vigiava as actividades de Ante Pavelitch e seus assessores. Onde quer que procuremos, o mesmo espetáculo edificante se apresenta. Muito sofrimento, condição de vida desumana, desespero e milhões de mortes nos chamados campos de concentração nazistas: este foi o resultado do apoio da Igreja Católica a Hitler. Dessa forma, vós ajudareis a levar avante nossos desejos e preocupações espirituais... Nós concedemos nossa bênção apostólica de todo o coração ao vosso prior, a vós e a vossos coadjutores, e a todos os membros da Companhia de Jesus.
E do papa Paulo VI: Desde o tempo de sua restauração, esta família religiosa tem recebido a carinhosa ajuda de Deus, e tem enriquecido rapidamente e com grande progresso. Os membros da Companhia têm realizado grandes façanhas, tudo para a glória de Deus e para o benefício da religião católica. A Igreja precisa de soldados de Cristo com valor, armados com uma fé destemida, prontos para enfrentar dificuldades. É por isso que temos muitas esperanças na ajuda que vossa actividade possa trazer, e que a nova era encontre a Companhia no mesmo caminho honrado que ela seguiu no passado (pronunciado em Roma, próximo à Basílica de São Pedro, em 20 de Agosto de 1964, durante seu segundo ano como papa). Em 29 de Outubro de 1965, o jornal Osservatore Romano anunciou: O reverendíssimo padre  Arrupe, prior dos jesuítas, celebrou a Missa Sagrada pelo Concilio Ecumênico em 16 de Outubro de 1965. Eis a apoteose da ética papal: Um pronunciamento simultâneo sobre um projecto de beatificação de Pio XII e João XXIII. Para fortalecer a nós mesmos em nossa busca de uma renovação espiritual, decidimos iniciar os procedimentos canónicos para a beatificação destes dois pontífices grandes e iluminados e que são tão queridos a todos nós(?) (papa Paulo VI). Que este livro revele a todos aqueles que o lerem a verdadeira natureza deste mestre romano, cujas palavras são tão melífluas (brandas e harmoniosas) quanto ferozes são suas acções secretas.
O fundador da Companhia de Jesus, o basco espanhol Inigo Lopez Recalde, nasceu no castelo de Loyola, na província de Guipuzcoa, em 1491. Foi um tipo de monge-soldado dos mais estranhos já engendrados pelo mundo católico: de todos os fundadores de ordens religiosas, ele talvez tenha sido o de personalidade mais marcante na mente e comportamento de seus discípulos e sucessores. Esta pode ser a razão para aquela aparência familiar ou marca, facto que chega ao ponto da semelhança física entre eles. Folliet questiona este facto, mas muitos documentos provam a permanência de um tipo jesuíta através dos tempos. O mais interessante destes testemunhos se encontra no museu Guimet. Sobre o fundo dourado de uma tela do século XVI, um artista japonês pintou, com todo o humor de sua raça, a chegada dos portugueses e dos filhos de Loyola, em particular, nas ilhas nipónicas. O espanto desse amante da natureza e das cores fortes é explícito na maneira como representa aquelas sombras longas e escuras, com suas faces desoladas, sobre as quais se capta toda a arrogância do dirigente fanático. A semelhança entre o trabalho do artista oriental do século XVI e nosso Daumier, de 1830, está aí para todos verem.
À semelhança de tantos outros santos, Inigo, que posteriormente romanizou seu nome e se tornou Ignácio, parecia longe de ser aquele predestinado a iluminar os seus contemporâneos. A sua juventude atormentada foi repleta de erros e mesmo crimes hediondos. Um relatório policial afirma que era traiçoeiro, brutal e vingativo. Todos os seus biógrafos admitem que ele não recuava nem mesmo diante de seus melhores amigos, no que envolvia a violência dos instintos, então uma coisa comum. Era necessário um golpe físico violento para mudar sua personalidade». In Edmond Paris, Histoire secrète des jésuites, A História Secreta dos Jesuítas, tradução de Josef Sued, 1997, Chick Publications, 21ª edição, Fundação Biblioteca Nacional, 2000, ISBN 093-795-810-7.

Cortesia de FBN/JDACT

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Jazz. Citações. «Quero dizer-vos a diferença entre o lobo e o homem: nenhuma, excepto uma, na velhice... O lobo entra nos bosques para esperar o seu fim sozinho: o homem, quanto mais sente que a morte se aproxima, mais busca companhia, mesmo se ele se aborrece e se ela o aborrece»

Cortesia de wikipedia


«O coração das mães é um abismo no fundo do qual se encontra sempre um perdão; é tão natural destruir o que não se pode possuir, negar o que não se compreende, insultar o que se inveja; a alegria só pode brotar de entre as pessoas que se sentem iguais; o homem morre a primeira vez quando perde o entusiasmo; o tempo é o único capital das pessoas que têm como fortuna apenas a sua inteligência; todo aquele que contribui com uma pedra para a edificação das ideias, todo aquele que denuncia um abuso, todo aquele que marca os maus, para que não abusem, esse passa sempre por ser imoral; o amor é a única paixão que não admite nem passado nem futuro».

