segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Rainha. Mafalda de Mouriana. 1133?-1158. Maria Alegria Marques. «Já no século XII, o seu lustre alcançava uma outra razão para mais brilhar. Adelaide, irmã de Amadeu III de Mouriana (o que viria a ser pai de Mafalda, rainha de Portugal), casava com Luís VI…»

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O casamento do primeiro rei de Portugal. A escolhida: Mafalda de Mouriana
«(…) Contudo, a impedir a tentação, na casa real de Leão e Castela não havia, disponível, mulher que conviesse ao rei de Portugal. As filhas do imperador eram ainda crianças, tanto que só mais tarde haviam de contrair matrimónio, Sancha com Sancho de Navarra (1153), herdeiro de Garcia Ramires IV e Constança com Luís VII de França (1154). E mesmo que se considerasse uma bastarda, que bem serviria à estratégia política de seus pais e irmãos, ainda assim não se achava candidata em idade conveniente ao rei de Portugal. A filha de Afonso VII e da condessa Urraca Fernandes, viúva do conde Rodrigo Martins (1138), era ainda e apenas mais uma criança, que não servia aos objectivos mais profundos do rei de Portugal. Então, a este só restava a busca de uma noiva na Europa de além-Pirenéus. A escolha recaiu sobre uma filha de Amadeu III, conde de Mouriana (1103-1148), como bem recordam os documentos do rei de Portugal, seu genro, marquês na Itália e (1.º) conde de Saboia por concessão imperial, e de dona Matilde de Albon. Pelo lado paterno, a esposa de Afonso Henriques era neta de Humberto II de Mouriana e de Gisela de Borgonha (condal). Era, por isso, simultaneamente prima de Luís VII, rei de França, através de sua tia Adelaide, mulher de Luís VI, e ainda prima do imperador de Leão, embora em grau mais afastado, pois o pai de Afonso VII, Raimundo de Borgonha (condal), era irmão da citada Gisela de Borgonha, sua avó. Era ainda sobrinha-neta da imperatriz Berta, esposa de Henrique IV, o da jornada de Canossa, episódio de reconciliação entre aquele imperador e o papa Gregório VII. Segundo o cronista da Casa de Saboia, Jean d’Orville (que escreveu no início do século XV), esta efectiva aproximação da família ao Império ficou ainda patenteada num outro momento, significativo também, e que foi a coroação imperial de Henrique V pelo papa Pascoal II, em Roma, em 1111. Na comitiva terá participado também o jovem Amadeu, futuro Amadeu III de Mouriana.
No entanto, a ilustração da família, bem como a sua paulatina ascensão, pode marcar-se de bem longe, tendo ocorrido, a última, à sombra protectora do Império. Foi nas peripécias sobrevindas à desanexação dos estados de Carlos Magno e emergência do reino da Borgonha e sua passagem à esfera de influência do Sacro Império Romano-Germânico que a família se começou a evidenciar, no início do século X. Próxima do último rei de Borgonha e de sua viúva, foi em virtude dessa aproximação ao Império que um antepassado de dona Mafalda (seu tetravô, Humberto I, o das Mãos Brancas) se tornou (o 1.º) conde de Mouriana, por mercê do imperador Conrado II. Seguiu-se uma boa gestão dos interesses da família, quer na busca de significativas relações matrimoniais, quer num sábio posicionamento em relação aos problemas que dominaram o Império, mormente as relações com o papado. Pelas primeiras, e ainda nesse século XI, a família de Mouriana alcançou o vale de Susa e o Piemonte, possessões acompanhadas de um engrandecimento da prosápia da família com o título de marquês de Susa ou marquês na Itália. O mesmo século veria uma filha da família, Berta, ocupar o trono imperial, pelo seu casamento com Henrique IV. A fidelidade da família no processo de Canossa valeu-lhe mais territórios, agora na região de Vevey, rica pela sua posição estratégica entre a França, a Alemanha e a Itália. Pela sua implantação, a esta família estava atribuída a responsabilidade da guarda das gargantas do Mont-Cenis e do Mont-Joux (Grande São Bernardo). Pela via do matrimónio do herdeiro da casa, Amadeu II, a família veria chegar-lhe as regiões de Seyssel e Valromey, advindas do dote de Joana de Genebra, sua esposa.
Na geração seguinte, a política matrimonial da família levaria ainda ao consórcio de Humberto II com Gisela da Borgonha, que havia de fazer dele cunhado de Guigo de Borgonha, arcebispo de Vienne, o futuro papa Calisto II e o grande vencedor da questão das investiduras, com a assinatura da concordata de Worms, em 23 de Setembro de 1122. No século XI ficava assim definido o âmbito territorial dos de Mouriana. O último detentor do título nesse século (Humberto II) logrou sabiamente organizar os seus domínios, chamando à fidelização à família condal os vários potentados locais, laicos e eclesiásticos. Já no século XII, o seu lustre alcançava uma outra razão para mais brilhar. Adelaide, irmã de Amadeu III de Mouriana (o que viria a ser pai de Mafalda, rainha de Portugal), casava com Luís VI, rei de França; a sua influência alargava-se e os laços de família abriam-lhe outras portas, a juntar às do Império. Seu filho e sucessor, Humberto III, havia de prosseguir esta política, tendo concertado o casamento da outra irmã sua, Alice, com o futuro João Sem-Terra, enlace que, todavia, não se chegaria a consumar pelo falecimento prematuro da jovem de Mouriana». In As Primeiras Rainhas, Maria Alegria Fernandes Marques, Mafalda de Mouriana, 1133?-1158, Círculo de Leitores, 2012, ISBN 978-972-42-4703-8.

Cortesia de CLeitores/JDACT

Dona Dulce de Barcelona e Aragão [(1153-1159)-1198]. Nuno Pizarro Dias. « A instabilidade manifesta-se também nos condados pirenaicos. Em Pamplona persiste uma forte resistência face às repetidas tentativas de estabelecer um condado vinculado à monarquia franca»

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Todos os Nomes. A génese da grande fronteira
«(…) Os Francos teriam ainda chegado a conquistar Tarraco e Tortosa, mas, por força do referido acordo ou reconhecendo a impossibilidade de se manterem em tão agressiva posição de domínio da foz do Ebro, não tardaram a recuar destas cidades, para concentrar recursos, e reforçar a defesa de Barcelona, na linha do rio Llobregat. Durante mais de três séculos, uma longa faixa territorial, contornando o caudal deste rio e todo o extremo pirenaico do grande planalto, seria a estável fronteira entre essas duas tão diferentes civilizações. Fronteira esta que é um desses factos verdadeiramente marcantes das dinâmicas de longa duração e da evoluço lenta das estruturas. Nos territoria que agora se organizam como Marca hispânica do Império Carolíngio, com população relativamente escassa e muito dispersa, acentuam-se as tendências de um processo de ruralização da sociedade. Uma vida urbana reduzida ao mínimo e onde, praticamente, desapareceu a circulação monetária. Pequenas comunidades de pastores e camponeses, fechadas nos estreitos vales, em virtude das comunicações particularmente difíceis, praticam uma rudimentar economia agrícola muito pouco orientada para a troca.
Pelo contrário, nesses outros territórios da Marca superior do Al-Andaluz, nem as turbulentas particularidades de uma sociedade de fronteira conseguem esbater o grande contraste, resultante de uma integração nesse imenso mundo muçulmano em franca expansão económica e com intensa circulação de boas moedas de ouro (dinar) e de prata (dirhem). A islamização, à semelhança da romanização, renova a vida urbana e reativa uma grande rede de trocas. Há um significativo número de cidades bastante populosas. As capitais tornam-se mesmo grandes metrópoles. Mercados para onde é possível escoar excedentes, o que incentiva actividades agrícolas mais produtivas. De lembrar, ainda, essa evidência, não menos fundamental por se ter tornado um lugar-comum, de que a fronteira tanto separa como une. Uma ligação que podemos facilmente ilustrar, por exemplo, com um dos primeiros governadores cristãos documentados em Pamplona, Inigo Arista († 851), que sabemos ser irmão uterino de Muza ibn Muza († 862), dos Banu Qasi, proeminente família muwallad, isto é, descendente de antigos hispanos convertidos ao islão. Os Banu Qasi eram descendentes do conde Casio, que, logo após a sua precoce conversão, se tornaram clientes dos emires omíadas, acumulando crescente riqueza e poder no desempenho dos mais altos cargos da administração regional muçulmana, nomeadamente em Borja e Tudela. Mais adiante, encontraremos várias figuras desta família, ao longo de gerações e com acção disseminada um pouco por todo o vale do Ebro; e sabe-se também que este Muza II, filho de Muza ibn Qasi, viria a casar com uma sobrinha, Ossona, filha desse seu meio-irmão Inigo Arista.
O esplendor civilizacional do Sul islamizado seduz e projecta influências sobre o Norte cristão. Lembramos aquele pitoresco caso do conde de Castela, Sancho Garcia (995-1017), que por vezes se vestia ao uso oriental e tinha na sua corre cantoras e dançarinas oferecidas pelo califa de Córdova. E outros exemplos há, tão surpreendentes, como o de um rei cristão da viragem do século XI para o século XII, Pedro I de Aragão e Navarra, que valida habitualmente os documentos com a subscrição do seu nome em escrita árabe; ou tão polémicos, como o da admitida influência da poesia popular andaluza dos séculos X e XI, do zayal ou zéjel com o seu acompanhamento musical, nas poesias e cantares das cortes aquitano-provençais, catalãs, castelhanas e galaico-portuguesas. O renascimento urbano do século XI passará também por uma forçosa integração no sistema monetário do grande comércio internacional. As primeiras cunhagens de moeda áurea cristã reproduzem os dinares muçulmanos.

