sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Poesia. Alberto Caeiro. Música Árabe. «A poesia é o autêntico real absoluto. Isto é o cerne da minha filosofia. Quanto mais poético, mais verdadeiro. As figuras imaginárias têm mais relevo e verdade que as reais»

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Guardador de Rebanhos
[… ]
XVI
«Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada.
E que para de onde veio volta depois
quase à noitinha pela mesma estrada.

Eu não tinha que ter esperanças, tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
e eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.

XVII
No meu prato que mistura de Natureza!
As minhas irmãs as plantas,
as companheiras das fontes, as santas
a quem ninguém reza...

E cortam-se e vêm à nossa mesa
e nos hotéis os hóspedes ruidosos,
que chegam com correias tendo mantas
pedem Salada, descuidosos...

Sem pensar que exigem à Terra-Mãe
a sua frescura e os seus filhos primeiros,
as primeiras verdes palavras que ela tem,
as primeiras coisas vivas e irisantes
que Noé viu
quando as águas desceram e o cimo dos montes
verde e alagado surgiu
e no ar por onde a pomba apareceu
o arco-íris se esbateu...


XVIII
Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
e que os pés dos pobres me estivessem pisando...

Quem me dera que eu fosse os rios que correm
e que as lavadeiras estivessem à minha beira...

Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
e tivesse só o céu por cima e a água por baixo...

Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
e que ele me batesse e me estimasse...

Antes isso que ser o que atravessa a vida
olhando para trás de si e tendo pena...»
[…]
Poema de Alberto Caeiro, in ‘Poemas’

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Goa Antiga e Moderna. Frederico Diniz D’Ayalla. «… à proporção que o sol caminha para o ocaso. De súbito, as tintas chocam-se, esbatem-se, e à variação da luz e da perspectiva, segue-se um véu denso da cor de ouro fosco: “é sol-posto”»

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Goa
«(…) Muitas vezes depara a gente com esses filhos do sol, durante os grandes calores, encostados a um objecto qualquer, os braços pendidos, a cabeça caída e os olhos cerrados, esfregando o corpo contra o que se apoiam. Assim dormitam, cabeceiam e suam nessa embriaguez voluptuosa, própria do indiano. Nada há que o arrede dali. O calor na Índia é esmagador e deprime sensivelmente o sistema nervoso; mas tem o quer que seja de grandioso e solene. Não só escalda e abate, mas assombra. Numa tarde de Maio, principalmente, o espectáculo da Natureza toca as raias do sublime horrível: são tardes ameaçadoras, rubras de fogo como a antecâmara do Inferno. O sol desce para o ocaso em verdadeiro triunfo. As águas do mar atingem uma fosforescência única naqueles climas, semelhando uma massa de cristais em que incidem os raios do sol poente. O horizonte é a boca de um vulcão. Largas faixas de luz de um vivo bronzeado, entremeadas de listrões brancos e azul-escuros tremem no horizonte como as franjas de um docel. Nuvens de fantásticas formas, debruadas de luz, túmidas como rolos de fumo que transformam a lisura do véu que nos cobre em fantástico turbilhão de blocos que se movem. Umas correm, outras montam aumentando de corpo e mudando de forma; estes chocam-se, aquelas irrompem do vácuo; desdobram-se umas, desaparecem outras; estas geram as que vão rolando pela fímbria do horizonte, aquelas desfazem-se pelo vento em canudos de fumo; rasga-se o bojo de umas abrindo na abóbada celeste frestas de fogo; outras, quais negros penedos desencadeados do alto, precipitam-se sobre o foco de luz. Ao súbito escurecer por um tropel de sombras, a luz por tal forma reprimida estende-se no alto das nuvens como as lavas de um incêndio por cima de um monte. Nesta contínua e rápida metamorfose de formas, luz e sombras, o espectador parece assistir à génese de novos mundos. Um cataclismo ígneo confunde os céus e o mar numa orgia de luz, variando em intensidade à proporção que o sol caminha para o ocaso. De súbito, as tintas chocam-se, esbatem-se, e à variação da luz e da perspectiva, segue-se um véu denso da cor de ouro fosco: é sol-posto.
Do lado do nascente, o horizonte carrega-se a pouco e pouco. Ameaça a chuva. A luz crepuscular incidindo sobre este fundo negro espalha uma claridade etérea por sobre as cumeadas das serras das Novas Conquistas que se nos afiguram mais próximas. Enquanto deste lado o fundo cada vez mais se alarga e escurece, pelas bandas do mar o amarelo carregado acentue-se cada vez mais até descambar num rubro firme e baço. Como o crepúsculo dura pouco, a intensidade da luz e do calor é rápida, mas vulcânica. As nuvens, que espreitam por detrás dos montes, galgam rapidamente o horizonte visual. Zonas de luz e sombras aparecem e desaparecem, segundo a direcção que as nuvens seguem, para, dentro em pouco, se estender uma escura cortina, que põe a coberto os lados do nascente. Este véu denso e negro como o fumo do carvão bate o reflexo vespertino para o seu foco. O espectáculo é arrebatador. Da Aguada a Ribandar o espaço aparece envolto num clarão que ninguém sabe donde parte. Dir-nos-íamos arrebatados ao Thabor para assistir à transfiguração de um deus. Como na Europa, em dia de névoa, a terra e o céu se confundem, na Índia, numa tarde de Maio, a multidão que passa parece vespertina. A este quadro de tintas bíblicas nada há que se compare na arre ou na imaginação. Sentimo-nos transplantados ao Sinai, onde Moisés se cria arrancado da terra por uma tromba de luz. Numa exuberância tão caprichosa de cores, de audazes crispações, chega a perder-se a consciência da realidade. A imaginação banha-se em um mar de volúpia, a sensibilidade quase se insensibiliza num delírio de êxtases e de doce esquecimento. Só num clima desses poderiam nascer o impassível Buda e o meigo Jesus». In Frederico Diniz D’Ayalla, Goa Antiga e Moderna, Ésquilo edições e multimédia, Revisão de Adalberto Alves, 2011, ISBN 978-989-719-001-8.

Para Ofélia e Álvaro José, que estejam em paz!

