terça-feira, 23 de junho de 2015

Os Lagóias e os Estrangeiros. Garcia Castro e Raul Ladeira. «… lagóia virá de langóia, por sua vez proveniente de langor. Portalegre é cidade de há muito industrial, com fábricas que ocupam muita gente; por falta de matérias-primas, ou outras circunstâncias, as fábricas tinham que fechar por algum tempo, os sem-trabalho, os inactivos...»

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«Vista à distância, mas ao alcance directo dos olhos, a cidade dos lagóias mantém hoje uma unidade que pode fazer pensar os estrangeiros. O recorte de Portalegre nas suas zonas altas tem uma marca tão inconfundível como a dentadura de uma chave. Numa curta faixa, sem pedir qualquer movimento de cabeça, sem exigir o menor truque fotográfico, mostram-se os restos do castelo a grande chaminé da fábrica da rolha, o vulto amarelo do palácio, as torres da Sé sobre o Paço do Bispo, o antigo sanatório. Mais à direita, subindo na fronteira com a planície, o cone escuro da Serra do Penha e a sua cruz branca espetada nos rochedos. Aí ninguém vai que não tenha Portalegre em vistoria, mas é necessário descer sem pressas à cidade-dupla, a de cima da freguesia da Sé e a de baixo, de São Lourenço, em que conversam, comem, amam e trabalham (também sempre a subir e a descer) os lagóias. Serão raros os portalegrenses que não sabem que um portalegrense é um lagóia. Quase tão raros como os que sabem o que lagóia quer reamente dizer. O apodo, ou alcunha meio afrontosa, tem provavelmente o percurso das palavras que perdem, ou ganham, alguma coisa com o tempo. No caso parece que se perdeu um n. Alexandre Carvalho Costa, nos seus Gentílicos e Apodos de Portugal Continental, recordou uma conversa com o ex-juiz de direito na cidade, Joaquim Dias Loução.
Poucos portalegrenses, ainda hoje, poderão desmentir esta hipótese publicada em edição de 1973 pela Junta Distrital de Portalegre: lagóia virá de langóia, por sua vez proveniente de langor que mais não é que moleza, prostração, preguiça. O contexto: Portalegre é cidade de há muito industrial, com fábricas que ocupam muita gente; quando por falta de matérias-primas, ou outras circunstâncias, as fábricas tinham que fechar por algum tempo os sem-trabalho, os inactivos demoravam-se às esquinas, nas ruas, nos largos. À espero de melhores dias, continua, dada a sua falta de hábito para os serviços do campo. O juiz Loução rematava nunca ter percebido a desnalização do na de langóia. Mas um lagóia, por intuição pode chegar lá. Na sua vocação escarninha, no gosto pelo ridículo auto-aplicado, largou-se em menor esforço o tal n. Um processo irmão ao das alcunhas com que metodicamente se carimbam os lagóias uns aos outros (eu tenho, em Portalegre) património da cidade. Ou do calão ofensivo com que se cumprimentam e divertem no dia-a-dia os melhores dos melhores amigos, em Portalegre, sem se ofenderem.
Cidade branca onde o negócio da tasca não perde energias, de mulheres escondidas nas janelas, donas de casa de saber quem passa (escreve Carlos Garcia Castro, lagóia), cidade do café-snack-restaurante Tarro, na zono novo, onde há sempre um caso para contar. A cidade onde muitos portalegrenses novos ainda repetem a ladainha aqui nunca se possa nada, mesmo quando se passa, o capital de um distrito que, e isto continua, parece disputar com o Alentejo do sul, ano a ano e taco-a-taco, o estranho campeonato do maior número de suicidas.
E no espaço em que quase todos se conhecem uns aos outros, a bem e a mal o poeta de olhos abertos e o fotógrafo de objectiva paralela (texto fotográfico de Raul Ladeira, outro lagóia) fazem alguns retratos completos. Dos estrangeiros que lá vivem também, sem ser necessário colocá-los como um contrário, um lagóia é só um modelo da sua própria cidade, não deve, nem ele pretende, servir de exemplo para mais lugar nenhum. O estrangeiro de Portalegre é, no seu ângulo pior o que vive subordinado às exigências rascas de Lisboa, a capital terra ardente, não se conhece ninguém, canseira da igualdade. É a amiba descarada que se atreve a comer açorda sem coentros, mas que parece poder puxar um lagóia para a armadilha: Inaugurarmos nossos velhos espaços onde só haja, como nós, medíocres. Quem diz isto assim, afinal de contas, só pode gostar muito da sua cidade, vista por fora e vista de dentro.
Estas palavras duplas, de lagóia e estrangeiro foram escritas em Lisboa em Outubro de 1992». In Rui Cardoso Martins

In Carlos Garcia Castro e Raul Ladeira, Os Lagóias e os Estrangeiros, edição da CM de Portalegre, 1992, Depósito legal nº 53094.