Pequenas luzes na escuridão das montanhas
É basicamente errada a ideia de uma rápida ocupação militar desses territórios de recente conquista e daqueles vales dos Pirenéus, desde então mais claramente subtraídos ao domínio islâmico. Por imperativos geográficos, uma vez que era virtualmente impossível estabelecer comunicações entre todos esses vales (separados por cumes muito elevados e por inúmeras correntes, frequentemente violentas, dos rios e ribeiros de alta montanha), bem como, possivelmente, por certo sentido político, que aconselharia a não instituir um único poder, as novas extensões da fronteira carolíngia, logo no início do século IX, surgem-nos divididas em vários condados. Não obstante, o Império terá permanentes dificuldades para controlar esse verdadeiro mosaico de poderes e, ao fim de poucas décadas, todos os condados eram de facto independentes. Os redactores das mais antigas fontes narrativas dedicaram uma especial atenção ao registo dos nomes, e respectivas filiações, desses primeiros condes. Dados preciosos, de lacónica informação, que laboriosas investigações, da mais apurada erudição historiográfica, transformaram numa reconstituição desse quadro, de muito densa leitura, actualmente ao nosso dispor.
No imediato da conquista parece optar-se por uma solução integradora. Reconhecem-se chefes e aristocracias tribais, nas mais arcaicas regiões montanhosas, e figuras da nobreza regional hispânica ou visigoda, nos territórios litorais mais romanizados. Cedo se receia, porém, tudo quanto decorre de uma algo frágil articulação política, com governos que facilmente podiam autonomizar-se do Império. As complexas relações de uma relativa coexistência pacífica com os muçulmanos suscitam naturais desconfianças na corte carolíngia, aonde, logo em 820, será chamado o conde Bera, primeiro governador dos condados de Barcelona e Gerona, obrigado a responder às mais graves acusações de deslealdade e traição. Para esses condados da primeira linha da Marca são então destacados alguns condes francos, ligados ao rei por laços da mais estreita fidelidade, o que, no entanto, não evitará novas formas de conflito, uma vez que os mesmos laços os envolvem directamente nas dissensões que começam a manifestar-se no seio da própria família régia. No saldo da primeira revolta dos herdeiros de Luís, o Piedoso (814-840), o conde Bernardo da Septimânia, que desde 826 governava Barcelona, foi aqui substituído pelo conde Berenguer de Toulouse, facto que, por sua vez, dará origem a uma imediata fractura de toda a aristocracia regional em dois grandes partidos rivais.
A instabilidade manifesta-se também nos condados pirenaicos. Em Pamplona persiste uma forte resistência face às repetidas tentativas de estabelecer um condado vinculado à monarquia franca. Segundo Garcia Cortázar, as fontes árabes distinguem perfeitamente os baskunis, que habitavam o território de Pamplona, chefiados agora pela família dos Arista, que, como vimos, estabelecem estreitas relações com os Banu Qasi, representantes regionais do emir, e os glaskiyun (ou gascões) dos vizinhos territórios de Leire e dos vales mais ocidentais de Aragão, chefiados pela família dos Velasco, um pouco mais romanizada, talvez, e mais próxima da influência carolíngia. A violenta rebelião de 799, que chacina a guarnição muçulmana do reduto de Pamplona e mata o próprio governador Mutarrif ibn Muza, seria assim um necessário golpe de força para fazer recair o poder na família dos Velasco, apoiada no poderio franco». In Nuno Pizarro Dias, Dona Dulce de Barcelona ([1153-1159]-1198), As Primeiras Rainhas, Círculo de Leitores, 2012, ISBN 978-972-42-4703-8.

Cortesia de CLeitores/JDACT

Dona Beatriz Afonso (1244-1300). António Resende Oliveira. «… da gestão dos seus domínios da Estremadura, que nos informam sobre a administração do seu senhorio… As doações que a própria rainha fez em 1283-1284… E é quase tudo»

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Introdução
«Somente nas décadas mais recentes as rainhas emergiram como tema com alguma projecção historiográfica. O Dicionário de História de Portugal, de 1971, dá-nos uma boa ideia da importância então atribuída às rainhas portuguesas. Se das cinco de que se ocupa o presente volume aquele dicionário apenas esquece uma, dona Dulce de Aragão, a três das quatro restantes dedica um espaço irrisório: nove linhas a dona Mafalda e a dona Urraca, três linhas a dona Beatriz. Apenas dona Mecia parece merecer atenção privilegiada, com a síntese biográfica, a cargo de Oliveira Marques, a ocupar cerca de coluna e meia. Mas dona Mecia, apesar de uma biografia marcada por alguns acontecimentos picarescos, foi uma rainha episódica, obrigada a regressar a Castela com Sancho II, pouco depois de com ele ter casado. Já as restantes ocuparam o trono durante períodos mais ou menos prolongados, em todo o caso durante um mínimo de cerca de doze anos (dona Mafalda e dona Urraca). Se a discrepância de tratamento entre Mecia e as restantes rainhas não é justificável, atendendo, desde logo, ao período de tempo em que cada uma se manteve junto do rei, não o é igualmente pelos estudos já existentes sobre cada uma delas. Por outras palavras, aquela economia de espaço reflectia não tanto um qualquer desconhecimento sobre a vida das rainhas em causa quanto o reduzido interesse que essa vida despertara até aos anos sessenta do século passado. Na realidade, após as Memória das Rainhas de Portugal, de Frederico de la Figanière, obra de 1859, as primeiras rainhas portuguesas tinham beneficiado de sólidas biografias, que recuperavam e depuravam os elementos já conhecidos, acrescentando-lhes muita documentação que permanecera até então inédita.
No que a dona Beatriz de Castela dizia respeito, a entrada do dicionário limitava-se a assinalar a sua condição de mulher de Afonso III e a qualidade de fundadora do Hospital dos Meninos Órfãos de Lisboa. Mas metade desta microbiografìa de dona Beatriz, na parte que diz respeito à pretensa fundação do Hospital de Lisboa, apesar de ela ser já mencionada por frei Francisco Brandão na Monarquia Lusitana, terá sérias dificuldades em ser confirmada documentalmente. Na verdade, é pouco provável que estivesse ligada à fundação de um hospital que existiria quando ela chegou a Portugal e a que Afonso III, um ano após essa chegada, mandava entregar um casal em Verdelha, próximo de Vila Franca de Xira. Deve lembrar-se que dona Beatriz, por essa altura, não teria atingido ainda os 10 anos de idade. Retenha-se, portanto, este traço biográfico que a associava à rede assistencial do território como algo que se foi incorporando no período tardo-medieval como elemento adscrito à matriz funcional das rainhas portugueses mas que, ao que sabemos, não terá tido neste caso qualquer concretização prática.
De dona Beatriz faltam-nos alguns documentos essenciais: os do tratado sobre o Algarve de finais de 1252 ou inícios de 1253, em ligação ao qual o seu casamento foi negociado; o relativo à dotação patrimonial que o rei português lhe fez pela mesma altura; ou o seu testamento, particularmente importante porquanto nos permitiria conhecer as suas últimas vontades e alguns aspectos do seu quotidiano, concretizar ligações com instituições eclesiásticas ou com pessoas do seu círculo familiar ou vassálico. Não beneficiou igualmente, ao contrário da rainha que lhe sucedeu, de qualquer resenha biográfica coeva, mesmo que subordinada aos padrões de exemplaridade que lhe seriam exigidos enquanto rainha. Mas permaneceram fontes diversas, sobretudo de arquivo: algumas bulas papais, ligadas ao contencioso com a Igreja resultante do seu casamento com Afonso III quando este se encontrava ainda casado com Matilde de Boulogne; as doações que lhe foram feitas pelo pai entre 1244 e 1284 e algumas das que lhe foram feitas pelo marido, que dão conta da dimensão peninsular do seu senhorio; os testamentos de ambos os monarcas, ou o retrato que dela desenha frei João Gil Zamora na biografia de Afonso III, que contribuem para lhe definir alguns traços de carácter; a documentação do mosteiro castelhano de Alcocer ou a resultante da gestão dos seus domínios da Estremadura, que nos informam sobre a administração do seu senhorio ou sobre os membros e a estrutura da sua casa; as doações que a própria rainha fez em 1283-1284, que desvendam alguns dos seus vassalos mais importantes. E é quase tudo. O resto resume-se à documentação régia, onde apanhamos o nascimento dos filhos, alguns membros da sua casa ou a intervenção, sempre parcimoniosa, em actividades de cariz político ou familiar.
Compõem uma imagem da rainha mais institucional do que pessoal, esquiva e fugidia quanto a pormenores e cenas do quotidiano ou à construção de perfis psicológicos ou morais. Neste tempo de regresso à biografia, um tempo porventura efémero dada a explosão do género entre historiadores, romancistas e escribas diversos, aproveitemos para revisitar os vestígios que deixou e nos permitem uma aproximação à sua trajectória de vida.