Cortesia de Ésquilo/JDACT

Poesia. Fernando Pessoa. Jazz. «Em certos casos, quanto mais nobre é o génio, menos nobre é o destino. Um pequeno génio ganha fama, um grande génio ganha descrédito, um génio ainda maior ganha desespero…»

Mónica e Fernando
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«Oca de conter-me
como a hora dói!
Pérfida de ter-me
como me destrói
o meu ser inerme!

Ó meu ser sombrio!
Ó minha alma tal
como se p’lo rio
do meu ser igual
sempre a mim, e frio

De nocturno e meu,
passasse, cantando,
uma louca, olhando
dum barco prò brando
silêncio do céu».


«Dentro em meu coração faz dor.
Não sei donde essa dor me vem.
Auréola de ópio de torpor
em torno ao meu falso desdém,
e laivos híbridos de horror
como estrelas que o céu não tem.

Dentro em mim cai silêncio em flocos.
Parou o cavaleiro à porta...
E o frio, e o gelo em brancos blocos
mancha de hirto a noite morta...
Meus tédios desiguais, sufoco-os,
a minha alma jaz ela e absorta

Dentro em meu pensamento é mágoa…
Corre por mim um arrepio
que é como o afluxo à tona de água
de se saber que há sob o rio
o que... Brilha na noite a frágua
onde o tédio bate o ócio a frio»
Poemas de Fernando Pessoa, in ‘Novas Poesias Inéditas, 4-5-1914 e 7-8-1914’

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O Complexo de Culpa do Ocidente. Pascal Bruckner. «… da ordem medieval nasce o Renascimento, do feudalismo a aspiração democrática, da opressão da Igreja o século das Luzes. … as conquistas ultramarinas suscitam o anticolonialismo, as revoluções do século XX o movimento antitotalitário»

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«Ele não acredita no Paraíso mas acalenta a esperança da condenação eterna». In Virginia Woolf

As patologias da dívida
«(…) Um professor francês expatriado na Líbia, chocado com as caricaturas de Maomé no Inverno de 2006, e notando os ânimos exaltados dos seus estudantes, escreve uma carta ao jornal, Le Monde (Robert Solé, 19-20 de Fevereiro de 2006) na qual comunica a sua indignação e conclui com as seguintes palavras: Somos ainda os senhores do mundo e parecemos ter esquecido todos os outros. Somos os senhores do mundo! Proferida por um Disraeli ou um Jules Ferry, há mais de um século, a frase não teria causado surpresa. Mas hoje num jornal de esquerda, que presunção! Veremos que esta ânsia de poder é paradoxalmente motivada por um remorso inextinguível.

Ceder o coração ao inimigo
A Europa tem indubitavelmente parido monstros. Tem de igual modo gerado teorias que permitem compreender e destruir esses mesmos monstros. Porque, desde o tempo dos Conquistadores, a Europa elevou ao mais alto nível a aliança do progresso e da crueldade, do poder técnico e da agressividade e, uma vez que se deparou com séculos de orgias sanguinárias, também se tornou extremamente sensível às loucuras da espécie humana. Substituindo os Árabes e os Africanos, a Europa instituiu o tráfico negreiro transatlântico mas engendrou também o abolicionismo e pôs fim à escravatura antes de outras nações. Cometeu os piores actos e pôs em prática meios para erradicar o mal. A singularidade da Europa é um paradoxo levado ao extremo: da ordem medieval nasce o Renascimento, do feudalismo a aspiração democrática, da opressão da Igreja o século das Luzes. As guerras de religião favorecerem o pensamento laico, os antagonismos nacionais a esperança de uma comunidade supranacional, as conquistas ultramarinas suscitam o anticolonialismo, as revoluções do século XX o movimento antitotalitário. A Europa, semelhante a um carcereiro que nos aprisiona e nos cede as chaves da cela, deu simultaneamente à luz o despotismo e a liberdade. Enviou militares, mercadores e missionários (daí o importante papel desempenhado pelas Igrejas nos processos de descolonização, excepto em Portugal onde a Concordata de 17 de Maio de 1940 submetia as missões católicas ao controlo do Estado) para subjugar e explorar terras longínquas. Inventou também e antropologia que é uma certa forma de ver pelos olhos do estrangeiro, de pensar o outro em si e de se pensar no outro, numa palavra, é, uma certa forma de nos afastarmos daquilo que nos é próximo para nos aproximarmos daquilo de que nos afastámos.
Nesta área, a França cometeu abominações. É também graças à França que delas nos libertámos quando, finalmente, após convulsões terríveis, passou a conciliar os seus actos e os seus princípios. A aventura colonial padecia mortalmente de uma dupla contradição; impunham-se a populações longínquas costumes particulares, ornando-os com a máscara do universal. Impor pastis e baguettes aos Africanos e pudding aos Hindus era manter um império à custa do tribalismo. Portanto, sujeitando continentes às leis de uma metrópole que lhes inculcava por outra via ideias nacionais e a noção do direito dos povos à autogovernação, britânicos, franceses e holandeses entregaram aos dominados os instrumentos da sua emancipação. Os colonizados que reclamavam a sua independência limitaram-se e invocar as regras que tinham aprendido com os senhores e a expulsá-los com as armas que estes inadvertidamente lhes tinham cedido. Por exemplo, foi em nome dos direitos do homem e do cidadão que, nos finais do século XVIII, os escravos do Haiti e de São Domingos se revoltaram e discutiram os fundamentos do novo contrato social que tinha por base a abolição da escravatura, a igualdade racial, e o fim da sociedade colonial e que, em 1954, os novos dirigentes históricos da FLN argelina erem fruto da escola francesa e absorviam os ideais revolucionários que os incitariam a sublevar-se contra Paris». In Pascal Bruckner, La Tyrannie de la Pénitence, Essai sur le Masochisme Occidental, Editions Grasset Fasquelle, 2006, O Complexo de Culpa do Ocidente. Publicações Europa-América, 2008, ISBN 978-972-1-05943-6.