Cortesia de CMP/JDACT

Teatro. Jaime Sampaio. «… parece-me que o mais interessante de Peixinho Grelhado, é que o alvo da ironia não seja aqui apenas o mundo que o rodeia mas a sua própria obra e as convenções que criou ao longo de décadas de escrita…»

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O Pato Bravo, os Peixinhos e os Lobos com pele de Cordeiro
«São vagabundos seres despojados de bens materiais e voltados para o lado espiritual da existência humana; seres que, graças à distância que (voluntária ou involuntariamente) os separa do resto dos homens, conseguem detectar-lhes os defeitos e pôr o dedo nas feridas da Humanidade. E é precisamente com dois desses vagabundos que se inicia Peixinho Grelhado. Frente a uma fogueira, preparam um peixe para comer, munidos do respectivo manual: um livro especializado que caracteriza cientificamente as várias qualidades existentes de peixe e a forma mais adequada de os fritar, grelhar, assar ou cozer. Seguimos atrás deles. E é aqui que o autor nos apanha na ratoeira. Afinal, o peixinho somos nós: os pequenos deste mundo que os grandes se entretêm a grelhar. Ou a fritar, ou a assar, ou a cozer. E os vagabundos, para usar a língua do autor, que neste texto associa recorrentemente pessoas e animais, revelam-se autênticos lobos em pele de cordeiro. Para além do profundíssimo desencanto contido nesta peça, parece-me que o mais interessante de Peixinho Grelhado, é que o alvo da ironia não seja aqui apenas o mundo que o rodeia mas a sua própria obra e as convenções que criou ao longo de décadas de escrita para o palco. Convenções com que agora decidiu, também ele, brincar, para nos confundir» In Ana Maria Ribeiro, Lisboa, 2001.

Peixinho grelhado
«Estamos em pleno campo, onde podem ser vistas algumas flores, sobretudo malmequeres. Aqui e além, espalhados pelo chão, há restos de árvores abatidas. Ao fundo, corre um riacho que o público não vê, embora possa ouvir o ruído da água, normalmente suave. Em cena, dois homens, Joe e Mac, casa dos quarenta. Com naturalidade e algum desmazelo, vestem calças remendadas e, por cima de camisas de mangas arregaçadas, envergam coletes, de uma cor incerta, comida pelo tempo. Quando a acção começa, o riacho quase não se ouve. Joe e Mac, sentados em toros de grandes dimensões, olham em silêncio para uma fogueira improvisada, onde estão a grelhar peixe. Um tempo.

Joe (num grito, olhando pela primeira vez o companheiro), Mac!
(Mac não reage, continuando a olhar a fogueira. Um tempo)
Joe (procurando suavizar a voz) E se fosses buscar um braçado de lenha?
(Mac continua sem reagir.)
Joe (começando a impacientar-se) É uma coisa que não falta por estas paragens! (Pausa) Desde que eles começaram... (Hesita na palavra)..., as escavações..., há árvores mortas por toda a parte! (Longa pausa. Recuperando, aparentemente, a calma) Ao menos, que diabo, podias arranjar meia dúzia de gravetos. (Pausa. Insinuante) Sempre ajudava a avivar o lume... E o nosso peixinho grelhava... (Com exagerado entusiasmo)..., muito mais depressa...
Mac (continuando s olhar a fogueira; a meia voz) Hum…
Joe (insistindo, sorridente) Nem tinhas de ir longe... Davas meia dúzia de passos e...
Mac (sem mudar de atitude) - Hum...
Joe (com um largo sorriso) Então já vês! (Pausa. De nono impaciente, notando que Mac continua apático) Por que é que não vais? (Levanta-se, indicando a Mac, com severidade, o caminho que ele deve seguir, para encontrar a lenha ou os gravetos)
Mac (leantando-se também e encarando Joe, pela primeira vez; calmo mas categórico) Por duas razões, Joe. (longa pausa.) Bom senso... E um saudável sentido das responsabilidades. (Pausa. Em tom amigável) Pois então tu querias que o nosso peixinho ficasse estorricado? (Trepa para o toro onde já estivera sentado, impondo silêncio a Joe; em tom doutoral) O achigã, Joe, deve ser grelhado em lume brando. (Pausa. Apontando para o peixe que está ao lume) Tempo mínimo, para um exemplar daquela corpulência: vinte minutos.
Joe (desconfiado) Achigã?... (Apontando para a fogueira) Como é que tu sabes? (Pausa) Quem é que te disse o nome..., do nosso peixinho?
Mac (com naturalidade, tirando um livrinho do bolso e abrindo-o em determinada página) Basta olhar a gravura da página vinte e três... (Descendo do toro onde tem estado empoleirado, entrega o livro a Joe.) Achigã... Micropterus salmoides.
Joe (sarcástico, quase sem olhar a gravura) Tá bem, pronto... (Fecha o livrinho com toda a força)... Chamemos-lhe assim... (Atira o livrinho para longe.)
Mac (formalizado) Mas o que é que tu julgas?!... É uma obra séria, Joe!... Universitária! (Começa à procura do livrinho pelo chão) O Autor até fez um..., um doutoramento sobre a matéria... (Continuando à procura do livrinho.) Pisci... (Encontra finalmente o livro e exibe-o, triunfante.) Piscicultura... É esse o termo!...Vem na contracapa... (Lendo) Doutoramento em mil novecentos e setenta e...
Joe (interrompendo-o; preocupado) Pois sim, mas com este lume...
(Mac, durante esta fala de Joe, limpa o livrinho da poeira e guarda-o no bolso, com ar superior)» In Jaime S. Sampaio, Teatro Completo, III, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Biblioteca de Autores Portugueses, Lisboa, 2002, ISBN 972-271-127-X.

Cortesia de INCM/JDACT

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Poesia. Erotismo. Maria Tereza Horta. «Oferece-me nos lábios os teus olhos. A planta é o sentir do teu corpo de asceta. Recordarei amanhã e depois recordarei como se fosses. Como se fosses, és, a intimidade antiga…»

Chichorro 
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Delírio
«O desejo revolvido.
A chama arrebatada.
O prazer entreaberto.
O delírio da palavra.
Dou voz liberta aos sentidos.
Tiro vendas, ponho o grito.
Escrevo o corpo, mostro o gosto.
Dou a ver o infinito».