O Casamento
A 15 de Março de 1253, Afonso III encontrava-se em Santarém, de onde foi expedida uma carta de povoamento de uma propriedade régia situada próximo de Carregal do Sal. No mês seguinte, em dia que não podemos precisar, abandonou o paço da alcáçova para rumar ao Norte. No último dia do mesmo mês e nos primeiros dois dias do mês seguinte, a chancelaria ia registando a sua incursão em Trás-os-Montes pelas povoações de Vilar de Maçada, Murça e Lamas de Orelhão. A 10 de Maio sabemo-lo sediado em Bragança, de onde foram expedidas algumas cartas em benefício do mosteiro leonês de Moreruela. Depois, em dia incerto, rumou para poente, encontrando-se, em 20 de Maio, em Santo Estêvão de Chaves, povoação acastelada que nos dois séculos anteriores substituíra a romana Aquae Flaviae como centro político e administrativo da região». In António Resende Oliveira, As Primeiras Rainhas, Dona Beatriz Afonso (1244-1300), Círculo de Leitores, 2012, ISBN 978-972-42-4703-8.

Cortesia de CLeitores/JDACT

domingo, 28 de dezembro de 2014

Profetismo e Iluminismo no Terremoto de Lisboa de 1755. Luiz Felipe Neves. «As causas estão na própria corrupção da ‘integralidade humana’ pela sociedade e pela sua irracionalidade e incapacidade… As consequências seriam de outra amplitude se não houvesse um número de casas ‘amontoadas’ e com uma população mal distribuída»

Cortesia de wikipedia

Resumo:
«O Terremoto de Lisboa é a expressão linguística de conjunto do que, em perspectiva realista, seria uma configuração de evidências concretas a observar com respeito aos factos. Uma soma de lendas, investigações, repercussões, constituíram na memória social uma obviedade que cria duplo obstáculo epistemológico. O primeiro, o de sua reificação; considera-se o fenómeno como evidente, real, óbvio, consensual. O segundo, de empiricismo mais sofisticado, diria que há um fenómeno real a respeito do qual podemos ter diferentes pontos de vista. Ou seja, já há um objecto definido aceito e sobre o qual teremos visões a ponderar. Autores, contrastantemente conhecidos; Voltaire, Rousseau e Malagrida podem nos ajudar a observar entraves significativos à constituição do terremoto de Lisboa».

«Os objectivos deste trabalho de índole ensaística residem no desejo de discutir a constituição de alguns pontos de convergência de autores que se diferenciam fortemente no campo intelectual do século XVIII. A possibilidade de cotejo nos é dada por fenómeno que observaram e constituíram cada um a seu modo. Assim, o terremoto de Lisboa de 1755 é visto por três estrangeiros que ocupam posições desiguais na história do pensamento. Os dois primeiros de que trato, Voltaire e Rousseau, são mais do que conhecidos e estudados e, deles, apenas sublinharei alguns traços. O terceiro é um, até agora, pouco observado jesuíta italiano que teve intensa e variadíssima actuação em Portugal e no Brasil e que tem obra escrita escassa e de acesso difícil. Iluministas e iluminado que nos deixaram explicações causais para a catástrofe de 1755 e, delas, nos serviremos como um ténue fio condutor. O Poema sobre o desastre de Lisboa (1756), François Marie Arouet, dito, Voltaire (1694-1778) tem como subtítulo ou título alternativo as palavras que se seguem: Ou exame deste axioma: tudo está bem. O axioma a que ele refere, tudo está bem, sintetizaria se assim podemos dizer, as posições centrais de determinado optimismo filosófico contra as quais o escritor francês se volta. As teses optimistas firmam que o mundo, criado por Deus, é organizado pela providência de tal modo que, um mal necessário seja sempre compensado por um Bem sempre maior. Voltaire critica fortemente esta posição notadamente pelos perigos maiores que acarretaria: o fatalismo e a inacção. No caso, toma como instrumento de ataque o terremoto de Lisboa de 1755, que apresenta como exemplo notável do que aquela expressão optimista teria de obstáculo à racional compreensão da realidade. O alvo principal das críticas é Gottfried Wilhem Leibniz (1646-1716), e em ponto menor, Alexander Pope (1688-1744). Postulam que o mundo que  conhecemos é o melhor dos mundos possíveis. Ele é a melhor das alternativas possíveis, escolhido por Deus, e criado por Deus. Voltaire, em seu poema, indaga, com veemência e indignação, como a bondade de Deus permitiu tragédia tão lancinante. Ou: como compatibilizar a existência do mal com a ideia de um Deus permanentemente benfazejo e benevolente na sua Omnipotência. Diz Voltaire: Je ne conçois plus comment tout serait bien: je suis comme un docteur; hélas! Je ne sais rien!
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) em 18 de Agosto de 1756, na Lettre sur la Providence, assume posição oposta à de Voltaire. Afirma que a culpa estaria, portanto, não em desígnio divino, nem em causa natural; Deus e natureza preservam a sua bondade inata. As causas estão na própria corrupção da integralidade humana pela sociedade e por sua irracionalidade, por sua incapacidade de manter o carácter originalmente bom dos filhos do Senhor. As consequências do fenómeno seriam de outra amplitude se não houvesse um despropositado número de casas amontoadas (segundo ele, vinte mil e de seis a sete andares) e com uma população mal distribuída. Chega o pensador genebrino a dizer que, talvez, nenhum estrago teria ocorrido se fossem observadas as regras que a Razão determina». In Luiz Felipe Baeta Neves, Profetismo e Iluminismo no Terremoto de Lisboa de 1755, Revista Convergência Lusíada, nº 24, 2007, Real Gabinete Português de Leitura, Rio de Janeiro, ISSN 1414-0381.

Cortesia de RCLusíada/JDACT

Nostalgia no Domingo. Fernando Pessoa. Poesia. «A delicadeza deve concluir-se, e não ver-se. (…) a grosseria só começa quando começa a delicadeza; e o impudor desde que o pudor exista»

Cortesia de wikipedia (jbravo)


O Menino de Sua Mãe
No plano abandonado
que a morna brisa aquece,
de balas trespassado
 - duas, de lado a lado,
jaz morto e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
llvo, louro, exangue,
fita com olhar langue
e cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
um nome e o mantivera:
‘O menino da sua mãe’.


Caiu-lhe da algibeira
a cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
e boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
ponta a roçar o solo,
a brancura embainhada
de um lenço... Deu-lho a criada
velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
‘Que volte cedo, e bem!
(Malhas que o império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
o menino da sua mãe».
Poema de Fernando Pessoa, in 'Antologia Poética'


JDACT

Efeito borboleta. Ou a Vida como Caos Causalidade e Casualidade em Outrora Agora. Edimara Sartori. «Os versos retirados do poema “Pobre velha música!”, de Fernando Pessoa, servem de epígrafe e de motivo ao romance ‘Outrora Agora’: Com que ânsia tão raiva / quero aquele outrora! / E eu era feliz? Não sei: / fui-o outrora agora»

Cortesia de wikipedia

Resumo:
«Este estudo constitui uma análise do romance Outrora Agora, de Augusto Abelaira, observando, por um lado, a imprevisibilidade que condiciona as relações pessoais e, por outro, uma certa previsibilidade que norteia as relações político-económicas. A nossa análise busca sustentação teórica nos estudos de Bauman acerca da modernidade líquida, fazendo uma breve alusão à teoria dos sistemas dinâmicos, a fim de ilustrar os movimentos caóticos que determinam o comportamento e as relações das personagen».