Cortesia de PEA/JDACT

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Cratino. A Sombra de um Grande Poeta. Maria de Fátima Silva. «De gracejos esporádicos, os ataques ampliaram-se à totalidade da intriga, as vítimas ganharam a consistência de verdadeiras personagens dramáticas, dentro de um contexto que permitiu à comédia…»

Cortesia de wikipedia

«Do muito que sossobrou da produção cómica ateniense na sua primeira fase, não mais nos resta do que uma pálida sombra, que recuperamos, cheia de obscuridades e interrogações, de testemunhos antigos de épocas várias. São primeiro os contemporâneos, aqueles que apreciaram de perto o fenómeno, sobretudo por nele serem também intervenientes, e que, motivados pela consciência profissional que leva a uma reflexão sobre a arte, ou pelos amargores de uma concorrência que o sistema concurso fomentava, teceram comentários sobre o género e sobre os rivais activos na disputa pelos favores da Musa. Neste número avulta o nome de Aristófanes, para além de comediógrafo de grande sucesso, um teórico feito de uma longa experiência na cena de Dioniso, atento ao fluir imparável da comédia e seu permanente crítico e comentador; guiados pelo seu testemunho, somos estimulados a um percurso que se inicia nos tempos longínquos de uma popularidade feita de improviso e de espontaneidade burlesca, até aos dias mais promissores em que se abria à comédia um caminho de progresso e aperfeiçoamento, através da presença, oficialmente reconhecida, nos festivais dramáticos da polis. Um outro tipo de informação, de natureza diversa mas de significado também relevante, é a que provém dos textos burocráticos, que acompanharam a gestão da festa de Dioniso em Atenas, registos de nomes de poetas, títulos de peças, vencedores nos concursos, datas das produções; por eles somos orientados para uma análise mais quantitativa do fenómeno, que documenta a expansão alcançada, embora alguns aspectos de sucesso ou preferência, por temas ou por poetas, se tornem também patentes. Mais tarde, quando a comédia se situava já entre as glórias passadas da cidade de Palas, foi outra a motivação para toda uma série de comentários e citações dos velhos comediógrafos. Em primeiro lugar, um sentido de clarificação motivou a redacção de escólios, notas informativas acrescentadas às cópias dos textos, a procurarem esclarecer um leitor menos sensibilizado, a séculos de distância, para pormenores ou referências então já incompreensíveis. Dentro do mesmo espírito, elaboraram-se sumários breves, a conduzirem a leitura para os tópicos essenciais de cada peça, que vieram a servir de magro substituto do próprio texto, quando entretanto desaparecido. Não menos interessante é o papel dos diversos biógrafos, críticos literários e autores de vocabulários e léxicos, que, nos textos antigos ainda ao seu dispor, buscaram matéria para estudos e registos. Dessa actividade resultaram tratados expressamente dedicados à produção literária do passado, listagens vocabulares voltadas para a tradição linguística do grego, ou simples abonações, nos mais diversos contextos, através do testemunho de citações dos antigos. Complementares umas das outras, inestimáveis como informação única de um passado que demandamos, estas vozes não satisfazem a nossa curiosidade e muito mal preenchem o espaço deixado vazio pela acção devastadora do tempo. A mão do acaso, sobreposta a todos os propósitos e objectivos, seleccionou para nós um material, de relevância e dimensão variadas, que, mais do que dar respostas, suscita novas interrogações e dúvidas desesperadamente insolúveis. Apesar de todas as dificuldades, um percurso por esse campo de ruínas continua uma tentação, sobretudo se, mesmo que escassos, os fragmentos que nos restam, articulados com as informações disponíveis, podem devolver a imagem, embora ténue, de uma celebridade perdida. É esse o convite que um nome sonante, como o de Cratino, propõe ainda ao estudioso moderno. De uma geração nascida na primeira metade do séculos V a. C., Cratino suscitou em torno de si um coro de vozes que associam a sua actividade à definição de um progresso decisivo na história da comédia. Ε foi como cultor da agressividade no ataque nominal, à maneira dos poetas iâmbicos e em particular de Arquíloco, que Cratino imprimiu, na simplicidade do komos, um vigor e objectivo inteiramente novos.
Tal proeza encontra já o merecido reconhecimento na parábase de Cavaleiros de Aristófanes, onde o autor, a pretexto de exemplificar a caducidade do êxito literário, cataloga e caracteriza os precursores, a quem coube determinar o ritmo de evolução no passado do género. A invectiva não era um dado novo na produção cómica, antes fazia parte de uma tradição quase lendária, onde o gracejo nominal aparecia como uma manifestação episódica e destacada de um contexto preciso. O seu objectivo não teria então qualquer outro alcance para além de divertir uma assistência ainda pouco exigente. Assim, a intervenção de Cratino neste processo teria vindo redimensionar e justificar, em termos inovadores, a velha tradição. De gracejos esporádicos, os ataques ampliaram-se à totalidade da intriga, as vítimas ganharam a consistência de verdadeiras personagens dramáticas, dentro de um contexto que permitiu à comédia ocupar-se, numa perspectiva de intervenção didáctica, de questões políticas e sociais. São significativos os termos em que Aristófanes descreve a atitude literária de Cratino, identificando-o com caudal poderoso que, numa marcha sem barreiras, arrastasse, arrancadas pela raiz, árvores de grande porte, plátanos e carvalhos». In Maria de Fátima Silva, Cratino.´, A Sombra de um Grande Poeta, Revista Humanitas, volume XLIX, 1997, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

Amizade. Amor e Eros na Ilíada. Maria Helena Pereira. «... Mas agora quero alcançar uma nobre glória, e que as Troianas e Dardânidas de bela pintura, enxugando com ambas as mãos as lágrimas nas tenras faces, solucem profundamente, e se apercebam de quanto tempo me abstive do combate…»