Dádiva
«Oferece-me nos lábios
os teus olhos.
A planta
é o sentir do teu corpo
de asceta.
Recordarei amanhã
e depois recordarei
como se fosses.
Como se fosses
és
a intimidade antiga,
que predisse inclinada
pelas tuas mãos,
tu
a ruiva sensação
de seres-me idêntico,
oferece-me
o Outono liquefeito
do teu corpo
e esta liberdade, noite
de te saber autêntico».


Hino
É para ti
que crio os hinos
e os oceanos,
a persistência opaca
da noite,
o vício das árvores.
Os cabelos pretos
que desprendo
são para ti que invento,
o extinto
roxo
dos teus lábios.
É para ti que crio
o orvalho branco
dos meus espasmos,
onde tu és deus
e eu apenas nua,
a dar-te o líquido instinto
das gargantas.
Como os meus seios arqueados,
Lua».

Poemas de Maria Tereza Horta, in ‘Poesia Completa’



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O Mar não Precisa de Poetas. Jaime Sampaio. «Muita mais água correu e muita água corre ainda, aqui, bestes escritos que deslizam à flor de um mar que, arquétipo preexistente ao seres humanos que não precisa de poetas. Papoilas, o riso dos trigais da cdu…»

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«Ao que vos parecer verso chamai verso, e ao resto chamai prosa». In Irene Lisboa

«Viajamos, esquecemos, imaginamos. O amor é sempre uma criança».

«Os homens inventaram as mulheres. E as mulheres inventaram o mundo».

«Entre céu e terra, desejo e morte, a linha do teu corpo anuncia o norte».

«Se enquanto houver amor, houver amor, vai tudo bem. E enquanto a vida for, também».

«A Morte?... Nós já lá estivemos, calha bem. É uma casa muito grande com muitas janelas sem vista para o mar. Andámos por lá uma eternidade. E como o bom filho à casa torna, havemos de voltar».


«Os dias pingam da torneira do tempo. Quando o nível das águas beijar os meus lábios, logicamente deixarei de cantar. Até lá: Lá-la-ri-lo-lé. Desculpem se desafinei»

«Era então isso a paisagem: umas quantas árvores, campos, sombras, casario? E a vida. Era então isso a vida: o voo de um pássaro inexistente, em viagem urgente para sítio nenhum?»

«Ontem, disse o pardal, à beirinha do telhado. Mas os pássaros têm péssima memória…, e o pardal não acabou o seu discurso».

«Passava uma criança (as crianças também passam) por uma rua da cidade. Mas esta criança levava consigo, pela mão, um velho. (Embora o velho pensasse que era ele quem levava pela mão uma criança)»

In Jaime S. Sampaio, O Mar não Precisa de Poetas, Hugin Editores, Lisboa, 1998, ISBN 972-831-058-7.

Cortesia de Hugin/JDACT

Cartas ao cardeal. Fátima. Tomaz Fonseca. «As palavras veementes que da minha boca se soltaram, essas vão para os caixeiros-viajantes do dogma cristão. O clero português anseia, como nós, tempos melhores, sem miséria, sem ódio e sem tiranos»

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«(…) É tão grande a confiança que nele ponho, que se me não dava de apostar que, embora não vote no nosso candidato, a ninguém ousará recomendar o contrário, E, se não, experimente. Procure-o no tribunal da penitência, onde não recusará ouvi-lo, e, invocando escrúpulos de consciência, formule-lhe o quesito: Vim aqui, meu padre, porque desejo não errar, votando em cidadão menos digno. Qual é, pois, o nome da pessoa em que vota? Creio que a minha fé me não ilude, e por isso apostaria novamente em como a fala dele não irá fora disto: o meu candidato é Deus, para o espiritual; mas como estou ligado ao Mundo pelo rebanho que o mesmo Deus me confiou, votarei também no outro, que, embora mortal e pecador, reunirá, decerto, virtudes morais e cívicas em grau suficiente para bem conduzir a nau do Estado. Portanto, indague como eu, e vote conforme a sua consciência. Noutra carta, apontarei as razões que tenho para afirmar que o clero português votará largamente no candidato nacional, ou seja, o da Oposição.
O Autor expõe as razões que tinha em confiar que, nas eleições para a presidência da República, o clero secular votaria largamente no candidato da oposição ao Estado Novo. Meu caro Amigo: Antes de mais nada, desejo recordar, para que me não julguem incoerente com um passado que vem já de muito longe, as seguintes palavras que pronunciei no Senado, em sessão de 29 de Março de 1917, acerca do regresso das congregações religiosas a Portugal, que lhes ficou devendo, além de séculos de miséria e de opressão, o grande atraso cultural que a história registou em páginas que não esquecem mais; não veja o Senado, nas palavras que vou pronunciar, qualquer fórmula de ataque ao sentimento religioso, ao ideal místico daqueles que sinceramente creem e confiam na intervenção de um Deus, que é, para muita gente simples, essa esperança falaz que os norteia na vida e os embala na morte… Não venho ferir crenças, mas atacar empresas… Falo daqueles que têm Deus como instrumento do seu ódio; que, aproveitando a religião como gazua, exercem o sacerdócio, não para salvar as almas, mas forçarem a espórtula, sua ambição suprema… As palavras veementes que da minha boca se soltaram, essas vão para os caixeiros-viajantes do dogma cristão, os arlequins que andam de templo em templo, vendendo a peso de ouro o corpo do seu Deus, ou traspassando a retalho a túnica que o cobriu.
Assim apresentado às gerações que de mim nunca ouviram falar, passo ao tema que me propus agora desenvolver e que em três pontos se desdobra: 1.º O clero português não está com a actual situação política; 2.º O clero sofre com o povo, e, por isso, 3.º O clero português anseia, como nós, tempos melhores, sem miséria, sem ódio e sem tiranos». In Tomaz Fonseca, Fátima, (cartas ao cardeal Cerejeira), Editora Germinal, Rio de Janeiro, 1955, Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Cortesia de EGerminal/JDACT