JDACT

Damião de Góis. The Life and Thought of a Portuguese Humanist. Elisabeth F Hirsch. «O que entra pela boca não produz o mal. Na defesa, Góis falou de banquetes na Flandres em que era corrente insistirem uns com os outros para beberem mais do que o necessário, citando de brincadeira em tais ocasiões a frase bíblica, sem que ninguém se tornasse suspeito»

jdact e wikipedia

Formação intelectual
«(…) Várias testemunhas que depuseram anos mais tarde perante o Supremo Tribunal em Portugal acusaram Góis de desobedecer às regras do jejum e de justificar essa transgressão com uma citação da Bíblia: O que entra pela boca não produz o mal. Na defesa, Góis falou de banquetes na Flandres em que era corrente insistirem uns com os outros para beberem mais do que o necessário, citando de brincadeira em tais ocasiões a frase bíblica, sem que ninguém se tornasse suspeito. Essa afirmação, além de dar uma ideia da natureza um tanto ou quanto rude das reuniões sociais dos amigos de Góis, reflecte também queixas habituais da parte das autoridades católicas sobre o desleixo com que se observavam as regras do jejum. Não há razão para pensar que Gois fosse uma excepção à inclinação generalizada para não levar muito a sério certas práticas do cristianismo.
A fim de se compreenderem os erros religiosos de Góis, assim como a maneira como explorou ideias protestantes, é preciso lembrar  que tinha o apoio duma considerável comunidade católica. A geração dos católicos nascidos na viragem do século vivia num estado de grande tensão e numa atmosfera de dúvida a que se misturavam esperanças duma renovação espiritual. Para muitos católicos, insatisfeitos com Roma, o Lutero da fase inicial era a resposta a preces feitas no segredo dos corações. Como Erasmo, seu líder reconhecido, não condenavam Lutero em absoluto, nem mesmo depois do seu rompimento com a Igreja Católica.
Foi nesse clima intelectual que Góis investigou o panorama do protestantismo, fosse onde fosse e sempre que se oferecia uma oportunidade e, em especial, durante a missão de 1531. Na Dinamarca o diálogo que travou com o governante protestante, o rei Frederido, teve tamanho êxito que, por sugestão do mesmo rei, fez uma paragem para visitar um conselheiro de Schleswig, que era então território dinamarquês. Parece que aí recebeu uma surpreendente lição de protestantismo. O seu anfitrião convidou-o a um jantar espectacular, como nunca tinha visto, e que lhe ficou para sempre na memória. Como logo a seguir Gois confessasse a heresia e explicasse o incidente numa carta ao rei João III, ele tinha a certeza de que os pormenores eram bem conhecidos, e portanto admitiu esses factos, sem reservas, aos inquisidores.
O conselheiro, seu anfitrião, era um protestante fervoroso. Levantou-se de repente durante o jantar e voltou com um cálice consagrado cheio de vinho branco. Virou-se para [Gois] com o cálice na mão, observando que estava a beber de um vaso que muitas vezes o tinha traído a ele e aos seus antepassados. Quando Góis protestou, o anfitrião sentiu-se incitado a fazer ainda mais demonstrações. Colocou o vaso diante de Gois e erguendo as mãos ao céu pediu a Deus que mudasse o vinho em sangue, mostrando desse modo um [autêntico] milagre. Finalmente, passou o vaso a Góis, insistindo com ele para que bebesse; e como Gois se recusasse, o conselheiro acusou-o de ser supersticioso.
Depois dessa cena singular seria de esperar que Gois hesitasse em se dar de novo com protestantes, mas tal não sucedeu. Prosseguindo de Schleswig para Lübeck, Gois teve conversações com o conhecido reformador Johann Bugenhagen sobre a reorganização que este planeava para a Igreja e, possivelmente, (embora Gois não o relatasse), sobre problemas religiosos de carácter geral. Contudo a Dinamarca, Schleswig e Luebeck não foram senão o prelúdio do capítulo fatal das relações de Gois com os protestantes, capítulo esse que começou com uma visita de dois dias e meio a Wittenberg em 1531. Gois divulgou aos inquisidores muitos pormenores dos encontros que teve com os reformadores dessa cidade, sem lhes contar a historia toda, e é preciso ler nas entrelinhas para perceber o que se passou.
A visita de Gois a Wittenberg teve lugar um mês depois de príncipes e de cidades protestantes se terem unido na chamada Liga de Schmalkalden; esse acto exprimia claramente a desconfiança agressiva que sentiam pelos católicos. Góis não prestou a mínima atenção ao estado de tensão que lá reinava, nem à ameaça que o episódio de Wittenberg poderia constituir para a sua reputação como católico. Ê possível que tivesse sido da opinião do seu colega, o diplomata polaco Dantiscus, que, depois de ter estado em Wittenberg em 1523, observou: Quem não viu nem Roma nem Wittenberg não viu coisa alguma». In Elisabeth Feist Hirsch, The Life and Thought of a Portuguese Humanist, The Hague Netherlands, 1967, Damião de Góis, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2002, ISBN 972-31-0677-9.