«A maior parte das histórias nunca chega a acontecer, às vezes por pequenos nadas de que nem temos consciência. Se no dia tantos de tal, em vez de ficar em casa, saísse... Já pensei em coleccionar as histórias por acontecer, registá-las, as cem mil histórias que não chegaram a acontecer. Pelo menos as que poderiam ter acontecido. Que posso imaginar e tenho razões para imaginar. Inesperadamente doutoral: não somos unicamente o que fizemos, somos também o que não fizemos e poderíamos ter feito. Mais ainda o que poderíamos ter feito, o que fizemos é pouquíssimo em relação ao que poderíamos ter feito e, se calhar, nem depende de nós. Estas palavras também ele as poderia ter dito, já as terá dito até. Com um novo parágrafo: também o que não fazemos não depende de nós». In Augusto Abelaira, Outrora Agora.

«Os versos retirados do poema Pobre velha música!, de Fernando Pessoa, servem de epígrafe e de motivo ao romance Outrora Agora: Com que ânsia tão raiva / quero aquele outrora! / E eu era feliz? Não sei: / fui-o outrora agora. O poema, que alude ao vago e à incerteza sugeridos pela recordação da velha música, que comove, embora o sujeito lírico não saiba porque agrado a melodia lhe enche os olhos de lágrimas, nem esteja certo de tê-la ouvido na infância que é, aliás, relembrada pela própria música, é marcado sobretudo pelo paradoxo criado pela sobreposição de tempos. A aproximação dos advérbios outrora, indicando um tempo passado, e agora, situando o presente, tenta captar o ápice de um momento de felicidade, que é, entretanto, indeterminado. O estado emocional do sujeito lírico emana angústia, fúria e desespero (ânsia tão raiva), querendo recuperar aquele outrora, tempo em que talvez tenha sido feliz. No entanto, a sua indefinição sentimental deixa transparecer que a felicidade pode existir também num momento indefinido do presente. Como observa Lélia Duarte, surge, assim: um desejo contraditório que se afirma e se nega, sendo ao mesmo tempo impulso de distanciamento e de aproximação, (im)provável felicidade daquele outrora que se deseja, numa mistura de tempos que esvazia a suposta felicidade do passado e também a que poderia existir no presente; fui-o outrora agora (2006).
A incerteza acerca da própria felicidade reside na simultaneidade entre um momento do passado e o presente, sugerindo um tempo irreal, possível somente no espaço da linguagem. A felicidade estaria então, no poema, apenas na provável sobreposição de tempos, operada nesse lugar vazio em que se joga com a linguagem e em que parece subsistir apenas a palavra literária, que é fundadora de sua própria realidade (Duarte, 2006). O romance de Abelaira, cujo título é uma apropriação do verso de Fernando Pessoa, também apresenta um enredo que joga com os liames do tempo, recuperando pela memória fragmentos de um passado, inventando outros, que, por sua vez, são até certo ponto (re)vividos no presente. Com esse jogo temporal confunde-se o próprio acto de escrever, é linguagem, como no poema, pois somente pela escrita é possível reviver o passado no tempo presente do sujeito. Podemos dizer que a intriga de Outrora Agora, da mesma forma que o poema de Pessoa, busca recuperar um intervalo de tempo que não pode existir senão no espaço da linguagem. Isso é representado pelo confronto de duas gerações, a de Jerónimo e Cristina versus a de Filomena e Cecília, separadas pelo movimento cultural de 1968, que abalou o comportamento e os princípios ético-morais principalmente nas sociedades ocidentais. A personagem-narradora avalia sua condição: Entre o amor possível (ou a amizade amorosa, ainda não sabe de que serão capazes, emotivamente, esses seus sessenta e tal anos) e o risco de perturbar o sossego de uma vida estabilizada, embora à custa de prudente resignação. De um lado, a velhice (a maturidade?), a mais ou menos serena expectativa da morte; do outro, a juventude renovada (pouco importa se ilusória), o regresso, através do amor (lugar comum literário) aos verdes anos. Sim ou não, vale a pena recomeçar, aceitar um último desafio? O último desafio e morrer, conclui, com a falsa ironia do céptico que procura mascarar-se no palco da intimidade. Tristão e Isolda, amor e morte (Outrora Agora).
Sempre acompanhado do olhar irónico, Jerónimo, que afirma desconhecer as suas capacidades emotivas, (re)velando assim que a sua virilidade já não é mais a mesma, pois refere-se somente aos sentimentos, vê-se obrigado a optar entre a estabilidade da sua vida e o desafio, o desconhecido. Podemos entrever mais uma vez a ironia quando o tradutor assume a sua velhice, mas duvida da sua maturidade, que é grafada entre parêntesis e de forma interrogativa, o que reforça a sua condição de desassossego no tempo presente do relato. O olhar crítico que o narrador-protagonista lança sobre si mesmo e à situação na qual se encontra refere-se tanto à tentativa de resgate do relacionamento com Cristina como à aventura que pode vir a ter com Filomena ou Cecília, e nas duas situações o amor equivale ao retorno da juventude, o prazer e depois a morte. No primeiro caso, Jerónimo reviverá a história da sua geração, com desejos reprimidos, atitudes e gestos comedidos, a velhice, a maturidade; no segundo caso, poderá viver a liberdade moral e comportamental, a juventude renovada». In Edimara Luciana Sartori, Efeito borboleta, Ou a Vida como Caos Causalidade e Casualidade em ‘Outrora Agora’ (Augusto Abelaira), Tese de Doutoramento em Literatura Portuguesa, Imagens líquidas na obra de Augusto Abelaira: sujeito e história na pós-modernidade, CEFET-RS, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2007.

Cortesia da UFRJaneiro/JDACT

O Hipopótamo de Deus. José Tolentino Mendonça. «Porquê pretender a todo o custo uma solução para o Mal, se o Bem é igualmente uma pergunta, e uma pergunta mais funda, vasta e silenciosa? Olha de frente tudo o que é grande»

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«Quando as perguntas que trazemos valem mais do que as respostas provisórias que encontramos»

«Um dos passos mais belos da Bíblia tem a ver com um hipopótamo. E não é propriamente um divertimento teológico, pois surge numa obra que explora muito seriamente os limites da responsabilidade humana face à experiência devastadora do Mal. Falo do Livro de Job, claro. O que primeiro nos surge ali é o protesto de Job contra o Mal que se abate inexplicavelmente sobre a sua história, protesto que se estende até Deus, já que, afinal, Ele não isenta os justos das tribulações. Mas depois vem o momento em que Deus se propõe interrogá-lo. E nesse diálogo assombroso, desenvolve-se um raciocínio que não pode ser mais desconcertante. Job só consegue pensar nas suas dores e nos porquês com os quais, inutilmente, esgrima. Deus, porém, desafia-o a olhar de frente para... um hipopótamo. Vê o hipopótamo que criei como a ti... Levanta a sua cauda como um cedro; os tendões das suas coxas estão entrelaçados. Os seus ossos são como tubos de bronze, a sua estrutura é semelhante a pranchas de ferro. É a obra-prima de Deus..., ninguém se atreve a provocá-lo.
O método de Deus neste singular encontro com Job é abrir a medida do seu olhar, rasgá-lo imensamente a tudo o que é grande, a tudo o que não tem resposta, mostrando-lhe que se o Mal é um enigma que nos cala, o Bem é um mistério ainda maior. A maravilhosa obra do Criador também não tem resposta. Porquê pretender a todo o custo uma solução para o Mal, se o Bem é igualmente uma pergunta, e uma pergunta mais funda, vasta e silenciosa? Olha de frente tudo o que é grande, é o desafio que Deus faz a Job. E, perante isto, Job responde ao Senhor: Os meus ouvidos tinham ouvido falar de ti, mas agora viram-te meus próprios olhos, por isso, retrato-me e faço penitência no pó e na cinza. Ele tinha apenas ouvido, mas agora viu, observou a ordem maravilhosa do Criador, fixou-se na sua grandeza, reparou de frente na imensidão. Job queria desvendar a dobra do Mal e esquecia-se que é o Bem o gigantesco segredo, o impensável desígnio da Graça que nos visita».
In José Tolentino Mendonça, O Hipopótamo de Deus, Paulinas Editora, Prior O Hipopótamo de Deus. José Tolentino Mendonça. Prior Velho, 2013, ISBN 978-989-673-325-4.