domingo, 21 de junho de 2015

Histórias de Amor. José Cardoso Pires. «Só assim a mulher dos três K, impura de há tantos séculos, a que traz no seio a inibição do pecado original ou a majestosa frieza da esterilidade com que os poetas a coroaram, só assim ela vai adquirindo grandeza de maravilha»

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«(…) Que se seja levado a falar da mulher ofendida por um tempo que a atrofia e degenera não será certamente pecado do escritor. Mas quando considera apartados os problemas, atribuindo-lhes explicações autónomas e particulares que, por isso, os não resolvem, então o escritor cria heroínas-mito e incorre em grave culpa. Só um conto da presente colectânea. Week End, escrito em Setembro de 49, se pode relacionar de perto com uma história de triângulo. Incluo-o aqui unicamente por ter julgado que nele ultrapassara os moldes clássicos do tema e aquilo que, quando da sua publicação na antologia Meridianos do Porto, alguns amigos classificaram como pouco mais do que uma história de magazine. Ainda hoje o não entendo assim e, embora ciente de que não tenha conseguido revesti-lo com a clareza do ambiente que lhe determina e está para além da acção, apresenta-o com muito poucas alterações da versão primitiva.
Isto, volto a insistir, porque suponho não ter alienado no dito canto quaisquer factos que lhe dessem mais realidade, sem que, evidentemente, por outro lado fizessem perigar a própria realidade literária. E a alienação, o menosprezo ou a ignorância de qualquer dos dois valores efectivos da vida são, a meu ver, o pecado comum de que enfermam na generalidade as histórias triangulares. Servindo-me das palavras dum poeta, direi que esses valores são o Leito e a Banca, realidades do homem que lhe povoam os sonhos mais luminosos, são uma só causa e um mesmo objectivo e, pois que vivem solidárias, confundem-se em toda a sua permanência. De sorte que defendê-las se tornou a grande razão da vida: Alterando-as nas leis que as regem, alterados serão os ritos, a geografia do sentimento, as convenções bíblicas que pesam sobre o Amor.
Só assim a mulher dos três K, impura de há tantos séculos, a que traz no seio a inibição do pecado original ou a majestosa frieza da esterilidade com que os poetas a coroaram, só assim ela vai adquirindo grandeza de maravilha. Forja a sua luta na luta do companheiro e surge já não estranha mas enriquecida de liberdade, amiga inseparável dos dias e das noites, apta a dar filhos de boa vontade e com uma nova alegria. Assim defenderá como suas e terá o justo lugar entre estas realidades do Leito e da Banca sem descurar de qualquer delas. Diminuir uma ou outra seria desautorizar-se e ao homem; e um homem sem autoridade é incapaz de tudo. Até de amar.
Julguei necessário anteceder as histórias de amor com estas palavras por demais extensas e, para, muitos, sem dúvida desnecessárias, de evidentes que são. Neste caso, tanto melhor. Regozijo-me por sabê-las presentes e não olvidadas, como em tão larga medida o vem provando o dia-a-dia que vivemos. De qualquer maneira, porém, resta-me o esclarecimento de que as não escrevi para justificar as cinco histórias que se seguem, dado que me parece muito mal ir o autor que necessite de explicar uma obra que só os factos narrados podem e devem definir. Limito-me, quando muito, a observar que lhes chamei de amor por estar neste ponto a matriz em que julguei ver fundidas certas manifestações específicas do homem, capazes (perdoem-me os poetas ofélicos) de o definir na época ou a época, através dele». In José Cardoso Pires, Histórias de Amor, colecção Os Livros das Três Abelhas, Editorial Gleba, Lisboa, 1952, Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Cortesia E Gleba/JDACT

Van Gogh e Sétimos Aforismos. Vicente Sanches. «A experiência directa é o subterfúgio, ou o esconderijo, daqueles que são desprovidos de imaginação. Narrar é criar, pois viver é apenas ser vivido. Os homens de acção da cdu são homens de entendimento»

Pormenor da zona histórica, hoje… 
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Sétimos Aforismos
«(…)
No seu nível mais alto, a prova da existência de Deus pela experiência mística é de facto..., por convites. É uma prova..., que para assistirmos à respectiva exibição, ou apresentação, (ou representação...), não há bilhetes; não se vendem bilhetes; não se puseram bilhetes à venda na bilheteira filosofia. (Bis-bilhoteira filosofia?) Enfim, é uma prova..., muito selecta..., muito secreta..., como que snob...: só por convites... Não-democrática... Aristocrática... (não direi!). Oh que antipática! Oh que antipática! (foto?!)

Pergunta: Mas porque é que o vosso Deus fabrica, numerosos místicos maus (ou medíocres), e raríssimos místicos bons? Resposta: Porque tem essa mania. Tanto que também fabrica, por exemplo: numerosíssimos poetas maus (ou medíocres), e raríssimos poetas bons; numerosíssimas, super-numerosíssimas (facetas de actos feios) mulheres feias, e raras, relativamente bastante raras mulheres bonitas...