Cortesia de wikipedia

«(…) É precisamente isso o que sucede no Canto I do poema. Agamémnon rejeita, desabridamente e com ameaças, o pedido de resgate de Criseida, que o pai desta lhe faz, revestido das insígnias de sacerdote de Apolo, pelo que o deus o castiga, e a todo o exército, lançando a peste no acampamento. Revelada a causa da epidemia pelo adivinho dos Aqueus, vê-se na obrigação de restituir a cativa, mas para isso reclama a sua substituição por outra. No calor da discussão com Aquiles, é a deste último, Briseida, que ele acaba por exigir. Ora as cativas eram presente de honra, e este lexema atravessa, como um signo ameaçador, a longa discussão na primeira parte da assembleia dos chefes, em que Aquiles é desfeiteado na presença de todos (oito ocorrências da palavra em 87 versos). Certos comentadores antigos, que tentaram emendar o verso 6 da proposição do poema: desde o momento em que se separaram, discordando um do outro, lendo uma referência causal, onde estava um verbo no dual acompanhado de um particípio suplementar, cujo sujeito é o Atrida, senhor dos homens e o divino Aquiles, além de inventarem uma palavra, mostraram não compreender o alcance da ofensa, reduzindo-a a uma simples questão de rivalidade por uma mulher. Numa das suas acutilantes réplicas a Agamémnon, o rei dos Mirmidões acentua que não está em Tróia para vingar afrontas pessoais de depredação dos seus bens (que eram afinal as causas correntes de guerras), mas para prestar serviço aos Atridas: é que eu não vim lutar para aqui por causa dos Troianos belicosos, pois eles nada me fizeram; jamais me tiraram bois ou cavalos, nem destruíram as colheitas na Ftia de solo fértil, criadora de heróis, pois muitos são os acidentes que ficam de permeio, as montanhas umbrosas e o marulhante mar. Mas seguimos-te, grande descarado, para teu prazer, para vos granjear honra, a Menelau e a ti, ó cara de cão, junto dos Troianos; Disso não curas nem pensas tu! Mais tarde, ao replicar ao discurso com que Ulisses, em nome de Agamémnon, tenta convencê-lo a regressar ao combate, Aquiles insiste em que não ajudará o rei de Micenas, nem com o conselho, nem com a acção  e exclama: é que ele já me decepcionou e ofendeu; não vai iludir-me de novo com palavras! Que se contente com o que fez!
O seu discurso rebate depois, uma por uma, as vantagens das ofertas de Agamémnon: não aceita nem riquezas, nem cidades, nem uma das filhas em casamento. Regressará à Ftia, e aí encontrará uma nobre esposa, porque, continua, nada existe que possa pagar a vida. Sabedor, através da mãe, a deusa Tétis, do duplo destino que pode aguardá-lo, morrer cedo, com glória, ou gozar de uma velhice apagada, só tem que aconselhar a todos o regresso ao seu país. Este não é o pensar verdadeiro do herói por excelência, momentaneamente disfarçado sob a capa do homem comum. É o do herói ofendido que desdenha esta tentativa de aproximação. Mas a profecia de Tétis vai regressar na altura própria: quando, após a morte de Pátroclo, tiver começado aquilo a que Dieter Lohmann, num livro que fez época, chamou a segunda fase, aquela que o leva a ir para o combate, sem atender a nada, para castigar Heitor. Ao ouvir a decisão do filho, Tétis esclarece melhor: logo após a morte de Heitor, a sua estará preparada. Reconhece-se agora o fogoso guerreiro na resposta impetuosa e desesperada: que eu morra de imediato, já que não me era dado defender da morte o companheiro!... Mais adiante, o tema da morte e da glória entrelaçam-se de novo nesta tirada cheia de exaltação: ... Mas agora quero alcançar uma nobre glória, e que as Troianas e Dardânidas de bela pintura, enxugando com ambas as mãos as lágrimas nas tenras faces, solucem profundamente, e se apercebam de quanto tempo me abstive do combate. Por muito que me ames, não me afastes da luta: não me convencerás.
Mas, ao lado destes, o tema da amizade vai ter um valor fundamental, pois é essa, afinal, a razão última do sacrifício da vida de Aquiles. Quando Pátroclo cai ferido por Heitor e os outros chefes guerreiros tentam impedir a todo o custo a consumação suprema do príncipe troiano, ficar de posse do cadáver do inimigo, Ajax lembra a Menelau que é preciso prevenir Aquiles de que perecera o companheiro que, de longe, ele mais estimava. O espectáculo da dor de Aquiles, do seu imenso desespero, com Antíloco a segurar-lhe as mãos, para o impedir de se matar, o lamento das cativas e o do coro das Nereidas, que vêm das profundezas marinhas acompanhar Tétis, são, não obstante as severas críticas que, séculos mais tarde, Platão havia de tecer-lhe na República, em nome de um auto-domínio que o logos socrático o levara a prezar como marca de superioridade, um dos passos mais impressionantes do poema. No canto seguinte, o herói afirmará que nem a morte de Peleu, seu pai, nem a do filho lhe custariam mais. Era precisamente com Pátroclo que ele contava para levar o jovem Neoptólemo como herdeiro para os domínios da Ftia, quando ele mesmo, Aquiles, perecesse em terra alheia, a lutar contra os Troianos, por causa da horrível Helena. E, contudo, Aquiles amava o seu pai». In Maria Helena Rocha Pereira, Amizade, Amor e Eros na Ilíada, Revista Humanitas, volume XLV, 1993, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

O Segundo Livro de Visões de Cataldo Sículo. Helena C. Toipa. «… mas o excelso rei, senhor e pai das coisas, proibiu o meu regresso aos teus tectos, até que, vencido pelas tuas lágrimas, pela tua virtude e pela tua fé, me ordenou que viesse, abandonando o celestial assento…»