Cortesia PEditoras/JDACT

Os Impetuosos. Luísa Leltrão. «Opinava na política, na vida social, havia muito boa gente que a temia pela liberdade com que falava, mas a sua inteligência e a capacidade notável com que enfrentava as situações tornavam-na figura de respeito e de reverência»

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Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fosse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones. In António José de Almeida.

Memórias da tia Graça
«(…) Próximo do Natal na Quinta de São Jerónimo foi o baptizado da primeira neta da condessa, que já tinha dois netos varões, e Júlio ficara desiludido por não lhe ter calhado também um, como se fosse deficiência sua o sexo incompleto. Mas não deu mostras de nada, era o que faltava depois do que a pobre sofrera, outra vez seria. A Quinta de São Jerónimo mantinha o seu requinte aristocrático, sem mudanças, e a ela acorreram os membros da família, dispersos a pouco e pouco pelos condicionalismos da vida, os membros da família de Júlio, que a de Albertina não viera, a desobediência ao patriarca Diogo Silveira era ainda recente e o patriarca proibira-lhes que fossem, aquela filha estava morta para si e portanto para os outros. Na festa de baptizado ela sentira a orfandade com mais violência, como se fora filha das ervas, sem testemunhas de sangue a confirmarem-lhe a progenitura. A madrinha da neófita foi a avó paterna, Ana, condessa de Aguim, que gostava desta nora, mais do que das outras duas e por isso lhe manifestava ternura, admirando nela a força com que enfrentara o pai e a serenidade com que ainda sofria a falta da família. Ana via essas coisas mas nada dizia, não são coisas que se digam em meios civilizados, há que manter o pudor dos sentimentos. A sua figura imponente mantinha-se direita, quase a chegar aos cinquenta, parca nas manifestações, discreta no respeito pela vida dos seus, mas referência segura na autoridade fundadora. Seu marido, segundo de matrimónio, nunca fora chefe de família, cego havia duas décadas e agora preso pelas dores da gota, mantinha aquela disposição amável que sempre o caracterizara, afugentando de si e dos outros as torpezas da decrepitude. Também ele gostava de Albertina, infelizmente não a posso ver, mas sei que é linda e feminina, os cegos têm modos especiais de apreciar a beleza, que os outros não entendem. Albertina costumava acompanhá-lo, quando de visita a São Jerónimo, nos passeios de carruagem, e deleitava-se com esse patriarca de barbas brancas, cheio de sabedoria e de sedução que mantinha intacto o seu amor à Vida e à Mulher.
Apesar dos seus noventa e quatro anos, porfiava nos trabalhos literários, no interesse pelos destinos da pátria, à qual dedicara praticamente toda a vida. Possuía uma vitalidade tão grande que Ana confidenciara um dia a Albertina cumprir ainda ele gostosamente o seu dever conjugal, e muito bem!; a jovem corara envergonhada pela alusão ao tabu, porém a sogra era assim, livre e desassombrada, cada vez mais livre e desassombrada à medida que envelhecia, como se os anos lhe dessem o direito de se revelar enfim sem disfarces. Opinava na política, na vida social, havia muito boa gente que a temia pela liberdade com que falava, mas a sua inteligência e a capacidade notável com que enfrentava as situações tornavam-na figura de respeito e de reverência. O amor de sua vida fora este ancião e, por arrasto, o filho de ambos, o jovem e hercúleo Heitor, que aos vinte anos preguiçava no remanso do lar, sem outros interesses que não fossem a equitação e a caça. A mãe tinha o secreto temor de que ele não trilhasse as pisadas do pai, mas Heitor amavelmente continuava a olhar os livros como material de sucata e subvertia os ânimos dos vários preceptores, incumbidos de lhe abrir o espírito. A relação entre Ana e Albertina estabelecera-se como um amor à primeira vista, a atracção dos contrários que se completam, a jovem apresentava-se como produto genuíno e perfeito da mulher do seu tempo: doce, modesta, prazenteira; tinha mãos de fada nos bordados e rendas que confeccionava, cumpria gostosamente as actividades caseiras. Talvez por isso, aquando da entrada para a família, conquistara um lugar cimeiro, a sua disponibilidade levava os outros a abrirem-se com ela.
A festa do baptizado da pequena Maria Teresa era bem o exemplo disso, vários foram os que se lhe dirigiram a solicitar ajuda. Ana pedira-lhe que recebesse em casa o jovem Heitor a ver se o convencia a afeiçoar-se aos estudos: - Aqui na Bairrada só procura a companhia dos cocheiros, dos moços de estrebaria e outra gentinha do género! Talvez em Coimbra, no meio dos estudantes, ele entenda que a cultura é importante! Nunca se preocupara muito com o futuro dos cinco filhos que o primeiro marido lhe dera, talvez porque fosse nova, talvez porque eles fossem ricos, talvez porque muito mais amava este filho do que amara os outros. - Ó mamã, tenho o maior gosto em lhe ser prestável! Se o Júlio estiver de acordo, claro. Júlio esteve de acordo e Heitor sujeitou-se, se a mamã deseja, farei a sua vontade. Ficou combinado que depois das férias iria para Coimbra frequentar, como externo, o mesmo colégio de padres onde os irmãos tinham estado». In Maria Luísa Beltrão, Os Impetuosos, 1994, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-1857-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

sábado, 27 de dezembro de 2014

O Vaticano contra Cristo. Religiões. Tradução de José A. Neto. I Millenari. «Quando crescem a suspeita, o rancor e o ciúme em relação aos mais dotados e mais capazes, o ambiente, fechado à abertura aos valores, torna-se um ambiente de tirania»

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Guisado de cumplicidades
«(…) A ela foi dado o mandato de a todos chamar da posição horizontal para a posição vertical, do material para o espiritual, pois todo o mortal é como a erva e todo o seu esplendor é como a flor da erva. A erva seca, as flores murcham, mas a palavra do Senhor permanece eternamente. A Igreja é a custódia desta palavra, mas quando enfraquece a vigilância não resiste por muito tempo sem entrar também ela em crise.

A mula do pontífice
A sátira e o humor são importantes em qualquer sociedade; só os regimes não sabem apreciar o seu verdadeiro papel. Um governo que não aceita a discussão de opiniões diferentes, pouco a pouco, resvala no regime, que entende não precisar das sugestões dos subordinados, a quem apenas se dá a liberdade de aprovar sem recriminações, o que é a estatolatria. O governo que quer melhorar encoraja a crítica, capitalizando as que são justas; o governo que não permite a circulação de um indispensável humor afoga o povo no tédio da indiferença. Quando crescem a suspeita, o rancor e o ciúme em relação aos mais dotados e mais capazes, o ambiente, fechado à abertura aos valores, torna-se um ambiente de tirania. A crítica e m termos moderados supõe democracia. O déspota com a obsessão do respeito pela respectiva autoridade, isto é, pelo culto da sua pessoa, cala a boca do sátiro, irreverente e dessacralizado, para que, ocultando-os, não ridicularize os seus defeitos. A propósito daquele que contraria um prelado proeminente, ou o seu Rasputin, cita-se o que Afonso Daudet conta sobre o coice que a mula do papa deu, sete anos depois, ao jovem empregado da estrebaria, em Avinhão: Quand on parle d'un homme rancunier vindicatif, on dit: Cet homme-là, mefiez-vous! Il est comme la mule du Pape, qui garde sept ans son coup de pied..., il n’y a de plus bel exemple de rancune ecclésiastique. (Quando se fala de um homem rancoroso e vingativo, costuma dizer-se: Acautelai-vos desse homem! Ele é como a mula do Papa que esperou sete anos para dar o seu coice..., não há melhor exemplo do rancor eclesiástico).
Surge, então, a murmuração incontrolável como espaço sombrio de comunicação e indício de estagnação sem retorno, que envenena o ambiente e se multiplica livremente em piadas sarcásticas e perversas. Verdadeiros pasquins, grosserias viperinas e imaginosas percorrem os corredores dos gabinetes. Semelhante crítica é escova dura que desgasta as vestes delicadas sobre os ombros dos superiores. Fernando II de Nápoles punha a circular, ele próprio, alegres historietas por sua própria conta, para acalmar a cólera nos súbditos que, de facto, rindo-se a propósito delas, se tornavam mais serenos. Não é costume da cúria romana apreciar a liberdade de expressão. É assim que, por temor do ridículo, renuncia ao que é nobre, para cair no que é cómico e grotesco e, às vezes, trágico. A lei do silêncio ultrapassa o ridículo quando se estabelecem os acordos para atingir o poder. Mas o pequeno poder da divergência, mesmo se provinda de oficiais contactados em separado, tem a sua importância e a sua publicidade que não é avisado descurar. Os curialistas insatisfeitos refugiam-se instintivamente na crítica mais ou menos exagerada e até imprudente. É um grande vozear em surdina, como um zumbido ritmado de um enxame de abelhas no cortiço. São, todavia, polémicas mais de forma que de substância, que não atingem o culto devido ao mito, que continua à vontade. Fazem-se cócegas na cabeça, não nas axilas, dizia Renato Rascel». In I Millenari, Via col vento in Vaticano, Kaos Edizioni, 1999, O Vaticano contra Cristo, tradução de José A. Neto, Religiões, Casa das Letras, 2005, ISBN 972-46-1170-1.