Qual é a melhor prova da imortalidade da alma? A melhor?; não sei. Mas uma das melhores..., é o enterro. O enterro? Pois, o enterro. Qual enterro?! O enterro... do (lixo) conde. Do (lixo) conde? Qual (lixo) conde? De Orgaz. O enterro do conde (lixo) de Orgaz. Do Doménico Theotokópulos, El Espanol. Sim: acho que esse quadro é uma prova tão evidente da imortalidade da alma, que até se lá vê, até se lá vê a própria alma..., a ir para o Céu. Bem..., mas assim é fácil provar. Pintando...! Mas foi difícil, foi dificílimo assim pintar. Provando...! Quer dizer: você acha..., que é evidente... Escute. Eu acho, que é vidente. Um pintor vidente. Ou antes: um vidente pintor...

Se todos os cegos resolvessem fazer a seguinte afirmação: a palavra Luz não tem sentido, todos podiam deixar de ser cegos. Todos podiam ser promovidos..., a positivistas lógicos (e ecológicos).



No século XX, filósofos chamados positivistas lógicos descobriram que os crentes, os ateus e os agnósticos de todos os tempos andaram em todos os tempos redondamente enganados (com a ecologia). Só eles, positivistas lógicos, compreenderam finalmente que a palavra Deus é cem por cento absurda e desprovida de sentido, de forma que afirmar que Deus existe (como afirmam os crentes) é tão absurdo e desprovido de sentido como afirmar que Deus não existe (como afirmam os ateus), ou como afirmar que não se pode afirmar nem que Deus existe nem que não existe (como afirmam os agnósticos). Em suma, qualquer proposição que tenha, contenha a palavra Deus, os positivistas lógicos têm o senso..., de considerá-la puro não-senso. À vista dos autos, impõem-se portanto várias conclusões; entre elas a seguinte, bastante inevitável: um positivista lógico sozinho (ou mesmo um semi, um simples semi-positivista-lógico e não ecológico em zona histórica) é, revela-se (pelo menos neste capítulo, pelo menos nesta matéria de lixo) uma pessoa muito mais lúcida, muito mais fina, muito mais esperta, que todos os crentes juntos, todos os agnósticos juntos, e todos os ateus juntos, de todos os séculos juntos (neste monte de m…)». In Vicente Sanches, Van Gogh e Sétimos Aforismos, edição numerada com nº 000051, Gráfico de S. José, Castelo Branco, 1990.

Cortesia de G S.José/JDACT

O Mar não Precisa de Poetas. Jaime Sampaio. «Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito da cdu está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Todo o homem de acção é essencialmente animado pela cdu…»

Os Tios 
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«Ao que vos parecer verso chamai verso, e ao resto chamai prosa». In Irene Lisboa

«Ignorância, sim. Porque tem de ser. Mas uma ignorância sorridente».

«Nós nunca estamos verdadeiramente onde estamos. Viajamos».

«Se tiveres pressa toma um avião. Se tiveres sede bebe um copo de água. E deixa-te de coisas. Se achares bonita aquela árvore, diz-lho, que diabo. Se achares que é feia, assobia e segue o teu caminho».

«Ver, ignorar, esquecer. Voltar o passado e o futuro de pernas para o ar… E sonhar, sonhar, sonhar».


«Pois bem. Também nós tivemos um dia de amor. Lá fora chovia e os autocarros… Era um dia de Inverno. Sempre foram curtos os dias de Inverno».

«Agora que estás longe e dissemos, sem lágrimas, as últimas palavras, lembro-me de ti: como éramos felizes quando éramos infelizes nos braços um do outro!»

«Desculpa: ainda sei o teu nome. E a linha do teu corpo (desculpa, rapariga) ainda não aprendi a esquecer-me dela».

In Jaime S. Sampaio, O Mar não Precisa de Poetas, Hugin Editores, Lisboa, 1998, ISBN 972-831-058-7.

Cortesia de Hugin/JDACT

Teatro. A Promessa. Bernardo Santareno. «E que maior castigo? Ainda maior, meu pai?! (Batendo com ambas as mãos na face) Há para aí alguma mais desgraçada do que eu? Maria do Mar... Maria do Diabo, Maria do Diabo é que eu sou!»