Cortesia de wikipedia

Uma introdução à sua leitura
«(…) E o sinal positivo da morte, refúgio e descanso perante uma vida inclemente e dura, manifesta-se, por exemplo, na utilização de certas palavras em sentido oposto ao habitual; assim, a morte é a vida, morrer é receber a luz: A queda do cavalo não foi para mim a morte, mas a vida. Assim o determinou o eterno Deus: a luz, não ma tirou, deu-ma (pertence ao ideário cristão, mas também ao de certas filosofias clássicas, como o platonismo e o pitagorismo, esta crença na verdadeira vida que se vive após a morte). Sendo a morte o início da verdadeira vida, não é coerente ou apropriado, pois, chorar continuamente o morto: porque derramas tu, minha querida mãe, lágrimas vãs? Porque sofres, se não existe causa para tanta dor? A crença na vida eterna em Deus, na verdadeira vida após a morte, na ressurreição: que coisa melhor, mais suave e mais santa pode, pois, ser desejada por um mortal, em piedosos votos, do que viver uma vida superior, para sempre infinita, e participar no bem eterno? Aqui afligem-nos constantemente tristezas prementes, trabalho permanente e dor contínua. É uma das características que marcam, neste texto, a forte presença dos ideais cristãos. Esta presença está, desde logo, expressa na configuração do texto, escrito sob a forma de Visão: a um ser vivo é mostrada, por alguém que já morreu fisicamente, um mártir, um santo, um homem bom, a felicidade em Deus (Deus que, pelos epítetos e antonomásias por que é nomeado, revela as características do Deus da Bíblia; ele é Deus passim, Deus aeternus, Deus ardens, regnator, rex excelsus rerum dominusque paterque, rex uerus regnator excelsi Olympi, summus genitor, immensum perpetuumque Deum, auetorem Deum, omnipotens, e Dominus. A Visão é um género literário medieval, de que existem alguns exemplos nos nossos relatos hagiológicos. Diz Clara Lucas: É de sempre o desejo humano de construir neste mundo de lágrimas um espaço de felicidade para o qual se encaminhe o homem justo, espécie de recompensa para todo aquele que souber encarar esta vida como antecâmara de uma outra vida melhor.
Afonso, que vivia nos céus, entre as estrelas (passim) e uma multidão de anjos e santos, desce à terra, por especial condescendência de Deus: mas o excelso rei, senhor e pai das coisas, proibiu o meu regresso aos teus tectos, até que, vencido pelas tuas lágrimas, pela tua virtude e pela tua fé, me ordenou que viesse, abandonando o celestial assento. Que se comovera com o sofrimento e com a virtude da rainha (uma referencia à sua piedade e religiosidade, que a tornaram digna de ser contemplada com a visão do filho), e revela-lhe o motivo de ser a vida humana tão cheia de sofrimento e incerteza: é que, para se alcançar a felicidade em Deus, isto é, o bem perpétuo e eterno, é preciso saber merecê-lo: e, como o Criador havia de dar a este filho um bem celestial, perfeito e perpétuo, assediu-o com mil sofrimentos e outros tantos perigos, vencidos os quais lhe daria as recompensas devidas. E lembra-lhe, então, a quantidade de perigos, sofrimentos e temores que afligem o homem: a presença obsidiante da morte, rodeando-o com as suas negras asas, que o atormenta mais que a morte em si, as doenças, os perigos súbitos, a pobreza ou o inesperado empobrecimento, a avareza, a adversidade e a infelicidade, a fragilidade da existência, que o mais insignificante verme pode aniquilar. E como é frágil a existência! Morre-se, infelizmente, muito facilmente afogado durante um naufrágio, enforcado ou trespassado por um gládio suicida, quando a adversidade é incomportável, fulminado por um raio, e ainda por acção de água gelada bebida em hora imprópria, de uma telhazita que ocasionalmente atingiu o alvo ou de uma grainha de uva que impertinentemente provocou a asfixia daquele que a saboreava (diz a tradição, veiculada por autores como Plínio, o Velho, ou Valério Máximo, que o poeta Anacreonte morreu desta forma: digo o mesmo de Anacronte que, ainda assim, tinha já ultrapassado o termo estabelecido para a vida humana. Como sugasse o sumo de uma uva passa, para alimentar as fracas forças que lhe restavam, uma grainha verde, que se alojou pertinazmente na sua garganta seca, levou-lhe a vida.
Plínio, o Velho, constatara também, na sua Historia Natural, a fragilidade da vida humana, dizendo: e mesmo hoje é ainda necessário menos (para aniquilar o homem); a mordedura de um minúsculo dente de serpente ou, como para o poeta Anacreonte, uma grainha de uva passa, ou ainda, como para Fábio, que foi senador e pretor, um simples pelo numa golada de leite, que lhe provocou a asfixia. Mas muitas outras causas há de morte: os animais, dos domésticos aos vermes mais insignificantes, provocam-na e o mesmo acontece com alguns vegetais. A fome, a peste, a guerra, as catástrofes naturais, tudo, enfim, reclama o seu quinhão. Até sentado se pode morrer, como aconteceu com Álvaro Portugal, apresentado como exemplo. Mas o homem merece sofrer tantas adversidades, pelos pecados que comete; resgatá-los-á não só após a morte, mas também, e principalmente, em vida, no decurso da qual é constantemente assediado por aquela: mas merecemos sofrer tão grandes adversidades por causa dos nossos pecados; todos nós somos, assim, castigados com merecido açoite; os homens não resgatam os seus delitos apenas depois da morte; uma inesperada punição atormenta os pecadores antes de morrer; (...);creio que o verdadeiro perigo não é a morte em si, mas a ameaça de morte, que se nos declara a qualquer hora». In Helena Costa Toipa, O Segundo Livro de Visões de Cataldo Sículo, Uma introdução à sua leitura, Universidade Católica, Centro de Viseu, Revista Humanitas, volume XLV, 1993, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

De Volta a Istambul / A Bastarda de Istambul Elif Shafak. «Esse era um aspecto da chuva que se assemelhava à tristeza: a pessoa fazia tudo para permanecer intacta, segura e seca, mas se e quando isso falhava, chegava um ponto em que se começava a ver o problema não em termos de gotas…»

Cortesia de wikipedia

«Outrora havia; outrora não havia. As criaturas de Deus eram abundantes como grãos. E falar demais era um pecado...»