Cortesia Casa das Letras/JDACT

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O Segundo Livro de Visões de Cataldo Sículo. Helena C. Toipa. «Os historiadores não nos esclarecem sobre as causas da sua morte, mas Cataldo, cometendo talvez uma indiscrição, diz-nos que ela ocorreu subitamente, após uma lauta ceia, parecendo estabelecer, assim, uma relação de causa-efeito»

Cortesia de wikipedia

Uma introdução à sua leitura
«(…) Estes versos referentes a Isabel, a Católica, dizendo que, quando descera pela primeira vez do céu à terra, o espírito do príncipe fora conduzido por sua sogra, fornecem-nos a pista necessária para concluirmos com exactidão sobre a data dramática do texto e provavelmente sobre a sua redacção.

NOTA: Álvaro de Portugal era o quarto filho de Fernando e dona Joana de Castro, 2.os duques de Bragança. Teve um papel importante nos reinados de Afonso V (a quem assistiu na guerra com Castela e que acompanhou na viagem a França) e do monarca Manuel (intervindo, por exemplo, nas negociações dos casamentos deste rei com dona Isabel e com dona Maria, filhas dos Reis Católicos). Foi, por isso, agraciado com várias honras e senhorios. O mesmo não acontecera, porém, no reinado de João II. Ao cair em desgraça a Casa de Bragança, em 1483, Álvaro foi aconselhado a abandonar o país, sendo-lhe confiscados todos os bens. Encontrou refúgio, para si e para a sua família, da qual faziam parte seus dois sobrinhos, Jaime e Dinis, filhos de Fernando II, 3.º duque de Bragança, justiçado em Évora, na corte dos Reis Católicos, onde foi muito bem acolhido e onde prestou bons serviços. Regressou a Portugal, com toda a sua família, ao subir ao trono Manuel I. Morreu em Toledo, em 1504, durante uma viagem a Castela, provavelmente ao serviço do rei Manuel I. Os historiadores não nos esclarecem sobre as causas da sua morte, mas Cataldo, cometendo talvez uma indiscrição, diz-nos que ela ocorreu subitamente, após uma lauta ceia, parecendo estabelecer, assim, uma relação de causa-efeito. Isabel, a Católica, sogra de Afonso, morrera em 1504. A primeira visita de ambos à terra, aos vivos, é narrada por Cataldo, na sua Primeira Visão: Entretanto, vejo descer do alto do céu um pequeno carro, que se distingue por uma rica pedra preciosa. Na parte da frente, estava sentada uma mulher, na parte de trás, um jovem mais branco do que a prata ou a neve. Este não era conduzido por cavalos, ou por movimento de rodas velozes; espontaneamente dirigia o seu caminho pelo meio do ar. A mulher que ia sentada, na parte da frente, era Isabel, outrora tua mãe. Quanto ao lindíssimo jovem, de face brilhante, era Afonso, de quem Leonor fora mãe. (Amélia da Encarnação Dias, Visões(livro I) de Cataldo Sículo, Universidade de Coimbra. 1969).

Com efeito, esta primeira visita do príncipe à terra, acompanhado da sogra, é referida no Primeiro livro de Visões, dirigido a dona Maria, filha da rainha mencionada e segunda mulher de Manuel I. No final deste mesmo poema, podemos 1er: Passaram dez anos e até então não fora aplacada esta mágoa, nem a dor se tornara mais leve. Sem cessar, quase renovada, atormentava o seu interior e exterior. Perdera o riso, perdera a alegria! Eis que o bom Deus acrescentou cinco aos dez anos. Acalmou o luto e pôs-lhe um termo, isto é, observadas as virtudes da mãe, privada de seu filho, fez aquilo que a nenhuma mãe fizera anteriormente. Restitui o filho à vida e ao vigor próprio, semelhante ao que ele era outrora em vida. Tendo o príncipe morrido em 1491, visitara a mãe, pela primeira vez, quinze anos depois, isto é, em 1506. Afonso nascera a 18 de Maio de 1475, ainda em vida de seu avô Afonso V, que logo o reconheceu por herdeiro, no caso de morrer o ainda príncipe João. Por ansiosamente esperado, o seu nascimento foi muito festejado: tratava-se do primeiro filho do único filho do rei, que não esperava descendência de sua filha dona Joana, atendendo à sua vocação religiosa. João II e dona Leonor não tiveram, além deste, outro filho.
Desde os cinco anos, viveu longe de seus pais, sob os cuidados de sua avó dona Beatriz, em situação de terçarias (isto é, sob o cuidado de terceiros), em Moura, juntamente com sua prima Isabel, aproximadamente da mesma idade, filha de Isabel, a Católica, com a qual, de acordo com o mesmo tratado que estabelecera as terçarias, deveria casar aos sete anos, por palavras de futuro, e aos catorze, por palavras de presente. O Tratado das Terçarias fora firmado em 1479, na sequência das guerras entre Portugal e Castela, ou melhor, entre o partido que pretendia, no trono de Castela, dona Isabel (irmã de Henrique IV de Castela) e Fernando, e o que preferia ver, aí, o nosso Afonso V que casara com a legítima herdeira, sua sobrinha, dona Joana (a Beltraneja, entre os castelhanos, que a davam como filha não de Henrique IV, mas de Béltran de la Cueva; a Excelente Senhora, entre os portugueses). Por esse tratado, estabeleciam-se, entre outras, as seguintes condições:
  • Dona Joana casaria com o príncipe Juan, seu primo, filho dos Reis Católicos, e, neste caso, ficaria também em terçarias com dona Beatriz, ou recolheria a um convento, como realmente aconteceu, professou no Convento de Santa Clara de Coimbra; 
  • Os filhos dos reis portugueses e dos Reis Católicos, Afonso e dona Isabel, ficariam aos cuidados de dona Beatriz e da Casa de Bragança, longe da influência e poder dos pais, até poderem casar.
Por desavenças e suspeitas de traição em relação à Casa de Bragança, João II desenvolveu esforços, em 1483, para pôr fim às terçarias, pelas quais nenhum dos régios pais podia visitar os filhos, e para trazer Afonso para junto de si. Conseguiu-o nas seguintes condições: o príncipe casaria com a filha segunda dos Reis Católicos, dona  Joana; mas, se ao cumprir o infante 14 anos, dona Isabel ainda estivesse por casar, seria ela a noiva e futura esposa, como realmente veio a acontecer alguns anos mais tarde. Durante este interregno, Afonso viveu e foi educado na corte. Para orientação da sua educação terá contribuído também Cataldo (sendo difícil de concluir se foi mesmo seu professor), que escreveu alguns trabalhos destinados ao seu aperfeiçoamento e que aconselhou o rei sobre o assunto». In Helena Costa Toipa, O Segundo Livro de Visões de Cataldo Sículo, Uma introdução à sua leitura, Universidade Católica, Centro de Viseu, Revista Humanitas, volume XLV, 1993, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

Camila. A Virgem Guerreira. João Nunes Torrão. «Vindo das casas e dos campos, toda a juventude e uma multidão de mães a admiram e a contemplam no seu desfile, boquiabertos e de espírito estupefacto diante do adorno real que lhe cobre de púrpura os delicados ombros, diante da fíbula de ouro que lhe prende os cabelos…»