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A Promessa
«(…)
Maria do Mar: É verdade, meu pai: Deus marcou-me! Foi logo desde a nascença... Marcadinha, meu pai, logo marcadinha! (Mutação rápida) Mas então o seu filho hoje não se levanta? (À porta do quarto: irritada) Zé!... Ah, Z´!... São mais que horas: levanta-te, homem!
Salvador: Deixa-o, mulher, deixa-o dormir: ele hoje ainda não pode ir ao mar. Talvez amanhã… Talvez o tempo mude hoje, durante o dia...
Maria do Mar: Ora, ora, meu pai! Vossemecê cuida que o Zé tem pena, por não se poder fazer ao mar? Bem se importa ele com o mar!
Salvador: Não se importa?! Com que se há-de importar um pescador, Maria do Mar? Tu sempre tens coisas...
Maria do Mar (ruim): E vossemecê gosta muito do mar, não é assim? Não haja dúvidas que tem razões para isso! Veja o que ele fez das suas pernas... O mar, o mar!...
Salvador (silêncio. Depois, triste): Tu, dantes, eras bondosa e alegre. Agora, andas sempre triste..., e já não és tão boa: que tens tu, minha filha?!
Maria do Mar: Triste, eu?! Ora vejam lá!... Então conhece alguém, na borda de água, mais alegre que a Maria do Mar? Quem há para aí capaz de se rir como eu? Quem, meu pai?! (Gargalhadas estridentes, nervosas) Imaginem, eu, triste! Que razões, sim, que motivos teria eu para andar triste, meu pai? Como e bebo, tenho saúde, durmo bem... Só se fosse mal agradecida a Deus! (Mutação: inquieta, trocista) Vossemecê esquece-se de que o seu filho é agora o sacristão cá da terra? (Olha o relógio, da parede) São seis horas..., está quase a tocar para a missa. (Chamando) Zé! Levanta-te, Zé! Olha a missa! (Para Salvador) Olhe, pai, disto é que ele gosta: da igreja, dos círios, da opa encarnada e das ladainhas..., a isto é que o seu filho quer bem. Bem quer ele saber do mar!... Ora, o mar, o mar!... (Mutação) Cá por mim, tenho-lhe raiva... Maldito mar! Por causa dele é que eu… (A voz embargada pelo choro)
Salvador: Cala-te, mulher, não te castigue Deus!
Maria do Mar (em fúria): E que maior castigo? Ainda maior, meu pai?! (Batendo com ambas as mãos na face) Há para aí alguma mais desgraçada do que eu? Maria do Mar... Maria do Diabo, Maria do Diabo é que eu sou! (Mutação) E veja se acaba de fumar, pai: daqui a pouco, ninguém pode respirar nesta casa! (Tosse. Empurrando a mesa e as cadeiras para o meio da sala) Para quê? Para que me hei-de eu esfalfar a arrumar esta casa? Vem vossemecê e espalha tabaco e cinzas por toda a parte; o Jesus, coitado, tropeça aqui, tropeça acolá..., e põe cada coisa para o seu lado; quanto ao Zé, pode bem o esterco chegar-lhe ao nariz, que ele não dá por nada!... Homens, homens, homens! Nesta casa só há, homens... (Está o varrer o chão; pára de repente; depois, expressão tracista) Homens?! Ai que ricos! (Cantarolando) Ai, la-ri-ló-lé...
Salvador: Ah, Maria do Mar! Olha que eu, muitas vezes, até penso que tu me tens ódio, rapariga!
Maria do Mar (crispada): E porquê? Por que razão havia eu de odiá-lo, senhor?!
Salvador: Que eu saiba, nunca te fiz mal...
Maria do mar (num grito): Fez!
Salvador: Eu?! (Pausa. Triste).'1 Ah, já sei..., é por causa da promessa, não é?
Maria do Mar (arrependida): Ora, doidices! Vossemecê faz-me dizer coisas sem jeito, meu pai: que culpa tem vossemecê disso, dessa promessa?... (Ouve-se, mais forte, o vento) Ai, que maldito tempo!...
Salvador (silêncio): Vai falar com o padre, Maria do Mar: promessas assim não devem fazer-se. Mas se, num momento de aflição, um pobre mortal as faz..., deve mudá-las. Vai ter com o senhor prior, Maria do Mar! Faz o que eu te digo, rapariga... Verás como, depois, tudo mudará nesta casa: vocês não são santos!...
Maria do Mar (desdém e raiva): É. Ele é. O seu filho quer ser santo!»

In Bernardo Santareno, Obras Completas, A Promessa, Editorial Caminho, Lisboa, 1984, Depósito legal nº 6563.

Cortesia de ECaminho/JDACT

sábado, 20 de junho de 2015

Um País Encantado. Luís Miguel Rocha. «Porque já tudo se sabe, não há penduricalho, é fêmea portanto, e Deus livre e guarde dona Margarida de uma sova imponente preparada com requinte, mas que importa isso se acaba de pôr os olhos na bebé mais bonita que alguma vez vira, que vale uma ou mais sovas das mais imponentes…»

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O importante não é aquilo que fazem de nós, mas que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós. In Jean.Paul Sartre