Cortesia de FCG/JDACT

Jazz. Pensamentos. «As ilusões, dizia-me alguém, talvez sejam entre os homens e as coisas. E, quando a ilusão desaparece, experimentamos um sentimento bizarro, metade pela surpresa agradável diante da novidade, diante do facto real»

Cortesia de wikipedia


«É necessário estar sempre embriagado. Tudo está aí: é a única questão. Para não se sentir o horrível fardo do Tempo que quebranta os vossos ombros e vos curva em direcção à terra, deveis vos embriagar sem trégua. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como quiserdes. Mas embriagai-vos». In Charles Baudelaire.

JDACT

Fernão Mendes Pinto. A sua máscara de pirata. Aquilino. «Para não termos de admitir que Fernão e Faria ‘sejam uma e a mesma pessoa’, e o desdobre não teria outro objecto senão fugir ao ominoso com que poderia ser estigmatizado, há que fazer tábua rasa…»

jdact

«(…) Saudoso do bom e venturoso pretérito e ao largo dos acontecimentos, é provável que a memória, se não a fantasia, lhe falseie o pormenor, engrandecendo-o. Mas, em regra, palpita no que conta, e lhe deixaram passar, a mais proporcional das realidades. Não faltou, porém, quem o acoimasse de impostor, a tal ponto se entrelaçam na narrativa, de insistente e imprevisto modo, o romanesco e o maravilhoso. E as velhas de soalheiro, que são as almas de S. Tomé deste Mundo, abanavam a cabeça e riam do Fernão Mentes Minto! Modernas investigações históricas, textos japoneses vindos a lume, as cartas dos religiosos que missionavam no Oriente, livros de viagem atestam a fidedignidade essencial da Peregrinação. A Ásia era aquilo, e um europeu transplantado para semelhante meio, de certo menos áspero em tolerâncias, mais atrasado em progresso material do que a Europa, tinha que reagir daquele modo. Fernão e mais comparsas enxertam-se perfeitamente na acção político-social dos portugueses no Índico. E a Peregrinação emparelha com De Rebus Emmanuelis Gestis, desfrutando não menos voga e não menos vezes traduzida aquela obra que esta.
Além do mais, há um acento de sinceridade em Fernão, um ar tão natural de modéstia, que se lhe não pode negar crédito. Quando a sua fantasia é de todo desorbitada, acreditamos ainda. Acreditaríamos que vira nos países que rotula de nomes inverosímeis, tanto a outiva lhos estropiou deploravelmente, que vira passar camelos por buracos de agulha, gente comer calhaus e ladrar como os cães, se no-lo dissesse. E com verdades ou com palões, que nunca serão dos tais marmelos crus que custam a descer no esófago, tal livro queda na nossa língua, tão de acordo com o espírito e o feitio dos homens daquela era, uma verdadeira epopeia, diríamos uns segundos Lusíadas.
Quanto à simbiose Fernão-Faria, cenário e representação não podem ser mais desconcertantes. Depois do ataque a três juncos da China, cometido a título de represália e coroado de êxito, Fernão escreve: Havendo já vinte e seis dias que eu estava aqui em Patane acabando de aviar uma pouca de fazenda que viera da China para me tornar logo, chegou uma fusta de Malaca, de que vinha por capitão um António Faria Sousa, o qual por mandado de Pêro Faria vinha a fazer ali certo negócio com el-rei e assentar com ele de novo as pazes antigas que tinha com Malaca […] Este António Faria trazia uns dez ou doze mil cruzados em roupas da Índia.
A analogia é flagrante. Fernão estava também a aviar fazenda que chegara da China, bem entendido, nos juncos apresados junto à foz do Calantão com a morte de setenta e quatro homens da equipagem. Quando se trata destas açougadas, embora vulgares perante os costumes da época, os protagonistas costumam encobrir-se por detrás de nome suposto, contando o feito como testemunhas eventuais ou que o ouvissem a segundos. Procedem assim por hipocrisia? Pode muito bem ser o compreensível resguardo de quem não quer mostrar as mãos, se bem que se tratasse de operações contra inimigos da Cristandade. Para não termos de admitir que Fernão e Faria sejam uma e a mesma pessoa, e o desdobre não teria outro objecto senão fugir ao ominoso com que poderia ser estigmatizado, há que fazer tábua rasa da farta cópia de elementos que se encontram à base da bifurcação, comuns aos dois. Tanto um como outro se ocupavam em mercadejar. Mercadejavam em panos. António Faria teria mandado a Lugor, no reino de Siao, um seu feitor, Cristóvão Borralho, passar a veniaga. E Fernão encontrava-se lá na mira de impingir as sedas, monos de armazém intragáveis, que lhe haviam competido na captura dos juncos do Calantão». In Aquilino Ribeiro, Portugueses das Sete Partidas, Viajantes, Aventureiros, Troca-tintas, 1950, Livraria Bertrand, Lisboa, 1969.

Cortesia da LBertrand/JDACT