Cortesia de wikipedia

«(…) É este carácter sagrado que vai exigir a punição de quem lhe causar a morte e é também por isso que a própria Diana se encarrega de retirar do campo de batalha o corpo inanimado da sua protegida para lhe dar sepultura na sua pátria: Haec cape et ultricem pharetra deprome sagittam: hac, quicumque sacrum uiolarit uolnere corpus, Tros Italusque, mihi pariter det sanguine poenas. Post ego nube caua miserandae corpus et arma inspoliata feram tumulo patriaeque reponam. (Toma estas armas e retira desta aljava uma seta vingadora: que, por meio dela, me pague com o seu sangue quem quer que, Troiano ou Itálico, tiver violado com uma ferida o seu corpo sagrado. Depois, eu mesma, no recôncavo de uma nuvem, levarei o corpo da desventurada e as armas de que não será despojada e a hei-de depor num túmulo, na sua pátria). Assim, Arrunte terá de morrer às mãos de Ópis, lugar-tenente de Diana, logo após a morte de Camila. É interessante constatar o afastamento da deusa na altura das mortes de Camila e de Arrunte, como que a querer significar que uma imortal não se pode contaminar, com o bafejo sequer, da morte. O mesmo se passa, de maneira ainda mais explícita, no Hipólito de Euripides, onde Ártemis, quando se aproxima o momento da morte do seu protegido, se retira e diz: Adeus! A mim não me é lícito ver pessoas mortas, nem os olhos manchar diante dos mortais que soltam o último suspiro. Ora, já que se trata do comportamento dos deuses, poderemos apontar outra semelhança entre o episódio de Camila e o Hipólito de Euripides : em ambos os casos, os deuses não interferem nas realizações de outras divindades. No caso de Camila, Diana não vai contra os fata que condenam a sua protegida e, mais tarde, Apolo não concede a Arrunte o regresso à pátria, porque iria interferir com a condenação a que Diana o votou. No Hipólito, Artemis diz que um deus não interfere nos propósitos dos outros deuses.
Mas há uma outra característica que, desde a primeira apresentação de Camila, no final do catálogo das forças itálicas, nos faz olhar para ela como um ser sobrenatural. Trata-se, evidentemente, da sua extraordinária velocidade, para a qual poderemos encontrar uma predestinação no voo sobre o Amaseno: Ela voaria sobre o cimo verdejante de uma seara sem lhe tocar e sem danificar, na sua corrida, as tenras espigas, ou, suspensa nas ondas encapeladas, caminharia sobre o mar, sem molhar na superfície líquida as plantas dos seus pés velozes. É esta sua velocidade que, depois de ter sido ludibriada pelas artimanhas do guerreiro, lhe vai permitir vingar-se do filho de Auno, quando consegue ultrapassar o galope fugitivo do cavalo do Lígure. Todas estas características, pelo seu aspecto sobre-humano, nos apresentam uma jovem brilhante e cheia de luz. Será que esta intensa luminosidade se vai manter nos aspectos puramente humanos? A resposta é afirmativa, ainda que tenhamos de colocar algumas restrições. A aparição de Camila, ao terminar o catálogo das forças aliadas de Turno, é tão esplendente que causa assombro às mulheres e aos jovens que contemplam com admiração o seu manto de púrpura, descaído pelas costas, a fíbula de ouro a adornar-lhe os cabelos e o seu porte altivo no comando das tropas: Vindo das casas e dos campos, toda a juventude e uma multidão de mães a admiram e a contemplam no seu desfile, boquiabertos e de espírito estupefacto diante do adorno real que lhe cobre de púrpura os delicados ombros, diante da fíbula de ouro que lhe prende os cabelos e ao verem como leva a aljava lícia e o mirto pastoril, arvorando-o na ponta de uma lança.
É com este pormenor das roupagens de Camila que Virgílio termina o canto VII do Poema e nos deixa com uma visão de maravilha e garridice, mas também de vaidade feminina que pressagia o desenlace fatal. Mas é no combate que esta figura vai receber ainda maior lustre. A virgem, desde sempre habituada a proelia dura pati apresenta-se a Turno cheia de confiança em si própria e chega mesmo a propor-se para ir, apenas com as suas tropas, defrontar as forças de Eneias que, dizia-se, se aproximava de modo ameaçador da cidade: Turno, se a coragem deve ter, com razão, alguma confiança em si própria, eu ouso, e prometo-te, marchar contra o esquadrão dos Enéadas, e sozinha enfrentar os cavaleiros tirrenos. Turno, porém, possuía dados mais completos sobre a situação militar e não aceita esta proposta, mas a autoconfiança de Camila vai ter oportunidade de ser confirmada e assume tal significado, que Júpiter tem de intervir para incitar Tárcon ao combate e assim restabelecer o equilíbrio de forças. Este aspecto luminoso vai lançar ainda alguns lampejos nos momentos finais da heroína. Com efeito, apesar de disposta a viver mais tempo, ainda tenta arrancar a lança que, fatal, a atingiu, encara a morte com calma. É esta calma que lhe permite preocupar-se com os outros, nomeadamente através do envio de uma mensagem militar a Turno. Só depois deste aviso a Turno é que larga as rédeas e se deixa tombar, inanimada, para o solo». In João Manuel Nunes Torrão, Camila, A Virgem Guerreira, Revista Humanitas, volume XLV, 1993, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Contos Proibidos. Rui Mateus. «Liberdade, Justiça e Transparência são sinónimos de Democracia. E sem esses ingredientes essenciais o regime português não passará de uma democracia com pés de barro. … a máxima de Séneca: ‘quem, podendo, não manda que o delito se não faça, manda que se faça’»

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Do triunfo da política ao estado dos juízes. Memórias de um partido desconhecido
«(…) Nos Estados Unidos também sopram ventos de mudança e, quando o 25 de Abril acontece em Portugal, já a administração republicana de Richard Nixon está ferida de morte com o caso Watergate. Quando James Carter e Walter Mondale lançam a sua plataforma eleitoral de cooperação internacional e de defesa dos Direitos Humanos, em 1976, Willy Brandt prepara-se para ser eleito presidente da Internacional Socialista, com base num programa de actividades não muito diferente dos valores proclamados pelos democratas americanos e com a firme intenção de pôr fim ao eurocentrismo, dando início a uma nova fase de cooperação internacional entre socialistas democráticos, que alcançasse todos os continentes. A Revolução Portuguesa tomara-se um marco essencial para a compreensão dos grandes acontecimentos políticos mundiais da segunda metade do século XX, se bem que os políticos portugueses, que pouco tinham feito para que o 25 de Abril acontecesse, também não a soubessem promover, nem conseguissem dela tirar os louros que, por direito próprio, Portugal merecia. A transformação pacífica de Portugal num país livre e democrático foi um acontecimento não só inédito como exemplar, que viria a contribuir de forma absolutamente decisiva para a falência de inúmeros regimes totalitários em África, na América Latina e no próprio Leste Europeu e para um desanuviamento da tensão nas relações internacionais. A descolonização total do Continente Africano e os processos de democratização na Península Ibérica e na América Latina seriam o primeiro resultado da Revolução de Abril. O fim do apartheid e das ditaduras comunistas no Leste Europeu, pela via do diálogo e do pluripartidarismo, seriam também consequência da vitória das forças democráticas, primeiro em Portugal, depois, como reflexo dessa vitória, encontrariam força suficiente no seio da Internacional Socialista e no seio da NATO para rejeitar soluções de submissão unilateral nos chamados diálogos Leste Oeste e Norte Sul.
Na base da força moral das forças democráticas, perante os graves conflitos entre o Leste e o Oeste e na escolha da via para a libertação dos Povos, nos anos 80, estaria sempre presente o exemplo português a que André Malraux chamaria a primeira vitória dos mencheviques sobre os bolcheviques. Bastaria referir, a este propósito, a situação de ruptura a que quase se chegou no seio da NATO por causa do regime sandinista na Nicarágua, sobre as propostas conducentes a um processo de desarmamento unilateral na Europa Ocidental e sobre um eventual apoio europeu a formas de luta armada a conduzir por países da Linha da Frente na África Austral, como forma de pôr fim ao regime do apartheid na África do Sul. Seria o exemplo da moderação da vitória dos mencheviques em Portugal que, na maior parte dos casos, mesmo quando a revolução portuguesa já parecia esquecida, cimentaria as decisões de bom senso que acabariam por prevalecer e moderaria os ímpetos revanchistas dos republicanos norte-americanos e os ataques de pacifismo serôdio de alguns socialistas europeus. Portugal esteve no epicentro de uma grande ameaça à paz tendo a solidariedade internacional, que nos faltou durante tantos anos, finalmente funcionado. Entre as várias opções que se colocariam aos capitães de Abril e as várias receitas preconizadas para Portugal prevaleceria o bom senso. Mas os partidos políticos e seus principais dirigentes rapidamente desperdiçariam este enorme património, em lutas intestinas e com vaidades provincianas.
Hoje, visto de fora para dentro, Portugal regressou ao seu estatuto de país insignificante e receptor. Não foram conseguidos os grandes objectivos da Revolução de Abril e o país encontra-se entre a Europa e a mediocridade. Parece que o povo português não consegue libertar-se do fatalismo da I República. Este meu livro de memórias, assim o espero, é também uma contribuição contra esse fatalismo. O chamado caso do fax de Macau ou caso Emaudio dar-me-ia o último argumento de peso para escrever este livro. A propósito de um conflito, em nada diferente dos conflitos que devassam o interior dos partidos políticos portugueses e que se prendem com situações de poder; a propósito de um financiamento político relativamente insignificante e em nada, a não ser no montante, diferente dos que têm sido feitos ao longo dos últimos vinte anos a partidos políticos e organizações afins, confundiu-se a árvore com a floresta e iniciou-se a investigação à corrupção em Portugal de tal forma que, ao contrário do que tem acontecido noutros países europeus, se inviabilizaria o conhecimento da verdade e, como tal, o combate à corrupção. Em vez de se optar por um esclarecimento idóneo e completo, a que os portugueses têm direito, sobre o estado da Nação em matéria de tráfico de influências e de corrupção, cortando o mal pela raiz ou, caso se verificasse que a verdade poderia ser fatal, a Assembleia da República em acto público entendesse fazer um acto de contrição para bem da democracia, criando moratórias e regras novas, o Ministério Público parece ter assumido a responsabilidade de definir o interesse nacional. Produzindo uma acusação sem provas numa total inversão de valores e, mesmo admitindo a convicção do investigador em relação a um crime que não existiu, ignorando a máxima de Séneca: quem, podendo, não manda que o delito se não faça, manda que se faça.
Não há Democracia sem a participação dos cidadãos na vida do seu país. Escolheu-se definir, em Portugal, que o enfâse dessa participação se faça através de partidos políticos. Mas faltam ainda definir regras estritas sobre a democracia interna nos partidos que os impossibilite de se transformarem, como tem vindo a acontecer em Portugal, em aparelhos burocráticos fechados que impedem essa mesma participação. E para além da ausência de regras que permitam, pela via individual, o acesso do cidadão à actividade política, não existem regras idóneas de financiamento dos partidos, nem de transparência para os políticos. Um pouco à semelhança dos pilares morais do regime, a Maçonaria e a Opus Dei, tudo se decide às escondidas, como se o direito dos cidadãos à informação completa e rigorosa de como são financiadas as suas instituições e dos rendimentos dos seus governantes e dos seus magistrados fosse algo suspeito, algo subversivo. Liberdade, Justiça e Transparência são sinónimos de Democracia. E sem esses ingredientes essenciais o regime português não passará de uma democracia com pés de barro. Acontecerá então, para mal de todos nós, a conversão do já em si negativo triunfo da política no temível estado dos juízes!» In Rui Mateus, Contos Proibidos, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1996, ISBN 972-20-1316-5.