«(…) Os gemidos da parida ecoam na casa inteira, mas deles não se fez menção no corredor, quando, se bem lembrados, o conde caminhava em direcção ao salão, é que os gemidos femininos enrodilham-se com os de prazer, mesmo que carreguem dor, não se quereria com certeza enoitecer dona Margarida com cogitações depravadas como as que teve o conde e não se disse, porque conde é conde e tem licença de pensar o que quer, sua mente é elevada, não fosse ela nobre e de azul, no sangue e nunca ninguém o arguiria de ser porco, apenas de ser homem. Esta que aqui vemos é Conceição Genoveva a caminhar no corredor, uma das serviçais do solar, nas mãos carrega uma bacia de água quente denunciada pelo vapor e nos ombros umas quantas toalhas, acessórios de grande necessidade para a parida, sigamos a coitada da Conceição Genoveva, sempre dedicada às causas do trabalho, às causas da casa e nesta hora de grande causa que não se delongue em chegar ao quarto de dona Margarida que já a aguardam em grande desassossego, não fossem todos os partos uma invariabilidade de probabilidades e consequências provocadas por actos, por vezes, também eles, inconsequentes o que não é o caso, não fosse o coronel José Silveira homem de grande responsabilidade e apreço pelo que de seu é, que há nove meses aguarda a consequência do seu acto consequente de gerar um filho varão, ele que com certeza o terá gerado porque para isso labutou, mas nunca se confie na jura, conjura, das mulheres que geram o que bem entendem e nada dizem a ninguém, prova disso sabe ele que por quatro vezes varão gerou e saiu mandriona, senão repare-se nos seus quatro rebentos que por ordem do mais antigo para o mais novo dão pelos nomes de Josefina, Matilde, Eva e Manuela filhos de dona Margarida que muito penou por causa dessas consequências, varão é o que se pede e se desta não vier será a quinta e derradeira oportunidade para redimir o seu erro e afronta ao coronel. Esta que aqui vemos é Conceição Genoveva que já chegou ao quarto de dona Margarida e que também sabe a aflição em que está a sua senhora, não conhecesse Conceição Genoveva o empenho com que o coronel combate as noites de insónia, não conhecesse ele as suas entranhas, ela que também deu uma mandriona ao seu Alfredo, o mordomo que abriu a porta ao conde, quando este pediu um varão, mas que importa se compreendeu muito melhor que o patrão que nem homem nem mulher têm mão nisso.
Dona Margarida está deitada no centro da cama suada, com as pernas abertas e a respiração irregular, um esgar de dor atravessa-lhe o rosto que mesmo nesta hora mantém uma beleza religiosa de urna mulher pudica e de bons princípios, que cedo acabe este martírio, pensa dona Margarida, qual deles, perguntamos nós, o grande e nobre martírio do parto, que torna todas as mulheres melhores do que qualquer homem, não fossem as mulheres mães de todos os homens ou o martírio das preces e rezas não terem sido ouvidas e não dar ao seu coronel, pela quinta vez o tão desejado filho varão, a si o que de seu é, o pensamento é de dona Margarida e com ela ficará. Inácia é a parteira de serviço, formada no ofício pela vida e pelos antepassados da família, raro é o parto na terra que não seja feito pela velha Inácia cuja idade não interessa para aqui e se ela não quer que se saiba assim será respeitada a sua vontade. Respire Margarida. Respire. Descanse um pouco. É tudo como das outras vezes, fala Inácia acalmando a paciente numa voz tema e amiga, se há coisa que nunca muda é a forma de ter os filhos e nada mais simples do que simples conselhos. Tenha calma minha senhora, conforta Conceição Genoveva, pousando a bacia de água escaldada e as toalhas junto à cama. Tudo vai correr bem.
Vamos lá mais uma vez, ordena Inácia posicionando-se junto à saída, no meio das pernas de dona Margarida. Força, vá, força. E força faz dona Margarida e mais detalhes não são precisos porque disso já muito se sabe ou não fôssemos todos filhos de uma mãe e pais somos ou seremos, dependendo da história de cada um, porque nisso cada um sabe de si e decide, a não ser nos actos inconsequentes que hoje também tem remédio. Avancemos até à saída onde já Inácia tem o rebento nas mãos, de cabeça para baixo, seguro pelas pernas, dá-lhe duas palmadas fortes no rabo e solta-se o choro do recém-nascido, são todos iguais quando nascem, são todos fêmea e macho pelo choro, e preciso olhar mais, em baixo, sabem bem onde, portanto olhem e mais não se diga Porque já tudo se sabe, não há penduricalho, é fêmea portanto, e Deus livre e guarde dona Margarida de uma sova imponente preparada com requinte, mas que importa isso se acaba de pôr os olhos na bebé mais bonita que alguma vez vira, que vale uma ou mais sovas das mais imponentes, que venha o coronel com o seu chicote ou com o seu cinto, que a prenda à cama e que lhe bata porque nada equivale o vislumbre de um ser como aquele, que emana uma aura de paz, tranquilidade e beleza e que é sua, só sua, saída de si, e que vale todas as horas de sofrimento e de asco no quarto com o coronel, nas suas intermináveis investidas sexuais onde repetia aos solavancos, suado e sujo, é para o macho, aqui vai macho, toma macho, e que ela recebia sabendo que seria o que Deus quisesse, mas que desejava que o fosse, no fundo do seu coração, para não ter de o ouvir, mas agora o mal está feito, da afronta já não se livra, nem do desrespeito a que, pela quinta vez, submete o coronel a submetê-la ao castigo, mas, pela terceira vez, nada disso importa, porque a pequena, com apenas alguns minutos de vida, vale tudo isso por razões que a ela e não só a ela dizem respeito e mais não se falará disso por agora». In Luís Miguel Rocha, Um País Encantado, Planeta Editora, Lisboa, 2005, ISBN 972-731-176-8.

Cortesia de Planeta Editora/JDACT

D João II. As Sombras. Jorge S. Correia. «Os cativos foram muitos, cerca de cinco mil, entre eles duas mulheres e um filho do sultão que veio a dar muito jeito a Afonso V para permutar os ossos do tio Fernando, há mais de trinta anos pendurado na fortaleza da cidade de Fez»