Canela
«Seja lá o que cair do céu, não o amaldiçoarás. Isso inclui a chuva. Por mais que desabe o aguaceiro, por mais força com que as nuvens se rompam ou o gelo do granizo caiem em bátegas sobre a terra, nunca se deve emitir blasfémias contra qualquer coisa que o céu tenha reservado para nós. Todos sabem disso. Inclusive Zeliha. Mesmo assim, lá estava ela na primeira sexta-feira daquele mês de Julho, caminhando por uma calçada que fluía próxima ao tráfego inevitavelmente congestionado, atrasada para um encontro, praguejando como um soldado, sibilando um palavrão atrás do outro para as pedras quebradas da calçada, para seus saltos altos, para o homem que a espreitava, para os motoristas que buzinavam freneticamente quando é sabido que buzinar não desatravanca tráfego algum, para toda a dinastia otomana por ter conquistado no passado a cidade de Constantinopla e se aferrado ao seu equívoco, e, sim, para a chuva..., aquela porcaria de chuva. A chuva era uma agonia ali. Em outras partes do mundo, um aguaceiro provavelmente chega como uma dádiva para quase tudo e todos, bom para as lavouras, para a fauna, para a flora, e com um toque extra de romantismo,para os amantes também. Mas não em Istambul. Para nós, a chuva não significa necessariamente ficar molhado. Nem mesmo ficar sujo. Se significa alguma coisa, é nos deixar com raiva. É lama e caos e fúria, como se já não tivéssemos o suficiente. É luta. Sempre significa uma luta. Como gatinhos jogados num balde d’água, os dez milhões de nós travam uma luta fútil contra os pingos. Não se pode dizer que estamos completamente sozinhos nessa refrega, pois as ruas também participam, com seus nomes antediluvianos escritos a estêncil em placas de metal, as lápides de tantos santos espalhadas em todas as direcções, as pilhas de lixo que esperam em quase todas as esquinas, os buracos gigantescos dos canteiros de obras que logo serão transformados em edifícios modernos e extravagantes, e as gaivotas... Todos nos enraivecemos quando o céu se abre e a chuva desaba sobre nós.
Então, quando os pingos finais batem no chão e muitos outros descansam nas folhas agora sem poeira das árvores, naquele momento desprotegido em que não se tem certeza de que parou de chover, da mesma forma que a própria chuva não tem, exactamente naquele interstício tudo se torna sereno. Por um longo minuto, o céu parece desculpar-se pela bagunça que causou. E nós, com gotículas ainda nos cabelos, lama nas calças e cansaço no olhar, fixamos de novo o céu, agora com um tom mais leve de azul e mais claro do que nunca. Olhamos para cima e não podemos deixar de sorrir em resposta. Nós a perdoamos; sempre o fazemos. Porém, naquele instante, a chuva ainda caía e Zeliha tinha pouco perdão no coração, se é que tinha algum. Estava sem guarda-chuva, pois prometera a si mesma que, se fosse idiota de desperdiçar dinheiro comprando outro guarda-chuva num ambulante para esquecê-lo logo que o sol voltasse, merecia ficar ensopada até os ossos. Além disso, fosse como fosse, era tarde demais. Já estava encharcada. Esse era um aspecto da chuva que se assemelhava à tristeza: a pessoa fazia tudo para permanecer intacta, segura e seca, mas se e quando isso falhava, chegava um ponto em que se começava a ver o problema não em termos de gotas, mas de uma torrente incessante, e decidia-se então que pouco importava se encharcar. A chuva pingava dos seus cachos escuros para os seus ombros largos. Como todas as mulheres da família Kazanci, o cabelo de Zeliha era formado por anéis crespos, negros como um corvo, mas, ao contrário das outras, gostava de mantê-lo assim.
De tempos em tempos, os seus olhos verde-jade, normalmente muito abertos e de uma inteligência feroz, apertavam-se em duas linhas de imaculada indiferença inerente apenas a três grupos de pessoas: os irremediavelmente ingénuos, os irremediavelmente retraídos e os irremediavelmente esperançosos. Não pertencendo a nenhum deles, era difícil entender a sua indiferença, mesmo que fosse tão fugidia. Num minuto estava ali, cobrindo a sua alma de uma entorpecida insensibilidade, mas no minuto seguinte desaparecia, deixando-a sozinha no seu corpo. Assim Zeliha sentia-se naquela primeira sexta-feira de Julho, insensível como se estivesse anestesiada, um estado de espírito poderosamente corrosivo para alguém tão cheia de entusiasmo.
Seria por isso que não tinha absolutamente qualquer interesse em lutar contra a cidade hoje, ou mesmo contra a chuva? Enquanto a indiferença subia e descia como um ioiô de ritmo todo próprio, o pêndulo de seu ânimo oscilava entre dois pólos opostos: congelando e fervendo de raiva. Enquanto Zeliha passava rapidamente por ali, os ambulantes vendendo guarda-chuvas, capas e lenços de cabeça de plástico em cores vibrantes a olhavam atentamente, divertindo-se. Ela conseguia ignorar os seus olhares do mesmo modo que ignorava o olhar de todos os homens que lhe fixavam o corpo com avidez. Os ambulantes olhavam também, com reprovação, para seu brilhante anel no nariz, como se ali estivesse a pista para seu desvio de decência e, consequentemente, o sinal de sua luxúria. Zeliha tinha um orgulho especial de seu piercing porque ela mesma o colocara. Doera, mas o piercing estava ali para ficar, assim como o seu estilo. Apesar do assédio dos homens ou da censuradas mulheres, da impossibilidade de andar sobre as pedras redondas quebradas ou de pular para dentro das barcas, e até do ralhar constante da sua mãe..., não havia poder na terra que impedisse Zeliha, mais alta que a maioria das mulheres na cidade, de usar mini-saias de cores vivas, blusas justas que exibiam os seus seios fartos, meias acetinadas de nylon, e sim, aqueles saltos tremendamente altos». In Elif Shafak, De Volta a Istambul, A Bastarda de Istambul, 2007, Editora Nova Fronteira, tradução de Myriam Campelo, ISBN 978-85-209-1996-5, Jacarandá Editora, 2015, ISBN 978-989-875-237-6.