Cortesia de Dom Quixote/JDACT

O Algarismo e o Número. O Número de Deus. José Corral. «Teresa contemplava extasiada os vermelhos de sangue, os ocres-dourados, os verdes-esmeralda e os azuis cobalto; os seus olhos curiosos de criança pareciam querer agarrar todos e cada um dos matizes de todos e cada um dos tons que o pai criava misturando essências vegetais…»

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O Algarismo e o Número
«(…) Arnal, que levava várias semanas sem pintar, não pensou duas vezes, e ao inteirar-se de que o cabido e o bispo procuravam artistas que fossem capazes de plasmar as cenas da Bíblia numa parede, apresentou-se para fazer uma prova. O cónego encarregado da obra da catedral, um austero e quase etéreo indivíduo de perfil adunco e vivazes olhos pequenos e fundos, submeteu-o a exame. Arnal desenhou com delicada precisão um pantocrátor, Cristo em figura majestática rodeado pelos símbolos dos quatro evangelistas, a mesma cena que tinha realizado em Pamiers Para obter o grau de mestre; perante a perfeição do desenho, foi de imediato contratado. Teresa nasceu três anos depois de o casal se ter instalado em Burgos. A rapariguinha tinha a íris da cor dourada da areia. A mãe morrera na altura do parto e desde então Arnal tinha cuidado dela com esmero, dedicando-lhe tanta atenção que quase não se separava um instante do seu lado. Desde o momento em que começou a dar os primeiros passos, Teresa costumava acompanhar o pai no trabalho. Enquanto o mestre de Pamiers desenhava ou pintava sobre a parede caiada de alguma igreja, a menina sentava-se em frente ao progenitor e observava como iam surgindo da sua prodigiosa mão anjos e demónios, santos e pecadores, mártires e verdugos. Quando Amal preparava os intensos pigmentos com que mais tarde coloriria os seus preciosos desenhos sobre a cal fresca, Teresa contemplava extasiada os vermelhos de sangue, os ocres-dourados, os verdes-esmeralda e os azuis cobalto; os seus olhos curiosos de criança pareciam querer agarrar todos e cada um dos matizes de todos e cada um dos tons que o pai criava misturando essências vegetais, óxidos metálicos e pigmentos minerais.
Amal acabava de traçar o perfil do manto da virgem e estava a ponto de começar a aplicar as primeiras pinceladas de azul-cobalto, quando voltou os olhos para baixo. Empoleirado desde o alto do andaime, contemplou a sua filhita que, encostada a uma das paredes, olhava para cima absolutamente fascinada. – Teresa, disse-lhe, gostarias de pintar? A rapariguinha fez um gesto afirmativo com a cabeça. - Gostava, pai, mas não sei. - Não te preocupes, eu ensino-te. Arnal desceu do andaime com precaução e pediu a um dos aprendizes que o ajudasse a subir a filha. - Não tens medo, não é verdade?
- Não, pai. - Tem muito cuidado e faz tudo o que eu mandar. Com a ajuda do aprendiz, Arnal e a filha alcançaram a plataforma do andaime sobre a qual o mestre occitano estava a pintar os úlltimos frescos da catedral. Uma dúzia de candeias de azeite colocadas em círculo na plataforma do andaime iluminava a parede recém-branqueada com cal sobre a qual Arnal traçara umas linhas pretas que demarcavam os desenhos que tinha de colorir de imediato, antes que o estuque secasse. A técnica de pintura de frescos requeria uma habilidade extraordinária. As cores tinham de se aplicar necessariamente sobre a cal ainda húmida, de modo a que os pigmentos penetrassem e se fixassem de maneira que, quando secasse, a pintura não se soltasse e acabasse por desaparecer, ou com as cores tão escuras que não ficassem com o aspecto luminoso e brilhante que era requerido. - Pega nesse pincel, ensopa metade do comprimento das cerdas na tigela de tinta azul e preenche o espaço que há entre estas duas linhas pretas; fá-lo devagar, com movimentos seguros, sem medo, mas antes de dar cada pincelada pensa bem no que vais fazer e nunca duvides. Se te enganares, não haverá lugar a rectificações.
Teresa pegou no pincel, molhou-o com tinta tal como o pai lhe tinha dito e aplicou-a no local que lhe tinha indicado. O pincel, guiado pela mão da criança, deslizou sobre a superfície caiada com tal segurança que deu a impressão a Arnal de ser manuseado por um bom oficial. Lentamente mas com confiança e serenidade, Teresa preencheu o espaço de parede que o pai lhe tinha delimitado. - Minha filha!, exclamou Amal emocionado, nunca tinha visto nenhum aprendiz manejar o pincel com tanta segurança. É muito divertido, pai, gosto disto. - Bem, nesse caso vou incluir-te entre os aprendizes da oficina. Ainda és demasiado pequena para fazer certas coisas, mas podes ajudar a preparar as tintas e até a preencher com tinta os desenhos que não apresentem muita dificuldade. Se a tua mãe te pudesse ver agora, ficaria orgulhosa de ti. - Gosto das cores, pai, sobretudo do azul. - O azul é a cor mais difícil de conseguir, e a mais cara; bom, depois do púrpura, mas estes austeros castelhanos não gostam muito do púrpura, preferem cores mais sóbrias. - A minha favorita é o azul». In José Luís Corral, El Número de Deus, 2004, O Número de Deus, O Segredo das Catedrais Góticas, tradução de Carlos Romão, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.

Cortesia de Planeta Editora/JDACT