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Sonho. Glória. Poder e Intriga.
«(…) Também o seu adestramento em matar bem de todas as maneiras lhe foi ministrado pelos mais experientes homens de armas, especialistas em degolar mouros na terra deles e porem-se a fugir sem serem apanhados. Ensinaram-lhe como devia pegar nas armas, o modo de manejá-las, de que forma pesavam menos e matavam mais. O príncipe devia conhecer também os diversos tipos de armamento: maças, punhais, espadas, lanças, bestas (não confundir com as cavalgaduras), arcabuzes e artilharia pesada, mais as indispensáveis manhas, muito úteis para quem tem de matar para não morrer. Cavalgar é preciso, e um príncipe sem se aguentar bem na sela é como um pião, rodopta, arrasta-se e assenta na terra, e, sendo assim, nada melhor do que começar por ler o livro que o seu avô Duarte escreveu: Livro de Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela, onde o segundo rei da segunda dinastia descreve, com experiência e saber próprios, a forma como um bom cavaleiro deve atacar o adversário e a postura que deve tomar quando a passo ou a trote deslumbra a assistência nos torneios e cerimónias sociais. Para que não faltasse nada na educação do príncipe, o rei seleccionou moços para crescerem com ele, dividirem ensinamentos e artimanhas, desde as mais frívolas brincadeiras às menos confessáveis. Este expediente viria a tornar-se muito útil no percurso de João, pois fomentou amizades e lealdades que perduraram depois por toda vida.
Caso arrumado. O príncipe iria matar mouros, fazer crescer Portugal à beira do Atlântico marroquino, e nem era necessário o pai estar com tantos receios, porque o jovem, protegido pela impenetrável armadura, só se caísse ao mar é que poderia ir ao fundo e afogar-se. Assim sendo, João deixou a esposa a crescer e foi na armada que iria assaltar Arzila. Em 15 de Agosto de 1471, a armada zarpou de Lisboa fazendo a viagem em cinco dias, todos muito quebrados e enjoados dos balanços dos navios quando chegaram defronte das muralhas da cidade. Desta vez Afonso V pôs todo o cuidado na táctica. Enviou à frente espiões para tirarem as medidas à cidade. Pero Alcáçova e Vicente Simões, disfarçados de negociantes, misturaram-se com a população para estudar a melhor forma de ludibriar os mouros: mediram as muralhas, o número de portas, aquelas que mais expostas estavam, as zonas da cidade onde o poder político e militar muçulmano se reunia, a melhor localização para desembarcar e atacar a cidade. Diante das muralhas, uma frota com mais de quatrocentos navios, entre caravelas, barcas, fustas, navetas, trazia dentro de si cerca de trinta mil combatentes. Como no reino não havia toda essa mão-de-obra especializada no manejo de armas, o rei viu-se na necessidade de gastar o ouro que já nessa altura vinha do Golfo da Guiné para contratar uma chusma de mercenários à procura do saque e da aventura.
Assim que chegaram, logo se viu que as dificuldades eram maiores do que aquelas que os dois espiões tinham relatado. A imprevisibilidade é um factor que deve ser sempre considerado, e, por isso, quando a armada começou a desembarcar, o mar agitado e as rochas que formavam pequenos estreitos diante da fortaleza fizeram das suas. Antes mesmo de pegarem fogo às bombardas, foram ao fundo mais de duzentos combatentes, entre estes, bons fidalgos, escudeiros e cavaleiros, sendo que a maior parte era gente de pé. Com tanta tralha em cima, era como se lhes pusessem pedregulhos nos pés. Mas não há como ter coragem. Diante de tais dificuldades, os que desembarcaram, e foram muitos, puseram logo os canhões a lançar bojardas sobre as muralhas, fazendo-lhes buracos tão largos como portas abertas para o interior da cidade. Estava na hora do tiro ao mouro. Os arremessos continuaram, com os artilheiros a abrir caminho para os espingardeiros e arqueiros fazerem a parte que lhes competia, desfechando as suas munições sobre os locatários. No dia 24 já o representante do alcaide propunha tréguas. Nem pensar, as súplicas não lhe valiam de nada. Nesse mesmo dia a cidade foi tomada pelo exército cristão, trinta mil homens valentes dispostos a perseguir e matar todo o mouro que gesticulasse. Afonso V por seu lado, fazia diante do filho demonstrações de valentia. Quando Álvaro Castro, conde de Monsanto, levou com um calhau em cima, a armadura encarquilhou tanto que não lhe valeu de nada ser corajoso. Um fidalgo de tanta firmeza, leal como poucos, morre-me aos pés, protestava o rei cheio de dó. Depois, dirigindo-se ao filho, incentivou-o. Vede, meu filho, como a coragem nem sempre é compensada. Mas é preciso prosseguir, mostrar aos hereges que não retrocedemos nem perdoamos aos que ofendem a nossa santa religião (?).
Entretanto espalhou-se a notícia de que havia na cidade oitenta mil dobras de ouro, o que acicatou ainda mais a soldadesca. Arrasavam casas, partiam objectos, paredes, revolviam arcas, matavam quem se opunha. Incentivados por Afonso V, um rei esbanjador, foi-lhes permitida a escala franca (todos os despojos de guerra são permitidos sem regras ao vencedor) e o soberano nem sequer reclamou o quinto que lhe pertencia por direito. O que ele não dispensava era a tomada de reféns. Quando os assaltantes chegaram ao Al-Ksar (designado como palácio fortificado com funções político/militares, podendo ser também castelo fortificado ou residência real) e à volta da mesquita, a luta foi sangrenta. Terão morrido cerca de dois mil combatentes mouros, tantos que o príncipe João, para provar ao pai como tinha participado na razia, mostrou-lhe a espada retorcida. Os cativos foram muitos, cerca de cinco mil, entre eles duas mulheres e um filho do sultão que veio a dar muito jeito a Afonso V para permutar os ossos do tio Fernando, há mais de trinta anos pendurado na fortaleza da cidade de Fez. O lado mais feliz da missão ocorreu quando o rei libertou cinquenta cativos portugueses, que tinham sido aprisionados anos antes, permitindo-lhes voltar ao reino, e se a oportunidade chegasse, regressar à luta para serem cativos outra vez ou mortos a pelejar». In Jorge Sousa Correia, As Sombras de D. João II, Clube do Autor, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-724-155-0.

Cortesia de C. do Autor/JDACT