Cortesia de EBF/JEditora/JDACT

La Ordem del Temple. Breve Historia. José Luis Corral. «En la Península Ibérica apenas se producían pequeñas escaramuzas fronterizas y, a pesar de que en 1031 había desaparecido el otrora poderosísimo califato de Córdoba, los reinos cristianos no tenían aún la fuerza necesaria como para intentar siquiera derrotar a los débiles reinos de taifas»

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En el origen de las Cruzadas (1095-1119). La idea de Cruzada
«(…) La mayoría de las religiones aspira a ser católica, es decir, universal, verdadera y santa, y por tanto única y excluyente. Durante los primeros siglos de nuestra era, el cristianismo monopolizó la interpretación de la Revelación divina en los países ribereños de la cuenca mediterránea, con la excepción de algunos núcleos de irreductibles judíos dispersos por ella. Pero en los primeros decenios del siglo VII, un individuo llamado Muhammad (Mahoma) convulsionó desde el corazón de Arabia la creencia en Dios y provocó una profunda ruptura religiosa que todavía permanece. El islam, la nueva religión, o mejor, la nueva forma de religión predicada por Mahoma entre los años 610 y 632 se extendió a una velocidad increíble desde Arabia por Asia occidental y central y por todo el norte de África; y en el año 711 cruzó el estrecho de Gibraltar para imponerse en la Península Ibérica y en el sur de Francia. En la Península Ibérica, tras varios siglos recluidos en las montañas del norte, los reinos y Estados cristianos se lanzaron a la conquista del territorio musulmán del sur; la idea de recuperar todos los territorios perdidos a manos del islam se convirtió para la cristiandad en una obsesión. Ya en el siglo IX el papa Juan VIII había indicado que aquel cristiano que muriera en defensa de la fe iría directamente al cielo. La idea no era nueva; durante los tres primeros siglos quienes morían por su fe cristiana eran considerados mártires por la Iglesia, y en consecuencia elevados a la santidad. Pero los mártires eran defensores pasivos de la fe cristiana; morían por su ideal, por no renegar de sus principios.
Con el triunfo del cristianismo, establecido en el año 380 como la religión oficial del Imperio romano, la perspectiva cambió sustancialmente. Desde luego, los mártires siguieron siendo considerados como la principal fuerza de la Iglesia, y su sangre como el abono más fecundo para su propagación, pero los mártires lo eran en zonas ahora ajenas al Imperio, en reinos y Estados a los c[ue había que llevar el cristianismo, tierras de paganos como los bárbaros germanos de las fronteras del norte, o de adoradores del fuego, como los persas. Ahora bien, la irrupción del islam lo cambió todo. Hacia el año 750 la mitad del mundo conocido se había convertido a una religión nueva, el islam. El hasta entonces cristianismo triunfante y en crecimiento sólo había tenido que hacer frente a los movimentos heréticos surgidos en su seno y a la conversión de los territorios paganos que habían quedado al margen del Imperio romano. Pero con el islam la situación era bien distinta. La pugna dialéctica y teocrática ya no era contra las atávicas creencias de los adoradores de la naturaleza, ni contra las supersticiones de los paganos incivilizados y bárbaros. Los musulmanes traían un concepto mucho más elevado de Dios y a la vez más sencillo de comprender que el del cristianismo. Además, se decían herederos de una larga tradición de profetas y depositarios de la última revelación divina al hombre, y proclamaban la universalidad de sus creencias y la permisividad de culto para los que llamaban dimmi, las gentes del Libro, es decir, cristianos y judíos.
No era precisamente así como la Iglesia contemplaba al islam, sino como una religión falsa y perversa que no era sólo una desviación más de la ortodoxia, una herejía como tantas otras, sino una creación maligna que amenazaba con destruir la verdadeira fe. Así, los cristianos ya tenían un objetivo por el que morir, y no era otro que la defensa de su fe frente al islam. Ante el avance musulmán y frente a la propuesta de la yihad, la incorrectamente denominada guerra santa musulmana, la Iglesia promovió la cruzada, la guerra justa y santa para imponer la ortodoxia cristiana. San Agustín, el gran teórico del cristianismo de principios del siglo V, y sin duda el más influyente intelectual en el pensamiento cristiano hasta el siglo XII, ya había apuntado el concepto de guerra santa, que alcanzó cierto predicamento en la época carolíngia, hacia el año 800 Carlomagno realizó vanas expediciones militares contra los paganos sajones, a los que sometió y obligó a bautizar, y que culminó en el siglo XI con numerosos llamamientos a utilizar la fuerza militar contra los enemigos de la Iglesia, a los que se demonizaba. El islam había ido un paso más allá al proclamar la yihad, la defensa de la fe islámica, incluso por las armas si fuera preciso. No en vano, en algunos poemas y cantares de gesta de la época Cristo aparece como un jefe militar dirigiendo a sus soldados, que son precisamente los apóstoles. Así, la Iglesia del siglo XI acabó por decretar que la guerra por causa de la fe no sólo era justa y santa, sino necesaria para imponer el triunfo del cristianismo y erradicar tanto al islam como a los herejes que se desviaban de la doctrina y del dogma fijados en los concilios. Y así pasó de rechazar el uso de las armas y condenar la violencia a potenciar ambas acciones. Una de las razones del éxito de la expansión del islam había sido precisamente la yihad, es decir, la llamada a defender esta religión por todos los medios. Los musulmanes conquistaron Tierra Santa entre los años 636 y 640, y tomaron posesión de Jerusalén, la ciudad sagrada para las tres grandes religiones monoteístas (cristianos, musulmanes y judíos). La cristiandad consideró esa pérdida como una terrible desgracia. Durante varios siglos, la Iglesia bastante tuvo con mantenerse a la defensiva, pero a fines del siglo XI se sintió con la fuerza necesaria como para convocar a la conquista de Jerusalén. Ese nuevo espíritu dio origen a las Cruzadas, con el objetivo de recuperar los Santos Lugares y mantenerlos bajo dominio cristiano. El movimiento cruzado duró dos siglos, el XII y el XIII, justo los de mayor desarrollo y apogeo de la sociedad medieval.

En el origen de las Cruzadas (1095-1119). Los antecedentes
A mediados del siglo XI islam y cristiandad mantenían sus posiciones más o menos estables. En la Península Ibérica apenas se producían pequeñas escaramuzas fronterizas y, a pesar de que en 1031 había desaparecido el otrora poderosísimo califato de Córdoba, los reinos cristianos no tenían aún la fuerza necesaria como para intentar siquiera derrotar a los débiles reinos de taifas que se repartieron el antiguo territorio califal. En el Mediterráneo y en Oriente las cosas tampoco habían variado casi nada desde hacía siglos. Los musulmanes habían logrado conquistar en los primeros años de la ex pansión la mitad suroriental del Imperio bizantino, es decir, Siria, Palestina, Egipto, Libia y el Magreb, pero, fracasados sus varios intentos para ocupar la capital, Constantinopla, las fronteras habían permanecido muy firmes desde mediados del siglo VII». In José Luis Corral, Breve Historia de la Ordem del Temple, Edhasa, Ensayo Editora, 2006, ISBN 978-84-350-2684-0.

Cortesia de Ensayo/JDACT

Memórias de Agripina. Pierre Grimal. «O quarto estava agora em completa escuridão. A minha mãe estava em silêncio, mas os seus lábios moviam-se. Sonhava com o quê? Com o passado que vivera? Com o futuro que a esperava e que eu percebera que ela temia?»

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O Tempo de Meu Pai
«(…) Não era absolutamente seguro que tudo não passasse de uma comédia, e decerto imaginas que eu protestei contra tudo aquilo. Conheces-me o suficiente para saber até que ponto detesto a cobardia ou mesmo a sua aparência. Eu era sincera, e isso permitiu dar o espectáculo de uma cena de suplicações, eu recusando-me a deixar Germânico e ele pressionando-me com argumentos afectuosos. Naturalmente, tal cena atraiu, pouco a pouco, espectadores. Assim que eu cedi e que a fila de carros partiu do centro do acampamento, para se dirigir para a porta principal, uma multidão de soldados acompanhou-o. Tudo aquilo era suficientemente patético. Espalhou-se o boato de que íamos pedir abrigo aos Tréveros, tu sabes quem são, o povo gaulês que nos é tão fiel. Perante a ideia de que estaríamos mais seguros entre Gauleses do que no acampamento das legiões, os soldados indignaram-se, ficaram desolados e enfureceram-se. Queriam reter os carros. O teu pai aproveitou para lhes dirigir um discurso bastante hábil; nele reconheci, em diversos momentos, a memória dos grandes oradores do passado. A conclusão foi que eu não ficaria no acampamento. A estação estava já muito avançada e tu não tardarias em nascer. Aqueles que procuravam reter-me, mas por que não provavam eles, de uma forma evidente, que tinham voltado ao cumprimento do dever? Eles podiam fazê-lo, condenando à morte, de surpresa, os culpados da rebelião! Eis, concluiu a minha mãe, as circunstâncias em que tu, minha filha, nasceste. Entre perigos e semelhante a uma personagem trágica.
Eu ouvia tudo aquilo um pouco enfastiada, como a narração de coisas distantes com as quais se deleitam, inexplicavelmente, os mais velhos, que lhes associam um interesse, que, de uma forma vã, tentam partilhar com jovens auditores. Não obstante, guardava para mim a ideia de que o destino fizera de mim, antes mesmo de eu nascer, uma heroína de tragédia. Uma rainha, evidentemente. Com excepção das rainhas, não há, nas tragédias, senão amas e confidentes. Eu não poderia ser nem uma nem outra. Portanto, era chamada a ser rainha! Quando a tardinha sobreveio, uma luz mais clara apareceu sobre o Janículo, acompanhando o pôr-do-sol. A minha mãe adormecera, e eu fiquei sozinha, a pensar, tentando recordar-me do que ela dissera. Não tinha a certeza de ter compreendido tudo. As palavras, por certo, seria capaz de as repetir, estavam gravadas na minha memória e ainda hoje, depois de trinta anos, as posso recordar! Mas o seu sentido não me parecia muito claro. Deixaram-me duas ou três impressões. Em primeiro lugar, a importância dos soldados na vida do Estado, o poder que tinham para pôr ou depor imperadores, consoante aqueles a quem se ligavam. Compreendi também que esse poder assentava no direito, que lhes era reconhecido, de matar.
E então, a minha digressão voou até à pessoa de meu pai, de quem apenas tinha imagens confusas, mas bastante exaltantes! A do triunfador, sobre o carro que o conduzia ao Capitólio, para homenagear Júpiter Óptimo Máximo com a sua vitória. Também eu estava no carro, com os meus três irmãos mais velhos e a minha irmã Drusila, a mais nova. Ela não tinha ainda seis meses. Eu tinha muito orgulho por ser maior do que ela. Eu tinha dois anos e meio! O triunfo do meu pai. Ainda uma das minhas maiores recordações, aquela que eu gostava de lembrar, com todos os pormenores que conseguia encontrar, à noite, quando adormecia: os gritos da multidão, o passo dos soldados sobre as lajes da Via Sacra, os prisioneiros germanos que precediam o cortejo dos vencedores e as imagens, pintadas em grandes painéis, dos países que as nossas legiões tinham conquistado, das montanhas, dos rios, do sítio onde eu nascera e que, para mim, assumia a forma de uma lenda. E depois, vinha o próprio Germânico, grande, magnífico, dominando toda a cena. Conheci-o tão pouco, por tão pouco tempo!
O quarto estava agora em completa escuridão. A minha mãe estava em silêncio, mas os seus lábios moviam-se. Sonhava com o quê? Com o passado que vivera? Com o futuro que a esperava e que eu percebera que ela temia? As últimas luzes do dia deixavam-me ainda distinguir, sobre as paredes do quarto, imagens que, como eu sabia, o meu pai mandara pintar, muito antes de conhecer o Egipto, aonde ele não conseguiu evitar ir, no último ano da sua vida. Aí havia figuras estranhas, que me causavam um pouco de medo. Um servo, chamado Psamútis, que viera de 1á com a minha mãe, ensinara-me o nome dessas figuras e coisas estranhas a seu respeito. Vês, dizia-me ele, esta deusa de pé, que tem um crescente de lua sobre a cabeça, vês o seu longo vestido branco e o seu manto azul? É Ísis, a rainha. Acaba de dar a vida a Osíris, seu marido, que estava morto... Eu pensava naquela que tinha o poder de reanimar os mortos, e perguntava a mim mesma se a minha mãe alguma vez se tentara convencer de que a graçade Ísis lhe devolveria, um dia, aquele que ela perdera?» In Pierre Grimal, Memórias de Agripina, Lyon Edições, Romances Históricos, 2000, ISBN 972-8461-51-8.

Cortesia Lyon E./JDACT